Ensino na saúde

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Conselho Editorial

Diretor: Prof. Dr. Marcio Neres dos Santos Pon!"cia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Brasil Profa. Dra. Lisnéia Fabiani Bock Porto Alegre – Brasil Profa. Dra. Maria Ribeiro Lacerda Universidade Federal do Paraná – Brasil Profa. Dra. Regina Gema San!ni Costenaro Centro Universitário Franciscano – Santa Maria/RS – Brasil Profa. Dra. Regina Helena Medeiros Universidade de Caxias do Sul/RS – Brasil


ENSINO NA SAÚDE: Desafios contemporâneos na integração ensino e serviço

Alexandre do Nascimento Almeida Rita Catalina Aquino Caregnato Organizadores

1a edição – 2016 Porto Alegre – RS


Os autores e a editora se empenharam para dar os devidos créditos e citar adequadamente a todos os detentores de direitos autorais de qualquer material u!lizado neste livro, dispondo-se a possíveis acertos posteriores, caso, involuntária e inadver!damente, a iden!Þcação de algum deles tenha sido omi!da. Todas as fotos que ilustram o livro foram autorizadas para publicação e uso cien$Þco pelos pacientes e/ou familiares na forma de consen!mento livre e informado, seguindo as normas preconizadas pela resolução 196 / 96, do Conselho Nacional de Saúde. Diagramação e capa: Formato Artes GráÞcas Revisão de Português: Aline Aver Vanin Imagem de capa: Schu%erstock: 183711890 1ª Edição – 2016 Todos os direitos de reprodução reservados para

É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, em quaisquer formas ou por quaisquer meios (mecânico, eletrônico, fotocópia, gravação, distribuição pela internet ou outros), sem permissão, por escrito, da MORIÁ EDITORA LTDA. Endereço para correspondência: Av do Forte, 1573 Caixa Postal 21603 Vila Ipiranga – Porto Alegre /RS CEP: 91.360-970 – Tel:51.8604.3597/9116.9298 moriaeditora@gmail.com www.moriaeditora.com.br

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Ensino na saúde: desafios contemporâneos na integração ensino e serviço / Organizadores: Alexandre do Nascimento Almeida, Rita Catalina Aquino Caregnato - Porto Alegre: Moriá, 2016. 256 p.: il. Bibliografia ISBN: 978-85-99238-20-2 1. Ensino 2. Pessoal de saúde 3. Educação continuada 4. Capacitação profissional 5. Educação a distância 6. Educação de pós-graduação 7. Preceptoria I. Almeida, Alexandre do Nascimento II. Caregnato, Rita Catalina Aquino NLM W20

Catalogação na fonte: Rubens da Costa Silva Filho CRB10/1761


Autores

Alexandre do Nascimento Almeida – Licenciado em Letras. Especialista em Gênero e Sexualidade. Mestre em Letras (Aquisição da Linguagem). Doutor em Letras (Linguística Aplicada). Professor Adjunto do Departamento de Educação e Humanidades da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA). Um dos líderes do Grupo de Pesquisa Ciências da Linguagem - GPCL (UFCSPA). Coordena o Grupo de Estudos em Gênero, Sexualidade e Saúde - EGSS (UFCSPA). E-mail: alexandrea@ufcspa.edu.br Aline Winter Sudbrack – Bacharel em Ciências Sociais. Especialista em Saúde Pública. Mestre em Antropologia Social. Doutora em Sociologia. Professora Adjunta do Departamento de Educação e Humanidades da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA). Membro Titular da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) do Ministério da Saúde. E-mail: alinewin@ufcspa.edu.br Ana Amélia Nascimento da Silva Bones – Médica. Especialista em Ginecologia e Obstetrícia, com título de qualificação em Doenças Sexualmente Transmissíveis. Especialista em Geriatria e Gerontologia. Especialista em Saúde da Família pela UNASUS/UFCSPA. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na


vi Autores

Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). E-mail: anageriatra@hotmail.com Ana Paula Noronha Zucatti – Psicóloga. Especialista em Psicologia Organizacional. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Trabalha na Gestão de Pessoas na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. E-mail: anapzutti@hotmail.com Andrea Wander Bonamigo – Fonoaudióloga. Mestre em Distúrbios da Comunicação. Doutora em Saúde Pública. Professora Adjunta do Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora da Residência Multiprofissional em Saúde (REMIS) da UFCSPA e Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (ISCMPA). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA). E-mail: andreawb@ufcspa.edu.br Cecília Dias Flores – Bacharel em Informática. Mestre em Computação. Doutora em Computação. Professora Associada do Departamento de Ciências Exatas e Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA), colaboradora do Programa de PósGraduação em Ciência da Saúde (PPGCS/UFCSPA). Coordenadora do curso de Graduação Informática Biomédica. Líder dos Grupos de Pesquisa Educação a Distância no Ensino das Áreas da Saúde e GESETE – Grupo de Estudos em Saúde, Educação e Tecnologia. E-mail: dflores@ufcspa.edu.br Cleidilene Ramos Magalhães – Pedagoga. Mestre em Educação. Doutora em Educação. Pós-doutorado em Psicologia. Professora Associada II do Departamento de Educação e Humanidades da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA), colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Saúde (PPGCS/UFCSPA). Coordenadora do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde (PPGENSAU) da UFCSPA. Líder do Grupo de Pesquisa Estudos em Educação e Saúde. E-mail: cleidirm@ufcspa.edu.br


