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METODOLOGIAS DA PESQUISA PARA A ENFERMAGEM E SAÚDE da teoria à prática


METODOLOGIAS DA PESQUISA PARA A ENFERMAGEM E SAÚDE da teoria à prática

Maria Ribeiro Lacerda Regina Gema Santini Costenaro (ORGANIZADORAS)

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M593

Metodologias da pesquisa para a enfermagem e saúde: da teoria à prática / Organizadoras: Maria Ribeiro Lacerda, Regina Gema Santini Costenaro - Porto Alegre: Moriá, 2015. 511 p. : il. Bibliografia ISBN 978-85-99238-17-2 1. Enfermagem 2. Pesquisa em enfermagem 3. Pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico I. Lacerda, Maria Ribeiro II. Costenaro, Regina Gema Santini III. Título NLM WY20.5 Catalogação na fonte: Rubens da Costa Silva Filho CRB10/1761


Autores

Adriana Dall’Asta Pereira Enfermeira. Doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Professora e coordenadora do curso de graduação em enfermagem do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria/RS. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Empreendedorismo Social da Enfermagem e Saúde do GEPESES. Adriana Dornelles Carpes Farmacêutica. Doutora em química pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Professora adjunta na área de ciências da saúde no programa de mestrado profissional e nos programas de residência multiprofissionais e residência em enfermagem obstétrica da UNIFRA,Santa Maria/RS. É coordenadora do Programa Nacional de Reorientação dos Profissionais da Saúde (Pró-Saúde) e do PET-Saúde/Vigilância em Saúde. Representa a IES no Conselho Municipal de Saúde de Santa Maria, onde é conselheira titular. Membro do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Saúde (GIPES). Alacoque Lorenzini Erdmann Enfermeira. Doutora em filosofia da enfermagem, pesquisadora 1 A do CNPq. Professora titular do departamento de enfermagem e do programa de pós-graduação em enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração, Gerência do Cuidado e Gestão Educacional em Enfermagem e Saúde (GEPADES). Aline Lima Pestana Magalhães Enfermeira. Mestre em enfermagem, doutoranda do programa de pós-graduação em enfermagem da UFSC, bolsista CNPq, membro do GEPADES.


6 Maria Ribeiro Lacerda e Regina Gema Santini Costenaro (orgs.)

Ana Lucia de Lourenzi Bonilha Doutora. Professora titular, programa de pós-graduação em enfermagem, escola de enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente na disciplina Abordagens quantitativas em pesquisa. Ana Paula Hermann Doutora em enfermagem pelo programa de pós-graduação em enfermagem da Universidade Federal do Paraná (PPGENF-UFPR). Mestre em enfermagem pelo PPGENF-UFPR. Especializanda em Gestão em Saúde pela UFPR. Supervisora de enfermagem da Unidade de Imagem do Complexo Hospital de Clínicas da UFPR (CHC-UFPR). Membro do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Cuidado Humano em Enfermagem da UFPR. Membro do Comitê de Ética em Pesquisa do CHC-UFPR. Membro do Núcleo de Segurança do Paciente do CHC-UFPR. Membro da Comissão de Educação Permanente em Enfermagem CHC-UFPR Anice de Fátima Ahmad Balduino Doutora em enfermagem pelo PPGENF/UFPR. Mestre em enfermagem pela UFPR; especialista em administração hospitalar pela São Camilo; especialista em enfermagem médico-cirúrgica e graduada em enfermagem e obstetrícia pela UFPR. Membro do Grupo de Estudos Multiprofissional em Saúde do Adulto (GEMSA/UFPR). Curitiba, Paraná. Brasil Antonio Marcos Tosoli Gomes Professor titular da área de doenças contagiosas do departamento de enfermagem médico-cirúrgico e coordenador do programa de pós-graduação em enfermagem da faculdade de enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro(UERJ). Pesquisador 1D do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Jovem Cientista do Nosso Estado da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro e Procientista da UERJ Benedita Gonçales de Assis Ribeiro Mestre. Docente do curso de enfermagem do departamento de enfermagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Doutoranda do programa de doutoramento interunidades da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto/SP (EERP-USP). Pesquisadora do Núcleo de Estudos na Saúde do Trabalhador da Universidade Estadual de Londrina (NUESTUEL).


8 Maria Ribeiro Lacerda e Regina Gema Santini Costenaro (orgs.)

Dirce Stein Backes Enfermeira. Doutora em enfermagem. Professora do curso de graduação em enfermagem da UNIFRA, Santa Maria/RS. Líder do GEPESES. Professora e coordenadora do programa de mestrado profissional em enfermagem materno-infantil da UNIFRA, Santa Maria /RS. Dora Lúcia Leidens Corrêa de Oliveira PhD. Programa de pós-graduação em enfermagem da UFRGS. Docente na disciplina Abordagens qualitativas em pesquisa. Eliane Tatsch Neves Doutora em enfermagem. PhD pela EERP-USP. Professora adjunta nos cursos de graduação e pós-graduação/mestrado e doutorado em enfermagem. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa-Cuidado à Saúde das Pessoas Famílias e Sociedade (PEFAS/UFSM). Eloita Pereira Neves Enfermeira. Doutora pela Catholic University of America, nos Estados Unidos. Professora titular aposentada da UFSC. Doutora e pós-doutora em enfermagem pela Universidade da Califórnia, São Francisco, EUA. Fabiana Villela Mamede Enfermeira obstétrica. Professora livre-docente do departamento de enfermagem materno-infantil e saúde pública da EERP-USP, com pós-doutorado pela Faculty of Nursing University de Alberta, Canadá. Francisca Georgina Macedo de Sousa Enfermeira. Doutora e pós-doutora em filosofia da enfermagem, docente da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), líder do Grupo de Estudo e Pesquisa na Saúde da Família, da Criança e do Adolescente (GEPSFCA/UFMA). Greice Machado Pieszak Enfermeira. Mestre em enfermagem pela UFSM/RS. Professora da Universidade Regional do Alto Uruguai e das Missões (URI/SANTIAGO/RS). Hilda Maria Barbosa de Freitas Enfermeira. Doutora em ciências pela UNIFESP. Professora da UNIFRA, Santa Maria/RS. Enfermeira assistencial da Unidade de Terapia Intensiva Pe-


