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Ano 13

artefato

Nº 1

Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília

APOSENTADORIA

Distribuição gratuita

Foto: Nayara de Andrade

Brasília, março de 2012

superaÇão

Altos benefícios de um lado, pouca cobertura de outro

Foto: Maria Ramasco

Deficientes vencem limites por meio do esporte. 9

DESRESPEITAR O PROFESSOR? NÃO DÁ MAIS Mudança no Estatuto da Criança e do Adolescente prevê pena pra quem tratar mal os professores. 15

Foto: Rick Antunes

rotavírus

Atendimento previdenciário a trabalhadores rurais do DF está entre os mais baixos do país. 12 e 13

Efeitos da vacina causam polêmica entre pais, pediatras e agentes de saúde. 16 NÃO DESCARTE EM VIAS PÚBLICAS


carta dos editores

ombudsman Edmar Araújo* Ano 12

Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília

Brasília, novembro de 2011.

Domésticas em busca de reconhecimento

Missão cumprida! O Artefato alcançou seu objetivo com a turma do 2º semestre de 2011 ao produzir uma edição mais madura, coesa e profissional, alicerçada por pautas úteis como a do HRT, da parada de ônibus e dos transtornos psicológicos. Agrada a matéria legitimamente cultural que trata da Academia de letras de Taguatinga e a entrevista com o cineasta Phillippe Barcinski. Há muito que celebrar quando vejo colegas irem além de si mesmos na busca de melhores pautas. Na matéria “Vamos para a segunda do Frango” houve uma cobertura da festa. E nada de inovador, afinal todo mundo sabe que em festas como a da reportagem a bebida é mais cara, o ambiente é promíscuo e a segurança é ruim. Novidades mesmo estão na pauta que tratou do Speed Dating. O que é, como funciona, quem pode participar, fala de uma pesquisadora que atua na Universidade Católica e personagens. Só faltou um “vale-speed dating” para brindar a melhor matéria dessa edição do Artefato. As repórteres fizeram o bom jornalismo ao tornarem conhecido o que era desconhecido, mostrando um modo de flerte pouco comum, rentável e convincente. Mas há o que lamentar no jornal. Não falo de erros gramaticais ou de ausência de criatividade. Minha crítica vai para a arrogante “entrevista” com o Papai Noel, que complicou o que era simples. Lambança dizer que hobbit é o mesmo que duende. Lendas ou verdades, há literatura e filmografia suficientes para constatar que a afirmação é equivocada. E um detalhe importante: o Papai Noel não trabalha no dia 25 de dezembro. O fraco conhecimento demonstrado sobre o cristianismo, o desdém com a mitologia nórdica, a jocosidade no termo “sentado no colo” e outras insinuações sobre sexualidade são as marcas machistas e negativas desse Artefato. Sinceramente, que importam tantas informações sobre o Papai Noel? Ele é institucionalizado e serve para dar presentes. Simples, não?! * Jornalista, ex-aluno da UCB

Momento de aprendizado

foto: Juliana Campêlo

opinião

Não basta mais a boa vontade do patrão. Além da carteira assinada, as empregadas querem garantir seus direitos legalmente >> 12, 13 e 14

Santuário versus Noroeste

Ativismo político

Melhoria é só aparência

Disputa por território abre discussão sobre espaço sagrado. >> 10 e 11

Redes sociais são cada vez mais usadas para esse fim. Mas funcionam? >> 16 e 17

População reclama do número insuficiente de médicos no HRT >> 5

expediente Jornal-Laboratório do Curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília Ano 13 nº 1, março de 2012

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Reitor: Dr. Cicero Ivan Ferreira Gontijo Diretora do curso de Comunicação Social: Prof.ª Angélica Córdova Machado Miletto Editores-chefe: Iasmin Costa e Jônathas Oliveira Editores de arte: Augusto Soares e Rick Astley Editores web: Eric Zambon e Mariana Alvarenga Editores de fotografia: Augusto Dauster e Nilson Carvalho Subeditores de fotografia: Enaile Nunes, Joe Fonseca, Luciana Saade, Mariana Lima Editores de Texto: Allan Virissimo, Mariana de Ávila, Maycon Fidalgo, Vanessa Melo, Yale Duarte Diagramadores: Aline Sales, Flávia Fonseca, Letícia Pires, Luma Soares Reportagem: Alessandra Santos, Alessandro Alves, Ana Paula Freire,

Iasmin Costa e Jônathas Oliveira Caro leitor, Uma nova etapa se inicia no Artefato de 2012. Com ela, novos estudantes assumem a produção do jornal, com o desejo de construir jornalismo ético, popular e de informações relevantes para o público do DF. As principais modificações desta edição ficaram por conta das editorias fixas: Cidades, Política, Cultura, Esporte e Economia; Saúde, Cidadania, Trabalho, entre outras, são editorias variáveis. A aposta de capa surgiu no espaço de Economia e trata dos baixos índices de aposentadoria rural da população do DF. Os dados mostram a diferença entre os altos benefícios concedidos aos servidores públicos e a pouca cobertura aos trabalhadores rurais. A terceira idade também ganha o espaço da “Boa Notícia”, destinado a tratar assuntos positivos das cidades. Trata-se do aumento de “jovens” com mais de sessenta anos que frequentam academias, desconstruindo o mito de fraqueza. O Artefato conta também com matérias que falam ao paladar, como o sucesso da pamonha, no espaço de gastronomia. Unindo ciência e bom humor, apuramos sobre a TPM e seus efeitos. Relatamos a nova polêmica entre o Reino Unido e a Argentina nas Malvinas, além de destacar as verdades e mentiras do governo Agnelo, com a proximidade do 1º de abril. Para finalizar, narramos o drama dos dependentes químicos, as dificuldades de patrocínio para atletas, a Lei Geral da Copa e os treinamentos dos paraatletas. Os últimos foram exemplos trabalhados pelos repórteres, na abordagem sobre os futuros eventos esportivos que acontecerão no país. O momento da equipe é de aprendizado, que implica em acertos e erros. Ainda assim, vale ressaltar o esforço e comprometimento desta edição, com o intuito de criar um jornal ético e bem construído. Esperamos que, com esse leque de informações, o leitor seja capaz de analisar as coisas que estão a sua volta, sem perder o senso crítico. São os desejos sinceros de toda a equipe do Artefato. Boa leitura! Arthur Scotti, Carina Lasneaux, Dimitri Alexandre, Estela Monteiro, Francisco Daniarle, Gabriela Almeida, Jussara Meireles, Kellen Karina, Kleyton Almeida, Lane Barreto, Monalisa Santos, Natália de Oliveira, Rodrigo Gantois, Taísa Lima, Tuane Dias, Vinicius Rocha Fotógrafos: Bianca Lima, Luísa Dantas, Maria Ramasco, Maria Rita Almeida, Mariana Lima, Nayara de Andrade, Rayanne Alves, Rick Antunes, Robson Abreu, Samita Barbosa, Thyago Soares Professoras Resposáveis: Karina Gomes Barbosa e Sofia Zanforlin Orientação Gráfica: Prof. Dilson Honório Oliveira - DiOliveira Orientação de Fotografia: Profs. Thiago Sabino e Bernadete Brasiliense Tiragem: 2 mil exemplares Impressão: Gráfica Athalaia UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA EPCT QS 07 LOTE 1 Águas Claras - DF CEP: 71966-700 Tel: 3356-9237 - artefato@ucb.br

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Cidades Guará

Feira mais democrática do DF passa por melhorias e ganhará espaço cultural

DO QUEIJO À CALÇA JEANS

Fotos: Thyago Soares

Variedade de produtos da feira do Guará atrai consumidores do Distrito Federal: proximidade com a estação do metrô aumentou frequência

Carina Lasneaux

Segundo dados do Governo do Distrito Federal (GDF), cerca de 30 mil pessoas passam semanalmente pela Feira do Guará. O motivo são as 646 bancas, divididas em restaurantes, confecções, eletrônicos, artesanatos, queijos, legumes e produtos orgânicos. Em dezembro de 2009, a mais

recente reforma do local foi concluída. Contudo, ainda há problemas a serem resolvidos. Kléber Nunes, presidente da ASCOFEG (Associação dos Feirantes da Feira do Guará), comenta quais as mudanças necessárias. “O que estamos pedindo ao GDF é uma reforma no telhado, que está com

Trocou o serviço público pelo trabalho na feira Fausto de Oliveira, proprietário da banca do Faustão, está na feira há 26 anos. Saiu da Embrater, onde trabalhou por dez anos, e montou uma banca de queijos, doces, vinhos, carnes e outros. “Preferi trabalhar por conta própria, produzir para sobreviver. Quem trabalha com comércio não tem limite.” Sobre a ampliação de novos boxes, ele diz que melhorou 10%. “Acho que a feira deveria

goteiras, melhorias na parte elétrica e fachada.” A associação representa os feirantes e é responsável pela vigilância e propaganda da feira. A próxima etapa de melhorias é um espaço cultural que deve estar pronto até o meio do ano. “Com o espaço, iremos fazer shows, trazer nossos artistas e músicos para

PASTEL É REFERÊNCIA E ORGULHO

Fausto deixou o serviço público para abrir o próprio negócio

funcionar até às 22h, principalmente aos domingos. O pessoal poderia passear, jantar. Geralmente no domingo não tem nada, fica tudo fechado”, afirma.

Comandada há 15 anos pelo gaúcho Eitor Moraes, a Universidade do Pastel é o orgulho da feira. Já ganhou três vezes consecutivas o prêmio Veja Comer & Beber como melhor pastel de Brasília. Eitor é formado em hotelaria e trabalhou por 13 anos como gerente de hotel. Ele avalia que, por ter mais bancas de roupas, a feira deveria criar mais promoções e eventos. “Se fossem organizados desfiles de moda e divulgações em termos sociais, melhoraria muito.”

divulgar os seus talentos. Será um ponto de atração para os visitantes”, expõe o administrador do Guará, Carlos Nogueira. O Artefato encontrou histórias interessantes de dois feirantes, que contam ainda quais as suas opiniões e expectativas em relação às melhorias na feira do Guará.

Serviço A Feira Permanente do Guará está localizada no Centro Administrativo Vivencial e Esporte (CAVE): Área especial, ao lado da Administração Regional do Guará e da estação do Metrô – Estação Feira. Fica aberta de quarta a domingo, das 8h às 18h.

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Cidades livros

Silêncio

Fotos: Mariana Lima

e Concentração Procura por locais de estudo aumenta e bibliotecas do DF ficam lotadas Dimitri Alexandre e Rodrigo Gantois

Com o aumento do número de pessoas prestando concursos em busca de uma vaga no serviço público, a procura por locais silenciosos para estudar também cresceu. A demanda é tanta que nem durante as férias as cabines e mesas das bibliotecas do Distrito Federal ficam vazias. No DF existem centenas de ambientes de estudo em bibliotecas públicas, particulares e informais. Ligadas ao GDF, porém, existem apenas 27. Destas, só a Biblioteca Nacional de Brasília, na Esplanada dos Ministérios; a Biblioteca Pública de Brasília, na 312 Sul; a

Biblioteca de Artes Ethel de Oliveira, na 508 Sul; e a Biblioteca do Museu Vivo da Memória Candanga, no Setor de Postos e Motéis do Núcleo Bandeirante, são administradas integralmente pela Secretaria de Cultura do GDF. As 23 restantes possuem gestão compartilhada entre as Administrações Regionais e a pasta. Uma das bibliotecas mais frequentadas do DF é a Biblioteca Demonstrativa de Brasília, entre a 506 e 507 Sul. A estudante Helen de Oliveira afirma que a localização da biblioteca ajuda a manter o local bem movimentado. “Gosto de vir aqui porque é bem tranquilo e sempre tem os livros que procuro. E, é claro, por ficar perto do metrô

Tranquilidade das bibliotecas tem ajudado a comunidade nos estudos

e da parada de ônibus, ajuda muito quem não tem carro, como eu.” A estudante Cristiana Martins é outra freqüentadora das bibliotecas. Ela se prepara para dois concursos públicos e passa o dia na Biblioteca da Legião da Boa Vontade (LBV), no fim da Asa Sul, em frente ao Cemitério Campo da Esperança. “Na biblioteca só sou eu, os livros e centenas de pessoas com o mesmo ideal. Com isso, ninguém quer conversar, a atenção é total nos livros. Em casa, a televisão e a geladeira iriam ficar me chamando”, afirma a concurseira. Cultura e educação restritas Apesar da grande procura, algumas bibliotecas de instituições de ensino particulares são de uso exclusivo. O administrador de empresas Caio Paixão ficou surpreso e indignado ao sentir na pele as consequências dessa restrição em um centro universitário da cidade. “Cheguei lá achando que teria uma tarde de muito estudo e o segurança me disse que somente alunos podem usar a biblioteca. Fiquei frustrado e voltei para casa, já que em bibliotecas públicas não iria achar uns livros que queria.”

