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acidade

Carlos Nรณbrega & O Poeta de Meia-Tigela Fortaleza 2016


Marcadágua Édicções Nenhum direito reservado Capa, fotografias, desenhos e colagens dos autores, exceto as indicadas ao fim do livro Diagramação idem (com apoio cidadão imprescindível de Léo de Oliveira) Revisão de Homero, John Milton, Borges e Poeta Galo Cego (Esta edição respeitou a Nova Cor do Horto Gráfico da Língua Portuguesa) acidade é um Livro-Zine, um Livro-Zona, um Livro-Zão, um Livro-Zen como qualquer cidade carlosamnobrega@hotmail.com poetademeiatigela@yahoo.com.br opoetademeiatigela.blogspot.com

Ficha Catalográfica Bibliotecária: Perpétua Socorro Tavares Guimarães CRB 3/801-98 P 743c

Poeta de Meia Tigela A Cidade / Carlos Nóbrega.- Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016. 156 p. : il. ISBN: 978-85-420-0901-9 (Poeta de Meia Tigela Pseudônimo usado para Alves de Aquino) 1. Literatura- poesias I. Título

I. Nóbrega, Carlos CDD: 869.3


MAPA DE FUGA Arrebatamento. Prefácio de Bárbara Costa Ribeiro, 13 Mundano. Marco-zero, 14 Ausência, 15 O Iluminismo (ou o existencialismo? ou o que?), 16 Faz tempo, 17 Migração, 18 Panorâmica, 19 Lembrai-vos de vossas irmãs gêmeas, Torre de Babel, 20 A cidade e as serras, 21 Urbi et orbi, 22 e 110 Terraplanagem, 23 O rio, sem lençóis, 24 Rio Cocó, 25 Cloaca, 26 Nós, 28 Proibido colocar lixo. aterros, 30 Hoje, 31 Fração decrescente, 32 Acidade, 34 Biografia geral, 35 Galdino, 37 Funk opus 1, 40 1929/ Pedinte, 41 Rua Quintino Bocaiúva, 42 Caens de rua, 43 Normal, 44 Pei, pei: matei, 46 Circuito fechado, 47 Da interrupção, 49 ?, 50 Desclassificados diários, 51 O Pontinho preto do mapa, 52


Procura-se, 53 A prova é estranha que só, 55 Cidade, 56 Hino de Fortaleza, 59 Canto de amor à cidade de Fortaleza, 61 Quantos somos, 62 Chato, 63 O funk das ameaças, 64 Sintomas, 65 Civil, 66 Habitat, 67 Perdidão e bêbado na noite em busca da minha rua, 69 Desorientação, 70 Transmissor, 71 Alarme, alarme, 72 acidade, 73 Cidade, 74 A fila dos condenados, 77 Avenida, 78 Fastcar, 79 Barroada ou décima do acidente automobilístico, 80 Barroada 2 ou décima do móbil autoacidentalístico, 82 Á-tô-ní-tô (desconto antecipado), 83 CRASH!, 84 Para Lene: variações, improvisos em garupa de bicicleta, 85 O ônibus, 86 No ônibus. rѳtina , 87 Linha zero sete três, 88 Medical Mystery Tour, 90 Cruzamento, 92 Close Errado, 94 O catador e o flanelinha, 95 Lira I, 97 “Meu pau levantado apronta”, 100 Admirável mundo gay, 101 EI, 102 Estação Japon, 104


Cidade, 105 A Cidade horizontal, 106 Grandeza, 107 Sampaulo city, províntia, 108 O Requerimento, 109 Sinai. Cais caos, 111 Sinal, 113 Vestal, 115 Bem-São, 116 [Siracusa e adjacências], 117 Bem-São II - Versão pin-céu em vidro de janela, 119 Esta hora em que todo comércio está fechado menos a padaria, 121 Conurbação, 125 Plana cidade não és, 126 Los lanzallamas, 128 A Santa guerreira contra a dragoa da maldade, 130 Mudança de endereço, 132 Rua do Sol, 133 Rua, 135 Pixo, 139

A Cidade. Posfácio de Li Lê Santos, 140 Catadoras/ Catadores de papel, 150 Agrade/cimentos, 151


Para AtĂ­lio Bergamini e Suene Honorato

Para JosĂŠ Datrino, o Profeta Gentileza

Para Jarbas Oliveira e Kika Melo

e Honorato Alves Pereira, o Poeta Sapateiro


Porque a cidade, além de seus muros e organismos, era também uma categoria dentro das pessoas. E haveria até quem pudesse considerá-la aprazível e habitável, ao menos por uma ilusão temporária. Sérgio Sant’Anna, Simulacros

Vistas de longe, as grandes cidades são um acúmulo de grandes edifícios, grandes populações e grandes áreas. Para mim isso não é ‘real’. O real é a cidade vista por seus habitantes. O verdadeiro retrato está nas frestas do chão e em torno dos menores pedaços da arquitetura, onde se faz a vida do dia-a-dia. Will Eisner, Nova York, a vida na grande cidade


ARREBATAMENTO Bárbara Costa Ribeiro Quando o mundo estiver a acabar O sol permanecerá o mesmo A rua Bárbara de Alencar Repousante no silêncio de domingo Uma pomba a cruzar O centro da cidade Sem pressa Sobre patinhas cor-de-rosa O sol Filtrado pelas folhas das árvores Magrelas Numa aldeia que não tem paciência Para as árvores Sol de fim de tarde Caetano no rádio do carro E nossos corações feridos Agora rejuntados Quando o mundo estiver a acabar Fecharemos os olhos Será bonito o adeus E assim ninguém notará Que já partimos

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us

-m ui? lha o a V idã e aq l so vo qu . ão Po bo ão n Dia pulaç ção i po apar Só

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us De me a? ão haVal pred strad e e qu da ó Op o o. b ã Dia ira n a e po altad Asf

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MUNDANO. MARCO-ZERO

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s eu eD -m u? lha rão cé Va e car do m qu sari s o. Pa bo nã Dia ante o av ião Av


AUSÊNCIA Carneiros nos pastos mais verdes de uma planície, Moças de blusas brancas e tranças simples, Curvas dos rios que cantavam baixinho, Cabana encimando o vale despertado pelo passaredo, asas encardidas de voo. Frutos que se davam às mãos e aos olhos, Maçãs satisfeitas feito as bochechas das crianças sãs, Campos de relva branda que o vento brando envergava, Mugido, estrela, saudade.

Saudade da Natureza, Completamente Morta como a minha mãe, Margarida

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O ILUMINISMO (OU O EXISTENCIALISMO? OU O QUE?) A noite não existia Não existíamos à noite Como eu não existia e minha mãe me deu à luz: Dava 6 horas da tarde em agosto de mil novecentos e um e tudo caía num torpor de breu e sono. Então a Light Company deu à luz à noite E ontem de madrugada pela janela de um boing eu vi dez milhões de janelinhas piscando lá embaixo – Ou seja adão o desgraçado do cidadão passou a ter muito mais tempo para sofrer, coitado.

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FAZ TEMPO

Buzina aos béééérros auto chegando naquela terra sem autos/nem baixos. Papai titio correndo depressa meninos pra dentro de casa:

mamãe mamãe, um BICHO Vovó sabichona doidinhos é automóvel /Mas eles não saiam de sob a caMa/

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MIGRAÇÃO Subúrbio pobrezinho onde a cidade tem a sua cor mais nítida e o céu mais verdadeiro. O resto lá são casas fardadas de serem vila. Um moleque mija no formigueiro dos quintais desarrumados: Era eu. E os dias eram firmes, desordenados e bons.

Então cresci, criei dinheiro, adotei etiquetas, e me mudei para a zona rica da cidade onde aprendi a ser chato pra caramba.

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PANORÂMICA Eis a cidade, o Inferno onde nós gozamos Não sei como Não sabemos quantos, Eis o Inferno, a cidade onde nós gozamos o apocalipse do dia-a-dia.

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LEMBRAI-VOS DE VOSSAS IRMÃS GÊMEAS,TORRE DE BABEL Arranha-céu: Que bobagem este nome antigo cheio de pretensão, de prepotência, de pesadelo da queda Como world trade building, empáfia, soberba, orgulho de ruínas, Que bobagem todos esses nomes.

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A CIDADE E AS SERRAS

Há nos poetas de outrora tantas paisagens mas de mim tão longínquas como aquelas palavras: longínquo e outrora Nasci cresci existo na cidade entre edifícios carros assaltos e cercas de alta voltagem Das evocações bucólicas como formularei - por mais vivas jamais vistas precisa imagem? A mim que não as tive diante só resta lamentar delas sequer restar a saudade

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Se não o sinal sei não, sem nau Se não sim, mau Simão ou se Mao? Sem mão? Sem au? Sem ão? Sem sal? Seria Sinop Sobral Sofia Salta Sahil? Silves será Saloá? Sabará Sarutaiá? - Segredo, Seridó? - Sério, Sanharó! Sabya? Seul Asela. Cali, Quito Azara. Soldeu Split em Sehore. Zigong! Skiv Falaise . . . Konduz Antsla Akola. Ho, Lima Dahra Sucre Cádiz Kiel Safed. Sitka Asha Graça . . . João cidade será Pessoa? E Nice e Finiş, Cabul. 22


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O RIO, SEM LENÇÓIS

O sonho do rio é ser mar? Não. O sonho do rio é menor. O rio só sonha ser limpo.