Autores vii

Cristina Elisabeth Benincá Pereira – Médica de família e comunidade. Preceptora da área no Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e tutora do Curso de Especialização em Saúde da Família da UNASUS/UFCSPA. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). E-mail: cristinabepe@gmail.com Daniele Tozzi Reppold – Advogada. Especialista em Direito da Família Contemporânea e Mediação. Especialista em Formação Pedagógica para Cursos Técnicos e Tecnológicos. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora de cursos técnico-profissionalizantes nas áreas da saúde no Sistema de Ensino Gaúcho (SEG). Membro da Comissão Especial do Jovem Advogado (CEJA-OAB/RS) e da Comissão Especial da Criança e do Adolescente (CECA-OAB/RS). E-mail: danireppold@hotmail.com Flavia Feron Luiz – Enfermeira. Especialista em Terapia Intensiva, modalidade Residência Integrada em Saúde pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Especialista em Enfermagem do Trabalho. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Atua na Unidade de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC) do GHC. E-mail: flaviaferon@yahoo.com.br Gabriela Grechi Carrard – Enfermeira. Mestranda do Programa de PósGraduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Servidora pública, atua no Núcleo de Estratégia de Saúde da Família do Município de Caxias do Sul/RS. E-mail: nursegabriela@hotmail.com Helena Terezinha Hubert Silva – Médica. Especialista em Medicina Legal e em Educação a Distância. Mestre em Patologia. Doutora em Patologia. Professora Adjunta do Departamento de Patologia e Medicina Legal da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA). Coordenadora do programa de extensão Enfrentamento à Violência/UFCSPA. Membro da Câmara Técnica de Medicina Legal do


viii Autores

Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (CREMERS). Perito médico-legista com atuação no Departamento Médico-Legal do Estado do Rio Grande do Sul. E-mail: hubert@ufcspa.edu.br Kátia Cilene Ferreira Pacheco – Enfermeira. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). E-mail: katiacfpacheco@hotmail.com Leila Maria de Abreu Jaggi – Enfermeira. Especialista em Enfermagem. Especialista em Gestão Empresarial. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Gerente do Hospital Santa Rita da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (ISMPA). Elaborou o Projeto e participou da implantação do Programa de Residência Multiprofissional em Onco-Hematologia, desenvolvido em parceria entre a UFCSPA e ISCMPA. E-mail: lajaggi@gmail.com Luiza Maria de Oliveira Braga Silveira – Psicóloga. Mestre em Psicologia. Doutora em Psicologia. Professora Adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA) e colaboradora do Centro de Aperfeiçoamento em Psicologia Escolar (CAPE). Coordenadora do Curso de Psicologia da UFCSPA. E-mail: luizabs@ufcspa.edu.br Luzia Fernandes Millão – Enfermeira. Doutora em Psicologia. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora da Residência Multiprofissional em Saúde (REMIS) da UFCSPA e da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (ISCMPA). Professora permanente do Programa de PósGraduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA). Vice-coordenadora da REMIS UFCSPA/ISCMPA com ênfase em Terapia Intensiva. Vice-coordenadora do Mestrado Profissional em Ensino na Saúde da UFCSPA. Avaliadora do SINAIS como colaborador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Texeira. E-mail: luziam@ufcspa.edu.br


Autores ix

Márcia Rosa da Costa – Pedagoga. Mestre em Educação. Doutora em Educação. Professora Adjunta do Departamento de Educação e Humanidades da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA). Coordenadora Pedagógica do Curso de Especialização em Saúde da Família do Projeto UNA-SUS/UFCSPA. E-mail: marciarc@ufcspa.edu.br Marcelo Schenk de Azambuja – Bacharel em Hotelaria. Mestre em Engenharia de Produção. Doutor em Comunicação. Professor Adjunto do Departamento de Ciências Exatas e Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA). Coordenador do Curso de Gestão em Saúde. E-mail: marcelos@ufcspa.edu.br Paola Lucca Pizutti – Farmacêutica. Especialista em Vigilância Sanitária. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Servidora pública da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (SES/RS). Atua no Setor de Vigilância Sanitária da 17ª Coordenadoria Regional de Saúde. E-mail: paola-pizutti@saude.rs.gov.br Rafaela Milanesi – Enfermeira. Especialista em Enfermagem na Urgência, Emergência e Trauma. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Atua no Setor de Urgência e Emergência do Hospital Nossa Senhora da Conceição do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) de Porto Alegre. E-mail: rafaelamilanesi@gmail.com Rita Catalina Aquino Caregnato – Enfermeira. Especialista em Metodologia do Ensino Superior. Especialista em Administração Hospitalar. Especialista em Saúde Pública. Mestre em Enfermagem. Doutora em Educação. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora da Residência Multiprofissional em Saúde (REMIS) da UFCSPA e Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (ISCMPA). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA). E-mail: ritac@ufcspa.edu.br


x Autores

Roberta de Almeida da Silva – Enfermeira. Mestranda do Programa de PósGraduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Coordenadora Assistencial da Cardiologia e Endoscopia do Hospital Moinhos de Vento (HMV) de Porto Alegre. E-mail: beta.almeida@hotmail.com Rute Merlo Somensi – Enfermeira. Especialista em Gestão de Pessoas Estratégias e Negócios. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Responsável Técnica pelo Serviço de Enfermagem da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (ISCMPA). Gerente do Hospital São José e do Pavilhão Pereira Filho da ISCMPA. E-mail: rutesomensi@terra.com.br Silvio César Cazella – Bacharel em Informática. Mestre em Ciência da Computação. Doutor em Ciência da Computação. Professor Adjunto do Departamento de Ciências Exatas e Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA), colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Saúde (PPGCS/UFCSPA) e colaborador do Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação (PPGIE/UFRGS). E-mail: silvioc@ufcspa.edu.br Simone Lysakowski – Enfermeira. Especialista em Enfermagem em Oncologia. Especialista em Enfermagem em Doação e Transplantes. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Atua na Organização de Procura de Órgãos do Hospital São Lucas da PUCRS (OPO 2). E-mail: silysa@gmail.com Simone Travi Canabarro – Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Doutora em Saúde da Criança/Pediatria. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Professora da Residência Multiprofissional em Saúde (REMIS) da UFCSPA e Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (ISCMPA). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU/UFCSPA). E-mail: simonet@ufcspa.edu.br


