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Corpo da matéria Ano 16 - Edição 49 - Novembro de 2018 Revista Laboratório do Curso de Jornalismo PUCPR Pontifícia Universidade Católica do Paraná R. Imaculada Conceição, 1115 Prado Velho, Curitiba PR REITOR

Waldemiro Gremski DECANA DA ESCOLA DE COMUNICAÇÃO E ARTES

Eliane C. Francisco Maffezzolli

COORDENADORA DO CURSO DE JORNALISMO

Suyanne Tolentino De Souza COORDENADORA EDITORIAL

Suyanne Tolentino De Souza COORDENADOR DE REDAÇÃO/JORNALISTA RESPONSÁVEL

Paulo Camargo (DRT-PR 2569)

COORDENADOR DE PROJETO GRÁFICO

Rafael Andrade

Alunos - 6º Período Jornalismo PUCPR Breno Henrique Machado Soares , Caroline Deina de Farias , Flávia Silveira Farhat , Heloisa Vivian Masetto , Isabel Bruder Woitowicz , Letícia Garib Machado , Luis Gustavo Ribeiro , Luiz Guilherme Ribinski Bernardo , Luiz Renato Farah Mourão , Luiza Romani Fogaça de Souza , Nicolle Heep , Patricia Helena de Ribeiro Munhoz Costa , Rafael Henrique dos Reis Bronze , Sophia Thereza Cabral , Stella Augusta Prado Alves , Vitória Gabardo de Oliveira

Imagem de capa: Caroline Deina 6ºP Jornalismo

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POLÍTICA

Solução do passado

Solução do passado

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CIDADES

O outro lado da cidade

Baseado em quê?

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COMPORTAMENTO

Clube dos solitários

Eu vou sozinha, e você?

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SOCIEDADE

De passagem

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LITERÁRIO

Maquiagem permanente

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ESPORTE

Guardiões de aluguel

A jornada dos meninos

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TECNOLOGIA

Decifra-me ou te devoro

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política

Solução do passado

Manifestações em diversos setores da população brasileira aumentam pedidos por intervenção militar, demonstrando falta de conhecimento histórico Caroline Deina e Sophia Cabral

U

ma interpretação errada da Constituição Federal ou uma carência por parte do governo para solucionar problemas. Mais do que intenções políticas, esses são os principais motivos apontados pelo professor de História Filipe Remowicz para os exaltados gritos de intervenção militar ouvidos durante a greve dos caminhoneiros no último mês de maio. O termo é usado quando as Forças Armadas assumem o poder de determinado país em um momento em que há ausência ou incapacidade de um governo em controlar sua gestão. Geralmente ocorre em períodos de guerra ou golpes de Estado. No Brasil, de acordo com o professor, mesmo após os 21 anos em que os militares estiveram no poder, os brasileiros criam um imaginário utópico de solução para os problemas do país, como a corrupção política e a crise econômica. “Deveríamos olhar para o passado, em 1964, quando a intervenção acabou se tornando em uma ditadura tendo como resultado a falta de democracia em pleno século XX.” Cristiane Seixas é vendedora há dez anos. Sempre trabalhou duro, desde criança e, hoje, com 60 anos, afirma já ter “visto políticos de todos os jeitos”. Nunca foi muito de protestar nas ruas, mas considerando o difícil momento vivido no país, ela resolveu que deveria fazer sua parte. Adepta

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do movimento pró-intervenção militar, Cristiane afirma que luta por um sistema sem corrupção e sem o “caos” em que o país vive. No momento, para ela, isso só poderá ser implementado por meio dos militares. “Precisa para ter ordem, para que a nossa nação deixe de sofrer e ser maltratada pelos políticos corruptos.” Essa visão é também compartilhada pelo caminhoneiro Gabriel Antunes, de 52 anos. Ele lembra da infância vivida no governo militar em que “o país se desenvolvia e a população vivia melhor, com mais poder de compra e mais conforto”. Ele conta que o pai, que era metalúrgico à época, conseguia sustentar cinco filhos sem dificuldades, com casa própria, comida na mesa todos os dias e

bons presentes no natal. Enquanto isso, Gabriel luta para dar aos filhos dinheiro para a merenda na escola. Mas o que mais pesa para o caminhoneiro é a questão da segurança. “A gente podia andar na rua sem preocupação, as crianças brincavam do lado de fora dos portões e todos viviam bem. Hoje virou festa e as pessoas não respeitam nem a polícia, nem o Exército. Falta pulso firme para governar o país”, declara. Para a assistente social Ilda Lopes Witiuk, os pedidos de intervenção militar se devem à falta de conhecimento sobre o assunto por parte da população em geral. “As pessoas por desconhecerem que na intervenção militar os direitos de todos são cerceados e que a sua liberdade fica subordi-

Manifestantes fizeram placas para pedir pela intervenção.

Barbara Schiontek


política Barbara Schiontek

nada a autoridade, pedem pela intervenção.” A assistente social ainda afirma que, por outro lado, essas reproduções de discurso tem seu cunho político na medida em que “há o controle ideológico de alguns grupos que não querem mudanças e que se reproduzem ao defenderem posturas opressoras e autoritárias”. Para ela, com a propagação da ideia que que “alguém pode cuidar de tudo”, a população passa a autoridade para determinado grupo de pessoas, que seriam as mesmas que “dizem que é necessário intervenção militar para acabar com a bagunça e você concorda e repete o discurso porque já está acostumado a não se envolver”. O engenheiro aposentado Antônio Carvalho, de 65 anos, cresceu numa família com boas condições em uma cidade no interior do estado. Mudou-se para Curitiba na época do vestibular e, por aqui, constituiu carreira e família. Para ele, hidrelétricas, pontes ou viadutos, e parte da estrutura do país só foram possíveis pelo trabalho realizado pelos militares. Ainda que com alguns “percalços”, o país avançou de alguma forma. Mesmo assim, Antônio diz nunca ter pensado na volta de uma intervenção militar. Para ele, ela teve seu tempo e “cumpriu o que tinha para o momento”. Ainda assim, considerando que o Brasil parece caminhar para um “desprogresso”, o engenheiro admite pensar que uma intervenção poderia colocar “um pouco mais de ordem nas coisas”. De acordo com o professor Remowicz, com a manipulação de dados que havia na época da ditadura, muitos fatos foram facilmente manipulados. A censura da imprensa tornou simples esconder uma crise econômica, assim como o desemprego ou greves. Dessa forma, toda geração educada durante o período sofre com isso, tendo as consequências aparentes até o dia de hoje. “Se

Greve também foi palco de pedidos pela intervenção. antes não era usada a palavra crise e hoje, ela está estampada em todos os jornais, fica ‘clara’ a ideia de que ‘antes era melhor’. Observo que a ditadura não foi criticada após o seu fim, ela simplesmente acabou. Torturadores não foram julgados pelos seus crimes e hoje são chamados de heróis.” A visão do professor é confirmada pela servidora pública Samara Jocelin, que reconhece o desenvolvimento da época em que os militares comandavam o país, mas também relata que os problemas eram “escondidos debaixo do tapete”. Segundo a servidora, “ficou bem visível que parte da população foi beneficiada durante a ditadura e outra parte sofreu nas mãos dos militares”. Samara lembra que muitos amigos, principalmente jornalistas, foram censurados e perseguidos, por verem certos problemas e não serem autorizados a divulgar essas questões. “Se as coisas estavam tudo certo para você, ótimo. Agora se você não concordava com a administração, era melhor ficar quieto, porque o governo não aceitavam reclamações, questionamentos e protestos da população. Não havia democracia”, declara. Em entrevista à Agência Brasil, o comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Dias da Costa Villas Boas, afirmou no

início de 2018 que a intervenção militar no Brasil seria um retrocesso e identifica uma fragmentação da população brasileira. O general relata que o Exército tem dialogado com o governo e candidatos à Presidência da República, oferecendo consultorias para equilibrar a situação no país, mas que a tomada de poder por parte do Exército não é uma opção no momento. De acordo com o sociólogo Roberto Muniz, os pedidos de intervenção militar se devem principalmente à “incapacidade” das autoridades responsáveis em garantir a segurança para a população assim como conter momentos de crise. Dessa forma, pedidos de intervenção ganham força como uma possível “rápida solução”. Por outro lado, para o sociólogo, o pedido vai contra direitos democráticos adquiridos ao longo dos anos no país. Muniz ainda afirma que a falta de instrução por parte da população, sobretudo política, faz com que, muitas vezes, quem pede pela intervenção não sabe ao certo o que significa. “Hoje, considerando ainda a força que as redes sociais alcançaram nos últimos anos, as pessoas ganham mais voz por meio do Facebook, por exemplo. Encontram outros que pensam igual, independentemente do que for, e isso ganha força para atingir outros espaços.“