Biblioteca do Centro Educacional 03 do Guará: cheia, mas sem investimentos

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Conservação No geral, as bibliotecas públicas do DF funcionam bem e acolhem aqueles que as procuram, mas muitas são mal conservadas e têm livros ultrapassados. É o caso da Biblioteca JK, do Centro Educacional 03 do Guará. Apesar de estar sempre lotada, não há muito investimento na atualização do acervo. A maioria dos exemplares é resultado de doações da comunidade.

Acessibilidade A biblioteca pública Braille Dorina Nowill, em Taguatinga, é especial por atender também às pessoas com deficiências visuais. São mais de dois mil exemplares entre livros com linguagem visual e em braile. Cursos gratuitos de braile também são oferecidos, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.


Cidades infraestrutura

Qualidade de vida em risco Foto: Robson Abreu

Allan Virissimo e Augusto Soares

O DF se orgulha de indicadores sociais de primeiro mundo. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é o maior do país, 0.844; 96,8% dos domicílios possuem rede de esgoto e 95,3%, acesso à água. No entanto, o crescimento urbano desordenado da capital trouxe problemas que comprometem a qualidade de vida. Um dado simples exemplifica a situação. De 2000 a 2010, o Distrito Federal ganhou 418.243 habitantes, segundo dados do IBGE. Os números preocupam, pois a capital (mais especificamente o Plano Piloto) foi planejada para abrigar 500 mil pessoas. Além disso, avançou o número de regiões administrativas (RAs): em 1964, o DF possuía apenas oito; hoje são 31, incluindo a recém-criada Fercal. Problemas Os moradores de Águas Claras, região em constante crescimento, sofrem com locomoção. Outra preocupação são as sujeiras e a falta de paradas e estacionamentos. “Precisamos urgentemente de baias para ônibus e recolhimento do lixo nas ruas”, opina a servidora pública Sandra Lima. Já a moradora Edna Araújo aponta: “A infraestrutura de comércio e serviços da cidade está crescendo, mas uma dificuldade que encontramos está justamente na hora de estacionar o carro para usar esses serviços”. A poucos quilômetros dos prédios de Águas Claras, no Areal, existem poucas opções de lazer, além da falta de segurança. “Entretenimento nenhum, nada de diversão aqui no Areal. Precisamos ir pro Centro ou pra outras cidades para fazer algo. Nesse ponto, deixa muito a desejar”, critica o atendente de farmácia Leandro Santos. “Não temos posto de saúde. Criaram um

Trânsito de Águas Claras tem piorado com andamento de obras

posto policial agora, mas os assaltos continuam”, completa. O diretor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Brasília (UCB), Frederico Barboza, explica que o problema ocorre devido à falta de planejamento nas regiões. “Nenhuma medida de prevenção é tomada. Se constrói primeiro e, depois que os problemas aparecem, começam a pensar em soluções”. A administração de Águas Claras afirma que vem realizando obras de urbanização para atender à população. Para eles, no entanto, o raio de atuação da administração é limitado. Especulação Se o Areal ainda trata mal seus moradores, Samambaia passa por uma transformação. De uma das mais pobres e violentas cidades do DF e renegada pela construção civil, a região agora é vista como uma das grandes oportunidades para o futuro do setor imobiliário. “Samambaia, sem dúvida, será a ‘próxima Águas Claras’ do DF. Precisamos resolver os gargalos da burocracia”, afirma Júlio Peres, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do DF (Sinduscon-DF), em referência a questões como ligação

de água e energia. O administrador regional Risomar Carvalho, porém, alerta que apenas duas obras de infraestrutura estão previstas: a construção de uma pista de ligação entre Samambaia e Águas Claras e a de uma via expressa, para desafogar a Avenida dos Bombeiros. Ainda assim, a administração garante que a cidade avançou nas demandas definidas como prioritárias pela população no orçamento participativo: iluminação pública, recapeamento e lazer. Debates públicos Para estimular a participação da população nas discussões sobre a política de urbanização local, a Secretaria de Habitação, Regularização e Desenvolvimento Urbano do Distrito Federal (Sedhab) promove audiências e assembleias públicas para discutir as questões relacionadas ao tema no Distrito Federal. Nesses encontros estão sendo discutidos principalmente a elaboração da Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS), que visa estabelecer os limites para a ocupação e construção nos lotes, e o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB), um dos projetos mais aguardados, que esclarecerá as regras de uso e ocupa-

Locais com novos empreendimentos imobiliários saem no prejuízo: falta planejamento urbano e políticas públicas ção do solo na capital para as áreas tombadas. Também estão em discussão a definição das poligonais das Regiões Administrativas e dos Parques, o Código de Edificações e o Plano Distrital de Habitação de Interesse Social. Embora as audiências sejam abertas à população, só os delegados – eleitos em conferência anterior representantes dos diversos segmentos da sociedade civil – têm poder de voto para aprovar as propostas que serão encaminhadas para a Câmara Legislativa do DF. Um dos delegados que participam das discussões é o servidor público aposentado José Soares Gurgel, 72 anos. Ele defende a importância de uma maior divulgação dos encontros para os moradores. Segundo o delegado, é comum que propostas favoráveis às construtoras sejam aprovadas sem oposição devido ao pouco número de moradores que participam, em comparação com os representantes do ramo imobiliário. Gurgel alerta que com a retomada das discussões do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT), instrumento que coordena a política territorial urbana e rural do DF, é importante que haja maior participação dos moradores nos encontros. “É a Câmara Legislativa que vai votar isso [PDOT] e há muito interesse das construtoras e do setor imobiliário em fazer mudanças no plano; então, se houver discrepâncias e a população não participar, os problemas urbanísticos que estamos enfrentando nas cidades vão continuar e vão ficar piores”, alerta.

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Cidades Taguatinga

oásis no cerrado

Beco na QNG surpreende quem passa por ali

Gabriela Almeida

Em meio à selva de pedra que se tornou Taguatinga, o lugarzinho mais aconchegante da região é a Praça Solar. Construída na entrequadra das QNGs 20 e 31, o local é fruto do altruísmo e dedicação de um morador. O comerciante Otoniel Coelho da Silva, aos poucos, proporcionou “cara nova” à praça próxima de sua casa, com reformas de infraestrutura e paisagismo. O local atrai a vizinhança pela vasta área verde, parques, quadra esportiva e uma fonte ornamental na entrada. Motivado pela família e vizinhos próximos, Otoniel começou a realizar pequenas reformas na praça, que fica em frente ao estabelecimento e a casa dele. “Comecei plantando esses três coqueiros. Depois outras pequenas obras foram se encaminhando”, relata o

ciência espaço

Um céu sem estrelas Planetário de Brasília busca renovar equipamentos para reabrir Alessandro Alves

Muitos consideram o céu de Brasília um dos mais bonitos do país, por causa do horizonte que pode ser visto de quase toda a cidade. Para os brasilienses, o dia claro e de céu aberto é um atrativo turístico que a capital federal tem a oferecer.

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Foto: Gabriela Almeida

A praça que antes era abandonada hoje é grande atrativo da região

empresário. A praça se chama Solar porque o empresário é dono do mercado de mesmo nome. O lugar tem grande área de lazer, parques para crianças, quadras e banheiro público, doado pela Administração Regional de Taguatinga. Tudo é cuidado e mantido por Otoniel. “Venho todos os dias, é muito agradável”, afirma a estudante Jés-

sica Silva*, 23 anos, que sempre brinca em um dos parquinhos com a filha. “É uma pena que a iniciativa não seja do governo”, completa. Popular entre os moradores da quadra, o comerciante afirma que o bem-estar e a aprovação da população são os únicos retornos. “As pessoas me agradecem, me cumprimentam. A gente vê a satisfação

O problema é que, há muito tempo, o local que deveria servir de janela para o universo está abandonado. Localizado no centro de Brasília, o planetário foi praticamente esquecido pelo governo e pelos próprios brasilienses. Desde que foi aberto pela primeira vez em 1974, o planetário de Brasília esteve mais tempo fechado para reformas do que aberto ao público. Foi projetado pelo arquiteto Sergio Bernardes, que colocou no interior 16 aquários, com o intuito de unir céu e mar. Porém, os aquários foram desativados por causarem infiltrações nas estruturas. Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) do GDF disse que, até o fim do próximo semestre, o planetário será reinaugu-

rado. A forma externa será mantida, porém será implantada uma biblioteca, que contará em maior parte com acervo digital. O antigo projetor Spacemaster passará por atualização tecnológica de software, que custará cerca de 30% a mais do que equipamentos novos. A atualização permitirá que o projetor possa emular as descobertas da astronomia, além das mudanças que acontecem no sistema solar. Desde que o local foi fechado, em 1997, o mais distante planeta do Sistema Solar, Plutão, foi rebaixado a planeta anão. Entre os brasilienses que aguardam pela abertura do planetário está a servidora pública Luciana Gonçalves. Ela lembra, com saudosismo, das idas ao local. “Fui várias vezes em passeios do colégio

delas”, conta Otoniel, com orgulho. O aposentado Luis Carlos Pereira admira a postura do colega de quadra. “Moro aqui há mais de 40 anos. É bom ver as pessoas, os amigos crescerem dessa maneira”, conta. A praça, que se encontrava abandonada até 2007, começou a mudar graças à dedicação contínua do comerciante. Estima-se que tenham sido gastos mais de R$ 80 mil com as diversas reformas, e um valor entre R$ 2 e 3 mil mensais para a manutenção. Outros projetos Além do parque Solar, Otoniel pretende construir uma academia em uma quadra próxima ao supermercado. “A Administração Regional sempre soube o que eu fiz aqui. Nunca me impediram, pelo contrário, sempre fui apoiado. Quando a gente faz o bem tudo dá certo né?”, finaliza, com satisfação. * Nome fictício

e recordo que era muito divertido. Assim que o espaço for reinaugurado e aberto ao público, a servidora deseja levar o filho. “Quero que ele aprenda e também se divirta muito, como eu quando era criança”. Foto: Luísa Dantas

Planetário de Brasília, abandonado desde 1997


Cidades infraestrutura

Faixa exclusiva divide opiniões Motoristas não gostam; especialistas em trânsito afirmam que, do jeito que está, o DF não tem muitas alternativas para evitar os engarrafamentos Foto: Lane Barreto

Lane Barreto

Espera, buzina, estresse, paciência. É nesse contexto que se encontram os motoristas após a implementação, no final de dezembro, dos corredores exclusivos para ônibus, também conhecidos por faixas exclusivas. Por outro lado, solucionar o caos instalado no transporte do Distrito Federal é um desafio para o governo. A primeira avenida que recebeu a novidade foi a Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB). O empresário Fidelito Mazepas utiliza a avenida todos os dias e, para ele, as faixas se tornaram um problema. “É horrível para a gente que dirige nessa área. Para os ônibus realmente está bom, mas é complicado no horário que não tem movimento. Nós ficamos parados vendo as faixas de ônibus vazias.” Quem utiliza o transporte coletivo tem outro ponto de vista. A dona de casa Antônia Célia elogia a iniciativa. “Para mim está aprovado, pois a viagem se tornou mais rápida e menos estressante. Considero uma boa ideia porque facilita a vida do trabalhador que pega ônibus.”

trabalho imigração

Passagem só de ida

Brasileiros deixam o país em busca de oportunidades Yale Duarte

O Brasil tem vivido dias de glória na economia. Mas o país ainda possui mão de obra mal remunerada, além de grande contingente de trabalhadores informais, que não tem direitos trabalhistas. Por conta disso, ainda é alto o número de

espaço de circulação pelo número de veículos, se divide pelo número de pessoas que estão circulando.” O que diz a DFtrans? Lúcio Lima, diretor técnico da DFTrans (Transporte Urbano do Distrito Federal), critica o sistema de transporte público e ressalta que o DF possui um número elevado de ônibus. Mas a superlotação dos coletivos seria explicada pela má distribuição dos itinerários. “Quantidade de linhas e de ônibus não significa um transporte de qualidade. São Paulo possui a metade das linhas que temos com uma média de nove milhões de habitantes. Já Brasília, com uma média de dois milhões, tem aproximadamente mil.”

