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A PERVERSÃO DOMESTICADA BDSM e consentimento sexual


BRUNO ZILLI

A PERVERSÃO DOMESTICADA BDSM e consentimento sexual


© Bruno Zilli, 2018 © Papéis Selvagens, 2018

Coordenação Coleção Stoner Rafael Gutiérrez, María Elvira Díaz-Benítez Capa e diagramação Martín Rodríguez Imagem de Capa José Miguel Nieto Revisão Wendy Campos

Conselho Editorial Alberto Giordano (UNR-Argentina) | Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero González (UFRJ) | Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha (UNAL-Colômbia) | Jeffrey Cedeño (PUJ-Bogotá) Juan Pablo Villalobos (Escritor-México) | Luiz Fernando Dias Duarte (MN/UFRJ) Maria Filomena Gregori (Unicamp) | Mônica Menezes (UFBA) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG)

Zilli, Bruno, 1982A perversão domesticada: BDSM e consentimento sexual / Bruno Zilli. - Rio de Janeiro (RJ): Papéis Selvagens, 2018. 128 p. : 16 x 23 cm - (Stoner; v. 5)

Bibliografia: p. 119-124 ISBN 978-85-92989-14-9

1. Antropologia. 2. Fetichismo (Comportamento sexual). 3. Sadomasoquismo. I. Título. II. Série CDD 306.77

[2018] Papéis Selvagens papeisselvagens@gmail.com papeisselvagens.com


Sumário

Lista de Abreviaturas e Siglas Prefácio por Jane Russo

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Apresentação 15

Introdução 25

Capítulo I Emergência das categorias “sexualidade” e “perversão sexual” 29 História da medicina ou história da sexualidade? 30 História da sexualidade 32 História da ciência das perversões 37 A síntese psiquiátrica-sexológica de Krafft-Ebing 39 O domínio psiquiátrico das perversões 44 Freud e a mudança de significados da “sexualidade” e das “perversões” 46 As perversões pós-psicanálise 51 Capítulo II Discurso científico sobre o sexo no século XX A Sex-Research norte-americana e a “nova sexologia” A redefinição psiquiátrica das perversões

55 55 65

Capítulo IV Consentimento e legitimação Características do discurso “Manual” BDSM As atividades e a comunidade BDSM

87 88 91

Capítulo III A internet como campo de pesquisa 73 A internet, novas formas de sociabilidade e metáforas do ser 74 Virtualidade 76 O Hipertexto 79 Metodologia do levantamento, seleção e classificação de dados para análise 81


A “cena” e seus “personagens” 91 Os jogos 94 Diversidade sexual e legitimação: o São, Seguro e Consentido e a regulação através da comunidade 95 Diálogos com o “campo PSI” 100 Categorias sobre a subjetividade 100 Psiquiatria e consentimento 102 Considerações finais

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Referências bibliográficas

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Agradecimentos 117

Anexo 125


Lista de Abreviaturas e Siglas

APA – American Psychiatric Association (Associação Psiquiátrica Americana) a.s.b. – alt.sex.bondage (uma lista de discussão on-line)

BDSM – Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo & Masoquismo CID – Classificação Internacional de Doenças

DSM – Diagnostic And Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — Publicado pela APA)

DSM I, DSM II, DSM III, DSM IIIR, DSM IV, DSM IV-TR e DSM 5 – Indica a Edição do DSM DSM IIIR – DSM Terceira Edição Revisada

DSM IV-TR – DSM Quarta Edição Texto Revisado

DSM 5 – A quinta edição adotou numerais arábicos no lugar dos romanos FAQ – Frequently Asked Question (Perguntas Frequentes)

NCSF – National Coalition for Sexual Freedom (Coalizão Nacional pela Liberdade Sexual) OMS – Organização Mundial de Saúde

RACK – Risk Aware Consensual Kink (Perversão Consensual Ciente de Risco) SSC – São, Seguro & Consentido; ou Sadio, Seguro e Consensual