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politics

A solution from the past

Protests pro military intervention continue to grow among Brazilians. Caroline Deina e Sophia Cabral

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misinterpretation of the Federal Constitution or failure on the part of the government to solve problems. These are the main reasons, well beyond political intentions, pointed out for the loud calls pro military intervention heard during the truckers’ strike last May, according to Filipe Remowicz, a History Professor. This term is used when the Armed Forces take over a given country at a time when there is absence or inability of a government to control its management. It usually takes place when a country is at war or when there ia a coup d’etat. In Brazil, according to Professor Remowicz, even after the 21 years of military power, Brazilians create a utopic vision of a solution for the country’s problems, such as political corruption and economic crisis. “We should look back at 1964, when the intervention turned into a dictatorship, resulting in lack of democracy in the 20th century.” Cristiane Seixas has been a saleswoman for ten years. She has worked hard since she was a child, and today, at 60, she says she has “seen all kinds of politicians”. There was never much protest in the streets, but given the difficult moment the country is going through, she decided that she should do her part. Adept of the pro-military intervention movement, Cristiane says that she fights for a system without

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corruption and without the “chaos” into which the country has plunged. For her this can only be implemented through the military. “It’s needed so there is order, so our nation can stop suffering and being abused by corrupt politicians.” This idea is also shared by a truck driver, Gabriel Antunes, 52 years old. He recalls a childhood during the military government in which “the country was developing and the population lived better, with more buying power and more comfort”. He says his father, who was a welder at the time, was able to support five children without difficulty, to have his own house, put food on the table every day and buy good gifts at Christmas. Me-

anwhile, Gabriel struggles to give his children money for lunch at school. But what matters most to the trucker is the issue of safety. He states: ”We could walk on the street without worrying, the children played outside the gates and everyone lived well. Today there is chaos and people respect neither the police nor the Army. There is no firm hand to rule the country.“ ForIlda Lopes Witiuk, a social worker, the requests for military intervention are due to the lack of knowledge on the subject by the population in general. “Because people do not know that during a military intervention their rights are restricted and their freedom is subordinate to authority, they ask for this

Barbara Schiontek

Protesters made signs to ask for military intervention.

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politics Barbara Schiontek

intervention.” Mrs. Witiuk still affirms that, on the other hand, these reproductions of speech have their political aspects, since “There is an ideological control of some groups that do not want change and defend oppressive and authoritarian views.” For her, as the idea that “a single person can take care of everything” is spread out, the population gives power to a certain group of people, who are the same ones who say that “military intervention is necessary to end the mess and you agree and repeat the speech because you are already used to not getting involved. “ A retired engineer, Antonio Carvalho, 65, grew up in a family with a good life style in a city in the countryside. He moved to Curitiba at the time of the college entrance examination, and in this city he made a career and raised a family. For him, hydroelectric plants, bridges or viaducts, and part of the structure of the country were only possible because of the work done by the military. Despite some “mishaps”, the country has advanced somehow. Even so, Antonio says he never thought about the return of a military intervention. For him, its time is over and “it has fulfilled what it planned to achieve back then”. However, as Brazil seems to be headed for “lack of progress”, Mr. Carvalho admits he has considered that an intervention could put “a little more order in things”. According to Professor Remowicz, due to the manipulation of data that took place during the time of dictatorship, many facts were easily manipulated. Censorship of the press has helped to hide an economic crisis, as well as unemployment and strikes.Therefore, the educated generation raised during that time suffered and the consequences are still felt today. “If the word ‘crisis’ was not used before and today it is prin-

Strikes were also a place to ask for this intervention. ted in every newspaper, the idea that ‘that time was better’ is clear. I notice that dictatorship was not criticized after it was over, it simply ended. Torturers have not been tried for their crimes and today they are called heroes.” Professor Remowicz’s view is confirmed by Samara Jocelin, a public servant, who recognizes the development of the country when the military ruled it, but she also reports that the problems were “hidden under the rug.” According to Samara, “it became very clear that part of the population benefited from dictatorship and another part suffered in the hands of the military.” Samara recalls that many friends, mainly journalists, were censored and persecuted for seeing certain problems and not being allowed to disclose such issues. “If things were all right for you, great. But if you did not agree with the administration, it was best to be quiet because the government did not accept complaints, questioning and public protests. There was no democracy, “she says. In an interview for Agência Brasil, General Eduardo Dias da Costa Villas Boas, the Brazilian Army commander, stated in the beginning of 2018 that military intervention in Brazil would be a setback and he identifies a fragmentation of the Brazilian

population. General Villas Boas reports that the Army has been talking to the government and to candidates for the Presidency of Brazil, and has provided advice to balance the situation in the country, but the taking of power by the Army is not an option at the moment. According to Roberto Muniz, a sociologist, requests for military intervention are mainly due to the “inability” of the authorities who are responsible for ensuring security for the population as well as contain moments of crisis. In this way, requests for intervention gain strength as a possible “quick solution”. On the other hand, for the sociologist, the request goes against democratic rights acquired over the years in the country. Mr. Muniz also says that the lack of education on the part of the population, mainly political, results in the fact that those who ask for intervention are not sure about what it means. “Today, given the strength that social networks have achieved in recent years, people express their voices through Facebook, for example. They find others who think alike, no matter the issue, and this gains strength to reach other spaces. “

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cidades

O outro lado da cidade Em áreas de ocupação em Curitiba, que nada lembram grande parte da capital paranaense, milhares de famílias lutam pela chance de ter casa própria e chamar atenção para a situação em que vivem Nicolle Heep Vitória Gabardo

Nicolle Heep

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cidades

A

qui é assim, um ajuda o outro, é uma comunidade”, é o que conta Juliana, depois que pede para seu filho pequeno dividir a comida com a amiga. Ela explica que ficou desempregada, não conseguiu mais pagar aluguel e a solução que achou para que seu filho de 3 anos não ficasse sem um teto sobre a cabeça, foi se mudar para a ocupação 29 de março na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). “Agora não me vejo em outro lugar, aqui é meu lar e mesmo que a gente brigue às vezes, essas pessoas são minha família." Assim como Juliana, vários ocupantes passaram por situações iguais ou similares. Sentado, quieto, quase que escondido com seu chapéu preto, estava Eugênio Oliveira. “Sabe quantos anos eu tenho? 88!”. Alguém responde: mas o semblante ainda é de 18. Eugênio abre um sorriso quase infantil. “Todos esses dentes são meus”, afirma ele

orgulhoso. Seu Eugênio veio de Maringá e morou em dois outros bairros da capital antes de chegar ao CIC. Seu irmão o levou até o local dizendo que havia uma casa à venda. O vendedor pediu R$15

O terreno, perante a lei, não é seu, e o local que chama de lar, como está construído neste pedaço de terra, corre o risco de um dia também não ser mais sua. Em relação a morar em uma

“Aqui é assim, um ajuda o outro, é uma comunidade.”- Juliana, dona de casa mil pelo imóvel, mas Eugênio tinha apenas R$9 mil. Só agora, no mês de julho que ele vai terminar de pagar a última parcela. A casa, ainda sem reboco nas paredes, apesar de simples, se destaca por ser de tijolos e não remendos de madeira.

ocupação irregular, o senhor com cara de quem viveu muito e sorri constantemente, diz que tenta não incomodar ninguém, mas ser amigável e tratar todos bem. “Tenho bastante alegria, saúde, como muito feijão com arroz. Gosto mesmo é de carne, mas a Nicolle Heep

Na comunidade 29 de março, as mães ensinam os filhos a viver em unidade desde pequenos. Jornalismo PUCPR Revista CDM

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cidades Nicolle Heep

Apesar da dura realidade, Eugênio Oliveira sempre encontra uma razão para sorrir.

carne é muito custosa.” Seu Eugênio é um dos tantos moradores das ocupações do CIC que são atendidos pelo Projeto Ocupações Urbanas- POU, desenvolvido por alunos do curso de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

que faz parte do grupo de alunos que integram o POU, conta que alguns desses pontos são a falta de dinheiro para pagar aluguel e problemas em relação a políticas públicas.

locais. “As pessoas que vivem nas ocupações são trabalhadores que muitas vezes possuem dupla/tripla jornada de trabalho, sem falar na jornada extra das mulheres nos serviços domésticos, que foram

Desde 2016, o projeto trabalha com o objetivo de estudar a produção do espaço urbano nas ocupações de terra presentes na Cidade Industrial e dar visibilidade para a luta por moradia e por melhores condições de vida para essas comunidades.