O sonho do rio é ser peixe? Não. O sonho do rio é mais simples. O sonho do rio é só tê-los.

O sonho do rio é expansão? Não. O sonho do rio é conter-se. Apenas continuar-se.

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O sonho do rio é afogar-te? Não. O sonho do rio é se dar, com cidades às margens.

O sonho do rio é humano? Sim. O sonho do rio é o nosso. O sonho do rio é a paz.

RIO COCÓ o agudo desaguou em circunflexo

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CLOACA 1, Ralos bueiros entrebueiros tributários de rios mortos que escorrem podres sob o cimento sob o asfalto o esquecimento.

2, Canos Veias de esgoto Intestinos do chão conduzi nossas fezes sob palácios e templos Espalhai nossa merda pelos verdes do Atlântico.

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NÓS

nos soms a civilazão do lixo tudo qu fazmos gera lixo se rims se fotgrmos se amms e também s produzmos arte e se bbmos e se pensmos e se ammos é gerda imediatamente u~a garfa veha de plástico como as que foram jogadas ao mar em outros naufrágios.

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o que não fiz quando pude o sucesso hollywood miojo cachorro-quente leite de caixa aguardente carne branca azul vermelha literatura coelha silvio santos domingão em frente à televisão iogurte chiclete bola maionese coca-cola agrotóxico no coentro o lixo jogado dentro 30

aterros

cascas de banana e ovo aquele amor seminovo tu latinhas de cerveja o globo a revista veja vasilhas garrafas PET (de água ou de refri grapette) pilhas embalagens plásticas foices martelos suásticas seringa usada em dois, três césio 136 sogro sogra genro nora o lixo jogado fora


HOJE

Alma selvagem que ama o erro e o despropósito, O meu corpo o teu depósito perambula pelas ruas desfiadas pelos postes, Lua nova do subúrbio apagada em cada poste onde vou com muito medo muito medo e pouca sorte de arrancarem-me a camisa ou meu gorro ou meu pênis, tudo da marca lacoste.

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ACIDADE §. A paisagem grita A paisagem muda A paisagem fica todo dia outra todo dia vai §. Derrubaram um muro Levantaram um prédio Derrubaram um prédio Levantaram um muro A paisagem vira todo dia troca todo dia cai §. Lá se vem um incêndio Lá se vai a enchente Já ninguém mais sente o seu mapa da mente o desmoronamente o seu lugar em paz §. A cidade mente Ah se dá demente A paisagem jaz Acidade traz tão acidamente mais uma metade para o que é demais.

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BIOGRAFIA GERAL

Essa criança sairá dos bares com seu cheiro de urina e dor Descerá dos morros com sua arquitetura de casulos para insectos Surgirá nas coxias onde almoçará sua ração de sobras com areia Fincará morada sobre as montanhas de lixo que a cidade expele E aí por não ter mais onde descair, Subirá ao céu já abutre adulto.

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GALDINO

Chegaram Olharam Jogaram Gasolina Tacaram fogo E riram e cantaram e dançaram muito lampos Em volta do Corpogritoflamejante Como fossem índios Em festa Como fossem Algo mais Que playboys limpos Brancos Sujos Queimaram o índio Queimaram-no lixo Queimaram-no bicho morto Queimaram-no vivo

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Queimaram-no indigente Os pretensos indígetes Tomás Oliveira de Almeida Eron Chaves Oliveira Max Rogério Alves Antonio Novely Cardoso e (G de Galdino?) G.N.A.J. , este menordidade Boçalidade

mas enorme

Queimaram o índio à vontade Queimaram minha vontade De ser gente

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FUNK OPUS 1 Aonde há fumaça há seu vício aonde cê vai ó o ladrão e onde se vai há polícia Seja no ócio ou no ofício Seja na missa ou no hospício aonde há polícia há o ladrão pra onde se esvai eles vão.

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1929 Aquele acolá foi craque Era meu primo e era bamba Mas no meio a pedra de crack O deixou na corda-bamba. Ressecou feito cream cracker A cabeça e as pernas zambas Falta pouco para o “crac!” e Fim: “Onde estou? Cochabamba?” o9.o7.o7

* PEDINTE

Os lábios dizem “pão” Os olhos dizem “pedra” 41


Hรก um desenho do Cristo no bequinho: do INRI que me lembra um amigo, o Henrique - gente boa, drogadicto

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CAENS DE RUA A cidade ĂŠ um lugar anormal, uma guerra entre o mal e o mau Vence quem late mais au Perde quem perde o sinal.

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NORMAL

De novo de noite um tiro, eco de ontem. Alguém morreu. As janelas dos apartamentos se enchem de olhares dos que não morreram. Chegam o samu, a rota, o rabecão a reportagem: a Universidade inteira. Normal. Nada demais: É o cangaço urbano do dia a dia, a civilização. No GEPE da minha rua os espíritas de quinta-feira continuam falando de Jesus. Só os cachorros ainda não se acostumaram com isso. Não sei por que, Ficam latindo à toa.

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PEI, PEI: MATEI

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CIRCUITO FECHADO CerquelÊtrica de arame farpado de sensor de presença cerca de rottweiler guarita blindada cerco de guerra cerca maldita Nossa! casamata nossa casa morta.

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DA INTERRUPÇÃO

Ainda teve tempo de coçar a orelha De pensar nas contas do final do mês E no aniversário que irá à noite dez segundos antes da bala perdida achá-lo sorrindo no Café da Esquina.

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aos teus pés morrem dois morrem dez e depois morrem cem morrem mil que que tem? é brasil são inúmeros são antônios são só números só anônimos

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Desclassificados diários ralha

§ O futuro seria mais que perfeito se essa gente não estivesse presente e este fosse feito só de pretéritos prefeitos § Essa gente sorridente bem-nascida bem de vida da coluna social me parece deslocada

apropriada sua presença nos jornais entre páginas policiais Foto meramente ilustrativa

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PONTINHO PRETO DO MAPA

No meio da massa imensa das ruas da grande cidade o nome do anônimo é Carlos com um sinal minúsculo de carne à altura do peito esquerdo

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Segundo estimativas índices estatísticas a cada ano o sumiço das despessoas físicas aumenta São maridos idos à padaria pãos de ontem pãos dormidos e jamais retornados (virados pão passado) São mães donas de casa que casam querem casa mas de casa cansadas — da família o descaso — não por acaso um caso co’utra mamãe contraem (para sempre felizes donas de seus narizes) São escravas mucamas evadidas da cama em que prestam serviço onde perdem seu viço de mulher (mulher-dama) Os velhos ressequidos pelos seus esquecidos e por si — foragidos dos asilos-exílios (Torres de Melodrama) 53


Jovens que ninguém ama emos — feridos imos — dos quais cedo exigimos gravata hora marcada vida a vácuo ou enlatada Os doentes mentais filhos de parentais relações entre pais e filhas entre tios sobrinhas entre ventres forçados paus doentes E entrementes as vítimas da Civil Ronda BOPE Tropa de Elite Choque (ladrões de pouco Ibope putas trans rosa shock) vanescendo Crescente pois a probabilística de desaparecidos que vão ver se na esquina estamos e da vista se vão (sem terra à vista) E olhem que não entrou nos números na conta dados expetativas a gatinha Ritinha sumida transantontem de tarde pra noitinha (favor quem a encontrar devolvê-la ao lar) 54


A PROVA É ESTRANHA QUE SÓ No poste: ‘Madame Leide Zul traz a pessoa amada’; No poste: ‘Madame Temer faz amarração’. E aqueles dois tênis ali bem amarrados, pendurados no fio do poste — Será que seriam os da pessoa amada?

