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CAPÍTULO.05


CONTRA O INIMIGO ONIPRESENTE

CAPÍTULO.05

ESCRITO POR: ANDRÉ FERRERA REVISADO POR: MAIRA VERAS


CINCO O dia foi muito cansativo, mesmo para alguém com o preparo físico de JP. A adrenalina que há pouco tempo estava em grande dose em seu corpo não demorou a dar lugar ao enorme cansaço já acumulado há dias. A única coisa de que precisa é de uma boa e renovadora noite de sono. Antes de dormir, JP decide ligar a TV para ver o que mais foi notícia durante o dia, entretanto já é madrugada, e o canal que já estava programado mostra outros tipos de homens engravatados falando para uma multidão em êxtase. Irmãos, Deus sabe todas as coisas. Deus sabe o tamanho do problema pelo qual você está passando. Ele sabe o quanto você está sofrendo. E foi por isso que Ele te tocou para ligar sua TV e nos assistir nessa madrugada. Ele te tocou porque sabe que você não pode perder essa oportunidade. As últimas unidades da água santa santíssima abençoada nas montanhas de Jerusalém estão acabando. Nós temos escutado relatos maravilhosos do que esta água tem feito. Um irmão de Goiânia já estava cego do olho esquerdo e com apenas algumas gotas antes de dormir teve a surpresa de acordar enxergando perfeitamente como nunca! Outro abençoado na Paraíba borrifou a água santíssima em sua pasta de currículos e, após dois anos desempregado, conseguiu um emprego. O testemunho mais recente foi da irmã Joana, de São Paulo, que lavou seu cartão de crédito com a água santa e no outro dia as dívidas acumuladas há um ano sumiram. Irmão, Ele te chamou a essa hora porque você não pode perder essa benção! A garrafa com 100 ml você adquire por vinte reais, o que são vinte reais comparados a uma benção grandiosa na sua vida? A outra garrafa com meio litro custa sessenta reais e a garrafa maior, para dividir com os filhos e a família, contendo um litro você leva por apenas cem reais. Deus também quer abençoar você. Peça sua garrafa, não importa o tamanho, o que importa é sua fé! Peça a sua e se prepare para testemunhar as bênçãos e os milagres de Deus na sua vida!


João Pedro não acreditou no que tinha acabado de ver. Ele já tinha ouvido comentários a respeito da alienação nas igrejas, mas não sabia quão grave e absurdo isso havia se tornado. - Como é possível que nenhuma dessas pessoas enxergue o que esse cara está fazendo? – pensou. O sono agora parecia distante, aquele monte de pensamentos alternados entre raiva, pena e indignação não o deixaram dormir direito. Decidiu pesquisar sobre o tal pastor Ladir Barreto. Barreto estava feliz naquele dia, acordou disposto e dispensou o motorista da Mercedes para um dia de folga. Queria dirigir, afinal a igreja não ficava tão longe de sua mansão em São Paulo. A programação do dia estava cheia, tinha um sermão importante a fazer na maior igreja da cidade e logo mais, à noite, gravaria seu programa da madrugada. - Boa tarde, pastor. O senhor vai ter que vir por aqui. Já havia uma fila de pessoas esperando os portões da igreja se abrirem. Se soubessem que o pastor Ladir estava por ali, certamente causariam um tumulto como o da última vez, quando todos avançaram até ele, querendo tocá-lo em busca de cura. Outros pastores e seguranças guiaram Barreto por um caminho mais seguro. Os portões se abriram, e o culto começou. Todos já estavam bastante comovidos e emocionados antes mesmo do principal sermão da noite começar. O pastor Ladir Barreto entrou ao som de uma música entoada por toda a multidão presente e começou com uma oração de palavras medidas, parecendo se preocupar em não quebrar o clima comovente e sensível do ambiente. Após a primeira oração, mãos já se erguiam declarando cura. Milagres já estavam acontecendo. Ao abrir a Bíblia, com o intuito de começar o sermão, pastor Ladir parece se impressionar com alguma coisa: dentro da Bíblia há um cartão vermelho e grosso, está no meio do livro e contém um símbolo que lhe é familiar, mas assim, de primeira, não consegue lembrar onde já o havia visto. Mesmo forçando a memória, ele continua a folhear o livro e começa a falar.