“Tenho bastante alegria, saúde, como muito feijão com arroz.”- Eugênio Oliveira, ocupante.

Por meio de entrevistas e pesquisas com moradores do CIC das ocupações Nova Primavera, 29 de Março, Dona Cida e Tiradentes, o grupo constatou diferentes pontos que pudessem explicar como aconteceu o surgimento dessas ocupações. Heloísa Mocelin,

A estudante conta que antes de entrar na faculdade de Geografia, pouco conhecia sobre luta urbanas e as próprias ocupações, mas que hoje tem um olhar renovado e fundamentado sobre a questão e as pessoas que vivem nesses

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segregadas da cidade por uma lógica capitalista de financeirização da cidade, muitas vezes invisíveis para o Estado e ao planejamento urbano.”


cidades

A moradora e dona de uma mercearia da ocupação, Beatriz Martins de Lima, ou Bia, como é conhecida, é como uma mãe para a comunidade. As rugas de seu rosto denunciam o amor e preocupação que ela tem por cada família da ocupação. Bia é coordenadora da 29 de Março e conta com satisfação que a comunidade foi fundada com o propósito de que as pessoas que não pudessem pagar aluguel tivessem um

lugar para morar, uma vida mais tranquila e não precisassem morar na rua. Ela explica que o espírito no local é de ajuda mútua e que o dever dela como coordenadora é procurar fontes de ajuda, como ONGs, famílias que têm interesse em dar auxílio para os habitantes da ocupação. Por fim, a coordenadora pede para as pessoas visitarem a ocupação, para que possam entender

que é muito diferente do que muitos falam. Ali não vivem apenas bandidos e pessoas que não querem nada com a vida. “Aqui, vivem famílias que realmente precisam, que estão na luta para conseguir o que é seu. É só por isso que estamos aqui, porque se o governo olhasse para nós seria bom."

Nicolle Heep

Como uma mãe na comunidade, Bia sempre consegue tempo para ajudar alguém na ocupação.

Dados no Brasil No Brasil, 11,4 milhões de pessoas vivem em ocupações desornadas, ou como também são chamadas, irregulares. Esse é um dado do censo de 2010 do IBGE, o mais atualizado até então. Comunidades, favelas, invasões, são exemplos do que é considerado uma ocupação irregular. Em Curitiba, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Curitiba (IPPUC) em 2007, 241 mil

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comportamento comportamento

Baseado em quê? Luiz Mourão

Nem a cura de todos os males, nem a causa da maldade no mundo. Ela divide opiniões e, por vezes, relações. Evidencia extremismos, gera tabus e instiga a curiosidade. Para uns milagre, para outros, veneno, a única certeza incontestável sobre a maconha é: O debate é necessário.

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comportamento

S

ó na mesa tem quantas drogas, três?

Estas foram as palavras do diretor do Departamento de Políticas Pública sobre Drogas (DPPD), João Iensen, referindo-se às substâncias que tinha diante de si: café, açúcar e cigarros. Os dois primeiros geraram, apenas se tratando de exportações, mais de US$ 15 bilhões em 2017. O último, de acordo com Instituto Nacional do Câncer José de Alencar Gomes da Silva (Inca), foi responsável pela arrecadação de cerca de R$13 bilhões em impostos no ano de 2015.

Em comum, os produtos, que de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) enquadram-se na definição de drogas, como “substância que, introduzida no organismo, interfere no seu funcionamento”. Mas, afinal, como é que coisas tão distintas podem enquadrar-se em um significado tão próximo e ainda assim causar tipo de impressões tão diferente? Piti Hauer, especialista em dependêncuia química, explica que embora tenham em comum o fato de alterar o sistema nervoso central, diferentes drogas fazem

isso de formas características, dependendo de seu princípio ativo, do organismo do usuário e do ambiente em que são utilizadas. Entre os diferentes ângulos da discussão Hauer alerta, sobretudo, sobre a forma como o debate é conduzido. “Além da questão ideológica, que dificulta o debate, é sempre bom lembrar que há pessoas dentro do sistema com interesses econômicos”, aponta o especialista, que reitera a “ineficácia da política do álcool” e “os grandes interesses econômicos da indústria farmacêutica”.

Os lados da moeda Seu Jorge é porteiro em um prédio de classe média alta. Jamais fumou maconha e não usa drogas lícitas. O que sabe sobre o “verdinho” é fruto de uma vida de experiências, que o ensinou a se manter “longe das tentações”, mas sem julgar o que age diferente. “É isso que deixa as pessoas malucas, alucinadas! A gente sempre ouve falar sobre aqueles que se perdem na vida e acabam nas ruas. Eu não sou contra quem usa, afinal, é um vício. Depois que se experimenta, não tem como largar, como cigarro e bebida. O problema é que a maconha faz parte de um processo em que, como a gente vê e ouve falar, o final é sempre trágico. Existe um momento em que se começa a fumar, fumar e fumar, o corpo fica naquela ansiedade, acaba o dinheiro e a pessoa tem que recorrer ao traficante. Aí, já sabe, por R$ 10 de maconha ele manda matar. O traficante é perigoso, na maioria das vezes não tem nada a perder e vai fazer o que tiver que fazer pelo dinheiro. É uma ambição que sempre passa dos limites e só gera situações perigosas. Hoje em dia todo mundo sabe quem vende, quem compra e onde tem. Eu sei, como que a polícia pode não descobrir? É por isso que temos que desconfiar, entender porque é que as pessoas nada está sendo feito.”

Geógrafo e professor da rede pública de ensino do estado, Julio fuma maconha desde o fim da década de 90, diariamente. Aproveita as propriedades psicoativas da canabis em seu horário livre, para relaxar, descansar e se divertir. “Eu tenho mais anos da minha vida fumando maconha do que não fumando. São 24 anos de uso e aprendizado em diferentes momentos e por diferentes razões. O discurso contra as drogas e a maconha me assusta, pois geralmente vem acompanhado de agressividade, imposição e, normalmente, tem pouco argumento. Não há fundamento em acusações tão decorrente, relacionando maconha a um comportamento assassino, por exemplo. Me expor assim, é uma forma de militar e de participar de uma conscientização sobre a droga, que embora me faça bem, não é algo apenas positivo. Para combater seus males, provenientes do uso precoce, por exemplo, temos que nos informar, debater e ouvir os especialistas. Só assim evitaremos que os jovens tenham mais problemas com seu uso, afinal ela está em todo o lugar, em todo o momento. No centro da cidade e nos terminais da região metropolitana o acesso é indiscriminado! Combater com a repressão já se mostrou uma tentativa falha.”

