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UNA - Ano 6 - BELO HORIZONTE - Junho - Julho 2013 Distribuição Gratuita JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO MULTIMÍDIA


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EDITORIAL

O grito das ruas chega a BH Jorge Rocha e Reinaldo Maximiniano

“Este livro é um pedaço da História, da História tal como eu a vi” – John Reed A frase em epígrafe foi extraída do livro Dez dias que abalaram o mundo que o jornalista estadunidense John Reed escreveu e publicou, em 1917, sobre os eventos que culminaram na Revolução Bolchevique na Rússia. A obra, escrita no calor dos acontecimentos e ainda em meio a Guerra Mundial, passou a ser a referência para a reportagem moderna e para a concepção do repórter que está no espaço social, em suas diferentes estratificações e contextos. Reed esteve presente nas assembleias operárias, acompanhou as manifestações trabalhistas e populares nas ruas de Petrogrado e conversou com os líderes Lênin e Trotski. Mas Reed, cuja morte chegaria em 1920, deixa na mesma frase um alerta: a história que está regis-

trada em seu relato é parcial, pois se efetiva a partir da sua observação dos fatos, pela sua perspectiva de testemunha estrangeira imersa em uma realidade específica. Talvez ainda demore um tempo para compreender o que se passou no Brasil nesse junho de 2013. Muitas revisões históricas, a partir de relatos de testemunhas e documentos, são feitas para continuamente e recontextualizações de personalidades e eventos são reescritas num processo contínuo de registro da passagem do humano sobre a Terra. Belo Horizonte, a exemplo de outras cidades brasileiras, foi sacudida por diversas manifestações nas ruas, contrárias ao cenário político atual, culminando com a ocupação da Câmara Municipal desde o dia 6 de junho. O estopim foi a reivindicação da redução do preço da passagem de

ônibus, tendo agregado outros motes políticos, como saúde, educação e fim da corrupção. Políticos, cientistas políticos, sociólogos e e historiadores apressaram-se em tentar explicar o real significado de tamanho descontentamento popular que eclodiu nas ruas, traçando paralelos até mesmo com maio de 68 na França, tema da matéria assinada por Gabriel Amorim e Ana Carolina Vitorino nessa edição. As manifestações ocupam ainda outras páginas do CONTRAMÃO. Fernanda Fonseca informa e contextualiza o início das manifestações em Belo Horizonte, reforçando que ainda temos muito a entender a respeito do que vimos ocorrer nas ruas. Alex Bessas e João Vitor traçam o histórico de cada um dos atos políticos das passeatas, que levaram muitos cidadãos mineiros – e dissidentes

políticos ou “minoria de vândalos”, conforme noticiado por vários veículos de comunicação – às ruas. O texto dos dois repórteres evidenciam também a pluralidade de reivindicações populares e os confrontos entre a Polícia Militar de Minas Gerais e os manifestantes, nos dois momentos de embate em torno do perímetro defensivo do Mineirão. E, na contracapa, há uma galeria de fotos das manifestações. Mas essa não é uma edição monotemática do CONTRAMÃO. Há ainda matéria a respeito do Estado Laico, assinada por Kênia Tinoco, na página reservada para o projeto UNA-SE Contra a Homofobia. Nas páginas desta edição, contamos ainda com matérias que analisam a atual situação dos estádios Independência (por Lorraine Dias e Jéssica Moreira) e Mineirão (Júlia Almeida e Reginaldo Matos).

contramao.una.br

EXPEDIENTE Núcleo de Convergência de Mídias (NuC) do curso de Jornalismo Multimídia do Instituto de Comunicação e Artes (ICA) - Centro Universitário UNA. Reitor: Átila Simões. Diretor do ICA: Lélio Fabiano dos Santos. Coordenadora do curso de Jornalismo Multimídia: Piedra Magnani da Cunha. NuC/Coordenação: Reinaldo Maximiano Pereira (MTb 06489) e Jorge Rocha. Diagramação: Tiago Magno. Supervisão: Reinaldo Maximiano Pereira e Jorge Rocha. Revisores: Tatiana Carvalho Costa e Piedra Magnani da Cunha. Estagiários: Alex Bessas, Aline Viana, Ana Carolina Vitorino, Diego Gurgel, Fernanda Fonseca, Gabriel Amorim, João Alves, Juliana Costa e Tiago Magno. Tiragem: 2.000 exemplares. Impressão: Sempre Editora

Foto de capa

Edição Anterior 23

Geneton Moraes Neto:

“Jornalismo é produzir memória” páginas 8 e 9

UNA - Ano 6 - BELO HORIZONTE -Abril - Maio 2013 Distribuição Gratuita JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO MULTIMÍDIA

Foto: Alex Bessas

Ilustração: Diego Gurgell


DIVERSIDADE

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Em nome da Fé?

Especialistas discutem a presença da religião na política brasileira e esclarecem sobre o princípio do Estado Laico Foto: Hebert Zschaber

Por Kenia Tinôco (5º Período) - Jornalismo Multimídia

As ações do deputado federal Marco Feliciano na presidência da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias (CDHM)alimentam os debates sobre o Estado Laico. A presença de representantes de religiões cristãs na vida pública, suas origens e desdobramentos são temas de uma conversa promovida pelo CONTRAMÃO entre as cientistas políticas Ana Maria Doimo e Daniela Mateus de Vasconcelos. Ana Maria é professora aposentada do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (DCP/UFMG) e autora de A vez e a voz do popular: movimentos sociais e participação política no Brasil pós-70. Daniela é doutoranda na UFMG, professora nos cursos de Direito e Serviço Social da UNA, e pesquisadora sobre direitos humanos e ditaduras no Cone Sul. CONTRAMÃO: No Brasil, muito se tem falado em Estado Laico. Mas, historicamente, como se constitui esse chamado Estado Laico? Ana Maria Doimo: O princípio laico é constitutivo do Estado Moderno e surgiu no Renascimento, com o avanço do pensamento liberal no século 17. O laicismo consagrou-se como princípio constitucional com as revoluções americana e francesa, do final do século 18, e consolidou-se no século 20, no pós-guerra, quando a maioria dos Estados Modernos, dentre eles o Brasil, assinaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU, em 1948.

