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nº 18 Ano 4 -Novembro/Dezembro 2011 Distribuição Gratuira JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO MULTIMÍDIA - UNA

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EDIÇÃO ESPECIAL


contramão 3 Foto: Felipe Bueno

Editorial Sua dicção não era muito clara e isto fazia com que nos desdobrássemos na audição do que ele nos falava. E era bom o efeito porque aumentava a nossa atenção e aprendíamos mais. Suas palavras não eram excessivamente elaboradas. Seu raciocínio, sim, era intelectualmente arrumado e fundamentado na lógica. Seus conceitos ancoravam-se no humanismo puro, em aprofundados estudos e no compromisso social e político. Seu impulso seminal era a educação, a grande causa que motivou toda sua vida. O Centro Universitário Una perdeu seu reitor no dia 29 de setembro deste ano.

Foto: Isabela Carrari

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A mão que nos sinalizou caminhos Lélio Fabiano dos Santos - Diretor do ICA Cada curso de nossa instituição guarda dele uma lembrança especial. Como ex-consultor da Una e, agora, diretor do ICA sou testemunha do carinho que o Pe. Magela tinha por nosso instituto e a importância que ele atribuía aos nossos cursos. Padre Magela tinha formação jornalística pela Universidade Pro Deo de Roma, onde também estudou e tornou-se mestre em Teologia. Desde sua posse como reitor da Una, em 2004, o ICA passou a ganhar maior visibilidade tanto interna quanto externamente. Aqui vem sendo construído, semestre a semestre, um centro de referência em ensino da co-

EXPEDIENTE Jornal laboratório do curso de Jornalismo Multimídia do - Instituto de Comunicação e Artes - Centro Universitário UNA Reitor: Prof. Pe. Geraldo Magela Teixeira. Vice-reitor: Átila Simões. Diretor do ICA/UNA: Prof. Lélio Fabiano dos Santos. Coordenadora do curso de Jornalismo Multimídia: Profª Piedra Magnani da Cunha. Contramão. Coordenação: Reinaldo Maximiano (MTb 06489), Tatiana Carvalho e Cândida Lemos. Diagramação: Débora Gomes. Revisor: Roberto Alves Reis. Estagiários: Anelisa R. Santos, Bárbara de Andrade, Bruno Coelho, Bruno Maia, Duda Gonzalez, Felipe Bueno, Henrique Muzzi, Jéssica Moreira, Marina Costa, Natália Alvarenga, Vanessa C.O.G e Vinícius Calijorne. Tiragem: 2.000 exemplares. Impressão: Sempre Editora.

municação no estado e no País. Esta edição de nosso jornal-laboratório junta-se às múltiplas homenagens que vêm sendo prestadas à memória de um dos mais importantes educadores de Minas Gerais. As falas e os textos do reitor Padre Magela, além de nortearem os rumos que as lideranças da Una deram à instituição, constituirão, sempre, exemplo e motivação para o conjunto de alunos, professores e colaboradores, que, a partir do Instituto de Comunicação e Artes procura alinhar a teoria às melhores práticas de comunicação, democrática, inclusiva e cidadã.

Foto da capa

Foto: Felipe Bueno

Edição Anterior

Foto: Isabela Carrari

Oitenta testemunhas de uma história Organizado por Lúcio Fávio Machado, o livro “Ministérios e Magistérios” foi idealizado como uma homenagem aos 80 anos do reitor falecido em setembro

Por Bárbara Andrade e Natália Alvarenga - 2º e 3º período O lançamento do livro em homenagem aos 80 anos de Pe. Geraldo Magela, “Ministérios e Magistérios – testemunhos de uma paixão”, organizado por Lúcio Flávio Machado, reuniu na Casa UNA de Cultura, no mês de novembro amigos, familiares e admiradores. A obra apresenta 80 depoimentos de diversas pessoas próximas ao falecido reitor e estabelecem uma panorama para se compreender a história do Pe. Magela que transita entre a vida religiosa (ministério) e a vida como educador (magistério). Num depoimento emocionado o vice-reitor Átila Simões disse que participou da idéia do livro desde o iní-

cio e ajudou a reunir e selecionar junto ao padre os depoimentos pouco antes de seu falecimento. “Padre Magela viu essa obra”, declarou. Entre os presentes estivam os diretores do grupo Ânima, Daniel Castanho e Marcelo Bueno; o diretor do Instituto de Comunicação e Artes, Lélio Fabiano dos Santos e, representando o prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda, a secretária municipal da regional leste, Rita Margarete Rabelo. “O Pe. Geraldo Magela foi um ícone na história da cidade de Belo Horizonte. Eu o conheço desde o ano de 73, eu era criança ainda e fui aluna dele”, destacou. “Todos da universidade

católica tem muito a agradecer. Na UNA, a mesma coisa. Tenho certeza que todos da UNA, que tiveram a oportunidade de conviver com ele, aprenderam muito. A cidade de Belo Horizonte, na área da educação ganhou muito com ele”, conclui Rabelo. Ainda na cerimônia, foi inaugurada uma placa em homenagem ao reitor na biblioteca Pe. Geraldo Magela Teixeira, no Campus Aimorés. Lá também é possível encontrar o acervo pessoal de livros do padre, com as estantes e prateleiras originais, que serão preservadas por um vidro. O acervo ficará a disposição do público e sob o controle dos responsáveis pela biblioteca.