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comportamento

Para ele, os benefícios ou malefícios de uma droga não são representados pelo seu status legal. “O Brasil é o segundo país que mais consome Ritalina e o primeiro em Rivotril”. De acordo com Hauer, que também representa a Ordem dos Advogados do Brasil no Conselho Estadual de Políticas Públicas sobre Drogas, estes são medicamentos que levam na caixa a advertência de possível dependência, mas podem ser encontrados em qualquer farmácia e “são muito mais agressivos ao organismo humano do que a maconha consumida recreativamente”. Para João Iensen, o grande vilão de toda a questão tem nome. “O nosso maior problema hoje é a droga legal, o álcool. Esta é a verdadeira porta de entrada para as drogas”, garante o diretor do departamento. A prova de seu pensamento é o folder explicativo lançado pela repartição, que descreve as drogas mais populares da atualidade de forma isonômica, perfilando lado a lado, álcool, maconha, tabaco, cocaína, crack e ecstasy. Paralelamente ao trabalho de prevenção prestado pelo DPPD, a Secretaria de Segurança Pública do Paraná também é responsável pela repressão dos atos criminosos, entre os quais o tráfico de drogas que corresponde, diretamente, a impressionantes 33% dos motivos de encarceramento no país, de acordo com dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen). A Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc), vinculada à Polícia Civil, responsável pela força de coerção, tem como delegado-titular Riad Braga Farhat, que falou acerca de seu entendimento profissional e pessoal sobre as drogas no Brasil. Farhat reforça as opiniões de que a maconha não é porta de entrada para outras drogas e também atribui o posto ao álcool. “Vemos na prática. A pessoa sob efeito da

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maconha não faz coisas que não faria normalmente”, alega. Este é o motivo que o faz, ao contrário da maioria dos servidores do seu meio, ser favorável à legalização. Ele acredita que, embora os fatores entorpecentes possam ser “bastante danosos à vida”, o cidadão deve ter direito de escolher. “A maconha não é inofensiva, mas não é uma droga que leva às pessoas a fazer loucura. Desconheço, em 25 anos de polícia, alguém que tenha fumado e matado alguém em virtude disso”, alega. O delegado, todavia, não acredita na legalização como forma de mitigar o tráfico devido às grandes proporções do país. “Temos que levar em consideração todo o fator cultural que cerca milhões de habitantes”, finalizou.

na frente de sua mãe. Além disso, manteve no passado um relacionamento de sete anos com alguém que não partilhava de seu hábito. Encontrar-se em situações constrangedoras ou exageradas é comum aos “maconheiros” e por muitas vezes isto aconteceu ao professor. Encaminhado para delegacia por portar um baseado, Siqueira teve que frequentar encontros de psicologia em grupo e se apresentar à Justiça. Nessa ocasião, co ta ter ouvido do juiz que a maconha o faria “se prostituir e vender bens da família para comprar mais”, embora nunca tenha ouvido sobre pessoas com esse histórico, não com maconha. Jorge Fernando da Silva diz já ter visto em seu dia a dia situações

“Se há uma ideia bem estabelecida é a relação do uso da maconha na adolescência com a esquizofrenia.” Vauto Alves Mendes Filho Marginalizado De acordo com o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), realizado pela Universidade Federal de São Paulo, cerca de 1,5 milhão de pessoas usam maconha diariamente no Brasil. Entre eles, Julio Siqueira, que conta ser usuário desde o fim da década de 90 e se aproveita das propriedades da erva para relaxar ao fim do dia, depois de seu expediente na Secretaria Estadual de Educação. Julio, que é geógrafo e professor, diz nunca ter tido problemas com a família e costuma fumar

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delicadas envolvendo a canabis. O porteiro de 63 anos acredita que pelo fato de ser proibida, assim como outras drogas, o caminho menos traumático para reduzir sua má influência na sociedade é a repressão. Ele explica que viu “algumas vezes na vida” os reflexos da droga, em amigos e conhecidos. “É um caminho sem volta, que começa com ansiedade, se transforma em agressividade e, de repente, acaba com o envolvimento com traficantes perigosos”, relata. Vindo de uma criação “relativamente rígida” e religiosa, seu


comportamento

Jorge diz que o fato de ser “contrário à maconha” não o torna contrário aos usuários, “afinal, essas pessoas tem um vício grave e devem ser tratadas com dignidade”. Ele não crê na legalização como forma de combate ao tráfico, pois acredita que a contrapartida é “muito complicada”. Atitudes diretas do estado, como o fortalecimento na fiscalização e coibição, parecem ser mais efetivas aos olhos do porteiro. “Se liberar, fica ainda mais fácil e vai ser mais um problema nas nossas ruas. Às pessoas já bebem e fazem tanta besteira, será que não estaremos criando outro problema, ao invés de resolver?”, conclui.

que a regulamentação da atividade, possibilitaria aos envolvidos, contar com o amparo da justiça para resolver as situações de desacordo.

Militante

No Paraná, de acordo com o governo do estado, alarmantes 59,3% dos encarcerados respondem por tráfico, o que o torna proporcionalmente, entre todos da união, o com mais ocorrências do tipo e demonstra a urgência do debate.

Advogado, militante e organizador da Marcha da Maconha em Curitiba, André Feiges acredita que o tema deve ser abordado sob três perspectivas. Como uma droga de uso recreativo ou cultural, como objeto de um crime, e sob as possibilidades medicinais. Feiges, que se aprofunda no tema sob o ponto de vista social, acredita que legalizar a maconha e outras drogas significa regular o seu uso e proteger os cidadãos. Feiges enfatiza a deficiência da Justiça em lidar com as drogas ao explicar que, atualmente, obriga-se a abstinência do usuário para que a atenção seja prestada. “É como se um médico procurado para tratar uma gripe, por exemplo, dissesse que o paciente tem que se curar para ser tratado. Isso atinge negativamente a opinião das pessoas que passam a ter a falsa impressão de que o uso ou não das substâncias é apenas uma questão moral ou de vontade”, explica. Embora a legalização não seja o “solucionador de todos os problemas”, o advogado acredita que a legalização diminuiria os crimes relacionados ao tráfico, já

“Existe contrabando de cigarros e bebida no Brasil, o que não existem são assassinatos que constituem um problema social relacionados a estes dois fatores”, diz ele. “Quando o comércio é clandestino, se alguém quer cobrar uma dívida não pode recorrer aos meios normais, como alguém que, por exemplo, vende um carregamento de bebidas e não recebe por isso. Como isso se resolve? Como tudo o que não é regrado, por meio da violência.”

Fora desta estatística, Gordinho, de 28 anos, tira do comércio da maconha uma renda, que ao contrário de seu salário, permite que ele possua uma casa confortável e sustente com qualidade a si e sua esposa. Conta já ter sido encaminhado a delegacia quando mais novo, pois “se arriscava mais”. Atualmente, acredita na diplomacia para com os que deveriam perseguí-lo. “Às situações variam, mas depois de já ter tido a casa invadida, hoje consigo negociar e manter as coisas tranquilas”, conta. Em outros tempos diz ter passado por problemas reais “com drogas de verdade”. “Eu era novo, conhecendo as novidades, tinha dinheiro e bons contatos porque vendia de tudo. Em um carnaval, após cinco dias acordado, a base de cocaína e LSD, tive a primeira convulsão.” Gordinho teve uma overdose que gerou outras duas nos meses seguintes. Com uma veia estourada, passou por um tratamento que durou dois anos. “Neste período, fiquei longe do álcool e drogas, eu tomava medicações e só fumava maconha mesmo”, relembra Gordinho. Em busca de uma vida sem complicações, Gordinho reduziu sua carteira de clientes e agora dedica-se a um público restrito. “Por whatsapp, Facebook ou ligação, eu atendo os clientes, normalmente amigos, pessoas que tenho outro tipo de contato também”, afirma. Gordinho, que tem o pai falecido, diz ter uma boa relação com sua mãe baseando-se na ideia de que “a verdade é sempre melhor que a mentira”. Seu primeiro contato de com algum tipo de droga foi na quarta série de uma escola pública em Curitiba, quando experimentou clorofórmio e, pouco tempo depois, maconha. Jornalismo PUCPR Revista CDM

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comportamento

De acordo com Vauto Alves Mendes Filho, médico psiquiatra e doutor na área, embora muitas pessoas a utilizem, muitas vezes durante toda a vida, sem maiores problemas, a erva pode causar dependência química, psicológica e outros danos mentais irreversíveis. “Se há uma ideia bem estabelecida, atualmente, é a relação do uso da maconha, em grande quantidade e na adolescência, com a esquizofrenia”, esclarece. Segundo o psiquiatra, não existem meios seguros para o consumo da cannabis. Os fatores que elevam os riscos de transtornos psiquiátricos são, principalmente, histórico familiar, déficits de atenção e alterações no pensamento, mesmo que de forma muito sutil.