Autores xi

Stéfani Almeida Schneider – Nutricionista. Mestranda do Programa de PósGraduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). E-mail: stefani1788@gmail.com Tiago Sousa Paiva – Enfermeiro. Especialista em Saúde da Família. Mestrando do Programa de Pós-Graduação Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Preceptor da Faculdade de Enfermagem do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter). Militante do Movimento Negro em Porto Alegre. Membro do Grupo de Pesquisa em Promoção da Saúde – GEPS (UFRGS). E-mail: sousats@hotmail.com


Sumário

Prefácio: Ensino na saúde .................................................................. Alexandre do Nascimento Almeida e Rita Catalina Aquino Caregnato

17

PARTE 1 Educação permanente em saúde

1

2 3

4

Educação Permanente em Saúde: 10 anos de uma política estratégica instituída para fortalecer o SUS ....................... Paola Lucca Pizutti, Alexandre do Nascimento Almeida e Luzia Fernandes Millão

29

A educação permanente das equipes de saúde da família: desafios e potencialidades .............................................................. Cristina Elisabeth Benincá Pereira, Andrea Wander Bonamigo

47

Educação permanente: dispositivo estratégico para implementação de novas práticas relacionadas à infecção hospitalar ..................................................................... Kátia Cilene Ferreira Pacheco, Andrea Wander Bonamigo, Rita Catalina Aquino Caregnato e Marcelo Schenk de Azambuja

63

Prática reflexiva na escola: uma visão do profissional da saúde ....... Stéfani Almeida Schneider, Cleidilene Ramos Magalhães e Alexandre do Nascimento Almeida

75


xiv Sumário

5

6

Educação a distância como estratégia de formação permanente de profissionais de saúde no SUS: análise focada em competências no processo ensino-aprendizagem ........... Ana Amélia Nascimento da Silva Bones, Márcia Rosa da Costa e Silvio César Cazella Educação a distância na área hospitalar ......................................... Ana Paula Noronha Zucatti, Luiza Maria de Oliveira Braga Silveira e Cecília Dias Flores

87

101

PARTE 2 A pós-graduação em ensino na saúde

7

8

9

O contexto do ensino na saúde no Brasil: da origem à atualidade .................................................................. Simone Lysakowski, Rita Catalina Aquino Caregnato e Aline Winter Sudbrack Educação em serviço: preceptoria na residência multiprofissional em saúde ........................................................... Rafaela Milanesi, Rita Catalina Aquino Caregnato e Simone Travi Canabarro Residência multiprofissional em saúde: um modelo de ensino em serviço ........................................................ Leila Maria de Abreu Jaggi, Simone Travi Canabarro e Rita Catalina Aquino Caregnato

121

137

149

10 Os preceptores como sujeitos formadores e parceiros na reorganização da formação em saúde ........................................ Gabriela Grechi Carrard, Márcia Rosa da Costa e Cleidilene Ramos Magalhães

11

A importância das produções científicas na avaliação dos cursos de mestrado profissional em ensino na saúde................ Roberta de Almeida da Silva, Rita Catalina Aquino Caregnato e Cecília Dias Flores

161

183


Sumário xv

PARTE 3 Desafios contemporâneos na articulação entre teoria e prática

12 Reflexões sobre a atuação do advogado no acolhimento a vítimas infantojuvenis de violência sexual intrafamiliar............... Daniele Tozzi Reppold, Cleidilene Ramos Magalhães e Helena Terezinha Hurbert Silva

197

13 Educação em saúde e contexto escolar: espaços de cidadania, sexualidades e prevenção do HIV/AIDS ....................................... Tiago Sousa Paiva, Márcia Rosa da Costa e Luiza Maria de Oliveira Braga Silveira

211

14 Dimensionamento de enfermagem e ensino..................................

225

Rute Merlo Somensi, Rita Catalina Aquino Caregnato e Cecília Dias Flores

15 A técnica do grupo focal: ampliando saberes e transformando práticas ............................................................... Flavia Feron Luiz, Rita Catalina Aquino Caregnato e Márcia Rosa da Costa

237

Índice Remissivo ................................................................................

251


Prefácio: Ensino na Saúde Alexandre do Nascimento Almeida Rita Catalina Aquino Caregnato

Durante a aula inaugural da primeira turma do Programa de PósGraduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU) da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), foi questionada a possibilidade de realização concreta de um trabalho com natureza interdisciplinar, uma vez que – de acordo com a palestrante que propunha a reflexão – o desafio de superar os limites impostos pela concepção do que vem a ser uma “disciplina” faz com que seja necessário conceber uma situação-problema como passível de ser abordada a partir de diferentes perspectivas. Esse questionamento tornou-se logo de início relevante para um corpo docente que propõe, como vocação do programa, o estabelecimento de parcerias que busquem estratégias inovadoras para a abordagem de temáticas na esfera do ensino na saúde. Essa busca, contudo, não deve partir de um único campo de conhecimento considerado a priori como “detentor” de respostas para as situações-problema que se apresentam. É preciso, pois, investigar a realidade, refletir sobre as práticas cotidianas e buscar alternativas para a abordagem de temas que se constituem como desafio para todos os profissionais comprometidos com a transformação da realidade na qual atuam. O programa, ainda que organizado em torno de disciplinas obrigatórias e eletivas numa matriz curricular que integra as duas áreas de