Daniela Mateus de Vasconcelos: A Constituição de 1988 consagra o princípio da laicidade do Estado, além de vedar o envolvimento institucional do Estado brasileiro com quaisquer religiões. A Constituição Federal ainda garante a ampla liberdade de crença e de culto. CONTRAMÃO: Não é incoerente um país se afirmar laico e ostentar crucifixos em repartições públicas? A.M.D: Antes de ser um atributo do Estado, a laicidade precisa ser um traço cultural. O crucifixo está presente na política na mesma proporção em que a tradição católica esteve presente junto ao povo e na cultura brasileira. Foi o crescimento do poder político dos pentecostais que gerou esse questionamento. D.M.V: A adoção desses símbolos fere o princípio da laicidade. A retirada deles foi proposta no 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, mas ainda não foi adotada. CONTRAMÃO: A que pode ser creditada a atual presença das igrejas, sobretudo a evangélica, em cargos de expressão? A.M.D: É um erro pensar que a culpa da presença de religiosos na política está só na ocupação por parte dos evangélicos. A igreja católica sempre esteve ligada à política. A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 99/11, prevendo que entidades religiosas de âmbito nacional possam propor ações

Ativistas LGBTs protestam na Praça 7 durante as manifestações em BH diretas de inconstitucionalidade ou ações declaratórias de constitucionalidade ao STF. CONTRAMÃO: Existe alguma relação deste boom religioso com o fato de as pessoas estarem revelando seus preconceitos de forma tão contundente? D.M.V: Nos últimos anos, esses preconceitos estão sendo combatidos e desconstruídos por meio das ações dos movimentos sociais e de políticas públicas de reconhecimento e afirmação dos direitos das mulheres, negros e LGBTs, na perspectiva do aprofundamento da nossa democracia. A.M.D: A liberalidade dos costumes não é o que reforça o crescimento das religiões. Pelo contrário, como guardiãs da tradição, elas saem a campo

para reagir às mudanças. CONTRAMÃO: Qual a sua opinião sobre o embate entre os movimentos sociais organizados e a atual presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias? A.M.D: A indicação e a permanência de Marco Feliciano como presidente da CDHM mostra que os evangélicos, aliados aos políticos conservadores, têm muita força política. Um caminho seria rever posturas, aprimorar os argumentos e redefinir encaminhamentos, pois o sucesso na política institucional depende, além da política parlamentar, também da explicitação clara de interesses e demandas, da mobilização de bases sociais e do desenvolvimento da capacidade de convencimento da sociedade.


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CIDADES

Todos os dias é um vai e vem

O cotidiano da rodoviária de Belo Horizonte Por Bárbara Andrade, Elis Rouse , Isaura Silva e Meyre Ellen (5 º Período) - Jornalismo Multimídia

Ambulantes Mesmo com as lanchonetes e quiosques que comercializam lanches, os ambulantes que atuam na área de embarque e desembarque da rodoviária sobrevivem agora legalizados através da ADVATER, que tem como objetivos, segundo o ambulante e membro da diretoria da associação, Joel Alves Costa, 27, manter o local de trabalho, buscar melhorias e apoios, buscar uma boa convivência com a administração da rodoviária e criar mais espaços de geração de emprego. O vendedor ambulante Adenilton Francisco Rodrigues Dutra, 39, destaca a importância do trabalho legalizado. Há 31 anos como ambulante da rodoviária, Du-

Foto Mariana Elisa

Lan House É nesse cenário que alguns dos vários serviços oferecidos pela rodoviária se destacam, dentre eles uma pequena lan house, um prato cheio para os amantes da internet. Os usuários da rodoviária têm um passatempo a mais durante a espera. Uma lan house chama atenção logo no piso principal do espaço. Localizada debaixo da escada, a lan house está sempre movimentada. “O Ricardo Coutinho [Gerente Geral] verifica se a atividade vai ser boa para o usuário. Então foi avaliado que a informática seria benéfica para o terminal, a gente autorizou e hoje ela é permissionada pela lei da licitação”, explica Rita de Cássia .

Foto Mariana Elisa

Um entra e sai de pessoas e uma diversidade de público sem igual. Isto é o que se vê diariamente na rodoviária de Belo Horizonte. Há dias em que as cadeiras de espera não são suficientes para o fluxo de usuários, principalmente em vésperas de feriado prolongado. Idas e vindas, muitas histórias e muito trabalho nos 42 anos da rodoviária. Inaugurado em 1971, o Terminal Rodoviário Governador Israel Pinheiro, foi considerado, na época, o maior e mais moderno terminal da América Latina. Segundo a gerente administrativa Rita de Cássia Menezes, o movimento da rodoviária hoje fica em torno de 40 a 45 mil usuários por dia. “O que a gente chama de usuário, não são somente as pessoas que pegam ônibus; tem o entorno, o pessoal que usa o banheiro, tem o estacionamento e as dependências da rodoviária”, explica. Livros, fones de ouvidos, conversas paralelas ou simplesmente a opção de ficar em silêncio. Cada um dos muitos frequentadores da rodoviária passa o tempo da sua maneira. A impaciência estampada em alguns rostos, o choro de crianças, muitas malas e até cachorros em gaiolas esperando o embarque.


CIDADES traconta que “antigamente a gente corria dos fiscais. A polícia pegava, tomava o dinheiro da gente. Aí em 94 foi legalizado. Formamos a cooperativa, a associação”. As histórias dos vendedores são bem parecidas. Ambos começaram nas ruas e viram na rodoviária uma oportunidade de ganhar dinheiro. Vendendo água mineral, balas, sucos, chocolates, salgadinhos, chicletes, os vendedores ambulantes sobrevivem no palco da rodoviária, até mesmo vendendo fiado. “Anoto no caderninho para passageiros fiéis conhecidos de longa data, e para funcionários das empresas de ônibus”, declara Dutra. O serviço de ambulantes funciona 24 horas por dia. Os ambulantes estão distribuídos fixos nas plataformas e também em volta dos ônibus, atendendo aos passageiros já embarcados.

Achados e Perdidos É com um sorriso largo e uma alegria contagiante que é recebido quem busca o setor de Achados e Perdidos da Rodoviária de Belo Horizonte. Há 30 anos no setor, Dona Tiana Marques, 68, como gosta de ser chamada, acolhe com carinho e bom humor aqueles que vão em busca de seus objetos esquecidos. E não são poucos, como gosta de afirmar Dona Tiana Localizado no setor de desembarque, o Achados e Perdidos recebe constantemente objetos de todos os tipos. Dona Tiana conta que já viu de tudo, desde que assumiu essa profissão: muleta, prancha de surf, bicicleta e bengala até uma cadeira de rodas, que para ela é a coisa mais estranha que já recebeu no setor. “Depois o neto da senhora veio buscar. Ele colocou a avó no taxi e foram embora, a cadeira de rodas ficou para trás. Depois de dois dias ele veio buscar”, conta. O setor de Achados e Perdidos da rodoviária funciona de segunda à sexta, de 8h às 18h. Os objetos encontrados são guardados por até 90 dias e depois desse prazo são doados para instituições de caridade. No caso dos documentos, eles são enviados aos Correios, onde podem ser retirados.

