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DIZER-VER/A/CIDADE: ou abrir os olhos para os rastros (de uma cidade numa poética)

Caderno-ensaio de Dércio Braúna, Historiador, Poeta e Guia de Turismo [1]


A cidade, aterro ∞: limpo é o pixo acidade, PROIBIDO COLOCAR LOCAL NESTE LIXO [2]


DIZER-VER/A/CIDADE: ou abrir os olhos para os rastros (de uma cidade numa poética) Dércio Braúna I. Por princípio “Nasci cresci existo / na cidade” (Acidade, p. 21), escreve um [ou um outro?, quantos outros no um?] insabido poeta. Monumento máximo da civilização contra a natura, a cidade é hoje toda a paisagem. É a pedrura (o marco, a marquise, a tumba) sob que jaz, ela: “a paisagem jaz”. A cidade avança, “demente”, “acidamente” (Acidade, p. 34). Eis a cidade que se me abre, que aqui espreito. Mas antes de avançá-la, de me ir cidade a dentro, assento e assevero, de já, uma insabência: tudo que aqui vai em escrita é desassossego habitado pela poética de páginas desnomeadas, desautoradas, desindividualizadas. A escritura donde parto desconhece seus deuses-senhores, não sabe a raiz de seu princípio uno e veraz. A escritura donde parto tão só se intitula: Acidade. Sem saber se verdade proclama, diz-se um livro “ataviado, duro que nem a cara do Van Gogh”. Mas nisso não há que por fiança, afinal é inscrição em falsa orelha (“isto não é uma orelha”). De indício ou sinais, tão só duas parcas linhas apostas abaixo da indicação de “entrada gratuita”, em que se lê, “Carlos Nóbrega & O Poeta de Meia-Tigela”. Raiz do veraz? Autenticado selo do uno? Não creio. Quem se há de fiar em signos que tanto podem costurar para o vero como descoser para o fictio? Excessivo desconfiamento? Não creio, segundamente. Mesmo apesar da “Fortuna (unicamente) crítica dos Autores”, assinada por canônicos nomes, como: Hamlet, Conan da Ciméria, Adrian Loverkühn, Branca de Neve, Camilo Castelo Branco, Branquinho da Fonseca, coro de crianças, o Chapeleiro Maluco; mesmo apesar da inquestionável envergadura desses nomes, que certezas afiançar sobre o eu cada qual dos ditos autores e suas [3]


obras monumentais?: O Quanto Sou; Lápis Branco; Breviário, entre outras, d’O Poeta de Meia-Tigela; Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas; Concerto nº 1nico em Mim Maior para Palavra e Orquestra. Poema; Miravilha – Liriai o Campo dos Olhos, e mais outros, de Carlos Nóbrega (Acidade, p. 155). Acidade, em sua corrosilírica escritura, dissolve esses totens, pulveriza esses tabus. É qual dissessem, as páginas suas contidas sob uma desnomeada capa: Chamo-me tal (um nome, qualquer, serve), “não como próprio, mas em locação.” “Meu verdadeiro nome, o único pessoal e autêntico, eu não conheço e o esqueceria se conhecesse. Não posso, então, assiná-lo”. Em lugar de um próprio (uma propriedade), um “nome locativo, signo arbitrário e leve, ou seja, suave.” “Suave, isto é, aéreo e volátil. Suave, isto é, desnorteado e frágil. [...] Suave, pacífico. Suave, miserável e sem lugar.” (SERRES, p. 109-110). Recusa[m?] o[s?] insabido[s?] poeta[s?] “a domesticar com a suavidade aparente de um nome” (TAVARES, 2010, p. 21) o que quer que seja, sobretudo um “aparente” eu. Nada a “de-finir” – “definição” significa “finir, acabar” (TAVARES, 2015, p. 60). Que o eu se insaiba, pois! Isto dito, resta então não mais que se embrenhar às cegas, sem bússola ou infalível googleidentitáriomaps, pela estranhacidade de insabido[s?] poeta[s?]. E não só sua[s?], há que se dizer. Acidade – a estranhacidade que é –, em suas rotas e tráfegos, cartografias e descaminhos, é ainda habitada por outridades outras, por outroeus. A suas páginas, vêm também oficiar mãos femininas. Por primeiras, ao umbral da estranha urbe, temos a poética arrebatada de Bárbara Costa Ribeiro, a dizer seu bem-vir a essa “aldeia que não tem paciência / Para as árvores”, na qual, ainda assim, deixamos estar-em-existir “nossos corações feridos / Agora rejuntados” (Acidade, p. 13). Outras mãos a tatear o estranho lugar d'Acidade são as de Lia Lê Santos, infiltradora de prosaicos breus e fronteiras no corpo tenso da poética. Ditas todas as mãos e outridades, sigamos, pois, agora. [4]