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diátrica do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM/RS). Coordenadora do programa de residência em enfermagem obstétrica. Ingrid Meireles Gomes Enfermeira do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Doutoranda do PPGENF/UFPR, mestre em enfermagem pelo PPGENF/ UFPR, bacharel e licenciada em enfermagem pela UFPR, técnica em administração pela Escola Técnica de Formação Gerencial. Atua nas áreas de transplante de células-tronco hematopoiéticas e cuidado domiciliar. Ivete Palmira Sanson Zagonel Enfermeira. Doutora em filosofia de enfermagem pela UFSC. Docente do programa de pós-graduação em ensino nas ciências da saúde das Faculdades Pequeno Príncipe (FPP). Diretora acadêmica das FPP. Líder do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Enfermagem (NEPEE) das FPP. Ivone Evangelista Cabral Doutora em enfermagem. Pós-doutora na McGill University. Professora titular. Departamento de enfermagem materno-infantil. Escola de Enfermagem Anna Nery. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisadora do CNPq. Jaqueline Dias do Nascimento Doutoranda e mestre em enfermagem pelo PPGENF/UFPR. Especialista em gerenciamento de enfermagem pela Universidade Positivo (UNICEMP), Enfermeira da coordenação de curso de enfermagem da UFPR. Membro do Núcleo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Cuidado Humano de Enfermagem (NEPECHE). Jéssica Alline Pereira Rodrigues Mestranda em enfermagem. Especialista em terapia intensiva. Enfermeira do transplante de medula óssea. Membro do NEPECHE. Juliana Balbinot Reis Girondi Doutora em enfermagem pelo programa de pós-graduação em enfermagem da UFSC. Professora adjunta II do departamento de enfermagem, da residência multiprofissional da UFSC e do programa de mestrado multiprofissional da UFSC. Pesquisadora do Grupo de Estudo sobre Cuidados em Saúde da Pessoa Idosa (GESPI/UFSC).


10 Maria Ribeiro Lacerda e Regina Gema Santini Costenaro (orgs.)

Juliana Silveira Colomé Enfermeira. Doutora em enfermagem. Professora do curso de graduação em enfermagem da UNIFRA, Santa Maria/RS. Membro do GEPESES. Keila Maria de Azevedo Ponte Marques Enfermeira. Doutora e mestre em cuidados clínicos em enfermagem e saúde pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Especialista em enfermagem cardiovascular pela UECE. Docente do curso de graduação em enfermagem das Faculdades INTA em Sobral/Ceará. Larissa Sydor Victor Enfermeira. Graduada em enfermagem pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). Residência em enfermagem em saúde da criança e do adolescente pelas FPP. Enfermeira atuante na Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica do Hospital Pequeno Príncipe. Lygia Paim Enfermeira. Professora titular aposentada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Formação em enfermagem pela Escola de Enfermagem Anna Nery, com o título de livre-docente e doutora pela UFRJ. Pioneira na constituição dos grupos de pesquisa em inventos e adaptações tecnológicas do cuidar humano de enfermagem e de estudos de história do conhecimento de enfermagem. Sócia honorária da Associação Brasileira de Enfermagem. Luciane Favero Doutora em enfermagem. Especialista em enfermagem pediátrica e neonatal. Docente da Universidade Positivo (UP). Vice-líder do Núcleo de Estudos Cuidado e Ensino em Saúde (NECES-UP). Maria Angélica Motta da Silva Esser Enfermeira obstétrica. Doutoranda em enfermagem no programa de saúde pública da EERP-USP. Diretora da Faculdade Pitágoras, de Londrina. Maria Ribeiro Lacerda Graduada em enfermagem e obstetrícia pela UEL. Mestre e doutora em enfermagem pela UFSC. Atualmente é professora aposentada da UFPR e professora permanente do programa de pós-graduação em enfermagem da UFPR. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Nível 2 - CA EF – Enfermagem. Coordenadora do NEPECHE/UFPR.


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Matheus Viero Dias Enfermeiro. Mestre em enfermagem. Doutorando em enfermagem pelo programa de PPGEnf da FURG. Membro do GEPESES. Melissa Orlandi Honório Locks Doutora em enfermagem pelo PEN/UFSC. Professora adjunta do departamento de enfermagem da UFSC. Editora de submissão da Revista Texto & Contexto Enfermagem. Pesquisadora do Grupo de Estudo sobre Cuidados em Saúde da Pessoa Idosa (GESPI/UFSC). Mercedes Trentini. Enfermeira professora aposentada pela UFSC. Graduada pela Escola de Enfermagem Alfredo Pinto/RJ. Especialista em condições crônicas renais pela University of California, San Francisco, nos EUA. Mestre em saúde do adulto pela UFSC e doutora em enfermagem pela University of Alabama at Birmingham (UAB), EUA. Patrícia Santos Prudêncio Enfermeira. Doutoranda em enfermagem EERP/USP. Mestre em ciências pela mesma instituição. Especialista em enfermagem com cuidado pré-natal pela UNIFESP. Regina Gema Santini Costenaro Enfermeira. Doutora em enfermagem pela UFSC. Professora do curso de graduação em enfermagem e do programa de pós graduação e mestrado profissional em enfermagem materno-infantil e no programa de residência em enfermagem obstétrica da UNIFRA,Santa Maria/RS. Coordenadora do programa de educação para o trabalho (PET) - Redes de Atenção à Saúde. Líder do GIPES. Renata Perfeito Ribeiro Doutora. Docente do curso de enfermagem e do mestrado em enfermagem do departamento de Enfermagem da UEL. Coordenadora do NUESTUEL. Roberta Costa Doutora em enfermagem pelo PEN/UFSC. Professora adjunta II do departamento de enfermagem e do programa de pós-graduação em gestão do cuidado em enfermagem (mestrado profissional) da UFSC. Editora de submissão da Revista Texto & Contexto Enfermagem. Consultora do Ministério da Saúde para o Método Canguru. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Saúde da Mulher e do Recém-nascido (GRUPESMUR).


