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A r t efato

Ano 11, n. 5, Dezembro de 2010 Jornal-laboratório Curso de Comunicação Social Universidade Católica de Brasília www.opn.ucb.br

Arte sobre foto de banco de imagens

A sombra e os efeitos da SUPERBACTÉRIA

Alimentada por uma mistura de uso indiscriminado de antibióticos e más condições de saneamento, a KPC já chegou a 23 hospitais do DF e causou 22 mortes. O Artefato mostra como o problema motivou ações de controle de higiene, apressou seleções públicas, firmou-se como retrato da má aplicação de tributos e pode ser facilmente prevenido

ENGARRAFAMENTO

Nayara Machado

As mudanças no trânsito de Brasília não aliviaram um problema: o caos no centro de Taguatinga

PRECONCEITO As redes sociais são espaços super vigiados. Agora, são caso de polícia e tema de pesquisa dezembro 2010 artefato_dez.indd 1

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EXPEDIENTE Artefato

Jornal-Laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília Ano 11, nº 5, dezembro de 2010 Reitor Pe. Msc. José Romualdo Degasperi Diretor do Curso de Comunicação Social André Luís Carvalho Disciplina Produção e Edição de Impressos Editores-chefes: Elitânia Rocha e Thandara Yung Diagramação: Gislene Ribeiro, Leidiany Lisley, Suzi Souza Fotógrafos: Amanda Perissé, Bruno Santana, Francisco Ferreira, Karina Souza, Maycon Fidalgo, Nayara Machado, Rick George, Samuel Paz, Vitor Repórteres: Carina Lasneaux, Dandara Lima, Edmar Araújo, Evelyn Louise, Humberta Macedo, Jéssica Rodrigues, Jordana Ribas, Larice de Paula, Leidiany Lisley, Letícia Freire, Magno Jardel, Paulo Maximiano, Quelma Trindade, Sabrinna Albernaz, Samara Correia, Sara Mendes, Wendel Marques Editores: Leonardo Salomão, Lucas Madureira, Nathália Coelho Professores responsáveis Orientação de texto: Gustavo Cunha Karina Gomes Barbosa Orientação de fotografia: André Luís Carvalho Thiago Sabino Orientação gráfica: Felipe Neves Estágio docente: Elizângela Monteiro Vânia Gurgel Monitoria: Thiago Fagundes Ilustração: Tawana Yung e Thiago Fagundes Tiragem 2.000 exemplares Universidade Católica de Brasília EPCT QS 07 lote 1 Águas Claras -DF Cep. 71966-700 Tel. 3356 9337 e-mail: artefato.jornalucb@gmail.com

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EDITORIAL

Desafios cumpridos Elitânia Rocha e Thandara Yung

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última edição do semestre do Artefato apresentou uma missão difícil para nós, editoras. Duas matérias especiais com potencial de capa, sobre assuntos que preocupam os brasilienses. A decisão foi dar destaque às duas reportagens. Saúde e trânsito entram em foco nesta edição, em um material que é resultado de trabalhos de apuração extensos por parte dos futuros jornalistas. A primeira reportagem é sobre a superbactéria KPC. A ação do governo, as medidas importantes de higienização e as doenças já consideradas erradicadas que têm voltado a assolar populações inteiras são discutidas. Outro foco é a automedicação, que contribui para o surgimento de bactérias cada vez mais resistentes. Mostramos ainda como a aplicação inadequada dos tributos tem efeitos nocivos na saúde do brasileiro. A segunda reportagem é sobre um problema permanente na vida do morador do DF, o trânsito, mais uma vez presente no jornal. Agora, na forma de um relato coletivo para mostrar as opções que o cidadão tem para se locomover entre o Plano Piloto e Taguatinga. Repórteres e fotógrafos fizeram trajetos de volta para casa e comprovaram que, apesar das melhorias, ainda há um grande desafio para evitar que Brasília vire, no futuro, uma nova São Paulo, com congestionamentos quilométricos. O Artefato traz também o caso da disseminação da opinião

nas redes sociais, o que tem gerado frequentes ondas de discriminação e, recentemente, foi parar na Justiça, com o caso da estudante Mayara Petruso. Contra o preconceito, o jornal também tratou de bullying, aquelas “brincadeirinhas” que de inocentes não têm nada. Nesta edição enfrentamos ainda um tema espinhoso para o jornal. O plágio e a questão dos direitos autorais no ambiente universitário. Nossa reportagem mostra que alunos e professores defendem firmeza na punição a esses casos. A universidade é destaque em outra matéria, sobre o atendimento psicológico à comunidade. Você sabia que o serviço é gratuito? E, se você gosta de ciranda, conheça um pouco mais do projeto da Universidade Católica de Brasília que atende crianças de várias idades e que precisam de acompanhamento. A edição também trata de temas mais leves. Se você tem um bichinho de estimação, faça a pergunta: quanto você gasta com ele? Muitos animais são a família de seus donos e recebem cuidados que poucas crianças têm o luxo de receber de seus pais. E, para fechar a edição, conheça a história de três artistas de rua que vivem de sua arte. O Artefato encontrou a estátua viva do Raul Seixas, lá no semáforo, encantando e distraindo os que passam por ali. Boa leitura!

Af

Ombudskvinna Ane Gottlieb*

N

esta edição do Artefato estive- 2010, depois do segundo turno das eleições ram presentes em quase todas as e “Varjão real não é o dos números” com pautas escolhidas a maior rique- Agnelo Queiroz e Joaquim Roriz, ainda za de detalhes e o maior numero de fon- como candidatos, precisaria ser reformulates, comparando com a edição anterior. O da para sair na edição. notório empenho na produção escrita das A discussão que envolve os preparativos matérias engrandeceu o trabalho dos futu- para a Copa do Mundo de 2014 parece que ros jornalistas. sempre terá o seu lugar nas páginas do ArA matéria de capa “Ganhar a vida sobre tefato, por causa da relevância do tema. duas rodas” trouxe a visão dos motoboys Desta vez, os repórteres se preocuparam e motociclistas que são mais com os dados, aprecorriqueiramente criticasentando debate e comdos por motoristas. MosO notório empenho na parações dentro da matétrou as dificuldades e até produção escrita das ria. Algo que extrapolou mesmo a possibilidade a percepção da consmatérias engrandeceu o trução em si, revelando de estudo para lidar com trabalho dos que até mesmo parte do o transporte de objetos futuros jornalistas governo vê a precariedaou vidas, além de apresentar o sindicato da cade do futebol brasiliense tegoria. Normalmente, as como algo impeditivo matérias veiculadas nos jornais do Distrito para a construção do estádio mais caro da Federal que possuem os motoboys e moto- Copa. ciclistas como personagens tratam de notiPor trás da construção da matéria “Braciar facilidades para comprar novas motos, sília Internacional” imagino a dificuldade novas regras para circulação de pessoas ou de um estudante de jornalismo, que reprefatalidades envolvendo esses profissionais. senta um jornal-laboratório, de conseguir Mesmo com o conteúdo de relevância uma credencial e entrevistar artistas intersocial não podemos pensar que o jornal nacionais. Mesmo não sendo essa a idéia em algum momento seja atemporal. O inicial da repórter, mostrar apenas a visão Artefato saiu com a data de novembro de de quem assiste aos shows foi uma boa saí-

da e não deixou a vontade de saber o que o protagonista da apresentação tinha a dizer. Enfim, o Artefato mostrou nesta edição que é produzido por alunos que estão em estágios mais avançados do curso. E que, mesmo estando nessa fase de aprendizado, há pelo menos a noção de que “apurar, apurar e apurar até que todas as dúvidas sejam eliminadas. Até que exista apenas uma história na qual se possa acreditar” (Ben-Hur Demeneck) é o nosso dever. Af *Aluna do 7º semestre de jornalismo

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O estrago e o legado da KPC

A superbactéria que assusta o DF

Disseminada em 23 hospitais do DF, a superbactéria que já causou 22 mortes na capital preocupa autoridades, desperta ações de controle da higiene em unidades de saúde, apressa concursos públicos e mobiliza estudantes

Jordana Ribas

Quelma Trindade

M

ais de duas centenas de casos, 22 dades públicas e particulares. Dez hospitais mortes contabilizadas, 23 estabe- públicos e 13 da rede privada convivem com lecimentos notificados e um forte a KPC. Segundo a gerente de Investigação e sentimento de desconfiança na população. Prevenção das Infecções e dos Adventos AdDifundida em vários países do mundo, a versos da Secretaria de Saúde, Eulina Ramos, superbactéria Klebsiella Pneumoniae Car- o caso vem recebendo atenção de uma equibapenemase, mais conhecida como KPC, pe especializada no combate a epidemias. tornou-se o centro das preocupações de au- “Temos vários profissionais que compõem o toridades no DF e um grande desafio para o comitê gestor central. O diagnóstico é feito a governador eleito (e, como ele enfatizou na partir de como aconteceu a infecção, onde escampanha, futuro secretário de Saúde), Ag- tava e quais são os hospitais atingidos. Depennelo Queiroz (PT). dendo da grandeza A maior parte dos reque o surto atingir, Origem mutante gistros de infecção até haverá a mobilização 19 de novembro ocorreu necessária”, declara. A KPC surgiu nos Estados Unidos no ano em Unidades de Terapia Um dos focos da 2000, resultado de uma mutação genética. Intensiva (UTIs): são O primeiro caso da superbactéria no Brasil secretaria é uma 198, incluindo 11 óbi- foi registrado em 2005, em Recife (PE). Em campanha de gerentos de recém-nascidos ciamento antimicro2009, a KPC contaminou 27 pessoas no no Hospital Regional biano, investindo na Paraná. Já em Brasília, o primeiro registro ocorreu em janeiro de 2010. Segundo da Asa Sul. Nos outros limpeza adequada do a Anvisa, não há contaminação setores dos hospitais ambiente hospitalar e registrada fora dos hospitais. também há casos idenno incentivo à higietificados, mas em menor nização contínua das quantidade. Por serem mãos como forma de os locais onde ficam internados pacientes conter a disseminação do surto (leia mais na com baixa resistência, vítimas de enfermida- página 5). Paralelamente, há um trabalho de des mais graves, as UTIs são a principal “mo- capacitação dos profissionais de saúde. rada” da KPC. Para o cidadão comum, a indicação, segunApós a morte dos bebês, o atual governador do especialistas, é não criar alarde. “Vejo muido DF, Rogério Rosso, anunciou a compra tas pessoas criando neurose de limpeza, esteemergencial de itens hospitalares, prometeu rilizando a casa, usando produtos especiais, convocar aprovados no último concurso e re- o que não é adequado. Se nós lavarmos bem alizar nova seleção para ampliar o quadro de as mãos antes de nos alimentarmos e depois funcionários do HRAs. “O número de pro- de irmos ao banheiro, tudo sem pânico, já é fissionais não atende a demanda e há super- o suficiente”, afirmou, em entrevista recente lotação. Isso faz com que o risco de infecções ao Correio Braziliense, Flávia Rossi, médica e aumente. O cuidado deve ser redobrado”, diz a diretora do Laboratório de Microbiologia do infectologista Sônia Geraldes. Complexo do Hospital das Clínicas da UniO problema não faz distinção entre uni- versidade de São Paulo (USP). Amanda Perissé

A aglomeração de pacientes em ambientes pouco arejados é um convite à proliferação de bactérias

