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nº14

contramão Ano 3-2010 Distribuição Gratuita

JORNAL LABORÁTORIO DO CURSO DE JORNALISMO MULTIMÍDIA - UNA

- DA TEMPESTADE À CALMARIA - A LEITURA INTENSA DA MORTE -CÂNCER NA ADOLESCÊNCIA - O SONHO DA CASA PRÓPRIA


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Foto da capa

OPINIÃO

FICA CALADINHAS Quando entrei no ônibus eram dez horas da manhã de uma segunda-feira. Em minha companhia apenas o tradicional mauhumor matinal e os óculos escuros, que escondia mais da metade do meu rosto. Olheiras e noite mal-dormida eram meus sobrenomes neste dia. Dentro da minha cabeça, Tico e Teco, pareciam ter tirado o dia de folga para jogar tênis: toc pra lá, toc pra cá... Enfim, o dia prometia. Ao final do dia, só sabia dizer que maldizia todos os crediários das lojas de eletroeletrônicos, porque eles, indiretamente, contribuíram um tanto bom, para que meu estresse se multiplicasse naquele dia. Por causa de facilidades como essa, de crédito, é que chegamos ao status de mais de um celular por habitante brasileiro. Claro que não pode faltar, os infernais aparelhos de o rádio FM, a câmera para tirar fotos e o MP3. Ah... o MP3! Explico a ladainha toda: naquele dia, dois dos rebeldes sem causas que tinham um aparelhinho desses, ouviam música, sem fone de ouvidos, ou seja, todos os passageiros estavam fadados a ouvir, e compartilhar com eles de seus infelizes gostos musicais. Senti uma espécie de disputa no ar, parecia um concurso de quem incomodava mais, um ouvia música gospel e o outro funk, estavam sentados na parte central do ônibus e bem próximos um do outro. - O meu Deus nunca falhará... – ouvia-se do lado esquerdo. - É o pente, é o pente, é o pente... – ouvia-se do mesmo lado, um pouco mais atrás. Minha avó, quando eu era criança e fazia peraltices, tinha mania de me olhar no fundo dos olhos e perguntar: -Você já perdeu né? Você já perdeu a vergonha na cara? Eu entendia, prontamente, o recado e endireitava minha conduta, pois conhecia o peso de sua mão. Como já havia tentado por mais uma vez, essa tática do olhar, para os dois rapazes e não consegui obter êxito, resolvi ir para o fundo do ônibus. Sentei-me ao lado de duas mocinhas que não aparentavam mais que quatorze anos. Uma delas carregava, no colo, uma menininha, que aparentava dois anos de idade. Para minha infelicidade absoluta, elas decidiram lançar mão de suas sofisticadíssimas habilidades de backs- vocals e começaram a acompanhar cantando (na maior altura!) o funk que ecoava la da frente do veículo. - Tem direito de sentar, de sentar, de rebolar... Tem direito de sentar, de quicar, de rebolar, então quica, quica no calcanhar, quica, quica no calcanhar... Sou ou não, uma das pessoas mais sortudas deste planeta? Vez em quando, a menininha que uma das moças carregava, fazia murrinha: - Mãe? - Que foi menina?! E continuava... - Fica caladinha, fica fica caladinha, fica caladinha, fica fica caladinha... E a cena se repetiu, por mais quatro ou cinco vezes, a criança querendo atenção e a mãe que só parava de cantar, por um breve momento, para xingar e sacudir a criança. Cheguei ao trabalho atrasada. A gerente já aguardava minha chegada e me convidou à sua sala para conversarmos. Fui, sentei na cadeira e lembrei: “tem direito de sentar, tem direito de sentar, de sentar” ... e de encolher (acrescentei à letra). - Queria falar sobre as vendas do mês passado que não foram boas... blá blá blá – disse a gerente desfiando um rosário de reclamações, um conta depois da outra. Ao final de toda a lista, ela perguntou se teria alguma coisa a para falar. A única coisa que conseguia pensar no momento foi: “Fica caladinha, fica fica caladinha”!