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História ou lenda? Há algum tempo, que circula uma história sobre o “morador” da Rodoviária. História ou lenda? Segundo o gerente geral Ricardo Coutinho, o homem era conhecido como Silvio Bozo e ficou “morando” na rodoviária durante quase um ano até falecer “Ele tinha um problema grave de trombose no pé e por isso a administração sempre tentava encaminhá-lo para atendimento médico, mas o mesmo não aceitava”, conta. Ainda segundo o gerente, a administração chegou a recorrer ao Ministério Público para tentar levar o cidadão ao hospital, pois o caso dele era grave. “Ao que tudo indica ele morreu devido aos problemas de saúde, o SAMU veio buscá-lo e só o que se soube é que ele morreu no hospital”, conclui Nova Rodoviária Para desafogar o trânsito na área central será construído um novo terminal rodoviário em Belo Horizonte, no bairro São Gabriel, às margens do Anel Rodoviário. “O motivo é realmente a questão da quantidade de pessoas”, explica a gerente administrativa da rodoviária, Rita de Cássia Menezes. Ainda segundo a gerente, não se sabe ainda o que será feito com a rodoviária quando a nova ficar pronta. “A gente ainda não sabe, porque é uma iniciativa Parceria Público Privada (PPP). O que foi passado pra gente é que provavelmente ela vai ficar pronta até o final de 2014”.

Foto Ingrid Peres

Engraxataria Há quase 30 anos a engraxataria do Zulu sobrevive ao aumento do número de tênis no mercado, gerando emprego e satisfação aos clientes. Atualmente, é próxima à porta do banheiro masculino da rodoviária de Belo Horizonte que se encontra a engraxataria. É sobre um tablado de madeira, duas cadeiras, muitos produtos e objetos espalhados que três engraxates exercem sua profissão. Zulu não revela quanto ganha com a atividade, mas afirma que o movimento do local diminuiu uma média de

80% com o crescimento do uso de tênis, porém aproximadamente 30% dos clientes são fiéis. “Você pode ver que de cada 10 pessoas que passam aqui nesse corredor, oito usam tênis”, destaca o engraxate.

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“Vai graxa?”: Há 30 anos a engraxataria funciona na rodoviária, o proprietário garante que a clientela é fiel


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CIDADES

Exposição narra a trajetória do futebol em BH Fotografias antigas e videogames atraem mais jovens que idosos Por Arthur Henrique Costa e Camila da Silva Borges (6º período) - Jornalismo Multimídia

jetos, e diversas informações referentes ao esporte mais popular do nosso país, é possível estabelecer vínculos estreitos entre o futebol, a ocupação urbana e o crescimento da nossa cidade, já que esse universo futebolístico na capital é desconhecido pela maioria dos visitantes estrangeiros que visitam o local”, analisa Juliana. A exposição é dividida em setores que traçam a um panorama dessa ocupação descrita pela publicitária, em textos, imagens e mapas com luz de led. Da conquista dos primeiros lugares para se jogar bola, em 1904, à construção dos primeiros estádios e a recente reforma do Mineirão. A mostra reúne ainda fotografias dos campos amadores de várzea, as “peladas” do fim de semana em quadras alugadas, o bate-bola das crianças nas ruas e o desenvolvimento da imprensa esportiva. Segundo Letícia Schirm, os campos antigamente eram próximos aos rios, às ferrovias e às indústrias. Os gramados oficiais dos times da capital eram próximos do centro da

cidade, pois a preferência era por campos onde havia aglomerações de pessoas. Os terrenos também eram usados para festas, shows, brincadeiras e mais diversas atividades pra todas as idades. O estudante, Raphael Nobre, 24, apreciou essa viagem ao passado de BH. “É um belo trabalho, rico em imagens e informações para quem gosta de futebol ou para quem apenas deseja entender de onde vem a paixão mineira por esse esporte”, avalia. O aspecto da exposição que mais chamou a atenção do estudante o foi paralelo entre o passado e o presente. “De um lado, os jogos de botão e o famoso Kichute (chuteira de lona e sola de borracha produzida pela Alpargatas, nos anos 1970 e 1980) e de outro, o futebol virtual dos games. As salas e as informações se completam, pois a história de Belo Horizonte começa a ser escrita no surgimento dos primeiros campos de várzea. Acredito que a ideia transmitida pela exposição é mostrar para o público que futebol não se trata apenas de um campo com vin-

te dois jogadores e uma bola, mas, sim, da grandeza que este esporte passa aos seus milhares de fãs espalhados pelo mundo.”, explica. Apesar das relíquias usadas para compor a mostra terem sido fornecidas por pessoas idosas, a curadora da exposição revela que crianças e adolescentes compõem o maior número de visitantes. “A exposição despertou a curiosidade dos jovens por causa das camisas de colecionadores e dos videogames”. “Belo Horizonte F.C. - Trajetórias do futebol na capital mineira” está em cartaz desde 30 de agosto de 2012 e, até o momento, mais de 500 pessoas já passaram pelo museu. A mostra tem entrada gratuita e deve permanecer até agosto de 2013. A exposição pode ser visitada de terça-feira a domingo, das 10h às 17h, e nas quartas e quintas-feiras, das 10h às 21h. O Museu Histórico Abílio Barreto fica na Av. Prudente de Morais, número 202, bairro Cidade Jardim. Mais informações pelo telefone: (31) 32778573.

Foto: Grazielle Souza

A exposição !Belo Horizonte F.C. - Trajetórias do futebol na capital mineira”, em cartaz no Museu Histórico Abílio Barreto, narra a trajetória do futebol na cidade e suas antigas arenas, antes mesmo das construções de estádios Independência e Magalhães Pinto. Uma viagem no tempo e na história que só foi possível com a ajuda de pessoas apaixonadas pelo esporte e que cederam fotografias, objetos de times profissionais e amadores, acervos de jogadores e torcedores, vídeos, áudios e mapas. A mostra retrata a disputa entre os times no campo esportivo desde a década de 1900, além de proporcionar uma reflexão sobre como a prática esportiva modificou os espaços urbanos de BH. De acordo com a curadora da exposição, Letícia Dias Schirm, a ideia inicial era resgatar a história do futebol em Belo Horizonte para os turistas atraídos pelas Copas das Confederações e do Mundo da FIFA Brasil, de 2014, mas o propósito foi reorientado para destacar a cidade. “Resolvemos colocar na entrada da exposição algumas imagens e textos sobre BH, para os visitantes e moradores da própria cidade lerem e depois irem para o interior do museu e se depararem com diversos objetos e histórias de diferentes épocas do futebol em Belo Horizonte. A cidade chegou primeiro que o futebol e foi transformada por causa dele, por isso merece destaque.” A publicitária Juliana Mota, 28, que visitou a exposição, a avalia como importante para a preservação e divulgação da história de Belo Horizonte. Mas notifica uma falha: apenas os textos na entrada estão traduzidos para a Língua Inglesa, mas de forma sucinta. “Os turistas que visitaram a cidade durante a Copa das Confederações não encontraram, por exemplo, a tradução dos significados de cada objeto da mostra. Por meio desses ob-