Preocupação De janeiro a 14 de outubro 183 casos da KPC 18 óbitos 22 de outubro 17 estabelecimentos (8 públicos 9 privados) 194 casos da KPC 18 óbitos 5 de novembro 20 estabelecimentos (8 públicos 12 privados) 207 casos da KPC 22 óbitos 19 de novembro 23 estabelecimentos (10 públicos 13 privados) 246 casos da KPC 22 óbitos Fonte: Secretária de Saúde do DF

Ambulância em frente ao Hospital de Base: saúde como patrimônio não está exatamente como deveria

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Causa e tratamento A origem do problema, de acordo com técnicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), está conectada ao uso indiscriminado de antibióticos. Administrados de maneira incorreta, eles podem, em vez de conter as bactérias, abrir espaço para que as mais resistentes proliferem. Em função disso, a Anvisa publicou nota que estabelece um controle maior na prescrição. A partir de agora, o paciente receberá do médico duas vias do pedido do antibiótico. Uma delas ficará retida nas farmácias por 30 dias. O sucesso do tratamento contra a KPC depende da reação do sistema imunológico. O problema é que pacientes em estado crônico têm dificuldade em reagir exatamente por estarem debilitados. Como a bactéria é resistente, são utilizados antibióticos potentes, que podem causar fortes efeitos colaterais. A KPC é assintomática. “Para saber se a pessoa está infectada é necessária a coleta da flora bacteriana. Caso seja diagnosticada, a pessoa é colonizada (isolada)”, comenta Sônia Geraldes. Futuros profissionais Enquanto o poder público tenta conter a disseminação da superbactéria, futuros profissionais da área estão sendo preparados para atuar nos hospitais. André Melo, estudante de medicina do 5º ano da Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde (Fepecs), comenta como é feita a preparação dos alunos. “O Centro de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) ensina aos estudantes a metodologia adequada para evitar a disseminação das infecções e como manusear os aparelhos, evitando ao máximo o contato para que as bactérias não se alastrem pelo local. As roupas utilizadas pelos profissionais são descartáveis e, dependendo do caso, há aparelhos reservados ao paciente, para evitar a proliferação”. “Os estudantes do quinto ano, como o André, já estão no estágio de Controle de Infecção Hospitalar. Primeiramente, há um treinamento teórico, que passa aos alunos as normas e condutas. Só depois disso eles começam a prática nos hospitais”, completa o médico Luís Fernando Carvalho, professor da FEPECS. A estudante Geanna Valentte, aluna de medicina do 7º semestre da Universidade Católica de Brasília (UCB), reforça: “Os estudantes recebem todas as instruções necessárias de higiene para que haja um controle ativo em surtos como o da KPC. A utilização de álcool, luvas, máscaras descartáveis e uma higienização adequada são fundamentais aos profissionais da área”.

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A superbactéria que assusta o DF

A doença muda. E nós?

A automedicação, a degradação do meio ambiente e os baixos índices de saneamento fazem com que enfermidades consideradas erradicadas sofram mutações e voltem “agressivas”. Medidas simples mudariam o cenário Francisco Ferreira

Elitânia Rocha

A

lgumas já eram consideradas erradicadas. Outras, controladas. Mas, nos últimos meses, doenças como catapora, sarampo, febre amarela, cólera e raiva voltaram a ter surtos de disseminação, no Brasil e em outros países. O principal motivo, segundo especialistas, é a mutação dos vírus ou bactérias que causam tais enfermidades. Com o passar do tempo, eles adquirem resistência e, por consequência, fazem com que a doença se manifeste de forma mais intensa, até letal. Um dos vírus que vive esse processo é o causador da gripe A (H1N1). O problema, para as autoridades, é que a alteração genética faz com que vacinas eficazes para modelos anteriores da doença deixem de surtir o efeito desejado. Desde o início do ano, há mais de 25 casos confirmados no país de doenças consideradas controladas ou erradicadas. Os mais comuns foram sarampo (há mais de 40 suspeitas no Rio Grande do Sul, onde não havia registro desde 1999) e dengue do sorotipo 4, principalmente no Norte, Nordeste e Sul. Foram sete registros, os primeiros em 29 anos. Há, ainda, duas confirmações de morte por raiva em humanos. Na raiz da questão estaria o uso indiscriminado de medicamentos e o modelo de sociedade constituída pelo ser humano, pautada no desenvolvimento econômico que implica desequilíbrio ecológico. “A vida agitada nos grandes centros urbanos, a falta de exercícios físicos, o estresse, a poluição, as péssimas condições de higiene, a ausência de água tratada e o deficiente sistema de esgoto favorecem o surgimento de doenças infecciosas e parasitárias”, lista o bioquímico Jarbas Mesquita. Autonomia Segundo a biomédica e professora de microbiologia Beatriz Camargo, o ser humano, além de ser responsável pela situação atual, é o principal agente capaz de modificar o cenário. “O homem detém a autonomia de criar políticas de incentivo e prevenção com medidas simples, como tratamento de água e esgoto, reflorestamento, política de saúde eficiente, uso controlado de remédios prescritos por profissionais competentes e calendário de vacinação em dia”, afirma. A automedicação, hábito corriqueiro entre os brasileiros, é vista, nesse cenário, como uma das vilãs. Quando a pessoa não sabe ao certo o que tem e se medica, pode colaborar

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Investimento pesado Doenças negligenciadas, como lepra, esquistossomose e Doença de Chagas vão receber este ano investimento de 105 bilhões de euros de vários governos internacionais. A Organização Mundial da Saúde estabeleceu que até 2020 essas enfermidades fossem totalmente erradicadas.

O uso sem controle de antibióticos acaba por fortalecer bactérias e torná-las resistentes aos medicamentos

Elitânia Rocha

Fabricação caseira Misturar duas gotas de água sanitária em um litro de água ajuda a garantir uma lavagem mais precisa de alimentos, o que evita contaminações.

A vida agitada nos grandes centros, a falta de exercícios, o estresse, a poluição, as péssimas condições de higiene, a ausência de água tratada e o deficiente sistema de esgoto favorecem o surgimento de doenças infecciosas e parasitárias” Jarbas Mesquita, bioquímico

para uma possível mutação do patógeno instalado no organismo ou ainda ter reação ao medicamento. “Tenho sempre em casa minha caixinha de remédios. Quando meus filhos, netos ou até eu sinto alguma dor, recorro a minha farmácia particular”, conta a dona de casa Maria Rosa, 51 anos. Questionada sobre a compra de remédios, diz que compra a maioria sem receita, assim como boa parte dos brasileiros. Ao lado da automedicação, outra característica comum em nosso país e que tem consequências é o alto índice de tratamentos não completados. Quando os sintomas desaparecem, a pessoa deixa de tomar a medicação. “O principal motivo do retorno destes patógenos cada vez mais fortes é a mutação desenvolvida por eles aos antibióticos usados indiscriminadamente e os tratamentos não levados até o fim. Uma vez desenvolvida a resistência, leva-se certo tempo até a criação e liberação

de um novo medicamento, o que dá tempo para a proliferação da doença e para sucessivas mutações”, explica Jarbas Mesquita. Cólera Um caso claro ocorre no Haiti, país que sofreu a devastação de um terremoto em janeiro. Na ocasião, morreram mais de 300 mil pessoas e 1,3 milhão de sobreviventes ficaram desabrigados. Muitos moram em acampamentos improvisados, submetidos a condições sanitárias e de higiene precárias. O cenário propiciou uma epidemia de cólera que já matou mais de mil pessoas e gerou 18 mil internações. O Brasil envia medicamentos, material hospitalar e médicos para ajudar o Haiti e planeja uma parceria com Cuba para continuar auxiliando. Causada por uma bactéria, a cólera provoca fortes diarréias. A principal forma de contágio é por meio da água contaminada. Apesar

de ser considerada de fácil controle, já que os centros urbanos são quase totalmente abastecidos com sistema de saneamento básico, a doença já foi registrada nos EUA e na República Dominicana (vizinha ao Haiti). Vacinação Outra doença extremamente letal é a raiva. Há somente dois casos catalogados de pessoas que conseguiram sobreviver depois de contaminadas. A principal causa para a transmissão é a não vacinação de animais domésticos (cães e gatos, principalmente) e o contato com animais silvestres, como os morcegos. Em 2009, houve dois casos de raiva humana no País, ambos transmitidos por cães e gatos. Nos últimos 24 anos, o pico ocorreu em 1986, quando foram identificados 73 casos. Em 2005, houve 44 registros, a maioria no Maranhão e no Pará, onde a doença foi transmitida por morcegos.

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A superbactéria que assusta o DF

Acessível, simples e eficiente Jéssica Rodrigues Funcionária da lanchonete Toca do Açaí, na Universidade Católica de Brasília, Aparecida Félix tornou-se praticante de uma técnica rápida e extremamente eficaz na prevenção da proliferação de bactérias como a KPC. A partir da orientação de nutricionistas, ela aprendeu a lavar as mãos toda vez que vai manusear algum dos ingredientes que usa em seu trabalho. De tão acostumada, levou o hábito para casa e o transformou em rotina. “Eu já tinha noção da importância, mas, com as orientações, complementei o que sabia e apliquei na minha família”, diz. A hepatite A, a gripe A H1N1 e a KPC são algumas doenças que podem ser relacionadas a não lavagem das mãos. Segundo a infectologista Sônia Geraldes, “lavar as mãos é um hábito que deve começar em casa”. É essencial após usar o banheiro, retirar o lixo, coçar o corpo, espirrar, tossir, tocar em estruturas como portas e janelas. De acordo com o infectologista e professor da Universidade Católica de Brasília Vitor Laerte, para cada doença há uma forma específica de proteção, mas a assepsia das mãos é a principal delas, por quebrar o ciclo de bactérias e eliminar sua transmissão. Toxinas O nutricionista Marcus Cerqueira reforça o coro. Para ele, a lavagem das mãos é fundamental antes de manusear tanto alimentos crus quanto os previamente preparados. O cuidado evita as Doenças Transmitidas pelos Alimentos (DTA), como a salmonela e a intoxicação alimentar, que podem ser transmitidas por bactérias ou toxinas presentes na mão. Para tanto, basta usar sabão líquido para retirar

Já tinha noção da importância, mas, com as orientações, apliquei na minha família” Aparecida Félix, funcionária da Toca do Açaí

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Lavar as mãos com frequência, um hábito fácil de adquirir, é a melhor receita para evitar a proliferação de bactérias

Higiene completa Thiago Fagundes

1. Tirar adornos, como anéis,

2. Molhar as mãos

3. Lavar com sabão líquido,

e o antebraço

primeiro a parte interna e

pulseiras e relógio

até o cotovelo

entre os dedos, friccionando-os

4. Em seguida,

5. Fazer movimentos circulares

6. Enxaguar com água

o dorso

nas pontas dos dedos com a

corrente para retirar

e o antebraço

ajuda das palmas das maõs

todo o sabão

7. Secar as mãos com papel descartável,

8. Finalizar com sanificante, o

9. Mãos limpas

não reciclado

álcool em gel

contaminação

e livres de

Outras dicas Quelma Trindade

• É recomendado utilizar sabão líquido para lavar as mãos. O sabão em barra, mais usual, é um ótimo local para proliferação de bactérias. Assim, em vez de limpar as mãos, pode acabar as contaminando. • Para secagem, sempre que possível, evite toalhas de algodão, que acumulam bactérias. As de papel, descartáveis, são mais adequadas. • Ao passar um sanificante, como o álcool em gel, deixe-o secar naturalmente, sem passar na roupa ou utilizar outro produto químico.