Por Felipe Bueno Torres

O conteúdo deste artigo não expressa a opinião do Contramão

Foto| João Marcelo Siqueira Assentamento Dandara Belo Horizonte - MG

Edição Anterior

Editorial A edição 14 chega às suas mãos com um enfoque diferenciado. Não foi a nossa intenção elaborar um jornal temático, longe disso, mas as circunstâncias, durante a produção, convergiram para uma atenção especial às artes. Isso influiu, inclusive, em seu aspecto gráfico. Este número, diferente dos anteriores, foi divido em dois cadernos. A primeira parte do jornal abre com duas entrevistas: uma sobre música e outra sobre literatura. A primeira apresenta o Grupo Monograma, que se distingue por seu trabalho de divulgação musical via internet, em meio ao cenário de crise das gravadoras. A segunda entrevista é com o professor do Instituto de Comunicações e Artes da UNA e escritor Carlos de Brito e Melo, o Trovão, que, neste ano, o seu romance A passagem tensa dos corpos esteve entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom. O romance é o ponto de partida da entrevista. O escritor já havia vencido em 2008 o prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Jovem Escritor Mineiro. Nas páginas seguintes, histórias de jovens que venceram a batalha contra o câncer. Há também um relato, tecido a partir da observação, sobre o Assentamento Dandara, no bairro Céu Azul, em Belo Horizonte. A arte retoma seu espaço na segunda parte do jornal, dedicada à cobertura da temporada mineira do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. O desafio para a equipe do Contramão, agora, é produzir, a cada edição, um caderno especial dentro desta linha de cobertura. Tenham uma boa leitura.

EXPEDIENTE Jornal laboratório do curso de Jornalismo Multimídia do Instituto de Comunicação e Artes - Centro Universitário UNA Reitor: Prof. Pe. Geraldo Magela Teixeira Vice-reitor: Átila Simões Diretor do ICA: Prof. Silvério Otávio Marinho Bacelar Dias Coordenadora do curso de Jornalismo Multimídia: Profª Piedra Magnani da Cunha Contramão - Tel: (31) 3224-2950 - contramao.una.br Coordenação: Reinaldo Maximiano (MTb 06489), Tatiana Carvalho e Cândida Lemos Diagramação: João Marcelo Siqueira Revisor: Roberto Alves Reis Estagiários: Arthur Henrique Costa, Danielle Pinheiro, Daniel Lemos, Débora Gomes, João Marcelo Siqueira, Maria Amélia e Thaline Araújo Tiragem: 2.000 exemplares Impressão: Sempre Editora


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“Da tempestade à calmaria” Alegria e música de qualidade marcam o lançamento do novo EP da banda Monograma Bons arranjos, letras e melodias que ficam na memória caracterizam o som dos mineiros da banda Monograma. Com quatro anos de estrada, os meninos lançaram seu primeiro EP, “Conto do Faz de Conta” em maio de 2009 e não pararam mais. Sempre presentes em festivais, por meio de Coletivos, como o Pegada, a banda é hoje referência no cenário musical de Belo Horizonte. No dia 31 de outubro, Guilherme Lopes (guitarra e vocal), Leonardo Eugênio (baixo e vocal), Diego Impellizieri (bateria) e Ícaro Eugênio (guitarra) fecharam o Studio Bar no lançamento do novo EP “Da Tempestade à Calmaria”, com direito a chuva e um coral afinado de fãs em todas as canções. CONTRAMÃO – Como funciona o processo de composição das músicas? Guilherme - Bom, basicamente eu componho as letras. E depois que faço violão e voz, eu levo para a banda e a gente desenvolve arranjos juntos. Na maioria das vezes, a música ganha outro rumo que eu nem tinha pensado antes, compondo sozinho. CONTRAMÃO – As letras têm mensagens dedicadas a alguém? Guilherme - A maioria tem. Acho que nesse EP, Querido Amigo, Nus Amamos e Calmaria têm. Alento é baseada em um filme. E as que não têm, são baseadas em algum filme, livro ou começam a ser compostas por uma frase que os meninos acabam continuando, numa história que a gente cria na nossa cabeça. CONTRAMÃO – E por que um EP e não um CD? Diego - O formato do EP com cinco músicas vai muito pelo lance de que é difícil ouvir de cabo a rabo um CD de 12, 13 músicas de uma banda que está começando a mostrar a cara, começando o trabalho de forma independente, como nós. Então, com um formato com menos músicas, fica mais fácil o acesso à banda, para que quem não conhece a banda conheça o trabalho, veja as qualidades e os defeitos também, claro. CONTRAMÃO – As pessoas percebem que o Mono-