Belo Horizonte F.C. - Trajetórias do futebol na capital mineira ficará em cartaz até Agosto de 2013


CIDADES

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Belo Horizonte entra no mapa das manifestações

Onda brasileira de protestos alcança capital e região metropolitana

Foto: Hebert Zschaber

Por Fernanda Fonseca (1º Período) - Jornalismo Multimídia

A onda de protestos que tomou conta da capital mineira nas últimas semanas sacudiu as estruturas sociais de forma inédita. A partir da repercussão dos fatos a busca pela compreensão do que aconteceu se tornou uma constante. Apesar da enormidade de análises feitas na tentativa de entender e explicar os fatores que levaram as multidões às ruas, ainda não é possível definir de forma absoluta o fenômeno das manifestações populares que movimentaram o país durante o mês de junho. Muito menos prever o que acontecerá daqui pra frente. Por outro lado, comportamentos antes tidos como tendências foram confirmados e transformados em realidade inabalável, a exemplo do papel das redes sociais na mobilização social e engajamento político. Em Belo Horizonte, os protestos começaram no sábado, 15 de junho, somando cinco grandes atos. Ao longo de duas semanas de manifestações, diversas questões foram levantadas, deixando clara a heterogeneidade do movimento, que se iniciou via redes sociais e cresceu apartidário. Em que pese a ausência de uma reivindicação pontual, os atos revelaram o desconforto dos cidadãos com a apatia da população diante de medidas governamentais que não representam os seus anseios. Há anos a juventude de Belo Horizonte não ia às ruas reivindicar uma ação política de grande porte e o que se viu foi o despertar de parte da sociedade civil, que se cansou do conformismo e resolveu se posicionar abertamente, tornar públicas as suas queixas, se fazer ouvir. Há uma compreensão por parte dos que estiveram nas manifestações desde o início de que os atos não foram todos iguais, a começar pela atuação da polícia. Em um primeiro momento, a PM agiu de forma colaborativa, fechando as principais vias do hipercentro e liberando a passagem dos manifestantes. Entretanto, especialmente nos dias 17, 22 e 26, as forças de segurança do estado passaram de apoiadoras à repressoras, bloqueando o acesso da marcha ao Mineirão de forma violenta e desmedida, denotando despreparo e autoritarismo no trato com situações de crise. Por outro lado, as redes sociais afirmaram sua força e foram determinantes para retratar os eventos de forma eficiente e abrangente. Mídias sociais como Facebook, Twitter, YouTube e Instagram foram usadas para relatar os protestos em tempo real. Os veículos de imprensa também se utilizaram das redes na cobertura das manifestações. A grande vantagem desse tipo de apuração reside na credibilidade da informação transmitida, pois valoriza a visão de quem está dentro do movimento. A veiculação de notícias pelos usuários de mídias digitais, além de revelar a real situação dos acontecimentos, funciona como um catalisador, incutindo nos jovens a vontade de ocupar o espaço público, o que aumenta a adesão às causas. Com a ampliação da adesão ao movimento por segmentos sociais distintos, caracterizados por atores diversos, os protestos se fortaleceram. Apesar de indefinidos os resultados, é impossível não reconhecer o potencial transformador das massas que se autorregulam e carregam em seu seio interesses supra-individuais. Tateando o presente e relembrando o passado as respostas surgirão. Ainda é cedo para colocar um ponto final nessa história, em que os narradores somos todos nós, ativistas, partidários, jornalistas ou meros usuários das mídias sociais.


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CIDADES

Duas semanas

de protestos e tensão Por João Vitor Fernandes (4º Período) - Jornalismo Multimídia

Foto: Hebert Zschaber Ilustrações: Diego Gurgell

As manifestações em Belo Horizonte reuniram, nas duas últimas semanas de junho, mais de 300 mil pessoas nas ruas. Os protestos, que começaram em torno da redução da tarifa de ônibus, ganharam força e entraram na área da saúde, educação e segurança pública. Os manifestantes saíram às ruas cantando o Hino Nacional e palavras de ordem contra o sistema político e contra os próprios políticos. Mesmo com passeatas durante todos os dias, cinco grandes atos marcaram a trajetória dos protestos na capital mineira. A primeiro passeata no sábado, 15, reuniu cerca de 10 mil pessoas. Os manifestantes saíram da Praça da Liberdade pela Avenida João Pinheiro e se concentram na Praça Sete, no centro da cidade, local que se confirmaria como ponto de encontro de todos as manifestações. Outro grande evento, este na segunda-feira, 17, aglomerou cerca de 30.000 manifestantes, que caminharam da Praça Sete até a entrada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Como acontecia um jogo no Mineirão, os manifestantes foram proibidos de chegar até o local, acontecendo assim o primeiro confronto com a Polícia Militar. A próxima grande manifestação, na quinta-feira, 20, que levou cerca de 8 mil pessoas as ruas, desta vez seguiu pacífica. Concentrados na Praça Sete, a multidão protestou em frente ao prédio da prefeitura, depois seguiu para a Praça da Liberdade e Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte (CMBH). Outro dia de grande público foi sábado, 22. Aproximadamente 100.000 pessoas caminharam novamente até o Mineirão. Houve confronto com os políciais. Desta vez, registrou-se um grande número de denúncias de abuso por parte dos militares no protesto. Segundo o comandante da PMMG, coronel Márcio Sant’Ana, “era preciso dispersar a turba enfurecida, que não deixou outra saída para a Polícia Militar”. Ainda segundo o coronel, a PMMG não reagiu, “apenas se defendeu”. A presença da Seleção Brasileira em Belo Horizonte para o jogo da semifinal da Copa das Confederações criou um clima de tensão contínua, com a expectativa de novos confrontos. Declarações da PM e atos de vandalismo deram o tom dos dias que antecederam o quinto grande ato dos manifestantes. A quarta-feira, 26, começou pacífica, porém, por ações de vândalos, a Avenida Antonio Carlos se transformou em praça de guerra.