De capítulos também é escrita a nossa história, e confesso que não pude conter a emoção ao ver tantos trechos de minha vida, carinhosamente relatados ao longo destes oitenta depoimentos. Pe. Geraldo Magela Teixeira

Veja a cobertura do lançamento do livro e da inauguração da Biblioteca Pe. Geraldo Magela Teixeira em: contramao.una.br


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4 contramão Fotos: Natália Alvarenga

A “pretinha” de Sabará O Festival da Jabuticaba de Sabará movimenta a região metropolitana de Belo Horizonte, há 25 anos, com criatividade e ousadia em cada edição Por Ana Paula Motta - 3º período

Parte 2

eu sou de banda! Por Hudson Freitas - 3º período preocupar, que o programa não era sério, que ele tocava uma buzina para os calouros, que era colorido, parecia comigo. Quando o Chacrinha falou meu nome, eu entrei no palco buzinando. O Chacrinha achou aquilo muito bom, ele buzinava de um lado e eu buzinava do outro. Foi amor à primeira vista! Outro “amor à primeira vista” foi o ator e comediante Pedro de Lara, morto em 2007. Lara ficou famoso na TV como jurado do “Show de Calouros” do Sílvio Santos, mas também trabalhou com Chacrinha nos anos 1970. Sempre carregava flores enormes nas mãos e fazia a linha turrão. – Quando um amigo ou uma pessoa muito querida viaja, eu bordo. Eu bordo muito!

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que, dormindo, os pro-

blemas te dispensam de morrer. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. [...] Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan. Ao terminar, Elke Maravilha, de forma provocativa, repetia os últimos versos do poema “Elegia 1938”: – Porque não podes sozinho dinamitar a ilha de Manhattan... porque não podes sozinho dinamitar a ilha de Manhattan... – De repente, em tom de eureca, grita: – Bin! Bin! É Bin! Bin! ...ele dinamitou! Ele foi lá e fez! Conversar com Elke é uma tarefa libertadora, e singular para o aprendizado da vida. Já que tudo a que se dispõe dizer é carregado de intenções claras, rodeios, sem escusas. – Aprender sempre. Esse é o seu lema. Todos os dias eu aprendo um pouco mais, todo dia é dia de aprender. Hoje, eu aprendi muito com vocês. Aprendemos todos.

horas, hoje, eles levaram mais de uma garrafa”, informou. A bebida que mais chama a atenção do público é o “whisky” do estande “Flor de Jabuticaba”. “Foram anos fazendo, até chegar ao sabor do whisky”, revela o casal Dirléia Neves e Marcílio Peixoto idealizadores da bebida. “A ideia veio para obter um produto diferenciado dos demais”, completou Dirléia. O estande dispunham de uma variedade de bebidas feitas com a jabuticaba, dentre elas estão o vinho, o rosé e a cachaça. Os doces são uma atração a parte. No estande “Delícias da Pretinha” o prato principal é a empada de frango com jabuticaba. O expositor, Heraldo Silva, acompanhado da esposa, Maria da Gloria, afirma que o sucesso é tanto, que eles lançarão em janeiro de 2012, um site para apresentar ao mundo o que inventaram e outras receitas que estão por vir. “Os clientes apre-

ciam a empada e ainda usam e abusam do molho agridoce feito de jabuticaba e pimenta malagueta”, revela o expositor. No estande da “Vovó Bia” iguaria mais procurada era o bolo e a cocada de jabuticaba. Sandra Camponês é uma doceira de mão cheia, mas é diabética, por isso resolveu criar um bolo diet, em especial para o “Coisas da Vovó”. Dentre os doces mais vendidos estão o pastel folhado, bala de goma, bala delícia, pudim, cocada, canudinho, bombocado e bombom de jabuticaba. Fugindo dos doces há também, a mussarela temperada com jabuticaba e a conserva de pimenta com casca de jabuticaba e mussarela. O verão está chegando e o calor aumentando, e por esse motivo a barraca de D. Neuza Marinho, chamada “Fruto Encantado” lançou para crianças e adultos o suco e o frozen de jabuticaba, além do picolé e do sor-

Fotos: Ana Paula Motta

A conversa com Elke Maravilha prossegue. Agora, o assunto é televisão, meio que consagrou no imaginário coletivo de jovens e adultos desde os anos 1970 e 1980. Uma pergunta surge da platéia da Casa UMA, naquela noite de setembro: “Conta como era a sua relação com o Chacrinha e com o Silvio Santos? Elke foi jurada das apresentações de calouros dos antigos programas “Cassino do Chacrinha” (TV Globo) e Show de calouros (SBT). Ela bebe água e começa a relatar. – O Haroldo Costa [produtor e diretor], me ligou convidando para ser júri do Chacrinha. Eu aceitei, mas eu nunca havia visto o Chacrinha. Eu já tinha lido sobre ele, mas não o conhecia. Um amigo me falou que não era para eu me

Este arranjo de cabeça que estou u-sando, hoje, eu fiz no dia que o Pedro de Lara morreu... Neste instante, ela faz uma longa pausa e concluiu. – Eu fiquei o dia todo bordando. A passagem de Elke Maravilha pela TV, também proporcionou situações de embate, foi o caso de Sílvio Santos. – O Silvio Santos era o patrão. Ele era o esquema de trabalho mesmo. O opressor. Uma vez ele disse que eu atrapalhava o programa. Ele disse que eu só dava notas altas para os candidatos até para os ruins e isso fazia comprometia a credibilidade. Respondi: “Se você colocar o Orestes Quércia em cima do palco eu dou zero pra ele! Eu não chuto cachorro morto!”. Elke Maravilha se declara como apolítica, mas ela reconhece que faz da sua de vida um ato político com causa e efeito. Naquela noite, ela declamou Drummond:

Nem a chuva, comum nas primeiras semanas de dezembro, atrapalhou os preparativos do Festival da Jabuticaba de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Neste período, a cidade recebe, anualmente, milhares de visitantes atraídos tanto pela fruta quanto pelas iguarias que são preparadas a partir dela. Em 2011, o festival comemorou as “bodas de prata” e 31 estandes foram montados, dez para expor a fruta in natura e 21 para expor os produtos dela derivados. No espaço gourmet, além tracionais receitas de geleia, licor e vinho, o destaque foi o estande “Pretinha Melosa” que propunha a degustação da batida de jabuticaba. Em menos de cinco minutos, Dona Eva Cirilo vendeu seis garrafas de batida. “Teve um casal que veio aqui comprar batida, dizendo que no ano passado beberam tudo em duas

vete da fruta. Já o estande “Novidades da Maria”, da expositora Dona Maria José trouxe o catchup de jabuticaba que também caiu no gosto dos fregueses. A jabuticaba in natura atrai os turistas. “As pessoas de Sabará já estão acostumadas, quase todas as casas têm pelo menos um pé de Jabuticaba, então, quem compra a fruta, são os visitantes de outras cidades”, informa a expositora, Adriana da Silva. De acordo com os nutricionistas a jabuticaba contém uma substância nutritiva chamada antocianina que protege o corpo humano de doenças vasculares e infecções, combate os radicais livres, afastando as possibilidades de tumores, age contra a obesidade e diminui a probabilidade de problemas cardíacos, assim como o vinho feito de uva. Mas a uva possui uma concentração menor de antocianina.


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6 contramão Foto: Eli Levy Rios Neto

Ser sacoleira é um bom negócio Estimuladas pelas festas de fim de anos, as sacoleiras chegam à BH vindas de diversas cidades de Minas e de outros Estados Por Felipe Weykman e Mara Prata - 3º período

Fotos: Felipe Weykman

ENTREVISTA

Rafael Lima - blogueiro

Com a avalanche tecnológica e a facilidade de acesso à internet, a divulgação de notícias deixou de ser tão exclusiva dos profissionais do jornalismo. Em um momento em que, virtualmente, todos publicam de tudo, algumas iniciativas revelam as potencialidades de ferramentas como os blogs e as redes sociais para a prática jornalística. Este é o tema da entrevista com o estudante de Jornalismo, Rafael Lima, o Fael, natural de Raul Soares (MG), apaixonado por futebol e pelo Clube Atlético Mineiro (CAM), ele criou, em 13 de maio de 2009, o “Camisa Doze” (camisadoze. net) dedicado a publicações de informações para o torcedor do Galo. O blog é um dos três finalistas do TOP BLOG PRÊMIO, sistema interativo de incentivo cultural realizado, anualmente, em São Paulo, que reconhece e premia, mediante votação popular e acadêmica, os blogs brasileiros mais populares. CONTRAMÃO: Como surgiu o “Camisa Doze”? FAEL LIMA: Em 2009. Eu morava no interior e não podia ir à BH ver os jogos e percebia que não havia nada na internet voltado para um torcedor. Eu via, nas redes sociais, os torcedores comentando os acontecimentos nos estádios que não ganhavam destaque algum na mídia ou, quando ganhavam, não passava dos 30 segundos. Pensei, então, na possibilidade de registrar esses acontecimentos. CONTRAMÃO: Então, você encara o “Camisa Doze” é o seu trabalho? FAEL LIMA: Eu tenho a melhor profissão do mundo. Faço o que gosto, relacionado aquilo que amo e de uma forma prazerosa.

Trabalho em casa, e tenho a obrigação de me dedicar ao blog os sete dias da semana. Muitas vezes, no estádio, eu deixo de comemorar os gols porque estou concentrado na cobertura. CONTRAMÃO: O “Camisa Doze” está entre os finalistas do Top Blog Prêmio. Qual a importância desta nomeação neste momento do blog? FAEL LIMA: O Top Blog é a maior disputa de blogs do Brasil com 150 mil inscritos em 2011. A inscrição foi feita sem muita expectativa. O blog foi passando pelas etapas e aparecendo no Top100, no Top30. Até que saiu o nome do “Camisa Doze” no Top3. No dia 17 de dezembro, em São Paulo, será anunciada a posição que fiquei, mas mesmo

Por Leide Botelho - 3º período no terceiro lugar já estou feliz, pois foi o público que trouxe o blog até aqui. É um incentivo para continuar no caminho do Jornalismo. Dá um certo conforto essa sensação de que não escolhi a profissão errada. CONTRAMÃO: Você, agora, parte para busca por patrocinadores para “viver do dinheiro do BLOG”. Como é essa busca? FAEL LIMA: Um empresário atleticano paga 90% da minha faculdade. Ele diz que a minha ideia era semelhante a que ele e o pai, que já faleceu, sonhavam em fazer, mas nunca puderam. Ele ainda contribui com uma quantia em dinheiro para gastos do dia a dia em BH. Estou negociando outros patrocinadores para 2012 e incluí um programa de divulgação de produtos no blog e no Twitter, o que aumenta a renda. CONTRAMÃO: Como o trabalho no “Camisa Doze” contribui para sua formação como jornalista? FAEL LIMA: Na prática diária, ao escrever os textos, editar os vídeos, registrar as fotos. O blog permite colocar em prática as ações que antes da faculdade eu não tinha conhecimento, como a simples publicação dos créditos nas imagens. É preciso

conhecer outras áreas como a TV, o rádio e a mídia impressa. Fiz estágio num programa policial, da TV Bandeirantes, e levei aquela experiência de produção para o blog. É importante, também, ouvir a experiência daqueles que já viveram e vivem o Jornalismo. CONTRAMÃO: Como você vê a possibilidade de divulgação de notícias e comentários esportivos por meio das redes sociais? FAEL LIMA: Abriu novas portas e até a imprensa precisou passar por uma transformação para adaptar-se. A velocidade é impressionante, principalmente, nessa fase de transferências. Uma declaração de um jogador pode “ditar a pauta” de uma rede social durante todo o dia. Existe, também, o lado negativo, onde muitos deixam a responsabilidade e a ética de fora. Eu creio que todos têm o direito de ter um espaço na web para registrar suas opiniões, desde que haja o respeito à verdade e ao outro. Para o jornalista, ou estudante de Jornalismo, a atenção deve ser redobrada, pois a internet pode causar cicatrizes eternas na carreira. Como publicador de informação, eu creio que, em breve, será necessário uma reformulação nas leis para fiscalizar e punir.