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formação (Currículo, formação, docência e ensino na saúde; Integração universidade, serviço de saúde e comunidade), oportuniza o estabelecimento de parcerias de docentes com formações distintas em cada componente para que se torne possível a integração teoria e prática na busca por estratégias de ensino e aprendizagem que possibilitem aos mestrandos a formação necessária para ressignificar o que vem a ser atuar de maneira interdisciplinar. Aqui está apresentado um dos produtos construídos coletivamente: a partir da adoção da pedagogia de projetos como proposta metodológica para a disciplina de Redação Científica, docentes e mestrandos foram desafiados a escreverem sobre temáticas relacionadas a suas propostas de estudo e/ou área de atuação. Escrever, nesse sentido, assume importante tarefa de cunho social, uma vez que os estudos produzidos no âmbito do Mestrado Profissional devem ser disseminados de forma a promover um diálogo consistente entre a universidade e os contextos de atuação de todos envolvidos no programa, sejam eles docentes ou profissionais em formação. A pedagogia de projetos, portanto, possibilita o desenvolvimento de etapas didáticas que incluem a identificação de um problema (a escassez de publicações na área do ensino na saúde), o planejamento de uma estratégia para o enfrentamento do problema (a escrita colaborativa de um livro), o desenvolvimento de etapas de cunho didático-pedagógico (as sequências didáticas que embasam a escrita de capítulos de um livro organizado em torno de três temáticas centrais), a construção de um produto final (o livro que aqui se apresenta) e a socialização desse produto (que se concretiza com sua publicação). Essas etapas resumem o trabalho coletivo na produção de um livro escrito a muitas mãos, oriundo de inúmeras discussões em que diferentes saberes se articularam para a produção de novos saberes e de olhares inovadores para as práticas que se apresentam cotidianamente no ensino na saúde. Este livro, portanto, é o resultado de um trabalho colaborativo entre docentes e mestrandos da primeira turma do Mestrado Profissional em Ensino na Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Impulsionados pela escassa literatura direcionada a esta área, os professores da disciplina de Redação Científica


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do Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGENSAU) da UFCSPA desafiaram os docentes e mestrandos a escreverem sobre a temática, com a finalidade de fornecer subsídios e condições para qualificação profissional, especialmente aos profissionais que atuam em contextos formais ou informais de ensino na saúde. Considera-se papel da universidade proporcionar integração ensino-serviço e produzir conhecimentos capazes de transformar as práticas profissionais contribuindo para o aprimoramento. Dessa forma torna-se necessário fortalecer o conhecimento favorecendo a formação e a atuação profissional, permitindo o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) em suas diferentes acepções. Organizado em quinze capítulos, este livro enfoca diversas temáticas dentro de três grandes seções, assim denominadas: 1) Educação Permanente em Saúde; 2) A pós-graduação em ensino na saúde; e 3) Desafios contemporâneos na articulação entre teoria e prática. Todos os capítulos foram escritos pelos mestrandos, seus orientadores e coorientadores, abordando temas de relevância para o Ensino na Saúde. A primeira parte do livro abrange os seis primeiros capítulos do livro que abordam temas relacionados à Educação Permanente em Saúde (EPS), importante ferramenta para o fortalecimento das ações e serviços no Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que valoriza o conhecimento produzido em serviço e as trocas de saberes entre gestores, trabalhadores e comunidade. O capítulo um apresenta uma reflexão sobre a importância da EPS para o fortalecimento do SUS, trazendo alguns avanços e desafios à sua implementação. O texto tem a centralidade na teoria da EPS como conceito, traz diferenciações do termo Educação Continuada (EC) e aborda o arranjo político e institucional da EPS como política pública no Brasil e no Rio Grande do Sul, com ênfase no papel dos núcleos regionais e municipais de educação em saúde coletiva. Completados dez anos da publicação da Portaria GM/MS 198 de 2004, que instituiu a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) como estratégica para o SUS, o capítulo traz uma reflexão sobre a arquitetura da PNEPS e os avanços e os desafios à sua implementação.


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O capítulo dois continua discutindo a EPS, contemplando desde a aquisição de conhecimentos e habilidades até o que se chama de aprendizagem significativa, ou seja, o aprendizado que faz sentido para os atores envolvidos. Essa é ferramenta importante para os trabalhadores das equipes de saúde da família, auxiliando a garantir a integralidade do cuidado. O capítulo aborda aspectos importantes da EPS aplicada na Estratégia de Saúde da Família (ESF), objetivando: a) descrever estratégias que possam auxiliar equipes e gestores na implantação da EPS; b) apresentar a EPS no desenvolvimento do processo de trabalho das equipes, com ênfase nos trabalhadores como foco, agentes essenciais da EPS; e c) abordar os dispositivos para os facilitadores da EPS, dinamizadores do processo. O capítulo três tem por objetivo promover uma discussão sobre a revisão das práticas dos profissionais da saúde em relação à Infecção Hospitalar (IH), por ser um relevante problema de saúde pública, preocupação constante por parte dos órgãos responsáveis. Devido a sua relevância social e econômica, esse problema levou o Ministério da Saúde a definir ações com vistas à redução dos índices de pacientes infectados. Dentre essas ações a Portaria GM nº 2626 define as Diretrizes a serem empregadas para o controle da IH; e ainda a Portaria nº 529/2013 instituiu o Programa Nacional de Segurança do Paciente, objetivando contribuir para a qualificação do cuidado em saúde. Nesse cenário, a EPS vem somar-se aos esforços citados, mostrando-se uma importante estratégia no auxílio da formação dos trabalhadores, podendo contribuir para a revisão e adoção de práticas mais seguras em relação à IH. O capítulo quatro aborda a temática da formação e prática reflexiva, situada no contexto escolar e no pensar sobre práticas de educação em saúde. A reflexão é guiada a partir das políticas públicas de educação e saúde, no âmbito escolar, além de ações de promoção de saúde, educação alimentar/nutricional e atividades formativas desenvolvidas nesse cenário. Nenhum ser vive sem influências do meio. Todos são influenciados nos locais onde vivem e atuam, além da capacidade de cada um refletir sobre as ações vividas pelo mundo. Conscientes dessa influência, os seres devem pensar sobre sua prática em