A síndrome do pânico também pode ter fortes laços com o uso da maconha. Em duas direções distintas e controversas ela pode, em alguns casos, ser a única causadora desse transtorno, como pode também ajudar a controlá-lo. “Acompanhei o caso de um jovem para quem recomendei, como forma de tratamento, abandonar totalmente o hábito. Sem tomar remédio nenhum, apenas com a interrupção do consumo, ele praticamente se curou”, afirma. Por outro lado, muitas pessoas recorrem ao canabinóide devido ao seu efeito ansiolítico, entretanto, reitera o especialista, “cabe analisar casos individuais”. Ele, inclusive, afirma ser este o grande desafio da sua função, já

que qualquer tema que envolva o uso de drogas deve ser tratado levando em consideração que diferentes drogas, causam diferentes efeitos em diferentes pessoas. Mendes Filho afirma que o abuso de drogas altera o “circuito da recompensa”, o que faz com que o organismo “peça a reposição de fontes de prazer”, devido a necessidades desenvolvidas pela corpo “Existem circunstâncias em que pacientes acabam por fazer o uso da maconha em detrimento de drogas mais pesadas, para aliviar a tensão e ansiedades causadas pela abstinência do crack e da cocaína, por exemplo”, finaliza.

Luiz Mourão

A maconha contém quantidades nocivas de alcatrão, que aumentam as chances de desenvolvimento de doenças pulmonares.

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crônica

Passando por aqui Patrícia Munhoz

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enho uma hora, antes de começar meu trabalho. Estou sentada em frente ao computador, escrevendo estas palavras num caderno que carrego para cima e para baixo. É o caderno de ideias, um tipo de diário, e, no momento, serve para esta crônica, pois é isso que estou tentando fazer. Esquento-me com uma xícara de café, só é a segunda do dia. Não posso demorar, porque já sei que minhas mãos não conseguem acompanhar meus pensamentos, ainda mais quando uma ideia surge. Não tenho tempo nem para pensar se essa é uma boa ideia. Só devo escrever, só posso escrever. É só o que me resta. Decidi que essa crônica será sobre Curitiba, ou melhor, sobre Curitiba que alguém dos anos 1960 ou 70 viveu e só posso ter um vislumbre da época, das pessoas, da cidade por meio de relatos. Assim, consigo formar uma nítida imagem de como era essa cidade de que tanto ouço falar e que não consigo reconhecer pelas ruas pelas quais passo. Fico a imaginar. A moça está no sofá da sala de visita, conversando ao telefone, ou melhor, sussurrando. Ela sabe

que não pode ficar muito tempo – telefone era artigo de luxo naquela época. Então, marca logo o programa de sábado com a amiga. Já pediu permissão aos pais, eles já fizeram todo o interrogatório: Aonde vai? Com quem? Que horas? E determinaram o horário de volta, como sempre às 22 horas. O cinema fica na Rua XV de Novembro ou perto de lá – não tenho certeza, a história não é minha – moças e rapazes se encontram na frente da bilheteria, a moça olha com timidez e o rapaz devolve o olhar com a mesma timidez, talvez mais, e um sorriso no canto da boca. Enquanto os outros entram para tentar pegar o melhor lugar, os dois, moça e rapaz, vão comprar pipoca e refrigerante. O tempo não passa, são os cinco minutos mais longos de suas vidas. O silêncio predomina e, mesmo assim, ela deseja para sempre esse momento e anseia que o sentimento seja reciproco. Depois do cinema, o grupo de amigos decide passar na Confeitaria das Famílias, que fica na rua XV de novembro – essa tenho certeza, porque ainda existe e conheço. Risadas, comentários sobre o filme e muitos olhares entre moça e rapaz, embalam

a noite. A moça fica atenta no relógio e 22 horas em ponto, está em casa como combinado com os pais. Já fez o relatório do passeio para os pais e já está na cama. Mesmo exausta, o sono não chega, porque as lembranças da noite não a deixam em paz e tudo o que ela quer é que o próximo sábado chegue logo. No próximo final de semana haverá baile no clube, ela vai com os pais – moça direita deve estar em família nesses eventos – e se tudo der certo, o rapaz vai pedir permissão para dançar com ela. Como se diria hoje: esse foi um dos rolês – gíria paulistana dos anos 80, muito usada pelos jovens de hoje – de uma jovem dos anos 60 ou 70, não sei ao certo. Foi um momento de um tempo que não volta mais, de uma Curitiba que já não existe, pois essa se modificou, assim como as pessoas e seus rolês. Apesar do que disse e não posso mais desdizer, isso não é sobre um romance dos anos 60, nem sobre a cidade, muito menos sobre os rolês de outras épocas. Isso é apenas uma tentativa tola de escrever sobre algo. Dá pra dizer que isso não tem história, não tem sentido, não transmite nada e não serve para nada, só não dá pra dizer que não é uma crônica. Jornalismo PUCPR Revista CDM

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comportamento

Clube dos solitários

A matineé dançante, que acontece todos os sábados e domingos em um antigo galpão na Travessa da Lapa, completa 30 anos unindo mais de 8 mil casais Heloísa Masetto, Stella Prado, Flávia Farhat

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literatura mitológica conta a história de um garotinho de asas brancas e cabelos cacheados que vaga pelo mundo disparando flechas e fazendo completos estranhos caírem de joelhos em paixão repentina uns pelos outros. Eros, na mitologia grega, ou Cupido, na romana, é o filho descuidado dos deuses Vênus e Mercúrio. Atira suas setas de forma aleatória, quase negligente, e raramente agrada seus alvos. O que pouca gente sabe é que Eros, ou Cupido, atende ainda por um terceiro nome na cidade de Curitiba. Aqui, o filho dos deuses responde por Rosaldo Pereira e se esconde no corpo de um radialista na casa dos 70 anos, de camisa social, cabelos ralos e, até onde se pode ver, nada de asas brancas. O cupido agora cumpre seu ofício de maneira muito mais cautelosa. Dono do Clube dos Solitários, um dos mais populares bailes para a terceira idade do país, seu Rosaldo de negligente também não tem nada. Nos 30 anos que se seguiram desde a inauguração do baile, já assistiu a quase mil casamentos de gente que se conheceu ali, em seu estabelecimento, e chegou até o altar. O ser humano precisa ter alguém pra conversar”, diz seu Rosaldo. E comprova sua teoria, observando as mais de 500 pessoas que comparecem ao baile todos os fins de semana com devoção. Ali, a ordem da casa é tomar uma cer-

veja bem gelada, arriscar alguns passos de dança e, quem sabe, ser atingido por uma das flechas do tal cupido brasileiro. A história do Clube dos Solitários, entretanto, nem sempre contou com um local físico para reunir os apaixonados. Inicialmente, Rosaldo Pereira conduzia um programa da rádio Colombo, o conhecido Quadro Casamenteiro, no qual se propunha a ler cartas de amor para formar novos casais. A atração, que existe desde 1982, foi idealizada e desenvolvida por ninguém menos do que o diretor de televisão global Daniel Filho, dando origem, em 1987, aos encontros semanais de pessoas até então carentes e que não tinham espaço para manifestar seus sentimentos além das ondas sonoras do rádio. Um esboço rudimentar dos aplicativos de relacionamentos da era digital. Foi a pedido dos próprios ouvintes que Rosaldo começou a procurar por um lugar onde os encontros pudessem acontecer. Depois de algumas tentativas nas praças públicas da cidade, marcaram de se reunir em um salão espaçoso, na Sociedade União Juventus, que acomodou em torno de 60 pessoas no primeiro encontro oficial do clube. Para um salão tão grande, o encontro acabou ficando pequeno. ‘’Ficou um negócio estranho, aquele silêncio no salão”, conta o idealizador do baile. Aos poucos, os participantes dos encontros