12 Maria Ribeiro Lacerda e Regina Gema Santini Costenaro (orgs.)

Rosiane Filipin Rangel Enfermeira. Mestre em enfermagem pela FURG/RS. Professora da UNIFRA, Santa Maria/RS. Samuel Spiegelberg Zuge Enfermeiro. Doutorando em enfermagem pela UFSM. Professor colaborador do curso de graduação em enfermagem da Universidade do Estado de Santa Catarina, campus Chapecó (UDESC/SC). Silomar Ilha Enfermeiro. Mestre em enfermagem. Doutorando em enfermagem pelo PPGEnf/ FURG. Membro do GEPESES. Solange Regina Signori Iamin Psicóloga. Mestre em biotecnologia aplicada à saúde da criança e do adolescente pela FPP. Acompanhante terapêutica pela Universidad de Belgrano/ BS-AS-AR. Terapeuta cognitivo-comportamental pelo AMBAN/IPQ/HCFMUSP/CISAME-POA. Terapeuta sistêmica pela UFRGS. Terapeuta de grupo pelo Instituto Pichon-Riviére-RS. Supervisora em prática clínica e acompanhamento terapêutico. Stela Maris de Mello Padoin Enfermeira. Doutora em enfermagem pela Escola de Enfermagem Anna Nery, da UFRJ. Professora associada do departamento de enfermagem da UFSM. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 2 – CA EF – Enfermagem.


Sumário

Prefácio ......................................................................................... Joséte Luzia Leite

17

Apresentação ................................................................................. Maria Ribeiro Lacerda

21

PARTE 1 Métodos de pesquisas quantitativas

1 Métodos de pesquisa quantitativa: uma abordagem prática ......

29

Renata Perfeito Ribeiro e Benedita Gonçales de Assis Ribeiro

2 Revisão integrativa como ferramenta para tomada de decisão na prática em saúde ............................................... Cristiane Cardoso de Paula, Stela Maris de Mello Padoin e Cristina Maria Galvão

51

3 Revisão sistemática da literatura: desenvolvimento e contribuição para uma prática baseada em evidências na enfermagem ...................................................... Crhis Netto de Brum e Samuel Spiegelberg Zuge

77

PARTE 2 Métodos de pesquisas qualitativas

4 Contornos conceituais e estruturais da pesquisa qualitativa ...... Francisca Georgina Macedo de Sousa, Alacoque Lozenzini Erdmann e Aline Lima Pestana Magalhães

99


14 Maria Ribeiro Lacerda e Regina Gema Santini Costenaro (orgs.)

5 Revisão narrativa da literatura: aspectos conceituais e metodológicos na construção do conhecimento da enfermagem ........................................................................ Crhis Netto de Brum, Samuel Spiegelberg Zuge, Rosiane Filipin Rangel, Hilda Maria Barbosa de Freitas e Greice Machado Pieszak

123

6 Pesquisa-ação em saúde associada a outros dispositivos e ferramentas....................................................... Adriana Dornelles Carpes, Cláudia Zamberlan e Regina Gema Santini Costenaro

143

7 Pesquisa convergente assistencial ........................................... 183 Lygia Paim, Mercedes Trentini e Denise Maria Guerreiro V. da Silva

8 Pesquisa-cuidado: da teoria à prática ..................................... 215 Ivete Palmira Sanson Zagonel, Eloita Pereira Neves, Keila Maria de Azevedo Ponte Marques, Solange Regina Signori Iamin e Larissa Sydor Victor

9 Pesquisa-cuidado em grupo.................................................... 251 Regina Gema Santini Costenaro e Maria Ribeiro Lacerda

10 Pesquisa exploratória descritiva ............................................. 273 Roberta Costa, Melissa Orlandi Honório Locks e Juliana Balbinot Reis Girondi

11 Pesquisa estudo de caso .......................................................... 291 Luciane Favero e Jéssica Alline Pereira Rodrigues

12 Pesquisar com o método criativo e sensível na enfermagem: fundamentos teóricos e aplicabilidade ........ Ivone Evangelista Cabral e Eliane Tatsch Neves

325

13 O processo de coleta e análise dos conteúdos e da estrutura das representações sociais: desafios e princípios para a enfermagem ............................................. Denize Cristina de Oliveira Antonio Marcos Tosoli Gomes

351


Metodologias da pesquisa para a enfermagem e saúde 15

14 Teoria fundamentada nos dados............................................. 387 Maria Ribeiro Lacerda, Ana Paula Hermann, Anice de Fátima Ahmad Balduino, Ingrid Meireles Gomes e Jaqueline Dias do Nascimento

PARTE 3 Instrumentos de coleta de dados e análise de dados

15 A entrevista na coleta de dados............................................... 423 Ana Lucia de Lourenzi Bonilha e Dora Lúcia Leidens Corrêa de Oliveira

16 Grupo focal como técnica de coleta e análise de dados: questões teóricas e práticas..................................... Juliana Silveira Colomé, Dirce Stein Backes, Carla Lizandra de Lima Ferreira, Adriana Dall’Asta Pereira, Silomar Ilha e Matheus Viero Dias

433

17 Proposta metodológica para estudos de adaptação cultural e validação de instrumentos: da teoria à prática ...... Fabiana Villela Mamede e Patrícia Santos Prudêncio

451

18 Análise de conteúdo temático-categorial: uma técnica maior nas pesquisas qualitativas ........................ Denize Cristina de Oliveira

467


Prefácio

Antecipo-me agradecendo o convite de prefaciar esta obra, motivo pelo qual muito me honra, pois, de certo, trata-se de um livro que sustenta valorosas possibilidades para enfrentar os desafios necessários à consolidação da ciência da enfermagem, ao passo que contempla, especialmente, em pluralidades e singularidades, os polos morfológico e técnico da pesquisa. Estes, por suposto, demandam atenção para o alcance da configuração metodológica desejável e pertinente ao processo científico e prático da enfermagem, em uma era assentada na sociedade do conhecimento. É a partir desse juízo que parabenizo, na pessoa da professora Dra. Maria Ribeiro Lacerda, os idealizadores e todos os autores. Metodologias de pesquisa para enfermagem e saúde: da teoria à prática, vai ao encontro das demandas emergentes para uma profissão que tem avançado no campo da ciência, mas que ainda enfrenta múltiplos desafios de ordem epistemológica, ontológica e, com destaque devido aqui, para a esfera metodológica. Sua proposta, adquire primazia ao ser vislumbrada a partir de necessidades do ensino da ciência e das práticas científicas enraizadas na formação do capital intelectual da Enfermagem, no âmbito da pós-graduação Strictu Sensu, refletidas nos processos e produtos de pesquisa, isto é, nas dissertações e teses. Além disso, em uma perspectiva de generalização e compromisso ético-social com o conhecimento científico a partir de sua disseminação, as contribuições desta