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Cidade

A cidade, um canteiro (de obras) A cidade dá um beijo (no asfalto) A cidade, porta aberta (assalto) A cidade anda de mãos (ao alto) A cidade é só a massa (manobra) Seus cidadãos, escoteiros (alertas) A cidade é como um ninho (de cobras)

A cidade, poema concreto (onde o eu lírico?) 56


A cidade Matadouro público

Sou esta que tem saudade ser não saudosa de si Ser como as coisas sem se Ser si como esta Cidade

Para Lucrécia Neves, de A Cidade Sitiada – Clarice Lispector

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HINO DE FORTALEZA

Não te garante o nome a posse da virtude Nem basta que a ostentes na tua bandeira Não te eleva a assunção da tua padroeira Nem te assegura o solo plano a platitude Não te exime da lástima da solitude Tua ebulição louca de Mercado e Feira Nem te fazem ser menos Beco da Poeira Os Shoppings e Aldeotas os Mac’s fast-foods A tua Belle Époque como juventude A tua infância difícil quando Fortim E a vinda prematura da decrepitude Nasceste da defesa contra o imigo rude Mas voltaste as barreiras para dentro e assim Tu que foste A Cidade és não mais que Ataúde

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*

Juan de Austria Asian Glory Mara Hope os nomes à deriva denunciam navio de guerra mas não tanque ou petroleiro em cuja história descabiam glória esperança feitos militares Ao desmonte ao desmanche condenado achaste por bem (ou mal) demonstrares alguma oposição fugindo ao fado e findares - ilhado - algo depois colorido e aberto a visitações Agora respondei ó vós que sois Fortaleza sem armas sem barões Que vos pode melhor assinalar Que esse barco encalhado e m vo sso ma

r?

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CANTO DE AMOR À CIDADE DE FORTALEZA

Fortaleza Fortalesas-me Quando Alteza Me desprezas Fortaleza Fortalascas-me Tuas presas Me descascam Fortalinchas-me Fortalanchas-me Fortalepra E revancho-me: Meu relincho Te deletra

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QUANTOS

SOMOS

F or t a l eza ,

c apital

C om 3 .0 0 0 .0 0 0 d e h abitantes H uma n os H uma n os São

e

ma l

ou

f alantes

q u ase

3 .0 0 0 .0 0 0 ,

F ortalez a?

E st ima t iv a Q u a n t os

tal

boç al por

Ter r a

Natal

Receb em

tua

es treitez a?

F or mi g a s

mos ca s

m osquitos

Ra t os g a t os cã es s em dono A n ima i s Mir in s

em e

a bandono

ou t r os

esquisitos

São 3 .0 0 0 .0 0 0 ? P õe m ilhões E

mil h ões

Mor a n t es Ma s

de

mil h ões

não

mor a n t es .

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nisto

ci r cunsc ritos Cidadões


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O FUNK DAS AMEAÇAS

Ninguém escapa do sexo “ ” ” ” escapa do medo Ninguém “ “ “ da moda Ninguém escapa do rock “ ” ” ” “ ” ” ” da droga Ninguém escapa “ grana, Ninguém escapa do ódio Ninguém “ “ “ de deus Ninguém escapa de nada “ “guém esc” ” do preço Ninguém merece ser livre Ninguém escapa de nada 64


SINT MAS

Eu sou suspeito de que De que me acusam os olhares? Todas as câmaras me filmam sorria você está sendo filmado é o caralho Uma bala me persegue pela rua Eu não sorrio Não sou o Rio Não só rio como choro Cadê meu cachê seus canalhas, vocês que me flagraram com o dedo no nariz E quando me aproximo das mulheres só pelo instinto de sentir-lhes o cheiro, elas se abraçam à bolsa como fariam com seus filhos diante de Herodes, Eu sou suspeito de que De que me acusam os olhares?

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CIVIL A cidade se viu e nĂŁo gostou do que vil

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HABITAT

Cidadezona imensa cinzenta como o amor que pensa Absoluta ilha. A aridez das coisas todas tensas

Ai como Ê febril minha indiferença

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PERDIDÃO E BÊBADO NA NOITE EM BUSCA DA MINHA RUA O mundo estava no meu dedo indicador — Não coube mais e coube só na Ursa Maior — O Mundo pôs-se a caber na estrela-guia — Após, não coube, coube na rosa dos ventos — Então se coube apenas n’agulha da bússola — Depois se pôs Na ilusão de um astrolábio — Aí o mundo coube só em um radar — Mais mundo veio que só se pôde em GPS — Tão velho mundo tão pequeno e nunca coube — porque a gente nunca soube o que é chegar —

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Desorientação

preso na cidade fechado recinto em mim, labirinto sem fio de Ariadne

que a razão teime em ser razão fá-lo-á em vão labirintei-me

Tracei na ponta do lápis a linha que, rua a rua leva a minha casa à tua: em vão (me perco no Google Maps)

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TRANSMISSOR antena de rádio antena de TV de celular, de raios antena de antenas, o céu todo espetado da cidade, – ó cidade o que há mais por captar? a morte? deus? a minha angústia?

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ALARME, ALARME às três da manhã a cidade bale feito uma cabra louca. Como é que se faz Para que ela cale Em sua noite oca?

às três da manhã a cidade bale feito uma cabra louca. Como é que se faz Para que ela cale Em sua noite oca?

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acidade eu, bicho-do-mato por entre edifícios peraus precipícios concretos planaltos plantados no asfalto eu, sujeito aos saltos por entre disparos de suspeitos díspares que me gritam alto pare é um assalto eu, no espalhafato do arrastão na praia sob o sol e a vaia caio espalho o fato viro nota fato eu, estupefato temo a urucubaca da bala e da faca quando temporada de caça a mim pato

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Cidade

A cidade cresce e se apequena eu me apequeno e cresço

Penso alto não me escuto tamanhos os rumores gerais silêncio? por um minuto nos funerais

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Nestes contratempos de poluição o ar à minha volta é de reprovação

Cidade/ atrope,lamento pedestre carro carro carro carro carro carro carro pe carro des carro tre carro

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A FILA DOS CONDENADOS

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O quanto sou

AVENIDA 10 motos 1 carro 100 motos 10 carros 1 morto sem carros 1000 carros x mortos 1000 motos o caos

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Fast

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A D BARRO A OU DÉCIMA DO ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO dize-me de que andas e eu te direi quem és

Os empresários incautos Só pensam no quanto lucram Coveiros, lacram sepulcram A paisagem com seus autos Desando hoje aos sobressaltos E a conclusão que me invade É pura necessidade Não é para tirar sarro Até não me falta carro O que me falta é a cidade

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Baby you can drive my car

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A B R O R

ADA 2 OU DÉCIMA DO MÓBIL AUTOACIDENTALÍSTICO

quais os tempos do motor em que o pistão desce?

Entro em minha condução Que age conforme: conduz Se pensar é dar à luz Vem do auto a ignição E se nele a direção A qual atenção exige Uma pergunta me aflige Numa dúvida me esbarro Sou eu quem dirige o carro Ou ele que me dirige?

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Á-TÔ-NÍ-TÔ (DESCONTO ANTECIPADO) MENINA: Mãe, a professora ensinou contar sílaba. No começo é difícil MENINO: Depois fica fácil MENINA (olhando pela janela): xú-vá: duas sílabas MENINO (idem): cá-xô-rró: três sílabas MENINA: bí-ssí-clé-tá: quatro sílabas MENINO: rê-ná-tá: só três MENINA: rê-ná-tó: três também MÃE (impacientando-se): aprenderam mesmo MENINA: á-prê-dê-rão: quatro sílabas MENINO (olhando o homem sob a marquise): cá-ré-cá: três MENINA (idem): bí-gó-dê: três MENINO (virando-se para a mãe): mô-tô-rís-tá: quatro MENINA (olhando para a frente): cá-mí-nhããMas este não pudera ser dissecado cõ-plé-tá-mê-tê Á-SSÍ-DÊ-TÊ: quatro sílabas CÓ-LÍ-ZÃO: três TÔ-DÓS: duas sílabas MÓR-TÓS: duas também FIM (monossílabo tônico)

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Aos cinco anos a Caloi. Com rodinhas de apoio. Mas no dia em que andou sem muletas o acidente: na volta pra casa uma KOMBI e

CRASH!

bicicleta esfarfarfalhada embora seu piloto não tenha sofrido nada. (Além do espavento) Sete dias após, a cadelinha de estimação. Fofinha morreu atropelada A mãe do filho acredita Deus substituíra pelo da cadelinha o sacrifício do filho da mãe E o menino feito homem acha que Deus saiu ganhando com a troca Fofinha valia bem mais

[“Amar a Deus sobre todas as coisas”

Estêncil em paredão

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Padre Miguelino-Barão do Rio Branco

até minha cachorra Fofinha?]


PARA LENE: VARIAÇÕES, IMPROVISOS EM GARUPA DE BICICLETA uma quadrinha Quem sou? Cavaleiro Andante Em luta contra o Dragão Chamado Pô! Poluição Aiô, Bike-Rocinante! um haicai Sobre a Bicicleta me ponho acordada e sonho voo-me Poeta outra quadrinha Voando na Bicicleta Me transformo em Paisagem E descubro na Viagem Mais que atleta sou Poeta

outro haicai Domingo de herói: pedalo até São Gonçalo na minha Caloi Beijos, bons passeios — 24 de julho de 2013 85


O ÔNIBUS

Ponha-me no teu olhar onde não cabe mais nada No teu olhar de relâmpago retina superlotada onde não cabe mais lágrima Que lê o outdoor e não lê vê o milagre e não crê Observa as revistas da banca pessoas com a pose da pressa Lê as notícias do dia qualquer notícia é de ontem Pisca teus olhos de flash, Pisca: rabisca meu nome na lista do esquecimento, E tira-me do teu olhar, tira-me rapidamente.