A Feira Hippie é o ponto de convergência das sacoleiras de diversos cantos do estado e do país.

As sacoleiras: Michelli Bettine (esq.) e Marilda Reis: oportunidade de aumentar a renda com as vendas de fim de ano.

Domingo, cinco de dezembro, 5h. Enquanto boa parte da população ainda dorme, elas estão de pé, percorrendo cada barraca da Feira Hippie à procura de bolsas, roupas e sapatos de boa qualidade e com preço acessível para atender uma clientela fidedigna. “Esta é a principal fonte de renda da minha família. Da última vez que estive aqui gastei R$ 4.500 e meu faturamento chegou a 110%”, revela a sacoleira Michelli Bettine, 32, moradora do município de Serra, no Espírito Santo. Sacoleira, há quatro anos, Michelli Bettine explica que suas vendas chegam a R$ 21 mil, mas com os altos custos e despesas da viagem, ela fatura livremente R$ 6 mil. A possibilidade de gerir o próprio negócio fez Michelli Bettine abandonar Jornalismo e se dedidcar apenas a compra e revenda de mercadorias. “Faço isso porque gosto, sempre gostei de atuar na área de vendas”, pontua. “Venho aqui de mês em mês e, desde outubro, venho repondo meu estoque. Espero vender 80% das mercadorias”, estima sobre as vendas de Natal. “Levo bolsas, calçados e bijuterias. Lá [na cidade de Serra], eu revendo na minha loja. Minhas clientes adoram os modelos e a qualidade dos produtos mineiros”, afirma. A servidora pública, Fernanda Carla, 30, também moradora de Serra, é sacoleira, há seis anos. Para ela ser sacoleira é uma opção de trabalho para aumentar renda doméstica. “Minha renda como sacoleira chega R$ 4.500 por mês. Levo as mercadorias de porta em porta e aposto na

variação de produtos para ganhar meus clientes. Ser sacoleira é um bom negócio”, avalia. Para a servidora, Minas Gerais é referência em moda e qualidade dos produtos no sudeste. “Aqui é o point. Venho de mês em mês para comprar e, para este natal, vou trabalhar dobrado para vender minhas mercadorias”, pontua. Em Belo Horizonte, a Feira Hippie é o ponto de convergência das sacoleiras de diversos cantos do estado e do país. Nos finais de semana, as ruas próximas à avenida Afonso Pena, ficam cheias de ônibus estacionados com os bagageiros repletos de mercadorias. Esses ônibus, geralmente, são fretados por uma guia que é a responsável por transportar as sacoleiras, com segurança. “São as guias que agendam o dia e o horário da viagem e até auxiliam as sacoleiras nas compras e como se orientar na cidade” explica, Zélia Squarcio, guia, há 15 anos. “Saímos no sábado, às 9 horas do estado de origem [ES], vamos fazendo as paradas nas cidades e, somente às 19 horas, chegamos à feira”, finaliza. De acordo com a sacoleira Marilda Reis, 43, moradora de Ubá, na Zona da Mata, o maior problema das viagens são os roubos nas estradas. Marilda Reis é filha de sacoleira e garante que deixa a profissão. “Sou sacoleira porque gosto e, enquanto tiver saúde, vou trabalhar assim”, afirma. “Em Ubá tenho minha loja e é de lá que pago a faculdade dos meus filhos. E chegando o Natal, as vendas crescem. Não posso perder essa oportunidade de fazer a renda crescer”.


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príncipes, princesas, aventureiros e super-heróis Lei 10.639 que prevê o ensino da História da África e das populações africanas do Brasil aquece o mercado de livros voltados às crianças negras Fotos: Etiene Martins

Maria Mazzrello: investir em obras que retratam cultura negra

com traços europeus. Não vejo a Lei 10.639 como obrigatoriedade, mas como uma oportunidade para as crianças negras que, hoje, podem interagir muito mais. Paralela à obrigatoriedade, está a oportunidade de quebrar esse preconceito”, defende a educadora Iris Amâncio.

Corajoso como um leão: Chico Juba é um grande inventor de xampus que quer solucionar as incríveis reviravoltas de suas mechas.

Por Etiene Martins - 7º período O mercado de livros voltados às crianças negras está em expansão! Em Belo Horizonte, por exemplo, as editoras já perceberam a demanda em função da Lei 10.639 (que determina a obrigatoriedade do ensino da História da África e das populações negras do Brasil nas escolas), e também de pais e educadores estarem cada vez mais interessados em trabalhar a autoestima das crianças. Mas não é apenas isso. Atualmente, o estímulo à leitura tem levado as crianças a escolherem o que de fato querem ler. Essa escolha, para elas, tem de refletir a própria origem e a identidade, por meio de protagonistas negros.