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Violência marca o 5º Grande Ato em BH Confrontos entre manifestantes e PM deram o tom das passeatas Por Alex Bessas (1º Período) - Jornalismo Multimídia

O protesto do dia 26 de junho, convocado pelo COPAC (Comitê dos Atingidos pela Copa), teve fôlego para percorrer mais de 10 km sem a ocorrência de nenhum conflito. Os confrontos começaram quando um grupo arrancou as grades de contenção do perímetro estabelecido pela FIFA. A PM, contrariando o acordo entre o governador Antonio Anastasia e COPAC, investiu indiscriminadamente contra os manifestantes, sem distingui-los dos dissidentes radicais. Antes dos conflitos, o que se via nas ruas de Belo Horizonte era um desfile de civilidade. Sindicatos distribuíram panfletos, médicos da rede estadual de saúde e

policiais civis acompanharam a marcha. “Não vamos subir a Abraão Caram, vamos seguir pela Presidente Antonio Carlos até a Santa Rosa”, instruía o carro de som que guiava o protesto. Para evitar que manifestantes entrassem em choque com a polícia, um grupo fez uma corrente humana para isolar o acesso à avenida Abraão Caram. Apesar dos esforços, dissidentes tensionaram o bloqueio e seguiram em direção à barreira policial. Ao mesmo tempo, eram registrados conflitos nas proximidades do Mineirão – onde acontecia o jogo Brasil x Uruguai – e no entroncamento das avenidas Presidente Antônio Carlos e Santa Rosa. Houve negociação entre os manifestantes e o GATE, possibilitando que a passeata pudesse seguir pela orla da Lagoa da Pampulha até a proximidade do Mineirinho. Na região do viaduto José de Alencar, houve conflito e destruição de lojas. As concessionárias da Kia Motors e Hyundai foram as primeiras a ser depredadas. Um caminhão foi arrastado e incendiado. Pelo menos outras duas grandes concessionárias de carros importados foram destruídas: a Toyota e Volkswagen. Embora houvesse maciça presença policial na região, a PM levou cerca de 40 minutos para agir contra a depredação.

Foto: João Alves

Aparentemente, os policiais que assistiram a tudo não agiram para evitar que as barreiras que impediam os manifestantes de chegar ao Mineirão ficassem desguarnecidas. O Corpo de Bombeiros conteve todos os focos de incêndio e, em minutos a polícia, que chegou a fazer uso da cavalaria, retomou a região. Assim que os responsáveis pela depredação recuaram, o deputado estadual, sargento Rodrigues, esteve no local e atribuiu a depredação ao grupo Black Bloc. Por volta das 21 horas – depois de conter o grupo de manifestantes dissidentes no entroncamento das avenidas Presidente Antônio Carlos e Abraão Caram -, o “Caveirão”, como é conhecido o carro blindado usado pela PMMG, desceu a avenida Antonio Carlos. Um oficial alertava através de um megafone para que “as pessoas de bem” deixassem as ruas. Cerca de 150 pessoas foram presas, de acordo com o Centro Acadêmico Afonso Pena (CAAP), da Faculdade de Direito da UFMG. Pelo menos 17 feridos deram entrada em hospitais. O jovem manifestante Douglas Henrique Oliveira Souza, de 21 anos, morreu no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, depois de tentar pular de uma pista do viaduto para outra, para fugir do confronto.


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CIDADES

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Protesto pela redução de tarifas em Sabará Com gritos de guerra originais, cartazes, caras pintadas e narizes de palhaço, a população sabarense foi às ruas, na sexta-feira, 21, para pedir uma sociedade melhor e em apoio às manifestações no Brasil Por Ana Paula Motta (6º Período) e Fernanda Fonseca (1º Período) - Jornalismo Multimídia

Cerca de duas mil pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar, participaram de uma caminhada em protesto pelas ladeiras de Sabará e mostraram sua indignação com os problemas do município: infraestrutura deficiente nas escolas, transporte público insuficiente, além de falta de hospitais e pronto atendimentos pelo SUS. Para o estudante Jeferson Paes, a situação que mais precisa de atenção é a saúde: “Não temos hospital atendendo pelo SUS no centro da cidade”disse o estudante. A UPA – Unidade de Pronto Atendimento – era localizada no centro de Sabará, mas hoje está instalada a aproximadamente 12km da antiga sede. “Está mais longe para todos”, reclama Jeferson. A caminhada partiu da Câmara Municipal em direção à Prefeitura. Entre as palavras de ordem, gritos de “Não ao nepotismo!” dirigidos ao prefeito Diógenes Fantini e ao vice, Ricardo Antunes. A esposa do vice é atual Secretária de Ação Social e, de acordo com o jornal local, a Folha de Sabará, o tio dele também ocupa um cargo público de confiança. Em protesto, a população deu as costas para a sede e cantou o Hino Nacional. De lá, os manifestantes seguiram para as garagens das duas empresas de ônibus da cidade, a Vinscol, que circula no município, e a Cisne, que faz a linha Sabará-Belo Horizonte. Na porta da Cisne, os protestos foram pelo número de ônibus circulando e os valores altos das passagens, R$3,30 (ônibus comum) e R$4,00 (executivo). Um funcionário da empresa, que não se identificou, falou que a Cisne iria abaixar em R$0,15 o valor da passagem a partir do dia 1º de julho. Os manifestantes receberam a notícia com vaias. A Polícia Militar seguiu tudo de perto, abrindo caminho para as pessoas e fechando o trânsito onde fosse necessário. Segundo o major Cássio Carvalho, comandante da PM na região, 130 oficiais foram distribuídos em pontos estratégicos para acompanhar a manifestação e guardar o patrimônio municipal. Não houve casos de ocorrências graves.

1 - Esmeraldas 2 - Betim 3 - Contagem 4 - Igarapé 5 - Ibirité 6 - Sarzedo 7 - Mário Campos 8 - S. Joaquim de Bicas 9 - Ribeirão das Neves 10 - Pedro Leopoldo 11 - Vespasiano 12 - Santa Luzia 13 - Sabará

BH

14 - Nova União

Manifestações na RMBH Reivindicações Em Ribeirão das Neves, os protestos foram contra a retirada de linhas de ônibus no bairro Liberdade. Em Santa Luzia, manifestantes protestaram contra o valor das passagens. Melhorias no transporte público, na saúde e na educação foram as reivindicações de Betim. Manifestantes em Mário Campos pediram a redução do intervalo entre as viagens de ônibus. Em Sarzedo, manifestantes reivindicaram a construção de uma passarela na MG 040.

Quantidade de pessoas Dois mil manifestantes em Ribeirão das Neves, no dia 22. Em Contagem, cerca de mil pessoas protestaram nos dias dias 20 e 21. No dia 19, cerca de 5 mil pessoas no centro de Pedro Leopoldo. No dia 20, uma manifestação em Santa Luzia reuniu mil pessoas. Em Betim, mil pessoas foram às ruas no dia 24. No dia 21, um protesto reuniu 300 manifestantes em Mário Campos e em Sabará, dia 23. Outros 200 manifestantes em Sarzedo, no dia 25. No dia 21, houve cerca de 500 manifestantes ruas em Ibirité.

