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Desenhando a vida em Páginas 6 e 7 quadrados.

JORNAL LABORÁTORIO DO CURSO DE JORNALISMO MULTIMÍDIA - UNA

nº10

contramão ANO 3 - 2009 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA


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Editorial

Carta à redação

A décima edição do “Contramão” encerra o ano em um momento de otimismo para a atividade jornalística no país. Afinal, a Proposta de Emenda Constitucional 33/09, conhecida como a PEC do Diploma, foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, no dia 02 de dezembro. O parágrafo 7º da PEC é preciso: “a profissão de jornalista é privativa do portador de diploma, de curso superior em Jornalismo, expedido por instituição oficial de ensino, cujo exercício será definido em lei”. No texto do parágrafo 8º, encontra-se regularizada o papel do colaborador nos veículos de imprensa: “A exigência do diploma a que se refere o parágrafo 7° não é obrigatória ao colaborador, assim entendido aquele que, sem relação de emprego, produz trabalho de natureza técnica, científica ou cultural, relacionado com a sua especialização, para ser divulgado com o nome e qualificação do autor”. Trata-se, pois, de uma conquista da categoria que não pode passar em brancas nuvens, afinal, menos de seis meses após a decisão polêmica do Superior Tribunal Federal (STF), que suspendeu a exigência do diploma, conseguiu-se o engajamento de parte considerável dos jornalistas, e demais cidadãos brasileiros, em nome da manutenção do diploma como quesito necessário para o exercício da profissão de Jornalista. Não poderíamos encerrar o ano sem fazer menção a este fato.

Prezada Joana, Vejo Nº 09 de CONTRA MÃO e quero, através de você, cumprimentar os Coordenadores e toda a equipe que faz o jornal, bem como os professores do Curso. Estão de parabéns, porque o nosso Jornal Laboratório não tem nada a dever os outros, nem mesmo ao mais antigo de todos, o MARCO, da PUC-Minas. Vocês encontraram o que é mais difícil: um formato e um conteúdo ideal para este tipo de jornal, como a entrevista de sustentação e a abordagem de temas de fronteira na cultura e em Belo Horizonte, como o Mercado Central, os velhos problemas de saúde, os comportamentos produzidos para as novas mídias, a volta gloriosa do Jazz, os poemas dos alunos e a demarcação do espaço UNA Liberdade. Uma leitura leve, gostosa, coisas atuais. Se eu soubesse teria comprado a vitrola americana que esteve à venda na esquina de minha casa. Mas o jornal informou que ela já foi vendida. Continue na luta, pois é por ai que irão abrir espaços no mercado de trabalho. Um grande abraço para você, seus professores e alunos. Padre Magela

Crônica O poder da palavra

Por Alessandra Gálatas

No sentido mais fiel do vocábulo que pode ser encontrado no Aurélio, compreende a alta expressão do pensamento, da faculdade de expressar ideias por meio de sons articulados, trata-se de uma promessa, quando dou-lhe em troca de confiança, pode ser um substantivo de permissão ou direito de falar, a palavra é percebida comumente, em situação em que é negada e ainda, como modo ou maneira de se expressar, classificada como mansa quando provém dos mineiros. Palavras que traduzem sentimentos, ferem corações, julgam e lançam sentenças de vida ou da morte. Como elas surgem? Pra onde vão, quando se perdem no ar, depois de falar e não ter como voltar? Em um tribunal o que o juiz profere, será dado como o destino, com a condenação ou a liberdade. Assim como no casamento, em que o sim ou não consagra a união ou o episódio da separação. Todos os dias, a palavra está presente e dela fazemos nossa rotina, bom dia, por favor e obrigada, são mágicas e abrem caminhos. Basta! Significa tudo e nada mais. Em briga de casais, melhor não dizê-las, de cabeça quente ou pode lhe faltar os dentes. Palavras de amor, proporcionam sorrisos, trazem os mais belos horizontes coloridos e tudo fica mais lindo. No atestado de óbito ou no cartão de aprovado, duas faces da vida que as palavras significam. Pode ser que nem esteja morto, e sim dormindo, mas se no papel for escrito, é melhor que tenha sorte e não seja enterrado vivo. Ou pode ser que nem seja um bom motorista, mas se aprovado for, poderá ir sem qualquer temor. As palavras são, estão, ficam, permanecem e continuam em qualquer estado dentro das lembranças, porque em outro meio, um dia podem ser deletadas. Elas podem, mandam definem destinos e abrem caminhos. Você tantas vezes para e percebe a importância de cada palavra, consegue entendê-las? Elas são o mundo. Você se constrói a partir delas e cria sua vida, com elas.

Imagem da capa site: http://ryotiras.com/ Histórias em quadrinhos

Expediente CONTRAMÃO Jornal laboratório do curso de Jornalismo Multimídia do Instituto de Comunicação e Artes - Centro Universitário UNA Reitor: Prof. Pe. Geraldo Magela Teixeira Vice-reitor: Átila Simões Diretor do ICA: Prof. Silvério Otávio Marinho Bacelar Dias Coordenadora do curso de Jornalismo Multimídia: Profª Joana Ziller Contramão - Tel: (31) 3224-2950 - contramao.una.br Coordenação: Reinaldo Maximiano (MTb 06489) e Pedro Coutinho Projeto gráfico original: Bruno Martinez, Bruno Teodoro, Guilherme Brandão, Fabrício Costa e Renata Coutinho Diagramação: Ana Paula P. Sandim Estagiários: Ana Paula P. Sandim, Camila Sol, Juliane Schlosser, Matheus de Azevedo e Natália Oliveira Tiragem: 2.000 exemplares Impressão: Sempre Editora


Foto: Sanakan

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“Somos um pedaço da natureza” Célio Valle, biólogo e diretor de Biodiversidade do IEF

ENTREVISTA

O biólogo e ambientalista Célio Vallle, 76, é o atual diretor de Biodiversidade do Instituto Estadual de Florestas (IEF), se orgulha em dizer que é um naturalista tradicional e discípulo de Charles Darwin que, em 2009, foi lembrado duplamente, primeiro pelos 200 anos de nascimento; segundo pelos 150 anos da publicação de “A Origem das Espécies”, obra fundamental da chamada Teoria da Evolução. Nesta entrevista, Vale relembra a sua trajetória no ambientalismo, iniciada na década de 1970, frisa a importância das Unidades de Conservação (UCs) e enfatiza a importência da biodiversidade. Por Cíntia Melo

