Gazeta Rural nº 359

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Crónicas Rurais

Um dia no monte: tensões e distensões*

Por Júlio Sá Rego

Às vezes, em dias de luz perfeita e exata, Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter, Pergunto a mim próprio devagar Por que sequer atribuo eu Beleza às cousas. (Alberto Caeiro, 1925, poema XXVI)

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inha chegada à Murça foi agitada. Havia combinado de enconvinhas e castanheiros saborosos aos olhos de trar o Pastor em local e hora não claramente acertados, o que cabras sujeitadas a uma dieta à base de mato, a mim, simples cidadão formatado pela objetividade da cartografia urcomo era o caso aqui. Guiá-las tornava-se uma bana e marcação do relógio, pode deixar um pouco ansioso. Assim, tarefa árdua, sucedida apenas com invectivas, pedecidi pegar a estrada cedo para percorrer os 450 km que me separadras e paus. Os incidentes eram, porém, raros e vam de Murça e não perder a oportunidade de encontrar esse pastor. quase nunca terminavam em prejuízo, disse-me o No caminho fui rememorando alguns aprendizados trazidos do Alvão, Pastor ao mesmo tempo que relatava um conflito confiante de que já não era mais o mesmo indivíduo inexperiente em aberto com um viticultor vizinho que chegou a enmatéria de pastorícia. venenar as cabras espalhando herbicida no mato Cheguei em Murça por volta das 13h. Faminto e praticamente sem à proximidade do estábulo. O mundo rural que cobateria no celular que me servira de GPS durante a viagem, corri meçava a desenhar-se diante de mim era bem dipara achar uma tomada e contatar sem mais demora o Pastor. Ele ferente daquele harmonioso e aparentemente sem propôs-me encontrá-lo imediatamente algures no meio de uma esconflitos que imaginei. trada rural, depois da placa de sinalização da aldeia, não muito lonAs minhas seguintes viagens confirmaram-me que ge de um olival à esquerda, e com cuidado para não me enganar, conflitos poderia haver muitos, principalmente em pois na região havia outra aldeia de nome muito similar! áreas onde animais e plantios coexistem imbricaUm pouco confuso e sem almoçar, subi novamente no carro dos. O menor incidente podia ser fonte de tensão e torcendo para não ficar totalmente sem bateria. Claro que não às cabras não lhes poupavam críticas nem acusações, encontrei o local indicado na primeira tentativa, mas pelo menos inclusive quando crimes eram cometidos por outros não me havia enganado de aldeia. Depois de duas ligações e mais animais silvestres, como javalis ou corços. Lembro-me alguns ensaios, cheguei finalmente ao ponto de encontro. Lá esde notícias de jornais relatando queixas de diversos tava ele, imponente, liderando o seu rebanho de cabras serranas proprietários na Serra do Açor culpando “cabras sapacom um guarda-chuva. O dia estava de fato bastante húmido doras” de andarem desacompanhadas a destruir pomacom um chuvisco intermitente. Aflito, ele restringiu nossas prires e culturas, mesmo não havendo nenhum rebanho a meiras palavras à sua preocupação por as cabras haverem inmenos de 15 km das regiões em questão. É certo que vadido um cultivo de beterraba e pelo prejuízo financeiro que corços são também popularmente conhecidos como caisso poderia representar. bras selvagens, o que pode causar quiproquós. Contudo, Felizmente e para alívio do Pastor, a plantação de beterrao estigma social associado à cabra e ao pastor parece ser ba estava praticamente intacta, ao contrário das minhas cero principal motivador de muitas dessas acusações, pois tezas. Receei que de nada poderia me valer o aprendizado quase toda tentativa de esclarecimento, argumentação, ou acumulado na vastidão pedregosa do Alvão, aqui nesse baiconciliação resulta em vão. Pastores não logram dissociarxo planalto verdejante e cultivado do terroir transmontano. -se de sua histórica imagem social, ora a de um sátiro, figura De fato, notei pouco a pouco que o maneio dos animais por exterior à ordem social da aldeia, ora a de um oportunista entre plantios exige outro tipo de destreza, principalmente ou um incendiário. quando o curral e os baldios estão separados por hortas, Não obstante, pastores e agricultores não detinham o pri38

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