II. Dos restos que nos dizem Estranhacidade: uma cidade “onde nós [que nós?, quem aí está nesse ser múltiplo, pergunto eu que ora escrevo] gozamos / o apocalipse do dia-a-dia (Acidade, p. 21). Uma “cidade estranha que ousa / ser nadamente não-cousa” (Acidade, p. 125), mas uma “nãocousa” que ousa ser, em sua demência, alguma espécie de aturdente “poema concreto” em meio ao caos do qual se pergunta, o[s?] insabido[s?] poeta[s?], “onde o eu lírico?” (Acidade, p. 56). Pode a lira existir no corpo invívido do concreto? Pode o concreto armado-mudo da cidade dizer mais além de sua dura matéria? Pode falar uma cidade? Que gramática autoriza sua língua? Que pode dizer esse lugar em que “usura e caridade” se atropelam “no mesmo espaço para poupar metro quadrado” (TAVARES, 2006, p. 74)? Pode haver poesia nesse monumento contundente de civilização? Civitas: é donde dizem descender, raiz encarquilhada em bom e empoeirado latim, o nome que designa o corpo-caos da coisa. E, mais dizem, que originariamente referia-se à condição e ao direito de ser cidadão. (Condição e direito: vejam-se os tempos! E que se me perdoe a intromissão!) Pois eis que por sobre o todo morto tempo – do latim quando ainda vivo até esta maquinaria em que escrevo – a cidade devorou a paisagem, carcomeu o vasto mundo. Tornou-se “absoluta ilha” (Acidade, p. 67): “uma ilha de pedras / cercada de fé.rros / cimento massa e / aço por todos / os lados em / concretos / armados” (Acidade, p. 68). Uma imensa, gigantesca arma de poluição em massa. Comecemos, pois, por aqui. “Como os seres vivos habitam um determinado lugar? Como o estabelecem, como o reconhecem?” Como o marcam? Diz-se que marcar é verbo que “tem origem na marca que os pés deixavam na terra” (SERRES, p. 11-13). Isto no tempo dos tempos, bem sabemos. Mas nos tempos em que habitamos, nesse tempo voraz da cidade em que “qualquer notícia é de ontem” (Acidade, p. 86), como [5]


habitamos? Como marcamos uma terra que já não há? Como dizemos existência no lampejo do eternamente efêmero? Habitamos possuindo: “habito, logo tenho” (SERRES, p. 20); habitamos deixando restos: tenho, logo descarto: “nos soms / a civilazão do lixo / tudo qu fazmos / gera lixo” (Acidade, p. 28). Exagero de insabido[s?] poeta[s?]? A fiarmo-nos nas palavras dos homens de cientificado saber, não. Diz/pergunta certo senhor historiador: “O lixo, não estariam nele documentos históricos? [...] Se o tempo do progresso articula-se necessariamente com o verbo descartar, qual o critério do descarte?” (RAMOS, p. 97) Como pensar, pergunta-nos outro senhor, este do saber filosófico, “as gigantescas descargas de restos, cuja ignomínia apõe sua assinatura nas cidades grandes”? Para este notório senhor, foram estas “gigantescas descargas de restos” (SERRES, p. 59) os “fundamentos esquecidos do direito de propriedade”:

“[...] pela urina, pelo sangue, pelo esterco, pelos cadáveres e também pelo esperma, os restos corporais serviram à apropriação dos lugares; a etologia animal, a antropologia, a história das religiões, a sexologia, o velho direito privado... tudo isso confirma essa análise e permite a compreensão de diversos fundamentos esquecidos do direito de propriedade. Lembro que, com origem religiosa e médica, a palavra poluição, de início, significou a profanação dos lugares de culto por dejeções [...].” (SERRES, p. 49)

Assim como nos animais, “o que está ao redor do Homem o aponta como centro”, é assim que ele se faz “possuidor”, é assim que se o pode ler e escriturar. “[A] poluição confirma a apropriação do mundo pela espécie.” (SERRES, p. 70). Desse modo, torna-se contunde perguntarmo-nos: “o que queremos quando sujamos o mundo?” (SERRES, p. 58) O que dizemos de nós nessa “ignomínia de restos”?