ONDE E COMO COMEÇOU A SUA TRAJETÓRIA NA LUTA AMBIENTALISTA? CÉLIO VALLE: Quando, em Belo Horizonte, na década de 1960, cursei História Natural na UFMG. Sou naturalista, descendente de Darwin, me especializei no macaco muriqui, também chamado de monocarvoeiro, o maior e, ainda, sobrevivente primata das Américas. Fui professor da UFMG por quase 40 anos, até aposentar. Na faculdade, participei do Centro para a Conservação da Natureza, um dos mais antigos grupos ecológicos, criado pelo Dr. Hugo Werneck, e composto por ambientalistas históricos como Angelo Machado e Amilcar Viana Martins. As reuniões variavam de casa em casa e as mulheres e as crianças também participavam. Quando descobríamos um problema e íamos até as autoridades para tentar resolvê-lo. Era assim que as coisas aconteciam. Foi dessa forma que conseguimos criar os parques Municipal, das Mangabeiras, Estadual Grande Sertão Veredas e o Nacional do Cipó. Marcávamos reunião com o governador e apresentávamos nossas pretensões. Tínhamos a imprensa como aliada. Os jornalistas da época gostavam de conversar comigo porque se eu não tivesse a informação que precisavam, sempre indicava alguém entendido no assunto. QUEM BANCAVA AS DESPESAS DO CENTRO? Não havia muitos gastos, porque não tínhamos sede, secretária, nada. Só vontade

mesmo. E a nossa causa era política. Procurávamos fazer tudo sem brigar, seguindo os conselhos do Dr. Hugo [Werneck]. Não dependíamos financeiramente de ninguém. Naquela época, meio ambiente já estava em alta. E éramos os únicos com coragem para defendê-lo, enfrentando o governo. Como não estávamos ligados a nenhum partido, os políticos nos ouviam. Tínhamos prestígio. POR QUE VOCÊS NÃO "ENTRARAM" PARA A POLÍTICA? Uma coisa ruim no Brasil é que nós desmoralizamos os políticos. Na medida em que eles se desmoralizam, perdemos a confiança neles. Esse ciclo é muito ruim, porque hoje, a maioria dos cargos políticos é ocupada por empresários. Gente que percebe a força global de temas ligados ao meio ambiente e só usa seu cargo político para fazer marketing, quase nunca propõe projetos sérios. Pedi muito ao Dr. Hugo que se candidatasse a deputado, mas sabiamente, ele não aceitou. Essa falsa idéia de que quem está na política não serve, acaba impedindo que gente muito boa entre. Isso é perigoso. QUANDO SURGIU A FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS? Quando sentimos a necessidade de criar um grupo técnico, uma ONG científica. O nome foi sugestão minha e, naquela época, eu já dizia que essa seria a palavra do futuro. Na sua criação precisamos de dinheiro e o patrimônio inicial

foi uma motocicleta. Era o que a gente tinha na época. Hoje, muita coisa mudou. Até sócios jurídicos as ONGs têm para poder sobreviver e exercer seu papel. Embora possa parecer perigoso, se houver pessoas sérias a frente dessas organizações, tudo bem. OS GOVERNOS SE PRECUPAM COM AS QUESTÕES AMBIENTAIS? O governo diz que está preocupado com o meio ambiente, mas quanto é que gasta para protegê-lo? Por exemplo, os parques brasileiros não resolveram suas questões fundiárias porque o governo não coloca dinheiro neles. O governo não vê lucro em meio ambiente. A prioridade oficial ainda é o lucro pelo lucro, diferentemente do que diz a Constituição Brasileira. Nela, a proteção da biodiversidade e a vida pela vida é o que importa, é o principal. E OS PARQUES E UNIDADE DE CONSERVAÇÃO? Os parques federais seguem com questões fundiárias mal resolvidas e falta de infraestrutrura. As Unidades de Conservação (UCs) são nossas Arcas de Noé. Quando criarmos juízo, poderemos ampliá-las, para que os bichos e as plantas voltem a habitálas como antes, equilibrando a Terra. Parques geram emprego e renda. Se considerarmos uma área de 200 mil hectares e colocarmos um funcionário para cada 500 hectares, teremos 400 guarda-parques. Isso emprega toda uma comunidade local. Essa mão de obra local para fiscalizar os parques

acaba fazendo com que toda a família do empregado também cuide da área, afinal, a renda da família vem dela. O governo deveria valorizar e pagar pelas UCs, assim como paga para fazer hidrelétricas. QUAL O MAIOR PROBLEMA AMBIENTAL, HOJE? A população. Tudo está ruim, porque tem gente demais, consumindo sem consciência ecológica. Em Minas, no Brasil, em todo o planeta. Meus pais tiveram 11 filhos. Eu, quatro. Meus filhos estão tendo dois. Já é um avanço. Não ter muitos filhos é um compromisso nosso com a Terra. Não cabe mais gente nela. Essa consciência tem de existir. A natureza humana é tão capaz que está mudando isso sozinha. Mas também não adianta ter só um filho que impacta e consome por 200 outras pessoas, como acontece nos países desenvolvidos. E O AUMENTO DA FROTA DE AUTOMÓVEIS NAS GRANDES CIDADES? O uso ilimitado do automóvel é a pior invenção da modernidade, por mais importante que possa ser. Nossa frota de veículos queima CO2. Temos que promover é o uso do transporte coletivo e da bicicleta. Eu uso ônibus todo dia é a coisa melhor do mundo. Ando em uma Mercedes, com motorista próprio e uma banda de músicos atrás. Não pago passagem e assento na frente, onde acabo conversando e trocando idéias com outras pessoas. Tudo fica mais humano.