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e NO ÔNIBUS. RoTINA A criança de joelhos olhando pela janela “um carro outro carro outro carro um menino uma mulher correndo atrás um carro uma bicicleta uma moto outra moto um cachorro aquele baixinho careca” A criança de joelhos olhando pela janela: o que vê é sua reza

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LINHA ZERO SETE TRÊS

Um ônibus vem com sua carga de carne vestida, roupas azuis roxa verde . . . Olhos e óculos estão olhando pelas janelas. O ônibus cheio de destinos é o da linha 073, que é o meu destino. Ele para Eu entro A minha camisa é cinza.

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Cartaz visto de dentro do Ă´nibus linha 029 - Parangaba/NĂĄutico

Cartaz visto de fora (em 17-05-2016) 89


MEDICAL MYSTERY TOUR

Não importa empresa ou linha Passaremos mal: fatal O ônibus nos encaminha Para o estágio Terminal

No futuro as conduções Dos transportes coletivos Não conduzirão os vivos Frota só de Rabecões

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CR Estaciona o acionista. Depois quer atravessar a pista rumo à Bolsa de Valores o t n e m Mas no a z u r c grupo mambembe faz acrobacias e a dançarina tem uma coisa nela que não sei me dá vontade de —

U M E N T O

Z A

biiii!

Sinal Verde — meudeus, o Índice Dow Jones! : Por pouco. Corri um risco de poesia

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porque jamais consegui tirar CARTEIRA DE HABILITAÇÃO pra dirigir a vida, aqui fico a trombar noutros pedestres noutros equestres a cada avenida

a cada avenida atropelado pelos habilitados que me xingam filhodaputa

filhodaputa

filhodaputa em seus carralos e que nunca são multados 94


O CATADOR E O FLANELINHA

Perto do estacionamento dois filósofos ponderavam Um limpou meu para-brisa o outro recolheu-me a lata Dois sábios filosofavam perto do estacionamento Um dizendo nada, nada e o outro nada respondendo explicavam sem palavras a essência do meu Eu Dei moeda a eles dois Um não disse nada, nada o outro nem me agradeceu: Nada ali valia nada nem moedas e nem eu.

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LIRA I Para Geovani Paulino, com h u m Eu, Marília, não sou nem flanelinha ☺ r Que vive aí guardando o carro alheio;

Casca grossa e o sovaco, afe! a morrinha, Tomando sol e chuva no aperreio. Nãh! Meu fusquinha só eu que conduzo; É meu ganha-pão, minha cachacinha; Das corridinhas tiro uma graninha Pros panos, pros cordões de ouro que eu uso. Graças a Deus, Marília, Não nasci em Brasília!

Hoje vi minha cara numa poça: Pense num principeso conservado! Os outros motoristas (de carroça) Ficam só de me ver tudo peidado. Quando meto a dedada na sanfona, Ponho inveja no Rei Luís Gonzaga: Quem ouve se não se mija se caga De gosto dessa música de zona. Graças a Deus, Marília, Não nasci em Brasília!

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E os meus dezoito e meio, amor? É dote Que tem valor, Morena, porque tu Que gostas do meu bote, dizes “bote” E pedes mais já que és dona de tudo. Porreta é que vou ter uma frota Cobrindo os bairros todos da cidade; Mas Morena, tu vales Maserati, Vales um Citroën e uma Toyota. Graças a Deus, Marília, Não nasci em Brasília! Os teus olhos são dois faróis de luz, Luz alta qual nenhum Camaro tens; No teu rosto a pintura até reluz, Quêde arranhão? Limpinha, és o meu Benz. Os teus cabelos são como um capô, Do teu corpinho o cheiro de verniz. Eu jamais por melhor a meretriz Vi que fosse da marca de um Peugeot! Graças a Deus, Marília, Não nasci em Brasília! Mas pode o carro ser apreendido Ou roubado e depois, xi, desmontado; Que eu me acabe este mês desprevenido, No bolso raso nem tostão furado. Não preciso é de nada, minha Nega, Coisas do mundo estão e não estão; Nunca fui fão do funk ostentação, Maior luxo é o teu riso quem me entrega. Graças a Deus, Marília, Não nasci em Brasília! 98


Tu vens comigo pro meio do mato, A gente grudadinhos no bem-bom; Preguiçando e curtindo o mó barato, Com mosquitos mas sem carro de som. Os moleques jogando futebol Embestados correndo no campinho, Eu te ponhando flor na carapinha, O meu tronco espumando feito skol. Graças a Deus, Marília, Não nasci em Brasília! Quando a gente bater as cachuletas Ou no Monte Castelo ou na Serrinha, Vão levar nossos restos da sarjeta Para a vala comum: valha, a mesminha. Passando, os transeuntes, os pedestres Dirão vendo o casal morto de fome: “É... Quem não come vem a terra e come”. Em cima, embaixo, todos são terrestres. Graças a Deus, Marília, Não nasci em Brasília!

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ADMIRÁVEL MUNDO GAY Antigamente nas aldeias se dizia: ambos os sexos — Muito antigamente. Hoje pelas ruas Andam pessoas. Muitos. Muitas — E muito mais.

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morte aos trans

É no meio da rua um pombo doente o metrô passando um doido, uma vidente u uma moça chorando e o crente pregando o absurdo evidente é no meio do meio é o meio ambiente

EI É o doido de lua evidentemente o absurdo visando num passo crescente um doente ruando e no metrô pombando o meio da moça o crente é no meio do meio de ambos os entes 102


É no meio do mEIo que o EI! se esconde o Ei! e o Epa! o Ai! e o Oh! é o tira, o assaltante uma falsa vovó mais mil mendicantes fingindo que só . . . mas é o meio excitante: dá riso e dá dó

É o EI! que me veio sem eu saber de onde o EIta! que gritei ali ó perante o estafermo o meliante, o arigó e mais dois mil enfermos ... abotoando o paletó... é o meio e o meio-termo é sorrir e sentir dó

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ESTAÇÃO JAPON O metrô entrou no túnel (eu tô dentro do metrô): O tremor tremou, tramou no seu trilho o meu temor: Aí sonhei com uma nissei, vacilei morri de amor: Mas o trem-mór saiu do túmulo, sacudiu, mediu, metrou: E me deixou em Liberdade onde comi massa missô.

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CIDADE o clube é vizinho do açougue que é vizinho da igreja vizinha à cadeia à esquerda do bordel que dá frente ao hospício ao lado do bar nossa casa no meio somos todos vizinhos somos todos vizinhos de nós mesmos.

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A CIDADE HORIZONTAL

Na cidade vertical outra – horizontal cidade: quem naquela vive há-de nesta encontrar um local Cedo ou tarde os residentes da primeira se transferem à segunda: quer prosperem ou falidos, resistentes ou suicidos, não importa a condição, todos vão findar como cidadãos da megalópole morta Uma é casa transitória a outra definitiva distinção de estimativa de habitantes, provisória

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GRANDEZA Grande é a solidão dos elevadores lotados. Quase tão grande quanto a solidão do Cristo Redentor recrucificado no ar, dia e noite em pé naquela pedra; Do mesmo tamanho, quase, da solidão da fila do sopão espírita. É grande a solidão cheia de portas no corredor do meu condomínio, de onde vem aquela [musiquinha insuportável do jornal nacional. Só é menor do que a solidão de ser apalpado pelo polícia, Quando um vento ruim atravessa o muro onde espalmamos as nossas mãos desamparadas.

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SAMPAULO CITY,

PROVÍNTIA

Vocês pensam que são paulo é só são paulo Mas são paulo é tão quixelô quanto o piauí não é só são paulo, é a paraíba, os dois rios grandes e o de janeiro Vocês pensam que são paulo é só são paulo mas tem goiás velho são josé são pedro nossa senhora das cabeças maomé moisés buda judas iscariotes shiva afro-dite aquela negro ali chamado Ana Sei lá mais quem

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O REQUERIMENTO Eu brasileiro eleitor-vassalo data venho mui silenciosamente botar olhos humilhados em BrasĂ­lia.