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obra poderão estender-se às demais possibilidades de proposições investigativas que fogem as modalidades supracitadas. Ao buscar o sentido de inerência na relação entre teoria e prática, estou convicta de que a obra condiz com o modus operandi da enfermagem, em que pese as conexões necessárias entre o seu ser (essência) e fazer (valor) pautados numa prática social, alicerçada pelo conhecimento científico. Nessa conjuntura, conforme destaquei há pouco, há que se avançar frente às demandas, que se descortinam em tempos que conclamam soluções para as necessidades emergentes dos sistemas de saúde e de cuidados de enfermagem. Dentre esses desafios está o de pautar as decisões e intervenções na autoridade do argumento. Termo, este, que tomo emprestado de Pedro Demo, ao referir-me, aqui, na importância de a enfermagem avançar do conhecimento comum para o conhecimento científico, o que, de certo, só será possível mediante o desenvolvimento de competências para a pesquisa. Nessa perspectiva, o livro apresenta uma organização e distribuição coesa que, apesar da coerência interna, possibilita que cada capítulo possa ser consumido de forma independente, haja vista a riqueza metodológica sustentada por cada um deles. A didática divisão, em três partes que se complementam, possibilita ao leitor seguir um fluxo lógico de pensamentos, o qual projeta a obra em uma dimensão acessível para pesquisadores e iniciantes na arte da pesquisa científica. Os 19 capítulos apresentados consubstanciam a riqueza da diversidade de métodos de pesquisa consolidados e emergentes e de abordagem qualitativa e quantitativa. Isso atende o objetivo principal da obra, o qual constitui o próprio título. Em outras palavras, posso assegurar, sem receio, que os autores foram felizes em contemplar métodos de pesquisa, técnicas de coleta, análise, produção de dados e demais desdobramentos metodológicos que, por certo, permitem alinhavar teoria e prática com vistas a uma enfermagem fundamentada na ciência. Cabe destacar ainda, o caráter inovador que se propõe e alcança com o formato da obra em questão, pois apresenta, de forma clara e coerente, condições para estreitar as relações entre a dimensão


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metodológica da pesquisa ao campo de intervenção da enfermagem. Isto se deve ao fato de que, em conjunto, o livro alcança uma prospectiva multidimensional de possibilidades para a sustentação de objetos da enfermagem, que, por sua vez, poderão fortalecer critérios de verdade para consolidar as pesquisas em enfermagem e para a enfermagem em si, juntamente com as demais áreas da saúde. Por todo o exposto, faço votos de que esta obra seja amplamente difundida e consumida por diferentes atores sociais da enfermagem e nos distintos cenários e contextos em que esta profissão demanda por sustentação científica, em especial destaque para a demanda por consolidação metodológica para avançar no campo da ciência e, por conseguinte, práxis científica. Dra. Joséte Luzia Leite Enfermeira. Professora Emérita da UNIRIO.


Apresentação

Fomos motivadas a organizar este livro com a perspectiva de contribuir com os alunos dos programas de pós-graduação em enfermagem no estudo de suas temáticas e consequente elaboração de suas dissertações e teses em relação ao referencial metodológico. É uma proposta que procura abordar algumas das possibilidades da metodologia de pesquisa para a área da enfermagem. Espera-se que possa concorrer para o desenvolvimento do conhecimento de sua ciência, bem como para qualificar o cuidado de enfermagem e, em consequência, indicar melhoras à saúde da população. Os temas dos capítulos foram selecionados a partir dos métodos que são utilizados nas pesquisas da disciplina e não se esgotam em si mesmo. São abordados em suas perspectivas teóricas e práticas, pois, ao utilizarem-se os livros referenciais em determinadas pesquisas, o aspecto de sua aplicação prática apresenta lacunas em sua compreensão. Assim, passamos a expor as partes e os capítulos que compõem o livro. Parte 1 – Métodos de Pesquisas Quantitativas – São expostos os métodos quantitativos de maneira geral e métodos que frequentemente usamos na enfermagem. Capitulo 1 – Na pesquisa quantitativa, as autoras introduzem a metodologia considerando as fundações do método. A seguir, apresentam o desenho das pesquisas quantitativas, como estudos não


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experimentais (descritivos ou exploratórios e os correlacionais), estudos experimentais (verdadeiros e quase experimentais) e revisão bibliográfica (revisão integrativa e sistemática). Continuam o capítulo apresentando as experiências práticas de utilização dos diferentes tipos de estudo que comportam a pesquisa quantitativa. Capitulo 2 – As autoras apontam a revisão integrativa como ferramenta para tomada de decisão na prática em saúde, pois os estudos de revisão são ferramentas relevantes para a prática baseada em evidências. Assim, expõem o seu desenvolvimento e seus passos: formulação da pergunta, amostragem, extração de dados dos estudos primários, avaliação crítica, análise e síntese dos resultados da revisão e apresentação da revisão. Capitulo 3 – Os autores expõem a prática baseada em evidências e apresentam os procedimentos para operacionalização da revisão sistemática da literatura em etapas: elaboração do projeto de revisão sistemática, formulação da pergunta de pesquisa, definição dos bancos de dados, estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão, avaliação dos estudos, extração das informações, apresentação e análise das informações, interpretação dos resultados e atualização. Apontam a metanálise ou metassíntese, discorrem sobre as classificações das evidências e grau de recomendação e finalizam o capítulo com experiências práticas do uso da revisão sistemática. Parte 2 – Métodos de Pesquisas Qualitativas – São expostos os métodos qualitativos, com suas características e metodologias tanto nos aspectos teóricos quanto práticos, com experiências na maior parte das vezes utilizadas pela enfermagem. Capítulo 4 – A pesquisa qualitativa é apresentada de forma original e, em sua definição, a relevância aos estudos das relações sociais é expressa. Destacam as características, a legitimação e a repercussão para as práticas em enfermagem. Ao abordar os contornos estruturais, descrevem sobre a introdução, o problema de pesquisa,