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Dizemos muito. Em Acidade estão muitos desses dizeres: bueiros e esgotos (p. 15, p. 25); restos e cacos vários (p. 27-28); livros de poesia (p. 30); rabiscos em papel qualquer (p. 35); avisos ao cidadão (p. 39, p. 87, p. 95, p. 120); modernos (!) dispositivos de cidadania (p. 45); placas de propriedade/nomeação/aviso (p. 33, p. 48, p. 134); anúncios jornalísticos (p. 51, p. 54); objetos de trabalhos de amor (p. 55); hinos e bandeiras (p. 59); rabiscos/grafites/pichações (p. 61, p. 64, p. 81, p. 94, p. 103, p. 119, p. 127, p. 130-131, p. 136-138); anúncios/dizeres vários (p. 75, p. 99); reivindicações de promessas/protestos (p. 85, p. 89, p. 109). Alguns apenas, reitero, pois que há tantos outros. Inclusive, e sobretudo, os humanos (os viventes – tornados mera paisagem – que poderiam ser). Dizeres, esses todos, que se costuram, é como leio/entendo, àquele perguntar, já antes apontado, de certo senhor historiador: “Se o tempo do progresso articula-se necessariamente com o verbo descartar, qual o critério do descarte?” Qual o sentido desta constituição de restos que nos dizem? Para o[s?] insabido[s?] poeta[s?] da escritura de Acidade (é uma plausibilidade que neles leio eu), talvez o critério do descarte passe pela fronteira, pela constituição de uma tal linha.

III. “Oumis”, “Breu” e certa “Fronteira” A fronteira: eis que chegamos a ela. Ou a elas, pois que em Acidade as fronteiras se emaranham no corpo informe da cidade. Um dessas é a que faz invadir a prosa no poético, trazendo consigo “um mistério nos objetos da Cidade”. Trata-se de um sortilégio feminino, criação doutras mãos, pois, a se juntarem às do[s?] insabido[s?] poeta[s?]. Li Lê Santos, assim se diz, se proclama e assina a fiadora do sortilégio chamado “A Cidade”, escritura que, desrespeitando a autorizada (por quem?) fronteira faz passar prosa à cartografia do poético. Uma Cidade dentro d’Acidade.

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Assim, em Acidade, a escritura que é “A Cidade” (p. 140-149) avança em dizer da vida de Júlio, mais um cidadão sem tempo (“não podia cuidar da casa agora”), mais um a necessitar “atravessar a Cidade”, deixando em descuido sua casa, pois, e tendo ainda que chegar “no horário marcado” (seja lá onde for), e mais (ainda outro mais), tendo que lá chegar (seja onde for) com “as palavras e o juízo no lugar” em meio ao caos comum ordinário da Cidade. Ao pobre Júlio, como a tantos e tantos sucede, “a raiva era inútil”. Que fazer diante dos “carros enfileirados”, do “entediado mormaço nos ônibus fechados”, da “lentidão enfadonha” que a todos paralisa numa Cidade enlouquecedoramente veloz? Como bem o disse certo senhorhabitador doutra urbe, “a cidade é rápida de mais” (TAVARES, 2006, p. 54). Seu tempo é não: não haver tempo. Tudo é já (e tão só) incapturável presente. Um presente vendido (devidamente lacrado, etiquetado) como “tempo real”, uma “potência da emoção do direto”, uma invencível “tirania do imediato”, um “presente presentista”, para em suma dizer com palavras autenticadas em acadêmico saber (HARTOG, 2006, p. 24). Nesse seu não-tempo a Cidade é quase – e isto é já dizer doutro senhor, observador e escriturador doutra cidade a viver em eterna espera dos bárbaros – uma “cidade móvel” (SALGUEIRO, 2007, p. 45), sendo ela mesma um móvel do caos. Talvez nessa Cidade, sortilégio de Li Lê Santos, reste tão só às criaturas a fé penitente diante de tão imenso desastre que a Cidade é. Uma fé como a da mãe do pobre Júlio, que cruza a Cidade para “dar graças pelo emprego alcançado” por seu filho. Na cidade inumana, a pobre mãe, sentindo-se “abençoada”, cumpre seu ofício ante seu deus. Pobre mulher, pobre cria! Se deus há (o seu, ou outro qualquer – o Deus-Capital, a exemplo), decerto há de estar às gargalhadas, contentíssimo pela eficácia de seus Escrituras. (E que se me perdoe, peço, por esta segunda intromissão.) A Cidade de Acidade é também lugar de Arnaldo, outro pacato e trabalhador cidadão, senhor de seu ofício (o de gerar mais [8]