grama está muito presente nas redes sociais. Vocês acham que isso ajuda no trabalho da banda? Guilherme - Eu acho que ajuda consideravelmente. Enquanto as bandas de antigamente usavam as rádios e o poder da grande mídia, agora, com a quebra das grandes gravadoras e com o empoderamento dessas bandas independentes, acho que a internet é o meio de divulgação e de disseminação da música. A gente divulga nosso EP de graça para o maior número de pessoas possível, para elas baixarem e escutarem, pois assim a gente mantém shows legais. A internet vem pra divulgar, pra mostrar o trabalho, como uma nova ferramenta que não existia antes ou se existia, não era utilizada devido ao poder das grandes gravadoras. CONTRAMÃO – Em relação aos festivais, como funciona? Leonardo - A gente anda junto com os coletivos aqui de BH. O coletivo Pegada. A partir daí, a gente consegue uma divulgação boa, pois os coletivos estão aparecendo cada vez mais em várias cidades, vários estados. Isso é uma realidade. Está todo mundo procurando caminhos alternativos, como o Gui disse, devido à quebra de gravadoras. Isso faz com que a gente comece a procurar novas alternativas e os coletivos são os meios onde conseguimos nos encontrar. Diego - Por meio do Co-

letivo Pegada, a gente entrou numa mini turnê. Existe, hoje, um circuito mineiro de festivais independentes e nós já participamos de seis, se não me engano, e a gente entrou nessa pelo Coletivo. Então, a gente se apegou a essa plataforma por saber, que o trabalho é melhor, mais fácil pra que as pessoas enxerguem as bandas que estão começando, que estão tentando mostrar seu trabalho. CONTRAMÃO – Quais as influências musicais do Monograma? Ícaro - Bom, a influência é muito complexa (risos). Cada um tem um pouco de cada coisa. A gente vai criar uma música, e consequentemente você leva aquilo que está vivendo no dia. Acaba que influência você vai ter de uma a um milhão. É uma mistura de coisas, que juntas, resultam na composição final. CONTRAMÃO – Como aconteceu a formação da banda? Leonardo - Na verdade, a nossa história começou comigo, com o Diego, o Gui e o Felipe, o primeiro guitarrista. A princípio, a gente montou a banda pra tocar umas músicas que a gente gostava e num período curto de tempo começamos a nos preocupar e a compor nossas próprias músicas. A partir daí, a gente começou a seguir. Então, o Felipe não deu certo e entrou outro guitarrista, o Jean, que ficou um ano e pouco com a gente. E, agora,

tem o Ícaro que é meu primo e que está na banda há mais ou menos um ano. E vem dando certo. CONTRAMÃO – E por que Monograma? Guilherme- A gente chamava Gee Me MA (muitos risos). E ninguém conseguia falar e nem sequer escrever. Nem o Google entendia. Então, a gente resolveu que devia escolher outro nome. A gente queria Monomotor, que é o nome de uma música nossa. Mas aí já tinha. Então, a gente pensou em Monociclo, só que já tinha também. Aí no dicionário, abaixo de Monociclo, tinha Monograma. E a gente escolheu esse sem nem saber o que significava. CONTRAMÃO – Tem planos para um novo EP? Guilherme - Bom, o próximo EP sai em julho do ano que vem. E os meninos acabaram de saber isso também (risos). A gente tem a expectativa de lançar um EP por ano, então é bom a gente marcar em julho, que a gente lança em outubro, novembro... CONTRAMÃO – Para fechar, o show de hoje foi... Leonardo - Maravilhoso. Guilherme - Sensacional. Diego - Chique demais. Para curtir e baixar as músicas do Monograma acesse http://myspace.com/monograma http://monograma. mus.br

Por : Débora Gomes e João Marcelo Siqueira

Foto| João Marcelo Siqueira

MÚSICA


Foto| Danielle Pinheiro

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LITERATURA

A leitura inTENSA da morte

Carlos de Brito e Mello, o Trovão como é conhecido pelos amigos e alunos do Instituto de Comunicação e Artes da UNA foi finalista de três grandes premiações literárias, com o romance A passagem tensa dos corpos, publicado pela Companhia das Letras, em 2009: o Prêmio São Paulo de Literatura, o Jabuti e Portugal Telecom, em 2010. Nesta entrevista, Trovão adianta os seus novos projetos, revela as suas influências literárias e os desafios desse novo caminho que resolveu trilhar: dos romances.