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saúde na educação e suas interfaces de reflexões na ação. As reflexões estão baseadas em autores como Paulo Freire e Donald Schön, com a pretensão de gerar reflexões nos envolvidos com a educação e saúde nas escolas e em outros ambientes da comunidade, contribuindo para a construção de conhecimentos e renovação da prática profissional. O capítulo cinco traz o contexto nacional da Educação a Distância (EaD) apresentando sua expansão nos programas e cursos de formação continuada em serviço de profissionais de diversas áreas de atuação. A EaD direcionada a profissionais da saúde vinculados ao SUS apresenta-se como uma possível estratégia no território nacional. A modalidade de ensino referida está empenhada com a promoção de saberes numa perspectiva crítica e reflexiva para produção e difusão de conhecimentos comprometidos com a prática social. O uso da própria tecnologia tornou-se uma experiência cotidiana, não constituindo mais em um dificultador, mas sim um facilitador para processo de ensino-aprendizagem. A pesquisa sobre emprego da EaD na saúde no Brasil ainda está incipiente; a proposta do capítulo é promover uma análise focada sobre o discente e as competências necessárias para o melhor emprego desta modalidade de ensino. O capítulo seis encerra a primeira seção discutindo a educação dos profissionais que atuam em hospitais como fundamental para o exercício de suas atividades, para cuidar com segurança atualizando o conhecimento. A EaD tem sido muito utilizada para disseminar o conhecimento devido a diversas vantagens relacionadas à minimização de barreiras de tempo, distância, custos e espaço físico. Essa se apresenta como opção para fomentar o desenvolvimento da autonomia dos sujeitos, promovendo uma aprendizagem mais autônoma e significativa. Assim, este capítulo objetiva abordar a utilização da EaD em hospitais. Entende-se que os responsáveis pelos processos de educação dos profissionais devem estar abertos para conhecer e utilizar a tecnologia e ferramentas da EaD como ambientes virtuais de aprendizagem, simuladores e jogos sérios para o desenvolvimento e compartilhamento de novos conhecimentos entre os profissionais da saúde. Ademais, devem ser propostos processos de avaliação das ações, atualmente pouco realizados.


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Na segunda seção encontram-se os capítulos sete até o décimo primeiro, focados no tema da pós-graduação em ensino na saúde. O capítulo sete traz um apanhado histórico referente ao ensino na saúde, possibilitando a produção de embasamento teórico cronológico que facilite a compreensão dos momentos relevantes até os dias atuais. No Brasil, o ensino na saúde surgiu da carência de articulação entre saúde, educação e comunidade, dando início aos movimentos que buscavam mudanças na educação dos profissionais da saúde, na Reforma Sanitária e na constituição de diretrizes de gestão para o trabalho, na área da saúde. Com a luta pela democratização do país e a organização de movimentos pela Reforma Sanitária Brasileira (décadas de 70 e 80), o ano de 1988 foi responsável pela promulgação do SUS, inserido na Constituição Federal. Este capítulo foi construído a partir dos seguintes questionamentos: Por que a saúde e a educação se uniram e quando surgiu a necessidade de se pensar o Ensino na Saúde no Brasil? Quais são as metas e formas de atuação do Ensino na Saúde preconizadas e realizadas? Pretende-se que no final da leitura deste capítulo o leitor encontre as respostas para esses questionamentos. O capítulo oito aborda a Educação em Serviço (ES) ofertada pela Residência Multiprofissional em Saúde (RMS), formação lato sensu fundamentada no processo de ensino-aprendizagem em serviço. Considerada um programa de integração ensino-serviço-comunidade, este capítulo discute a RMS com foco na relação preceptor-residente. A RMS como processo educativo que ocorre nas relações humanas do trabalho, visa o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das capacidades cognitivas, psicomotoras e relacionais dos profissionais. Na RMS, as atividades práticas e teórico-práticas desenvolvidas totalizam 80% de carga horária total do programa e devem ser obrigatoriamente supervisionadas por um preceptor, que participa da formação em saúde articulando os mundos do trabalho e do ensino. O preceptor deve atuar como mediador no processo de aprendizagem, compartilhando com o residente o ensinar e aprender, através da articulação entre teoria e prática, troca de experiências e reflexões em cenários reais da atenção em saúde.


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O capítulo nove também discute a RMS como uma modalidade de especialização caracterizada por ensino em serviço, embasada nas demandas sociais e epidemiológicas. Essa modalidade de ensino é destinada à formação dos profissionais de saúde, através de ações multiprofissionais e em equipe, visando a integralidade do cuidado. A união da academia com o serviço tem o compromisso de desenvolver profissionais com o pensar e o agir comprometidos com o coletivo, gerando mudanças nas equipes, nas relações com as comunidades e com as instituições. Recursos humanos qualificados são indispensáveis para o atendimento na área da saúde, sendo a formação desses garantida pela Constituição Federal Brasileira. Atendendo aos princípios do SUS, a integração de instituições de trabalho e de formação, visando a integralidade do cuidado e apoiados pelo Ministério da Saúde (MS) e Ministério da Educação (MEC), é o caminho para promover efetivas e duradouras mudanças no modelo assistencial. O capítulo dez induz o pensar sobre formação de recursos humanos para a área da saúde, retomando o passado e verificando os processos significativos conquistados, ao mesmo tempo que permite refletir sobre a perspectiva de mudanças em busca de um ideário. O objetivo deste capítulo é apresentar, por meio da linha do tempo, a historicidade dos acontecimentos ocorridos em prol da reorganização da formação em saúde, bem como a relação dos preceptores como sujeitos formadores. A inserção dos estudantes nos cenários SUS hoje é uma realidade; para tal, os preceptores (profissionais de saúde) desempenham um importante papel na formação desses futuros profissionais. A criação do SUS foi fundamental, entre outros aspectos, para legitimar a sua atribuição como ordenador na formação de recursos humanos na área da saúde. Cabe destacar que é desafiador formar profissionais de saúde críticos, reflexivos e capazes de atuar em cenários reais. Nesse sentido, acredita-se que há lacunas a serem rediscutidas, avaliadas e readaptadas, transformadas. O objetivo do capítulo onze é apresentar as métricas utilizadas no Brasil no que tange as pesquisas científicas e sua influência na avaliação dos Cursos Stricto Sensu em Ensino na Saúde, destacando a rele-