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bem como sua questão, justificativa e relevância, os objetivos, métodos e recursos para a coleta e análise dos dados. Enunciam o respeito à entrada no campo, a amostragem, as questões éticas e os recursos informáticos para análise de dados qualitativos. Finalizam com aspectos práticos que orientam o leitor sobre algumas sugestões para situar o pesquisador na construção do projeto de pesquisa. Capitulo 5 – As autoras expõem o surgimento da revisão narrativa da literatura na revisão tradicional da literatura e seus avanços que possibilitam caracterizar as produções sobre determinados assuntos. Um quadro com os atributos da revisão narrativa é apresentado, bem como possibilidade de operacionalização. As experiências práticas de seu uso são discorridas e é exemplificada sua utilização. Capítulo 6 – A pesquisa ação é apresentada como uma metodologia participante em que o pesquisador cria uma maneira que permite a produção de conhecimento e modificação da realidade a partir da compreensão e da intervenção dos próprios sujeitos. Sua origem é destacada e é associada a outros dispositivos e ferramentas que são abordadas nos exemplos práticos que permeiam a maior parte do capítulo. Capitulo 7 – A pesquisa convergente assistencial (PCA) é evidenciada pelas autoras em sua ancoragem teórico-filosófica, seus atributos conceituais e suas experiências práticas. Na sua perspectiva teórico-filosófica está posto que a teoria, a pratica e a pesquisa movimentam-se em uma trajetória circular, com bases político-sociais, e têm um foco multiparadigmático, com afinidade ao paradigma construtivista/construcionista social e destacada orientação participativa. Os pressupostos são evidenciados, bem como os contornos singulares, o rigor e a flexibilidade da PCA. Finalizam o capítulo com a experiência prática da sua utilização. Capitulo 8 – A metodologia pesquisa cuidado é exposta pelas autoras como uma sistematização de pesquisa com abordagem qualitativa e que tem o diferencial de cuidar e pesquisar no mesmo tempo


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situado. As etapas do processo de pesquisa são aproximação com o objeto de estudo; encontro com o ser pesquisado-cuidado; estabelecimento das conexões da pesquisa, teoria e prática do cuidado; afastamento do ser-pesquisador-cuidador e ser-pesquisado-cuidado e análise do apreendido, assim como as experiências de aplicação do método. Capitulo 9 – A metodologia de pesquisa cuidado em grupo e sua aplicabilidade é exposta pelas autoras à comunidade acadêmica como metodologia inovadora de cuidar e pesquisar em grupo, sua gênese, bases estruturais, bem como o caminho a percorrer em suas etapas. Essa proposta esta sendo construída na prática de cuidar e tem resultado em um aprimoramento diário. Capítulo 10 – As autoras descrevem sobre a pesquisa exploratória descritiva, os aspectos de suas bases teóricas, as escolhas metodológicas como a pesquisa exploratória, a descritiva e as diferenças entre elas e, a seguir, são apresentados cinco exemplos de aplicação prática dos métodos. Capitulo 11 – A pesquisa estudo de caso é apresentada desde as suas origens, na importância do uso da teoria para sustentar o objeto de pesquisa que está sendo estudado como caso(s), nos conceitos relacionados ao método, sua classificação, organização metodológica, as potencialidades e limitações do seu uso, bem como as experiências do seu uso na prática. Capitulo 12 – O método de pesquisa criativo sensível é uma opção metodológica, no conjunto das abordagens qualitativas, que se apoia nos pressupostos do círculo de cultura e da pesquisa baseada em arte. As autoras expõem o método, bem como sua dimensão epistemológica, seus fundamentos metodológicos (dinâmica de criatividade e sensibilidade [DCS] e produção do tipo artística no diálogo grupal) e apresentam aplicação prática do método com ilustrações de seu desenvolvimento. Capitulo 13 – Este capítulo expõe o processo de coleta e análise dos conteúdos e da estrutura das representações sociais. Os autores iniciam com as considerações gerais e as técnicas de coleta e análise


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de dados. As bases teóricas, os procedimentos operacionais da análise de dados com o uso do software Alceste e do Evoc é apresentada, bem como a análise da produção discursiva, com seu conteúdo e a estrutura da representação social. Capítulo 14 – A teoria fundamentada nos dados é explanada em sua inserção na pesquisa qualitativa, bem como seu início, as diferentes correntes, suas estratégias metodológicas, a utilização de referenciais teóricos e as possibilidades e limitações do seu uso. Sobre aplicação na prática foram abordados os aspectos do estudo através dos mapas conceituais, a entrevista, suas características e a contratação de entrevistadores, o uso de softwares e a construção de teoria formal. Parte 3 – Alguns dos instrumentos de coleta de pesquisa são evidenciados e um inovador método de análise de pesquisa qualitativa éapresentado. Capitulo 15 – A entrevista é relatada como uma estratégia na coleta de dados das pesquisas, assim, são apontados seus tipos, o preparo para fazê-la, seus aspectos éticos, a condução da mesma e seu registro e análise. Capitulo 16 – Os autores explanam sobre as concepções teóricas do grupo focal e a respeito de ser uma técnica de coleta de dados, além de propor uma perspectiva inovadora de uma estratégia do grupo focal também como instrumento de análise de dados. A seguir apresenta duas pesquisas que aplicam o grupo focal, como coleta e análise dos dados. Capitulo 17 – As autores apresentam o “photovoice” como uma abordagem teórica e metodológica para projetos de investigação-ação participativos que inova a coleta de dados. O método está fundamentado na abordagem da educação crítica de Paulo Freire, na teoria feminista e no acesso de uma comunidade a fotografia.


26 Maria Ribeiro Lacerda e Regina Gema Santini Costenaro (orgs.)

Capitulo 18 – É apresentada a proposta metodológica para estudos de adaptação cultural e validação de instrumentos na qual tradução, adaptação e avaliação são destacadas. Alguns questionamentos que o investigador deve fazer com relação aos instrumentos são apontados, as etapas da proposta metodológicas são explicadas, bem como a avaliação das propriedades psicométricas. Finalizam com estudos práticos. Capítulo 19 – A análise de pesquisa qualitativa apresentada é contemporânea e utilizada pelos profissionais de saúde de diferentes áreas além da enfermagem. Igualmente, auxilia nos níveis de produção do conhecimento tanto na graduação quanto na pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado). Conceitos-chave são citados, bem como diferentes tipos de análise de conteúdo. A autora também discorre sobre a indução e a dedução na análise de conteúdo temático categorial e as etapas e os procedimentos da proposta, os critérios para a construção das categorias empíricas, e aponta várias aplicações práticas da técnica. Maria Ribeiro Lacerda