Fotos| Arquivo pessoal

CONTRAMÃO - Quais foram os principais desafios nesse terreno dos romances, até então desconhecido por você? Carlos de Brito - Decidi fazer jornalismo, entre outras coisas, porque é uma carreira profissional na qual se trabalha com a palavra e eu sempre quis trabalhar com a palavra. Antes do vestibular eu já escrevia, na infância já tinha o desejo de ser escritor. No entanto, o percurso com a literatura, com a produção do texto literário não é um percurso aprendido na faculdade, como uma profissão que se forma, faz prova, ganha diploma. Quando publiquei o primeiro livro, que é um livro de contos, reuni nove contos que tinham sido escritos ao longo de quase dez anos. Mandei-os para algumas editoras que recusaram, e uma de Belo horizonte topou a publicação. Quando

ganhei o prêmio foi para escrever um romance, que era um gênero que eu não conhecia ainda, uma novidade. Um romance tem outra temporalidade, não só a narrativa tem uma temporalidade diferenciada, mas o tempo do autor no texto, no trabalho diário do texto é diferente. O conto é rápido, enxuto, você não pode perder o fio da meada e se resolve de uma maneira muito precisa. Os temas de um romance são temas da vida, que nos acompanham desde sempre, mas como contar sobre eles depende de cada um, então o desafio da escrita é sempre desafio do autor, quando ele decide escrever. Todo dia quando se assenta na frente do computador ou do papel em branco, é o desafio do que produzir naquele dia, o que vai sair dali, a escrita não tem um horizonte que antecipadamente se revela, o horizonte da escrita é construí-

do a cada dia e a cada dia você escreve um pouco mais, mais o horizonte aparece. No dia seguinte, você escreve um pouco mais e o horizonte vai se modificar, mas você não tem essa possibilidade de sentar e dizer: olha, é lá que eu vou chegar um dia. Esse desafio da escrita é sempre uma aventura do desconhecido, do que não se sabe, a princípio não tem terreno, é um terreno que se constrói na própria escritura e o caminho só se torna caminho ao caminhar. CONTRAMÃO - Como nasceu “A passagem tensa dos corpos”, o ponto de partida, a escolha do tema, dos personagens...? CB - A morte como temática, já tinha aparecido no Cadáver ri de seus despojos, mas apareceu de maneira marginal, indireta, não era a morte mesma, mas uma experiência de desaparecimento, de perda. Desejei transformar isso, que tinha aparecido, às vezes claramente, às vezes não, em uma aparição drástica e violenta, então faço um desdobramento do que o Cadáver me trouxe na Passagem tensa dos corpos. Com relação aos personagens, no projeto eu já tinha definido mais ou menos quais eram os personagens, como ia ser esse narrador, mas eles não tinham essa potência

que vieram a ter no livro pronto, exatamente pela razão que falei, porque a escrita inventa suas próprias soluções. Esse narrador incorpóreo que oscila entre uma presença e uma ausência e tem uma língua que fala e essa língua é tanto física, muscular, mas é também a linguagem que o sustenta, é uma metáfora da própria literatura. Poder inventar mundos que não existem, seres que nunca nasceram, matar pessoas que continuam vivas ou uma sustentação apenas linguística são puros efeitos de linguagem. Tudo isso foi construção da própria narrativa, embora eu tenha tido que apresentar um projeto muito bem fechadinho para concorrer à premiação, mas depois essas situações todas foram ocorrendo, umas estavam previstas, outras foram pura descoberta das invenções e do próprio processo. CONTRAMÃO - Porque foi usada uma disposição de texto diferenciada, nos capítulos curtos e intensos, frases corridas ou cortadas, sem pontuação? CB - Eu quis que a forma do texto estampasse e incorporasse isso que a morte apresenta como temática, a fratura, perda e falta, então criei aquela fragmentação da linha. A fragmentação do parágrafo, e de verdade quando eu pensei