Rosaldo e a esposa Karen

propuseram melhorias. “Põe uma musiquinha pra ver se quebra o gelo”, sugeriu uma das senhoras. “E vê se arranja umas cervejinhas também.” No terceiro encontro, os 60 convidados se transformaram em 200. Assim, a reunião dos solitários em nome do amor se tornou baile. Com eventos cada vez maiores, o baile transitou entre uma balada no bairro Prado Velho, passou um tempo na Sociedade Operária 13 de Maio, de lá foi para o 4.º andar do Diretório Acadêmico Nilo Cairo, até que finalmente se fixou na Travessa da Lapa. O espaço alugado foi um sucesso, quando em 2006, um problema na fiação iniciou um incêndio. “Às duas da manhã, não teve jeito, o teto desabou com tudo”, lamenta Rosaldo. A pedido dos solitários, não foi permitido que o baile acabasse, sendo temporariamente transferido para a Sociedade Operária 13 de Maio e posteriormente para um barracão localizado na Rua Barão Rio Branco, onde permanceu por quase cinco anos. Foi então que, em 2009, seu Rosaldo recebeu a proposta de voltar a Travessa da Lapa, naquele mesmo salão que havia pegado fogo, só que agora reformado. No primeiro dia de janeiro de 2010, o baile volta oficialmente ao seu endereço atual. Aos sábados e aos domingos, a programação começa com música mecânica. A mesa de som é operada por ninguém menos do que DJ Rosaldo Pereira. Na sequência, duplas e conjuntos musicais embalam o salão. As músicas que fazem a trilha sonora vão de Altemar Dutra a Beatles, mas o forte mesmo são os ritmos gaúcho, sertanejo, valsa e bolero, ou seja, o que pode ser dançado coladinho, a dois.

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comportamento

“Nem quando a gente estiver de bengala vamos deixar de vir aqui. Eu seguro a bengala dele, ele segura a minha, e a gente dança devagarinho.” Marcia Gonçalves” Mais do que um baile semanal, o Clube é uma reunião em torno de Rosaldo. Se ele não está lá, a coisa não funciona. A marca Em Nome do Amor se deve a uma música homônima da dupla Leandro e Leonardo, pedida mais de dez vezes por baile. De tanto casamento que já aconteceu por lá, Rosaldo agradece, mas não aceita mais convite para ser padrinho. Em compensação, os casais podem fazer a festa comemorativa lá mesmo. Ele diz que mais de mil pessoas se conheceram e casaram desde que os bailes começaram. Sem contar os 8 mil matrimônios registrados “com convite e tudo” do Quadro Casamenteiro.

Amor de Baile Das oito mil histórias de amor que começaram nos bailes está a de Niuza de Oliveira e de José Antonio Sicora. Ela frequenta o baile há 15 anos e conta que, quando os dois ouviam os primeiros acordes de sanfona da música “Bugio Roncador”, procuravam um ao outro no salão do clube para dançarem juntos. Mas eles não se conheciam oficialmente, o que sempre os unia em todos os bailes era o prazer em bailar aquela vaneira gaúcha. Até que depois de rodopiar pelo salão dançando a música favorita dos dois, ele pagou uma cerveja para

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ela e eles decidiram se conhecer melhor. “A dança sempre deu muito certo, dia 25 de dezembro vai fazer três anos que estamos namorando e estamos felizes da vida”, conta Niuza. A maioria dos casais que se formam no baile é porque existe uma compatibilidade na dança. Porque apesar de levar o nome de Baile dos Solitários, de solitários os participantes não têm nada. Eles conhecem todo mundo, fazem amizades com facilidade e o mais importante: dançam a noite toda.“Se não te tiram pra dançar, você vai lá e tira”, conta Lineri Afonso. Há um ano ela conheceu o namorado no baile, mas diferentemente de Niuza e José Antonio, que demoraram muitas danças para se conhecer, assim que viu o pretendente, ela mirou no alvo e acertou em cheio. Lineri já frequentava outros bailes e não estava em busca de um relacionamento, mas acredita que aquele foi o seu dia de sorte porque, além de bom dançarino, ela e o parceiro têm muito em comum. Com 55 anos e frequentadora de bailes há pelo menos cinco anos, Lineri explica o preconceito que as pessoas têm com os casais que se formam no baile: “As pessoas


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acham aqui não vem gente boa, mas todo mundo aqui é decente, é um ambiente família”. Quem pode confirmar isso é Márcia Gonçalves, que conheceu o marido Ismael Galvão no Clube dos Solitários, quando já tinha desistido de “amar de novo”, porque pensava que os homens que frequentavam o baile só querem curtição. Até o dia em que viu Ismael frente a frente. “Além de lindo, ele agiu diferente: foi gentil, cuidadoso e simpático.” Foi em uma sexta-feira que os dois só foram à festa para tomar uma cerveja depois do trabalho. Ele a convidou para dançar, eles se beijaram e Márcia se apaixonou, mas não tinha muita esperança, porque já tinha vivido experiências parecidas anteriormente. Até que no dia seguinte ele a convidou para conhecer sua casa... Pouco tempo depois, ela se mudou para lá. Marcia e Ismael definem o amor como algo a se compartilhar, seja deleitando-se em momentos felizes ou cuidando um do outro em situações mais amargas. O casal, que está junto há cinco anos, e já passou por muitas fases no relacionamento, deixa bem claro que joga limpo em qualquer assunto e se sente seguro quando eles estão juntos um do outro.

Mesmo para os que já não buscam mais a cara metade, o baile continua sendo superestimado. Dona Ivone Mathias tem 83 anos, é uma das frequentadoras mais antigas. Há mais de 20 anos, ela vem ao baile todo domingo. Sua filha sempre agenda o táxi para buscá-la em casa, duas amigas aproveitam e pegam carona. Viúva há muito tempo, diz não se interessar por novos relacionamentos: “Quando fiquei viúva, vários homens estavam interessados em saber quanto eu ganhava”. Dona do próprio bolso, ela zomba dos interesseiros: “Se botar de cabeça para baixo, quase não cai uma moeda”. Para ela, o que importa é se divertir, seja como for. “Se der para dançar, eu danço. Se não der, eu assisto ao pessoal dançar, ouço a música.” Mãe de três filhos, já tem netos e bisnetos e afirma que quer aproveitar o tempo que lhe resta. “Enquanto eu tiver saúde, eu quero dançar por aqui!” Todavia, o clube dos solitários não é só do amor romântico, mas de um encontro de pessoas a partilhar momentos efêmeros e primordiais da vida. Uma coisa é certa, estarão reunidos no próximo fim de semana.

“Forte mesmo são os ritmos gaúcho, sertanejo, valsa e bolero, ou seja, o que pode ser dançado coladinho a dois.” Heloísa Masetto Jornalismo PUCPR Revista CDM

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Eu vou sozinha, e você? Apesar da luta feminina pela independência ao longo dos anos, viajar sozinha ainda é um grande tabu na sociedade. Mas algumas mulheres estão dispostas a mudar isso Isabel Woitowicz

Giovanna costuma guardar as fotos feitas em suas viagens Luís Ribeiro

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nde já se viu mulher viajar sozinha?” Essa frase, apesar de ser muito comum para os ouvidos das viajantes solitárias, não faz o menor sentido para elas. “Onde já se viu deixar de viajar só porque está sozinha” é muito mais adequada para esse grupo de mulheres que passaram por cima de medos e preconceitos, e saíram em direção ao mundo. Com apenas 15 anos, Maryani Fuzetti já sabia muito bem o que queria fazer quando atingisse a maioridade. Não quis festa de debutante, e muito menos um carro. Queria viajar. “Durante o ensino médio, combinei com alguns amigos de fazer um mochilão, porém, todos abandonaram a ideia. No fim das contas, não ia desistir de ir por causa deles”, conta a publicitária de 25 anos. Maryani conta que economizou durante todo o ensino médio para a realização do sonho. Pioneira

A viagem da adolescente coincidiu com o lançamento do filme “Busca Implacável”, estrelado por Liam Nelson, no qual a filha do protagonista é sequestrada em Paris e vendida como escrava sexual para um sheik árabe. Por causa disso, ela conta que foi mais cuidadosa, e deixou até de sair a noite e consumir bebidas alcoólicas por precaução.