valia ao Deus-Capital sob as vestes de uma distribuidora de alimentos) e seus deveres. Uma pobre alma que, após todo um dia de labuta chega a sua casa (o que fora até então) e encontra tão só um vazio. “Sua casa desapareceu”, foi parar no Breu, no lado de lá da “Fronteira”. Pobre Arnaldo! Sabia ele que “uma casa no Breu é um enigma fora da Cidade”, sendo raros os que, por tal mal afligidos, conseguem reaver suas moradas. Acompanhado de Júlio, Arnaldo passa então a “atravessar o Breu” na esperança de reaver a casa de sua morada, lugar de sua nascença e pertença. Mas a “Fronteira”, o “Breu” eram lugares que só admitiam “a lógica do mais forte”, essa “que determina quem chegará primeiro e quem conseguirá permanecer”. Tudo que o pobre trabalhador, pacato cidadão conseguiu foi, vencido pelos argumentos do que é forte, do que não pode ser demovido, se ver obrigado a “vender” sua casa, deixá-la no “Breu”, e buscar outro lugar para fazer seu na selva da Cidade. Sentia-se triste. “Era A Casa onde nasceu sobre uma cama de casal e lençóis rubros, o único vestígio de que seus pais anônimos existiram”. Mas que fazer? A suas criaturas viventes, a Cidade as trata qual um “inseto no vidro do pára-brisa, iludido e esmagado”. Não há revolta possível, diz o idioma terrífico da Cidade. Vencidos, tornam Júlio e Arnaldo para a Cidade, para o lado de cá da “Fronteira”. Arnaldo, para seguir sua vida, buscar agora outra casa (sem memória, sem passado, sem afeto) para fazer sua morada; Júlio, para uma busca: a de reencontrar Marina, um amor que pensava findado (pela morte), mas que (talvez) não se findou. Na beira-mar, numa manhã de sábado, a espiar os todos viventes passantes e os objetos e seus mistérios (a triste “estátua de uma índia” e o desgastado “bronze falso de sua virgindade”), a espiar “a ganância e a corrupção litoral”, a espiar tudo isso ficará Júlio. À espera. Na Cidade. Uma cidade que me fez rememorar outra, cartografada em escrita por certo senhor alegórico-humanista. Uma cidade, a deste senhor alegórico-humanista, que transforma seus viventes em não mais que instrumentos, em “oumis”: “objectos, utensílios, [9]


máquinas e instalações” (SARAMAGO, 1994, p. 78). Uma cidade que assim seguiu, obediente e inumana. Seguiu. Até ao dia em que os “oumis” se revoltaram. Uma revolta para marcar que, dali em diante, os homens e mulheres não mais voltariam a “ser postos no lugar das coisas” (SARAMAGO, 1994, p. 105). Leiamos, penso que o vale, este senhor alegórico-humanista: “Um silêncio absoluto espalmou-se sobre a planície. E de repente a cidade desapareceu. No lugar dela, a perder de vista, surgiu uma outra multidão de homens e mulheres, nus, desentranhados do que fora a cidade. Desapareceram as peças de artilharia e todas as outras armas, e os militares ficaram nus, rodeados pelos homens e mulheres que antes tinham sido roupas e armas. Ao centro, a imensa nódoa escura da população da cidade. Mas também essa, no instante seguinte, se metamorfoseou e multiplicou. A planície tornou-se subitamente clara quando o Sol nasceu. Foi então que do bosque saíram todos os homens e mulheres que ali se tinham escondido desde que a revolta começara, desde o primeiro oumi desaparecido. E um deles disse: – Agora é preciso reconstruir tudo. E uma mulher disse: – Não tínhamos outro remédio, quando as coisas éramos nós. Não voltarão os homens a ser postos no lugar das coisas.” (SARAMAGO, 1994, p. 105)

Estranhos casos esses: de coisas desaparecidas, mas, sobretudo, de escritas e pensamentos que se cruzam, sabe-se lá deus (em havendo ele, claro está) por que razões, por que sentimentos. Mas, se pensarmos que dito alegórico-humanista senhor tenha entendido por bem usar por epígrafe a um de seus livros a lavra de um escritor, dito e assinado Laurence Sterne, que confessa: “acredito sinceramente ter interceptado muitos pensamentos que os céus destinavam a outro homem” (SARAMAGO, 2002), não nos devemos, pois, admirar desses [10]


trabalhados baralhados dos céus, dessas partilhas de angústias – esse sentir que ainda nos vai permitindo entendermo-nos humanos (ainda). Pois bem: acompanhando Júlio e Arnaldo, atravesso (deixando) a “Fronteira” e o “Breu”, “A Cidade” de Li Lê Santos. Não deixo, contudo, a fronteira: a linha e seu sentido, sua demarcação.