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naquilo e fiz, é como se a minha dicção aparecesse, como se minha voz aparecesse, eu queria no texto essa voz cortada, fraturada, picada e quando ela apareceu, saquei que era assim que queria escrever. CONTRAMÃO - Quais aspectos, você diria, que diferencia seu livro dos demais disponíveis nas prateleiras das livrarias, isto é, se você fosse um leitor, porque você o compraria? CB - Participei de uma bienal em Curitiba e o mediador disse: “Sua obra passa longe de algumas obras que hoje apresentam um cenário urbano, temas do homem contemporâneo, das grandes cidades, do amor e da perda. A narrativa escolhe uma cidade do interior de minas, mas não se desenvolve na chave da representação tradicional do Estado, que é a do pão de queijo e tal, mas em uma outra chave de representação”. Isso é um pouco do que dizem os críticos, de jornais e teve também um de televisão, que avaliam o livro. As pessoas que falam de fora tem mais capacidade e eu teria que ler mais autores contemporâneos para dizer o quanto o meu se distingue. Porém, por algumas razões, acho que ele se distingue sim. Exatamente por está saindo de uma chave realista, apesar de não ser uma obra surrealista, a narrativa torce a representação para um lado que a fantasia trabalha muito forte e o absurdo aparece: um homem morto, preso amarrado à cadeira, na

sala de jantar, a família que supostamente o envenenou... isso é muito absurdo! No entanto, como a narrativa não faz um espalhafato em cima disso, ela sustenta isso como uma possibilidade real. Por essas razões a obra acaba apresentando diferenças com relação a outras que trabalham no mesmo ambiente urbano, do homem da cidade e das perdas que são conferidas no cotidiano que se esfacelou, pelo contrário, o esfacelado nessa obra é o narrador, ele quer se constituir, não quer falar da fragmentação do cotidiano, ele detesta a fragmentação porque já é fragmentado. CONTRAMÃO - Quais foram as influências literárias que ajudaram a compor o livro? CB - Existem duas referências bem diretas na Passagem tensa dos corpos, a primeira é do Lúcio Cardoso, um autor mineiro já morto, mas que tinha um texto potentíssimo, apaixonado. A obra mais conhecida dele é Crônica da casa assassinada. Quando vi esse nome, antes mesmo de ler, pensava o que é uma crônica de uma casa assassinada? E a obra é genial. Apesar de, Lúcio Cardoso escrever de uma forma diferente da qual escrevo, quis que meu livro tivesse um pouco do lugar que ele fala, inclusive um pouco da sua irritação, no que diz respeito a forma como Minas Gerais é representada. Existe uma entrevista, se não me engano, que ele diz que sua briga não é con-

tra o Estado das Minas Gerais, mas contra o tradicionalismo mineiro, o jesuitismo mineiro, o ranço mineiro que ele detestava, e eu detesto. Edgard Allan Poe é outra [referência], autor brilhante, contista de histórias de mistério, morte e horror. Um cara absolutamente preciso, um gênio. CONTRAMÃO - Que obras você indicaria para os leitores que estão sedentos de novidade e originalidade? CB - Gostaria de sugerir um autor diferente: o Lourenço Mutarelli. Diferente é uma palavra esquisita e talvez detestasse ser chamado de diferente, mas é que ele escreve um pouco na chave do absurdo, mas um absurdo que é capturado no cotidiano mais banal dos personagens, que são quase vozes meio soltas, confusas. Nesse sentido, não tem a ver com meus personagens, que são construídos dentro de uma estranheza que não determina e não “estetifica”. Foi ele quem escreveu o livro no qual se baseou o filme O Cheiro do ralo, que conta a história de um sujeito que compra objetos antigos e faz uma megacoleção, uma coisa obsessiva, e tem uma relação nojenta e erótica ao mesmo tempo com um ralo entupido dentro do seu escritório. Acabou de sair um livro dele que chama Nada me faltará, parece ser um livro todo feito de diálogos, mas não li ainda. Ele é um cara interessante, tem uma seriedade que me convence muito. Outro cara que também escreve de um jeito, diferente do meu, mas de uma forma muito sólida e poderosa, forte é o Bernardo Carvalho. O último livro dele concorreu com o meu em alguns prêmios, apenas no de São Paulo que não, porque ele estava na categoria dos “cachorros grandes”, e chama O filho da mãe, conta uma história que se passa em são Petersburgo, na Rússia, na época do conflito na Chechênia, enfim o cara escreve muito, é um jornalista que trabalhou na Folha de São Paulo muito tempo, experiente. São dois caras que valem muito a pena ler. CONTRAMÃO - O que o apreciador do seu trabalho pode esperar para o futuro? Já existem novos projetos? CB - Um projeto acaba