Prefácio Jane Russo Instituto de Medicina Social – UERJ O trabalho de Bruno Zilli, “A perversão domesticada”, fruto de sua dissertação de mestrado no Instituto de Medicina Social da UERJ, foi pioneiro em vários sentidos. Em primeiro lugar por ter tomado como objeto uma “perversão” até então pouco estudada, embora bastante presente na cultura popular e no senso comum de modo geral – o então chamado “sadomasoquismo”, ou o par “sadismo” / “masoquismo” – que faziam (e ainda fazem) parte do vocabulário usual, designando pessoas, comportamentos ou eventos os mais variados, sem necessariamente remeter a uma ideia de patologia. Ou seja, tal como “depressão” ou “histeria”, compõe aquele conjunto de categorias diagnósticas vindas da psiquiatria que passam a ser usadas como moeda corrente nas conversas cotidianas, seja para descrever algum mal-estar em si, seja como forma de acusação dirigida a outras pessoas, seja como modo de compreender comportamentos de um modo geral. Um professor excessivamente rigoroso (ou um oficial nazista) é um “sádico”, uma mulher que sofre por amor (ou um funcionário que se submete a exigências sobrehumanas) é um(a) “masoquista”. De onde vieram essas categorias de classificação, inicialmente voltadas para os desvios da vida sexual, e que vicissitudes sofreram no decorrer da sua história? Como se dá essa viagem desde os manuais de psiquiatria de meados do século XIX, passando pela difusão entre o senso comum, até os sites BDSM1 visitados por Bruno já no início do século XXI? É sempre a mesma coisa que está em jogo? O sadismo/masoquismo de Krafft-Ebing é o BDSM que hoje conhecemos? O trabalho de Bruno visa justamente desenrolar esse novelo histórico, seus nós e suas transformações, demonstrando como Como nos ensina Bruno: B é para bondage, ou imobilização, o par B e D para bondage e disciplina, o uso de fantasias eróticas de castigos e punições; que ligamse ao par D e S, que representa dominação e submissão. O par S e M representa sadismo e masoquismo, ou sadomasoquismo – o uso de dor como estímulo erótico. 1


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categorias diagnósticas têm um efeito relevante na produção e transformação de comportamentos e subjetividades. Classificações criam realidade. Mas, como aprendemos com Ian Hacking, há um efeito looping pelo qual a realidade age de volta sobre as classificações. Ou seja, as pessoas classificadas transformam as classificações e criam outras. É disso que tratou Bruno em sua dissertação. Trabalhando dentro de um projeto mais amplo, que dizia respeito à sexualidade nas classificações psiquiátricas, Bruno debruçou-se sobre o surgimento das então chamadas perversões sexuais na psiquiatria e acompanhou suas metamorfoses no decorrer do século XX. Como Foucault argumentou em História da sexualidade, a primeira scientia sexualis voltou-se para as práticas periféricas ao casamento/procriação. É o que ele chamou de “movimento centrífugo em relação à monogamia heterossexual”. Os códigos que regiam as práticas sexuais – o direito canônico, a pastoral cristã, a lei civil – dão paulatinamente lugar a uma ciência sexual: “um imenso aparelho para produzir verdades sobre o sexo e que se apoiou em diversas instituições, redes de saber e atores sociais”, sendo a medicina e a psiquiatria núcleos fundamentais em tais redes. A partir dessa “colocação do sexo em discurso” os atos sexuais passam a ser vistos como expressão de uma fonte interior, de uma dimensão interna dos indivíduos. Assim é que o estudo e a especificação das “sexualidades aberrantes” significou a extração de um saber sobre o indivíduo e seus prazeres mais recônditos. Importante lembrar que era exatamente a busca do prazer pelo prazer que distinguia as “aberrações” da sexualidade conjugal, essa voltada para a procriação e para a transmissão de nomes e bens. O foco nas sexualidades periféricas e “contra a natureza” é, portanto, o prazer, o desejo. Esse foco no prazer, e na sexualidade como núcleo da verdade do sujeito, acaba por se difundir, recobrindo a sexualidade “normal” do casal heterossexual. Como nos ensina André Béjin em sua discussão sobre a sexologia do século XX, a busca do prazer – no caso o orgasmo – passa a ser o fundamento da nova ciência da sexualidade. Daí para uma normalização do que se chamava “perversões” é um passo. Esse passo já foi dado? A comunidade BDSM que Bruno estuda insere-se nesse movimento? Essas são questões que seu trabalho suscita e ajuda a pensar.