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Se não Sinval sei não, se vão Se não são, Satã Sinai ou SENAI? Sem mais? Sem ai? Sem chá? Cem Shazans? Há em Sertânia Solidão? Sombrio Sumidouro? - Selvíria, Seabra Sonora: Saúde, Sericita! - Socorro, Seropédica: Salto Sete Quedas! Serov Sarov Saratov Baku Nuku’alofa Masqa‫ ܞ‬Rabat Praga. Freetown, Tashkent . . . Tirana Ankara Bruxelas Caracas, Bogotá Maputo! Honiara, Niamey Asmara Nouakchott. . . Serão cidades ou nomes à toa? Ah, Paro:

The Enns. 110


SINAI. CAIS CAOS Andas na cidade Como quem delira Já não tens idade Alma corpo “Mira! Nota que te invade A dor e suspiras Já não és metade Do que foste: vira E olha que tu sais Rumo à vida lenta Vem! Acorda! Atenta! Tantos os sinais Olha que tu cais Assim desatenta Vai! Ao menos tenta Ver ao longe o cais Vai! Vou pra onde vais” 111


* Adivinhamo-nos. Mais nos pressentimos que à vista nos damos - às claras. Sais e eu saio em busca de pistas sombras indícios sinais s aio eu s s indício bra b s m o si istas s x s e m e ício mente ned real i u s deaq ais c ste e n ta s i x ue e e

Não desisto não desistas Vais e eu vou para onde vais 112


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VESTAL

Acima de todas as nações teu olhar em foco Atinge todos os meandros de todos os homens Obscuros, suas reentrâncias anfractuosidades Flutuas sobre as águas pairas elevada ante o último Andar do empíreo Tocas de leve na asa do anjo Antes do regresso à cidade À balbúrdia de entre motores Respiras pelos poros de pelenévoa transpiras orvalho Transformas em pólen a polução dos autos Tomas na primeira esquina um grogue Abençoas negros e albanos Assobias melodia ancestral Nascida no tempo em que sonhavas nascer Entras em casa livras-te das vestes de vento E deitas-te noiva incorpórea Para nova noite de cópula com o Espírito Santo

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[SIRACUSA E ADJACÊNCIAS]

Dobro a esquina caminho na tua direção. Não sei como és. Sei quem és sei o que és para mim. Sabes o quem sou não sabes como sou. Figuro-te figuras-me (traços contornos linhas fugaces esboços nada mais) mas essa certeza e essa ignorância de nós em nós suficiente a fim de que se frente a frente saibamos hemos de nos reconhecer. Então dobro a esquina caminho na tua direção sem saber. Gentes de permeio impedem-nos a visão a que nos destinamos sem quando. O olhar cabisbaixo é tarde se o soergo porque paraste a metros a cumprimentar conhecido — que sabes quem é como é e o que é pra ti — e não sou eu. Eu eu entro na livraria enquanto te despedes do amigo e passas (o pensamento não no amigo em mim) por mim por pouco — tinhas pressa e não podias parar na livraria. Não tivesses e pudesses nos livraríamos da procura. Encontrados iniciaríamos outra procura a dos que se acharam

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em siracusa em altamira a musa a lira a lira a musa hei de encontrar em esmeralda em genovesa a diva a deusa guiné-bissauda vou procurar ela talvez não andará em bogotá ou em suez? não sei será? talvez butão ou karachi que fica ali no paquistão sabe-se lá em caxemira em zaragoza a liramusa a musalira não estará? Ou deia minha/ é que te escondes/ não longe longe/ porém vizinha/ no aquiceará?

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CONURBAÇÃO Uma Cidade me habita mas não a dos moabitas Opulência incalculável inextensa inesgotável Cidade estranha que ousa ser nadamente não-cousa Fundada em nenhum momento no sem-chão do firmamento Não é grega nem troiana uma Cidade cigana Em mim finito infinita uma Cidade coabita

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PLANA CIDADE NÃO ÉS

Plana cidade não és Com teus seios em relevo Teus ombros e tuas nalgas Mas cresceste planejada Pelo que de harmonizado O mapa geral revela (Invernas se te entristeces E chuvicejam teus olhos Primaveras ao sorrires És verão se te acaloras E outoneias quando dormes) Teus cabelos, enrelvados Campinas e pradarias Pés e mãos, periferias Zonas de comércio e fábricas Tuas costas, autoestrada Na cintura a derrapagem Nas coxas as docas, margens Instalações do estaleiro Não te beira o litoral Não te envolve: antes adentra-te

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E sai-te em suor e cheiro De salina do teu centro De salsugem do teu sexo Vazia cidade não és Porque por mim habitada De mim superpovoada: Manténs-te portas abertas Embora eu detenha as chaves Que te abrem e que te encerram * Abres-me as portas Da cidade que és Transito-te (adentro-te Saio-te revés)

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LOS LANZALLAMAS Foi preciso atravessar Sete Cidades de Fogo Alma crepitando em rogo Sem quem a fosse apagar Foi preciso perpassar Por esquinas-labaredas Incendiadas veredas E o meu corpo a chamuscar Foi preciso transitar Entre os homens de fumaรงa (Cada qual uma ameaรงa Um lanรงar chamas ao ar) Sim foi preciso cruzar A fronteira das Queimadas E abandonar Torquemada Ao autocarbonizar-se

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Para que a sede e as lesões De quarto grau me trouxessem Das águas lembrança e houvesse Das águas necessidões Para que as consumições Dos incêndios abrandassem As fogueiras esfriassem O calor das combustões Para que acesos brasões Em cinza suas candeias Entornassem e as aldeias Replantassem seus torrões Para que o amor que tu pões No canteiro em que semeias Refloresça de azaleias: Os botões aos borbotões

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A SANTA GUERREIRA CONTRA A DRAGOA DA MALDADE # Dança e canta Periferia A vida é tanta vai dando cria Lar de pet petiferia De taboa e caixa de lataria ## # Faixa de gaza da policía rota, bope upp e cia: Troquem a fita da barbaria por outra, aquela da Utopia: Não é pra ter (é uma heresia) ter palafita difteria, porrada tanta pancadaria que fere a pele peleferia; 130


Neossensala da escravaria Todos estão na delegacia menina, joão vô e maria. ## # Mas canta e dança Periferia Sobe e desce escadaria Sofre e goza a tua folia Zona livre da rebeldia. Tête-a-tête perfilaria a tua cara com a burguesia, E este filme não perderia: A área nobre da fantasia vencendo a mãe da patifaria.

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MUDANÇA DE ENDEREÇO Perdia o Bonde Chamado Desejo e a Esperança porque morava na sobra de um mucambo longe dos Sobrados na Villa dos Lobos, Rua da Amargura Cidade dos Funcionários Estado de Sítio e Exceção País das Últimas Coisas Mudou-se para uma Casa Grande sem senzala Vila Sésamo perto da Ladeira da Memória na Rua do Sol Cidade de Deus República de Platão fronteira com o País da Cocanha também dito das Maravilhas também dito Shangriaqui

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RUA DO SOL O que tem de luz nas pessoas de luz de riso de lindeza. É que vou beber o rio com canudinho de tomar refresco. O mundo é bom: a água do rio que vai para as frutas deixa um gosto de rio na nossa boca e a memória de nado de peixe e de nado de peixe e gente a nada querer. A linha do equador passa sobre o meu peito Sou brasileiro e povo neste mundo grande. Levo visões delirantes de meninas nuas dourando ao sol de outubro, e da ventania esfarrapando os seus cabelos.

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Nunca passei por aqui Não sei que rua é essa Mas sei que vai dar em nossa casa. Por sermos vivos temos a obrigação de sermos jovens sempre e o dever da aventura E se quisermos restarmos velhos sejamos frívolos e profundos como filósofos que não quiseram enriquecer. E já que nos foi dado o direito de amar eu não aspirarei ao comércio nem ao exército Quero apenas chupar cajus roubados contigo nesta tarde inesquecível de outubro E tocar teu corpo com um desejo manso porque também és fruta e flauta-doce.

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RUA O sinal abre a porteira liberta manadas de carros PM’s com suas claves são sempre quixotes e sanchos em seus rocinantes da honda homens fardados de ternos se lançam à caça da carne vão à colheita de frutas, raízes, quem sabe, debêntures meninos nos seus skates acabaram de inventar a roda Por isso deslizam felizes cachorros buscando no poste figueiras que estavam ali pastores com o Livro na mão têm o mesmo olhar de Moisés o mesmo olhar louco, bravio E os grafites dos muros não dizem mais que as rupestres

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PIXO todos os muros estavam pichados todos os muros Quando acordei todos os muros estavam pichados contando a nossa História e não sabíamos ler Em todos os muros estávamos pichados Era a nossa história, Não podíamos apagar.