Infográfico: Tiago Magno

Fechamento de vias No dia 22, em Ribeirão das Neves, manifestantes interditam 5 pontos da BR 040. Em Contagem, as avenidas João César de Oliveira e Eugêno Paccelli são interditadas. No dia 26, manifestantes fecham a rodovia MG 20, que liga Santa Luzia a Jaboticatubas. Em Betim, a BR 381 é interditada, próximo ao bairro Citrolândia. No dia 21, em Mário Campos, a MG 040 é fechada nos dois sentidos. Em Sabará, manifestantes interditam a BR 381 nos dias 23 e 26. No dia 24, manifestantes bloqueiam a BR 040 em Esmeraldas. A BR 381 é fechada em Nova União, no dia 21 e em S. J. de Bicas, no dia 24. No dia 25, manifestantes fecham a MG 040 em Sarzedo.


HISTÓRIA

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Memórias de um ano que não terminou Maio de 68 na França foi marcado manifestações estudantis e trabalhistas que foram lembradas nos protestos brasileiros

Foto: zinelibrary.info

Por Ana Carolina Vitorino (3º Período) e Gabriel Amorim (2º Período) - Jornalismo Multimídia

Líderanças do movimento transformou politicamente o mundo, em maio de 1968, abrindo a passeata no Boulevard Saint-Michel “Não são só vinte centavos!”. Esta frase virou o lema das manifestações que arrebataram cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador e Belo Horizonte. A onda de protestos, que marcou o mês de junho, começou em São Paulo, quando o Movimento Passe Livre (MPL) capitaneou marchas na Avenida Paulista. Os protestos reuniram milhares de pessoas descontentes não apenas com o aumento das tarifas (algumas linhas de ônibus passaram de R$ 3,00 para R$ 3,20), mas também insatisfeitas com a qualidade e gestão dos negócios públicos. Em 13 de junho, a Polícia Militar de São Paulo foi alvo de críticas de diversos setores da sociedade por conter uma manifestação com tiros de balas de borracha à curta distância, que chegaram a ferir manifestantes e repórteres a PM paulista também reteva pessoas por porte de garrafas com vinagre - pretensamente usadas amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo. A partir desse episódio, os protestos proliferaram pelo país em meio à Copa das Confederações. A frase “Não são só vinte centavos!” passou sintetizar a insatisfação popular com a corrupção, com os altos gastos com os estádios e o grito de ordem pela luta por mais investimentos na educação, na saúde e na mobilidade urbana. Inquietação Em diferentes regiões do país, principalmente nas cidades que sediavam os jogos da Copa das Confederações a intensidade das manifestações e confrontos com a força policial ganharam destaque na imprensa nacional e internacional. Po-

líticos, intelectuais, cientistas de todo país tentavam analisar esses acontecimentos. A sensação geral, em princípio era a de que ninguém entendia como tanta insatisfação havia “brotado” pelo país num período tão curto de tempo. O diretor do Instituto de Comunicações e Artes do Centro Universitário UNA, o jornalista Lélio Fabiano dos Santos, 75, considera o questionamento e a inquietação fatores motivadores para a busca melhorias no cenário político. “Durante anos, os jovens falavam para as pessoas da minha geração: ‘na época de vocês, havia um motivo para lutar, havia uma ditadura. Nós não temos nada’. Eu retrucava: ‘mas tem que ter. O mundo está bom? O Brasil está maravilhoso? Alguma coisa vocês terão que fazer’. Cada um descobre, em cada época, um ideal para lutar”, pondera. Prostestos A “voz das ruas”, como os protestos brasileiros ficaram conhecidos, remete ao maio de 68, na França, momento em que uma série de manifestações estudantis e trabalhistas se concentraram num único mês e eclodiram em confrontos com policiais. As razões eram amplas e começaram com protestos nas universidades e nas escolas de ensino secundário contra a cultura conservadora e a rigidez educacional, liderados por Daniel Cohn-Bendit, Alan Geismar e Jacques Sauvageot. Logo afloraram as insatisfações com as políticas trabalhistas do governo de general Charles De Gaulle e, em 13 de maio, teve início uma greve geral. Na ocasião, Lélio Fabiano dos Santos estudava na França e atuou como repór-

ter fotográfico, açém de ser mais um manifestante nos protestos. Santos lembra que, de início, ninguém entendia direito o que acontecia. “O ponto de convergência maior [com os manifestos no Brasil] é o inesperado da manifestação por parte da sociedade e dos políticos franceses. Eu me lembro de, uma semana antes do movimento de maio eclodir, um editorial do Le Monde dizia que a França estava chata, que nada acontecia. Uma semana depois a França pegava fogo” lembra. Mudanças No Brasil, o contexto histórico era ainda marcado por um regime de força que, naquele 1968, endureceria o discurso e conduziria a oposição à luta armada. “Eu pude ver a diferença em se fazer uma manifestação com objetivo especifico. Nós íamos para as ruas exigir o retorno da democracia”, compara Santos com a situação atual. “[Na França] os estudantes estavam revoltados contra uma norma de divisão da universidade que proibia os rapazes de visitar as moças em seus alojamentos, e três jovens levaram milhões às ruas. Era como se o clima chamasse à participação”, esclarece. Ao longo de maio de 1968 a mobilização reuniu estudantes, trabalhadores, ricos, pobres e venceu as barreiras étnicas e continentais. De acordo com Lélio Fabiano dos Santos, as manifestações provocaram mudanças e essas mudanças devem ocorrer, hoje, no Brasil, mas não do dia para noite. “Essas primeiras medidas do governo significam mudanças que só serão verdadeiras e só justificarão esse esforço maravilhoso do clamor das ruas, se nós continuarmos vigilantes”, alerta.


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ESPORTE

Foto: Pedro Vilela/ Agencia I7

“Caiu no Horto...”

O novo Independência valoriza imóveis e estimula o comércio local Por Lorraine Dias e Jéssica Moreira (6º Período) - Jornalismo Multimídia