EPNB após a implantação dos corredores exclusivos para ônibus

Apesar de os condutores reclamarem dos corredores exclusivos, segundo o especialista em trânsito da UnB, Paulo César Marques, o fato é que o DF não tem espaço para tantos automóveis. “Se todo mundo andasse de carro, em qualquer lugar do planeta, não haveria espaço suficiente. A forma

de universalizar o direito à mobilidade é com transporte público coletivo.” Marques explica ainda a importância das faixas na distribuição de espaço no trânsito. “As faixas exclusivas possuem o mérito de fazer uma distribuição mais equitativa do espaço de circulação. Em vez de dividir o

Mais mudanças estão por vir No início deste mês, o GDF abriu licitação para renovar 100% da frota dos coletivos. Com a mudança, as empresas precisarão se adequar com ônibus novos, equipados com ar-condicionado, GPS e sistema interno de TV. Os ônibus só devem começar a ser vistos no ano que vem.

imigrantes brasileiros em outros países. Em 2007, o Ministério das Relações Exteriores divulgou que a América do Norte está em primeiro lugar como preferência para se morar, seguida por Paraguai e Japão. Espanha, Portugal e Itália também são países-alvo da imigração. Fatores como o clima, idioma e dinheiro, são motivos que contribuem para a mudança. A Divisão de Controle de Imigração (DCIM) anotou, em 2011, o maior recorde de registros migratórios no Brasil, chegando a 23 milhões. Ainda em 2011, a Divisão de Passaportes (DPAS) divulgou a expedição de dois milhões de documentos.

Europa Na República da Irlanda, há cerca de dez anos, existiam cidades com mais de 40% de imigrantes. A maioria ia ao país para atender à demanda dos frigoríficos. Por conta da crise econômica, o percentual diminuiu, mas a ilha continua sendo fonte de trabalho para estrangeiros que trocaram o país natal. Demis Silva Alves, 29, nascido em Mato Grosso do Sul, foi para a Irlanda em 2004. Trabalhava em fazenda no interior até saber que um amigo estava morando na Europa. Não sabia nada de inglês. Demis acredita que negar trabalho pesado é o primeiro passo para não ser bem

sucedido no exterior: “Os europeus não querem lavar o próprio chão ou tratar pessoalmente da fazenda, eles querem alguém que faça isso.” O rapaz chegou aos 23 anos no país e mora lá até hoje: “Já trabalhei em fazenda, comércio, empresa de reciclagem e até tive meu próprio negócio, um lava-jato, que foi a época em que mais juntei dinheiro”. Sobre voltar ao Brasil, Demis é claro: “Enquanto trabalho o mês inteiro para ganhar R$ 600 no Brasil, aqui eu trabalho uma semana para ganhar R$ 700. Sinto saudade da família, mas a necessidade de trabalhar e juntar dinheiro se torna um objetivo mais forte”.

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esporte futebol

As regras do jogo Ana Paula Freire e Jussara Meireles

Que o Brasil vai sediar a Copa todo mundo já sabe. O que muita gente não faz ideia é da montanha de regras, normas e procedimentos que rege a competição. Tudo precisa ser acertado antes entre o país-sede e a Federação Internacional de Futebol (FIFA). Esses detalhes estão na Lei Geral da Copa, texto em votação no Congresso. A legislação definirá as questões a serem adotadas pelos órgãos responsáveis pela Copa das Confederações de 2013 e a Copa do Mundo de 2014 e apresenta, por exemplo, os critérios para a comercialização de produtos dentro e ao redor dos estádios, a

Desconhecida por muitos, Lei Geral da Copa é alvo de polêmicas

meia-entrada, as obrigações do mundo inteiro, chegar para almoçar governo, da Fifa e da Confederação antes do jogo e na hora ter que parar Brasileira de Futebol (CBF). de beber porque a lei proíbe.” Ele destacou a segurança e tecnologia Consumo de álcool dos estádios atualmente e lembrou Na reunião ordinária do dia 6 de que os campeonatos na Europa março na Câmara dos Deputados no permitem o consumo. DF, em comissão especial designada Do outro lado do campo, pela a deliberar as medidas do projeto de oposição, a artilheira era a deputada lei nº 2330, de 2011, a aprovação da Carmen Zanotto, (PPS-SC). Ela levou proposta pegou fogo. dados para pedir a limitação das O item que mais se destacou foi bebidas fora dos estádios. Citou brigas a licença para ingestão de bebidas entre torcidas no país e pediu para alcoólicas dentro das áreas de respeitarem o Estatuto do Torcedor. competição. O relator do projeto, “Não deveríamos infringir a lei deputado Vicente Candido, (PT-SP), nacional em nome do comércio e da defendia a autorização afirmando Fifa. Em nome da economia, quanto “não achar razoável investir 1 bilhão vale uma vida?”, questionou. Mais de reais em um estádio brasileiro, radical, o PSOL era contra a votação que receberá turistas do Brasil e do de qualquer Lei Geral da Copa.

Entretanto, a oposição foi esmagada: 350 votos a favor e só 8 contra. A lei foi aprovada em regime de urgência. Agora, o texto-base segue para o plenário da Câmara. Depois, para o Senado e sanção presidencial. Bola furada Enquanto os deputados votam a lei, a CBF perdeu um presidente que parecia vitalício: Ricardo Teixeira pediu pra sair, mas continua investigado sobre denúncias que o envolvem em esquema de recebimento de propina em troca de favores. Além dele são investigados o secretário-geral da FIFA Jérôme Valcke, o presidente de honra João Havelange e o atual mandatário Joseph Blatter.

Na marca do pênalti Confira o que está para ser aprovado na Lei Geral da Copa Vistos e aeroportos – Facilita a concessão de vistos variados de viagem e trabalho para estrangeiros e permite o uso de aeroportos militares durante o mundial.

Brasil – O texto ainda destaca que quaisquer danos civis e patrimoniais durante o evento serão de inteira responsabilidade do governo, incluindo serviços de segurança e saúde.

Ingressos – As entradas irão variar de US$ 900 a US$ 100. Além desses, haverá os chamados ingressos populares. Seriam cerca de 300 mil ingressos no valor de US$ 25 (aproximadamente R$40,00). As meias-entradas em todos os grupos de ingressos serão, pela lei, apenas para idosos. Fora o texto, negocia-se também a gratuidade a indígenas, operários dos estádios e pessoas que aderirem campanhas de desarmamento. Direitos da Fifa – Com a aprovação da lei estão resguardados os direitos de comercialização e distribuição da marca dentro e ao redor dos estádios sob medidas penais. E também fica responsabilizada por criar medidas de cancelamento, devolução e reembolso de ingressos

Atletas – A lei destina uma premiação e um auxílio mensal a atletas das Copas de 1958, 1962 e 1970.

Calendário Escolar e Feriados – O documento também altera a data do recesso escolar e permite aos estados declararem feriados nos dias de jogos da seleção brasileira.

Arte: Flávia Fonseca e Jussara Meireles

Bebidas alcoólicas – O texto aprova a venda de bebidas dentro dos estádios e nas áreas de hospitalidade durante o mundial.


esporte inclusão

Foto:Luciana Saade

Entre a deficiência e a superação Com coragem e força de vontade, portadores de necessidades especiais vencem a discriminação Luma Soares

Conviver com a mesma deficiência e praticar o mesmo esporte. Essa é a vida dos irmãos Leomon, Leandro e Leonardo Moreno, de 18, 24 e 27 anos, respectivamente. Com uma doença rara chamada retinose pigmentar, deficiência genética e progressiva, hoje eles possuem apenas 7% da visão. Mas nem isso fez os irmãos Moreno desistirem daquilo que mais gostam: praticar esporte. Há mais de 10 anos eles se dedicam ao goalball, uma modalidade específica para deficientes visuais no Cetefe (Centro de Treinamento de Educação Física Especial) em Brasília, que visa integrar pessoas com necessidades especiais à sociedade por meio de esportes, programas de seleção, clubes escolares e capacitação. “Promovemos a inclusão social e a qualidade de vida para esses jovens atletas”, afirma Ulisses Araújo, coordenador e fundador do Cetefe. Muitos jovens que praticam as diversas modalidades no centro de treinamento já competiram em campeonatos nacionais e mundiais. Leandro é um deles: foi medalha de ouro nos Jogos Parapan-Americanos de Guadalajara. Em 2012, busca uma vaga para as Paraolimpíadas de Londres. “Não devemos olhar para os obstáculos, temos que batalhar e fazer nossa parte. Estou confiante e torcendo muito por uma

vaga e, quem sabe, trazer mais uma medalha”, acredita. Luciano Resende, 33 anos, também disputa vaga para Londres. O praticante de Tiro com Arco, possui má formação na coluna vertebral. Por meio do esporte, vê a deficiência apenas como um desafio. “Existem coisas muito mais prazerosas do que ficar se lamentando. Todos nós somos diferentes. Eu não me vejo como um deficiente, me vejo como um vencedor, e isso pra mim é muito mais importante”, declara. Para Letissom Sabarone, treinador do Cetefe, o principal objetivo do esporte para atletas com necessidades especiais é mudar a visão negativa acerca da deficiência e mantê-los motivados. “É uma grande oportunidade para conhecerem novas pessoas, visitarem outros países, viajar, se sentirem valorizados e importantes diante da sociedade”, afirma. Há seis anos, ele treina e ensina jovens e adultos com paralisia.

Da esq. para a dir.: os irmãos Leonardo, Leandro e Leomon no Cetefe

Bolsa-Atleta para deficientes Desde 2005, o governo brasileiro mantém o maior programa de patrocínio individual de atletas no mundo. O público-alvo são atletas e para-atletas de alto rendimento em competições nacionais e internacionais. Segundo o Ministério do Esporte, de 3.643 bolsistas em 2011, 1.182 eram atletas com algum tipo de deficiência, cerca de 33% do total de beneficiados pelo Bolsa-Atleta. Dos R$ 52 milhões investidos no programa neste ano, aproximadamente R$ 18 milhões (35%) se destinaram a atletas paraolímpicos. No Distrito Federal, em 2011, foram 57 bolsistas com deficiência, nas modalidades do atletismo, ciclismo, goalball, hipismo, natação, tênis, tênis de mesa, tênis em cadeira de rodas, tiro com arco e voleibol sentado; 15 deles são do Cetefe, que possui 342 para-atletas.