partículas maiores de sujeiras e poeira e finalizar com o álcool em gel, que garante a eliminação das bactérias e microorganismos (confira a arte). Além de ser responsabilidade de quem prepara a comida nos restaurantes, a higiene deve fazer parte da “cartilha” dos clientes. Os estabelecimentos geralmente são orientados a manusear os alimentos da maneira adequada, mas as doenças relacionadas à contaminação do alimento podem ser potencializadas pelos consumidores, quando pegam em objetos como dinheiro e celulares, e tocam, em seguida, nos utensílios do restaurante e na comida. Em condições normais, o corpo humano comporta inúmeras colônias de bactérias. Elas são comuns no organismo e não causam danos à saúde. Mas as bactérias presentes na mão, quando em contato com alimentos, podem entrar em processo de estresse, devido ao pH e temperaturas diferentes do que estão acostumadas, e liberar toxinas. Em contato com intestino, essas toxinas provocam a produção de gases, dores abdominais intensas e, num estágio mais grave, a intoxicação alimentar. Kit básico Nos hospitais, onde a presença de bactérias e de doenças é constante, a proteção básica necessária para médicos e auxiliares de enfermagem inclui o uso de capote, propé (proteção para calçados), luvas e gorros. O uso da luva, contudo, não substitui a lavagem das mãos. Os visitantes também são agentes importantes na preservação do ambiente. Quando chegam ao hospital e quando saem, precisam higienizar as mãos para não levar nem trazer bactérias. “A higienização das mãos atua tanto na sua proteção quanto na do profissional e do ambiente de assistência”, enfatiza Sônia Geraldes. Outros locais propícios para a proliferação de bactérias e que demandam práticas de higiene aos freqüentadores são os que reúnem grandes quantidades de pessoas, como as rodoviárias, os transportes públicos, os parques e as escolas. É claro que nem todo lugar tem condições adequadas nos banheiros para que se faça essa higiene da maneira correta. A alternativa, de acordo com os especialistas, é ter sempre a disposição o álcool em gel, que contribui para a não disseminação de agentes de contaminação. O sanificante escolhido deve ser composto de 90% de álcool. Af

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A superbactéria que assusta o DF

Dinheiro não falta, mas o paciente não vê

A quantidade de impostos arrecadados pelo governo federal anualmente supera R$ 1 trilhão. O problema, segundo especialistas, é a ausência de aplicação adequada dos tributos pagos pelos cidadãos

Dandara Lima

A

rlete Coimbra, 53 anos, trabalhava em um restaurante quando, há oito anos, começou a sentir fortes dores que atrapalhavam seu ofício e a engordavam. Ela conta que, quando procurou um endocrinologista no Hospital Universitário de Brasília (HUB), já apresentava quadro de depressão e de obesidade mórbida, que pode levar a doenças como diabetes tipo II, hipertensão e trombose. O doutor recomendou a cirurgia bariátrica, conhecida como cirurgia de redução de estômago, além de uma reeducação global (alimentar, física e psicológica). “Comecei o tratamento, mas, quando estava tudo pronto, o médico entrou de recesso e o HUB, em greve”, comenta. Não havia previsão para a cirurgia. “Minha depressão piorou e desisti”. Arlete não foi a primeira e nem será a última: 300 mil pessoas eram atendidas por mês no HUB, que teve o pronto-socorro interditado para reformas. Elas foram encaminhadas a outros hospitais públicos, onde a situação não costuma ser distinta: longa espera, ausência de medicamentos, problemas para realizar exames complexos, quadro de servidores insuficiente. A aglomeração de pessoas com diversas enfermidades, aliada à dificuldade de preservar a higiene em um ambiente lotado, ajuda a proliferação das superbactérias, como a KPC. Universal A saúde, segundo o Artigo 196 da Constituição, “é direito de todos e dever do Estado”. E o Estado tem como principal ferramenta para dar retorno aos cidadãos os impostos que recolhe. Em 26 de outubro, o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário demonstrou que, desde o início do ano, os tributos arrecadados haviam chegado a R$ 1 trilhão. Jornais de todo o país publicaram que os brasileiros pagaram em 2010 uma média diária de R$ 3 bilhões em impostos. Até o fim do ano, a estimativa é que o total arrecadado chegue a R$ 1,26 trilhão, um recorde. Contador do Conselho Federal de Contabilidade, André Augusto Martins afirma que “é preciso conscientizar o povo brasileiro de que é ele quem financia o país, sem reforçar a ideia de que não se deve pagar imposto, mas demonstrando que o cidadão

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Embate pela nova CPMF

Demolição recente O HUB apresenta um histórico de greves e paralisações. A última ocorreu em maio de 2008, quando o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios interditou o pronto-socorro por conta do afundamento do piso. Segundo o site do HUB, “laudo emitido por técnicos apontou a necessidade de demolição de todo o interior do prédio, realizada no início de 2009”. Agora, a expectativa para o início das obras é o primeiro semestre de 2011.

Quelma Trindade

Comecei o tratamento, mas, quando estava tudo pronto, o médico entrou de recesso e o HUB, em greve”

Arlete Coimbra, na fila por uma cirurgia de redução de estômago

Soma das riquezas A Carga Tributária Brasileira (CTB) é um indicador que expressa a relação entre o volume de recursos arrecadados pelo Estado e o Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma das riquezas do país em um ano. Em 1999, a CTB foi de 30% do PIB; em 2002, de 35,86%. Ano passado, a arrecadação atingiu R$ 1,05 trilhão e o PIB, R$ 3,14 trilhões: CTB de 33% do PIB.

precisa aprender a exigir que os impostos sejam revertidos em qualidade de vida”. André usa o exemplo dos países escandinavos. Lá, a carga tributária é elevada: chega a 51,1% do PIB na Suécia (2005). Ninguém, contudo, acha ruim, pois o Estado garante educação, transporte, saúde e habitação de alto nível. Por aqui, o percentual é até menor, de cerca de 33%. “O problema do Brasil é a aplicação dos impostos, não a arrecadação”. Diretor da Associação de Projetos de Combate à Fome e um dos autores do livro “Economia Popular e Solidária: A alavanca para um desenvolvimento sustentável”,

o economista Flávio Schuch explica que o aumento da arrecadação tem de ser visto com bons olhos. “Significa mais recursos para o Estado financiar suas atividades”. Para ele, o caminho não é reduzir a arrecadação, mas, usar os tributos na redução das desigualdades. “É incrível perceber como alguns setores têm a pachorra de discutir carga tributária sem levar em conta as enormes desigualdades sociais e regionais, a concentração absurda de renda que temos por aqui, a sonegação descarada e os privilégios tributários que os mais ricos amealharam ao longo de séculos”, completa.

Nos últimos anos, sempre que o financiamento da saúde entra em discussão, volta à tona o debate sobre a necessidade de um imposto para a área, como a extinta CPMF. Recentemente, assim que saíram os resultados das urnas, seis governadores eleitos pelo PSB e até a nova presidente da República, Dilma Rousseff (PT), se manifestaram a favor da regulamentação da Emenda 29. Aprovada em 2000, a Emenda 29 fixa valores mínimos que União, estados e municípios devem investir na saúde. A regulamentação se arrasta há mais de dez anos no Congresso. Nesse período, diante da extinção da CPMF, parlamentares incluíram no texto a criação de um novo tributo, a Contribuição Social da Saúde (CSS). Segundo o artigo “Por que a CSS é diferente da CPMF?”, do economista Flávio Tonelli, há distinções a ressaltar entre os tributos. Primeiro, no valor cobrado em cada movimentação financeira, que passaria de 0,38% (CPMF) para 0,1% (CSS). Tonelli, especialista em orçamentos públicos e assessor técnico da Câmara dos Deputados, lembra, ainda, que boa parte dos recursos da CPMF eram destinados à Previdência Social. “Com a CSS isso não poderá ser feito. O Tesouro Nacional devolverá para a saúde, mensalmente, todos os recursos”, explica Tonelli no artigo. Segundo informações do governo federal, o fim da CPMF representou perda de R$ 40 bilhões anuais nas contas da Previdência, R$ 12 bilhões deles direcionados à saúde. O economista Flávio Schuch afirma que o novo imposto pode ser um passo importante, mas não a solução. “Temos que melhorar a administração do Sistema Único de Saúde. Defendo a CPMF não somente como contribuição necessária para manter o SUS, mas como ferramenta indispensável para a Receita Federal combater a sonegação”. Já o contador André Augusto Martins se declara contra. “Há dinheiro suficiente para se aplicar na saúde sem a criação de mais um imposto”. Enquanto a discussão não se resolve, Arlete espera. Convencida pela filha, ela tenta, agora, realizar a cirurgia bariátrica no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). “Passei por todo o processo de exames de novo e estou esperando a endocrinologista”, conta. Há fila e a consulta só pode ser realizada pelo especialista do Hran. Af

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CIDADES

Rick George

O problema agora é Taguatinga Ônibus dirigido por Valdemir Silva avista o centro de Taguatinga. A imagem diante do motorista não é agradável. As pistas amplas da nova EPTG afunilam na entrada da cidade-satélite, causando confusão na chegada do trabalho

A reportagem do Artefato se dividiu para testar as condições das vias que levam à cidade-satélite. A conclusão: os engarrafamentos mudaram de lugar

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o trabalhador que mora em Taguatinga, quais são as alternativas para voltar para casa? E mais: em que condições estão esses caminhos? Para tentar responder as essas perguntas, a equipe do Artefato enfrentou ônibus, metrô e carro nas vias de acesso à cidade-satélite em horário de pico. Foram cinco duplas, fotógrafos e repórteres. A saída era a Rodoviária do Plano Piloto. O destino, centro de Taguatinga. O tempo gasto em cada percurso, um mistério. A única coisa que parecia certa era o stress diante da equipe. Ao chegar à Praça do Relógio, o consenso entre quem foi de carro ou de ônibus era um só: é um suplício sair dos arredores da Rodoviária. Mas o pior espera perto de casa. Linha Verde, metrô, mais ônibus, mais faixas, nada disso resolveu um problema antigo: o trânsito dentro de Taguatinga. Por volta de 19h, os pistões Norte e Sul estão abarrotados de carros, assim como a grande tesourinha central. A entrada para Taguatinga Centro é um caos. As cinco faixas da nova Estrada Parque viram três no viaduto. Ali se juntam os carros que vêm pelos pistões e quem trafega pela EPTG. Não há preferência. Os veículos brigam pelos espaços. Para andar menos de um quilômetro até a Praça do Relógio, são 20, 30 minutos. Quem vai de metrô escapa da confusão. Dessa confusão. O primeiro a chegar estava em um dos vagões. Espremido entre as milhares de pessoas que embarcam na Estação Central. Demorou pouco mais de meia hora. O último pegou a Estrada Parque Núcleo Bandeirante, a EPNB. Uma hora e quarenta

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no trânsito – entre brigas de motoristas, pistas interditadas e um engarrafamento enorme em frente ao Taguatinga Shopping. O trânsito do Distrito Federal enfrenta problemas há alguns anos. São mais de dois milhões carros circulando. Segundo levantamento do Departamento de Trânsito (Detran), a cada ano, cerca de 100 mil veículos a mais tomam conta das ruas do DF. Além dos carros, dados da Secretaria de Transportes mostram que 700 mil pessoas dependem de ônibus, todos os dias. São 850 linhas, que geralmente fazem viagens longas, já que 60% delas ligam cidades-satélites ao Plano. Enquanto os carros são conservados (é a frota mais nova do país), os ônibus são de dar dó. Ineficientes, antigos e lotados, o que desanima os motoristas a deixarem o automóvel em casa e enfrentarem a parada repleta de gente. O brasiliense prefere andar de carro; e não dá carona. É comum a presença apenas do motorista nos veículos. Diante dessa combinação entre excesso de carros, falência do transporte público e congestionamentos crescentes, o governo tem investido na reforma de vias, alargando-as na tentativa de desafogar o trânsito. Mas enquanto duram as obras, o trânsito fica ainda pior. A via EPTG ou Linha Verde – como será batizada com o término das obras – está em reforma desde o dia 19 de maio de 2009. A previsão de conclusão era 21 de abril, aniversário de 50 anos da capital. O projeto, finalmente, está quase finalizado e conta com a construção de cinco novos viadutos (Águas Claras, Jockey, Guará, SIA e EPIA, todos prontos), ampliação do número de

Thandara Yung e Larice de Paula

faixas para cinco e abertura de duas faixas marginais de cada lado. Serão 16 passagens para pedestres e 17 paradas de ônibus, além da implantação de uma ciclovia que passaria por toda a Linha Verde. Passaria, porque ela ainda está no papel. O orçamento inicial da reforma, de R$ 244 milhões, chegou a R$ 268 milhões, principalmente por conta dos atrasos.