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vância no aperfeiçoamento das produções de docentes e discentes atuantes e no direcionamento das pesquisas brasileiras. Por meio de um estudo de cunho descritivo e reflexivo as autoras propiciam ao leitor uma reflexão que evidencia a fragilidade das métricas utilizadas para atender uma avaliação qualitativa das produções científicas, que possam correlacionar com a sua relevância para a sociedade. As ferramentas automatizadas de relações entre pesquisadores podem ser o caminho para o aprimoramento; citam-se o Research-Gate e Google Scholar My Citations, ambas com a finalidade de integrar conhecimento de forma ágil e sem mediadores entre os pesquisadores. É necessário discutir abertamente o assunto para possibilitar a integração de suas produções com as necessidades de seu contexto social, visado produzir pesquisas que agreguem valor para a sociedade. A terceira e última seção o livro apresenta cinco capítulos que abordam os desafios contemporâneos na articulação entre teoria e prática. O capítulo doze apresenta considerações sobre os direitos das crianças e dos adolescentes brasileiros, bem como contribuições fundamentais aos profissionais das áreas jurídicas e da saúde que atuam em situações de violência sexual intrafamiliar. Com o objetivo de qualificar recursos humanos na área do ensino em saúde, promove-se a integração entre instituições de ensino, serviços de assistência e membros da comunidade jurídica. Dessa forma, conta-se com o respaldo da legislação vigente para exigir, das esferas de assistência envolvidas, atenção rigorosa no enfrentamento à violência intrafamiliar. No capítulo treze os autores buscam problematizar as questões e posicionamentos que emergem quando a educação em saúde no cenário escolar é colocada em pauta. Para isso, foi estruturado um debate ancorado no arcabouço teórico do referencial da vulnerabilidade. Foi realizado um primeiro levantamento online, na base de dados Scielo, de artigos publicados no ano de 2013, utilizando-se dos descritores: Educação em Saúde e Escola, resultando em trinta artigos sobre temáticas variadas. Realizada uma segunda busca na mesma base de dados, onde foram adicionados os descritores Sexualidade e HIV/AIDS, aparecendo somente uma publicação. A escassez de pesquisas sobre sexua-


Ensino da Saúde: desafios contemporâneos na integração ensino e serviço 25

lidade quando foram utilizados descritores mais genéricos e, também, após acrescentar os descritores Sexualidade e HIV/AIDS, sinalizou a necessidade da realização de mais estudos que problematizem práticas de prevenção do HIV/AIDS e que considerem as vulnerabilidades do contexto e a sexualidade dos estudantes em sua dimensão ampla. O capítulo quatorze objetivou descrever o cenário de saúde no ambiente hospitalar visando desenvolver uma estrutura conceitual para gestão da carga de trabalho em enfermagem. A complexidade das instituições de saúde tem induzido e mobilizado os profissionais a buscarem estratégias criativas e inovadoras, capazes de garantir um ambiente propício ao aprendizado oferecendo qualidade e segurança aos pacientes. Diante desse contexto, os profissionais enfermeiros e técnicos de enfermagem devem estar dimensionados adequadamente de acordo com a legislação brasileira, a partir de escores de atividades e carga de trabalho para ambas as categorias profissionais. Contudo, a criação de redes a partir de sistemas integrados de ensino direcionados ao desenvolvimento de simuladores podem auxiliar na tomada de decisão e apoiarão docentes no desafio de unir teoria e prática desde a graduação até a atuação profissional. No capítulo quinze as autoras propõem fazer uma reflexão dos princípios de Grupo Focal (GF), os processos necessários para sua realização e, ainda, uma análise das limitações, potencialidades e fragilidades dessa metodologia de pesquisa. Nos campos da saúde e da educação muitas pesquisas envolvem pessoas de diferentes contextos e com universos culturais variados. O GF é uma técnica de pesquisa qualitativa que pode ser utilizada como recurso metodológico para compreensão das diversidades de pensamento e atitudes. É bastante útil nos estudos em que há diferenças de poder e interesses entre participantes ou quando se quer explorar o consenso sobre certo assunto. Essa técnica difere da entrevista individual por basear-se no diálogo entre pessoas para obtenção dos dados da pesquisa e não apenas em perguntas e respostas entre entrevistador e entrevistado. O GF é, portanto, um tipo especial de grupo que exige do pesquisador algumas habilidades e conhecimentos substanciais sobre suas aplicações.


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O conjunto de capítulos deste livro constitui o resultado de uma escolha didático-pedagógica que fomenta o trabalho colaborativo em torno de um objetivo comum: o estabelecimento do diálogo entre universidade e serviço, integrando teoria e prática a partir de uma ótica reflexiva de formação profissional. Esta publicação, portanto, constitui uma possível articulação em nível interdisciplinar para a abordagem de temáticas contemporâneas na esfera do ensino na saúde, para as quais não se pretende oferecer respostas definitivas, mas sim apontar caminhos possíveis construídos com base em múltiplos olhares em torno de uma mesma situação-problema.


PARTE 1 Educação Permanente em Saúde


1 Educação Permanente em Saúde: 10 Anos de uma Política Instituída para Fortalecer o SUS Paola Lucca Pizutti, Alexandre do Nascimento Almeida e Luzia Fernandes Millão

INTRODUÇÃO Condizente com toda a ação em saúde há um processo educativo intrínseco resultante das trocas de saberes, em que um profissional de saúde, ao ensinar, aprende, e um usuário ou outro profissional da equipe, aprendendo, ensina. Considerando esse caráter pedagógico das ações em saúde, torna-se necessário elaborar estratégias para aprimorar e potencializar o aprendizado no cotidiano dos serviços, construindo atenção integral à saúde em uma postura emancipatória dos indivíduos e comunidades1,2. Nesse sentido, surgiu o conceito de Educação Permanente em Saúde (EPS). Este texto apoia-se centralmente na Educação Permanente em Saúde como conceito, política pública e ferramenta de agenciamento do conhecimento produzido em serviço para a melhoria do fazer em saúde coletiva. Completados dez anos da publicação da Portaria GM/MS 198 de 2004, que instituiu a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) como estratégia do Sistema Único de Saúde (SUS) para potencializar as práticas pedagógicas e a aprendizagem que ocorre no trabalho, este estudo objetiva realizar uma reflexão sobre a EPS, fazendo um breve resgate conceitual e histórico, sem a pretensão de abranger


