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CAPÍTULO.04


CONTRA O INIMIGO ONIPRESENTE

CAPÍTULO.04

ESCRITO POR: ANDRÉ FERRERA REVISADO POR: MAIRA VERAS


QUATRO Eram 5h15 da manhã desta última quinta-feira quando outros dois deputados foram encontrados amarrados e tatuados em frente ao Congresso Nacional em Brasília. Os dois tinham a mesma tatuagem no rosto que foi feita no ex-deputado Aristides Melo. Aristides foi preso dias após o acontecido, acusado de desvio de dinheiro público e fraudes fiscais graças às provas reunidas num envelope vermelho, que estava no carro onde foi encontrado desmaiado. De acordo com as descrições das vítimas, o homem que os tatuou é alto, usa um sobretudo preto e uma máscara metálica no formato da cara de um gavião. Aparentemente ele escolhe as vítimas, lhes envia um cartão vermelho com um pássaro branco impresso, as sequestra para tatuá-las e as solta. Até agora, os capturados por ele são políticos envolvidos em fraudes e corrupção. Ainda de acordo com as vítimas, o homem se autodenomina O KARKARAH. O tatuador mascarado já é procurado pela polícia, acusado principalmente de sequestro e lesão corporal. O senador Raul Medeiros entra como um raio no gabinete do ministro Felisberto, está ofegante e parece muito preocupado. Com gestos exagerados, sem falar uma palavra, o senador pede o celular do ministro, tira também o seu celular do bolso e os entrega ao assessor para que saia da sala; ainda com gestos fortes, Medeiros aponta repetidamente para seu ouvido, exigindo uma resposta do ministro. O senador teme a instalação de escutas até no gabinete do Ministério da Justiça. Depois da resposta satisfatória, Raul Medeiros tira do bolso interno do paletó um cartão vermelho com o desenho de um pássaro e pergunta: - Ninguém vai fazer nada com esse cara? Depois de algum tempo em silêncio, tentando se recuperar da coincidência de ter acabado de ver aquele cartão na TV, o ministro responde: - Depois de ter recebido isso, você ainda veio me encontrar? Olha só. Relaxa. Já tem gente procurando por ele. Fica tranquilo, vão pegá-lo antes que possa fazer alguma coisa com você.


- Mas esse cara já ferrou com três! E ainda nem uma pista foi encontrada sobre ele... - Já falei, relaxa! Agora sai, não deveria nem ter vindo. Assim quem me ferra é você. O senador saiu de novo às pressas, preocupado para onde iria, olhando assustado para todos os lados. Imediatamente grita ao motorista: - Precisamos sair da cidade. Agora! Enquanto ainda está falando, Raul entra no carro, discando do celular para sua mulher para tentar explicar a viagem de última hora. - Vamos rápido, estou com pressa. - Pra onde vamos, senhor? - Por enquanto apenas vá dirigindo para fora da cidade. O motorista não pôde deixar de notar o cartão que o senador ainda segurava em sua mão esquerda, viu o desenho do pássaro e decidiu perguntar: - Esse símbolo é do Karkarah, não é? Foi o senhor quem recebeu esse cartão? - Não. Não fui eu. Está todo mundo conhecendo esse cara agora? - Todo mundo sabe quem é. Ele só pega gente corrupta, gente que merece. Se o cartão chegou pro senhor, foi por causa do escândalo lá das merendas escolares e das empresas do seu filho. - Como é que é? Como é seu nome, filho? - Meu nome é K. - K? O que você... Antes que pudesse se assustar, Raul sentiu um soco no nariz e desmaiou. O carro continuou na estrada e, alguns metros à frente, uma surpresa inesperada: a polícia. O ministro havia designado uma viatura para acompanhar o senador até seu destino. Os policiais já aguardavam no ponto de encontro combinado. O Karkarah agora precisa pensar rápido, apenas o nariz falso e os óculos escondiam sua verdadeira identidade, e ao seu lado está o senador Raul Medeiros, desacordado e sangrando pelo nariz.


Está em vantagem, alguns policiais estão fora da viatura esperando que o carro pare para lhes dar instruções. O Karkarah decide então aproveitar a situação e acelerar ainda mais, o carro é melhor e mais potente. É provável que escape com facilidade. O sargento Santos entra na viatura e, com um comando simples e forte, indica: - O senador está no carro. Atrás dele! O sargento passa as coordenadas da perseguição via rádio, e outras viaturas seguem rapidamente à caça do sequestrador, com o objetivo de o encurralar. Está anoitecendo, e nenhuma viatura deu sinal de missão cumprida. Há uma única alternativa. - Viaturas na escuta, fechem os dois sentidos da estrada, estamos adentrando a mata. Lembrem-se: o senador está no carro. Prestem atenção e tomem cuidado! – informou o sargento. Não dá pra continuar de carro, a viatura é antiga e não tem tração pra isso. Quatro policiais, inclusive o sargento Santos, saem do carro e iniciam uma busca a pé por dentro da mata escura e desconhecida. Ele sabe que não dá pra ir muito longe, nenhum deles está equipado para esse tipo de situação. Enquanto se escutam passos quebrando as plantas lentamente, uma luz forte se acende, apontando para uma árvore de galhos grossos e não muito alta. Tem alguém pendurado nela. - É o senador! Vamos! Os passos que se aceleraram de repente desaceleram de novo. O senador está pendurado, amarrado a um galho pelas mãos, já está tatuado e tem um cartaz amarrado ao pescoço.

SEU FILHO ESTÁ SEM MERENDA, E O MEU NÃO VIVE SEM CAVIAR.


O experiente sargento Santos ainda olhava a mensagem quando viu, com dificuldade, outro homem quase escondido atrás da árvore no escuro. Era ele. O Karkarah. Santos quase tentou correr para capturá-lo, mas sentiu o peso da verdade caindo sobre sua cabeça, sentiu que, mesmo com aquela máscara, o Karkarah estava olhando pra ele. Era o olhar de alguém que, assim como ele, lutava por justiça. Assistiu, sem dar uma palavra, ao mascarado sumir na escuridão da mata. Passou o rádio: - Pessoal, missão cumprida. Pegamos o bandido.

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