SAIBA MAIS Jogos Paraolímpicos 2012 Os Jogos Paraolímpicos de Verão 2012 serão realizados em Londres, Grã-Bretanha. Será a 14º edição e se realizará entre 29 de agosto e 9 de setembro. Segundo o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), já estão confirmados 120 atletas brasileiros de todas as modalidades. A convocação oficial dos classificados para disputarem os jogos deverá sair em julho, pelo site do Comitê Paraolímpico, ou pelo Ministério do Esporte. Agora é esperar e torcer!

Foto: Maria Ramasco

O goalball é um esporte específico para deficientes visuais, no qual a bola é jogada com as mãos

Superação em família Desde a infância, os irmãos Leomon, Leonardo e Leandro enfrentam a deficiência juntos, apoiados pela família e pelos amigos. Para eles, o fato de serem irmãos e terem a mesma deficiência os uniu ainda mais. “Nós sempre estamos juntos, trocamos experiências. Temos uma relação de muito respeito, muito amor”, declara Leonardo. E eles garantem: “Se pudéssemos nos definir em uma palavra, com certeza seria ‘superação’, porque é esse nosso objetivo todos os dias”.

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esporte patrocínio

acima de limites e preconceitos A dificuldade de atletas do DF em encontrar apoio para competirem Foto: Samita Barbosa

Jônathas Oliveira

Suporte emocional, técnico e financeiro para crescer na carreira geralmente faz parte do sonho de atletas e de qualquer profissional. Porém, nem sempre esses benefícios costumam dar as caras para os praticantes de esporte no país. Com a aproximação da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos em 2016, a equipe do Artefato foi atrás de pessoas que buscam patrocínio e valorização esportiva no DF. Correndo atrás do sonho Praticante de Taekwondo desde os 12 anos, a estudante de Educação Física na UnB, Wendy Lee Tavares Coimbra, 20 anos, tem um currículo recheado de conquistas dentro e fora dos tatames. Após conseguir apoio da família para seguir carreira, chegou à faixa preta e foi medalhista em 19 torneios, entre 2004 e 2011. Contudo, quatro lesões no tornozelo fizeram com que a jovem moradora do Guará não pudesse disputar o Campeonato Brasileiro. “Por conta das lesões, nunca consegui patrocinadores fixos, quando recebia suporte, os valores eram cerca de R$ 300. Com isso eu me virava com despesas de viagem e protetores. Muitas vezes, pagava do próprio bolso.” Wendy apontou ainda que “muitas vezes os atletas conseguem bons patrocínios por conta de ‘peixadas’ e resultados sem lesões, o que acaba excluindo outros atletas.”

Wendy Lee busca patrocínio e forças para participar do Campeonato Brasileiro de Taekwondo

de Sobradinho (Caso-DF) e aluno de Educação Física da Universidade Católica de Brasília (UCB), Caio Oliveira de Sena Bonfim, 20 anos. O rapaz é praticante de Marcha Atlética desde 2007 e é filho do treinador do Caso, João Evangelista de Sena Bonfim, 56 anos, sendo 35 deles dedicados ao atletismo. “É complicado conciliar a Universidade com o atletismo. Estudo para provas nas viagens de avião Dificuldades para as competições”, relata Caio, O discurso referente às dificul- ao citar os intercâmbios em Portudades de suporte são reforçados gal e Espanha. “Me considero sorpelo atleta do Centro de Atletismo tudo por ter suporte do meu pai e

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reconhecimento da UCB, mas nem todos possuem essas vantagens. O patrocínio tem de existir desde a infância para criar bases sólidas”, relatou o bolsista. O treinador e pai, João Sena, fez questão de ressaltar a falta de valorização do meio: “Nossa sociedade é despreparada para revelar atletas de alto nível. Os pais consideram o retorno financeiro fraco e os professores os tratam como vagabundos. Já vi policiais ‘dando baculejo’ nos meninos achando que eram marginais. Isso tudo desanima”, lamenta. Mestre em Educação Física, Ro-

naldo Pacheco de Oliveira Filho ressalta o estado incipiente do investimento esportivo no Brasil. “O marketing esportivo para os futuros eventos do país é praticamente inexistente. A mediação das empresas de patrocínio com os atletas também não ocorre. Apenas a preocupação do retorno midiático proporcionada pelo atleta é visada, deixando de lado suporte e crescimento do indivíduo.” Um desafio a mais para o país que sediará duas das competições mais importantes do esporte nos próximos anos.


educação analfabetismo

O fim da cegueira

Aprendizado da leitura e da escrita representa novo olhar para jovens e adultos recém-alfabetizados

De olhar atento e personalidade decidida, a empregada doméstica Maria Lúcia Silva, 41 anos, veio de João Pessoa, na Paraíba, para Brasília com o intuito de acompanhar a família para quem trabalha. Na bagagem, curiosidade e angústia – o desconhecimento completo das letras e números. Contudo, a determinação fez com que ela vencesse os temores e não fizesse mais parte dos números negativos do país. “Quando trabalhava em uma sorveteria a dona do estabelecimento falou pra mim na frente de um cliente que eu só podia servir cafezinho, porque não sabia ler o nome do sabor dos sorvetes. Doeu muito”, conta. História semelhante é a da costureira Rosa Maria da Silva Ferreira Moraes, 31 anos. De família humilde e condições financeiras limitadas, ela começou a trabalhar cedo; os estudos ficaram em segundo plano. Antes das aulas de alfabetização, ela não conseguia ler os letreiros dos ônibus. Constrangida, a costureira conta que era comum as pessoas não darem atenção ao pedido de ajuda para informar o itinerário. “Cheguei a chorar algumas vezes na parada. Acho isso um grande preconceito”, desabafou ela, que deixou para trás a mulher que não sabia assinar o nome: já consegue ler e aprimora-se na escrita. A educadora Stella Maris Bortoni, especialista em Sociolinguística da Universidade de Brasília (UnB), revela que a maioria dos analfabetos do DF “não nasceu e foi criada aqui. Eles vieram de outros estados,

Foto: Jussara Rodrigues

Para Emílio Hiroshi, coordenador do projeto, a sociedade precisa se engajar mais para ajudar esses brasileiros. “O governo não dá conta sozinho”, enfatiza. Hiroshi ressalta ainda que, “para uma pessoa exercer plenamente a cidadania, é preciso saber ler e escrever. Só assim [ela] terá seus direitos respeitados”. O país melhora se a educação atingir a todos, incluindo os analfabetos.”

Dificuldades A dona de casa Alzira Martins, 64 anos, teve de sacrificar os estudos para poder trabalhar e ajudar no sustento da família. “Comecei na roça com quatro anos. Meus pais não me deixavam estudar”, lembra. Há quatro anos ela iniciou sua alfabetização no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), no qual não foi “muito incentivada” pelos professores. “A professora passava meia hora explicando e saía para conversar com as colegas. Desse jeito a gente não conseguia aprender”, conta Alzira. A professora de EJA, Jeane Câmara, confirmou que existem professores sem comprometimento. Mas, segundo ela, há aqueles que se engajam no desejo de ensinar. “Infelizmente é uma realidade e não posso negar. Devia haver um controle Alfabetização é vista como desafio para aprendizes mais velhos outras regiões e, principalmente, milhões de habitantes da capital. de como esses professores estão de áreas rurais”, esclarece. Neste O GDF iniciou, em janeiro deste exercendo seu trabalho”, opina. grupo, “a maior parte dos homens ano, projeto para a erradicação do trabalham na construção civil, analfabetismo. Antes, organizações A maior parte dos enquanto as mulheres analfabetas não governamentais (ONGs) já desenvolviam ações educacionais. homens trabalham geralmente trabalham como na construção civil, domésticas. Então, quase sempre A meta de ambos é zerar os números enquanto as mulheeles não têm tempo e disposição”. negativos até 2014. O Centro de Voluntário do DF, res trabalham como ONG responsável por projetos domésticas... Meta é 2014 O Censo 2010 do IBGE mostra sociais, desenvolve o programa Stella Bortoni, que o DF possui o menor índice de Alfabetização de Jovens e Adultos Educadora analfabetismo do Brasil: há 3,3% de (Alfa). O programa começou em 2008 e educou cerca de 3.500 alunos. analfabetos entre os cerca de 2,5

Mariana Alvarenga e Letícia Pires

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economia Previdência

Altos benefícios de um lado, DF concede menos aposentadorias a trabalhadores rurais. Baixos índices aprofundam desigualdade da capital Fotó: Maria Rita Almeida

Sem poder comprovar que foram trabalhadores rurais, idosos ficam sem receber

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Paula Carvalho e Augusto Dauster

Apesar de vários indicadores elevados para a média nacional, como renda per capita e expectativa de vida, a capital federal é vista como um dos lugares mais desiguais do Brasil. O motivo? O contraste entre os salários pagos a funcionários de cargos públicos elevados e os salários de cidades periféricas. E a aposentadoria não foge à regra. Em fevereiro, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou que a cobertura previdenciária do Distrito Federal está abaixo da nacional. A pesquisa é pessimista quando se trata de números gerais. Em 2001, 67,6% da população idosa do Centro-Oeste estava coberta pela previdência e, na capital federal, 69,4%. Em 2009, os indicadores caíram, respectivamente para 67%, e 65,1%. A média nacional se manteve em 77,4%. A cobertura previdenciária da população rural é ainda menor. Em 2001, era de 57,1% e diminuiu para 56% em 2009. Isso porque o DF é a unidade da federação mais urbanizada do país, segundo o diretor de Estudos e Políticos Sociais do Ipea, Jorge Abrahão. Essa urbanização (e os altos índices sócio-econômicos) atrai para a cidade pessoas que, antes, trabalhavam no campo. Na hora de se aposentar, esses cidadãos não conseguem o benefício porque não contribuíram. E também não conseguem comprovar que eram trabalhadores rurais. Abrahão justifica: o aposentado rural não precisa comprovar a contribuição para ter direito à aposentadoria, ao contrário do trabalhador urbano. “No meio rural, ao chegar à idade de se aposentar, se você não contribuiu, pode entrar com um processo e terá direito à previdência especial. Não existe essa figura da seguridade especial no meio urbano. Isso significa que, no geral, a cobertura previdenciária do urbano é menor”, explica.

A aposentada Neuzita Moraes recebe apenas um salário m

Com relação à queda na cobertura rural entre 2001 e 2009, Abrahão acredita que o motivo seja o inchaço populacional do DF, já que essa migração vem quase toda em direção à cidade. “Brasília só cresce no meio urbano. Quanto mais urbanização há, menor vai ficando a taxa.” O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) concluiu que o DF é o berço da desigualdade no país com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). O IBGE levantou que, enquanto a renda média nacional por indivíduo é de R$ 1.036, no DF fica em R$ 2.117. O índice indicado pelo coeficiente de desigualdade (gini), que varia de


pouca cobertura de outro Foto: Nayara Andrade

Para conseguir a aposentadoria rural, as mãos calejadas foram minha maior prova. Neuzita Moraes

o,

economia

PONTO PONTO DE DE VISTA VISTA Eric Zambon

apenas um salário mínimo de benefício. Cozinheira na época da construção da capital, ela lutou para conseguir o benéfício

0 a 1, coloca Brasília com 0,618 em minha maior prova”. Ela recebe um concentrada com 272,6 mil ex-tra2008. A média brasileira é de 0,530. salário mínimo de benefício. balhadores (10% da população total), que recebem uma média de Mãos calejadas Gastadores R$ 3,4 mil. O valor é puxado para Dona Neusita Moraes, de 83 anos, Os dados mais recentes sobre cima, muitas vezes, por aposentaé uma aposentada rural do DF. Ela a renda dos aposentados do DF dorias altíssimas pagas a servidoconta que veio do Rio de Janeiro não evidenciam a diferença entre res públicos inativos. para a capital na época da constru- os tipos de aposentadorias. Por Ainda que faltem dados atuais ção de Brasília. Na época, ajudou conta disso, mesmo com uma das para falar sobre a situação dos apocozinhando para os peões da nova piores coberturas previdenciárias sentados da área rural do DF, nas capital. Ao longo desses mais de 50 rurais do país, a capital concentra áreas mais nobres da capital (lagos anos, dona Neusita afirma quase os inativos com os benefícios mais Norte e Sul), a renda média dos não ter conhecido a cidade, pois se bem pagos do Brasil. Os aposenta- aposentados ultrapassa os R$ 10 mantinha ocupada cuidando da dos brasilienses movimentam, por mil, contra R$ 780 em regiões como casa e ajudando na roça. Ela mora mês, R$ 938,1 milhões. o Itapoã (dados da Pnad de 2009). na Zona Rural do Gama e explica Eles reúnem um quarto da Ou seja: mesmo com a melhor méque, para conseguir a aposentado- renda mensal de todos os traba- dia de aposentadorias, a desigualria rural, “as mãos calejadas foram lhadores do DF. Essa parcela fica dade social continua alta.