Experiências transformadores A literatura feminina está repleta de personagens que largaram tudo, fizeram as malas, passaram uma temporada fora e voltaram novas, revigoradas. Mas será que isso realmente acontece? Para a estudante de Relações Públicas, Giovanna Salvatti, cada viagem é uma renovação. “Eu vou uma Giovanna e volto outra”, conta. Com apenas 21 anos, a estudante coleciona fotos e carimbos no passaporte, e admite ter uma

fosse. Não estava nem aí, tirei dinheiro e fui.” Em uma das muitas conexões em que passou horas sentada no aeroporto, Giovanna conta que conheceu, por acaso, uma senhora, que mudou sua maneira de ver o mundo. A senhora da história estava com câncer terminal, e contou que tinha apenas alguns meses de vida, mas que ainda não havia desistido, e estava viajando para realizar um tratamento. “Ela estava tão feliz de estar viajando, que aquilo me marcou muito. Quando voltei para o Brasil, cortei o cabelo e doei pra uma instituição que faz perucas para mulheres com câncer. Foi minha forma de homenagem”, lembra a estudante. Giovanna tem certeza que só conheceu a senhora porque estava sozinha. “Se eu estivesse acompanhada, provavelmente ia estar distraída conversando, e nunca ia ter a chance de ouvir uma história dessas”, conta.Além

“Na época, eu não via como uma decisão tão seria assim, me pareceu normal ir sozinha.” Maryani Fuzetti, publicitária da família em sair do país, com 18 anos ela embarcou num avião rumo à Europa para uma viagem que duraria dois meses. Apesar de pouca idade, e de não ter nenhuma experiência com viagens, não sentiu medo. “Na época, eu não via como uma decisão tão séria assim. Para mim, me pareceu normal ir viajar sozinha. Hoje em dia, vejo que outras mulheres, mesmo adultas, acham super arriscado e morrem de medo. Eu acho que não tive essa malícia, só fui”, comenta.

paixão por lugares pouco comuns ou “mal falados”. Em umas de suas viagens pela Europa, ouviu comentários extremamente negativos sobre a Albânia, país do Leste Europeu. Contrariando todos, decidiu descobrir a verdade. “Eu ouvia tanta coisa e pensava, ‘Meu deus, não pode ser verdade, eu vou lá ver’”. Quando contou pra mãe da decisão, ouviu o que já esperava. “Ela ficou louca (risos), falou que ia bloquear meu cartão caso eu

das pessoas, dos lugares, e das memórias, Giovanna tem certeza de que viajar sozinha a transformou em outra pessoa. Uma versão melhor dela mesma, como gosta de pensar. “É bizarro olhar a Giovanna antes e a Giovanna agora˜. Ela conta que se considerava uma patricinha chata, ficava duas horas me arrumando antes de sair de casa, só queria saber de comprar. Eu não me aceitava, eu precisava de aprovação. Agora eu Jornalismo PUCPR Revista CDM

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estou bem em qualquer lugar ,e bem comigo mesma. Eu posso sair de chinelo e não me importo. É questão de se entregar, não ter medo, e levar tudo como experiência”, finaliza. Em uma de suas aventuras mais recentes, Giovanna passou um mês inteiro na Amazônia. “Eu fui pesquisando, fui perguntando às pessoas o que tinha pra fazer por aonde eu ia passando. Não gosto de planejar, gosto de descobrir”, comenta. Para 2019, está planejando uma viagem de trailer pelo Brasil, com dois amigos que conheceu em uma viagem para o Alasca.

do público que busca morar fora é feminino. Cida Perão faz parte dessas estatísticas. Com 71 anos, fez a primeira viagem sozinha em 2008, 10 anos mais jovem. Sem nunca ter saído do país, fez um passaporte, comprou passagens, reservou os hotéis sozinha e só contou para os filhos um dia antes: “eu preparei um almoço na minha casa, e na hora de servir a sobremesa, eu trouxe o meu passaporte e as passagens. Acharam que eu estava louca”, conta rindo da lembrança.

medo de ficar na casa de pessoas que eu não conhecia, e por isso, não aceitei logo de cara”, lembra Cida. Apesar do receio, aceitou quando o casal se ofereceu para busca-la no aeroporto de Milão. “Eu pensei: ‘ Meu deus, se forem pessoas boas, tomara que eles me encontrem. Se não, tomara que a gente se perca’”, comenta. Quando desembarcou, viu seu nome escrito em uma plaquinha de papel, e soube que eram seus anfitriões. A experiência com a família italiana marcou a viagem de Cida. “Eram pessoas maravilhosas, com vários filhos e netos, que me acolheram muito bem. Somos amigos até hoje”, conta sorrindo.

“Quero durar até os 100 anos para. Enquanto puder, eu vou viajar.” Cida Perão, aposentada Espiríto aventureiro Uma pesquisa realizada em 2017 pelo Airbnb (aplicativo de hospedagem) revelou que a mulher brasileira é uma das mais aventureiras do mundo, perdendo apenas para as japonesas, que lideram o ranking de viajantes solitárias. No Brasil, o Ministério do Turismo confirma. 14% das entrevistadas pela Sondagem do Consumidor em 2017 pretendem viajar sozinhas em algum momento próximo, número superior ao de anos anteriores. Em 2015, o site TripAdvisor já estava de olho na tendência, e constatou que 25% das usuárias brasileiras já tinham realizado uma viagem solo. Nas viagens de longa duração, como intercâmbios, as mulheres são maioria. Na Agência English First (EF), 63%

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A primeira parada foi Portugal, e durante dois meses viajando, Cida passou pela França, Espanha, Itália, Holanda, Bélgica e Grécia. Sem internet e sabendo falar apenas algumas palavras em inglês, ela conta que a comunicação era toda a base de gestos e escrita. Para falar com os filhos e imprimir mapas das cidades que estava, Cida frequentava Cyber Cafés, e se virava como conseguia. A experiência foi tão boa que quem 2013, repetiu a viagem para a Grécia, e resolveu se aventurar em Praga, na República Tcheca. Naquele ano, a senhora conta que começou a estudar inglês sozinha, pela internet, e que conheceu um casal de italianos em uma rede social que a ajudaram durante a viagem e inclusive, a ofereceram hospedagem em Lago di Como, no norte da Itália.“Eu fiquei com

Em meio a tantas memórias, a experiência mais marcante para Cida foi em San Gemignano, cidade italiana da região da Toscana. Ao passar pelo portal da cidade murada, Cida conta que sentiu uma energia completamente diferente. “Eu senti como se já tivesse estado lá antes. Eu já conhecia aquele lugar, andei por tudo sozinha e não me perdi”, conta emocionada. “Eu mudei na maneira de ver a vida. Aprendi que certas coisas não merecem tanta importância, nós só vivemos uma vez”. Apesar da idade, Cida ainda tem muitos planos e lugares que gostaria de conhecer. Para este ano, os destinos escolhidos são França, Polônia e Hungria. “Quero durar até os 100 anos. Enquanto puder, eu vou viajar. Eu gosto de ver coisas que agradam meus olhos”, comenta com empolgação.


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Livros para te inspirar

Aos 22 anos, Cheryl Strayed achou que tivesse perdido tudo. Após a repentina morte da mãe, a família se distanciou e seu casamento desmoronou. Quatro anos depois , tomou a decisão mais impulsiva da vida: caminhar 1.770 quilômetros da Pacific Crest Trail (PCT) – trilha que atravessa a costa oeste dos Estados Unidos, em direção ao estado de Washington – sem qualquer companhia.

Em seu livro, Gaía Passarelli relata suas aventuras sozinha pelo mundo. São histórias sobre ser consolada por um xamã andino, molhar os pés nas águas do mar do extremo sul da Índia e dormir debaixo de uma mesa de bar no Texas. É sobre viajar e voltar pra casa. Acima de tudo, este é um livro que fala sobre ser mulher e, ao mesmo tempo, ser livre pra viajar por aí sem companhia, sem medo e sem preconceito.