José Roberto Arruda tentou, mas não conseguiu por fim ao problema. Um dos pontos polêmicos que envolvem o sistema de ônibus convencionais no DF diz respeito às concessões. Segundo o Ministério Público, dos 2.300 coletivos da frota atual, 2.026 não passaram por licitação. Licitação é o procedimento administrativo para contratação de serviços ou aquisição de produtos pelos governos federal, estaduais, municipais ou Prioridade aos coletivos entidades de qualquer natureza. O governador eleito, Agnelo Queiroz (PT), O Sindicato das Empresas de Ônibus rebate está atento ao problema e prometeu priori- e diz que esse número é de 1.500. Essas condade ao transporte cocessões, a maioria, teriam letivo. No plano de gosido garantidas antes da Eu diria que o serviço de Constituição de 1988 e de verno, o petista garante que a regularização da transporte coletivo em uma lei que obriga a realizaprestação de serviços de Brasília está, totalmente, ção de concorrência pública. transporte é uma forma abandonado” Por isso, o sindicato acredita de tentar coibir a clanJoão Osório, presidente do ter uma permissão vitalícia. destinidade no setor. Sindicato dos Rodoviários “Nós participamos de uma Promete ainda “romper concorrência pública, na o atual monopólio empresarial” com a reno- ocasião, onde o termo de permissão era por vação de concessões públicas e licitações. tempo indeterminado”, explica Wagner CaAgnelo disse que em seu governo será pos- nhedo Filho, presidente do órgão. O governo sível contar com a tecnologia de GPS (sigla não vê da mesma forma. “O prazo indeterem inglês que para Sistema de Posiciona- minado não existe mais”, garante Januário mento Global) e celulares para que os passa- Lourenço, secretário-adjunto de Transportes. geiros saibam os horários em que os ônibus Isso sem contar o estado da frota. “Os ôniestarão em cada parada, por exemplo. Ele bus não têm menor condição de uso, já estão citou o bilhete único e a integração como bastante ultrapassados e isso compromete a medidas a serem implementadas também. segurança do profissional e dos passageiros. Freio, pneu careca, excesso de ruído e de As concessões e licitações calor... Eu diria que o serviço de transporte A briga do futuro governador será grande. coletivo em Brasília está, totalmente, abandoO lobby das empresas de transporte cole- nado”, sentencia João Osório, presidente do tivo no DF é conhecido. O ex-governador Sindicato dos Rodoviários.

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O metrô versus a física

Bruno Santana

CIDADES

Superlotação põe à prova o que cientistas como Arquimedes e Newton levaram séculos para descobrir Lucas Madureira

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xistem na física algumas leis que regem o universo. Arquimedes disse que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Newton afirmou que se um corpo estiver em movimento, ele tende a permanecer em movimento (inércia). Nunca conseguiram provar que essas leis eram falsas, até o dia em que inventaram o metrô que vai para Ceilândia. E era justamente essa minha missão, ao lado do fotógrafo Bruno Santana: da Rodoviária à estação do centro de Taguatinga, dividindo espaços que parecem não existir no mundo real. Durante a maior parte do trajeto, os trens ficam tão cheios que é possível quebrar o princípio de Arquimedes: se enfiam dois, três passageiros onde só deveria haver um. E mais: a lotação é tanta que quando o metrô freia, os corpos não permanecem em movimento – não há espaço para se mexer. Newton não poderia contar com essa.

Precisar do metrô no horário de pico, às 18h, é uma aventura. Desde a estação Central, a primeira, todos os vagões ficam cheios. Na estação Galeria, a seguinte, lota tudo de vez. E como ficam as pessoas que precisam entrar nos pontos seguintes? Pois é, elas ficam. Não entram. Precisam esperar o próximo trem e torcer para, dessa vez, conseguir subir no vagão. Taís Tamis, 18 anos, estuda na Universidade de Brasília. Segundo ela, o que falta no metrô é respeito dos usuários. “As pessoas ficam paradas na porta esperando o trem para correr e conseguir sentar.” O militar Tiago Ferraz, 20 anos, quase nunca consegue ir sentado e o trem é sempre lotado. “Ainda assim prefiro o metrô por ser mais rápido.” A atendente do Na Hora Carla Maria, 28 anos, já tentou ir para casa de várias maneiras, mas o metrô, apesar de cheio, é o meio mais rápido. “Se for de carro eu chego às

Nayara Machado

Confusão nas estações: gente querendo entrar, gente tentando sair e, dentro do vagão, lotação máxima

oito horas. Se pegar ônibus entro em casa às oito e meia. Quando pego o metrô eu chego dez para as sete.” Isso contando que ela saia da Rodoviária às 18h. Pedro Moreira, 71 anos, não gosta muito de andar metrô, mas por ser o mais rápido, é o escolhido. Moreira diz que falta muito respeito dos mais jovens: “Alguns, que estavam na cadeira azul, já fingiram que estavam dormindo. Eu não vou pedir para sentar, eles é que precisam oferecer o lugar”. Essa situação deixa o aposentado em pé – e muito nervoso. “Eu fico puto quando

A via imprevisível Sara Mendes

Mesmo em um único sentido, a Estrutural nem sempre dá conta do fluxo de carros voltando para casa às 18h

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eu nome é EPCL (Estrada Parque Ceilândia). Os mais técnicos podem chamála de DF-095, mas certamente, a maioria dos brasilienses a conhece simplesmente por Estrutural, via expressa implantada na década de 1970 para atender aos moradores das cidades de Ceilândia e Taguatinga Norte, com o intuito de desafogar o trânsito na EPTG. O objetivo inicial foi alcançado, mas por pouco tempo, já que o volume de carros do Distrito Federal cresce assustadoramente. Uma das soluções foi inverter, duas vezes por dia, o sentido de uma das vias: de manhã as pistas Norte e Sul só vão para o Plano; no final da tarde, só voltam. Hoje, nem isso garante rapidez. Atualmente, quem trafega pela Estrutural nos horários de pico sabe que tanto na entrada, quanto na saída da via, os congestiona-

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isso acontece, muito puto. Os jovens veem a gente em pé e não dão lugar, é sacanagem.” Apesar da falta de respeito e da sensação de sardinha enlatada, nós, os usuários, escolhemos o metrô pela eficiência. Embarquei na estação Central às 18h; às 18h04 estava no vagão. Às 18h37 havia chegado ao destino, a estação Praça do Relógio. Foram 33 minutos para chegar do Plano até Taguatinga. Enquanto esperava os outros repórteres, deu tempo de lanchar. Isso explica o motivo de o metrô ser tão lotado: porque é rápido e eficiente.

mentos existem e põem à prova a paciência dos motoristas. Os dias em que o trânsito flui normalmente são raros. Tem dia que uma pista engarrafa, tem dia que é a outra. Tem dia que são as duas. E eis que justamente no dia em que o Artefato procurava engarrafamentos para mostrar as condições das principais vias do DF, o tráfego na imprevisível Estrutural fluía tão bem quanto a água de um rio. Isso, na pista Sul, por volta das 18h30, horário em que rotineiramente as duas pistas congestionam. Nem mesmo as chuvas, comuns no mês de novembro, ousaram aparecer. Minha missão era desesperadora: dirigir os 32km entre a Rodoviária do Plano Piloto e a Praça do Relógio, no centro de Taguatinga, no horário de maior movimento, entre 18h e

19h. A fotógrafa Nayara Machado me acompanharia para registrar os acontecimentos. Os engarrafamentos eram aguardados com a certeza de uma motorista habituada a trafegar por esse percurso diariamente. Mas dessa vez foi diferente: a “Via da Contradição” resolveu surpreender e deixou o engarrafamento de lado para dar lugar a uma pista que parecia a mesma Estrutural às 15h. Aliás, não fosse o relógio, eu poderia jurar que era esse o horário. Em tempos de horário de verão, o engarrafamento na Estrutural no final da tarde proporciona aos condutores pelo menos uma boa experiência única: tempo para admirar o pôr-do-sol do céu mais bonito do Brasil. Contudo, justo naquele dia, o percurso que costuma levar uma hora e meia durou apenas 50 minutos. Não pude me deliciar admirando o sol e, caso insistisse em vivenciar essa experiência, poderia me desconcentrar e colidir com o veículo da frente, o que, certamente, ocasionaria o engarrafamento tão esperado. Mas como o objetivo do Artefato não era me induzir a pensamentos suicidas ou perigosos, mantive a atenção no volante enquanto a fotógrafa registrava uma pequena retenção na pista Norte. O percurso ia bem pelo Pistão Norte até a entrada do centro de Taguatinga, quando os motoristas da EPTG e da Estrutural se encontram. Parece que todo o engarrafamento

Pegar a Estrutural às 18h é uma questão de sorte: nunca se sabe onde o congestionamento está

esperado para o dia resolveu se concentrar nesse trecho, onde carros se moviam a “passos de tartaruga” próximos ao viaduto central. Depois de muito esperar (e fotografar) chegamos à Praça do Relógio, sabendo que no dia seguinte continuaríamos enfrentando o “congestionamento-nosso-de-cada-dia”, mas sem câmeras para registrar.

viagem

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Leonardo Salomão

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saída foi no estacionamento em frente ao Conic às 18h13. Desde a convocação para esta empreitada já vinha me preparando psicologicamente para enfrentar aquele trânsito pesado que os brasilienses estão acostumados a encarar diariamente. A primeira via foi o Eixão Sul: o carro andava livre, sem a mínima sombra de congestionamento. A velocidade média foi a que limita a via (80 km/h) – e poderia ser ainda maior. Saindo do Eixo Rodoviário Sul, entramos na EPGU, aquela via que passa em frente ao Zoológico. A sensação agradável de trafegar em meio a um trânsito livre de engarrafamentos continuou. O carro parecia flutuar. Até que... Até que chegamos ao Setor de Postos e Moteis da Saída Sul. A velocidade média diminuiu bruscamente até parar de vez. O volume de carros e ônibus que passa pelas duas faixas da via marginal contribui para o congestionamento. No meio da longa fila de automóveis, não há espaço para bom humor entre motoristas cansados, doidos para chegarem em casa depois da labuta. Às vezes, a irritação atinge o limite. Foi aí que presenciamos uma briga de trânsito: um rapaz que dirigia um Fiat Uno branco foi fechado por um caminhão que trafegava no acostamento e trocou alguns palavrões e buzinadas com o caminhoneiro. As “gentilezas” não couberam apenas para o cidadão do caminhão. Acabou sobrando para a nossa fotógrafa, Karina Soares, que tentava registrar o momento. Ainda bem que a confusão não durou muito tempo e logo conseguimos pegar a EPNB (nossa rota original). Lá, a velocidade aumentou. Pouca coisa, mas aumentou.