Rua Pitangui, segunda feira, 20 de maio, 17h30. Aproximadamente cinco carros passaram, três pessoas caminhavam pela rua, e um mercado estava aberto. Um dia comum. Rua Pitangui, quinta feira, 30 de maio, 17h30. Aproximadamente 15 mil pessoas transitando pela rua, 13 bares abertos. Carros? Apenas os da Polícia Militar e dos Bombeiros. Vez ou outra, um morador, mas ainda assim, só credenciado. O Clube Atlético Mineiro recebia o Tijuana no Independência, em partida válida pelas oitavas de final da Libertadores, marco inédito para o estádio e para o clube. Eram mais de 21 mil apaixonados torcendo pelo Galo. Não parávamos de escutar: “Caiu no Horto tá morto”. Taí algo que pode explicar a ligação entre time e local. As inéditas conquistas, os recordes quebrados, e claro, a chegada ao cenário mundial, com direito ao ditado. Há quem conteste o ambiente e não se sinta tão à vontade assim. Com contrato firmado com o Mineirão, nos mesmos moldes que o Atlético assinou com o Independência, o Cruzeiro pouco utiliza a Arena do América. Foi enfatizando quem era o verdadeiro dono do estádio que os torcedores celestes provocaram o maior

rival, Atlético. “Qualquer lugar é a casa do Cruzeiro, mas o Independência é, oficialmente, do América, não sei o que os outros times estão falando por aí”, diz Guilherme Souza, torcedor do Cruzeiro. Com pouco mais de 12 mil espectadores na goleada sobre o Goiás por 5 a 0, a torcida da Raposa aprovou o time, mas nem tanto o estádio. “Aqui a visibilidade de quem está na torcida para ver o jogo é muito ruim, o espaço é pequeno, na minha opinião, só serve mesmo para jogos menores. Eu prefiro o Mineirão, estádio de time grande!”, ironiza Guilherme. Negócios Inaugurado em 1950 para a Copa do Mundo e reformado entre os anos de 2008 e 2012, o Independência virou uma fonte de renda para os moradores e comerciantes do seu hiperlocal. “O nosso apartamento valorizou. Subimos o preço em pelo menos R$ 30 mil. Vejo muito mais apartamentos à venda agora do que antes da reforma. Acho que para muitos virou um investimento. Eu estou vendendo o meu e não quero outro tão próximo ao estádio. A baderna é grande”, declarou Pedro Moreira, morador do Horto. Taise Adriana mora há 34 anos no

bairro e esclarece que, apesar da baderna e da movimentação maior, a segurança também foi reforçada, além de câmeras espalhadas pelo bairro e uma iluminação melhor, há também um vigia 24h. “Antes o estádio estava muito mal cuidado, e tinha até criação de coelhos, mas, agora, até a segurança das residências é um compromisso para os organizadores”, comnta Taise. Muitos moradores se tornaram comerciantes em dias de jogos no entorno do estádio. Em geral eles vendem bebidas, comidas e alugam suas garagens. Porém, a maioria não possui licitação e segue fazendo comércio livre. “Se antes vendíamos 50 caixas de cerveja, hoje, vendemos 110 e conciliamos com a venda de quentinhas. Podemos ver de perto a euforia da torcida, ganhar dinheiro e ao mesmo tempo, participar da associação do bairro, para pleitear mais flexibilidade da organização do estádio em relação a melhorias para nós moradores e comerciantes”, completa Taise. A arena de todos os clubes mineiros Brigas entre os grandes a parte, é o escudo do América Futebol Clube que está por todo lugar na Arena. Proprietário do


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Foto: Pedro Vilela/ Agencia I7

ESPORTE

grandes conquistas. Parte nenhuma do contrato diz que a Arena é do Atlético que é como um inquilino que paga aluguel para o América. Americano nenhum aceita que se diga que o estádio é deles”, conta a estudante. Em nota oficial para a imprensa o América Futebol Clube lê-se: “Esperamos que a nova Arena Independência seja a casa esportiva de todos os clubes mineiros, de todos os esportes, além de eventos culturais, de turismo e de educação.” Entenda o Contrato Para que Minas Gerais pudesse utilizar recursos públicos na reforma e moder-

Foto: Pedro Vilela/ Agencia I7

Independência, o América, assim como o Atlético, também tem contrato com a BWA. O Coelho, no entanto, é o único que tem toda a sua história vinculada ao Horto. A estudante Ane Caroline Rodrigues, 19, é torcedora do América desde criança, já participou de duas torcidas organizadas e costumava entrar em campo com os jogadores. O Clube é uma tradição para a família, que, além do time, possui verdadeira paixão pelo Estádio. “O Independência é a casa do América, não tem o que discutir, independentemente de contrato, é ali que, há muito tempo, temos grandes histórias,

Torcida do Galo comparece em massa ao jogo de volta entre Atlético - MG e Tijuana do México

nização da Arena Independência, o América Futebol Clube cedeu para o Estado o uso do campo pelo prazo de 20 anos. A propriedade continua sendo do clube esportivo, entretanto, alguns direitos e termos pré-determinados foram concebidos ao Governo. Em 2012 o Atlético e a BWA firmaram contrato de parceria para exploração comercial do Estádio Independência. A empresa foi a vencedora da licitação aberta em 2011 pelo Governo de Minas Gerais. O Cruzeiro Esporte Clube não possui nenhum contrato na arena. Para utiliza-lo o acordo deve ser feito por partida, ou período de tempo.


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ESPORTE

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Imagina na Copa

Em 2014, o Brasil sediará a Copa do Mundo, mas o brasileiro ainda têm dúvidas se o país está preparado Por Júlia Almeida e Reginaldo Matos (6º Período) - Jornalismo Multimídia

Foto: Sylvio Coutinho

No dia 25 de junho de 1950, Belo Horizonte recebeu a primeira Copa do Mundo do Brasil. O palco foi o Estádio do Independência, construído especialmente para o evento. A cidade, que sediou três jogos do mundial, não tinha a estrutura de hoje, mas na memória das pessoas que viram os jogos, a capital mineira não deixou a desejar. “Eu lembro que meu marido foi a um dos jogos, ele adorou. Naquela época não tinha baderna igual a hoje.”, relata a aposentada Margarida Ferreira, 83. Já para outros torcedores, apesar da Copa no Brasil ter sido um sucesso, o jogo final foi vergonhoso. “Quase sacrificaram o goleiro brasileiro. Enquanto, no Uruguai o jogador que fez o gol era recebido como herói, no Brasil, a CBD (atual CBF) entregou a trave do jogo para o goleiro Barbosa ‘se enforcar’ por causa do frango que levou”, lembra o aposentado Eduardo Oliveira, 80. Oito anos depois, na Copa do Mundo da Suécia, a seleção conseguiu fazer a alegria dos brasileiros. Mesmo sem a oportunidade de revanche contra o Uruguai, o Brasil venceu o mundial e, até hoje, o país lidera o ranking dos títulos conquistados: cinco no total.

Minas Gerais (PMMG) e a Prefeitura criaram e colocaram em prática um plano de contingência para mobilidade, saúde, segurança, turismo, hotelaria e comunicação. O jogo teste desse plano foi na partida entre Brasil e Chile, em 24 de abril. Algumas medidas foram adotadas para o gerenciamento do fluxo de veículos e pessoas próximo ao Mineirão nos dias dos jogos. Segundo a BHTrans, em um raio de cerca de dois quilômetros do estádio foi restrito o estacionamento e até ao tráfego de pessoas não autorizadas. No primeiro minuto da data do jogo, a BHTrans iniciou suas operações especiais e seis horas antes da partida, restringiu a entrada de qualquer tipo de veículo que não fosse credenciado pela FIFA. Houve também alterações no trânsito e no comércio. Além disso, a FIFA fechou a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que fica localizada a um quarteirão do estádio. Para a bióloga Priscilla Torres, a medida foi “um absurdo. “Acho louváveis as alterações no sentido de melhorar a segurança, mas acho lamentável que isso seja feito por exigências da FIFA ao invés de ser feito pela população”, reclama.