A matéria retrata bem algo que é popularmente sabido, mas surpreendentemente pouco explorado pela mídia brasiliense: o DF tem um dos maiores índices de desigualdade social do Brasil. O foco da vez são os aposentados e o desnível absurdo entre a previdência rural e urbana. A mentalidade de fazer concurso não para somar ao Estado está em xeque devido às reformas previdenciárias. Um teto será estabelecido antes que o país exploda. Muito válido. Um aposentado que grila terras no Park Way e jamais é incomodado pela Agefis, em contraste com os miseráveis arrasados de casas de pau a pique na Arniqueira, tem uma renda em torno de R$ 10 mil, segundo a matéria. Já as regiões mais pobres abrigam os aposentados que ganham pouco mais de um salário mínimo. Isso é o DF, minha gente. O diretor de Estudos Políticos Sociais do Ipea, Jorge Abrahão, toca num dos grandes responsáveis pela desigualdade: o inchaço populacional. Um agradecimento aos políticos e seus bezerros de milhões de reais por isso. O governo Agnelo sequer mencionou a questão dos aposentados rurais na campanhas ou na gestão. Se o tema saúde pública era uma tecla muito batida e continua um caos, temo pelo futuro dos trabalhadores do campo.

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Política GDF

Tá mudando pra melhor! Será? Promessas não cumpridas de Agnelo irritam população do DF; o que era plano virou pegadinha Jônathas Oliveira e Rafael Alves* Colaborou: Vinicius Rocha

O dia 1º de abril se aproxima e, com ele, várias mentirinhas e brincadeiras que descontraem. Mas o que realmente incomoda é perceber que, após um ano e três meses à frente do governo do Distrito Federal, o governador Agnelo Queiroz está longe de cumprir boa parte das promessas de campanha que, aos poucos, viram pegadinha de 1º de abril. O ex-ministro do Esporte do Governo Lula (2003 a 2006) encontra dificuldades para transformar parte dos projetos que constam no seu plano de governo, de 58 páginas, em realidade. Nessa lista estão compromissos como a implementação de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) para as Regiões Administrativas; melhorias na educação do DF; mais atenção à segurança pública (devido ao aumento de sequestros relâmpago); e nomeações de aprovados em concursos públicos. A insatisfação dos brasilienses com o que foi apresentado até agora é grande. O Instituto O&P Brasil fez um levantamento, no primeiro semestre de 2011, de quantos eleitores votariam novamente em Agnelo. O número não agradou: 36% voltariam atrás na decisão. Entre as arrependidas está a farmacêutica Érika Oliveira Alves, critica as nomeações dos concursos na área da saúde e alega que várias pessoas deveriam ter sido chamadas ainda no ano passado. “Segundo a própria Secretaria de Saúde, foram convocados 58 aprovados. Eles me informaram que, pela minha posição, seria chamada antes do Ano Novo. Mas ainda estou na espera.” Oposição As bancadas “anti-Agnelo” na Câmara Legistativa e no Congresso Nacional criticam até mesmo o projeto de maior destaque do

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GDF: a construção do Estádio Nacional de Brasília. A equipe do Artefato buscou do parlamentar uma avaliação de zero a dez para o atual sistema de saúde do DF. Izalci foi direto e sem ‘papas na língua’: “Nota zero. A saúde era para ser a prioridade do governo, conforme prometido. Agnelo não só prometeu assumir a secretaria nos primeiros meses, como afirmou que a questão do GDF era de gestão, e não de recursos. Com essas atitudes, ele demonstra não estar apto para a função”, ataca, em referência ao governador, formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia. Ele lamenta a situação não apenas da Saúde – “as pessoas morrem nas filas” – mas de outros setores fundamentais: “A segurança está um caos e a educação, abandonada”. Apesar da decepção com a atuação do governador, Izalci tem esperança de que, nas próximas eleições, a população votará “não em pessoas, mas em propostas”. Salvação? Para o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Leonardo Barreto, o atual governo ainda pode ter salvação, dependendo de como Brasília receberá a Copa do Mundo em 2014. Contudo, ele ressalta que, em geral, “a análise do governo não pode ser positiva, tendo em vista que parte das promessas de políticas públicas não foram cumpridas. A imagem já está manchada”. Barreto aponta ainda que “as questões se complicaram após as denúncias veiculadas sobre corrupção no Ministério do Esporte e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”. Resta à população torcer para que a demora em cumprir as promessas seja uma ‘pegadinha’, caso contrário, pouca gente vai achar graça do 1º dia do mês que vem... *Os repórteres Jônathas Oliveira e Rafael Alves votaram em Agnelo nas últimas eleições.

10 VERDADES

13 MENTIRAS

Desenvolver o produto turístico “Brasília Patrimônio da Humanidade”

Promover investimentos na ampliação e melhoria da malha de transportes e uso otimizado da multimodalidade nos transportes

Revisão integral do Plano de Desenvolvimento e Ordenamento Territorial (PDOT) em processo democrático e participativo, envolvendo segmentos sociais nas cidades e áreas rurais, promovendo ordenamento territorial, urbano e fundiário

Apoiar fortalecimento e disseminação de ações de qualificação e capacitação profissional, priorizando regiões deprimidas e estagnadas

Criar a Secretaria de Políticas para as Mulheres que proponha e coordene as ações voltadas à promoção da cidadania das mulheres

Promover o desenvolvimento do Entorno, mediante elaboração e implantação do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do DF e Entorno

Instituir processo de discussão e elaboração de planejamento da estratégia de ampliação e conversão produtiva da agricultura familiar para o padrão agroecológico, criando formas de cooperação, incentivos, pesquisa, difusão de tecnologia e oferta de sementes e insumos

Implementação do Parque Cidade Digital, projeto para desenvolvimento tecnológico

Aumentar valor do benefício por família, dependendo da renda familiar e do número de filhos, complementando valores do benefício federal, reduzindo desigualdades e a pobreza

Promover geração de 240 mil empregos com carteira assinada nos próximos quatro anos, mediante forte apoio aos investimentos produtivos, com base nas políticas e ações de desenvolvimento econômico

Implantar nova gestão para Fundo de Apoio à Cultura garantindo aplicação de 0,3% da receita líquida corrente e criação de novos mecanismos de financiamento

Conclusão das ferrovias NorteSul (FNS) - trecho Anápolis – Palmas, além do ramal ferroviário Brasília - Anápolis da FNS – e do ramal ferroviário Luziânia - Unaí – Pirapora

Retomar e concluir o Projeto Orla (Asa Norte)

Ampliação do Metrô para Ceilândia e Asa Norte

Integrar Sistema de Segurança Pública, mediante valorização de recursos humanos, ensino e formação integrados, comando único de planejamento e operações, estatística e análise criminológica integradas

Construir e reformar escolas públicas, urbanas e rurais, com implementação de bibliotecas, parques infantis, quadras poliesportivas, laboratórios de informática e Internet

Combate ao crack e demais drogas aplicando Decreto 7.179/2010 e criando Programa Distrital Integrado Anti-Drogas

Implantação da Escola Integral e melhora da qualidade de ensino fundamental na rede pública, a partir da revisão do currículo e dos conteúdos

Promover Brasília como Capital de Eventos

Criar Unidades de Pronto Atendimento (UPAS) 24 Horas, em todas as Regiões Administrativas, descongestionando atendimento hospitalar Efetivar Atenção Básica de Saúde Término da construção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), iniciado no Governo Arruda Ampliação do aeroporto de Brasília e construção da Cidade Aeroportuária (cargas) em Planaltina


política escola

Proposta quer mudar o ECA para incluir medidas socioeducativas sobre aluno que praticar violência contra professor

Foto: Enaile Nunes e Rayanne Alves

Mariana de Ávila

Preocupada com a violência nas escolas, a deputada Cida Borghetti (PP-PR) apresentou o Projeto de Lei 267/2011, que propõe alterar um artigo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O objetivo da mudança é fazer com que o estudante observe os “códigos de ética e conduta da instituição a que estiver vinculado, assim como respeitar a autoridade intelectual e moral de seus docentes.” “Estamos nos deparando hoje com uma realidade onde professores estão sendo mortos dentro de sala de aula, agredidos com facas, tendo o abdômen perfurado. Isso por ele ter dado uma nota que deixou o aluno insatisfeito”, explica a deputada. Uma das justificativas para a proposta é a inexistência de dispositivos disciplinares no ECA. “Não é punir. É apenas uma alteração no artigo 53 do estatuto para acrescentar a palavra ‘dever’, uma vez que o ECA só prevê direitos”, esclarece Cida Borghetti. No entanto, a professora da Faculdade de Educação da Unicamp Áurea Guimarães lembra que existem, sim, medidas socioeducativas estabelecidas pelo ECA, para serem aplicadas quando a criança ou o adolescente comete algum ato infracional. A socióloga Ana Paula Corti discorda da proposta da deputada. “Não concordo com a tendência atual de buscar resolver todos os conflitos sociais com a criação de leis, como se o Estado fosse um grande pai responsável pela normatização de todas as condutas da vida coletiva. As leis precisam

Não é punir. É uma alteração que acrescenta a palavra ‘dever’. Cida Borghetti

deveres de estudantes em discussão

A deputada Cida Borghetti explica o PL 267/2011, que propõe medidas disciplinares nas escolas

refletir aspectos da cultura de uma população, precisam dialogar de forma dinâmica com as práticas sociais, caso contrário tornam-se inócuas”, explica. Outro que não concorda com o projeto de lei é Paulo Neves, cientista social e doutorando pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Para ele,

é ilusão acreditar que a inclusão de penalidades no ECA impedirá a violência nas escolas. “Se assim o fosse, jamais veríamos juristas, advogados e deputados, infringirem a lei. Não é a possibilidade da punição ou sua austeridade que impede que ela seja desrespeitada”, afirma. O pró-reitor de Extensão da

O PROJETO: Altera o artigo 53 do ECA com o objetivo de estabelecer deveres e responsabilidades à criança e ao adolescente estudante.

PUNIÇÃO: O estudante que não cumprir o proposto no PL poderá receber suspensão da escola ou, em casos mais graves, ser encaminhado a uma autoridade judiciária.

Universidade Católica de Brasília, Ricardo Spíndola, ressalta que a violência não é um fenômeno apenas da escola, e sim, da sociedade. “ Parece que estamos resolvendo nosso conflitos de maneira cada vez mais violenta. Qualquer solução de conflito você judicializa ou parte para agressão física”, completa.

JUSTIFICATIVA: Aumento da violência contra professores por parte dos alunos. Não só violência física, mas a verbal também.