A diversidade de obras que retratam a cultura negra é enorme. Os personagens dessas histórias são príncipes, princesas, aventureiros e superheróis que mexem com a imaginação dos pequenos sem, no entanto, apresentar os já conhecidos estereótipos que denigrem a imagem (e a realidade) da população negra brasileira. Até pouco tempo, era difícil encontrar nos livros infantis um personagem negro que não tivesse características pejorativas, fato que comprometia a construção da identidade e do orgulho negro, elementos formados ainda na infância no campo das semelhanças e diferenças e, principalmente, pelas

diversas maneiras que o assunto é tratado pela sociedade. Há 30 anos, Maria Mazzarello Rodrigues, conhecida como Mazza, busca inserir a parcela negra da sociedade como protagonista na literatura brasileira. Fundadora da editora que leva seu apelido, localizada na região Leste de Belo Horizonte, Mazza se encantou com a diversidade de publicações voltadas para a etnia negra na Europa, durante o período quando fez Mestrado em editoração na Universidade de Paris. Quando voltou ao Brasil, em 1981, lançou a editora. “Foram 24 anos de muito sufoco. Apenas em 2003 a literatura passou a ser obrigatória, quan-

do a situação começou a melhorar. Somente depois da Lei, as grandes editoras lançaram um selo negro”, explica Mazza. Ela, como toda negra, sentiu na pele o que é ser uma criança e não se identificar com nenhum personagem de literatura infantil. A falta de referências foi o que a impulsionou a entrar no mercado. “Nós entramos pelas portas dos fundos, mas há, ainda, muito a ser feito, pois apenas dez estados brasileiros cumprem a Lei 10.639”, informa. O cumprimento da lei, no entanto, é visto também como uma grande oportunidade. “Todo aparato que, até há pouco tempo, tínhamos vinha com a predominância branca e

Educação Chico Juba é um menino corajoso como um leão. Ele é um grande inventor de xampus que pretende solucionar as incríveis reviravoltas de suas mechas. Seus esforços mostram para as crianças a incrível descoberta que podemos ter, sendo quem somos. A obra é de Gustavo Gaivota, que conseguiu transformar experiên-

cias negativas vividas por crianças de cabelos crespos em uma grande aventura. “Todas as minhas obras abordam as questões das diferenças, é o que me move”, revela o escritor. Os livros são adotados por profissionais como o professor Leandro Duarte, de 28 anos, que compra publicações que apresentam a questão racial. Para ele, trabalhar a diversidade com os alunos é essencial para o ensino. “O professor tem que fortalecer essas informações junto aos alunos. Na infância, o olhar lançado sobre o negro e sua cultura, tanto pode valorizar identidades e diferenças quanto estigmatizá-las, discriminá-las, segregá-las e, até mesmo, negá-las”, explica.

O casal Andréia Aparecida e Celso Augusto e os filhos Vitória, Guilherme e João: inserir a literatura na vida dos filhos desde cedo

O pai André Luis e o filho, Fernando: compartilhar a cultura afro

Para o escritor Anderson Feliciano, autor de “A verdadeira estória do Saci”, é fundamental repassar às crianças que elas podem, sim, contar sua própria história. “Eu quero que elas se identifiquem com os personagens e não se sintam excluídas como me sentia na infância”, admite. Para o ilustrador e escritor de livros infantis étnico-raciais, Rubem Filho, é necessário extinguir da literatura infantil o complexo de senhor e escravo. Ele parte do principio da igualdade e quer mostrar para as crianças que elas têm todos os motivos para se orgulhar de serem negras. O médico André Luis, 52 anos, busca compartilhar

com o filho adotivo Fernando, de seis anos, a literatura e a cultura afros. “É importantíssimo a valorização, não quero que meu filho se veja de forma massacrada, mas, sim, valorizada. Faço questão de inserir em sua cultura publicações que o valorizem”, defende. A mesma postura é defendida por Andréia Aparecida, de 37 anos, e Celso Augusto, de 32, ambos técnicos em enfermagem e pais de Vitória, de 8 anos, Guilherme, de 5, e o recém-nascido, João. O casal tem procurado inserir a literatura na vida dos filhos desde cedo. “É bom que eles criem gosto pela leitura de bons livros”, avalia Andréia Aparecida.

O professor Leandro Duarte: trabalhar a diversidade com os alunos é essencial valorizar identidades


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10 contramão Fotos: Osvaldo Afonso

Cercados: o futebol dos meninos do Conjuto Habitacional S. José

D. Onorina (sentada) e D. Marica: água na mina para lavar roupas

Aos poucos a gente vai ajeitando a vida Moradores remanejados para um Conjunto Habitacional, na RMBH, falam dos impactos e das mudanças após as obras nas avenidas Tancredo Neves e Pedro II Por Osvaldo Afonso - 4º período A costureira Leonilda da Silva, 69, é conhecida como Dona Dalva. Natural de Salinas (MG), Dona Dalva veio para Belo Horizonte, há 40 anos. O rosto ostenta um sorriso alegre intenso, porém um tanto tímido. “Não gosto de ser fotografada”, afirma justificando a timidez. O que Dona Dalva mais gosta de fazer é cuidar dos seus animais de estimação. Ela cria galinhas e tem muito apreço com as cadelas “Rosinha” e “Pitchulinha”. A paixão pelos animais a colocou em conflito com a pre-

feitura. Dona Dalva morava na Vila São José, região noroeste da capital, justamente no trecho onde foi projetada uma avenida. “Eles me propuseram um apartamento novinho em troca da casa, mas em apartamento não sobra espaço para os bichos”, estava criado o impasse. Orientada por um advogado, Dona Dalva optou pela indenização e aceitou uma contraproposta. Ela juntou seus bichos e se mandou para outra Vila, dessa vez a Ressaquinha, em Contagem, onde investiu o

dinheiro recebido. A casa não tem documentação, pois o terreno é invadido, mas Dona Dalva não se importa. “Vila é assim mesmo. Só quero um lugar pros meus bichinhos. Aqui é mais aberto, corre mais vento”, explica. Aos poucos, sem pressa, a costureira vai ajeitando a vida. “Enquanto não faço o galinheiro, as galinhas ficam dentro de casa junto às cadelas”, afirma. Dona Dalva sabe que se mudou para uma região que abriga outra obra interrompida que deve ser retomada em 2012.