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Para tanto, Bruno nos conta a história desses personagens que tomam corpo através da literatura médica – os perversos – começando com o manual clássico de Krafft-Ebing, responsável pelo “lançamento” das perversões no mundo médico e por sua classificação que resiste praticamente incólume até os dias atuais, passando pelos primeiros sexólogos da virada do XIX para o XX, pela sex-research norte-americana conjugada à nova sexologia do pós-guerra e, last but not least, pelas diferentes versões do DSM (Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders, publicados pela American Psychiatric Association). Outro pioneirismo de seu trabalho está no campo escolhido. Sua imersão no mundo BDSM ocorreu através da internet, uma seara de pesquisa que se revela cada vez mais rica. Investigando com argúcia e sensibilidade, Bruno nos revelou um mundo razoavelmente regrado em que uma importante pedagogia deve ser transmitida para os recém-chegados calcada em valores morais incisivamente afirmados. A noção de consentimento é sem dúvida o pilar máximo desses valores, implicando o respeito ao outro e aos seus desejos. Ou seja, o que conta para definir a “normalidade” ou a “sanidade” de uma relação sexual nada tem a ver com o gênero dos sujeitos envolvidos, ou com o tipo de prática realizada. O que conta é o consentimento de quem participa, ou seja, a expressão da vontade individual. A pesquisa de Bruno nos leva de volta a Foucault, à história de como a sexualidade se converteu no núcleo da verdade do sujeito. Cabe a cada um de nós desvendar, no âmago de nós mesmos, o desejo verdadeiro. A scientia sexualis se torna uma verdadeira ciência do sujeito – como de fato ocorreu com a psicanálise. Para além da psicanálise, porém, as novas comunidades reunidas em torno de práticas antes condenadas (ou ao menos ocultadas e motivo de vergonha), proclamam aos quatro ventos a liberdade de viver sua sexualidade livremente, contanto que o desejo de todos e cada um seja respeitado. Bruno nos mostra a preocupação da comunidade BDSM com a legitimidade de suas práticas e com sua sanidade. Não apenas rejeitam a proximidade com qualquer patologia, mas dialogam com a psiquiatria, especificamente o DSM, de modo a sustentar seu “bom mocismo”. Vê-se, portanto, que, além da afirmação do prazer e da liberdade sexual, a preocupação com a saúde, com ser considerado saudável, é fundamental.


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Como sempre os sujeitos classificados têm uma ação de retorno sobre o agente classificador. De fato, o diálogo com as diversas comunidades formadas em torno de doenças ainda não reconhecidas ou de condições que rejeitam o rótulo de patologia foi a marca da produção da última versão do DSM. E a comunidade dos “parafílicos”, que de fato não compõem um grupo de pressão política no sentido estrito do termo, conseguiu uma vitória importante: as chamadas “parafilias” (como o DSM denomina as antigas perversões), se praticadas por adultos, com consentimento mútuo, sem sofrimento para si ou para outrem, deixaram de ser classificadas como transtornos mentais. As palavras de ordem da comunidade BDSM – são, seguro e consentido – revelaram-se a própria base da nova classificação. É sadio porque é seguro e consentido. O trabalho de Bruno, desbravando o mundo dos praticantes de BDSM, nos revela assim como as “espirais de prazer–poder” de que falava Foucault operam hoje em dia, não apenas articulando as obsessões do sujeito contemporâneo com o sexo e a saúde, mas mantendo com as concepções médicas uma relação de atração e repulsa que somente uma etnografia refinada como a sua consegue captar.