4 contramão Foto: Rodrigo Bezerra

CIDADE

Pichação: vandalismo ou arte? A experiência dos jovens que praticam essa intervenção urbana envolve um misto de prazer e perigo, onde a satisfação em transgredir se transforma em realização pessoal. Esses jovens defendem a pichação como uma manifestação genuinamente artística. Para muitas pessoas, a pichação é considerada um ato de vandalismo, enquanto que, para alguns especialistas em arte trata-se apenas de uma expressão artística. O tema ganhou recentemente uma exposição na França, na mostra “Nascido nas Ruas - Grafite”, e um documentário brasileiro denominado “Pixo”, dirigido por João Wainer e Roberto T. Oliveira em 2009, também exibido na Europa. Rodrigo Bezerra, 18 anos, conta que picha desde os 16. Segundo ele, muitos dos seus amigos que picham são menores de idade. Rodrigo diz que são vários os motivos que o levam a pichar, entre eles a adrenalina que a atividade traz. “É inexplicável. Eu picho por diversão e reconhecimento. Me divirto quando estou pichando, sabendo das conseqüências do que pode acontecer caso algo saia errado. Posso cair, posso ir pra delegacia,

posso me dar mal. Toda essa adrenalina acaba se tornando uma diversão, e quem não gosta de se divertir?” Segundo Rodrigo, quem se inicia no “picho”, como ele mesmo chama a manifestação, não consegue parar. “Pode até dar um tempo, mas sempre volta. Isso explica o porquê de termos hoje pichadores de mais de 35 anos”. Para a educadora e psicanalista Maria Augusta Spiller, "pichar pode ser interpretado como um reconhecimento de identificação numa sociedade que só produz anonimatos e não como vontade de destruir". Já a professora de Matemática Sheila Barroso, que diz se posicionar como cidadã, pichar é coisa de vândalo. “Onde vai parar o princípio do respeito à propriedade, ao espaço do outro? Pra mim, pichação é crime e quem picha deve ser punido”, acrescenta.

Código Penal não cita pichação como crime A pichação não se enquadra no Código Penal, mas a Lei nº 9.605/98 - chamada Lei de Crimes Ambientais, em seu artigo 65, prevê que “pichar, grafitar ou, por outro meio,

conspurcar edificação ou monumento urbano é passível de pena de detenção de três meses a um ano e multa.” Um Projeto de Lei de autoria do deputado Geraldo Magela (PT-DF) não cita o grafitismo. Outro pichador, que se apresenta apenas como R, diz que não há como não considerar a pichação crime. “Para mim, é algo agressivo contra a sociedade. A gente não picha para sociedade gostar. Pichação é para pichador”, acrescenta. A turma de pichadores defende que a pichação tem um significado artístico porque depende de um processo de criação que implica na busca por um significado e uso da inspiração que vai desde a caligrafia, o estilo de letra, ao motivo da mensagem, ou seja, da história à qual a criação se refere. “É inexplicável. Tem toda uma identificação com o significado do picho e também certo fascínio em tentar decifrar o que está escrito lá no alto, com aqueles garranchos que ninguém entende”, conta Rodrigo Bezerra. Para o grupo, essa escrita inteligível para muitos é uma espécie de língua, uma nova escrita, um novo idioma. “Claro que é arte. Arte proibi-

da, mas é arte sim”. Completa o estudante. Os grupos de pichadores se espalham cada vez mais pela cidade, segundo o pichador Rodrigo. Um deles, surgido em 1993, quando uma turma de amigos saía à noite para festas e se reuniam de madrugada para marcar território, existe até hoje. Cada grupo tem seu código, sua assinatura, seu “picho”, como eles dizem, que é o nome que os identifica. Muitas pessoas confundem pichação com grafitismo. O grafite é conhecido como arte legal, já que geralmente o grafiteiro tem autorização do dono para usar determinado espaço. Além disso, o grafite abusa das cores e das formas bem mais realistas que a pichação, que tem sua criação baseada na caligrafia. Embora diferentes, as duas manifestações não chegam a rivalizar. Alguns pichadores também são grafiteiros. Vale lembrar Platão que diz que “arte e belo estão intimamente relacionados e belo é o que é difícil.” Alguém se habilita a arriscar um “picho”?

Por Nélio Souto 3 º periodo

- pichar pode ser interpretado como um reconhecimento de identificação, numa sociedade que só produz anonimatos e não como uma vontade de destruir. Maria Augusta Spiller


contramão 5 Foto: Guilherme Côrtes

TRÂNSITO

Andar de moto: um prazer arriscado A frota de motocicletas em BH cresceu, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em média, 16,05% nos últimos quatro anos, enquanto os carros tiveram crescimento de 7,42%. Ainda conforme o Denatran, foram contabilizados, até o mês de maio de 2009, cerca de 150 mil motos no município. Jorge Fernando, 25, é motoboy e tem uma explicação para esse fenômeno. “Acho que o aumento da frota tem a ver com a praticidade que a moto oferece, afinal, consigo fugir do trânsito da cidade, que é muito congestionado no final da tarde. Além do mais, o custo-benéficio é melhor para mim. Acho o transporte coletivo muito caro, e não tenho condição de financiar um carro. Existem outras pessoas que decidem pela moto pelo mesmo motivo que eu, e acredito que não seja somente em Belo Horizonte'', opina. Os acidentes envolvendo motociclistas têm sido uma crescente realidade no trânsito de Belo Horizonte. A última atualização feita pelo hospital referência em atendimento de pronto-socorro, João XXIII, relata que em 2005 deram entrada 5.774 vítimas – entre fatais e não fatais – com um aumento para 8.447 no ano de 2008. De acordo com Wendel Garcia, 27, residente de medicina no João XXIII, os atendimentos envolvendo motociclistas no CTI são os mais sérios, ‘’as vítimas quase sempre estão com traumas mais graves, inconscientes ou perfuração de algum órgão vital, como o pulmão, por exemplo’’ explica. Garcia diz que o motociclista está exposto a alguns perigos,

‘’houve um caso de uma queda em que o paciente não teria sofrido lesões muito sérias, mas um carro que passou bateu nele’’, conta. Apesar do alto índice de acidentes, Paulo Roberto, 44, vendedor, relata a sua paixão pelas duas rodas. ‘’Olha, eu sei que é arriscado. Mas sinto, até hoje, digo isso porque não possuo mais moto, que pilotar é um prazer inenarrável. Me sinto livre, a ponto de esquecer alguns problemas. Quando falo livre, não quero dizer somente pela sensação do vento no rosto, mas também da liberdade no trânsito de BH, que está cada vez mais caótico’’, explica. A BHtrans, de acordo com uma agente que não quis se identificar, procura alertar os motociclistas dos perigos que o trânsito pode propiciar. A empresa faz campanhas em panfletos, outdoors e em ônibus, contra o cerol que é risco notório para os motoqueiros, o álcool, a alta velocidade e propõe o uso de equipamentos de segurança para tentar amenizar um possível impacto. A campanha não se restringe apenas à atenção dos usuários de moto mas, também, aos que compartilham com eles o trânsito, ou seja, motoristas de carros, caminhões e ônibus. A funcionária exibe algumas campanhas em adesivos e panfletos, por

exemplo, ‘’em cada moto tem uma vida’’, ‘’toda semana um jovem morre em acidente de moto’’ e ‘’se beber vá de táxi’’. Ela complementa que mesmo com todos esses cuidados, existem dois tipos de motoqueiros, ‘’o que já caiu, e o que ainda vai cair’’.