Mais uma mudança à vista! A costureira foi a última moradora a deixar a Vila São José, com isso as obras aceleraram. Das 2.176 famílias beneficiadas, 1408 optaram por receber Unidades Habitacionais, 888 de dois quartos e 520 de três quartos. As outras 768 famílias foram indenizadas, ou indicaram imóveis para compra, ou estão no Programa de aluguel temporário. O impacto na vida dos ex-moradores da Vila São José, hoje remanejados num Con-

Onze operários na chuva, uniformizados, passando justo onde era o campo de futebol da Vila S. José e o Conjunto Habitacional, ao fundo. Dona Dalva, ex-moradora da Vila, em frente à nova casa, em terreno invadido, e as suas cadelinhas Pitchulinha e Rosinha

“Bota fora”: um lixão à margem da nova avenida,em frente ao Conjunto Habitacional ocupado pelos remanejados da Vila S. José

junto Habitacional, na região, é sentido nas coisas mais triviais. “Melhorou na casa e piorou na nossa diversão”, afirma Mateus Henrique, 13 anos, estudante da Escola Estadual Ursulina de Andrade Melo. “Aqui não temos onde jogar bola em paz, sempre tem carros no pátio e se a bola bate em algum lá vem bronca do dono!”. “Estamos esperando a quadra prometida pela prefeitura. Quando o Prefeito Márcio Lacerda vier inaugurar a obra, alguém tem que cobrar a nossa quadra e tem que ser coberta, para o tempo das chuvas. Eu não cobro porque não deixam criança pegar o microfone”, declara. Já Cristian Henrique, 12 anos, colega de escola do Mateus, reclama que da con-

ta de água. “Ela vem muito cara, era oito reais na Vila e, agora, é mais de cem reais!”. O carroceiro aposentado João Barbosa Pereira, 66, morou 36 na Vila São José, não reclama. “Graças a Deus, melhor não tem jeito. Quem reclamar duma moradia dessas, não tem coração”. Aqui é muito melhor, sem comparação. Morei na Vila São José, buscando água e lavando roupa longe, na mina, que nem na roça, em Almenara, antes de vir pra capital, há 29 anos atrás”, afirma a dona de casa Onorina Moreira da Silva, 73. Dona Maria Carvalho Garajal, 72, mais conhecida no bairro como Dona Marica, é viúva e pensionista, ela recebe a pensão deixada pelo marido

que era bombeiro hidráulico. Dona Marica é natural de Itaé (BA), mas mudou-se para o Paraná, de onde veio, há 45 anos, para morar na Vila São José. “Na Vila não tinha conforto, eu também lavava roupa e buscava água na mina da Vila”. Onde antes era a Vila, hoje abriga as obras de canalização do córrego São José e já foram construídas toda a Avenida João XXIII (1 KM) e mais 1820 metros das avenidas Tancredo Neves e Pedro II. O término das obras está previsto para fevereiro de 2012. Todo o projeto está orçado em R$115 milhões provenientes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Com a conclusão dessa obra, a capital terá 25 vias locais interligadas à avenida

Tancredo Neves e cria-se a tão esperada alternativa para se evitar a Praça São Vicente. A expectativa é a de que o trânsito da região noroeste seja beneficiado, bem como o de cidades da Região Metropolitana. Quanto à trincheira da Praça São Vicente, obra mais votada no orçamento participativo em 2010, a SUDECAP informa que foi incorporada às obras do anel rodoviário. A urbanização do bairro exibe contrastes. Na parte concluída da pista, há várias caçambas para deposito de lixo. Porém muitos carroceiros despejam entulho por toda a pista. As crianças transitam entre ratos, baratas, galhos de árvores e resto de comida. O mau cheiro parece ser ignorado.


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Além do muro rosa do presídio

Fotos: Etiene Martins

Trabalho social da cabelereira Dora Alves ressocializa detentas da Estevão Pinto, outro projeto profissionaliza jovens em BH Silmara de Iliveira, uma das das quinze alunas de dora no complexo penitenciário

Por Etiene Martins - 7º período

Fotos: Etiene Martins

“Dora, com suas palavras de incentivo, consegue me mostrar que eu sou capaz.” Silmara de Oliveira

De uniforme vermelho, as detentas ao lado de e Dora (ao centro e foto à direita): a ressocialização deve ter um caráter educativo

“Eu quero, eu posso, eu sou capaz, eu consigo”. É com esse grito de guerra, ou melhor, de paz que Dora Alves começa sua semana, incentivando presidiárias em um complexo penitenciário feminino a ter uma profissão e a embelezar o ser humano por dentro e por fora. Dora Alves, de 57 anos, começou a trabalhar aos oito anos de idade e há 43 é cabeleireira e voluntária. Mas não é só mais uma cabeleireira. Dora é reconhecida no mercado mineiro por ser especialista em cabelos afros. Ela faz trabalhos de visagismo em produções cinematográficas e teatrais. Guerreira, além de lutar pelo sustento da família, ela pensa apenas em si. Desde sempre, como ela mesma diz, buscava ajudar quem estava por perto: “Comecei com a família,

depois com os vizinhos e por aí foi”. Dora divide tudo que tem: a casa, o salão e a própria vida. As segundas e terças-feiras ela dá aulas para 15 alunas, no Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto. Ela leva esperança a mulheres que estão privadas do convívio diário com amigos, família e namorados. Em um ambiente lúgubre como a penitenciária é surpreendente ver a alegria com que Dora é recebida pelas detentas. O sucesso do trabalho é instantâneo. Mulheres que vivem em um mundo paralelo ao nosso, atrás de um enorme muro rosa que tenta transmitir uma paz que não existe lá dentro. Dora se doa por completo, ao se propor a cruzar a barreira do preconceito e ajudar quem está fora do convívio social. “A ressocialização deve ter um