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A Cidade Li Lê Santos Até as árvores se inclinam em direção à luz, vergam baobás a buscarem sol através dos prédios, dança vegetal cuja sequência se estende por anos no compasso binário da Cidade. Mas Júlio nem supõe envergadura de troncos, danças ou passagem dos anos, só percebe que sentirá fome antes do almoço, pois não deu tempo de comer o pão sovado, apenas beber o nescafé no primeiro dia de trabalho. Os astros irradiam a influência de escorpião e o espaço está cheio do perfume suave do solstício da primavera que é noticiado como o mais chuvoso da última década. A Cidade é sempre quente e molhada ou muito quente e seca, a pele acostumada não reclama, a expectativa é apenas sobre a mística natural das flores que ainda não abriram e das pétalas que não caíram, sujando o chão. Crianças sentem com mais propriedade os ciclos de renovação, quando as configurações do mundo magicamente transformam-se ao desligarem o modus primavera e ligarem o modus verão, a diferença entre ir à escola e brincar em férias; mas para adultos, em circunstâncias comuns, as estações passam sentidas na conveniência de carregar guarda-chuvas e consertar telhados. As gotas caíam gordas, barulhentas e autoritárias no balde de metal orquestrando mil notas de caos na cozinha alugada, mas Júlio não podia cuidar da casa agora, tinha que pensar em como atravessar a Cidade em dia de chuva sem molhar-se demais, sem chegar com cheiro abafado de asfalto úmido, tendo as palavras e o juízo no lugar, e o mais improvável, no horário marcado. Adivinhava os carros enfileirados, o entediado mormaço nos ônibus fechados, a lentidão enfadonha e a raiva inútil das enchentes próximas ao terminal da Parangaba que, às cinco e quinze da manhã, tornam levantar-se da cama uma tarefa estúpida. Mesmo que uma intuição otimista lhe dissesse que não seria a cooperativa de distribuição de alimentos onde passava a trabalhar que mudaria de lugar naquela manhã, como todos, tinha que chegar 140


ao lugar previsto com duas horas de antecedência, pois essa era a maior distância no raio circunferencial possível entre um ponto e outro da Cidade. Se tivesse que se deslocar outra vez, estando lá pontualmente, ou seja, com duas horas de antecedência, tudo correria bem. A mãe de Júlio ensinara essa regra reforçando-a com exemplo. No dia anterior a Igreja de Fátima aparecera na Av. Perimetral, na altura do Jangurussu, e a mãe penitente, indo dar graças pelo emprego alcançado, sentiu-se abençoada por ter se deslocado da Av. 13 de Maio ao terminal de Messejana em tempo de receber sua unção sob a luz dos vitrais coloridos. Foi a primeira vez, desde 1974, que a Igreja de Fátima ressurgira noutro lugar em dia 13, o que foi recebido como sinal de sorte pelos fiéis. Ano de boas safras aquele. O mais comum era que as residências ressurgissem noutros locais, mais que as entidades, autarquias, empresas e igrejas, e a esse pensamento cheio de braços Júlio se agarrava para atenuar a ansiedade de principiante. Ainda que os lugares reaparecessem em locais diferentes com a mesma aparência que sempre tiveram – fachadas, alvenaria, portões e dobradiças – era cobrada plena atenção, pois qualquer deformação no entorno das margaridas de concreto brotadas do chão as modifica: árvores que faltam ou surgem nas calçadas, placas indicativas, cores diferentes... a menor alteração da paisagem e teias de referências se desfazem, trivialmente espanadas. O rapaz que vende bilhetes na parada de ônibus é sempre um dos primeiros a saber novas cartografias. A Cidade, uma vez amanhecida, tinha vinte e quatro horas de certa configuração e paisagem. Amanhã era outro dia, outro itinerário e outras perguntas. Acostumaram-se ao estranhamento diante de súbitos prédios a cobrir paisagens, e se aquilo irritava os que gostavam da brisa vespertina, com alguma sorte suas casas podiam reaparecer no Serviluz, para que o quintal de cimento tomado por areia branca assistisse as patas do cão vigia beijadas por uma onda marítima. A chuva passou a rarear, e a luz que atravessava as nuvens fulgurava gotas no azul celeste da lataria dos ônibus a brilhar, a lama no meio fio brilhava, o verde do jardim de uma loja de construção, o mesmo verde mutável dos olhos de Júlio brilhavam e o sol estava lá, faiscando a Cidade, embranquecendo linhas divisórias no asfal141


to, membranas de um organismo vivo. Chegando ao trabalho, Júlio olhou o emborrachado relógio de pulso e viu que era a hora exata, mas ficou surpreso com o atraso do amigo que o indicou. Arnaldo chegou abatido à cooperativa, estático como um funcionário público num guichê, grampeando papéis e chamando senhas. Sua casa desapareceu. Numa quarta de bar e futebol televisionado, voltara à residência no meio-fio da madrugada e acontecera de sua casa ir para o Breu. Uma casa no Breu é um enigma fora da Cidade, raros são os que recuperam seus lares ao serem confrontados com esse ponto no mapa; os mais insistentes começam as buscas na Fronteira, e naquela manhã Arnaldo voltara de lá sem ânimo nem pistas. Ainda assim foi atencioso e concentrado (mesmo que a casa não estivesse lá), esteve ao lado de Júlio a maior parte do tempo, silencioso e discreto (em algum lugar da Fronteira), antecipando os erros do amigo evitando que os cometesse (num canto escondido do Breu), alertando sobre em quem podia ou não confiar. O trabalho numa distribuidora de alimentos é bastante sistemático e sem grandes surpresas: as caixas dispostas por setores, o de Júlio e Arnaldo era o galpão dos cereais e eles encarregados de receber ou despachar mercadorias. Assim explicaram que seus dias correriam por entre cubos de papelão pardo, transportando fardos de um lado para o outro, organizando a sessão e ao fim do expediente varrendo e esfregando o chão queimado, vermelho como tomates amassados, do galpão. Foi o que todos fizeram o dia inteiro, cerca de quinze homens, num espaço de quase duzentos metros quadrados. Júlio saiu exausto e solidarizado por Arnaldo, afinal aquilo podia ocorrer a qualquer um: atravessar o Breu todas as noites em busca de casa, comprar a madrugada à custa de uma esperança sem vias, voltar para Cidade e trabalhar no dia seguinte era algo a que todos estavam sujeitos. Voltando ao lar pensava no amigo que àquela hora dormia dentro de um vagão chegando à Fronteira, travessia de ida e de volta seriam todo o descanso que teria naqueles tempos até encontrar o que desaparecera de si. Júlio lutava contra a aspereza da urdidura dessa trama em seus lençóis, e foi vencido pelo sono enquanto rezava um Pai Nosso atravessado, uma ladainha polifônica que entrecruzava o “livrai-nos de todo mal” e o “que minha casa jamais vá para o Breu, amém.” 142


Na fila para bater o ponto, Júlio disse a Arnaldo que o acompanharia nas buscas, no que este recusou e aquele rebateu oferecendo um pacto de reciprocidade caso semelhante transtorno lhe acontecesse depois. À noite, após o expediente, tomaram uma sopa de cabeça de galo amarela de colorau com as gradações do crepúsculo que não viram do galpão, e pegaram o trem das dezenove horas. Júlio sentou numa cadeira próxima à saída, escorou a cabeça na janela de vidro e apoiou o pé no joelho ensaiando uma soneca. Arnaldo ficou em pé, segurando a barra de ferro fria de cheiro acre impregnado nos dedos, com olhos atentos buscando a casa amarela na paisagem distorcida pela ânsia de velocidade do maquinista. Sempre que sentisse esse odor metálico de ferro frio, sujo e travento, lembraria das viagens ferroviárias e da paisagem árida da Fronteira. No Breu, andaram a noite toda conversando com gente desconhecida, desatenciosa, tendo que explicar a dinâmica dos imóveis que se moviam na Cidade, o que dispendiava muito tempo. Júlio e Arnaldo passavam horas ouvindo perguntas que lhes pareciam oblíquas se feitas por adultos, as respostas, sempre evidentes, se tornaram aborrecidas. Era inútil conversar com muitos, mas já quase amanhecendo encontraram um homem de olhar lateral que os levou ao bar onde costumava beber um velho Moisés. Moisés era conhecido por encontrar Casas Ressurgidas no Breu. Para quem não quisesse deixar A Cidade, era melhor que vendesse a casa no Breu e comprasse outra próxima ao seu antigo local de morada, e Moisés mediava esse tipo de transação. Sob um véu de informações obscuras, havia uma legião que aguardava a chance de ocupar Casas Ressurgidas no Breu. Afinal de quem era o direito sobre um objeto independente, sem conhecimento do proprietário em território estranho? Não há leis que delimitem isso no Breu, há somente a lógica do mais forte que determina quem chegará primeiro e quem conseguirá permanecer. Moisés tinha um sobrenome e uma arma, e passara a noite contando a confusão dos diabos que foi expulsar a gente que tomara a casa alheia, porém quando Arnaldo e Júlio chegaram ao bar não o encontraram. Um garçom orientou como achá-lo, mas, àquela hora, perderiam o primeiro trem. 143