“E eu fiquei, né...’’ A agente da BHtrans relatou uma história pessoal. Ela conta que perdeu o noivo em um acidente de moto: ‘’Foi dia 6 de fevereiro de 1981, estávamos indo para Taquaraçu de Minas. Eu havia ficado noiva em dezembro, no dia do meu aniversário. Queríamos acampar lá no carnaval. Fomos três casais de moto, uma semana antes para ver como estava a estrada, já que ia uma turma de carro. Bom, ele tinha uma XL 250R, uma moto trail, na época ponta de linha, que eu, por sinal, ajudei a comprar. Estávamos todos equipados, capacete, bota, blusão de couro e óculos. Paramos em um posto para lanchar, próximo ao trevo de Caeté, ninguém havia bebido. Saímos todos rindo, me lembro que paramos pra esperar um casal que havia atrasado, aí eles vieram e seguimos viagem. Em seguida, numa curva, senti como se a moto houvesse escorregado, o resto me contaram depois. O pessoal que veio atrás disse

“Fiz isso porque estava revoltada e com ódio dele. Ele me prometeu que ficaríamos juntos até os oitenta e dois anos. Me senti traída.”

que a moto travou e nos atirou. Vinha um caminhão no sentido contrário, o caminhão parou. Meu noivo bateu de costas na roda do caminhão e eu bati em cima dele [do noivo]. Eu entrei em convulsão no asfalto. Acharam que eu estava pior do que ele, então arrumaram gente para me levar para o hospital. Quando chegaram perto dele, me disseram que ele passou a língua nos lábios, soltou o intestino e morreu, ali mesmo na rodovia. Ele teve um pulmão perfurado, acho que foi porque ele amorteceu a minha queda, mas isso eu suponho. Ele tinha 22 anos e era filho único. Quando acordei no hospital, ainda em Caeté, com o braço quebrado em três lugares e várias escoriações, a primeira coisa que perguntei foi onde ele estava. Um enfermeiro perguntou, ‘o cara que morreu no asfalto?’, comecei a gritar e chorei muito, mas me disseram que confundiram a pessoa, porque eu estava sangrando pela orelha e muito nervosa. Então acreditei. Mais tarde, me levaram para um hospital em Belo Horizonte e minha família e o médico me contaram a verdade, ele tinha morrido mesmo na rodovia. Pedi para ir ao enterro e fui na garupa da moto de uma amiga, com braço quebrado e tudo. Fiz isso porque estava revoltada e com ódio dele. Ele me prometeu que ficaríamos juntos até os oitenta e dois anos. Me senti traída. Sou casada há 22 anos, tenho um filho e nunca me recuperei completamente do que aconteceu. A sensação que eu tenho é que ele foi... E eu fiquei, né?’’ Por Natália Zamboni 3 º periodo e Guilherme Côrtes 4 º periodo


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e t r En A cada quadro um sorriso, um espanto, um susto, uma identificação, um sentimento. Quadrinhos nas paredes, no chão, em latas, caixas e prateleiras. Crianças, jovens, adultos, idosos não tem idade para gostar das histórias em quadrinhos (HQs) e o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) estava repleto de pessoas de todas as idades passeando por um labirinto de arte sequencial. Stands com revistinhas por todos os lados, filas para fazer compras, artistas desenhando, discussão de ideias, pausa para ler um pouco, fotos e muitos sorrisos. Do dia 6 a 12 de Outubro, o Palácio das Artes e uma parte do Parque Municipal entrou na onda da arte sequencial se tornando palco das atividades do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ). Em sua sexta edição, o evento reuniu os principais artistas da área promovendo um intercâmbio rico de idéias e proporcionando ao público uma mostra bastante curiosa. As histórias em quadrinhos (HQs) partem de cenas e análises do comportamento humano agregadas à imaginação. Sempre com humor e acidez peculiares, elas foram além dos almanaques e gibis conquistando espaços na TV e no cinema. Atualmente a Rede

Globo exibe, pela segunda vez, a série intitulada Aline baseada no trabalho do quadrinista Adão Iturrrusgarai. Grande maioria dos super-heróis como Hulk, Super-Homem e X-men, nasceram nos quadrinhos para depois experimentar outras veiculações. Falando em grandes personagens, neste ano, o Batmam completou 70 anos. Para homenageá-lo, uma das galerias do Palácio das Artes foi fechada recebendo apenas desenhos originais do cavalheiro das trevas feitos por Joe Bennett o brasileiro que conquistou, com seu talento, o império da Marvel, nos Estados Unidos. Mas em um festival internacional a presença de personagens que já estão solidificados no mercado é apenas uma parte. O movimento da mostra se dá mesmo com o trabalho, disciplina e o rabiscar sobre os papéis dos novos artistas. Muitos deles, saem de seus estados, pagando do próprio bolso as despesas com o evento no intuito de garantir um espaço para divulgar seu trabalho. Durante o festival, desenhos surgiam nas diversas stands chamando a atenção dos visitantes que se impressionavam com a precisão dos artistas. Quando criança o paulista Ricardo Tokumoto, ilustrador e estudante de cinema e animação pela UFMG, que assina como Ryot, já era fascinado por quadrinhos. Mesmo não sendo assinante do jornal Folha de São Paulo, corria atrás da “Ilustrada”, caderno de cultura, a fim de conferir as tirinhas. Atualmente ele está envolvido com o trabalho independente da sua própria revistinha, a "Ryotiras". As definições do projeto variam do nonsense às críticas sociais bem humoradas. “Os debates