2

Revisão integrativa como ferramenta para tomada de decisão na prática em saúde

Cristiane Cardoso de Paula, Stela Maris de Mello Padoin e Cristina Maria Galvão

INTRODUÇÃO A quantidade de informações disponíveis, resultantes de pesquisas científicas, é admirável e ascendente. Em contrapartida, os profissionais têm tempo limitado para acessar e se apropriar do conhecimento publicado. Diante da possibilidade de práticas desvinculadas dos últimos resultados de pesquisas, existe a necessidade de caminhos concisos até esses resultados para que sejam transferidos de forma ágil para a prática clínica. A produção do conhecimento precisa ser reunida, organizada, criticamente avaliada e apresentada como evidências científicas. Portanto, os estudos de revisão são ferramentas relevantes para a prática baseada em evidências.1-3 O movimento da prática baseada em evidências emergiu com a constatação de que os resultados de pesquisas não alcançavam os profissionais e usuários de modo atualizado e confiável. Então, foi um movimento que objetivou minimizar a lacuna entre a teoria e a prática.4 A prática baseada em evidências é definida como abordagem de solução de problemas para prestar cuidados em saúde, a qual integra a melhor evidência oriunda de estudos bem delineados e dados


52 Maria Ribeiro Lacerda e Regina Gema Santini Costenaro (orgs.)

do paciente. Combina as preferências e valores do paciente e a experiência clínica do profissional.5-6 Entende-se por evidência científica o conjunto de informações utilizado para confirmar ou negar uma teoria ou hipótese científica, que fornece provas para a tomada de decisão, o qual somente existirá a partir de pesquisas científicas.7 Os métodos de revisão são relevantes tanto para a pesquisa quanto para a prática clínica. Eles têm oferecido benefícios para os enfermeiros acessarem a produção do conhecimento científico na enfermagem mundial, entre os quais se destacam: identificação de lacunas do conhecimento para investimentos na condução de pesquisas; quadro teórico ou conceitual; exploração de métodos de pesquisa utilizados com sucesso; reconhecimento dos profissionais que produzem na área investigada; além de manter o grupo de pesquisa atualizado, promovendo mudanças da prática clínica como consequência. Conhecer os métodos de revisão inclui saber as suas vantagens e desvantagens, bem como aprender a fazer uma revisão. Os estudos de revisão são apoiados por padrões de rigor e replicabilidade. Os tipos frequentemente dispostos na literatura de enfermagem são revisão sistemática, metanálise, revisão integrativa, revisão sistemática de pesquisa qualitativa (a exemplo a metassíntese). Na década de 1980, foram definidas as primeiras diretrizes para condução de revisão integrativa.8 Em 1987, esse tipo de revisão foi introduzido na enfermagem.9 A revisão integrativa é um estudo secundário que reúne e sintetiza resultados de pesquisa sobre delimitado tema ou questão. As unidades de análise (os “participantes” do estudo) são os estudos primários selecionados de modo ordenado e pré-definido. Permite a busca, a avaliação crítica e a síntese das evidências disponíveis do tema investigado, sendo seu produto final o estado atual do conhecimento do tópico estudado, bem como a identificação de lacunas que direcionam para o desenvolvimento de futuras pesquisas.10 É o tipo de revisão mais amplo, podendo incluir pesquisas experimentais e não experimentais.11 Em contrapartida, a complexidade inerente de


4 Contornos conceituais e estruturais da pesquisa qualitativa Francisca Georgina Macedo de Sousa, Alacoque Lozenzini Erdmann e Aline Lima Pestana Magalhães

CONTORNOS CONCEITUAIS Apesar de a pesquisa procurar desenvolver declarações relevantes para descrever relações causais ou explicar o fenômeno ou a situação que causa preocupação e inquietação aos pesquisadores, o conhecimento é, por si mesmo, “conjectural”;1:25 isto é, a verdade absoluta nunca pode ser encontrada. Por isso, as “provas estabelecidas na pesquisa são sempre imperfeitas e falíveis”.1:25 Entretanto, qualquer pesquisa deverá ser conduzida com rigor, com declarações relevantes que possam explicar, descrever ou estabelecer relações e associações. Para tanto, os pesquisadores optam por uma das técnicas de pesquisa (quantitativa, qualitativa ou estudos mistos) a partir de alegações do conhecimento, do problema de pesquisa e das experiências e habilidades pessoais do pesquisador. A palavra qualitativa implica ênfase sobre as qualidades das entidades e sobre os processos e os significados que não são examinados ou medidos experimentalmente em termos de quantidade, volume, intensidade ou frequência.2 Sob essa perspectiva, os pesquisadores qualitativos ressaltam a natureza socialmente construída da realidade, a íntima relação entre o pesquisador e o estudo e buscam soluções


100 Maria Ribeiro Lacerda e Regina Gema Santini Costenaro (orgs.)

para questões que realçam o modo como a experiência social é criada e adquire significado para as pessoas. É, assim, uma forma de captar o ponto de vista do indivíduo, de localizar o observador no mundo e dar visibilidade a este. Em sentido similar, Flick3 descreve que a pesquisa qualitativa é relevante ao estudo das relações sociais e dirige-se à análise de casos concretos em suas peculiaridades locais e temporais, partindo das expressões e atividades das pessoas em seus contextos. Nesse nível, a pesquisa qualitativa envolve uma abordagem naturalista e interpretativa pela qual os pesquisadores estudam as coisas em seus cenários naturais, tentando entender ou interpretar os fenômenos em termos dos seus significados.