Planos O Brasil é conhecido como “o país do futebol” e enfrenta, desde 2007, o desafio de investir na infraestrutura das cidades que irão sediar a maior competição esportiva do mundo. As ações alteram a rotinas de capitais como Belo Horizonte, cuja população convive com alterações de itinerários de ônibus e retenções no trânsito. Para a Copa das Confederações, a Empresa de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), a Polícia Militar de

Manifestações Seguindo a onda de protestos que começaram em São Paulo, com parte da população indignada com o aumento do preço da passagem do transporte público. Em BH no dia 17 de junho 45 mil manifestantes se concentraram na Praça Sete para protestar contra a má qualidade dos serviços públicos. Em marcha, os manifestantes seguiram para o Mineirão, que sediava o jogo entre Taiti e Nigéria. Na portaria 1 da UFMG, havia um cordão de

isolamento da PM-MG e houve confronto. Parte dos manifestantes foi recebida com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Alguns dos ativistas revidaram, arremessando pedras e bombas caseiras. No sábado, 22, 125 mil pessoas, segundo cálculos da PM-MG, repetiram a marcha e novamente houve confronto, com a polícia. O conflito se intensificou na partida entre Brasil e Uruguai, no dia 26. Em ambas as manifestações, era possível ver cartazes pedindo o cancelamento da Copa. Parte dos manifestantes não acredita que o Brasil tenha estrutura para sediar o evento. Para a empresária Mirna Safar, na Copa será um caos e o Brasil fará feio dentro e fora do campo. “A única coisa que deu certo para eles foi no dinheiro que foi desviado na reforma dos estádios. Aqui no Brasil, é cada um por si, ”, alerta. O estudante Marcos Pereira gosta de futebol, mas afirma que a insatisfação dos manifestantes não é contra a seleção e sim “contra os corruptos”. Para ele, a onda de manifestações “é só um começo para virar um hábito, para se transformar em uma cultura de luta e exigência”. Esperança Outros manifestantes mostram-se favoráveis à realização da Copa no Brasil, mas dizem que ainda são necessárias algumas mudanças. A aposentada Arminda Barbosa espera que “os nossos governos acordem para a realidade e que essas manifestações tenham relevância para fazer uma boa Copa do Mundo”. Para Eraldo Nascimento, que viveu a experiência 1950, o momento é de esperança. “Quero que o Brasil mude logo, e para melhor. Não espero ver a população sair às ruas novamente em 2014”, desabafa.


CULTURA

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Giramundo surpreende em nova turnê

Projeção digital e recursos interativos são a nova aposta do grupo mineiro de teatro de bonecos

Foto: Árvore de Comunicação - André Carvalho

Por Natália Alvarenga (6º período) - Jornalismo Multimídia

Alice no País das Maravilhas: grupo alia clássico de Lewis Carroll às novas possibilidades tecnológicas para interagir com o público infantojuvenil mente desenvolvido para fechar o ciclo da trilogia. Essa turnê marca o início de uma nova fase no grupo. Todos os espetáculos recebem contribuições da tecnologia, seja em recursos de projeção gráfica para interagir com as marionetes e um boneco digital manipulado em tempo real através da técnica motion capture que torna o espetáculo em verdadeiro show aos olhos do público. Em Alice, a 34ª montagem do grupo, os bonecos interagem com o ator Beto Militani representando o autor e narrador da história, Lewis Carrol. Beto sobe ao palco e com as cortinas ainda fechadas, faz uma introdução cantada, com uma boneca da Alice que cabe na palma de uma das mãos, transportando a plateia para o universo das maravilhas.

O espetáculo, considerado para adultos por sua complexidade e dinamismo, resgata a infância dos espectadores. A infância da fantasia, do extraordinário, onde tudo é possível. Há bonecos que se desmontam em várias partes no ar e aparecem remontados do outro lado do palco, bichos que falam e dançam a todo o momento e cartas de baralho animadas. Ao todo são sete Alices em diversos tamanhos. A personagem que se encolhe e estica através de poções mágicas todo o tempo tem uma personalidade peculiar. Alice é curiosa, destemida, atrevida e tagarela, como toda criança em fase de aprendizado. A peça estreante tem a participação de Fernanda Takai, vocalista da banda Pato Fu, que dá voz a protagonista

Alice; seu marido e parceiro de banda, John Ulhoa, é o responsável por toda trilha sonora da montagem e o eterno mutante Arnaldo Baptista, dá ao personagem do Chapeleiro Maluco.

Foto: Marcos Malafaia

Inovação e criatividade são as palavras-chave para o grupo mineiro de teatro de bonecos Giramundo. Em abril, o grupo retornou aos palcos, em curta temporada, para encerrar a série de três espetáculos da Trilogia do Mundo Moderno. Os espetáculos marcam os 10 anos de falecimento do criador do grupo, o artista plástico Álvaro Apocalypse. As remontagens, que têm a proposta de radiografar as feições e relações do mundo moderno, são compostas por clássicos da literatura mundial, obras do séc. XIX, entre estas obras estão Pinocchio (encenada em 2005) e Vinte Mil Léguas Submarinas (levada aos palcos em 2007), que aparecem em remontagens adaptadas, e a estreia de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, espetáculo inédito especial-

“A gente não leva o boneco. É o boneco que nos leva. Então até o próprio nome do grupo Giramundo é isso, nós somos, vamos dizer condenados não é? A girar o mundo porque os bonecos nos carregam...” Álvaro Apocalypse (1937 - 2003)


FOTOGRAFIA Junho/Julho de 2013 16 contramão

Manifestação Fotográfica As manifestações realizadas em junho nas ruas e na Câmara Municipal de Belo Horizonte, assim como em outras cidades brasileiras, mostraram a insatisfação da população com o atual cenário político. A equipe do jornal CONTRAMÃO esteve presente em todas as passeatas e produziu um vasto material fotográfico. Para essa página, foram selecionadas fotos dos alunos Heberth Zschaber e Osvaldo Afonso (Jornalismo), além de Raul Richard (Cinema). Por Jorge Rocha

VISITE A VERSÃO ONLINE DO JORNAL CONTRAMÃO: CONTRAMAO.UNA.BR


Jornal Contramão Edição 24  

Edição 24 do Jornal-laboratório Contramão, do curso de Jornalismo Multimídia, do Centro Universitário UNA.

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