2 A Educação Permanente das Equipes de Saúde da Família: Desafios e Potencialidades Cristina Elisabeth Benincá Pereira e Andrea Wander Bonamigo

INTRODUÇÃO A Política Nacional da Atenção Básica (PNAB)1 leva em conta o conceito ampliado de saúde, definindo a atenção básica como um conjunto de ações, tanto no âmbito individual e coletivo, abrangendo a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, bem como o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a manutenção da saúde. Busca desenvolver atenção integral para impactar na situação de saúde, na autonomia dos sujeitos e também nos determinantes e condicionantes de saúde das coletividades. Produz-se por meio de práticas de cuidado e de gestão, participativas e democráticas, e do trabalho em equipe em populações de territórios definidos, assumindo a responsabilidade sanitária desses territórios. Emprega tecnologias de cuidado complexas e variadas para auxiliar no manejo das demandas e necessidades de saúde de maior relevância e frequência no seu território, levando em consideração critérios de risco, vulnerabilidade e resiliência e de que toda demanda ou sofrimento deve ser acolhida. Para que seja cumprida na prática essa definição abrangente do cuidado integral e do atendimento das demandas, os trabalhadores da atenção básica precisam estar qualificados. É responsabilidade das três


3 Educação Permanente: Dispositivo Estratégico para Implementação de Novas Práticas Relacionadas à Infecção Hospitalar Kátia Cilene Ferreira Pacheco, Andrea Wander Bonamigo, Rita Catarina Aquino Caregnato e Marcelo Schenk de Azambuja

INTRODUÇÃO O aperfeiçoamento dos profissionais de saúde se faz necessário frente às constantes mudanças da sociedade. As diretrizes curriculares para a formação desses trabalhadores apontam a Educação Permanente em Saúde (EPS) como requisito para o exercício da prática profissional comprometida com as reais necessidades de saúde da população1. Nesse sentido, a EPS surge como proposta de intervenção, visando à construção de um espaço coletivo que possibilite a reflexão acerca do processo de trabalho no dia a dia das equipes de saúde. No Brasil, esta política foi implementada pelo Ministério da Saúde (MS) em 2004, por meio da portaria GM/MS 198/04 como estratégia de transformação das práticas e da formação dos profissionais de saúde2-3. Esta proposta constitui um projeto visando à transformação das práticas de saúde alicerçada nos pilares da integralidade, trabalho em equipe, protagonismo dos sujeitos envolvidos, com ampliação e promoção de sua autonomia4. No cenário das práticas de saúde, chama-se atenção para a instituição hospitalar, ambiente de cuidado e de ensino, na qual a discussão sobre os alarmantes índices de infecção tem lançado um alerta para


6 Educação a Distância na Área Hospitalar Ana Paula Noronha Zucatti, Luiza Maria de Oliveira Braga Silveira e Cecília Dias Flores

INTRODUÇÃO A educação permanente para profissionais da área da saúde (ver Capítulo 1) tornou-se lei, em 2004, por meio da Portaria nº 198/ 2004, do Ministério da Saúde1. No entanto, muito antes disso já era tema de discussões e de preocupação. A educação dos trabalhadores da saúde é fundamental para o exercício de suas atividades, dado o caráter fundamental de cuidar de vidas (dos pacientes, familiares, acompanhantes e mesmo dos profissionais). A grande frequência e velocidade com que são atualizados os conhecimentos, por meio de novos estudos científicos, permite que verdades sejam postas em xeque, alterando algumas práticas e tornando outras obsoletas. Com o avanço da tecnologia e a disseminação da Internet, presente a cada dia em um maior número de locais pelo mundo, a Educação a Distância (EaD) se difunde como opção para viabilizar que o conhecimento chegue a todos os lugares em que necessita se fazer presente. Na área da saúde, esta modalidade tem sido cada vez mais utilizada nos processos de educação devido a algumas vantagens, sejam elas: minimização de barreiras relacionadas a limites de participantes, tempo, distância, custos e espaço físico. Permite que os profissionais


PARTE 2 A Pós-Graduação em Ensino na Saúde


7 O Contexto do Ensino na Saúde no Brasil: da Origem à Atualidade Simone Lysakowski, Rita Catalina Aquino Caregnato e Aline Winter Sudbrack

INTRODUÇÃO A preocupação com a educação superior para os profissionais da saúde iniciou em 1910, com o projeto de avaliação do ensino médico nos Estados Unidos da América (EUA), desenvolvido por Abraham Flexner, com a publicação do estudo Medical Education in the United States and Canada, considerado o principal responsável pela reforma das escolas médicas nos EUA. Este trouxe importantes reflexões sobre a formação médica e da medicina mundial, criando, além de uma teoria científica para educação superior em saúde, uma teoria da avaliação em educação. A concepção de ensino resultante do Relatório Flexner ganhou hegemonia na profissionalização pelo ensino universitário, criando a educação e ensino profissionalizados em saúde1,3. O Relatório Flexner projetava a reforma do sistema escolar (nomeada de universidade), apresentando sólidos princípios que, atualmente, parecem usuais, tais como: controle de admissão; o currículo de quatro anos; e a exigência de laboratórios e instalações adequadas2. O paradigma flexneriano trazia a escola médica como a retentora de conhecimento e informações e o hospital como centro de alta tecnologia, associando a excelência técnica e a super especialização. Essa


8 Educação em Serviço: Preceptoria na Residência Multiprofissional em Saúde Rafaela Milanesi, Rita Catalina Aquino Caregnato e Simone Travi Canabarro

INTRODUÇÃO Muitos conhecimentos são produzidos a respeito da Educação Permanente, Continuada e em Serviço. Por mais que suas conceituações sejam distintas, em muitas publicações, esses processos educativos se confundem1-2. Na prática, observa-se um caráter complementar entre elas, e não excludente a cada uma. A Educação em Serviço (ES), tema deste capítulo, é denominada como um processo educativo que ocorre nas relações humanas do trabalho, visando o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das capacidades cognitivas, psicomotoras e relacionais dos profissionais1-2. Ante o exposto, abordar-se-á a ES transcorrida na Residência Multiprofissional em Saúde (RMS), com enfoque na relação preceptor-residente. O ser preceptor e o como fazer preceptoria são abstrações que constantemente vêm à tona. Como realizar a dita “formação em serviço”? Qual o papel do preceptor na formação dos residentes? Como agir neste processo de ensino-aprendizagem? Essas são algumas das perguntas em que se pode deparar no cotidiano de trabalho e que podem ser maximizadas, caso o profissional seja demandado como preceptor nesses serviços.