Características da pesquisa qualitativa A pesquisa qualitativa consiste em práticas materiais e interpretativas que dão visibilidade ao mundo, a partir das quais os pesquisadores “comprometem-se com uma investigação direcionada para a práxis e a mudança social”.2:363 Asseguram que as práticas da pesquisa qualitativa transformam o pesquisador em um bricoleur metodológico e epistemológico e referem-se ao pesquisador qualitativo como um artista, um confeccionador de colchas, um artesão habilidoso, um elaborador de montagens e de colagens que sabe entrevistar, observar, estudar a cultura material, pensar dentro dos limites dos métodos visuais e ultrapassar esses limites.2:363-64

Sob esse aspecto, a pesquisa qualitativa “está repleta de entusiasmo, criatividade, efervescência intelectual e ação”,3:367 sendo os pesquisadores uma parte importante no processo de pesquisa, seja pela presença pessoal na condição de pesquisadores, seja em termos de suas experiências no campo da pesquisa, assim como pela capacidade de reflexão que trazem ao todo. É uma modalidade de pesquisa que se caracteriza por:


6 Pesquisa-ação em saúde associada a outros dispositivos e ferramentas Adriana Dornelles Carpes, Cláudia Zamberlan e Regina Gema Santini Costenaro

A ciência é uma atividade desenvolvida pelos seres humanos para tentar compreender o contexto vigente. Em termos práticos, ela envolve dois aspectos peculiares, sendo que um deles diz respeito à construção de conhecimento por meio dos resultados oriundos de diversos métodos e/ou das técnicas de investigação1 e o outro faz referência à compreensão das relações entre os fenômenos deste mundo como finalidade última.2 A ciência parte do pressuposto de que o tema ao qual o pesquisador investiga é, direta ou indiretamente, observável. Isso porque as raízes do pensamento científico estão na observação, seja pela mensuração ou não de fenômenos, permitindo verificar, concluir e descrever uma observação em particular. Em decorrência da complexidade dos fenômenos do universo, as pessoas buscam entender e explicar e, pela ciência, originam-se diversos segmentos de estudo. Segundo os autores, as ciências são divididas basicamente em formais e factuais. Concebe-se como formais aquelas que estudam ideias, como a lógica e a matemática, e que não há, necessariamente, uma relação com a realidade observável. Já nas ciências factuais, os fatos são tratados recorrendo-se aos dados obti-


7

Pesquisa convergente assistencial

Lygia Paim, Mercedes Trentini e Denise Maria Guerreiro V. da Silva

INTRODUÇÃO Este capítulo objetiva apresentar a abordagem da Pesquisa Convergente Assistencial (PCA) em sua ancoragem teórico-filosófica, seus atributos conceituais e suas experiências práticas. A destinação da PCA está em produzir uma reaproximação entre as formulações teóricas e suas respectivas práticas assistenciais (de saúde e, em especial, de enfermagem). O leitor poderia questionar se essas duas realidades – teoria e prática – não germinam da mesma semente (ideias humanas) e, dessa forma, elas seriam inseparáveis. É evidente que a prática assistencial é a expressão concreta de teorias, ou deveria ser. Toda e qualquer ação humana, seja ela referente a formulações teóricas e/ou práticas, tem sua origem no raciocínio humano. Assim, a teoria e a prática têm o mesmo ponto de partida, mas, para alcançar suas finalidades, o conhecimento teórico e o prático precisam se desenvolver em consonância, de maneira a traçar uma trajetória circular ascendente, de ida e volta da teoria para a prática e da prática para teoria, movimento este mediado pela pesquisa.


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          

Nesse sentido, a pesquisa científica é a mediadora entre essas duas realidades (teórica e prática). Embora a teoria e a pesquisa se desenvolvam de modo simultâneo e articulado, alimentando-se mutuamente, nem sempre, as práticas que lhes correspondem, as acompanham. No caso da saúde, a prática assistencial de enfermagem, por sua vez, não tem acompanhado o crescimento vertiginoso da ciência e da tecnologia em suas práticas assistenciais cotidianas. Assim, houve uma bifurcação em que a teoria e a pesquisa seguiram um determinado caminho ascendente e a prática permaneceu na horizontal e, com isso, desenhou-se um espaço baldio entre ambas no campo de prática assistencial. Esse “espaço baldio” entre a assistência praticada e a assistência teórica não se acompanham, deixando de alimentarem-se como convém às disciplinas de estudo. Essa situação vem sendo questionada ao longo das últimas quatro décadas. Na enfermagem, esse espaço vazio foi descrito como “choque da realidade”.1 Esse fenômeno ocupa a enfermagem brasileira de modo maciço e tem sido objeto de atenção especial de formuladores e seguidores da PCA. A construção do conhecimento em saúde precisa acontecer dentro de uma estreita associação evolutiva da teoria, da pesquisa e da prática. Embora tenha havido esforços de profissionais de enfermagem em defender a imprescindibilidade da integração da teoria e a prática, percebe-se que os conteúdos aprendidos nos cursos uni-


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dos por meio da observação e da experimentação para validar suas hipóteses.3 Isso envolve as ciências naturais como física, química, biologia, bem como as ciências sociais como psicologia, sociologia, direito e outras. Contudo, devido a crescente complexidade dos fenômenos estudados pelas diferentes ciências, tornou-se necessário o desenvolvimento de várias abordagens metodológicas. O estudo de metodologias de pesquisa no meio acadêmico é uma prática corrente, a qual parece inerente ao papel que a universidade representa na produção de pesquisas que devem alavancar o desenvolvimento científico, tecnológico e social da humanidade. Em um trabalho publicado em 2002, Schwartzman4 examinou e mostrou algumas conclusões acerca do relacionamento entre a pesquisa científica e tecnológica, bem como o interesse público no Brasil. O autor também propôs uma reflexão consistente sobre os limites e as possibilidades da contribuição da pesquisa científica produzida pelas universidades para que ela se torne mais efetiva e relevante, de maneira que seja possível aumentar a utilidade social da pesquisa, preservando os padrões de liberdade acadêmica e qualidade requeridos de qualquer trabalho de natureza científica. Nesse sentido, considera-se que o método científico precisa ser criteriosamente escolhido e manter estreita coerência com os objetivos propostos em qualquer trabalho que pretenda manter os padrões mínimos de cientificidade reconhecida pelos seus pares. Da mesma forma, é preciso que a pesquisa impulsione inovação ou transformação da realidade em que está sendo proposta. Neste capítulo será abordada a metodologia da pesquisa-ação, a qual é entendida como uma metodologia participante em que o pesquisador cria um processo que permite a produção de conhecimento e modificação da realidade a partir da compreensão e da intervenção dos próprios sujeitos.5 A partir do primeiro Simpósio Mundial sobre pesquisa participante, realizado em Cartagena, na Colômbia, em 1977, as pesquisas


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O processo de coleta e análise dos conteúdos e da estrutura das representações sociais: desafios e princípios para a enfermagem Denize Cristina de Oliveira e Antonio Marcos Tosoli Gomes