Apresentação Quando comecei a preparar a publicação deste livro, originalmente minha dissertação de mestrado, defendida em 2007, minha preocupação foi se a pesquisa não estaria datada demais. Gosto muito deste trabalho, e de fato em minha trajetória posterior voltei continuamente, de uma forma ou de outra, a temas que ele suscita. Tentar responder à questão sobre sua atualidade foi um processo de amadurecimento, reconhecimento e, devo dizer, até de valorização acerca da contribuição que os resultados da minha análise poderiam oferecer. Mais uma vez (e sempre) foi a orientação de Jane Russo que me deu impulso e fôlego, assim como no momento da escrita original da dissertação. Em 2005 eu ingressara no Programa de PósGraduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social – IMS, da UERJ, sob a orientação de Jane. Essa era, então, a consequência lógica de um processo de iniciação e formação na vida acadêmica. Em 2000, no meu segundo semestre de graduação em Ciências Sociais na UERJ, eu tinha começado minha iniciação científica numa pesquisa que Jane conduzia sobre o campo psiquiátrico contemporâneo. Na época do mestrado, a temática da sexualidade havia adentrado nossas discussões, em grande medida pelo contexto do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos – CLAM, sediado no IMS, de cuja fundação Jane participou em 2002. Foi assim que uma pesquisa sobre o discurso psiquiátrico acerca da sexualidade começou a ser delineada. Mas por que o sadomasoquismo? Por algum tempo eu mesmo tive dificuldade de precisá-lo. Em grande medida esse objeto suscita uma série de desdobramentos temáticos particularmente instigantes para o debate sobre a sexualidade, os direitos sexuais e sobre a saúde mental. E é neste sentido que acredito que esta pesquisa, mesmo anos após a sua escrita, pode ainda ser uma leitura interessante e oferecer contribuições instigantes. Essas se concentram especialmente em três eixos: 1) os debates sobre o consentimento como importante categoria legitimadora da “boa” sexualidade contemporânea, central para os praticantes de sadomasoquismo, e que encontra eco tanto no discurso psiquiátrico sobre a sexualidade quanto nos debates sobre violência sexual; 2) os próprios critérios pelos quais


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a psiquiatria vem definindo as patologias sexuais; e 3) embora não tão diretamente (ou obviamente) conectado aos outros dois pontos, o desenvolvimento da internet como um campo de pesquisa social. Quando desenhava o projeto de pesquisa que deu origem a este livro, eu tinha familiaridade com as classificações de doença mental da psiquiatria e com reflexões sobre o discurso médico e a medicalização da sexualidade, mas pouco conhecia sobre o sadomasoquismo na forma das práticas BDSM. Estava ciente apenas das categorias psiquiátricas então denominadas parafilias – termo que designa os transtornos sexuais nos quais se encontram classificados os comportamentos associados ao sadomasoquismo. No contexto das pesquisas com Jane, o objeto de nossas investigações acerca do campo psiquiátrico havia sido o manual publicado pela Associação Psiquiátrica Americana – APA, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conhecido como DSM,2 em grande parte por sua centralidade no discurso hegemônico da psiquiatria contemporânea. Seu conteúdo influenciou a seção sobre transtornos mentais da Classificação Internacional de Doenças – CID da Organização Mundial de Saúde – OMS, e possui traduções em português. A psiquiatria foi a especialidade médica responsável por descrever as parafilias, no século XIX, como comportamentos considerados em alguma medida patológicos e associados ao sadismo, ao masoquismo e ao fetichismo. Sob a mesma lógica classificatória e dividindo a mesma origem histórica encontra-se também a pedofilia, transtorno sexual que representa e encarna esse grande “monstro contemporâneo” (como retratado por Lowenkron, 2015). O fato de tais categorias dividirem o mesmo espaço classificatório não é inócuo, nem de um ponto de vista analítico, e muito menos do ponto de vista dos praticantes de BDSM que me propus a estudar. Distanciar-se do tipo de monstruosidade representada pela pedofilia é fundamental para este grupo. Na minha pesquisa, adotei o DSM como fonte do discurso psiquiátrico a ser comparado com o discurso que visa legitimar o sadomasoquismo. Na psiquiatria estes comportamentos apareciam com uma nomenclatura quase inalterada em relação ao seu

Siglas no original em inglês, como são mais conhecidas: American Psychiatric Association (APA) e Diagnostic-Statistic Manual of Mental Disorders (DSM). 2