18h04 Muitos semáforos no caminho para a casa

Algumas reformas na pista e a grande quantidade de automóveis e semáforos ajudam a lotar a via. Mas não por muito tempo. Logo depois da primeira entrada para o Núcleo Bandeirante a coisa melhorou e voltamos a andar na velocidade máxima permitida. Entramos no Pistão Sul, em Taguatinga, exatamente às 19h e o trânsito fluía de vento em popa. No carro, pensamos que chegaríamos rápido ao destino final, a Praça do Relógio. Doce engano. O trânsito ficou muito pesado quando passamos em frente ao Taguatinga Shopping. Daí em diante foram olhares nervosos para a fotógrafa, motoristas impacientes – inclusive este que vos escreve – com os carros parados. Assim continuou até o viaduto do centro de Taguatinga, onde parecia ser impossível piorar. Pois é, piorou. Os carros entravam uns na frente dos outros. As faixas confusas atrapalham os motoristas que saem do viaduto e se embaraçam com os automóveis que seguem pela EPTG. O stress aumenta na mesma proporção das buzinas. Toda a confusão só melhorou quando chegamos ao ponto de encontro, às 19h46. O hodômetro do automóvel marcava exatos 28,3 km. Por incrível que pareça, era o menor percurso dentre os repórteres que foram de carro. Por incrível que pareça, fomos os últimos a chegar.

Lucas já está na Estação Central do metrô. Evelyn embarcou no ônibus. Os motoristas estão presos no trânsito.

Bruno Santana

Ir da Rodoviária para Taguatinga pela EPNB é o caminho mais curto, mas também o mais demorado

Karina Soares

Menor e pior

18h20 Thandara e Leonardo conseguem sair da Rodoviária rumo à EPTG e EPNB de carro, respectivamente.

Rick George

18h30 O ônibus passa pelo Setor Hospitalar. Thandara pára, às 18h31, no semáforo do Memorial JK.

18h46 Sara ainda está em frente ao Palácio do Buriti. Lucas já chegou à Praça do Relógio.

Samuel Paz

18h50 Thandara entra na EPTG às 18h50, quado o ônibus está na altura da Vicente Pires.

18h58 Sara passa pela última passarela da Estrutural. Às 19h, Leonardo sai da EPNB e entra no Pistão Sul.

Karina Soares

19h15 O ônibus de Evelyn chega ao destino. Sara está parada no Pistão Norte desde 19h10. Leonardo está engarrafado em frente ao Taguatinga Shopping.

19h27 Thandara chega à Praça do Relógio. Sara finalmente entra no centro de Taguatinga.

19h40 Leonardo chega à Praça do Relógio, vindo pela EPNB. Sara, pela Estrutural, chegou 5 minutos antes.

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Nayara Machado

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A nova EPTG é uma boa opção para os motoristas brasilienses; o problema é entrar e sair dela Thandara Yung

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esde a liberação da maior parte das pistas e viadutos da Linha Verde, há cerca de um mês, a via se tornou a menina dos olhos de motoristas que querem fugir do trânsito cada dia mais caótico do Distrito Federal. Pensando nisso, aceitei a missão de sair da Rodoviária do Plano Piloto rumo ao centro de Taguatinga. Os 30,3km de distância foram cruzados em uma hora e sete minutos. A jornada começou às 18h20 na plataforma superior da Rodoviária. A EPTG está livre? Ótimo! O difícil, meu amigo, é conseguir chegar à via e sair dela. Durante o percurso – plataforma superior, Eixo Monumental, Setor de Indústrias Gráficas (SIG), EPTG, centro de Taguatinga – a maioria das paradas foi causada pela quantidade de semáforos somada ao número de carros. O primeiro e desanimador engarrafamento apareceu antes mesmo de entrar no Eixo Monumental, com dois minutos de percurso. O trajeto que liga a plataforma superior à via, pelo estacionamento do Teatro Nacional, está lotado. O rapaz em um Voyage prata acelera, fecha o cruzamento e impede a passagem. Sabe onde está um dos grandes problemas do trânsito no DF? Entre o banco e o volante. A passagem pelo Eixo Monumental foi rápida. Estranhamente rápida. Apenas um semáforo fechado. Estava bom demais para ser verdade. Em 12 minutos, enquanto o fotógrafo do Artefato, Samuel Paz, clicava os carros e motoristas – e ganhava uma coleção de rostos mal encarados –, chegamos ao semáforo em frente ao Memorial JK rumo ao SIG. Já que não teve engarrafamento no Eixo, era óbvio que ele estaria todo acumulado no SIG. Nada. Os oito carros na pista circulavam livremente. Nem mesmo a máquina arrumando asfalto atrapalhou o trânsito. Parecia fim de semana. O sol brilha forte, poucas nuvens no céu. Muito diferente dos quatro dias anteriores. Samuel Paz

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Realmente atípico. O fotógrafo, empoleirado na janela do carro, reclama do sol forte e da ausência de engarrafamentos. “Assim fica ruim de tirar foto!” Foi só terminar a frase, chegou o engarrafamento. Eram 18h37, paramos na frente do Sudoeste. O sinal ficou verde, continuei parada. Vermelho, andei 3m. Verde de novo, mais 15m. Nesse ritmo, gastamos 12 minutos para atravessar os 500m da pista que passa em frente ao bairro. Faltava pouco, a EPTG estava logo à frente, depois do último semáforo. Para melhorar o humor de qualquer um preso no trânsito, às 18h45 o telefone toca. O repórter Lucas Madureira, que foi de metrô, já estava no centro de Taguatinga. Iria lanchar enquanto esperava. Às 18h48 entrei na EPTG. As sete pistas fizeram o trânsito fluir instantaneamente. Nem mesmo um carro com o pneu furado na faixa da esquerda atrapalhou o tráfego. Em cinco minutos, o SIA e o Guará ficaram para trás. Durante as obras demorava cerca de 40 minutos. A pista marginal que dá acesso a Vicente Pires pelo Jockey Club fica muito engarrafada. A principal não. Mais seis minutos e chego ao novo viaduto que dá acesso a Águas Claras. A menos de 1 km do centro de Taguatinga. Esse próximo quilômetro me custou 35 minutos. Na tentativa de entrevistar motoristas, janelas fechadas e caras amarradas. O cansaço da rotina tira a disposição de qualquer um. A lente do fotógrafo inibe os mais tímidos. No meio da imensidão de carros, a estudante Ariane Menke, 21 anos, diz que já está acostumada. “Não tenho do que reclamar, vinha por aqui durante as obras, e era tudo engarrafado. Não volto para a Estrutural tão cedo.” Depois de conseguir passar pela bagunça do viaduto de acesso ao centro de Taguatinga e passar pelos semáforos, às 19h27 estacionei ao lado da Praça do Relógio no centro da cidade. Foi mais fácil do que parecia.

Sinal quase verde

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Rick George

Pista Livre

A Linha Verde facilitou a vida de quem anda de ônibus. Mas só um pouco Evelyn Louise

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om o semáforo, pode-se organizar, orientar e controlar as vias de uma cidade. Em Brasília ele é de grande valia, tanto para pedestres quanto para motoristas e passageiros. Um sinal amarelo, de pare e pense, era o que vinha à mente de quem planejava trafegar pela EPTG antes das obras. Era preciso pensar bem antes de se arriscar. O resultado terminava quase sempre em sinal vermelho, de pare. O engarrafamento era certo, com semáforo ou não. Com a duplicação das vias e a mudança do nome para Linha Verde, o sinal para os motoristas também mudou. Agora é verde, de prossiga, pois o motorista consegue facilmente andar pela pista sem pegar quase nenhum congestionamento. As obras ainda não foram concluídas, mas a melhora é visível. Foi o que percebemos depois de subir num ônibus da linha n° 306 da viação Pioneira, às 18h, sentido Rodoviária do Plano Piloto – Taguatinga Sul, para testar as novas condições do trânsito. A conclusão é que o horário de pico ficou mais tranquilo para os passageiros que voltam para casa. A duplicação reduziu o tempo do trajeto. Mesmo na avenida W3 Sul e no SIA, parte do percurso feito pelo ônibus, o grande fluxo de carros não impede que o motorista, Valdemir Silva, chegue aos 60 km por hora. Apesar da rapidez, o desconforto do transporte público não diminuiu. Ônibus cheio, passageiros em pé. Trabalhando na empresa há sete anos, Valdemir Silva diz que no horário de pico carrega cerca de 60 pessoas por viagem. Junto com o cobrador Valerson da Silva, faz a linha somente neste horário. O controle de passageiros é feito pela bilhetagem eletrônica da empresa Fácil, instalada em todas as linhas de ônibus para facilitar o pagamento da passagem e evitar furtos. A usuária Francisca Nunes, 27 anos, se acomoda em assento preferencial. Ela lembra que o sistema de transporte precisa acompanhar as melhorias nas pistas. Veículos sem manutenção ou velhos jogam fora a vantagem do trajeto mais rápido. Ela conta com a má sorte de ter pegado quatro ônibus de linhas diferentes, que quebraram no percurso reformado. A lotação não é o único problema. A claridade do sol nesse horário (ainda mais com horário de verão) e a falta de iluminação à noite não atrapalham somente o motorista Gargalo nas marginas, trânsito fluindo livremente nas pistas principais: esta é a nova EPTG

Ônibus vazio já não é raridade: o difícil agora é conseguir descer nas paradas sem sinalização

que passa pela via, mas também motociclistas, pedestres e até passageiros. A dificuldade para enxergar uma passagem de pedestre ou uma parada de ônibus é grande. Isso quando tem parada e passagem. A aposentada Aláudia Nascimento, 59 anos, pega quatro ônibus por dia no trecho entre Taguatinga Centro e o Lago Norte. O motivo é a netinha Catarina, de dois anos.. Para Aláudia, o sacrifício vale a pena, mas ela reclama dos transtornos na Linha Verde. “O trânsito melhorou bastante, mas a conclusão das obras está demorando demais.” A chegada próxima à entrada da Vicente Pires e do Park Way é onde o transtorno começa. O engarrafamento, a poeira, a claridade e a bagunça entre motos e carros não diferem de um rali, só que em zona urbana. A ajuda do cobrador para mudar de pista nesse trecho é indispensável. É dele a missão de pedir passagem para o ônibus entrar na via. Nesta parte da EPTG não houve obras. A chuva destruiu uma das entradas principais de Vicente Pires, os destroços do asfalto e a terra solta estão por toda parte. O pior foi olhar para a esquerda e ver o trânsito correndo solto no viaduto que faz o mesmo trajeto. Passado o transtorno, o próximo ponto a engarrafar foi o viaduto do centro de Taguatinga. Lá, a sensação é de passar por um funil, onde sete faixas se transformam em apenas três. Para conseguir visualizar a Praça do Relógio foram cerca de 20 minutos em ritmo lento. Vencido esse trajeto, o tráfego não fica uma maravilha, mas melhora consideravelmente. Pronto, são 19h15. Eu e o fotógrafo Rick George chegamos à Praça do Relógio sãos e salvos. É o destino final da reportagem. Os outros passageiros seguem até o terminal de Taguatinga Sul. Af