IV. Do duro e do suave À fronteira tornando, há que se dizer: é ela a linha que tudo (seja duro ou suave, concreto ou signo) separa: os arranha-céus (prepotentes, pretenciosos) dos subúrbios pobres; aquele que é senhor na “neosenzala da escravaria” daquele que toma “porrada tanta / pancadaria / que fere a pele / peleferia” (Acidade, p. 131); os morantes circunscritos (cidadãos) dos não circunscritos (“cidadães”; como os cães?, me pergunto) (Acidade, p. 62); aquele que pode descartar daquele (pobre diabo!) que “fincará morada / sobre as montanhas de lixo / que a cidade expele” (Acidade, p. 35), sendo, ele próprio, descarte: “Realmente, é preciso meditar sobre a função da fronteira [...]. [E]ssa demarcação, muito curiosamente, compõe-se de três camadas. A primeira, interior, protege o habitante com sua suavidade; do lado externo, a última camada ameaça os possíveis invasores com suas durezas. Na camada do meio, abrem-se poros, passagens, portas ou porosidades pelas quais, e frequentemente por semicondução, determinado ser vivo ou determinada coisa entra, tranca-se, sai, transita, ataca, aguarda sem esperança... [...] Defender, proteger, proibir e deixar passar: é como, triplamente, funciona uma fronteira.” (SERRES, p. 61)

Tripla, pois, a fronteira protege: “Cerquelétrica / de arame farpado / de sensor / de presença / cerca de rottweiler / guarita blindada / cerco de guerra”. Ao mesmo tempo que, “maldita”, mata: “Nossa! / casamata / nossa / casa morta” (Acidade, p. 47). Ao [11]


mesmo tempo, permite passagens, deslocamentos, mas sem um mínimo de esperança, de possibilidade de pertença ou partilha. O que atravessa a fronteira passa a ter por pele (uma “peleferia”) a couraça assombrosa da ameaça e do medo; mesmo se ainda for tão só uma pequena cria, “essa criança” saída dos bares, dos morros, “com seu cheiro de urina e dor”, e que, “por não ter mais / onde descair, / Subirá ao céu / já abutre adulto” (Acidade, p. 35). Em sua esquizofrênica pulsão por fronteirar, a cidade é incapaz de perceber que “o medo dos bárbaros é que ameaça converter-nos em bárbaros” (TODOROV, 2010, p. 15). A fronteira não é apenas a farpa e o concreto armado. Na cidade, ela vai do duro ao suave. Do natural ao cultural, noutros termos. “Passem em frente a um outdoor escrito e colorido. Imperiosas, as imagens e as letras obrigam a leitura, enquanto, súplices, as coisas do mundo mendigam um significado a nossos sentidos.” (SERRES, p. 68) Mas nossos sentidos já não significam. Nesse “lugar anormal” (a cidade), “vence quem late mais au / perde quem perde o sinal” (Acidade, p. 43). A vida é cotidiano atropelo, imparável-parado tráfego; com suas autossolitárias sobre rodas: “Na avenida imóvel / cada automóvel / é uma cela sobre rodas, / Uma solitária / de insegurança máxima” (Acidade, p. 77); com suas “cargas”: “Um ônibus vem / com sua carga / de carne vestida” (Acidade, p. 88). Numa tal cidade, aqueles que jamais conseguiram tirar “CARTEIRA DE HABILITAÇÃO / para dirigir a vida” são, “a cada avenida / atropelado[s] / pelos habilitados” (Acidade, p. 94), os devidamente credenciados para “o cangaço urbano do dia a dia, a civilização” (Acidade, p. 44). Uma civilização do descarte, não nos podemos (não nos é possível) esquecer, uma obra de infreável cultura, um monumento ao progresso-excretor e seus assépticos excrementos. Esses que vão resultando dos processos de “suavização” (Cfe. SERRES), desse movimento na história que “vai do duro – ‘natural’ – dos corpos ao suave – ‘cultural’ – dos signos” (SERRES, p. 37) com que vamos marcando nossa posse sobre o mundo. Se “o cuspe suja a sopa” (nódua do nojo), também há sujidade (marcação, tomada de [12]