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so r r i s o s ... e quadrinhos dessa edição geraram opiniões interessantes e trouxeram um pessoal muito competente. Foi possível descobrir muitos artistas de talento. Para mim a coisa mais interessante do FIQ é que ele agrega todos os estilos de quadrinhos, principalmente o pessoal mais autoral e independente. Não há outro evento no Brasil que consiga reunir todas as ramificações dessa linguagem”, relata. O estudante de Artes Visuais da Universidade Federal do Espirito Santo UFES, Alexandre Vieira, 22 anos, traz uma proposta de quadrinhos que tratam assuntos como a classe média, vagabundagem e o tédio contemporâneo. Essa é a segunda vez que o estudante participa do evento, prova de que todo trabalho gasto é compesatório. “Apesar de sair

caro, no fim das contas vale a pena. O FIQ proporciona um contato entre os diversos criadores e diferentes tipos de trabalho, sem contar que é uma diversão só”, conta. Diversão, tiveram as pessoas que se depararam com o um centro de compras chamado Supermercado Ferraille. A ideia veio dos quadrinistas franceses, Cizo e Frédéric Felder com o objetivo maior de criticar a sociedade de consumo. Dentre as mercadorias estavam o açúcar Unión, “super, mas SUPER refinado mesmo!!!” estampado com a caricatura do ex-jogador e atual técnico da seleção argentina, Maradona. Outra novidade foram os preservativos reutilizáveis intitulados de “Love Bag” e o enlatado de mico leão dourado em conserva, que já

vem acompanhados com batatas. Os criadores não economizaram na criatividade. Trabalhos foram expostos em armações de metal coloridas que chegavam a medir 1,80 metros de altura. E como não poderia faltar, quadrinhos com a temática futebol estavam representadas em um pinbolim gigante, com direito a interação! Para a jornalista Marcela Machado, 35 anos, o festival é uma boa pedida para quem quer se atualizar. “Não acompanho frequentemente as novidades que rolam neste universo, mas de ano em ano venho conferir. Interessante que me chamou a atenção os trabalhos da italiana Gabriella Giandelli. Me surprendi porque nunca tinha visto uma mulher que desenhasse quadrinhos”, ressalta.

O FIQ é um festival bastante democrático, que além de celebrar os quadrinhos, reúne um público bastante eclético. De acordo com os dados da Fundação Municipal de Cultura, cerca de 75 mil pessoas passaram pelas dependências do Palácio das Artes. Vale destacar que neste segmento, o evento se sedimenta como principal do país. “Vieram pessoas de vários lugares do Brasil, era notório na hora dos bate-papos os diferentes sotaques da platéia”, lembra o diretor geral do FIQ, Afonso Andrade.

Por Hélio Monteiro e Natália Oliveira

$ Quadrinhos Milionários $ - O desenho do personagem Lanterna Verde, assinado por Neal Adams e Bernie Wrightson, foi comprado por US$ 115 mil, ou cerca de R$ 265 mil. - Não há um total de quanto o mercado de desenhos originais movimenta por ano, mas empresários arriscam uma renda de pelo menos US$ 100 milhões. - Em uma convenção em San Diego, na Califórnia, em 2008, foi vendido US$ 1,5 milhão, R$ 3,5 milhões, em três dias o que comprova o grande número de comerciantes no setor. - Transações já chegaram a US$ 200 mil, ou R$ 465 mil, como a capa da revista Weird Science nº 16, de 1952, que traz uma invasão de alienígenas saídos de um disco-voador. - Um dos exemplares da revista Action Comics nº1 esta avaliado em US$ 34 mil - R$ 79 mil. - Durante a Segunda Guerra Mundial, houve um esforço nacional para coletar materiais para serem usados na guerra. Tudo era reciclado. Não entregar sua coleção de quadrinhos em nome da guerra poderia ser visto como anti-patriótico. - Com medo das editoras burlarem os direitos autorais. Logo após concluírem os negativos, os editores jogavam fora os originais. - Um desenho original de Dick Tracy do anos de 1959 sai por US$ 2 mil, perto de R$ 4500, enquanto um desenho de Jack Kirby dos anos de 1980 pode ser avaliado em US$ 10 mil, ou cerca de R$ 23 mil. - Em agosto de 2008 a casa de leilões Bonhams, de Londres, vendeu um desenho dos personagens infantis Ursinho Pooh, Tigre e Leitão por US$ 50 mil, aproximadamente R$ 115 mil. Fonte do Box: revistaepoca.globo.com 1º de dezembro de 2008


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Foto:Ana Paula P. Sandim Arte: Juliane Schlosser

Quando saímos a procura de escolas que oferecem o curso de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), não imaginávamos que encontraríamos certas dificuldades. Logo no primeiro lugar que estivemos, a Confederação Brasileira de Surdos (CBS) nos deparamos com uma situação inusitada. O atendente Cláudio era surdo e se esforçou muito para nos fazer entender o seu nome. Nos sentimos um peixes fora d’água por não conseguir compreendê-lo e, com muitos sinais e gestos, ele nos pediu para retornar meia hora mais tarde. Nesse intervelo de trinta minutos, fomos à Associação de Surdos de Minas Gerais (ASMG) e, novamente, nos sentimos incapazes de comunicar com mais um atendente surdo. Escrevemos em um papel, qual era a nossa intenção ali: – Quantas pessoas procuram a associação para fazer o curso de LIBRAS? Qual a frequência? Quem procura? Quais profissionais e por qual motivo? Existe um encaminhamento para o mercado? O atendente, por meio de gestos com as mãos, nos transmitiu uma mensagem que interpretamos como “aguarde”. Enquanto isso, observamos o ambiente e as pessoas que estavam na recepção. Todas eram surdas. De repente, percebemos que o celular de uma mulher vibrava em cima da mesa por repetidas vezes.

Mãos que falam Aumenta em BH a procura pelos cursos de LIBRAS, a língua oficial dos surdos no país, oferecidos semestralmente Pensamos: como ela faz para se comunicar pelo telefone? Por mensagens? Mais tarde compreendemos melhor o que se passava. Neste instante, a secretária Daniela Gonçalves Guimarães Viena, 20, que trabalha há 3 meses na ASMG adentra a recepção, vem ao nosso encontro e começamos a conversar. – Por que você está na Associação? Foi necessário aprender LIBRAS para ter o emprego? – A linguagem de sinais foi minha primeira língua, assim como o português foi a de vocês, tenho pais surdos e desde a infância me comunico com as mãos, revelou. O curso de LIBRAS da ASMG é pago e divide-se em quatro módulos. (R$250,00 primeiro módulo e depois R$25,00 a cada modulo). As aulas são ministradas por instrutores, às terças e quintas de 19 às 21 horas e aos sábados de 08h30 às 11h30. – Quem procura informações sobre o curso são professores, pedagogos, psicólogos que já estão no mercado de trabalho ou desejam aumentar seus conhecimentos. As em-

presas ligam procurando por intérpretes e o Ministério do Trabalho está com uma turma de 14 pessoas aprendendo LIBRAS no momento, informou. Cilene de Oliveira Fernandes, 63, é aluna do curso de LIBRAS e ressalta que não tem vergonha de sua idade. Ela trabalha numa clínica odontológica e é o seu terceiro estágio na ASMG. Ela cursa quinto período de Comunicação Assistiva da PUC-MG e, obrigatoriamente, deve-se fazer três períodos de estágios em instituições diferentes. Os sobrinhos e o cunhado de Cilene Fernandes são surdos. – Eles levam muitos amigos para casa, nos fins de semana. Eu me sentia mal em só ficar observando o diálogo deles _ relata. Decidi fazer o curso para melhorar a convivência e não para me tornar apenas uma intérprete.