originando outro e o que eu estou trabalhando agora também é um filho de A Passagem tensa dos corpos, mas estou procurando não me repetir. A morte é ainda o tema central da narrativa, mas apareceram outras questões relacionadas à política e crenças. Ainda não sei como vai se desenhar, mas que a história se passa num campo de homens e mulheres ordinários, pessoas que não são extraordinárias, assim a narrativa vai sendo conduzida por elas. Esse livro tem duas modificações com relação ao meu primeiro romance (que acontece num ambiente enclausurado, fechado, da casa ou de onde o cadáver está e o narrador fica, onde o filho está preso, onde o casamento acontece sem o noivo, a narrativa tem uma abertura de espaço, que é um espaço cidade, mas não tenho interesse de falar de uma cidade ou o que é o homem no caos urbano. Também fiz um espalhamento em relação à voz, não é apenas um narrador, são vários narradores. Tem um que é o principal, mas essa voz vai e volta, o oposto de A passagem no qual o narrador é único e não abre mão disso, quando ele pára de falar o romance acaba. O que eu acho que deve acontecer, se eu tiver competência para isso, é que cada livro possa inaugurar um capítulo a mais na investigação da palavra, e acho que, me convence muito o trabalho que é da escrita e que pesquisa as próprias possibilidades da linguagem. Acredito que sempre vá buscar alguma coisa nova, não no sentido de superar em alguma coisa ou da novidade, mas de avançar um pouco mais nesse trabalho de compreensão do que acontece quando a palavra é mobilizada, dentro de um discurso que é da literatura. O que acontece quando ela é colocada para produzir experiência e ser experimentada. Isso seguramente estará na próxima obra e acredito que deva estar em toda iniciativa minha. Por : Danielle Pinheiro

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Leia mais da entrevista e ouça o audio no http://contramao.una.br


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Ilustração | Maria Amélia

Câncer na Jovens são alvos cada vez mais frequente do câncer Por : João Marcelo Siqueira

“Estava com uma crise de sinusite muito forte, resolvi, então, procurar ajuda profissional.” ”Começou com uma febre alta, durante um mês, que nunca passava.” “Era só um caroço no pescoço que não incomodava.” Esses são relatos de pessoas que descobriram que estavam com câncer em plena adolescência. Quando jovens, somos classificados como pessoas fortes e saudáveis, mas toda regra tem sua exceção. Segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) e pela Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobop), o câncer é a doença que mais mata jovens na faixa dos 5 aos 18 anos no Brasil. A oncologista Carla de Carvalho Sousa informa que os tipos de câncer mais comuns na adolescência são a leucemia, os linfomas, os tumores nos ossos e células germinativas, tumor no sistema nervoso central, nos ovários e nos testículos. Porém, outros tipos de câncer, como de mama e intestino, podem afetar jovens de até 20 anos. Até recentemente, esses tumores apareciam só em pessoas mais velhas. A oncologista explica que um dos motivos para esse aumento nos jovens é a mudança

de hábitos. “Hoje, o adolescente tem contato muito cedo com cigarro, bebidas alcoólicas, comidas com conservantes”, explica. Apesar das evidências, Carla Carvalho pontua que essa relação de fatores ainda não é um fato comprovado. Especialistas na área afirmam que o tratamento para o câncer, hoje, está mais avançado e o diagnóstico mais rápi-

terapia e à radiação.