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SAúde imunização

Vacina contra rotavírus é cercada de contradições Governo garante que reações não são graves; pais relatam problemas sérios com os filhos Estela Monteiro

Febre, moleza e falta de apetite são reações comuns de vacinas. Porém, as reações da vacina contra o rotavírus são um pouco diferentes. Além dos sintomas ditos normais, ela pode causar fortes cólicas, diarreia com presença de sangue e até invaginação intestinal, quando um pedaço do intestino entra no outro e pode ser preciso uma cirurgia para a correção. Por conta das reações, a vacina tem sido fonte de polêmica entre pediatras, agentes de saúde e pais. Desde 2006, a vacina contra o rotavírus é aplicada em duas doses orais: aos dois e aos quatro meses do bebê. É a única vacina que não pode, de maneira nenhuma, ser aplicada fora das idades estabelecidas, sob risco maior de invaginação. Versões diferentes A primeira vacina contra o rotavírus foi produzida em 1998, nos EUA. No ano seguinte a imunização foi suspensa depois de aumento nos casos de invaginação intestinal. No Brasil, a Rotarix, distrubuída pelo SUS, e a Rotateq, distribuída em clínicas particulares, são consideradas seguras pelo Ministério da Saúde. Os estudos acerca delas apontam

que não há risco de invaginação. Mas não é o que muitos pais têm relatado. “Minha bebê teve reação sim, e bem longa, para a surpresa dos médicos”, afirma Daiane Novais, mãe de Isabely, hoje com um ano. Daiane conta que dias após a filha ter tomado a vacina, teve forte diarreia e os exames apontaram sangue nas fezes. Somente depois de passar por três hospitais Daiane descobriu que os sintomas eram reação à imunização. Segundo o médico que atendeu Isabely, a vacina, que é feita com os vírus atenuados, destruiu a mucosa intestinal da criança e ela só se recuperaria após ter expulsado todos os vestígios do organismo. Isabely teve diarreia por quase dois meses. Maria Sá* conta que os problemas do filho começaram 40 dias após a vacina. “Ele acordou de madrugada com choro e gritos. Duas horas depois teve febre, seguida de sangue nas fezes e uma massa palpável apareceu no abdome.” O menino passou por cirurgia emergencial para corrigir uma invaginação intestinal. “A cirurgiã que o operou me disse que os casos têm aumentado muito. Ela os relaciona à vacina.” Segurança Segundo a Anvisa, a vacina é segura e retirá-la do calendário

básico de vacinação poderia por em risco a vida de cerca de dois milhões de crianças abaixo dos quatro anos. Até 2009, foram cerca de 18 milhões de doses da vacina. “Segundo os dados da Vigilância de Eventos Adversos Pós-vacinação do Ministério da Saúde, não há nenhuma relação adversa grave que indique a suspensão do uso da vacina.” Ana Rosa dos Santos, infectologista e diretora do Sabinvacinas, também garante a segurança: “Como todo medicamento, a vacina contra rotavírus pode apresentar eventos adversos. Nos estudos, esses eventos não foram relatados com frequência muito maior do que a administração do placebo”. A Anvisa diz ainda que casos de invaginação intestinal são comuns em crianças abaixo de dois anos. “Os casos continuarão a ocorrer independentemente do uso da vacina. O trabalho da vigilância epidemiológica é promover uma boa investigação e levantar dados suficientes para indicar se

Dá para fugir do rotavírus? O rotavírus é comum em meios urbanos e a causa mais frequente de diarreias. Mesmo não protegendo contra todas as variações do vírus, a vacina impede que a doença evolua de forma mais grave. Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, morrem cerca de 1.200 crianças diariamente por conta da doença. A maior causa de mortes é a desidratação, consequência dos vômitos frequentes e da diarréia. Está relacionada ao difícil acesso a unidades de saúde e tratamento médico adequado. Para evitar desidratação grave, basta oferecer muitos líquidos ou leite materno e soro caseiro à criança. Outros meios de prevenir a contaminação pelo rotavírus são lavar bem as mãos antes de manusear os alimentos da criança; lavar bem os alimentos, talheres e mamadeiras; e oferecer água filtrada ou fervida.

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Foto: Thiago Sabino

há um aumento real de casos de invaginação em associação com a vacina.” O posto onde a criança foi imunizada deve ser avisado quando ocorrem reações mais graves. Ana Rosa ainda ressalta a importância da imunização. “Ela vem reduzindo a taxa de hospitalizações, a mortalidade infantil, atendimentos em pronto-socorro e ambulatório.” A vacinação pode ser descartada algumas vezes: “Em caso de febre, de alergia a qualquer componente da fórmula ou por reação após administração prévia de uma das doses”. Não deve ser aplicada em crianças com imunodeficiência, inclusive HIV positivo. Crianças prematuras não devem ser vacinadas no ambiente hospitalar. “O melhor é sempre consultar o pediatra”, explica a médica.

*Nome fictício


Calendário de vacinação infantil Iasmin Costa

Como Como FICA FICA

Como Como era era Ao nascer: BCG-ID [contra tuberculose, meningite e tuberculose] e hepatite B

Ao nascer: BCG-ID e hepatite B.

1 mês: Hepatite B

2 meses: pentavalente (DTP +Hib+ HB) [contra difteria, tétano pertussis e hepatite B], vacina poliomielite inativada, vacina oral rotavírus humano e vacina pneumocócica 10

2 meses: Tetravalente (DTP +Hib) [contra difteria, tétano, coqueluche e meningite], vacina oral poliomielite [contra doenças infecciosas, causadas pelo vírus poliovírus] , vacina oral rotavírus humano [contra infecções, que agridem estômago e intestino] e vacina pneumocócica 10[contra otite média, pneumonia e meningite bacteriana] 3 meses: Vacina meningocócica C [contra meningite bacteriana] 4 meses: Tetravalente (DTP +Hib), vacina oral poliomielite, vacina oral rotavírus humano e vacina pneumocócica 10 5 meses: Vacina meningocócica C 6 meses: hepatite B, vacina oral poliomielite, tetravalente (DTP+Hib) e vacina pneumocócica 10 9 meses: Febre amarela

3 meses: vacina meningocócica C 4 meses: pentavalente (DTP +Hib+HB), vacina poliomielite inativada, vacina oral, rotavírus humano e vacina pneumocócica 10. 5 meses: vacina meningocócica C 6 meses: vacina oral poliomielite, pentavalente (DTP+Hib+HB) e vacina pneumocócica 10 9 meses: Febre amarela 1 ano: tríplice viral e vacina pneumocócica

1 ano: Tríplice viral [contra sarampo, rubéola e caxumba] e pneumocócica 10

1 ano e 3 meses: tríplice bacteriana(DTP), vacina oral poliomielite e vacina meningocócica.

1 ano e 3 meses: tríplice bacteriana (DTP) [contra difteria, tétano e coqueluche], vacina oral poliomielite e vacina meningocócica

4 anos: tríplice bacteriana(DTP) e tríplice viral

4 anos: tríplice bacteriana(DTP) e tríplice viral [contra sarampo, caxumba e rubéola]

10 anos: Febre amarela

10 anos: Febre amarela

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saúde vício

De cara limpa Foto: Rick Antunes

Usuários de drogas lutam pela reabilitação da dependência química

Reabilitação de usuários de drogas é apontada como tarefa dificíl

Alessandra Santos

“O crack derrota e destrói. Você perde a confiança da família, o caráter e não tem vergonha de nada.” O relato é de Maria da Glória*, 27 anos, interna de uma casa de recuperação de dependentes químicos. Aos 20 anos, ela largou tudo na cidade natal, inclusive os filhos, que deixou com a mãe. Foi buscar melhores condições de vida em São Paulo. Porém, foi pega de surpresa com jornadas de trabalho abusivas: “O combinado era para fazer serviços domésticos, mas quando percebi até capinava e limpava a piscina”. Não satisfeita, saiu do emprego e se envolveu com o tráfico de drogas. A maconha foi o primeiro passo para os problemas. Quando percebeu, já tinha usado crack. Maria conta que ficou três meses presa, respondendo por tráfico, desvio de conduta de menor e formação

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de quadrilha. Fazia qualquer coisa para sustentar o vício, inclusive roubar e se prostituir. Disposta a se recuperar, veio para Brasília e se internou na casa de recuperação. Há quatro meses no local, ela afirma que o começo foi difícil. Até sonhava com a droga. “Cheguei aqui com 43 quilos, mas estou disposta a me tratar. Estou superando porque aceitei o tratamento. Me sinto no útero da minha mãe nesse lugar, estou nascendo de novo. Quando sair, quero uma nova vida.” Assistência A reabilitação de usuários de drogas é apontada como tarefa complicada. Para chegar à independência do vício, a pessoa deve se internar, passar por acompanhamento médico e seguir para o processo de desintoxicação. O Centro de Assistência Psicossocial de Álcool e Outras Drogas (CAPSad) é um serviço público que cuida da saúde mental

dos pacientes, decorrente do uso prejudicial de substâncias psicoativas, dentre elas o crack e o álcool. O CAPS foi regulamentado pela Portaria nº 336, de 19 de fevereiro de 2002. Tem como regra a não necessidade de internação. Em primeiro momento o paciente é atendido prontamente. Ali é traçado o perfil do tratamento junto aos familiares que, por muitas vezes, também passam por terapias. Considerando um estudo realizado em 2011, no CAPSad de Sobradinho II, com os pacientes ativos no tratamento, observa-se maior predominância de consumo de drogas ilícitas com os jovens e maior incidência de uso de álcool entre mais velhos. De acordo com o gerente da unidade, Luiz Felipe Castelo Branco da Silva, algumas informações se destacam no perfil retratado dos usuários: a escolaridade baixa (43% têm fundamental incompleto e 25%, ensino médio completo); a idade (57,5% entre 30 e 49 anos); o sexo (86,7% masculino); e a busca espontânea por tratamento (46,9%). Quanto às drogas eleitas pelos usuários, o álcool se destaca em primeiro lugar, com 73,8% . A seguir, há o vício em maconha (29%), tabaco (28,3%), crack (26,9%) e cocaína (25,7%). Maíra Marlen Diniz Arancibia, 22 anos, foi paciente do CAPSad e teve o primeiro contato com as drogas aos 12, por curiosidade e influências. Começou usando maconha e depois cocaína. Aos 15, teve a primeira internação forçada, que durou uma semana. Não queria deixar de usar as drogas. “Não tinha a consciência de que era dependente química, pensava que quando quisesse deixava de usar.” Ao completar 16, foi morar na

Bolívia, mas as expectativas de recuperação diminuíram. Ela usava grande quantidade de drogas diariamente, ficando dias foras de casa. Quando voltava, tinha alucinações e quebrava o que via pela frente. Posteriormente, foi diagnosticada com inflamação no estômago. Maíra voltou ao Brasil e passou dois meses longe das drogas, mas sofreu recaída e conheceu o crack. Já com 19, perdeu peso e se tornou ainda mais dependente. Tentou parar, mas já não conseguia. “Tentava ficar sem usar, mas a abstinência era muito grande. Ficava um ou dois dias sem e meus músculos dos braços endureciam. Meu corpo já não sabia viver sem”. Finalmente Maíra aceitou se internar em uma casa de recuperação, e fazia o acompanhamento médico no CAPSad. Está há três anos sem usar nada. Família dependente Não é só o dependente que precisa de tratamento. A família precisa acompanhar as fases do dependente químico. Pais e mães sofrem e chegam a acreditar que o drama não terá fim , principalmente quando o usuário recusa o tratamento.“ A família se torna dependente. Meus irmãos mais velhos pararam de falar comigo e o menor ficava bem assustado”, explica Maíra. O preconceito de não admitir que os filhos estejam doentes é outro fator enfrentado pelas famílias. Maíra conta que, todas as vezes que foi internada, a mãe dela alegava que a filha estava viajando. “A pior parte era o medo que eu transmitia a todos. Lembro que minha avó tinha medo de ficar perto de mim.” *Nome fictício


saúde TPM

Temida por homens e mulheres Dizem à boca miúda que todos os meses ela aparece para fazer uma visita, deixa as mulheres irritadas, agressivas, confusas e extremamente emotivas Ilustração Bruno Brandão