10 Os preceptores como sujeitos formadores e parceiros na reorganização da formação em saúde Gabriela Grechi Carrard, Márcia Rosa da Costa e Cleidilene Ramos Magalhães

INTRODUÇÃO Ao pensar sobre formação de recursos humanos para a área da saúde, se faz necessário retornar ao passado e verificar os processos significativos conquistados e, ao mesmo tempo, refletir na perspectiva de novas mudanças em busca de um ideário. Nesse sentido, diversas experiências estão em andamento, inclusive no Brasil, com formatos e desdobramentos distintos, em prol da discussão da reorientação da formação nos cursos da área saúde. São muitas as inquietações que constantemente culminam em repensar na formação em saúde. A exemplo, citam-se mudanças significativas no perfil epidemiológico e demográfico da população, com efeitos no meio ambiente, entre outras, exigindo cada vez mais novas competências e readequações nos modos de agir e de pensar dos profissionais de saúde. É preciso estar atento a essas necessidades, consideradas dinâmicas, quando pensamos em formar profissionais de saúde para atuar no campo de práticas1. Nessa perspectiva, “o campo da formação em saúde, ao longo das duas últimas décadas, vem sendo desenhado e recortado por iniciativas de ordem prática, política e pedagógica que traçam diferentes


PARTE 3 Desafios Contemporâneos na Articulação Entre Teoria e Práticas


12 Reflexões sobre a Atuação do Advogado no Acolhimento a Vítimas Infantojuvenis de Violência Sexual Intrafamiliar Daniele Tozzi Reppold, Cleidilene Ramos Magalhães e Helena Terezinha Hurbert Silva

INTRODUÇÃO A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a violência como sendo o “uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação”1. Logo, entende-se que o fenômeno da violência é complexo, relacionado a diferentes campos de atuação e configurado como fator relevante nos temas de saúde pública. Por essa razão, torna-se mais célere e efetiva a resposta judicial por meio de equipes interdisciplinares. No sistema judicial, cotidianamente, presenciam-se ocorrências de despreparo dos profissionais no trato com essas vítimas, demonstrando-se a necessidade de intervenções interdisciplinares para acolhimento humanizado2. Como forma de reverter esse panorama, é preciso aumentar o investimento na formação dos profissionais envolvidos, visando o desenvolvimento de habilidades e de competências a serem aplicadas. Tal propósito é justificado pela literatura, que revela o quanto as práticas assistenciais humanizadas estão relacionadas a melhores índices de adaptação psicológica frente a situações estressoras3.


13 Educação em Saúde e Contexto Escolar: Espaços de Cidadania, Sexualidades e Prevenção do HIV/AIDS Tiago Sousa Paiva, Márcia Rosa da Costa e Luiza Maria de Oliveira Braga Silveira

INTRODUÇÃO No Brasil a relação entre a Saúde e a Educação historicamente é influenciada pelo contexto sociopolítico e cultural que o país vivencia. Com isso, a escola serve como cenário para diversas atividades educativas que, no passado, estiveram ancoradas ao modelo higienista de cuidado. Essas ações, baseadas em concepções tradicionais de educação em saúde, pretendiam apropriar-se dos “corpos dos estudantes” por meio da transmissão de informações e do controle do comportamento desses indivíduos. Entretanto, com as transformações ocorridas nos modos de vida da sociedade e pela compreensão de que o contexto influencia no estado de saúde individual e coletiva, o tal modelo mostrava-se inadequado e insuficiente1, principalmente no contexto da realização das ações de educação em saúde dentro das instituições de ensino. Com o objetivo de problematizar as questões e posicionamentos que emergem quando a educação em saúde voltada para cenário escolar é colocada em pauta, estruturamos aqui um debate centrado nos estudos acerca das ações de educação em saúde, realizadas no ambiente escolar com os estudantes. Grande parte das ações de educação em saúde na escola são transversais (quando não centralizam) ao tema das


15 A Técnica de Grupo Focal: Ampliando Saberes e Transformando Práticas Flavia Feron Luiz, Rita Catalina Aquino Caregnato e Márcia Rosa da Costa

INTRODUÇÃO Com o advento da tecnologia e das intensas produções científicas cada vez mais diversificadas, as pesquisas exigem um nível de aprofundamento e complexidade que contemplem saberes e conhecimentos de diferentes áreas. Em se tratando dos campos da saúde e da educação, muitas pesquisas envolvem pessoas de diferentes contextos e com universos culturais variados. Por isso, se faz necessário a utilização de estratégias que auxiliem o pesquisador na compreensão do universo cultural do grupo pesquisado e promovam uma atuação mais ativa dos participantes no processo de pesquisa como um todo1. Como ferramenta auxiliar em um método de pesquisa do tipo qualitativo, cita-se o grupo focal. Esse é um exemplo de estratégia dinâmica e diferencial a ser empregada em diferentes áreas, desde pesquisas de mercado a pesquisas sobre saúde, podendo ser utilizado como um dos recursos metodológicos para compreensão das diversidades de pensamento e de atitudes.2 A escolha deste método começa desde a teorização da formulação de uma questão de pesquisa, amostragem, passando pela fase específica e única de coleta e análise dos dados, etapas que exigem certas habilidades do pesquisador para que