CONSIDERAÇÕES INICIAIS A teoria das representações sociais (TRS) se caracterizou, desde a sua origem, pela efervescência de proposições e ideias a ela associadas, em função, entre outras, da atitude do seu propositor, Serge Moscovici, em não fornecer uma definição única e acabada do que, de fato, seriam representações sociais. Assim, em sua obra seminal, expôs mais de 20 definições possíveis e posteriormente considerou que esse fato se deveu à necessidade de não engessamento do campo, assim como da necessidade de sua atualização constante em acordo com o processo de desenvolvimento da sociedade.1 No entanto, o autor1 explicita que, ao se falar em representações sociais, aborda-se um fenômeno social cotidiano, onde pessoas e grupos interagem para a construção sociocognitiva e simbólica dos objetos que têm adesão e importância para suas vidas.1-2 Tratase, simultaneamente, de uma teoria psicossocial construída para a interpretação e compreensão desse mesmo fenômeno,1-2 o que tende a torná-la complexa e, muitas vezes, polissêmica. Dentro da perspectiva psicossocial, uma representação social é determinada por dois elementos principais: seu conteúdo, definido


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O estudo das representações sociais coloca a necessidade de utilização de técnicas de coleta e de análise de dados visando três objetivos, a serem organizados em momentos sucessivos: elucidar e recuperar os elementos constitutivos da representação, ou seja, o seu conteúdo; conhecer a organização dos seus elementos, isto é, estudar as relações entre os elementos constituintes, sua importância relativa e sua hierarquia; e recuperar o núcleo central da representação, ou seja, determinar os termos e o perfil do núcleo central e dos elementos periféricos.3 Para alcançar os objetivos acima propostos, é necessário que se façam opções metodológicas; a simples interpretação impressionista de material discursivo deve ser evitada, uma vez que, ao longo da constituição do campo de estudo das representações sociais, muitas contribuições metodológicas foram feitas, o que significa um avanço que não deve ser ignorado. Apesar da polêmica existente sobre o tema, a escolha de um determinado método ou a opção multimetodológica deve considerar as questões destacadas acima. Para um melhor balizamento das opções metodológicas disponíveis, será sintetizado a seguir algumas técnicas de coleta e análise de dados frequentemente utilizadas no campo da saúde nos dias atuais.

TÉCNICAS DE COLETA DE DADOS NOS ESTUDOS DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL De uma maneira geral, tem-se adotado uma classificação dos métodos de coleta de dados em representações sociais em dois grandes grupos.3,12-13 No primeiro, encontram-se os métodos interrogativos, os quais consistem em recolher a expressão dos indivíduos sobre o objeto de representação em estudo. Essa expressão pode ser verbal ou icônica. No segundo, são classificados os métodos associativos, também fundamentados em expressões verbais, colhidas de forma mais espontânea, menos controlada e, por hipótese, mais autêntica.


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Grupo focal como técnica de coleta e análise de dados: questões teóricas e práticas Juliana Silveira Colomé, Dirce Stein Backes, Carla Lizandra de Lima Ferreira, Adriana Dall’Asta Pereira, Silomar Ilha e Matheus Viero Dias

CONCEPÇÕES TEÓRICAS O campo da pesquisa qualitativa se constitui de diversas possibilidades metodológicas, as quais permitem um processo dinâmico de adesão a novas formas de coleta e de análise de dados. Entre essas possibilidades, o grupo focal (GF) representa uma técnica de coleta de dados que, a partir da interação grupal, promove uma ampla problematização sobre um tema ou foco específico. Apreendido como técnica de coleta de dados, o GF se originou no cenário da pesquisa social e passou a ser utilizado nas áreas da antropologia, ciências sociais, mercadologia e educação em saúde. Embora tenha iniciado na pesquisa social, o GF ficou à margem dos estudos dessa área, tendo em vista o predomínio da observação participante e da entrevista semi estruturada.1 A partir do final da década de 1980, a técnica tem sido retomada por seus precursores, os quais triplicaram os números de pesquisas utilizando-a como principal técnica de coleta de dados.2 Trata-se de uma entrevista em grupo na qual a interação configura-se como parte do método. No processo, os encontros grupais


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possibilitam aos participantes explorarem seus pontos de vista, a partir de reflexões sobre um determinado fenômeno social, em seu próprio vocabulário, gerando suas próprias perguntas e buscando respostas pertinentes à questão sob investigação. Desse modo, o GF pode atingir um nível reflexivo que outras técnicas não conseguem alcançar, revelando dimensões de entendimento que, frequentemente, permanecem inexploradas pelas técnicas convencionais de coleta de dados.3 O reconhecimento dos GFs como espaços privilegiados para o alcance de concepções grupais acerca de uma determinada temática tem potencializado sua utilização em diversas áreas da produção de conhecimentos, como nas pesquisas em enfermagem. Nessa área, observa-se que os GFs estão presentes, ainda que de forma pouco expressiva.1 Por sua vez, os estudos desenvolvidos por pesquisadores de enfermagem buscam, em sua maioria, compartilhar experiências que utilizaram a técnica de GF, discutindo sua utilização no contexto de seus estudos.1,4-5 Em contrapartida, evidencia-se um reduzido número de artigos envolvendo enfermeiros que discutem essencialmente essa técnica.6 Considerando a dinamicidade e circularidade do GF, bem como a necessidade da diversificação de métodos nas pesquisas de enfermagem, a proposição de utilizá-lo como técnica de coleta e de análise de dados apresenta-se como um desafio necessário e pertinente. Nessa perspectiva, poderia haver o deslocamento da posição do participante como porta-voz de determinado fenômeno para sujeito ativo no processo analítico e interpretativo de dados qualitativos. Com o propósito de ampliar a sua utilização e promover os participantes como sujeitos ativos das pesquisas de enfermagem, o presente estudo teve por objetivo apresentar e discutir aspectos teóricos e práticos da utilização do GF como técnica de coleta e análise de dados.

GRUPO FOCAL COMO TÉCNICA DE COLETA DE DADOS Apresentaremos, neste item, uma caracterização geral do GF no que se refere às vantagens, aos limites, às habilidades do pesquisa-

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Metodologias da pesquisa para enfermagem e saúde da teoria à prática  

Metodologias de pesquisa para enfermagem e saúde: da teoria à prática, vai ao encontro das demandas emergentes para uma profissão que tem a...

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