Depois de alguns minutos falando e tentando se concentrar para não perder o clima, Ladir se engasga, tosse, para e fita os olhos no chão. Lembrou-se. Sua memória lhe trouxe imagens de jornais e revistas que noticiavam sobre o caçador de políticos corruptos, lembrou da marca tatuada neles e voltou à Bíblia para ver o cartão e ter certeza do que estava acontecendo. - Por que comigo? Eu não sou político. – pensou, preocupado. Ele sabia que não era nenhum homem santo. Ladir Barreto decidiu terminar o sermão dizendo que a igreja não se abalaria apesar das críticas e acusações e que Deus seria fiel se todos fossem fiéis para com Ele. Fez a última oração da noite e esperou para que os diáconos viessem tirá-lo dali. Lembrou que estava sem motorista e pediu para que outro pastor o levasse para casa. Já estavam os dois no carro a caminho de casa, quando se escutaram barulhos vindo do porta-malas. - Devem ser as garrafas da água santa batendo dentro da mala. – falou o jovem pastor dirigindo. Ladir não sabia se contava sobre o cartão ou não. O barulho não parecia tão comum e começou a ficar persistente. Ladir estava tão pensativo que nem escutava direito. O barulho não cessou. O homem dirigindo decide então parar o carro e ir ajeitar as garrafas que o estão atrapalhando de tentar uma conversa com o “pastor maior”. Ele abre a porta e, em vez das garrafas, uma surpresa, um susto enorme. Um homem estava espremido na mala do carro todo vestido de preto e usando uma máscara com um bico de ave. Com golpes muito ágeis, o mascarado consegue fazer o jovem pastor desmaiar e o deita ali mesmo, no asfalto. - Evandro? – Ladir grita, tentando vê-lo pelo espelho retrovisor. Decide baixar o vidro e gritar de novo: - Evan... – Ladir Barreto sente uma fina agulhada em seu pescoço e imediatamente fica tonto e desmaia. - Boa noite, pastor. Está confortável aí? Ladir ainda está acordando, tentando entender o que se passa. Está amarrado numa cadeira e não consegue mexer a cabeça que também está amarrada, fazendo com que olhasse para cima.


- Por que eu estou aqui? Eu não sou político... – falou o pastor com dificuldade. - O senhor não é político de profissão. Porque, para chegar aonde o senhor chegou, é necessário ser bem político, até mais que isso! – falou o mascarado. - Eu sei quem é você. Você é o Karkarah. Sei o que faz. Mas eu não sou como eles. Trabalho para Deus! - Trabalha para Deus? Entendi. Deus não pode gastar o dinheiro dos fiéis, aí você gasta no lugar dEle , não é? Pastor, você é muito mais sujo do que os políticos corruptos que tenho caçado. Você está usando o nome de Deus para roubar dos membros pobres da sua igreja! Trabalhar para Deus de acordo com sua Bíblia é servir aos necessitados, é dar a vida pelo seu irmão, é amar o seu próximo. É fácil vender a cura numa garrafinha tendo o melhor plano de saúde do país! Suas ovelhas têm que acreditar em você e em Deus para ter cura, enquanto o senhor paga os melhores médicos do país para cuidar de você! Suas ovelhas economizam na comida dos filhos para dar dinheiro a sua igreja, enquanto você leva seus filhos à Disney. Na sua fazenda, há animais que comem melhor do que os membros da sua igreja, pastor. Isso é trabalhar para Deus? Olha, pastor, com a lei suja desse país, foi difícil juntar provas convincentes para por o senhor na cadeia, mas consegui. É pra lá que o senhor vai, e vou lhe dizer uma coisa: até agora eu não tinha sentido esse prazer de marcar alguém como estou tendo agora. O senhor merece muito essa marca! Notícia. A última vítima do Karkarah surpreendeu a todos. Hoje, nas primeiras horas da manhã, o famoso pastor Ladir Barreto foi encontrado amarrado e tatuado com a marca do Karkarah, em frente a sua igreja, no centro de São Paulo. As provas deixadas com o pastor num envelope vermelho são contundentes e mostram o esquema malicioso de arrecadação de dinheiro praticado pela igreja, desde a venda de produtos falsos a compras milionárias pessoais, feitas pelo pastor e sua esposa. O Karkarah, ainda procurado pela polícia, tem se tornado uma grande força contra a corrupção e a injustiça no Brasil. Quem será sua próxima vítima? A população espera ansiosa.

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