posse) do logotipo em relação ao objeto, da assinatura em relação à página; “o combate é o mesmo, expresso pela mesma palavra, com a mesma origem e o mesmo sentido. A propriedade se marca” (SERRES, p. 14). Não nos iludamos, “lixos [poluição pelo duro, pelo material] e marcas [poluição pelo suave, pelo signo] resultam, entretanto, do mesmo gesto conspurcador, da mesma intenção de apropriação”, da mesma “invasão pestilenta do espaço por signos suaves” (SERRES, p. 59), cruelmente marcadores de fronteiras. O[s?] insabido[s?] poeta[s?] bem o sabe[m?]: “Alma selvagem / que ama o erro e o despropósito, / O meu corpo / o teu depósito / perambula pelas ruas / desfiadas pelos postes, / Lua nova do subúrbio / apagada em cada poste / onde vou com muito medo / muito medo e pouca sorte // de arrancarem-me a camisa / ou meu gorro / ou meu pênis / tudo da marca lacoste” (Acidade, p. 31). A marca: que marca, que instala a fronteira, que introjeta o medo. Como bem o disse o senhor filósofo que tem andado por estas linhas, “a sociedade, o direito e os costumes se decidem em unanimidade pelo dinheiro.” Quem ganha é sempre o rico, não o que vem do subúrbio, “do lugar de banimento” (SERRES, p. 75), que, não obstante, é justo “onde a cidade tem a sua cor mais nítida” (Acidade, p. 18). Não sendo o dinheiro um excremento propriamente, é, todavia, “seu símbolo”. O dinheiro, mais seus mecanismos e engrenagens e toda sua brutal descarga sobre o homem: A vitrine, a exibição, o anúncio, o prospecto, a propaganda sob todas as suas formas descarregadas sobre o homem, circulando em viaturas, enfiadas goela abaixo, iluminando os ornamentos, transformando os quiosques em palhaços luminosos, conclamando os fluxos elétricos em seu favor: eis a grande propulsão moderna mobilizando esse formigueiro de pessoas apressadas, que se cruzam, se esbarram, se acotovelam, se saúdam, se injuriam, fazem negócios, compram, pagam, e, sobretudo, se endividam.” (M. Seigneur, citado por VIGARELLO, p. 237) [13]


(E não posso aqui me furtar a um parêntese: este dizer acima ficado, por inacreditável que possa parecer, é de tempo antigo, seu nascer é de 1889. E tão contundente ainda está!) “Sobretudo, se endividam”, diz-se; sobretudo para com suas vidas, digo-o, reiteradamente jogadas no lixo: “aquele amor seminovo”, “o que não fiz quando pude” (Acidade, p. 30). Troca-se a vida por outras desvalias: “Nada ali valia nada / nem moedas e nem eu” (Acidade, p. 95).

V. “Onde o eu lírico?” Eu? Que eu? Quem fala sob essa unidade? Uma carne viva sentinte? Uma convenção, apenas? Um número a mais (CPF, RG, título de eleitor, etc.) da incidadania da cidade? Um observador sádico do cotidiano desastre das gentes desgastadas sob a mais valia das coisas? Eu? Quem? Quê? Retórica, tão só? Ao[s?] insabido[s?] poeta[s?], não apenas. Di-lo este perguntar: “A cidade, / poema concreto / (onde o eu lírico?)” (Acidade, p. 56). Onde a carne diuturnamente ofendida que sente? Ainda há lugar a uma tal sentinte “inscrição carnal de si”? (VIGARELLO, p. 8) Mas qual si? Se insabido é o poeta que escritura (um?, tantos?, quantos?), quem então reivindica a possa do singular eu do lírico, do discurso de amor e ódio, de raiva e desejo sobre a cidade? Se a cidade é essa monumental descarga sobre o homem, é ainda capaz de resistir, persistir em existência um sentido (e sentimento) de si? Pode essa (possível) sobrevivência se autorar? Se constituir em lugar de fala? Penso não ser acaso (em absoluto não o é) que certo senhor historiador (asseveradas linhas de saber, pois) tenha deixado em sua escritura o dizer de que “as experiências textuais do século XX [...] revoltaram-se contra a soberania autocentrada do sujeito.” (RAMOS, p. 116) No haver do tempo, sob essa escala medido, essa “unidade primeira, sólida e fundamental” no existir dos textos que é o “autor” foi solapada, deslocada, e até mesmo assassinada. Advogou-se, nesse século XX (em seus anos de 1960) que “a [14]