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Fotos: Gislene Ribeiro

Amigos do coração São seres irracionais, mas demonstram carinho e lealdade. Histórias revelam que os bichinhos podem ser a melhor companhia do homem Gislene Ribeiro

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les são fofinhos, bonitinhos, en- la Tina, depois de um acidente. “Foi caro. graçados, carinhosos e leais. Ado- Mas fazer o quê? A gente só faz porque ram atenção e quando são bem ama. Senão, não faria.” Carlos tem mais tratados, sabem muito bem retribuir os cinco cachorros e dois passarinhos em casa cuidados. Quem nunca teve vontade de ter – e já teve até bode. “Amo os animais. Está um animal de estimação, principalmente no sangue”, revela. quando criança? Ter um bichinho não é algo fácil. É sinôAmor sem limites nimo de responsabilidade. Eles precisam de A taxidermista Eliane Zanetti e o marido, cuidados básicos como alimentação, água, banho, higiene, um local adequado para o estudante de veterinária Rafael Estevão de morar e medicação quando necessário. E, Oliveira, são exemplo disso. Ambos trabaalgumas vezes, muitos donos acabam exa- lhavam e viviam em uma chácara. Como o gerando na atenção. Como gente ou até me- espaço era grande, tinham oito cães. Um dia lhor, os animais têm direito a comida de boa começaram a pedir que eles abrigassem os qualidade, roupinha, sapatinho, acessórios, animais encontrados nas imediações da UnB. “Primeiro, dois. Depois foram chegando perfume e até tratamento estético. Esse é o caso de uma cocker spaniel de um mais.” Um dia, o casal ficou desempregado. ano, dois meses e dois dias: Rachel. Nome Eles iriam mudar para o Rio de Janeiro, onde que a dona fez questão de soletrar “R-A-C- Eliane teria mais oportunidade. “Tentamos H-E-L”. A cachorra leva vida de princesa. arranjar um lugar para os cachorros mas não A dona em questão, Carolina Mesquita, 31 conseguimos. Disse ao Rafael: temos que fianos, solteira, cuida da cadela como se fosse car e cuidar deles!”. Surgiu o Augusto Abrigo. O abrigo fica próximo de Luziânia e alosua filha. “Coloco Rachel na caminha toda ja bichos que, de alguma forma, possuem noite e dou um beijinho antes de deitar.” Carolina leva a cachorrinha mensalmen- dificuldade de sobreviver na rua, seja por te ao pet shop para aparar o pelo e receber doença, deficiência e violências. São mais aquele trato e, trimestralmente, ao veteri- de 300 cachorros e 190 gatos. O local é simnário para olhar como andam saúde, den- ples, porém enorme. Os cachorros brincam tes, peso. “Acabo gastando muito! Varia de e andam livremente. Por falta de condimês em mês, dependendo dos tratamen- ções, nem todos têm casinhas, mas muitos se contentam em dormir tos. A média é de R$ 900 e descansar numa bacia só com Rachel.” Para a “princesinha”, como diz Não sei o que seria da grande e confortável. Carolina, são R$ 250 por minha vida sem a Rachel! O amor de Eliane pelos consulta. Se precisar de É a filha que nunca tive!” animais e o dos animais pela dona é nítido. Enquanvacina, são entre R$ 80 e Carolina Mesquita, to estava dentro da casa, 120. Aí vem a ração, que dona da cocker spaniel Rachel todos os cachorros brincacusta R$ 135,90 o pacovam, dispersos. Era Eliane te com sete kg. Rachel já sair e cãezinhos corriam come mais de um pacote, sem contar os produtos de higiene e os exa- para perto dela e a seguiam pelo quintal. Uns mes laboratoriais. Enquanto relacionava chegavam a se atacar para ficar mais perto. Além da dona, freqüentadores e voluntáas despesas, Carolina alisava a cachorra no colo e declarava o amor. “Não sei o que rios também provam o amor aos bichinhos seria da minha vida sem Rachel! É a filha e fazem o impossível para que o abrigo conque nunca tive! Amo-a mais que algumas tinue existindo. O lugar vive de colaboração e doações. O casal, que vive do artesanato pessoas que estão ao meu redor!” Os animais são tão bem tratados que mui- de Rafael e das consultorias virtuais prestos são considerados membros da família. tadas por Eliane, não conseguiria sustentar E quando adoecem... O desespero é total. sozinho tantos animais. São cerca de duas As poucas condições não impediram que toneladas de ração canina e quase 100 kg Carlos Roberto de Oliveira não medisse para os gatos. “O que nos ajuda muito é ter esforços para bancar uma cirurgia na cade- um veterinário, um amigão, que cobra só os

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remédios a preço de custo”, desabafa Rafael. Uma das voluntárias, a advogada Angélica Bessa, ajuda o abrigo um sábado por mês, há seis meses. Recolhe fezes, ajuda a dar banho, limpa o local, faz vermifugação nos animais. A primeira vez que foi ao abrigo, Angélica se apaixonou. Acabou adotando uma cadelinha. Ela já tinha um cachorro e, como mora em apartamento, só poderia adotar mais um. O cuidado com a cadelinha sem raça é tanto que muitos não acreditam que ela é vira-lata. A advogada conversou com a equipe do Artefato o tempo todo com Piratinha, seu xodó, nos braços. O cãozinho já havia sido doado antes pelo abrigo, mas foi devolvido porque latia. “Se quisesse um animal que não latisse, que adotasse um hamster, um cavalo, sei lá”, indigna-se Angélica. Os casos de covardia e perversidade vão além da devolução dos animais adotados. “Aqui temos gatos cegados por cigarro aceso, cachorros esfaqueados, com doenças venéreas e até cães que foram estuprados”, conta Eliane. Af Para ajudar o Augusto Abrigo: (61) 3603-1774 / (61) 9156-4441

Os cães demonstram carinho por Eliane Zanetti, dona do Augusto Abrigo (foto maior). Abaixo, alguns animais recolhidos por ela e pelo marido

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O plágio no Artefato abre a discussão para os direitos autorais no ambiente universitário Samara Correia e Thandara Yung

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a edição de setembro, o Artefato publicou uma matéria plagiada do Correio Braziliense – o jornal de maior circulação no DF. A reportagem trazia a assinatura de dois repórteres – um deles, Edmar Araújo, não tem nenhum envolvimento com a cópia. O imbróglio chegou à Comissão Disciplinar da universidade. O processo ainda está em andamento e a pena máxima dentro do ambiente acadêmico pode chegar ao desligamento da instituição de ensino. O que ocorreu com o jornal-laboratório não é um infeliz “privilégio”. Professores se queixam frequentemente de trabalhos não autorais entregues pelos alunos. Em diversos cursos é possível encontrar casos de plágio. Ao conversar com professores e coordenadores de cursos da UCB, percebe-se que a cópia de trabalhos é uma realidade que precisa ser discutida e avaliada pelas universidades – e com urgência. Emanuela Marcelina, coordenadora pedagógica do curso de Direito, acredita que a universidade deveria investir em palestras ou até mesmo em uma semana dedicada ao assunto. “Professores têm problemas com

alunos, e nem sempre sabem como agir em relação ao plágio. Alguns casos são resolvidos entre aluno e professor, outros chegam até a direção do curso. Com isso, é difícil ter uma estatística de quanto plágio é feito.” A necessidade de uma postura clara por parte das instituições tem outros defensores. “A universidade deveria focar mais na questão ética e legal do plágio”, afirma Vilson Hartmann, assessor e professor do curso de Sistema de Informações e Ciências da Computação. Ele também lembra que, com o advento da internet, a questão ficou mais evidente: “Para o aluno, recortar e colar da rede é mais conveniente. Na época dos livros [eles] ainda davam uma modificada na hora de copiar”. Para ele, deveriam ser mais claras as conseqüências do plágio dentro da universidade. “O plágio deveria receber mais ênfase nas disciplinas iniciais, assim o aluno saberia logo no início da vida acadêmica quais as consequências do ato.” O estudante responsável pelo texto plagiado que foi publicado no Artefato garante que aprendeu a lição. “Sei que não justifica o que eu fiz, mas estava vivendo um momento muito complicado na minha vida. Trabalhando demais, estressado. Foi uma coisa totalmente sem pensar, só queria entregar o texto logo. Tenho consciência de que o que eu fiz é errado. Mas

na hora, não pensei nas consequências. Hoje, sinto vergonha de entrar em sala, do que fiz com meus colegas. Sei que prejudiquei o trabalho deles. Seja qual for a decisão da comissão, vou tirar como um aprendizado de vida. E não como punição.” O que diz a legislação Segundo a lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que gere a regulamentação dos direitos autorais, plágio é crime. A pena para quem o pratica pode ir de três meses a um ano de reclusão ou multa por apropriação indevida de textos. No entanto, no âmbito acadêmico, este não é um problema que pode ser solucionado apenas penalmente. Pedagogicamente, as questões principais são (ou deveriam ser) as motivações que levam um aluno a copiar trabalhos e nomeá-los como seus. As respostas mais comuns são: falta de tempo para fazer o trabalho - a campeã -, preguiça, e, até mesmo, a falta de preparo para produzir um texto que renda boas notas. Para a professora Rosana Pavarino, do curso de Comunicação Social, alguns dos fatores que levam os alunos a cometerem o plágio são o comodismo, a preguiça e, em último caso, o desconhecimento. Ela acredita que não só a universidade deve ter uma política mais clara sobre a cópia, mas outras instituições. “Pais e mães que ‘ajudam’ os filhos também estão contribuindo. Baixar música de graça na internet também. São vários fatores, culturais, sociais, educacionais.” Mas o plágio e os direitos autorais extrapolam as esferas legais e pedagógicas. São uma questão de ética e formação pessoal, como defende o pró-reitor de Graduação da UCB, professor

Ricardo Spindola. Ele lembra que a cópia vai além do ambiente educacional. De acordo com Spindola, o conhecimento científico, mas não apenas ele, avança a partir de estruturas já estabelecidas. O modelo é fundamental para a aprendizagem, em todas as esferas - de costumes, de ideias, de concepções de vida. “O problema não está em tomar algo como modelo ou ponto de partida para uma ideia, mas em não assumir que o ponto de partida não nos pertence”, afirma. O pró-reitor defende que as novas autorias, as novas ideias, não nascem sem a participação dos pensadores que vieram antes, mas esse reconhecimento não basta. “Nosso desafio é reconhecer que nossa autoria se constrói a partir de outras autorias”, destaca ele, para quem é imprescindível o reconhecimento formal e expresso das fontes onde o aluno buscou informações sobre o trabalho acadêmico, a reportagem, o TCC... Af FIQUE POR DENTRO Direto Autoral: É o direito do autor de controlar o uso que se faz de sua obra. Consolidado na Lei 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, garante ao autor os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou. Somente protege as obras literárias, artísticas e científicas. Propriedade intelectual: Engloba os direitos autorais, os conhecimentos tradicionais, as expressões culturais tradicionais e a propriedade industrial (marcas, patentes, desenho industrial e transferência de tecnologia). Domínio Público: são as obras sobre as quais não existem titulares de direitos econômicos de exclusividade. São de livre uso de todos e integram o patrimônio cultural da humanidade.

