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A CRISE ACADÉMICA – COIMBRA 1969 17 de Abril de 1969

Ana Rita Bagagem, in Revista da AAC http://www.slideshare.net/cattonia/a-crise-de-1969 1. Na década de 60, Portugal vivia submetido ao governo de Salazar, marcado por um clima de tensão permanente, provocado pela Guerra Colonial, pela censura à impressa e aos meios culturais, bem como pela perseguição a todos os que se opunham ao regime. 2. Foi então que o Governo nomeou uma Comissão Administrativa que ia liderar a Associação Académica de Coimbra, o que demonstrava bem a repressão salazarista: entre 1965 e 1968 não foi permitido aos estudantes a escolha dos seus corpos gerentes. 3. Os estudantes de Coimbra, insatisfeitos pela não representação no Senado, fizeram um abaixo assinado, pedindo a realização de eleições livres em Fevereiro de 1969. Deste acto eleitoral saiu vencedora a lista do Conselho das Repúblicas (com 75% dos votos). 4. Em Março, a Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra é convidada para a inauguração da Faculdade de Matemática. Não só os estudantes aceitaram o convite, como também informaram que pretendiam intervir na cerimónia. Esta pretensão foi recusada pela Reitoria, pois o Reitor já “representava a Universidade” e a intenção dos estudantes discursarem, prejudicaria as “prescrições protocolares”. 5. No dia 17 de Abril de 1969, frente à Faculdade de Matemática, milhares de estudantes exigiam o diálogo, o ensino para todos e os estudantes no Governo da Universidade. 6. No interior da Faculdade, Alberto Martins, Presidente da DG/AAC, pede a palavra ao Presidente da República, Américo Tomás. O Presidente nega-lhe a palavra e a cerimónia termina de forma repentina. 7. Na noite desse mesmo dia, Alberto Martins é preso à porta da AAC. Centenas de estudantes encaminharam-se, em solidariedade, para a sede da PIDE, onde acabaram por sofrer uma carga policial. 8. O dia 17 de Abril ficou assim marcado como o início da Crise Académica de Coimbra. 9. No ginásio da AAC, milhares de estudantes e dois professores (Orlando de Carvalho e Paulo Quintela) decretam o luto académico, sob a forma de greve às aulas. 10. José Hermano Saraiva (Ministro da Educação Nacional), numa comunicação transmitida a toda a nação pela televisão no dia 30 de Abril de 1969, acusava os estudantes de desrespeito, crime de sediação e insultos ao Chefe de Estado. 1


11. Como resposta, cerca de 4. 000 estudantes participaram na Assembleia Magna que se realizou no Pátio dos Gerais, no dia 1 de Maio. Em conjunto com o corpo docente, repudiaram as afirmações do Ministro da Educação Nacional. 12. Por despacho do Ministro, a Universidade foi encerrada até ao início dos exames. A Assembleia de Estudantes Grelados, em solidariedade para com a Academia, cancelou o festejo da Queima das Fitas: “Jamais aceitaremos que a alegria se confunda com a irresponsabilidade...”, dizia o comunicado. 13. No dia 28 de Maio, 6 mil estudantes reuniram-se na maior Assembleia Magna da história, onde foi decretado a abstenção aos exames e deliberada a “Operação Balão” e a “Operação Flor”. Estas consistiam na distribuição de flores e balões como forma de protesto, com o objectivo de alertar a população para a situação e assim levantar as suspensões, os processos de inquérito e a não marcação de faltas durante o luto. 14. Greve aos exames No dia 2 de Junho, início da época de exames, Coimbra acorda sitiada. Destacamentos da GNR, PSP e da Polícia de choque ocupam a Universidade. 15. Só são autorizados a entrar na Universidade os professores e alunos que desejem prestar exames. Intensificam-se as prisões aos grevistas. 16. No mês de Julho, o Governo alterava a lei de adiamento da incorporação militar de modo a a fazer depender da prorrogativa “do bom comportamento escolar” do estudante. Ao abrigo desta nova legislação, meia centena de estudantes eram chamados ao serviço militar. Cerca de 49 estudantes são compulsivamente integrados no serviço militar. 17. Na final da Taça de Portugal entre a Académica e o Benfica, no dia 22 de Junho, o jogo transformou-se em manifestação contra o regime e cerca de 35 mil comunicados foram distribuídos à sociedade civil, nos quais estavam expostas as razões da luta estudantil. Excepcionalmente, o jogo não foi transmitido pela RTP e pautou-se pela ausência do Presidente da República. 18. A Associação Académica de Coimbra, enquanto clube de futebol, surgiu em 1876, resultando da fusão entre o Clube Atlético de Coimbra , fundado em 1861, e a Academia Dramática , fundada em 1837. Vencedora da primeira Taça de Portugal (1939), esteve desde sempre ligada à academia. O equipamento (negro e branco) faz uma alusão clara à Universidade. Nos seus inícios, os jogadores da Académica eram também estudantes universitários. 19. Revoltados com a opressão e a censura praticada pelo governo, os jogadores / estudantes universitários aproveitaram a participação na Taça de Portugal para, publicamente, manifestarem a sua posição. Ao intervalo, todos se manifestaram ruidosamente contra o regime. No final do jogo, a solidariedade presente no estádio demonstrou o poder da luta estudantil. 20. Manifestações Estudantis Em 1969, durante a greve estudantil, Zeca Afonso actuou em Coimbra para os estudantes, durante um comício / reunião geral. Durante esta fase de luta, foram várias as reuniões, assembleias gerais, comícios e desfiles organizados pelos estudantes. 21. O PAPEL DAS ESTUDANTES FEMININAS As mulheres foram determinantes em todo o movimento de resistência. Serviam de informantes à rede de greve aos exames, assegurando os piquetes. Eram os “fiscais de bairro”, dos lares e das ruas. Descobriam quem queria fazer exames e tentavam dissuadir esses estudantes. A década de 60 é a época em que a mulher se emancipa verdadeiramente. Ganha um estatuto igual ao dos homens, trabalhando lado a lado,