Mercado A presidente da Confederação Brasileira dos Surdos (CBS) e integrante do Conselho da Pessoa com Deficiência, Alvanir da Costa Melo Lima é surda e trabalha com a ouvinte e intérprete Dalvane Leal

Sayão que, também, é a diretora administrativa da confederação. De acordo com elas, a CBS recebe cerca de oitenta contatos (presenciais, via telefone ou email), por mês, de crianças surdas ou ouvintes, professores e médicos interessados no curso de LIBRAS. São cerca de cem alunos por curso, que, também, se divide em módulos e é pago da seguinte forma: R$ 75 mensalidade, R$ 30 matrícula e R$ 35 apostila. A aula acontece uma vez por semana, com 3 horas de duração, às terças ou sábados. As turmas são abertas no primeiro e no segundo semestres. De acordo com Dalvane Sayão, a demanda pelo curso aumentou nos últimos seis anos devido a uma exigência do mercado de trabalho. – Nos bancos e em outras instituições, por exemplo, exigem-se a presença de um intérprete, mas o número de intérpretes disponíveis ainda não é o suficiente. Segundo a diretora administrativa da CBS, faltam profissionais em áreas essenciais como hospitais e órgãos ligados à justiça. – Quando um surdo procura a justiça, para separação conjugal, ou qualquer outro motivo, muitas vezes ele tem que pagar o intérprete do seu próprio bolso_ ressalta.

Por Alessandra Gálatas e Daniella Lages

Você sabia?

Por que aprender?

Que a Libras (Língua Brasileira de Sinais) é completamente independente do português, seguindo regras gramaticais e de construção de significados diferentes. Ela não é uma tradução da língua falada e sim uma forma de linguagem própria dos deficientes auditivos. Existe uma lei (10.436 de 24 de abril de 2002) que oficializa a LIBRAS no território nacional e o Decreto 5626 de dezembro de 2005 que regulamenta LIBRAS e determina que 5% dos funcionários públicos de saúde devem ser conhecedores e intérpretes de LIBRAS. “Os outros ouvem, eu não. Mas tenho olhos, que forçosamente observam melhor do que os deles. Tenho as minhas mãos que falam...” (Emmanuelle Laborit, 1994)

Sabia que existem cerca de 5.750.805 pessoas com alguma deficiência auditiva no Brasil, correspondendo a 3% da população total. Um número como este não pode ser ignorado e foi pensando nisso que o Governo Federal, em 2002 reconheceu a Libras como a língua oficial a ser utilizada pelos surdos no país..


contramão 9 Foto:Débora Gomes Tomaz

RELIGIÃO

Por dentro da TOCA

Saiba quem são os Filhos e Filhas da Pobreza, que trocam o luxo e o sexo por uma vida de obediência a Deus e doação ao próximo Por Débora Gomes Tomaz

sado para trás. "Quando entrei para a Toca, eu não era mais o Fábio. Aqui eu sou o Irmão Ictus e tudo que era do Fábio ficou lá em Pernambuco", relata o irmão Ictus que, hoje, reside na Casa Fraterna Aliança de São José, na Pampulha. Por serem missionários, nunca permanecem em uma cidade ou estado por muito tempo. Sempre se mudam. Faz parte da missão não se apegar a lugar algum. "Somos missionários. Nossas missões variam de um lugar para outro justamente para praticarmos o desapego. Não podemos nos apegar, pois Deus precisa de nós em lugares diferentes, para nos doarmos ao outro e receber um pouco de graça por isso também. Cada hora Deus nos chama para uma missão diferente", explica o irmão Petrus, outro residente da Casa Fraterna.

Chamado de Deus Mas o que os leva a esta escolha? Para grande parte da sociedade, essa pergunta é a mais frequente. Os seguidores de São Francisco de Assis abandonam a vida antiga para se dedicar ao amor pelo outro, vivendo com simplicidade e usufruindo apenas do necessário para a sobrevivência, se privando das riquezas mate-

riais e dos relacionamentos afetivos. Quando se fala em escolha, a resposta dos toqueiros é sempre a mesma: "não é escolha, mas sim um chamado de Deus". De acordo com o Irmão Petrus, o "chamado" pode acontecer de diferentes maneiras na vida de cada pessoa. "De modo geral, o chamado se resume na presença forte de Deus nos corações, que vai crescendo aos poucos, lhes apresentando suas verdadeiras vocações", explica. “O chamado se dá como um namoro. É como quando você vê a pessoa pela primeira vez e sente algo diferente por ela. Aí você vai conhecer, compreender e se apaixonar aos poucos, até perceber que não pode mais viver sem ela. Assim é o chamado: não é feito como uma escolha, em que acordo pela manhã e digo que quero servir a Deus. Mas é como se Ele entrasse aos poucos em nosso coração, nos mostrando uma riqueza não material, mas uma riqueza de espírito que alimenta a alma”, compara. Com o irmão Ictus não foi diferente. Filho de comerciantes, quando criança dava mercadorias do armazém de sua mãe para quem não podia comprar. Conheceu a vida de São Francisco de Assis por

meio de um amigo que entrou para a toca e, faltando pouco mais de um mês para completar 18 anos, Ictus fugiu de casa para se tornar um toqueiro.“Meu chamado surgiu dentro de uma proposta evangélica. Na minha adolescência, eu sempre me perguntava como encontrar Cristo. Então, tem uma passagem na biblía que diz: 'Se tu Me vestir, é ali que Eu Vou estar. Se Me der o que comer, o que beber, é ali que Vou estar'. Foi aí que surgiu todo o meu chamado. Todos os dias eu perguntava a Deus: onde vou ser feliz e como? Aprendi que só poderia ser feliz ajudando ao próximo, meu chamado surgiu em favor do próximo", destaca.