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surgimento no século XIX, especialmente na forma das categorias Sadismo Sexual, Masoquismo Sexual e Fetichismo, bem como Pedofilia. Embora ainda classificadas como parafilias, entendidas como um tipo de Transtorno Sexual, a compreensão do significado destas categorias passou por modificações desde sua origem, o que é abordado nos capítulos 1 e 2 deste livro, que apresentam ainda as continuidades que permaneceram em cada iteração destas nosologias. Foi parte dos resultados de minha pesquisa entender a necessidade de inserir lógicas classificatórias e atribuir valores distintos aos fenômenos sexuais, e que a categoria consentimento exerce o papel de fronteira delimitadora entre a sexualidade legítima e a ilegítima (seja patológica e/ou criminosa). Daí o papel fundamental do consentimento para o discurso de legitimação do BDSM. O acionamento desta categoria problematiza as práticas BDSM a partir de uma discussão sobre abuso e violência sexual e procura, assim, apaziguá-las. Buscar conhecer o que pensam sobre suas próprias práticas os adeptos do sadomasoquismo, bem como a relação que mantêm com o discurso oficial médico-psiquiátrico, foi fundamental para compreender a dimensão do consentimento como tentativa de exorcizar os espectros da violência, do abuso, da pedofilia e da monstruosidade. E então, de certa forma, transformar as antigas perversões em algo quase “banal”: domesticar a perversão. Mas o que isso tudo tem a ver com a internet e seu papel para a pesquisa social, ou mesmo para o estudo do sadomasoquismo? Foi o que eu mesmo tive que descobrir, ao tentar acessar o discurso dos praticantes de sadomasoquismo, no intuito de compará-lo com o discurso psiquiátrico ao qual eu já tinha acesso através dos manuais de psiquiatria. Por alguns motivos recorri à internet para começar a mapear o universo BDSM para minha pesquisa: além do tempo curto de um curso de mestrado, considerei o fato de não pertencer à comunidade de praticantes de sadomasoquismo no Rio de Janeiro, ou mesmo ter uma porta de entrada metodologicamente rentável, e assim me pareceu temerário enveredar por um campo etnográfico tradicional ou tentar entrevistas. Contudo, eu não estava totalmente alheio aos praticantes de BDSM. Na época eu havia retomado contato com um amigo de tempos colegiais que havia adotado a prática BDSM, e não tinha problema nenhum em falar (e bastante) sobre ela. Em conversas informais,


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mas ciente do meu interesse acadêmico na temática, meu colega se tornou uma espécie de “Doc” de minha pesquisa – como definido por William Foote Whyte (2005) em seu livro Sociedade de Esquina – aquele interlocutor “nativo” que é capaz de abrir portas, tanto sociais quanto analíticas, no contexto do trabalho de campo antropológico, seja através de indicações de contatos, seja desvelando chaves interpretativas ao tecer observações e comentários que ajudam a organizar as observações do pesquisador. Foi trocando ideias com meu colega que percebi que a internet apresentava boas opções para minha investigação, especialmente ao me indicar as listas de discussão por e-mail, descritas no capítulo 3. A partir delas, pude chegar ao site “Desejo Secreto”, principal fonte utilizada na minha análise dos esforços de legitimação do BDSM. Assim, ficou patente que a internet não seria mera alternativa metodológica, mas um importante campo de ação e pesquisa social, e uma ferramenta central para a conjugação do discurso BDSM – em particular para seu diálogo com a psiquiatria, que me interessava especialmente. E um novo campo a ser desbravado teórica e metodologicamente. Como pode ser constatado na leitura do texto original da dissertação, pesquisar na internet ou mesmo refletir sobre ela era uma prática ainda incipiente em 2007. E embora a própria internet tenha mudado muito desde aquele período, tornando-se cada vez mais ubíqua e regulada, em algumas áreas estudar a internet, ou através dela, ainda hoje enfrenta resistência acadêmica. Quando eu falava sobre minha pesquisa na época, e algumas vezes ainda hoje, não eram poucas as pessoas que ficavam instigadas pelo tema do sadomasoquismo, mas se mostravam um pouco decepcionadas ao descobrir que eu o estava estudando “só” na internet. Deixo indicados os capítulos de metodologia e de análise para mais acerca da virtualidade e dos levantamentos que fiz sobre o BDSM na internet, mas gostaria de chamar a atenção para o quão importante se tornou o papel da internet como instrumento que coloca em contato pessoas com interesses em comum. E também para ajudar a dar voz àqueles que são tradicionalmente marginalizados e silenciados no mundo físico – hoje, designado como off-line, em oposição ao on-line. Isto é especialmente importante para pessoas cuja identidade sexual ou de gênero escapa à norma, permitindo que se encontrem, troquem informações e desenvolvam um senso de