Voltando à estação, os dois conversavam sobre quão perto haviam chegado de encontrar a casa. Ponderaram a possibilidade de correr imediatamente à morada do velho e faltar ao trabalho, mas precisavam daquele emprego. A expectativa interrompida era uma onda que quase desembocava na praia e regressava antes de quebrar na areia, águas que talvez trouxessem um búzio, uma estrela, uma pedra mais cristalina; qualquer coisa que poderia ser boa... e não acontece (!) deixa um buraco na memória e um vazio para o vindouro. A notícia de que Moisés existia, ao contrário do que uma pista segura poderia causar, deixou Arnaldo ainda mais angustiado, o que antes era perene desamparo se transformara num principio de desespero. Era A Casa onde nascera sobre uma cama de casal e lençóis rubros, o único vestígio de que seus pais anônimos existiram na presença de corredores com cheiro de vísceras, risos e almoços dominicais. Você acha que vamos encontrá-la, Júlio? Um fio de resposta é cortado por uma rajada de som, o barulho do trem que se aproxima da estação. Fitam a vegetação escura que vai luminescendo no que o dia torna a nascer. Arnaldo fecha os olhos, suspira, e volta a interrogar Júlio, perguntando baixinho: - Tem notícias da Marina? Júlio vasculha palavras na bagunça do pensamento e responde que Marina morrera há algum tempo. Marina colega de escola, vizinha na Vila Arteiro e depois namorada e depois noiva de Júlio. Marina, aquela mesma, a única que conheciam. Arnaldo descruza os braços, alisa os bilhetes com a ponta dos dedos, como Dali fazia com seus bigodes ao buscar um segredo doentio entre os fios alinhados, vê o rosto precocemente envelhecido de Júlio e dispara uma gargalhada. De onde você tirou isso? Marina está viva, voltou de Manaus semana passada. Eu vi! Eu e Glauco.

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Aquela idéia fixou-se rapidamente como um inseto no vidro do pára-brisa, iludido e esmagado. A pequena e violenta desconfiança de que Marina estava viva cresceu por dias, até que o inseto tornou-se um polvo de tentáculos imensos e pegajosos abraçado no crânio de Júlio pelo lado de dentro. Os dias corriam como carros esportivos, escandalosos, vermelhos, barulhentos, e nada foi somado à informação de que Arnaldo e Glauco a viram na Praça do Jardim América. O polvo bailava com seus tentáculos, cingindo mais forte e úmido, e os carros corriam mais escandalosos e vermelhos, quando Júlio fora levado a caminhar à noite pela Av. Júlio Cesar e chegara à praça, onde esperou por Marina madrugada adentro, e como não esperar? Como não fazer nada a respeito, não abrir e fechar portas e reabri-las aguardando que os olhos prodigiosos do acaso tragam-na de volta do modo como a levaram? O vulto dela naquele lugar, em sua memória metafísica, no sono da praça que dormia vazia sonhando com os pés de Marina. Agora Júlio sonhava o sonho da praça em vigília, tornando-o maior, acrescentando o prolongamento de passos. Na sombra da madrugada via que as flores do Jardim América apunhalavam a terra penetrando profundíssimas raízes e sangrando corolas vermelhas, mas ele as dispensou, até as mais insinuantes, pois Marina não aparecera e Júlio voltou para casa com uma toupeira no peito, embrenhada na escuridão, cavando mais e mais fundo. Interromperam as buscas da casa por dias. Arnaldo tinha febres terríveis, tremores, alucinações e uma licença. Sentindo-se minimamente recuperado, voltou a trabalhar e a atravessar a Fronteira. Dessa vez foram ao Breu com o objetivo de encontrar o velho negociador e assim o fizeram logo ao chegar. Moisés ofertou um valor que Arnaldo achava justo por uma casa, mas não por sua Casa, não pela recordação de tudo que vivera antes dela desaparecer, antes do nascimento e das palavras. Precisava pensar. Não há tempo, Moisés rebateu, é preciso vendê-la antes que voltem aqueles abutres. Pressionado, Arnaldo sentiu que o que havia de valioso na casa era um passado que agora inexistia, um invisível e belo cordeiro alegórico que precisava ser sacrificado ao deus que traçava o seu destino. Liberto e resignado, Arnaldo aceitou. Interessado em restabelecer a 147


vida com a qual estava acostumado, ainda que esta pudesse mudar de lugar a qualquer momento. Encerrada a negociação, Arnaldo ofereceu um tanto do dinheiro a Júlio, mas este recusou; por mais que quisesse sentir-se contente pelo êxito da empreitada, conseguia apenas organizar seus pensamentos bem como fazia com os fardos de cereais de sua sessão, com grande esforço e dor. Os ventos pavorosos da impermanência entraram pelas rachaduras de seus pés escuros, subiram por veias, chegaram ao coração e o compeliram com uma névoa espessa que nublou até a visão que tinha do amigo. Estava viva, ia procurá-lo, assegurou, e por fim Arnaldo tinha menos motivos para mentir que a mãe de Marina. Entre todas as coisas que podia ambicionar, a única que Júlio queria era Prever. Prever em que lugar do passado Marina desaparecera e onde ressurgiria. Prever a que horas a encontraria. Prever em qual esquina da Cidade a verdade o espreitava para saltar em cima dela. Se era real que estava viva, era certo que o procuraria ao regressar, mas não que demorasse tanto. Atendeu ao telefone esquecendo o tempo durante a longa conversa que saltou das banalidades mais cínicas de um distanciamento de anos à confissão de que pensavam um no outro, e marcaram um encontro. Mas ela tinha que demorar tanto a ligar? Especulou o que acontecera para que ela regressasse, alegrou-se inescrupulosamente com a chance do trabalho em Manaus ter sido um fiasco e com os planos frustrados que a traziam de volta à Cidade... Ah, e como era delicada a voz do cadáver insepulto, mas era tão fácil convencer a si mesmo de que o que se está ouvindo é o que se quer ouvir que não descartava as chances daquela ligação ser uma farsa. Releu a mensagem que saltava da tela do celular, as letras garrafais, urgentes, grafavam o endereço do encontro. Anotou o local num pedaço de papel por desconfiar das informações virtuais que somem, descarregam, e de uma hora para outra, fatalmente, se apagam. Naquela manhã de sábado, Júlio se aprontava bem cedo para ir ao encontro na Beira Mar. Chegou ao lugar marcado e sentou-se atento aguardando Marina, contando com a chance de seus lugares 148


terem sido mudados de posição e de sua vinda ser perpassada por cenários nunca vistos, por trajetos desabituados e laçáveis pelo espanto. Ainda não era razoável telefonar e saber de sua chegada, ia parecer ansioso. Ao invés disso, abriu os olhos para os rastros da Cidade, sua arquitetura que era uma realidade fora e dentro, espelho que a refletia. Na calçada por onde caminhou, Júlio percebeu os rostos morenos daqueles que trabalhavam com sabores de cocos e frutos do mar e os de seus compradores, um aposentado que procura meninas de onze ou doze anos e um chileno ingênuo que corre todas as manhãs de uma ponta a outra da praia com seus tênis e sua pele chamuscada. O moleque gotejando na calçada o sorvete de cor e sabor laranja, tão azedo e suculento que todos os que por ele passam salivam a sensação na língua do menino. O desgaste da estátua de uma índia que surgira ali há algumas décadas, sua cor de pedra sedimentar, cheia de camadas sobrepostas, uma descascando sobre a outra o bronze falso de sua virgindade. Os diques que não conseguem represar a água e conter a fúria contra os arranha-céus, a ganância e a corrupção litoral. Os muros com cartazes afixados, mulheres seminuas e anúncios de cartomantes. Um grafite cheio de simbologias maias, seus deuses e calendários circulares incrivelmente assertivos que mantiveram aquele povo seguro por séculos, preparados para tudo! Menos para agir rapidamente diante do Imprevisível. Como a chegada dos espanhóis. Há um mistério nos objetos da Cidade e aquele homem que buscava o tempo perdido reconhecia um espírito vibrante em tudo que havia ao redor. Eram estátuas, diques e totens, guardiões do segredo da Jurema, das águas e das eras. Sentou-se num banco de concreto para esperar o que havia de vir, pediu uma bebida ao ambulante e bebeu olhando o fluxo e refluxo do mar. Faltavam duas horas para Marina estar atrasada.

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CATADORAS/CATADORES DE PAPEL

Bárbara Costa Ribeiro. Nasceu em 1994, Macapá, mudando-se para Fortaleza em 2012. Escreve para um jornal de sua cidade há alguns anos, compôs o conselho editorial do fanzine A Literação, dos estudantes de Letras da Universidade Federal do Ceará. Colecionadora de palavras, conchinhas e papéis de bala, trabalha numa compilação de memórias inventadas que podem vir a tomar corpo de livro

Carlos Nóbrega & O Poeta de Meia-Tigela. O Poeta de Meia-Tigela e Carlos Nóbrega, vulgo Alves de Aquino, são quase univitelinos: o focinho de um é a poesia do outro e vice-verso. Fizeram: Miravilha, Breviário, Memorial de Bárbara, 8verbetes, Girândola, O quanto sou, Conserto 1nico em mim menor, etc. e tal. Aliás, etc. e tal é uma obra que continua inédita. Mas quem viver, lerá

Li Lê Santos. Escreve narrativas longas e miúdas. Pesquisadora do CELAR (Centro de Estudos Literários e Laboratoriais do Ácido Ribonucleico). Investiga, entre outras edições Quilombhoje, os Cadernos Negros. Tem interesse no Surrealismo. Desde 1982 o jarro está sob a tartaruga, em Itapuã (Bahia).