Aline Sales e Tuane Dias

Cansaço, dores de cabeça e nas mamas, insônia, cólicas, irritabilidade, desânimo, ansiedade, distúrbios emocionais... Se você sente algum desses sintomas dias antes do período menstrual, certamente, faz parte do grupo de mulheres que sofre com a Tensão Pré Menstrual, a TPM. Há quem acredite , e quem acha balela. A equipe do Artefato foi conversar com quem sente na pele: as mulheres. A estudante de psicologia Anne Caroline Alencar*, 20 anos, conta que dois dias antes da menstruação já começa a sentir os sinais “Tem os sintomas físicos como inchaço do corpo, dor nos seios, dor de cabeça constante e uma forte cólica, que só melhora com medicações fortes e especificas.” Anne também tem sintomas psíquicos, que envolvem alteração do humor e irritabilidade. “Por qualquer coisa fico irritada e agressiva com as pessoas ou coisas que tenho que fazer. Mas há momentos em que fico sensível e choro por motivos variados”, conta. A explicação: “o desconforto durante a TPM é causado pela oscilação hormonal que a mulher

Se você sofre com os sintomas da TPM, veja os alimentos que podem ser seus aliados para amenizar o desconforto e aqueles que devem ser evitados: Beneficiam

Prejudicam

Açaí

Alimentos enlatados e industrializados

Banana

Café

Leite e derivados

Refrigerante

Cereais

Chá preto e chá mate

Feijão

Frituras

tem durante a segunda fase do ciclo menstrual, quando acontece queda na produção de estrogênio e aumento na produção de progesterona. Para ajudar a mulher a passar por essa fase, o correto é equilibrar esses hormônios”, explica Raquel Regina de Souza, gestora de nutrição do Hospital São Francisco, em Ceilândia. Homens Além da mulherada, a TPM pode ser o pesadelo de maridos, namorados e de quem mais estiver por perto. Pelo menos é esse o pensamento do estudante de Educação Física Carlos Vinícius Sousa Silva, 21 anos. “A TPM realmente existe, porém as mulheres usam esse argumento como desculpa para muitas coisas na vida. É um saco porque elas ficam mais estressadas que o normal e descontam tudo em nós”, desabafa. Apesar da crítica, Vinícius afirma saber lidar com o problema. “Procuro relevar os momentos de estresse e tentar entendê-las, pois imagino o que estão passando nesse momento do mês, com tamanha desordem hormonal”, conclui. *Durante a entrevista, Anne Caroline confessou à equipe do Artefato que estava com TPM.

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saúde projeto de lei

Choque para tentar frear vício

Rótulos de bebidas alcoólicas poderão conter imagens impactantes como nos maços de cigarros Foto: Gustavo Lima

Vinicius Rocha

Os males decorrentes do tabagismo são muitos e bem conhecidos já há algumas décadas, tanto que a classe médica e as autoridades sanitárias de todo o mundo vêm adotando diversas medidas para desestimular o hábito. Nesse particular, o Brasil pode se orgulhar de ter um dos programas de redução de tabagismo mais bem-sucedidos do mundo. Em 1989, estimava-se cerca de 30% de fumantes na população, percentual que diminuiu para 15,1% em 2010 – redução à metade. E a queda continua. Parte desse sucesso pode ser atribuído às restrições à publicidade de cigarro e assemelhados – estabelecidas pela Lei nº 9.294, de 15 de julho de 1996. Hoje não há mais publicidade de cigarros veiculada nos meios de comunicação de massa, de modo que o hábito de fumar não adentra mais os lares brasileiros pela TV. Outro inimigo: Bebidas Assim como o tabagismo, o hábito do etilismo é prejudicial, sendo causa de doenças, violência, acidentes e problemas no trabalho. As autoridades sanitárias tentam a todo custo reduzir o consumo de bebidas alcoólicas no Brasil. Diversos projetos de lei tramitam na Câmara dos Deputados com o objetivo de reduzir o número de consumidores de álcool e restringir a publicidade desses produtos. Os PLs 4.618/1998, 931/1999, 5.561/2001, 412/2003, 504/2001 e 1.171/2003 pretendem incluir nos rótulos de bebidas alertas sobre os riscos do consumo. Pelo menos dois outros projetos

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Exemplo é pra ser seguido Dados provam eficiência da lei que restringe publicidade de cigarros. Bebidas alcoólicas são o próximo passo 66% entrevistados apoiaram a obrigatoriedade das imagens. O apoio foi ligeiramente maior entre os não fumantes (77%) do que no grupo dos fumantes (73%). Entre os que têm curso superior ou ensino médio, o apoio atingiu 83%. É praticamente o mesmo índice encontrado na chamada “geração saúde”, o público que tem de 18 a 24 anos. Nessa faixa, 82% apoiaram a medida; Câmara analisa medidas contra o alcoolismo: campanha endurecida

(PL 1.115/2011 e PL 2.896/2011) vão além: têm por objetivo incluir, nos rótulos e embalagens, imagens que mostrem os malefícios das bebidas. Todos os projetos citados encontram-se apensados, direta ou indiretamente, ao PL 6.869/2010. De acordo com o deputado federal César Halum (PSD-TO), um dos propositores, o PL busca simplesmente aproveitar medidas que já se mostraram bem-sucedidas em relação ao tabagismo e aplicá-las às bebidas alcoólicas, ação facilitada pelo fato de a publicidade de ambos os produtos ser regida pela mesma lei. “As pequenas modificações visam estender às bebidas alcoólicas as restrições aplicadas aos produtos derivados do tabaco”, argumenta o parlamentar. Para Halum, as ações governamentais auxiliam na redução dos danos causados pelo uso abusivo do álcool. “Os problemas de saúde pública decorrentes do consumo de bebidas alcoólicas exigem diariamente novas estratégias go-

vernamentais para aplicação de política pública enérgica e abrangente”, explicou. Estudos do Instituto Nacional do Câncer (Inca), em cooperação técnica com a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), sobre dependência de drogas, mostram que, para quem fuma um maço de cigarros por dia, as advertências podem ser vistas em torno de 7.000 vezes ao ano. “Mensagens e imagens contundentes e visíveis são mais eficientes para desconstruir o apelo ao prazer e para afastar o consumidor do produto”, aponta o Secretário de Justiça do Distrito Federal, Alírio Neto. Tramitação O PL 6.869/2010, de autoria do Senador Tasso Jereissati (PSDB/CE), ao qual estão apensados mais de duzentos Pls sobre alcoolismo, encontra-se na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados e aguarda constituição de Comissão Temporária na Seção de Registro de Comissões.

54% por cento dos fumantes entrevistados mudaram de ideia sobre as consequências causadas pelo tabagismo na saúde após ver as imagens; 77% por cento dos fumantes disseram ter sentido vontade de deixar de fumar ao ver as imagens; Entre os que têm renda de até cinco salários mínimos, 73% disseram ter sentido vontade de parar de fumar quando viram os novos maços. No grupo dos que cursaram até o 1º grau, a taxa foi de 72%. O índice também é alto entre os mais jovens: 73% dos que tinham entre 25 e 34 anos disseram ter pensado em largar o cigarro ao ver as imagens de alerta. Na faixa de 18 a 24 anos, esse percentual foi quase o mesmo - 2%; Segundo 70% dos entrevistados, as imagens das advertências são muito eficientes para evitar a iniciação. Mais da metade disse acreditar que o método é muito eficaz para fazer o fumante deixar o cigarro. Já 30% acreditam que a imagem tem pouca eficácia no controle do tabagismo.

(Fonte: Anvisa - 2010)


saúde bem estar

Só as cocotas? Terceira idade prova que academias não são exclusividade dos jovens Foto: Joe Fonseca

Rick Astley

Projeto Longevidade Após perceber esse novo público e a necessidade de dar mais atenção a ele, a academia Corpo 4 decidiu criar o programa Longevidade, que é uma aula voltada para alunos com mais de 49 anos de idade. Com dois anos de existência, o

matriculados em academias no Brasil

O médico me mandou vir à academia para perder peso! Aracy Vailati

Já não é novidade que a busca pela qualidade de vida na terceira idade vem aumentando nos últimos anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a expectativa de vida dos brasileiros aumentou 10 anos e 11 meses nas últimas três décadas: hoje vivemos cerca de 73,5 anos. Mas como aproveitar bem esse tempo de vida? Nossos avôs e avós estão se tornando mais ativos. Atividades como hidroginástica estão sendo deixadas de lado e substituídas pela musculação e pelo pilates nas academias. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Academias (ACAD Brasil), Kleber Pereira, há dez anos o percentual de idosos em academias não chegava a 5%. Hoje, este número já representa cerca de 30%. Ainda segundo Kleber parte desse crescimento está ligado aos programas televisivos voltados para a saúde da população e pela própria recomendação médica. Para a professora de Educação Física da Universidade Católica de Brasília, Gislane Ferreira de Melo, essa mudança pode ser explicada pela rápida visualização dos benefícios da musculação. Gislane explica que os exercícios trabalham a resistência e equilíbrio.

1,62 mi é o número de idosos

Aracy e as amigas durante a musculação. A disposição dos equipamentos ajuda na memorização da séries de exercícios

melhoraram a flexibilidade e disposição no dia a dia. Ela, que sofre com problemas na coluna, disse ter melhorado após iniciar a prática dos exercícios. Há cinco anos frequentando a academia e dois nas aulas de longevidade, Aracy fez novas amigas e convenceu os netos a entrarem nas aulas de musculação. Segundo a professora de Educação Física e personal trainner do Programa Márcia Ribeiro, as aulas procuram dar independência para os idosos. O fortalecimento muscular e o equilíbrio são as áreas mais trabalhadas.

programa já conta com 50 alunos. Além das aulas de musculação e Pilates Ball, o Longevidade trabalha a socialização entre os alunos por meio de conversas durante a aula, o que acaba criando laços de amizade. Na primeira parte é feito um aquecimento muscular por meio da dança. Mas antes mesmo que a aula comece os professores medem a pressão arterial dos alunos. Caso haja alguma alteração, eles são orientados a não praticarem a atividade física no dia. Vão apenas observar e conversar com os colegas. Após a aula devem procurar o cardiologista, se for necessário. Para Aracy Vailati Mafra, 76 anos, as aulas de musculação Sala de dança e aquecimento inicial: local para socialização

Foto: Joe Fonseca

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Sabores comida típica

Olha a pamonha!

O prato ganhou novos ingredientes e muitos fãs espalhados pelo Brasil Foto: Taísa Lima

média, 300 pamonhas por dia, sendo 60% de pamonhas doces, 30% de pamonhas salgadas e 10% de pamonhas temperadas. O proprietário, Antônio Carlos Lara, 53, afirma que a escolha de abrir uma pamonharia devese ao mercado em constante crescimento, por ser um produto natural, com serviço rápido, fácil e clientela fiel. Antônio Carlos explica que, para fazer uma boa pamonha em casa, “é preciso escolher o milho de variedade adequada, no ponto de pamonha, ralar, temperar e cozinhar evitando a fermentação e a alteração no sabor”. E para os leitores do Artefato, o proprietário da pamonharia forneceu uma das melhores receitas da casa.