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pertencimento e identidade. Neste sentido, em meu trabalho original a internet despontava como uma versão contemporânea e pública da arena de debates que foi a comunicação privada de Krafft-Ebing, que cunhou os termos parafilia, sadismo e masoquismo, com os sujeitos cujos comportamentos ele buscava descrever na formulação de relatos para seu manual psiquiátrico Psychopathia Sexualis, como observado por Oosterhuis (1997), abordado no capítulo 1. Portanto, nada ocorre “apenas” na internet. A sociabilidade digital representa por excelência a continuidade entre o on-line e offline, não havendo lógica em separar um do outro como se as relações que se dão no virtual fossem menos reais do que as presencias (Lévy, 1996; Castells, 2003; Miller & Slater, 2004). Este modelo de análise das dinâmicas da sociabilidade digital mostrou-se perene e fecundo não só em minha trajetória, mas acredito que no contexto de um novo campo de reflexão acadêmica que vem sendo gestado por muitos autores e contribuições. Por isso mesmo, acredito ser necessário mencionar desdobramentos posteriores pelos quais desenvolvi a forma de pesquisar na internet que eu ainda tateava na dissertação. Foram frutíferos os encontros que tive a partir daquele passo inicial. Dentre eles destaco a instigante parceria intelectual com Horacio Sívori. Juntos, em pesquisas, disciplinas, no ativismo, concentrados na análise da fruição on-line da sexualidade, nos seus aspectos regulatórios, ou ainda no seu papel para a promoção dos direitos sexuais e da equidade de gênero e para o trabalho daqueles engajados nestas lutas, pelo menos desde 2009, Horácio e eu viemos tentando descrever e substanciar a internet como campo de pesquisa e tema correlato dos debates sobre gênero, sexualidade, regulação e liberdade de expressão. Neste sentido, observamos o uso da etnografia como compasso teórico, ético e metodológico para explorar este meio que não é delimitado pela fisicalidade e que suscita questões ligadas ao anonimato, à privacidade, à interatividade, à segurança e à informação – todos nodos centrais de importantes debates contemporâneos e que se entrecruzam também quando focamos em questões ligadas ao gênero e à sexualidade. Entendemos que os direitos a uma internet que permite a livre comunicação é um elemento importante dos direitos sexuais, e dos direitos humanos. Assim, temos objetivado colaborar para a definição de um marco para estes estudos, provocando alunos e pesquisadores para uma