escritura é a destruição de toda voz, de toda origem”, que o texto não seria “a ‘mensagem’ do Autor-Deus”, que uma possível “unidade” não estaria em sua “origem”, mas em seu “destino”: o leitor. Portanto, “o nascimento do leitor deve pagar-se com a morte do Autor”, escreveu-se (BARTHES, p. 57- 64). Eis a consumação do assassinato. Ou ao menos sua intenção – quem se arrogará em sentenciador diante da morte, seja do que for? Pois bem, se morto o Autor, o texto então será percebido como “um espaço de dimensões múltiplas, onde se casam e se contestam escrituras variadas”, nesse sentido, o texto seria então “um tecido de citações, oriundas dos mil focos da cultura” (BARTHES, p. 57-62) Ou, para abandonar os senhores acadêmicos e dizer com palavras de um poeta sírio-órfico-zombador, as escrituras do século XX (pensando-se nas escrituras poéticas), vieram nos atirar ao pensamento-feito contundentes perguntas: “Por que a poesia tem que se confinar / às paredes de dentro da vulva do poema? / [...] / Por que a poesia tem que se sustentar / de pé, cartesiana, milícia enfileirada, / obediente filha da pauta?” Pergunta-nos, dito poeta, por que não pode a poesia ser “polimórfica e perversa”? Por que “não poder [ela] travestir-se / com os clitóris e os balangandãs da lira?” (SALOMÃO, p. 300) Em Acidade, seu[s?] escriturador[es?], definitivamente, não se contentou[aram?] com as “paredes de dentro da vulva do poema”, com a enfileirada e cartesiana obediência à pauta; criatura[s?] inquieta[s?] (ainda quando calada[s?], paciente[s?]), esse[s?] escriturador[es?] travestiram a cidade (os “clitóris e os balangandãs” de seu civilizado gênero), fizeram-na falar por outra (a dela?) desordem. Assim procedendo – desconfinando-se, travestindo-se, assumindo e pensando-se “polimórfica” enfim –, a poesia (e a literatura de um modo geral) assume, pois, um trabalho de fazer pensar certas coisas, deixando assim de ser e se pensar como mera “‘expressão’ de um referencial”. Chegamos então à tese, defendida por certo (e um tanto místico) pensador, para aqui tornarmos aos homens do saber, que a literatura pode ser então entendida como um “discurso teórico dos processos históricos”, [15]


dentro da perspectiva de que “ela cria o não lugar em que as operações efetivas de uma sociedade têm acesso a uma formalização.” (De CERTEAU, p. 92). É como também percebem (não creio ser apenas eu, que os leio, que percebo) o[s?] insabido[s?] poeta[s?] que escriturou[aram?] Acidade. Para ele[s?], a cidade (estranhacidade) “ousa”, justamente, “ser nadamente não-cousa” (Acidade, p. 125), um “não lugar”, espaço de fluxos e tráfegos, de produções e “necessidões” (Acidade, p. 129), sendo justo nesse não lugar que se efetivam, que se formalizam as operações de existir/sobreviver dos viventes de uma cidade. É nesse sentido que leio/entendo Acidade. Pelo gesto escriturístico de insabido[s?] poeta[s?], a cidade se fez ver: “A cidade se viu / e não gostou / do que / vil” (Acidade, p. 66). No discurso do[s?] insabido[s?] poeta[s?] que a diz, a cidade é flagrada não em suas vestes autorizadas, mas antes em seus trajes falhados. Sabe, quem Acidade escriturou, que, à cidade, “não te garante o nome a posse da virtude / Não basta que a ostentes na tua bandeira”, essa sua honrada (e mentirosa) veste. Se “nasceste da defesa contra o inimigo rude”, hoje “voltaste as barreiras para dentro” (Acidade, p. 59), para contra aqueles que, num futuro sonhado “perfeito”, não devem estar “presente[s]”, um futuro assim feito “só de pretéritos prefeitos” (Acidade, p. 51). É a esse tempo assim estruturado – um futuro “mais que perfeito” “feito só de pretéritos prefeitos” – que se atira[m?] contra aquele[s?] que escriturou[aram?] Acidade. É contra essa arrumação da história e seu idioma descarnado que esse eu (quantos?, quem?) se fez nós, esse indefinido que reclama por sua história: “Em todos os muros / Estávamos pichados / Era nossa história, / Não podíamos apagar” (Acidade, p. 139). O que é dizer, por fim: “Minha página, minha pichação de raiva” (SERRES, p. 75). Uma raiva que, AINDA, nos diz e faz humanos em meio a toda essa descomunal “aridez das coisas todas tensas” de uma a/cidade. Acidade, como a leio (e não me arrogo mais que isso, claro, claríssimo esteja), é um não: “um não que perturba, que põe em causa” (TAVARES, 2010, p. 192) os discursos da cidade; uma poética [16]