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com eles, para concretizar o ideal de liberdade. As mulheres foram também decisivas na assistência aos estudantes presos, a quem entregavam o saco de comida. 22. Enquanto durava esta situação de revolta estudantil, a censura trabalhava arduamente para não deixar a imprensa portuguesa noticiar os acontecimentos. Contudo, o movimento estudantil começou a ter repercussões a nível internacional e repórteres de jornais tão importantes como o New York Times (EUA), o Globo (Brasil), Le Monde (França) ou La Stampa (Itália) chegavam à cidade para cobrir os acontecimentos e relatarem os actos corajosos de estudantes que desafiavam um regime de ideais totalitários. 23. Paralelamente, surgiam cartoons e ilustrações variadas que demonstravam bem a situação que se vivia, não só na cidade e não só pelos estudantes: 24. Em 11 de Abril de 1970, tudo parece terminar quando uma comissão de estudantes, com Alberto Martins à frente, vem a Lisboa pedir benevolência a Américo Tomás, na presença do ministro da justiça, Mário Júlio de Almeida Costa, com discursos do reitor, Gouveia Monteiro, e de Teixeira Ribeiro, numa manobra que contou com a ajuda de Sebastião Cruz e Mota Pinto. 25. “ A dimensão dos acontecimentos e a evolução das lutas estudantis, conseguiu bloquear a acção do Governo. Foi uma luta que exprimiu não só a crise universitária, mas a crise do Regime em que o país vivia, formando uma nova consciência sócio-política, que significou um alto momento da história de Portugal no que diz respeito às lutas de resistência contra o fascismo, que viria a terminar escassos anos depois, a 25 de Abril de 1974.” Foto nº 1:

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Outras Fotos retiradas do blog de Maria Donzília Almeida, caloira, então, da Faculdade de Letras: http://pela-positiva.blogspot.pt/2013/04/coimbra-17-de-abril-de-1969.html Foto nº 2: “Cerca de 4. 000 estudantes participaram na Assembleia Magna que se realizou no Pátio dos Gerais, no dia 1 de Maio. Em conjunto com o corpo docente, repudiaram as afirmações do Ministro da Educação Nacional” Osvaldo Castro falou às massas e foi ele que nos informou da libertação de Alberto Martins.

Foto nº 3 17.04.1969 - Chegada do Presidente da República e dos membros do governo à Faculdade de Matemática. No lado oposto ao da fachada e das viaturas oficiais, havia cartazes a exigir diálogo, ensino para todos e estudantes no Governo da Universidade.

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Foto nº 4 Ao fundo das Escadas Monumentais, junto a uma das portas da Associação Académica de Coimbra (AAC), apareceram “novos colegas” nunca vistos antes por ali, trajados de GNR e “a passearem as suas pilecas” (disse Celso Cruzeiro), aos quais os nossos comunicados eram entregues em ... duplicado.

Ainda outras fotos em: http://www.fotolog.com/torres_48/49646928/#profile_start Outros textos: http://expresso.sapo.pt/a-greve-estudantil-que-abalou-a-ditadura=f510792 http://comunidade.sol.pt/blogs/laivos/archive/2011/04/17/17-De-Abril-De-1969-_9600_-Coimbra.aspx Um video evocativo (com fado de Coimbra, em fundo) http://www.youtube.com/watch?v=IqC6H0Ry17c Os nomes dos nossos heróis, com risco de omissão involuntária de alguns: 1. Alberto Martins 2. Fernanda Bernarda 3. Celso Cruzeiro 4. Matos Pereira 5. Gil Antunes 6. José Salvador 7. Rui Namorado 8. Strecht Ribeiro 9. Carlos Baptista 10. José Manuel Roupiço 11. Pio Abreu 5


12. Rui Pato 13. Décio Freitas 14. Luís Januário 15. Carlos Fraião 16. Isabel Pinto 17. Fernanda Campos 18. Guida Lucas 19. Filomena Delgado 20. Fátima Saraiva Professores com posição pública a favor dos estudantes: 1. Avelãs Nunes 2. Correia Pinto 3. Vital Moreira Falecidos: 1. Prof. Paulo Quintela 2. Prof. Orlando de Carvalho 3. Osvaldo Castro 4. António Portugal 5. Zeca Afonso 6. Adriano Correia de Oliveira 7. Barros Moura 8. João Amaral 9. Sardo 10. Clara Antunes 11. Manuela Seiça Neves 12. Garcia Neto

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17 de abril de 1969 há 45 anos