Arte sobre foto de Vitor

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Plágio: É a apropriação ou imitação de trabalho, texto ou idéia alheia. Esse ato é crime segundo a lei dos direitos autorais. Fontes: ABDR - Associação Brasileira de Direito Reprográficos

MinC - Ministério da Cultura

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UNIVERSIDADE

Cuidados psicológicos para a comunidade

Serviço de apoio oferecido pela Clínica-Escola da Universidade Católica de Brasília é gratuito e prioriza pacientes de baixa renda Wendel Marques

Wendel Marques

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essoas que sofrem com problemas de falta de atenção para estudar, hiperatividade, depressão, estresse, ansiedade e conflitos pessoais e familiares podem recorrer à Clínica-Escola de Psicologia da Universidade Católica de Brasília. O tratamento é gratuito e aberto à comunidade, com prioridade para as comunidades mais carentes. Para o atendimento laboratorial, ou seja, o acompanhamento, é necessário fazer uma inscrição e passar por triagem. A avaliação inicial é feita por um supervisor do Centro de Formação de Psicologia Aplicada da Universidade Católica de Brasília (CEFPA), ao qual a clínica-escola é vinculada. Se o caso for de urgência, o paciente tem direito a três atendimentos iniciais. Caso não haja necessidade, a ficha vai para a lista de espera, já que a demanda é grande. A clínica também mantém um plantão de atendimento, mas não costuma receber pessoas sob efeito de substâncias tóxicas. “Quando chega alguém aqui passando mal, não podemos atender porque teríamos de ter uma equipe de enfermeiros, médicos e psiquiatras. Fazemos o acolhimento e encaminhamos a algum hospital”, explica Aldenira Barbosa Cavalcante, mestre em Psicologia Clínica, uma das coordenadoras do CEFPA.

Entrada do Centro de Formação em Psicologia Aplicada: triagem leva em conta critérios socioeconômicos

138 Quantidade de estagiários envolvidos no trabalho de atendimento. Cada um deles atende, em média, cinco pacientes

Clínica-Escola de Psicologia da UCB Atendimento Segunda a sexta: 8h às 21h Sábados: 8h às 12h Endereço: Salas M 08/09, na UCB Telefone: 3356.9328

Ciranda, um suporte dedicado a adolescentes em situação de risco Quelma Trindade

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rojeto filantrópico mantido pela Universidade Católica de Brasília, o Ciranda tem como principal característica atender crianças em situação de risco. São crianças que ficam abandonadas em suas casas quando os pais saem para trabalhar ou albergadas, para onde vão por determinação judicial em função de violência ou abandono familiar. Cerca de 600 crianças de seis a 14 anos participam dois dias na semana, no horário contrário ao da aula regular, de atividades físicas e educacionais. No cardápio há aulas

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de musicalização, inclusão digital e psicomotricidade, onde se desenvolve a parte psíquica e motora dos meninos e meninas. “É um projeto 100% social para atender essas crianças em vulnerabilidade social e com risco grande de se perder”, diz Itamar dos Santos, coordenador do projeto. “É uma oportunidade que meus filhos não têm fora daqui. Às vezes tem teatro e outras coisas que eu não teria condições de pagar, além da cultura e outros benefícios”, comenta Fabiana Coimbra, mãe de duas crianças envolvidas no projeto Luisa Sampaio, estudante de psicologia e

É uma oportunidade que meus filhos não têm fora daqui. Às vezes tem teatro e outras coisas que eu não teria condições de pagar, além da cultura e outros benefícios” Fabiana Coimbra, mãe de duas crianças que frequentam o projeto

Qualquer pessoa, independentemente de renda, pode ser atendida, mas o foco é facilitar o acesso das camadas mais pobres da população. O centro mantém ainda convênios com a Justiça, com a Secretaria de Educação, Secretaria de Saúde e com empresas particulares. O acompanhamento psicoterápico é feito pelos estudantes do curso de psicologia que já cursaram matérias específicas e estão em fase de estágio obrigatório. “O estudante primeiro passa pelas fases de observação, de supervisão e, por fim, de atendimento, além do estágio específico”, comenta Aldenira. O tratamento é realizado por 138 estagiários, que atendem aproximadamente cinco pacientes cada. O sigilo sobre os casos é preservado, a ponto de o Artefato não ter sido autorizado a entrevistar pacientes. O acompanhamento pode durar de seis meses a um ano e a clínica não prescreve medicamentos. “Não trabalhamos com fármacos, só tratamentos psicoterápicos. Pacientes em crise que precisem de remédios são encaminhados aos Centros de Atenção Psicossocial ou a hospitais”, explica Fabrício Soares, estagiário da clínica-escola. Por questões éticas, a clínica evita tratar alunos e funcionários da UCB. Abre exceções apenas para estudantes da área de saúde, como nutrição, odontologia e medicina, mas mantém um projeto de atendimento a funcionários portadores de necessidades especiais.

ajudante no projeto, ressalta que a grande função da iniciativa é mostrar às crianças que existe um lado diferente, onde elas podem lutar por benefícios próprios. Quem não pode ou tem dificuldade para chegar à UCB conta com um transporte fornecido pela instituição. Outro suporte é o uniforme completo, com camisa, calça, casaco para frio, mochila, meia, tênis, todo o material escolar e duas refeições no período em que permanecem na UCB. Para aderir ao Ciranda é feita uma seleção. É observado se a criança frequenta a escola pública, se a família tem renda igual ou inferior a R$ 420 e está em situação de vulnerabilidade. “Não adianta termos milhares de crianças se não for pra dar a atenção que cada uma precisa individualmente. Se fôssemos abrir sem seleção, teríamos muito mais crianças, mas isso não é possível”, explica Itamar. Af

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CIDADANIA

Rede social não é o boteco da esquina

Recente caso de onda viral de mensagens de tom racista e preconceituoso reforça nas autoridades e em pesquisadores a sensação de que é importante reafirmar que o discurso online repercute no real

Arte sobre imagens de divulgação gratuita e sobre fotos de Ricardo Stuckert/PR/Divulgação

Sabrinna Albernaz

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uita gente ainda não se deu conta que a internet é um meio de difusão e que apenas uma frase, daquelas que despretensiosamente se diz na mesa de um bar entre amigos, pode ter repercussões imensuráveis se for postada no Facebook, Orkut, Twitter ou blog. De acordo com o pesquisador Alexandre Kieling, as redes sociais trouxeram uma espécie de “deslocamento”, promovido pelos próprios usuários, onde a vida privada passa a conviver em esfera pública. Para o especialista em temas como digitalização das mídias, TV digital e interatividade e professor do Mestrado em Comunicação da Universidade Católica de Brasília, tudo aquilo que antes as pessoas pensavam, diziam e comungavam com suas tribos em espaços fechados, hoje está migrando para as comunidades virtuais. “A internet é um meio de difusão. Quando um tema incandescente entra na pauta, circula mais rápido. Na rede, isso ganha um processo viral. Alguém lê e passa adiante. Outro comenta e o bolo segue. O efeito disso ocorreu, por exemplo, no caso da ex-estudante da Uniban Geisy Arruda e nas notícias de que a então candidata à Presidência da República Dilma Rousseff era uma espécie de anticristo. São provas desse potencial de fogo das redes sociais”, afirma Kieling. Petruso Outro exemplo do que aponta o pesquisador ocorreu logo que foi anunciado o resultado das eleições para presidente da República. Mayara Petruso, uma paulista estudante de Direito, postou, numa rede social, uma frase procurando demonstrar sua insatisfação pessoal com o resultado das urnas e responsabilizando, de forma agressiva e desrespeitosa, os nordestinos brasileiros pelo fato. “Nordestino não é gente. Faça um favor a São Paulo: mate um nordestino afogado”, escreveu a garota. A partir da postagem, várias pessoas passaram apoiar e rechaçar os comentários. Um grupo de jovens paulistas chegou ao ponto de lançar um manifesto, tendo como mote “Melhorar São Paulo”, sugerindo limitar aos nordestinos o direito como cidadãos, culpando-os pelos problemas de superlotações em hospitais, alta criminalidade, entre outros problemas sociais. Diante de tão grande e incontrolável repercussão, a estudante retirou da sua página na rede social a frase que originou as

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De qualquer jeito É bem verdade que Dilma Rousseff conseguiu quase 75% dos votos do Nordeste, o que determinou uma diferença de 12 milhões de votos entre a petista e o candidato do PSDB, José Serra. Mas é importante ressaltar que a frase de conteúdo preconceituoso da estudante Mayara Petruso também era imprecisa. Dilma seria eleita mesmo que fossem computados apenas os votos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Por margem menor, de cerca de 275 mil votos, mas ainda sim sairia vencedora do pleito. manifestações públicas e postou uma outra desculpando-se, mas o estrago já estava feito. Perdeu o estágio, que estava fazendo em um escritório de advocacia, e acabou por despertar a atenção de vários setores da sociedade para as questões de direitos humanos e legais na internet. Procurador de Assistência Judiciária da Defensoria Pública do DF e professor de Direito Penal, Carlos André Praxedes foi uma das vozes a repreender o fato e o considerou ainda mais lamentável por ter sido praticado por uma pessoa da área da advocacia. “Não há como se relativizar ou atenuar o comportamento absolutamente reprovável de alguém que já deveria saber

que o ato é algo rechaçado pelo nosso ordenamento jurídico. A Lei 7.716, da discriminação racial, é clara em dizer que preconceitos ou atos de discriminação referentes à procedência regional, também caracterizam as infrações previstas nessa lei. Portanto o fato é crime”, afirma o procurador. Mesmo ressaltando que não há uma lei específica para o enfrentamento dessas questões na rede mundial de computadores, Praxedes alerta que é inadmissível qualquer inferência onde o indivíduo possa se utilizar da internet para fins ilícitos. Aconselha que o indivíduo saiba usar Twitter, Facebook, Orkut de forma ponderada. “A internet não foi criada para que indivíduos cometam ilícitos criminais”,

comenta o procurador, defendendo uma ampla discussão pelo governo sobre o tema. Ignorância Doutoranda em Comunicação pela Universidade de Brasília, Rafiza Varão, acredita que há uma imagem deformada do Nordeste, mas isso, em si, para ela, não representa um problema. “Temos imagens formadas sobre muitas outras coisas. Fazemos isso para organizar e dar sentido ao mundo. O problema são atitudes pouco éticas ou violentas, que revelam preconceito e ignorância”, afirma a jornalista, maranhense de nascença. Ela considera o ato da estudante como pura ignorância. “Lamento que um povo tão sofrido, que não consegue ter condições decentes de desenvolvimento, especialmente por questões políticas, seja tratado com tamanho desrespeito”, diz Rafiza. Para Rafael Querrer, estudante de jornalismo que tem o costume de publicar seus comentários nas redes sociais para debater e discutir com colegas as questões que julga serem de relevância, os nordestinos não são os únicos a sofrer com o preconceito. O aluno, que é negro e filho de pais nordestinos, diz que a xenofobia e outros métodos discriminatórios estão impregnados na realidade nacional. “O que acontece é que muitos desses ‘valores’ ficam adormecidos até que um estopim possa colocá-los à mostra. Esses esconderijos de preconceitos, inclusive, são responsáveis por dificultar o combate e o debate das discriminações criminosas”, afirma. “No fim das contas, cada um é responsável pelo que diz ou escreve. Estou ciente disso, mas não controlo a abrangência dos meus comentários. Procuro fazer com que, pelo menos, eles iniciem algum debate importante, sempre respeitando o próximo”, completa. Legislação A discussão sobre as implicações legais dos atos ilícitos na internet está engatinhando, mas é importante ressaltar que a legislação atual já serve para casos específicos. Tanto que Mayara Petruso foi acionada pelo Ministério Publico e corre o risco de sofrer um duplo processo penal. Primeiro, por prática de conduta tipificada na lei de discriminação racial, que prevê pena de um a três anos de reclusão. Segundo, pela utilização dos meios de comunicação social para divulgar preconceito, que rende punição de três a cinco anos de cadeia. A estudante ainda deve ser acionada juridicamente pela a seccional da OAB do Maranhão, Pernambuco e Ceará por racismo.