Saiba mais... A rotina nas casas fraternas se divide entre os cuidados com a limpeza, com os irmãos acolhidos que moram nessas casas e entre as pastorais de rua, nas quais os toqueiros levam alimento e atenção aos moradores de rua, muitas vezes carentes de ambos. Em todas essas atividades, os irmãos contam com a ajuda dos leigos, pessoas amigas que se encantam com o carisma, mas se limitam na fé e não seguem os três votos. Hoje a toca possui 60 casas Fraternas em fase de reestruturação espalhadas pelo mundo e mais de 1.500 jovens entre homens e mulheres se dedicando à adoração ao Santíssimo e ao cuidado com o próximo. Assim se faz o ideal da toca. Em meio a polêmicas, críticas e questionamentos, principalmente aos três votos: castidade, pobreza e obediência, os toqueiros permanecem em missão, resgatando valores antigos (a indumentária de São Francisco de Assis) e transportando-os para os dias atuais. blog:www.neofranciscanos.wordpress.com.br

Foto: João Paulo Costa Junior

Castidade, pobreza e obediência. Estes são os votos que muitos homens e mulheres fazem quando decidem ingressar na Toca de Assis e abandonar a casa, a família, a profissão, os estudos e os amigos, para atender o que eles denominam como sendo o "chamado de Deus", a vocação. A idade dessas pessoas varia dos 18 aos 46 anos e eles, os toqueiros, podem ser facilmente identificados nas ruas: usam vestes na cor marrom, pés descalços ou sandálias de couro (por vezes, chinelos), além do véu para as irmãs e um corte de cabelo inconfundível para os homens, a tosura, que representa a coroa de Cristo. Fundada em 1994 em Campinas, SP, pelo Padre Roberto Lettieri junto aos co-fundadores irmãos Fratello, Alegria e Rafael, a Toca de Assis é uma Fraternidade Católica inspirada nos ensinamentos de São Francisco de Assis, tendo como ideal levar um pouco do amor de Cristo ao próximo, principalmente aos mais pobres. Ingressar na Toca representa, para eles, o início de uma nova vida. Os irmãos e irmãs substituem seus nomes de batismo por outros nomes, os de consagração. Assim, simbolicamente, eles deixam o pas-


10 contramão

Um passado necessário o estudante admite: “Tenho a sensação de que as pessoas são acomodadas mesmo e, talvez, eu me inclua entre elas. Fico vendo movimentos como o ‘Fora Sarney’, que virou tópico no Twitter e tudo o mais. É tudo meio por cima da carne seca, sabe?”.

Manifestações artísticas Alguns artistas preferem retratar e criticar o momento atual por meio de suas criações. É o caso da estudante de Cinema do Centro Universitário UNA, Sheila Sampaio (foto), 29. “Há muito tempo eu deixei de me pronunciar sobre política no nosso país. Não querer dizer sobre política é ruim para nossa nação, mas decidi usar da arte para questionar essa pouca vergonha que acontece no nosso cenário político. Acredito que tantos escândalos acontecem devido a rachaduras na própria estrutura mafiosa que existe dentro de nossas casas políticas”, enfatiza. Sheila Sampaio discursa firmemente sobre os motivos dos jovens terem deixado o discurso político de lado: “veja bem, hoje, é outro tempo que temos chamado de hipermodernidade. Isso muda tudo de figura porque hoje nossa juventude é muito mais atraída pela superficialidade típica do hipertexto, aquele que você está lendo, mas ai tem um link que te leva pra outro lugar e neste terá outro e outro, e assim você nunca mais vai conseguir ler um texto por completo, sua leitura ficou fragmentada, é raro hoje em dia ver alguém embasado realmente em algum assunto, defendê-lo com profundidade’’.

Com a palavra: Diretório Central Estudantil União (DCE UNA-SE) Um DCE é a entidade responsável por representar os estudantes, de forma a apoiá-los junto ao corpo docente e administração de centros universitários. Amable Celeghini, 28, presidente do DCE-UNA-SE, gestão 2009, é aluna do terceiro período de Psicologia na UNA. Para Celeghini, existem dois grandes problemas no Brasil que impedem o jovem de se interessar pela política, ‘’falta de educação de qualidade (o que impede que o cidadão tenha uma visão crítica das informações que lhes são passadas) e falta de cultura do ‘fazer política’, aliado ao individualismo (herdado do capitalismo). ’’, teoriza. A estudante apóia-se na falta de um ensino que motive os alunos para o entendimento político, ‘’ política deveria ser aprendida na escola, assim como tinha no século passado a ‘moral e cívica’, poderia haver a matéria ‘política’, obrigatória no ensino fundamental ’’, relata. Baseando-se ainda em uma cultura que não motiva o indivíduo a pesquisar sobre aqueles que estão no poder, Celeghini complementa, ‘’hoje, geralmente o cidadão pensa: ‘Eu não vou fazer isso não, tenho coisa demais para fazer, tenho problemas demais para pensar nisso (política) e além do mais, todo político é corrupto’ daí não participa, vota em quem não conhece, pois não gosta e não pesquisa sobre política, vota mal, não cobra, e isso vira uma bola de neve. ’’

Para motivar o interesse daqueles que usam o próprio dinheiro em favor do governo, Celeghini faz menção ao deputado Edmar Moreira (sem partido), conhecido pelo caso do castelo. O deputado mantém um imóvel avaliado em R$ 25 milhões em nome dos filhos, ‘’ quanto à participação na política, acho que todo e qualquer cidadão que se sente órfão do Estado deve sim, se organizar principalmente para cobrar, pois, quem paga imposto assim como eu, você e milhões de cidadãos sabe o que é mexer no bolso e depois ver tudo sendo gasto em castelos ’’. A estudante acredita que casos como esse podem desaparecer, ‘’ o jogo de interesses individuais que sobrepõe os comuns. Isso explica o porquê de ser tão difícil fazer política, mas não impossível. Há bons políticos, mas há os não tão bons assim ou com aliados idem ’’, afirma. Em suma, segue-se a esperança de alguns jovens com veia artística à disposição para questionar a atual situação brasileira, seja política ou não. Os escândalos atuais, como a crise no Senado causada pela eleição do presidente José Sarney, onze ações também contra Sarney já arquivadas e a absolvição de Antônio Palocci no ‘’caso do caseiro’’, não foram suficientes para causar qualquer manifestação considerável. Pondera-se, neste caso específico, a perda da capacidade de indignação do jovem brasileiro em assuntos políticos, frente àqueles que deveriam representá-los da melhor maneira. E como a opinião (do levantamento de entrevistados desta reportagem) é unânime, de fato, o cenário político brasileiro deve mais ao povo, que já esvai à confiança um dia conquistada. Por Natália Zamboni 3 º periodo e Guilherme Côrtes 4 º periodo