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Agrade/cimentos a Bárbara Costa Ribeiro, Isabel Costa, Li Lê Santos, Mano Capone, Ralphe Alves, Talles Azigon e Tetê Macambira pela colaboração no poema “Pixo” (e com o devido pedido de desculpas aos piXadores legí mos – pela pichação poli camente correta em parede interna de casa própria) A Erik Sa e pela par cipação especial na ilustração de “Mundano. Marco-zero” A Frederico Régis pelas BikeBelas; pela concessão das imagens do seu livro Minutas do Caos - u lizadas nos poemas“Civil” e “Vestal” – e pelas imagens de Os Países (Campanha Ultramundos) – nos poemas “Da Interrupção” (com o Homem Caminhando, de Alberto Giacome ) e “Sintomas” A José Tenório de Aquino pela vida e pelo brinquedo de infância que possibilitou a ilustração de “A Cidade Horizontal” A Lúcio Cleto (Luĉjo Gaivota) pelos peixinhos do “Rio, Sem Lençóis”, pela cidade da p. 68 e pelo encanamento de “Cruzamento” A Mar ne Kunz, Narcelio Grud, Patrick Walsh e Rosanni Guerra pelas grafitezas da vida A René Magri e por sua “femme cachée” em “[Siracusa e adjacências]” Ao Zé Tarcísio Imaginoso pelos ensinos e pelos painéis Percurso 01 (300 x 180 cm) e Percurso 09 (300 x 180 cm) da série Percursos Urbanos, pp. 58 e 76, em fotografias de Gen l Barreira *

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Em “Arrebatamento”, Bárbara de Alencar conforme Zenon Barreto, Praça Bárbara de Alencar, Fortaleza (esta, “a-cidade” a que se referem as ruas e avenidas a seguir, exceto quando outra especificada) Em “Ausência”, árvore decepada na Rua Álvaro Fernandes, quase Avenida João Pessoa Em “Rio Cocó”, vazamento da CAGECE no Parque da Liberdade ou Cidade das Crianças, Centro; na página seguinte ao poema “Cloaca”, poste e lixo na Rua Juvenal Galeno A fotografia do Trecho MUITO Perigoso – a caminho da Barragem do Açude Orós Em “Biografia Geral” pichação registrada na Rua General Bezerril. Na página seguinte, urubus de qualquer cidade A “Fuga de presos” antes de “Funk Opus 1” costuma dar-se na Rua do Rosário, Centro Em “Normal” o garoto flagrado armado com seu brinquedo na feira de Alto Paraíso de Goiás Antes de “Pei, pei: matei”, o prestativo imprestável 190 para casos de emergência: Praça dos Leões. Na fotografia menor o cidadão Fernando Albuquerque a esperar atendimento após treze apertadas de botão e sem saber se feliz ou infelizmente a polícia não vem A fotografia após “Circuito Fechado” – Rua sem saída – feita no caminho das Loquinhas, Alto Paraíso de Goiás A fotografia de Ritinha – encontrada em vários postes do Bairro José Bonifácio: já a própria gatinha... As chuteiras dependuradas em “A prova é estranha que só”, não recordamos onde Na Rua Padre Miguelino a Lésbica é Futurista Em “O Funk das ameaças”, estêncil em muro da FACED-UFC A fotografia entre os poemas das Barroadas – Baby you can drive my car –, bem como a que deu título ao poema “Close errado”, na Rua Major Facundo

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Em “Para Lene”, cartaz fotografado em poste da Avenida 13 de Maio. Por falar nisso: cadê a ciclovia, prefeito? Na Rua Joaquim Magalhães – Só morremos de tristeza Em “Cruzamento”, brinquedo na montra de Livraria da Rua Major Facundo; também nesta o “Close errado” O inútil cartaz de proibição para carroças e vendedores ambulantes em “O Catador e o flanelinha” – na Avenida Duque de Caxias. O carrinho de catador, Major Facundo O protesto em “O Requerimento”, Avenida 13 de Maio. Quando do registro fotográfico, uma senhora que passava – referindo-se aos dizeres da pichação – comentou “ridículo, né?”. “Não achamos”. E a senhora saiu duplamente indignada. Estêncil “Temer jamais”, Rua Assunção A rolinha e os dois periquitos de “Sinal”, na Rua Floriano Peixoto As mulheres em “Plana cidade não és” – novamente Major Facundo A fotografia da janela, na versão II de “Bem-São”, feita do interior do quarto do poeta, em manhã de chuva O portão fechado em “Esta hora em que todo o comércio...” encontra-se na subida ao Horto do Padre Cícero em Juazeiro do Norte; o pombo sobre o poste foi fotografado no Bairro Centro, de Fortaleza, e o pássaro seguinte na cidade do Crato Os estênceis em “A santa guerreira”, Rua Barão de Aratanha com Domingos Olímpio e Floriano Peixoto com Clarindo de Queiroz Em “Mudança de endereço”, Castelete do Parque da Liberdade ou Cidade das Crianças, Centro A irônica pichação com tinta branca em portão preto ao lado de parede branca intocada, Rua Desembargador João Firmino, Fortaleza Quanto à fotografia anterior, da Rua do Segredo (poema “Rua do Sol”), bom... nunca passamos por ali * Na primeira orelha, a “entrada ao lado” fica na Rua Major Facundo; na segunda orelha, estêncil do telefone com recado pichado para a OI: Avenida Santos Dumont 153


Não cantes tua cidade, deixa-a em paz Carlos Drummond de Andrade, “Procura da poesia” 154


FORTUNA (UNICAMENTE) CRÍTICA DOS AUTORES “Depois de O Quanto Sou, do Poeta de Meia-Tigela, fiquei sem saber quem sou” (Hamlet, Príncipe da Dinamarca) * “Que bárbaro!” (Conan da Ciméria, primo de Bárbara Costa Ribeiro, a propósito do Memorial Bárbara de Alencar & Outros Poemas, de Carlos Nóbrega) * “Desconcertante!” (Segundo Serenus Zeitblom, pronunciamento de Adrian Leverkühn, compositor alemão, referindo-se ao Concerto n°. 1nico em Mim Maior para Palavra e Orquestra. Poema, de Carlos Nóbrega) * “Nossa! Esse livro é a minha cara” (Branca de Neve, Princesa do Reino de Grimm); “Como gostaria de tê-lo escrito” (afirmação uníssona de Camilo Castelo Branco e Branquinho da Fonseca, romancistas portugueses, a respeito de Lápis Branco, do Poeta de Meia-Tigela) * “Tolle et lege, tolle et lege (toma e lê, toma e lê)” (coro de crianças coordenado por Li Lê sugerindo a Agostinho dos Santos o estudo do Breviário, do Poeta de Meia-Tigela) * “Wonderful” (O Chapeleiro Maluco, ao concluir a releitura de Miravilha — Liriai o Campo dos Olhos, de Carlos Nóbrega)

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3464.2222

Composto em Candara (corpo) e Arial Black (títulos) pela Expressão Gráfica e Editora para Marcadágua Édicções: agosto de 2016. Botagem de 400 exemplares: não deu pra quem quis


Os orelhões da cidade animais em extinção o cidadão não há-de desesperar no filão (a fila em que se dizia mal da pátria e do patrão enquanto a gente queria outra comunicação (a fila em que se escutava outras línguas em ação em que se tagarelava mais do que na ligação (a fila que se esvaíra junto com as fichas cartão vindo parar bem na mira desta orelha-olheirão)))

ISTO NÃO É UMA ORELHA Esta capa não tem uma orelha Não leva brincos de pedra falsa, bijuteria barata de loja chinesa, Aquelas palavrinhas de sempre, loas, elogios contratados; As mentirinhas caíram no bueiro, arderam no asfalto, foram empaladas no ancinho dos garis. E o livro ficou amarelo, desataviado, duro que nem a cara do Van Gogh.


Seria Sinop Sobral Sofia Salta Sahil? Silves será Saloá? Sabará Sarutaiá? - Segredo, Seridó? - Sério, Sanharó! Sabya? Seul Asela. Cali, Quito Azara. Soldeu Split em Sehore. Zigong! Skiv Falaise . . . Konduz Antsla Akola. Ho, Lima Dahra Sucre Cádiz Kiel Safed. Sitka Asha Graça . . . João cidade será Pessoa? E Nice e Finiş, Cabul.

Carlos Nóbrega & O Poeta de Meia-Tigela

acidade. Carlos Nóbrega e O poeta dmt  

"Acidade, em sua corrosilírica escritura, dissolve esses totens, pulveriza esses tabus. É qual dissessem, as páginas suas contidas sob uma d...

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