O convívio com a doença Túlio Camilo da Cruz, 22, é estudante de Educação Física e, aos 20 anos, foi diagnosticado com o linfoma de Hodgkin, tipo de câncer comum entre os jovens e pode aparecer em qualquer parte do corpo. Ele conta que o tratamento alterou

Tem situações na vida em que você tem que repensar em tudo o que aconteceu dês do momento do seu nascimento até a descoberta da doença. Fellipe Luz Constantino, Auxiliar Administrativo

do, o que facilita o tratamento da doença. “O tumor nas pessoas mais novas se desenvolve mais rápido e é mais agressivo”, explica a oncologista, mas, de acordo com ela, os adolescentes respondem melhor ao tratamento porque são mais resistentes à quimio-

pouco sua rotina e que o apoio da família e de amigos foi fundamental. O tratamento de Túlio terminou em 2008 e, hoje, ele realiza o controle semestral. A maioria das pessoas que sofre radiação pode ficar estéril, mas, no caso de Túlio, isso felizmente não ocorreu.

Ele agora é pai do João Pedro, que já está com 1 ano de idade. O tratamento da doença depende do tipo de tumor. Nos primeiros 2 anos após o diagnóstico, é feito um controle trimestral, depois de dois anos, o acompanhamento passa a ser semestral. Num período de 5 a 10 anos de controle, se a doença não voltar à pessoa pode ser considerada curada. Vitória Gabriela, 14, tem leucemia e, há 2 anos, está em tratamento. Uma vez por mês, ela sai de Curvelo com destino a Belo Horizonte para aplicações de quimioterapia enquanto aguarda na fila de transplante de medula. Seu tipo sanguíneo, O negativo, é de difícil compatibilidade e ela ainda não conseguiu um doador, mesmo realizando uma mobilização em sua cidade.

Efeitos sociais

TIPOS DE CÂNCER MAIS COMUNS NA ADOLESCÊNCIA 1º Leucemia, que geralmente causa anemia e fraqueza. 2º Linfomas são diagnosticados por apresentar massas palpáveis, tosse, falta de ar, dor abdominal, febre diária, perda de peso e prurido (coceira) na pele e sudorese (suor) noturno. 3º Tumores nos ossos e tumor de células germinativas que causam dores nos ossos. 4º Tumor no sistema nervoso central. 5º Ovário (mulheres). 6º Testículo (homens).


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Ilustração | Maria Amélia

adolescência e especialistas atribuem os maus hábitos como um dos fatores PARA ALÉM DAS DORES Uma novidade no tratamento do câncer são os Psico Oncologistas, ou seja, psicólogos especializados no tratamento de pacientes que estão em tratamento, ou que já foram tratados ou que correm o risco de morrer. A Psico Oncologista Andrea Pereira diz que “é fundamental o controle da dor em alguns casos”. Seu trabalho é voltado para doenças crônicas e controle das dores biopsicossocial e espiritual. Além de ajudar o paciente, esse tipo de tratamento fornece atendimento à família dos pacientes trazendo um conforto para tipos de dores que os analgésicos não conseguem aliviar. sentimento é de incapacidade moral e física”, avalia. “Essa doença só deixa as pessoas assim quando elas se entregam a ela”, desabafa.

Prevenção A oncologista Carla Sousa dá dicas de como se prevenir do câncer: sempre buscar hábitos saudáveis, como praticar atividades diárias, esportes e exercícios físicos; uma alimentação saudável, evitando ao máximo produtos industrializados e com alto teor de conservantes. Não cometer excessos com as bebidas alcoólicas e evitar o cigarro e as drogas. A dica mais importante é a observação do próprio corpo, prestando atenção a eventuais alterações de volume, nódulos, entre outras. Em maio de 2006, o Senado Federal decretou o “Dia Nacional de Combate ao Câncer Infantil”, que é celebrado anualmente no dia 23 de novembro. Os objetivos do “Dia

Nacional de Combate ao Câncer Infantil” são: I – estimular ações educativas e preventivas relacionadas ao câncer infantil; II – promover debates e outros eventos sobre as políticas públicas de atenção integral às crianças com câncer; III – apoiar as atividades organizadas e desenvolvidas pela sociedade civil em prol das crianças com câncer;

IV – difundir os avanços técnico-científicos relacionados ao câncer infantil; V – apoiar as crianças com câncer e seus familiares. Foto finalista do Concurso de Fotografia da Abrale “Retratos da Esperança”(2009) O projeto da Abrale dá suporte ao tratamento e assegura um bom atendimento às crianças com leucemia Foto site do Abrale