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CIDADANIA

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Zoar não é nada engraçado A prática do bullying, antes visto como brincadeira entre colegas, tem virado caso de polícia e é cada vez mais discutido nas escolas

Edmar Araújo

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parência física, raça, local de nascimento, orientação sexual, religião. Do aspecto físico ao credo, a cada dia, mais crianças e jovens sofrem com apelidos e tratamentos hostis no ambiente escolar. Isso tem nome: bullying. O termo de língua inglesa é utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica no intuito de intimidar o agredido. Quem já passou por isso sabe que nem sempre é possível conviver com a situação. O guitarrista Weiller Oliveira, 21 anos, nasceu com uma má formação de mandíbula, fator que deixou seu queixo desproporcional ao rosto. Sem culpa, sentia-se condenado por alguns colegas da escola. “Faziam graça com meu rosto e me chamavam de tanta coisa que nem gosto de lembrar”, desabafa.

Weiller também diz que isso provocou um isolamento dos demais colegas. “Tinha dia que eu não queria ir pra escola. Inventava qualquer coisa pra não passar por aquela humilhação”, recorda. O músico fala que em determinados momentos chegou a agredir quem caçoava dele. “Minha mãe foi chamada na escola. Mas a maior vítima era eu. Até com psicólogo eu conversei. Vale lembrar que o apoio dos meus pais e amigos foi fundamental”, destaca. Violência, não brincadeira O advogado criminalista Divino Sales diz que o assunto tem ganhado força nos tribunais e que, neste ano, recebeu em seu escritório pais que desejavam acionar a Justiça contra os agressores. “As pessoas não sabem, mas cometer bullying é crime”, enfatiza. O advogado acredita que em breve muitas batalhas serão travadas no Judiciário por causa do bullying. “É uma tendência. As pessoas vão em busca de seus direitos e talvez uma lei mais enérgica ajude a diminuir as ocorrências.” Para o psicólogo e terapeuta comportamental Nélio Azevedo, casos de bullying são motivo de alerta. “Do isolamento social ao suicídio, tudo pode ocorrer.” Azevedo afirma que o bullying é um sofrimento de proporções desconhecidas e somente os agredidos sabem quão constrangedor e hu-

destes comportamentos para que possamos assumir posturas”, explica. A professora coordena um projeto na Escola Classe 203 de Santa Maria Sul no combate à prática. “Presenciei nas escolas inúmeros casos de alunos em situação de violência física ou intimidatória. Juntamente com a direção, equipe pedagógica e professores, discutimos uma maneira de minimizar o problema.” Ela conta que o interesse em ajudar foi muito grande por parte dos professores. “O que me motivou foi perceber que todos estavam interessaPapel das escolas dos em ajudar de alguma forma. Deram opiniões e se colocaram Contudo, coibir o comà disposição do Serviço portamento de quem prade Orientação Educatica o bullying não basta. Tinha dia que não cional no sentido de É o que diz a pedagoga queria ir pra escola. realizar as ações proAnita Maria Lins da SilInventava qualquer coisa postas”, enfatiza. va. Para ela, é preciso que as escolas estejam atentas para não passar por Anita destaca que o aos comportamentos dos aquela humilhação.” assunto, embora muiagressores e dos agredidos Weiller Oliveira, 21 anos to discutido em sala de aula, deve ganhar para que haja uma extensa mais espaço em outras atuação dos educadores no áreas da sociedade. combate e na conscientização. “Percebo que as instituições estão “Este fenômeno está sendo identificado interessadas em debater a questão e bus- pela intensa manifestação de atos e comcar saídas. A coibição não dá resultados portamentos agressivos e intitulado de se não estiver acompanhada de orientação bullying. Porém, se formos pesquisar o e efetiva atenção aos fatos que surgem no tema perceberemos que o fato está aconambiente escolar”, destaca. Segundo Ani- tecendo há muito tempo. O assunto deve ta, é fundamental entender este compor- continuar a ser debatido na sociedade, tamento e assim lidar com o problema. não somente na área educacional, mas no “O principal mecanismo é a identificação campo da Justiça”, finaliza. milhante é sofrê-lo. “O agressor utiliza de violência transvestida de brincadeira para externar seu preconceito, sua intolerância e sua maldade. Normalmente ele reproduz modelos do seu meio.” O psicólogo detalha que qualquer pessoa pode sofrer bullying. “Há pessoas que serão perseguidas por causa da cor, do cabelo, do time de futebol, da religião. Não se trata de atacar apenas defeitos, mas aquilo que também não se aceita.”

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Ilustração: Tawana Yung

Alguns casos recentes de bullying

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>> A imigrante irlandesa Phoebe Prince, 15 anos, enforcou-se em Massaschussetts, EUA, após ter sido vítima de bullying na escola. Nove adolescentes que estudavam com Phoebe foram indiciados por abuso sexual, assédio moral, perseguição e violação dos direitos civis. >> A adolescente Holly Grogan, após sofrer violentos ataques através do Facebook, Bebo e Myspace, pulou

de uma ponte sobre uma movimentada estrada na Inglaterra. >> No Japão, a princesa Aiko, de apenas 8 anos de idade, deixou de ir a escola após sentir fortes dores de estômago. Os sintomas surgiram após a menina ter sido tratada de maneira rude por colegas de escola. Aiko é filha do príncipe herdeiro Naruhito e da princesa Masako, e neta do imperador Akihito.

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CULT UR A

Fotos: Letícia Freire

Saltimbancos modernos Letícia Freire O asfalto é o seu palco, o semáforo é a iluminação e a plateia, os motoristas. Quando o sinal fecha é o momento de mostrar talento, tudo o que sabe sem medo de errar. Nas ruas de Brasília, motoristas podem assistir a espetáculos de vários estilos, de malabaristas e estátuas vivas a palhaços. Uns só de passagem; outros, daqui mesmo. Amadores e ausentes de qualquer cadastro, chegam a ganhar R$ 100 por dia. O Artefato acompanhou dois deles.

Ficar com certeza

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assando por um cruzamento da W3 Norte, seja de carro, de ônibus ou a pé, é impossível não vê-lo. O homem que segura um violão sem cordas e fica parado ao lado do semáforo é uma estátua viva, verde de cima abaixo, que interpreta Raul Seixas. Com a barba característica do cantor e o instrumento inútil para a música, mas útil ao silêncio de uma escultura, o tocantinense Amarildo Alves dá vida ao “maluco beleza”. A ideia de ser estátua viva surgiu quando estava na Espanha e trabalhava como pintor em construções. “Passei uma temporada em Barcelona e tinha um amigo que teve a ideia de ser estátua viva. Depois que vi, resolvi fazer. Até então, não tinha coragem. Antes, pintava quadros e cheguei a me fantasiar de Salvador Dalí, até que voltei ao Brasil. Como estava desempregado, comecei a ser estátua viva aqui também”, conta. Amarildo explica que em Barcelona é comum o trabalho de estátuas vivas. “No centro turístico tem umas 100”, diz. Mesmo com a intensa concorrência, ele ganhava de 80 a 100 euros por dia. Entre críticas e elogios, Amarildo já sofreu até agressão. Uma mulher começou a chutá-lo dizendo

que era “coisa do demônio.” A cor verde do chapéu ao sapato é uma mistura de protetor solar, creme hidratante e tinta. Para a produção, demora em torno de 25 minutos. Antes de ser Raul Seixas, o artista interpretava um homem triste segurando um coração. Em uma época, deixou a barba crescer e começaram a chamá-lo de Raul Seixas. Então pegou um violão velho em casa, tirou as cordas e escolheu a cor azul. Até um mês atrás essa era a sua cor, mas as pessoas associavam a escolha a um partido político, a um time de futebol. Ele decidiu mudar para o verde. Amarildo fala o que a sua família acha do trabalho de estátua viva. “Meus filhos gostam, os dois acham divertido, a minha mulher é que tem vergonha.” Em Brasília, ganha por volta de R$ 50 a R$ 100, dependendo do dia. Amarildo se propõe a ficar todos os dias oito horas como estátua viva. Planos para o futuro? Tem uma banda de pop rock, chamada Rapina, e está juntando dinheiro para comprar os instrumentos. E resume seu pensamento, com um pezinho no personagem que representa: “Faça o que tu queres pois é tudo da lei”.

Meu porto é a estrada Amarildo, estátua verde de Raul Seixas na W3: “Faça o que tu queres pois é tudo da lei”

A chilena Fernanda e o paraense Kennedy se conheceram na Bolívia: destinos ciganos

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sinal fecha e um casal de malabaristas tem um 1min40s para mostrar trabalho. “Buenas tardes, buenas tardes”, e assim começam a chilena Fernanda Flores e o paraense Kennedy Sousa. Na primeira parte, os dois fazem o malabares um ao lado do outro; depois, jogam as claves juntos, em sincronia. Os dois se conheceram em uma convenção de malabaristas na Bolívia. Fernanda é de Concepción, no Chile; Kennedy, de Belém. Vieram juntos ao Brasil de carona, levaram cinco dias para chegar a Brasília. Estão aqui há menos de um mês. Kennedy começou a aprender malabarismo, depois conheceu a Fernanda, ela o ensinou a andar de monociclo, jogar claves e os dois começaram a viajar juntos. Estão na estrada há um ano. Com o malabarismo eles se sustentam e estão viajando pelo Brasil. Kennedy já conheceu Norte, Nordeste e uma parte do Sul. Depois pretendem ir ao Rio de Janeiro. Kennedy gosta de fazer malabarismo ao som de música eletrônica. “Você expõe sua arte ao mesmo tempo interage com a pessoa. É uma troca de energia”, define. Com relação ao dinheiro, Fernanda fala que varia. Depende se está no início ou no fim do mês. “Geralmente no fim do mês as pessoas não ajudam muito porque já estão sem dinheiro”, explica. Os dois ficam no semáforo

o tempo que conseguem suportar. Entre risos, Kennedy fala que “o sol de Brasília é muito forte.” Os treinos são feitos na rua. “Praticamos quando dá tempo ou quando o semáforo está aberto. Na verdade, o treino é no próprio semáforo”, conta Kennedy. Os dois já passaram por situações inusitadas. “Eu estava no semáforo trabalhando com fogo, na Bolívia, e tinha um policial parado ao lado. Uma clava com fogo escapou das minhas mãos e o acertou. Felizmente, ele só me falou para ter cuidado. Foi um grande susto.” Com o Kennedy a situação não foi tão perigosa, mas desconcertante. “Eu estava fazendo malabares e a minha clave quebrou no meio. Fiquei com vergonha da situação e pedi desculpas porque não podia continuar. O bacana é que muita gente me ajudou para que pudesse comprar uma clave nova: ganhei R$ 30.” Sobre a família, Kennedy diz que eles já aceitaram e o chamam de peregrino. “Não consigo me ver na minha cidade. Consigo me ver viajando sempre, trocando de endereço o tempo todo. Depois do que vi no Brasil, pretendo conhecer mais”, afirma. Fernanda teve mais problemas. “Eles não aceitam, mas dizem ‘faça o que você quiser’.” Planos para o futuro? Continuar viajando e conhecer outros países da América Latina.

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Artefato - 12/2010