caráter educativo para as pessoas voltarem melhores para a sociedade, para que não haja apenas uma punição, para que essas mulheres voltem para a sociedade como cidadãs e pessoas de bem”, declara Dora. As alunas levam a sério o que aprendem e se esforçam para corresponder à expectativa da professora, que de forma carinhosa ensina o ofício a todas. Dora exalta as qualidades de cada uma. Ensina que não há limitações para sonhos delas. Silmara de Oliveira, de 26 anos, condenada por tráfico de drogas, ficou muito chateada quando não conseguiu realizar a etapa de tranças do curso e saiu da sala chorando, mas Dora foi lá conversou com ela e a convenceu a continuar tentando “Dora, com suas palavras de incentivo, consegue me mostrar

que eu sou capaz. Aí consigo ir mais além e acreditar que eu tenho um belo futuro lá fora”, diz Silmara depois de ter persistido e conseguido fazer a trança.

“Comecei com a família”: Ana Flávia, filha de Dora, a primeira das “meninas

“Sucesso pra mim é ver essas meninas trocando um 38 por um pincel e um pente”. Dora Alves

Vitórias A história de Dora com o terceiro setor extrapola o muro rosa do presídio. A cabeleireira participou de um projeto social que envolvia o atendimento a um grupo de crianças portadoras de necessidades especiais, juntamente com o dançarino afro Evandro Passos. Sempre realiza trabalhos em escolas públicas, maquiando com seus próprios produtos adolescentes e jovens negras, ajudando equipes de professores a realizarem desfiles afros durante eventos e festas escolares. Ela também realiza palestras em

O grupo “Meninas de Dora” profissionaliza 30 jovens (de ambos os sexos), divididos em turmas pela manhã e tarde

colégios e faculdades, onde ela fala da sua trajetória e da valorização da autoestima do negro. Em 2004, Dora assumiu a formação de jovens cabeleireiros da escola profissionalizante Raimunda da Silva Soares, no Conglomerado Pedreira Prado Lopes, onde formou centenas de jovens. “Já perdi as contas de quantos eu acolhi nesses 40 anos de profissão e que acabaram conquistando aqui o primeiro emprego”. Dora diz que muitos jovens chegam a ela achando que já não podem mais nada e a maioria consegue abrir seu próprio negócio. O objetivo é dar a eles condições de, ao menos, comprar o próprio alimento. Assim, passarão a reconhecer suas capacidades de realização. “Neste contato diário, eu trabalho com eles coisas que trabalhei em mim mesma, como a autoestima. Tento mostrar que a gente pode mudar os rumos da história”.

Atualmente, além das quinze alunas do complexo penitenciário, Dora também preside um projeto de sua autoria, o “Meninas de Dora”, que possui os títulos de utilidade pública municipal e estadual. O projeto funciona em sua residência, na região Nordeste da cidade, desde sua criação em 2007. Profissionaliza 30 jovens, divididas em uma turma no turno da manhã, e outra, da tarde. O projeto é ofertado às jovens em situação de risco “A minha maior vitória é quando vejo os meninos andando de avião com o dinheiro de seu próprio trabalho adquirindo sua casa própria, seu carro, realizando seus sonhos”. Quando perguntados se estão gostando do curso, a resposta dos jovens que participam do projeto é unânime: sim. Para Jucelma Carolina de 25 anos, essa é a oportunidade de realizar o sonho de ter uma profissão “É muito bom, vou ter uma profissão e ficar

perto das minhas filhas, já que o trabalho me dar opção de exercer em casa” declara feliz Jucelma. Ana Luíza, de 16 anos, já decidiu: “Vou montar meu salão de beleza até o final do ano”. Sonhos possíveis Dora também dá oportunidade do primeiro emprego em seu salão. Laisla Brígida, de 18 anos, e Adriana Barbosa, de 26, são ex-meninas de Dora. Atualmente trabalham no salão da cabeleireira “Ela é minha super-heroína. Ela fez um resgate em minha vida antes mesmo que pudesse me acontecer alguma coisa”, declara Laisla. “Ninguém acreditava no meu potencia. Todo mundo achava que iria sair de lá morta e a Dora abriu as portas para eu ser o que sou hoje”, conta Adriana, que foi mãe aos 14 anos e cuida da filha e do marido, satisfeita com a vida que adquiriu. Dora luta contra um in-

imigo presente em nossa sociedade, ao qual ela denomina como assassino de sonhos “Eu já tive meus sonhos assassinados várias vezes. Agora, não deixo ele se aproximar e mostro para todas as meninas a importância de se acreditar em seus sonhos.” O trabalho social desenvolvido por Dora já foi tema de monografias e teses na área de educação, pela USP, UFMG, PUC, dentre outras universidades. Em 2010, Dora foi entrevistada pelo professor Henry Louis Gates, da Universidade de Harvard, Estados Unidos, sobre políticas raciais. A reportagem foi exibida nos Estados Unidos pela PBS. Dora já foi agraciada com os prêmios Valores femininos, em 2002, Bom Exemplo, Prêmio Zumbi de cultura, em 2010, Troféu Reggae Favela, e cidadã do mundo em 2011. “Sucesso pra mim é ver essas meninas trocando um 38 por um pincel e um pente”, garante.