atirada contra a copropraxia desse não lugar; uma poética que nos faz perceber/sentir que “nenhuma coisa está em segundo plano”, que são nosso ver e nosso dizer “que dá [dão] hierarquia à posição das coisas” (TAVARES, 2010, p. 192) – e dos viventes, já tão coisas na cidade! “Observar a realidade pelo canto do olho, isto é, pensar ligeiramente ao lado”, eis como me parece que se escriturou Acidade: uma poética que “abriu os olhos para os rastros da Cidade” (Acidade, p. 149).

___________________ Referências bibliográficas: AQUINO, Alves (O Poeta de Meia-Tigela); NÓBREGA, Carlos. Acidade. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016 [com participação de Li Lê Santos, no texto “A Cidade”]. BARTHES, Roland. O rumor da língua. 2 ed. Trad. Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004. De CERTEAU, Michel. História e psicanálise: entre ciência e ficção. Trad. Guilherme João de F. Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. FOUCAULT, Michel. O que é um autor? 6 ed. Trad. José A. Bragança de Miranda e António Fernando Cascais. Lisboa: Vega, 2006. HARTOG, François. Tempos do mundo, história, escrita da história. Trad. Temístocles Cezar. In GUIMARÃES, Manuel Luiz Salgado (Org.). Estudos sobre a escrita da história. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006 [p. 15-25]. RAMOS, Francisco Régis Lopes. A poeira do passado: tempo, saudade e cultura material. Fortaleza: Imprensa Universitária-UFC, 2014. SALGUEIRO, Pedro. Inimigos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007. SALOMÃO, Waly. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. SARAMAGO, José. O homem duplicado. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. SARAMAGO, José. Objecto quase. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

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SERRES, Michel. O mal limpo: poluir para se apropriar? Trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011. TAVARES, Gonçalo M. água, cão, cavalo, cabeça. Lisboa: Caminho, 2006. TAVARES, Gonçalo M. Breves notas sobre ciência; breves notas sobre o medo; breves notas sobre as ligações. Lisboa: Relógio D’Água, 2012. TAVARES, Gonçalo M. Matteo perdeu o emprego. Porto: Porto Editora, 2010. TAVARES, Gonçalo M. O torcicologologista, Excelência. Lisboa: Caminho, 2015. TODOROV, Tzvetan. O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 2010. VIGARELLO, Georges. O sentimento de si: história da percepção do corpo (séculos XVI-XX). Trad. Francisco Morás. Petrópolis-RJ: Vozes, 2016.

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Sim, sim, Pasárgada existe E Xanadu e Shangrilá e Pentesileia e Shangricá, E há relatos seguros de que em Fascínia há sombra e se pode respirar

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Dércio Braúna [1979] é cearense, de Limoeiro do Norte. Historiador (mestre e doutorando em história social / UFC), com estudos sobre as relações entre história e literatura. É autor das obras poéticas: O pensador do jardim dos ossos [2005]; A selvagem língua do coração das coisas [2006]; Metal sem húmus [2008]; Aridez lavrada pela carne disto [2015]; da reunião de contos Como um cão que sonha a noite só [2010]; e ainda dos estudos Uma nação entre dois mundos [2008]; Nyumba-Kaya: Mia Couto e a delicada escrevência da nação moçam-bicana [2014]; e A assombração da história: história, literatura e pensamento pós-colonial [2015]. Atualmente, desenvolve pesquisa acerca do pensamento sobre a história na obra do [20]Saramago. escritor português José

Dércio Braúna. Dizer-ver/a/cidade  
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