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sensibilidade às especificidades da pesquisa na internet, assim como se treina uma sensibilidade antropológica. De fato, a etnografia nos parece uma resposta bastante adequada aos diversos desafios éticos e metodológicos que se apresentam para a pesquisa on-line. Tendo explorado a relação entre pesquisa on-line e a pesquisa sobre o BDSM, retorno aos demais itens anteriormente enumerados, que se encontram mais explicitamente entremeados. Começo tecendo algumas observações sobre a categoria consentimento, que se sobressaiu como tão importante em meus resultados analíticos e que, posteriormente, acabou por se provar central para uma vasta gama de temas relacionados à sexualidade. A discussão que estudei sobre o consentimento no discurso BDSM antecipava algumas noções que vem sendo amplamente discutidas, principalmente no contexto de denúncias de abuso e assédio: o consentimento sexual é algo constantemente negociado, é situacional e relacional; e mesmo uma vez dado, pode ser revogado. A discussão sobre consentimento por mim analisada já havia sido objeto de reflexão em outras análises, em especial por Gregori (2004) em seu estimulante diálogo com a crítica feminista. Há também importantes produções que foram publicadas pouco tempo depois, e que de fato estavam sendo gestadas coincidentemente e que certamente faziam parte de uma gama de reflexões e interesses de pesquisa ocorrendo de forma simultânea numa rede extensa, mas comum, na qual eu estava inserido. Destaco dentre estas produções os trabalhos de Leite Júnior (2009), Facchini (2012), Facchini & Machado (2013), Díaz-Benítez (2012, 2015) e as fases inicias do já mencionado trabalho de Gregori, cujos primeiros resultados da pesquisa sobre sex shops e sadomasoquismo foram utilizados no texto original da dissertação.3 Contudo, embora o diálogo com o contexto em que essas produções foram gestadas tenha sido parte da realização original de minha pesquisa, ela possui um caráter específico por sua localização na área da Saúde Coletiva, concentrando-se nas relações discursivas entre os adeptos das práticas BDSM e as classificações psiquiátricas. Assim, análises como a de McClintock (2003), que coloca o foco nos aspectos coloniais, raciais e de classe presentes nos jogos de poder de Para os resultados mais recentes das reflexões da autora sobre o erotismo politicamente correto, ver Gregori (2016). 3


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teor sadomasoquista vitorianos, mas não diretamente na produção do discurso médico do período, não constam na bibliografia com que dialoguei, embora já estivesse circulando em minha rede na época (ainda em inglês, antes de sua tradução no Brasil). Da mesma forma, no contexto das produções sobre saúde pública e saúde coletiva, há toda uma gama de discussões sobre as definições e limites do conceito de medicalização e suas aplicações (ver, por exemplo, Zorzanelli, Ortega e Bezerra Júnior, 2014), que permaneceram fora das discussões realizadas no trabalho original. Uma versão resumida da dissertação foi publicada na forma de capítulo na coletânea Prazeres Dissidentes, organizado por María Elvira Díaz-Benítez e Carlos Eduardo Fígari (2009), pouco após o encerramento da minha pesquisa de mestrado. Mas este acabou sendo um dos poucos desdobramentos do trabalho. Em 2008, ingressei no doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ, inicialmente com uma proposta de prosseguir desenvolvendo pesquisa sobre o BDSM, pensando na possibilidade de desdobrar a análise de seu discurso através do foco em seus ideais românticos. Contudo, acabei por alterar meu objeto temático e me distanciei dos estudos mais centrados no diálogo com a Saúde Coletiva e a Psiquiatria, que caracterizavam minha abordagem sobre o tema. Não abandonei totalmente as discussões sobre sexualidade, gênero e política sexual, trabalhando com estes temas no contexto da mobilização em trajetórias políticas e intelectuais, com o aporte da antropologia das emoções, sob a orientação de Maria Claudia Coelho (Zilli, 2012). Mais recentemente, contudo, voltei ao tema das classificações psiquiátricas em minha pesquisa de pós-doutorado, discutindo também as categorias ligadas à identidade de gênero e às disfunções sexuais. Realizada com Jane Russo no Instituto de Medicina Social entre 2014 e 2015, a investigação analisou as transformações terminológicas, descritivas e classificatórias dos transtornos da sexualidade como especificados pela psiquiatria americana na versão mais recente do DSM, publicada em 2013, o DSM 5. Mais uma vez recorri ao DSM para analisar as mudanças epistemológicas do campo psiquiátrico e suas modificações nas concepções acerca da sexualidade humana – as definições sobre o que representa patologia sexual, e os limites que esta guarda com a normalidade.