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Fotos: Felipe Bueno

O samba é pop Jovens músicos repaginam o ritmo com batidas eletrônicas e influências da música contemporânea. Por Januária Vargas - 7º período Diferente do samba tradicional cadenciado pelos instrumentos de percussão, como tambores e tamborins, e de corda, como violão e cavaco. O samba, consagrado na poesia e nas vozes de Bezzerra da Silva, Adoniran Barbosa, Dona Ivone Lara, Jorge Aragão, Leci Brandão, dentre outros, encontra-se mais jovem do que nunca. Os novos sambistas renovam o ritmo harmonizando-o com o pop, o rock, o eletrônico, e escolheram o samba para cantar o presente e relembrar o passado. “É o resgate de gerações através da música, o resgate da história de uma época que não vivemos”, declara Soraya Veiga, vocalista do Grupo Teresa. O Grupo Teresa é integrado por três garotas apaixonadas por samba: a violonista Luiza Leandro, de 20 anos, a percussionista Fernanda Pedaço, de 23 anos e a vocalista Soraya Veiga, de 25 anos. Além do samba, o grupo usa influências da MPB, criando o que as integrantes chamam de sambossa. “O que amamos fazer é misturar músicas antigas às novas composições, assim agradamos a um público de todas as idades”, declara Soraya Veiga. A música de gerações Músicos com essas raízes são frequentes nos bares de Belo Horizonte. Grupos como a banda Odilara, Samba de Comadre, Samba de Luiz, a carioca residente na capital mineira

Aline Calixto e o Camarão de Rama representam essa nova geração da música popular brasileira, sobretudo, mineira. O grupo Camarão de Rama, formado em 2007, é composto por pai, filhos e amigos. Essa união, demonstra que para se fazer samba, não é preciso ter uma idade específica. “A sensação de compartilhar a música com meus filhos é muito boa, a gente adapta o som tradicional com a nossa pegada e, assim, misturamos o samba de raiz com outros ritmos musicais”, explica Gilvan Miguez, 52 anos, pai dos cantores Aline Miguez e Daniel Miguez. Para Aline Miguez, 26 anos, o samba atrai a juventude por causa dos seus batuques e do seu gingado, isso faz com que os jovens busquem no ritmo uma forma de poder expressar a arte. “Os jovens querem se divertir, querem dançar e o samba tem essa batida. O samba é contagiante. Entra nos ouvidos e sai no pé”, completa. A banda Odilara que o diga. Muito antes do samba bater à sua porta, os integrantes do grupo tinham uma banda de pop rock, o Alarido (Odilara ao contrário), em que a principal intenção era misturar o rock com os ritmos brasileiros, dentre eles, o samba. O samba, de acordo o Odilara, tem a liberdade de brincar com estilos e sonoridades distintas, podendo assim, criar uma vertente mais elétrica, com guitarra, bateria, baixo e sem

uma ligação direta com o pandeiro e o violão. A banda Odilara cria um samba contemporâneo, que dá voz à juventude. “A gente busca fugir do comum, do convencional. Buscamos dar uma cara mais jovem e moderna às músicas”, afirma o vocalista Eurípedes Neto, 32 anos.

De acordo com Eurípedes, a nova geração flerta com batidas eletrônicas e não se prendem somente ao pandeiro e ao tamborim. Os jovens sambistas buscam reinventar a música e mesclá-la a diferentes ritmos. Renovar o samba é dar asas a imaginação. Ilustração: Débora Gomes

HIPERLOCAL

iluminação de Natal

Por Bárbara de Andrade - 2º período Sempre movimentada, a Praça da Liberdade é um lugar de encontro de amigos, namorados, família e é lugar até para aqueles que querem ficar sozinhos. Na tarde de segundafeira, 5 de dezembro, algo a mais movimentava o local. Os últimos ajustes para a inauguração das luzes de Natal atraia as pessoas, que já tiravam fotos e observavam a decoração. Enquanto algumas pessoas liam e outras conversavam, um homem, que trabalhava nos últimos preparativos para a inauguração colocava placas nos postes de iluminação com os dizeres “Energia para você son-

har” e “Iluminação da Praça da Liberdade, um presente da Cemig para você”. Embaixo da escada, um outro homem dormia profundamente. Após terminar um poste, o homem das placas desceu, pegou a escada e foi para outro continuar seu trabalho. Mais a frente, algumas luzes já estavam acesas, em fase de teste. Na frente do coreto, um grande papai Noel chamava atenção das pessoas que passavam, e algumas até tiravam fotos. Luzes nos troncos, bolas penduradas nas galhas, assim estão as árvores da Praça. De acordo com o site da

Cemig mais de 2,6 milhões de microlâmpadas foram instaladas em Minas Gerais, com investimento da ordem de R$ 2,3 milhões. Só em Belo Horizonte R$ 1,5 milhão para a iluminação de Natal, que privilegiam as três cores tradicionais do Natal: branco, verde e vermelho. A iluminação foi inaugurada no dia 6 de dezembro, às 19h e ficará ligada até o dia 6 de janeiro. As luzes são acesas diariamente das 19h às 6h. Expectativas A estudante Paula Danielle Ferreira afirma não ter costume de ir à Praça para ver a

decoração. “Nunca parei para tirar fotos, mas acho que vai ficar legal”. Já a funcionária pública Lilian de Oliveira Fernandes sempre vai para conferir os enfeites. “Sempre venho com a família e vizinhos. Agora está mais difícil, porque estou morando em Contagem. Mais próximo do Natal venho conferir a decoração deste ano”, destaca Lilian Fernandes. “Sempre é bacana. É sempre bonito. Tenho dois caminhos para voltar do trabalho e sempre escolho passar perto da Praça para ver a decoração”, conta o comerciante João Augusto Costa Moreira.


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Coral da Cemig emocionou o público na Praça da Liberdade na inauguração da iluminação de Natal na noite do dia 6 de dezemebro

contramao.una.br Público saúda o Papai Noel que chegou à Praça da Liberdade em um caminhão do Corpo de Bombeiros


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