Pamonha “de” doce Produto natural e fácil de ser feito faz com que a pamonha tenha grandes adeptos

Taísa Lima

Quem não gosta de uma pamonha quentinha com manteiga e cafezinho? Difícil achar uma pessoa que não aprecie essa comida tipicamente brasileira. O historiador Luís Câmara Cascudo, autor do livro História da Alimentação no Brasil, diz que herdamos a pamonha dos povos indígenas, assim como o pirão, a paçoca e a pipoca. O preparo tradicional da pamonha ocorre com a família

PAMONHARIAS

Pamonha Pura http://www.pamonhapura.com.br/ (Taguatinga Norte/Sul, Ceilândia e Sudoeste) Telefone: (61)3962-8888 Milho Verde Pamonharia http://www.milhoverdepamonharia.com.br/ (Guará II - QE 40 rua 10 lt 19) Telefone: (61)3304-1007

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reunida – todos colaboram. Adultos e crianças ajudam tirando a palha e catando os cabelos do milho. As mulheres ralam o milho, temperam a massa, amarram as pamonhas e colocam para cozinhar. A pamonhada vira festa. Do tradicional prato com milho, a iguaria evoluiu e incorporou elementos. Hoje, vários ingredientes incrementam a pamonha. Na pamonha de sal o queijo é indispensável. Quando a ele se juntam linguiça, pimenta, frango, jiló e cheiro verde, entre outros, vira temperada. A pamonha

doce (ou “de” doce, no popular) leva queijo, creme de leite e goiabada. Além das casas, elas são achadas em supermercados, feiras e pamonharias. Nas feiras ainda é possível encontrar a polpa do milho verde ralado e a palha para a confecção da pamonha em casa.

Pamonha Caipira (Taguatinga Sul - QSC 1 rua 210 lt 40 ) Telefone: (61)3562-7172

Pamonharia da Roça http://www.pamonhariadaroca.com.br/ (Vicente Pires - Rua 04 Chác. 1-A lt 02) Telefone: (61)3397-4330

Espigão Pamonharia e Pizzaria Ltda (Núcleo Bandeirante - Av. Central s/n lt 548 lj 1) (61) 35525557 Sabor Brasil Pamonharia (Recanto das Emas - Q 205, Conjunto 16, lt 9)

Onde comer No DF existem muitas casas especializadas em alimentos feitos à base de milho, como a Milho Verde Pamonharia, no Guará II. Com seis anos no mercado, a única pamonharia do local produz, em

Pamonharia Coisas da Terra (Samambaia - Quadra Qr , 402 Conjunto 28, 1 )

Ingredientes -Milho ralado e coado -Óleo de soja escaldante -Açúcar a gosto -Uma pitada de sal Preparo -Depois da massa temperada, montar um envelope com a palha verde, encher com a massa e amarrar a pamonha com uma linha, cordão ou liguinha. -Cozinhar até a palha amarelar. Dica: Antes de usar a liguinha para amarrar as pamonhas, é preciso fervê-las por 1 minuto com água e uma colher de sopa de água sanitária. Após a fervura, deixe as liguinhas secarem e use normalmente. Assim a pamonha não fica amarga.


Cultura

“ A voz rouca volta ao Brasil show

Da mesma forma que Elvis libertou o corpo de vocês, Bob libertou-lhes a mente”,

Arthur Scotti e Maycon Fidalgo

Pense em um herói popular que renunciou ao heroísmo. Imagine um rebelde que ajudou a construir uma contracultura e desafiou a tradição, até então, inquestionável de como produzir música no início dos anos 60. E não pare por aí. A descrição que o livro No direction home faz do artista em questão vai muito além: considere a voz rouca; o estilo irônico e contraditório; o cabelo bagunçado; os mitos criaIlustração: Karla Maneta

dos e derrubados num piscar de olhos; a coragem para mudar os ideais da sociedade norte-americana e as composições profundas, permeadas de significados. Viaje pelos anos 60 e os movimentos pacíficos contra a segregação racial, nos EUA; a consolidação da revolução cubana por Fidel Castro e o aumento dos protestos ao redor do mundo contra a Guerra do Vietnã. Nesse cenário, o então universitário Robert Allen Zimmerman decidiu mudar de nome. Para ele, “você nasce com nomes

errados e pais errados. Você se chama do que quiser se chamar”. E assim foi feito. Nasceu então, em 1962, de forma instintiva e automática, Bob Dylan. Nessa época, Dylan percorreu o caminho oposto dos cantores daquele período, que faziam rock, porém “não refletiam a vida de um modo realista”. Desse modo, o músico se aproximou do estilo folk: “As canções eram preenchidas com mais desespero, tristeza, triunfo, fé no sobrenatural e sentimentos profundos”, disse o artista em uma entrevista concedida ao diretor de cinema e jornalista Cameron Crowe, editor contribuinte da revista Rolling Stone. O multifacetado artista influenciou músicos no mundo todo. Em um artigo sobre ele, o vocalista da banda U2, Bono Vox, escreveu que “para entender o impacto de Bob Dylan como cantor, você tem que imaginar um mundo sem Tom Waits, Bruce Springsteen, Eddie Vedder, Kurt Cobain, Lucinda Williams, ou qualquer outro artista com uma voz rachada”. O cantor franzino, de nariz fino e sorriso raro foi eleito, pela revista Rolling Stone, o segundo maior artista de todos os tempos, ficando atrás apenas dos Beatles. A música Like a Rolling Stone foi eleita pela mesma revista a maior canção de todos os tempos. No Brasil, sua influência se deu, sobretudo, na releitura da música tradicional e folclórica do país sob um viés moderno. Zé Ramalho, por exemplo, desde o primeiro disco, cantava músicas de Dylan: “Acompanhamos isso em todas as composições do cantor brasileiro e o uso da liberdade poética para compor clássicos como Avôhai”,

Bob Dylan traz pela primeira vez violão e gaita para tocar na capital federal

Bruce Springsteen, cantor e compositor norte-americano

afirma Fernando Rosa, da produtora Senhor F. Para Rosa, Dylan funcionou como um protótipo do processo de transição da música popular brasileira para um momento no qual grandes cantores percebiam que interpretar canções tradicionais brasileiras A música não era “careta”. folclórica era produzida “Ele era capaz fora do de atualizar a circuito linguagem e tracultural moderno zer uma abordae remetia à gem social, cultradição de tural e política. um país. Por isso, muitos jovens, hoje, transformam músicas antigas em canções populares – Dylan abriu esse caminho e formou novas opiniões a respeito da cultura de um lugar”, revela. Desde 1990, Dylan se apresentou 13 vezes em terras brasileiras. O que esperar do primeiro concerto do compositor na capital do Brasil? O jornalista Pedro Brandt, fã de carteirinha, já conferiu uma apresentação do artista em 2006, em Nova York, e tem a resposta na ponta da língua: “A banda é incrível e tem uma ótima energia no palco. Dylan, por sua vez, não é de muitos sorrisos ou afagos para o público. Ele está ali para fazer seu trabalho e, a sua maneira, o faz muito bem”.

SERVIÇO

Onde: Ginásio Nilson Nelson Setor SRPN, Asa Norte Quando: 17 de abril, às 21h30 Ingressos: R$ 250 (pista premium), R$ 140 (pista) e R$ 120 (arquibancada)

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saideira

Cinema, Tatcher e as ilhas ao sul do Atlântico lhando, mais gente feliz. Reavivar uma polêmica que toca o orgulho do cidadão parece ser a estratégia perfeita para manter o povo atento a aspectos positivos da gestão de um país com a estabilidade frágil, muito frágil. Enquanto isso, a mídia argentina, em especial o jornal Clarín, desafeto da presidenta, insiste na tecla de que há coisas mais pontuais a se tratar do que o território malvinense.

Recentemente, o Oscar de Melhor Atriz Principal foi entregue a Meryl Streep por seu papel em “A Dama de Ferro”, filme que conta a trajetória da primeira mulher a se tornar chefe de governo do Reino Unido, Margaret Thatcher. A premiação foi mais que merecida. Seja interpretando a primeira-ministra britânica velha e senil ou durante seus tempos de glória à frente do Parlamento inglês, a atriz foi impecável. É ver para crer. O filme, porém, não manteve o nível de sua estrela e é, no máximo, mediano. Uma linha do tempo confusa somada a acontecimentos menores que nada acrescentaram ao enredo tomam quase todo o tempo da fita, que dedica míseros 10 minutos, talvez menos, para abordar a questão mais delicada, em se tratando de política internacional, vivida pela governante: a Guerra das Malvinas (Falkland). Vinda de uma carreira política peculiar pelo simples fato de ser uma mulher, em 1979 Margaret Thatcher se tornou a primeira-ministra do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte pelo Partido Conservador. Manteve o posto até 1990, quando ficou impopular demais no “clube do Bolinha” da política britânica e se viu obrigada a renunciar. Grande parte do motivo de ela ter passado esses 11 anos à frente do Reino Unido começou em 1982. Em 2 de abril desse ano, soldados da Argentina tomaram as Ilhas Falkland (também conhecidas como Malvinas pelos argentinos), território britânico mais longe da matriz, numa atitude inesperada para o momento e, a história provou

Ilustração: Di Oliveira

Eric Zambon

mais tarde, suicida. Por que os argentinos fizeram isso? As coisas iam de mal a pior para nossos fregueses no futebol com a ditadura do Sr. Leopoldo Galtieri. Dentre outros problemas, a economia cambaleava como um bêbado tentando seguir em linha reta e o governante precisava de algo para justificar sua permanência no poder. Aquela ilha a pouco mais de 480 km da costa ocupada desde 1883 pelos britânicos parecia ser a oportunidade perfeita para conseguir mais tempo no governo. O nome correto é Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e ele é formado basicamente pela Inglaterra, Escócia, País de Gales e uma porção da ilha irlandesa. Pense no Reino Unido como se fosse o Distrito Federal. Por aqui temos o DF composto por, atualmente, 32 regiões administrativas, sendo Brasília a principal delas. O Reino Unido é algo parecido, contendo nações em vez de regiões e com a Inglaterra como país central.

A primeira-ministra Thatcher não levou na esportiva a invasão e respondeu rapidamente, massacrando os oponentes em dois meses, com muito estardalhaço e apoio dos Estados Unidos. O feito lhe garantiu larga vantagem nas eleições do ano seguinte, que lhe deram mais um mandato. Repetição da história Trinta anos depois, outra mulher em cargo de liderança de uma nação envolve-se com as Malvinas/Falkland, dessa vez para o lado dos argentinos. Trata-se de Cristina Kirchner, viúva do ex-presidente Nestor. Cristina pode não ser uma ditadora e sua popularidade entre o povo argentino pôde ser conferida após sua reeleição com mais de 50% dos votos gerais, mas seus motivos para reacender a chama das Malvinas são semelhantes aos de Galtieri: mudar o foco. As medidas protecionistas que tentam equilibrar o volume de produtos que saem do país com o volume que entra diminuíram o desemprego. Mais gente traba-

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O quiprocó Em fevereiro, Cristina acusou o atual primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, de reforçar as tropas militares nas Malvinas. Motivo: ele enviou um navio de guerra ao local. A argentina ameaça denunciar a questão na Organização das Nações Unidas (ONU). Ela também não ficou muito contente que um dos príncipes da Grã-Bretanha, William, resolveu curtir umas ondas e ocasionais treinamentos de tiro durante seis semanas nas ilhas. Descontente com as manobras, a Argentina isolou as Falkland para deixar bem claro a posição. O Reino Unido acha isso um absurdo e acusa os argentinos de “colonialismo”, o que é muita hipocrisia, já que as ilhas nada mais são do que uma colônia britânica. David Cameron afirma, porém, que os ilhéus das Malvinas querem continuar sendo britânicos. A ONU não quer confusão e pede para os dois lados se sentarem, tomarem um cafezinho e resolverem a questão. Até agora, nenhum dos envolvidos parece muito disposto a ceder. Uma nova guerra não está descartada, mas é improvável que aconteça. Até pelo momento delicado da economia mundial, que não suportaria uma reedição da batalha de 82.

Artefato - 3/2012  

Jornal laboratório da Universidade Católica de Brasília

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