Após uma suspeita de sinusite, um raio X do tórax evidenciou vários nódulos no pulmão do auxiliar administrativo Fellipe Luz Constantino, 22. Ao fazer o exame clínico, o médico percebeu um aumento do testículo esquerdo e o resultado da tomografia foi câncer de testículo. A doença já estava num estágio avançando e o jovem foi submetido a uma orquiectomia (cirurgia para retirada do testículo doente). “No momento em que descobri a doença entrei em choque. Por dois dias, só chorava no hospital e, ainda por cima, tinha insônia. Só conseguia dormir a base de remédios”, relembra Fellipe Luz. Outro momento difícil para Felipe foi a perda dos pêlos. “Perder os cabelos, as sobrancelhas, isso é como se você perdesse sua fisionomia, sua identidade; mas, por outro lado, a vontade de melhorar, de buscar a cura é maior”, reconhece. Outro fato que incomoda grande parte dos pacientes são os olhares das outras pessoas. Fellipe Luz e outros jovens que enfrentam o câncer concordam com que certos olhares destinados a eles durante o período de tratamento causam chateação. “Tem pessoa que te olha com o sentimento de dó; para mim esse é o pior sentimento que um ser humano pode ter em relação ao outro, esse

Por João Marcelo Siqueira


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Fotos| João Marcelo Siqueira

CIDADE

O SONHO DA CASA PRÓPRIA Pessoas de baixa renda formam o movimento social Dandara em busca de moradia

O déficit habitacional no Brasil teve queda de 8% entre 2007 e 2008, segundo dados do Ministério das Cidades. Entretanto, ainda existe muita dificuldade para as pessoas conseguirem uma moradia, prova disso são os movimentos sociais que não páram de crescer. A ocupação Dandara é um desses movimentos que lutam por uma moradia para pessoas com baixa renda. A comunidade Dandara já acolhe cerca de 5 mil moradores. Foi efetivada no dia 9 de abril de 2009 e recebeu este nome em homenagem à companheira de Zumbi dos Palmares. Ocupa um terreno 40 mil metros quadrados no bairro Céu Azul, na região da Pampulha, em Belo Horizonte. A

comunidade tem um modo de vida diferente de outros segmentos da sociedade, pois luta unida por uma vida melhor. Os integrantes do movimento já criaram horta comunitária, escola para as pessoas mais idosas - MOVA. Na ocupação, já é possível encontrar oito estabelecimentos comercias, como padaria, mercearia e oficina mecânica, que contribuem para garantir uma renda mensal aos moradores. Com mais de um ano de existência, essa comunidade ainda sofre com a ausência de alguns serviços básicos, entre eles iluminação elétrica, rede geral de esgoto ou fossa séptica e coleta de lixo. Segundo a Secretária Nacional de Habitação do Ministério das Cidades,

o local que não possui esses serviços básicos é considerado impróprio para moradia. Entretanto, eles já conquistaram o acesso à água da Copasa e ainda lutam para conseguir energia elétrica e rede de esgoto. Hoje, o Dandara tem uma fila de espera para as pessoas que desejam adquirir um lote, porém existem regras para essa aquisição. É necessário freqüentar reuniões do próprio Centro Comunitário. Através de entrevistas, é avaliada a verdadeira necessidade da pessoa, de acordo com a condição financeira de cada um. Os lotes são todos do mesmo tamanho, 128 metros quadrados. Alguns espaços não podem ser ocupados, pois existem futuros projetos, entre

eles a criação de uma escola, centro de saúde, campo de futebol e igreja. Com o apoio das Brigadas Populares, no ultimo dia 30 de setembro, o Dandara acampou na porta da Prefeitura de Belo Horizonte em protesto contra o despejo. Isto porque recentemente, a proprietária do terreno Construtora Modelo entrou com ação de desapropriação do local. A construtora alega que tem projetos para construir um condomínio de luxo no local. A comunidade continua lutando para regularizar a situação das famílias que ali moram e que não tem pra onde ir, caso aconteça o despejo. A única garantia que eles desejam é ter a certeza de uma moradia própria. Por Andressa Silva e João Marcelo Siqueira

Contramão no.14  

Jornal Contramão 14º Edição

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