Foto: Ana Paula P. Sandim / Modelo: Sheila Sampaio

Quando se fala em movimento estudantil e engajamento político dos jovens, vem logo à mente as passeatas de protesto contra a ditadura militar nos anos 60 e 70, no Brasil, especificamente. No entanto, os tempos são outros. Muito do discurso político antes tão assíduo na boca de muitos jovens parece ter enfraquecido com o fim desse período conturbado na nossa história. “O jovem perdeu seu engajamento político, hoje, como percebemos, a situação política do Brasil pede uma série de mudanças urgentes. ‘’A política vai mal, mas ela não muda diretamente a sua vida, logo, ele não precisa se preocupar”, especula o estudante de Relações Públicas da PUC-MG, Mir Freitas, 20. “Acredito que as conquistas políticas dos jovens que lutaram durante a ditadura acabaram gerando conformidade e acomodamento nas gerações que se seguiram”, conclui. O jornalista recém formado, pela UFMG Frederico Bottrel, 24, endossa esta perspectiva e atribui a falta de engajamento político dos jovens aos sucessivos escândalos, denúncias de corrupção e impunidade no cenário brasileiro. Bottrel acredita que o político já não luta pelo interesse do povo, mas, também, observa traços da pouca adesão desta geração aos discursos políticos vigentes. “Creio que, de uma maneira geral, isso tem a ver com a forma como a minha geração enxerga a política. Eu, por exemplo, não tenho paciência para discursos panfletários, de qualquer ordem. Por isso, não sou simpático à esquerda radical. A esquerda endireitada me soa como traidora. A direita é antipática porque parece que ignora os reais problemas do país. Aí todo mundo bóia numa posição de centro”, teoriza. Sobre as possíveis razões

POLÍTICA


contramão 11 Foto: Marcos Oliveira

CIDADE

Um restaurante mais que popular

Mais de seis mil pessoas se alimentam, todos os dias, no Restaurante Popular da região da Rodoviária Por Matheus de Azevedo e Marcos Oliveira

Av. do Contorno, 11484 Centro - Belo Horizonte - 6h30. Os primeiros clientes do Restaurante Popular chegam para o café da manhã. De acordo com o administrador geral dos restaurantes populares, Carlos Henrique Siqueira, 50, em média 600 pessoas frequentam o local neste horário e, ao custo de R$0,25, fazem a primeira refeição do dia: pão, café com leite e uma banana. Às 11h, é servido o almoço e, às 17h, o jantar. A capital mineira possui, hoje, três restaurantes populares, um na região dos hospitais (bairro Santa Efigênia), um próximo à rodoviária (batizado de Restaurante Herbert de Souza) e outro em Venda Nova, além de um refeitório popular na Praça da Assembléia que atende, diariamente, mil pessoas. De acordo com Siqueira, um novo restaurante popular será inaugurado, em 2010, no Barreiro. "A localização é um dos principais critérios para escolher a instalação de um novo restaurante. O lugar tem que possuir um grande fluxo de trabalhadores, aposentados, desempregados e ter ca-

rência alimentar”, explica. “O restaurante popular propõe combater os efeitos da fome e suas conseqüências e diminuir a desigualdade social do país. Com quantidade, qualidade e o direito a uma alimentação saudável. Isso é um direito humano, que deveria estar respaldado na nossa constituição”, enfatiza.

Indústria Para que a refeição chegue até o consumidor, ela passa por um processo que conta com a participação de mais de 80 profissionais. “Nós temos funcionários que começam a preparar as refeições durante a madrugada, caso contrário não conseguiríamos atender toda a população”, informa o administrador. Para realizar esse processo, uma verdadeira indústria foi montada nos fundos do restaurante, onde há um açougue, máquinas para lavar louças e talheres, câmaras frias para conservar os alimentos, refrigeradores, além da cozinha industrial. Seguindo os padrões de higiene determinados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária

(Anvisa). Toda essa estrutura é montada para alimentar 6.400 pessoas por dia, de segunda a sexta feira. Uma dessas pessoas é o vendedor Roger Freitas, 34, que almoça, todos os dias, no Restaurante Popular antes de seguir para o trabalho, no Shopping Oiapoque. “A qualidade da comida é boa, as pessoas daqui te tratam bem, além do preço ser em conta”, avalia. Freitas é deficiente físico e enfatiza o bom serviço dos atendentes que o servem. Já a dona de casa Lenir Gomes, 63 anos, almoçou pela primeira vez no restaurante popular e aprovou. “Uma amiga sempre falava daqui. Hoje, eu resolvi vir. Se Deus quiser, vou voltar a almoçar aqui. De barriga cheia a gente é mais feliz”, conclui sorrindo.

Cardápio Manter um restaurante funcionando oferecendo uma alimentação de qualidade e acessível para os consumidores exige planejamento. O cardápio do almoço, por exemplo, oferecido, por dia,

para mais de seis mil pessoas, ao custo de R$1,00 (R$1,50 no marmitex), é montado anualmente. “Sem organização, não poderíamos oferecer almoço diariamente a essa quantia”, declara a nutricionista Beatriz das Dores Lima, 40. Segundo a nutricionista, o cardápio é planejado de acordo com a safra dos alimentos e, por essa razão, pode ser alterado no decorrer da semana. As refeições incluem sempre uma verdura ou uma leguminosa da estação, principalmente a couve, a alface, o jiló e a batata. "Esses alimentos enriquecem e complementam a alimentação básica, ajudando a prevenir doenças em imuno-deficientes, em crianças, grávidas e idosos. O cardápio é pensado para fornecer todos os nutrientes necessários a uma alimentação balanceada e saudável para a população", explica. De acordo com a nutricionista, o consumo de carboidratos, como o arroz, é maior no restaurante da região da rodoviária, devido ao fato dos consumidores serem, em sua maioria, trabalhadores braçais.

As etapas do processo

Comprar

Abastecer

Armazenar

Preparar

Atender

Créditos das fotos: Ceasa Minas - Divulgação, Banco de Imagens SXC.hu, Marcos Oliveira


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contramao.una.br

Fotografia, de autoria da estagiária Ana Paula P. Sandim do “Contramão”, selecionada para a exposição “Fotografe o Jazz”, promovida pelos organizadores do Festival de Jazz na Savassi 2009. A exposição estará aberta a partir do dia 14 de dezembro, às 20h, no Café com Letras.

Contramão no.10  

Jornal-laboratório do Centro Universitário Una, de Belo Horizonte. O conteúdo é produzido por alunos do curso de Jornalismo Multimídia.

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