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A principal modificação introduzida no DSM 5, no que diz respeito a este livro, reflete um aprofundamento do uso das noções de dano e risco, correlatos ao uso da ideia de consentimento, na descrição dos critérios diagnósticos. Neste sentido, esta edição do manual guarda continuidade com as alterações que já vinham sendo indicadas nas versões anteriores, analisadas na minha dissertação, e evidencia a interpenetração entre o discurso psiquiátrico e o discurso político mobilizado pelos praticantes de BDSM, legitimando atos sexuais através do consentimento. Assim, observamos um paulatino processo de despatologização das parafilias, que continua em curso no DSM 5, cujas classificações refletem ainda a influência de outros campos e disciplinas na psiquiatria. Este conjunto forma um corpus de saberes e discursos sobre a sexualidade onde estão presentes também outras especialidades médicas, bem como saberes psicológicos e sexológicos, e representações advindas do campo político identitário. De fato, a psiquiatria vem perdendo sua posição como única detentora legítima dos fenômenos da sexualidade tradicionalmente entendida como desviante, uma vez que estes vão sendo mais e mais descaracterizados como objetos estritamente médicos. A categoria consentimento, central neste processo, mais do que dividir os discursos, os une numa concepção acerca do que deve ser a sexualidade legítima – sempre consentida. Para a publicação deste livro procurei preservar o texto original da dissertação, salvo revisões e informações acrescentadas: no capítulo 2 inclui comentários sobre a recaptura da disciplina sexológica pela medicina, desenvolvimento mais recente ocorrido nos últimos anos (ver Russo, 2013); ainda no capítulo 2, e na última seção do capítulo 4, também acrescentei informações sobre o DSM 5. Por fim, para facilitar a leitura do texto e levando em conta que o site pesquisado, “Desejo Secreto”, não se encontra mais disponível na internet,4 escolhi retirar os links que eu havia disponibilizado originalmente, indicando apenas as seções que organizavam o site em que o conteúdo citado se encontrava. Espero que a leitura deste trabalho possa contribuir para um Contudo, o conteúdo de Desejo Secreto ainda pode ser encontrado em <https:// senhorverdugo.com/bdsm-e-afins/435-site-desejo-secreto.html>. Acessado em março de 2018. 4


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diálogo nuançado acerca das práticas BDSM, do consentimento, para a pesquisa que tem a internet como campo e para os estudos sobre a sexualidade. Referências Bibliográficas Castells, Manuel. 2003. A Galáxia da Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Díaz Benítez, Maria Elvira. 2015. “O espetáculo da humilhação, fissuras e limites da sexualidade”. Mana, v. 21, pp. 65-90. ____. 2012. “Sexo com animais como prática extrema no pornô bizarro”. Cadernos Pagu, v. 38, pp. 241-279.

Facchini, Regina. 2012. “Comunidades imaginadas: um olhar sobre comunidades políticas a partir de mulheres que se relacionam com mulheres no meio BDSM”. Pensata: Revista dos alunos do Programa de PósGraduação em Ciências Sociais da UNIFESP, v. 1, pp. 6-25. Facchini, Regina & Sarah Rossetti Machado. 2013. “‘Praticamos SM, repudiamos agressão?: classificações, redes e organização comunitária em torno do BDSM no contexto brasileiro”. Sexualidad, Salud y Sociedad – Revista Latinoamericana, n.14, pp.195-228. Gregori, Maria Filomena. 2004. “Prazer e perigo: notas sobre feminismo, sex-shops e S/M”. In: M. F. Gregori, A. Piscitelli, S. Carrara (orgs.), Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. Rio de Janeiro: Garamond, pp. 235-255. ____. 2016. Prazeres Perigosos. Erotismo, Gênero e Limites da Sexualidade. São Paulo: Companhia das Letras. Leite Jr., Jorge. 2009. “A pornografia ‘bizarra’ em três variações: a escatologia, o sexo com cigarros e o ‘abuso facial’”. In: M. E. Díaz-Benítez & C. E. Figari. (orgs.). Prazeres dissidentes, Rio de Janeiro: Garamond, pp. 509-536. Lévy, Pierre. 1996. O que é virtual? São Paulo: Editora 34.

Lowenkron, Laura. 2015. O monstro contemporâneo: a construção social da pedofilia em múltiplos planos. Rio de Janeiro: EdUERJ.


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Miller, Daniel & Slater, Don. 2004. “Etnografia on e off-line: cibercafés em Trinidad”. Horizontes Antropológicos, ano 10, n.21, pp.41-65.

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A perversão domesticada (preview)  

A Perversão Domesticada analisa o discurso BDSM — sigla para práticas sexuais que envolvem dominação, submissão e sadomasoquismo —, tal como...

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