Robyn Davidson, uma mulher de 27 anos, conta sua trajetória pelo hostil deserto australiano, tendo apenas como companhia quatro camelos e sua cadela de estimação. Seguir viagem mesmo com o calor, cobras venenosas, e tendo que correr atrás dos camelos em fuga, Robyn surge como uma heroína extraordinariamente corajosa. Trilhas é a eloquente e sincera história de sua odisseia de descoberta e transformação.

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Eles não têm um lugar fixo. De cidade em cidade, eles controem sua própria história Caroline Deina e Sophia Cabral

Seja de ônibus, carona, de bicicleta ou a pé, eles estão sempre em movimento.

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nossa casa é onde a gente está. A nossa casa é em todo lugar.” A letra pode até ser do cantor e compositor Antônio Antunes, mas, para Moisés, essa pode ser a sua música. De nome bíblico, cristão praticante, ele saiu de Sinop, sua cidade de origem, no estado do Mato Grosso, à procura de sua Terra Prometida aos 17 anos.

como ele mesmo conta, acabou tendo que sair do lugar onde trabalhava. Preferiu deixar sua cidade chamada Taquara, no Rio Grande do Sul, escolhendo a fria capital paranaense como lar, pelo menos por enquanto. Muito bom em serviços de construção, é bem requisitado e por um preço bem mais em conta, de acordo com ele.

as ruas, conseguindo emprego, pagando o primeiro aluguel na pensão e semanas depois morando na rua de novo, porque não conseguiu largar o vício e perdeu tudo, outra vez”.

Hoje, com 44 anos e mais de 20 estados percorridos, ele continua sua busca. Não porque não tenha encontrado nenhum lugar para chamar de casa, mas sim porque se identificou com muitos. Sempre há uma região nova para conhecer e sempre deve-se voltar para as já conhecidos.

A cidade, atualmente, oferece muitas oportunidades de trabalho e, por isso, seu José não tem previsão de saída. Mas, ao mesmo tempo, não existe nada que o prenda aqui. Se outras chances aparecerem, vai embora.

Quanto a Moisés, essa não é mais uma questão para ele. Sempre frequentou a igreja, estilo tradicional. “Sou cristão, vou à igreja e mesmo que não acreditem, nunca dependi de bebida ou de alguma droga.”

Sua última viagem teve Curitiba como destino. Saindo de Goiânia, mais de 1.300 km percorridos. De avião, nada muito demorado: em cerca de 3h30 de voo é possível completar o trajeto. Contudo, para Moisés a viagem foi bem mais longa. Ele fez o caminho entre as capitais com um meio de transporte bem menos convencional: de bicicleta. Foram alguns longos dias de estrada, com paradas em cidades que ficavam pelo caminho. “Às vezes, eu viajo de ônibus, peço carona na rua ou vou de bicicleta”, conta Moisés. Atualmente, ele mora nas ruas da cidade, ajudando a contabilizar os cerca de 1.700 moradores em situação de rua, de acordo com dados da Fundação de Ação Social (FAS), em 2016. Seu José, de 55 anos, também é, atualmente, um morador das ruas de Curitiba. O ex-militar do Exército, primeiro sargento, de cabelo cortado estilo “milico” e de bigode bem feito, está na cidade há seis anos. Por conta de “um, dois, três ou mais canecos” no horário de serviço,

De acordo com a assistente social, 60% das pessoas que conseguem sair dessa realidade acabam voltando para as ruas.

“Eu já cansei de ver gente deixando as ruas, conseguindo emprego, pagando o primeiro aluguel na pensão e semanas depois morando na rua de novo.” Regina Gonçalves, assistente social Quanto a morar nas ruas, seu José explica que “os três canecos” ainda o atrapalham muito. “Eu consigo dinheiro, trabalho bem. O problema é a bebida, não consigo parar.” A assistente social Regina Gonçalves conta que a bebida e as drogas são a principal pedra no caminho das pessoas em situação de rua. Apesar dos esforços para incentivar o trabalho e uma vida de qualidade, muitos homens e mulheres não conseguem deixar o vício de lado e procurar uma estrada mais sossegada. “Eu já cansei de ver gente deixando

Em pouco tempo, o viajante consegue citar diversas histórias da bíblia, de diversos personagens, sobretudo a de seu xará Moisés, que, assim como ele, explorou muitas terras. O fato de viajar muito é para conhecer diversos lugares, pessoas, histórias, conhecer seu país e mundo. “O Brasil é muito grande”, fala ele. Por isso, seu próximo destino é o nordeste, conhecer as praias e tomar sol. E quando o Brasil acabar? “Daí eu estou pensando na Europa. E o que fazer lá, a gente descobre quando chegar”, conta Moisés.

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Enquanto uns trocam de cidade por diversão, para explorar novos horizontes, Neuza não tem lar fixo por questões de segurança. Ela e a filha Melissa, de 7 anos, saíram de Santa Leopoldina, no Espírito Santo, para fugir das ameaças do ex-marido. Cássio ficou desempregado e procurou os bares para distrair a preocupação com o dinheiro.

O dinheiro que ela consegue como pedinte ajuda no almoço e nos “golinhos” do fim do dia, que ainda não tem previsão de acabar. “Eu quero parar de beber, mas eu passo por cada coisa que só a cachaça consegue apagar”. Pedir dinheiro é algo que Marcelo se recusa a fazer. Há mais de 20 anos morando nas ruas, Marcelo não tem rumo, não tem horário,

“Às vezes, eu viajo de ônibus, peço carona na rua ou vou de bicicleta.” Moisés, pessoa em situação de rua Se endividou. Neuza começou a trabalhar escondido para ajudar a família e, no segundo dia, não pode mais ir à firma, com vergonha das marcas no rosto. Nesta data, fez parte do grupo de 503 mulheres vítimas da violência física por hora no Brasil, de acordo com o levantamento de 2017 do datafolha. Foi assim no dia seguinte, no outro e no próximo. Até que cansou. Juntou as coisas e partiu com a filha, rumo à casa da mãe em Araraquara, São Paulo. Mas dessa vez, foi Neuza quem procurou a bebida. Com vergonha, ela deixou a família e há dois anos pula de cidade em cidade. “Prefiro não criar a minha filha do que deixar ela ter uma má influência por perto. Um dia eu vou me recuperar e quando isso acontecer, eu volto para os braços dela”, conta, com as lágrimas transbordando. Como não conseguiu um emprego desde que chegou à Curitiba, Neuza fica nos sinaleiros, fazendo malabarismo, habilidade que ela aprendeu com uma amiga de estrada.

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não tem compromissos, não tem que agradar a ninguém. É “a vida que pedi a Deus”, segundo o artesão. Marcelo chega a fazer sete pares de brincos por dia, feitos de EVA, arame e alguns produtos naturais, como sementes, folhas e frutos. Nunca é a mesma composição. Ele roda a Região Sul e Sudeste em busca da sua matéria-prima. Esta é a sua segunda vez em Curitiba. Quer aproveitar a época do ano para fazer brinco derivados do pinhão e depois partir para Minas Gerais, onde as sementes são mais variadas. Marcelo pensa em aumentar a gama de objetos e partir para os colares, pulseiras e até outros tipos de artesanatos, já que normalmente ele consegue tirar pouco mais de R$ 10 por dia, enquanto ele já viu pedintes conseguirem R$ 100. Ele não pensa em desistir, em largar a sua arte. Quer conquistar porque merece, não porque pediu.


sociedade

Todos jĂĄ tiveram uma vida antes das ruas. Alguns querem essa vida de volta, outros preferem nĂŁo ter um lugar fixo e viver onde quiser.

Sophia Cabral

Jornalismo Jornalismo PUCPR PUCPR RevistaRevista CDM 33 CDM

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literário

Maquiagem permanente A morte vai alcançar a todos nós, mas nada nos impede de recebê-la bem arrumados Breno H. M. Soares

Breno H. M. Soares

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literário

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portão é pichado e quase estreito demais para um carro. O interfone fica dentro de uma pequena grade presa à parede na Trajano Reis. Quando ele abre e eu entro, a construção antiga e discreta à direita perde minha atenção por completo. Alguns metros à frente está o que pode ter sido uma garagem anos atrás, mas claramente não é mais. O azulejo é branco e estéril como a imagem que vem a cabeça ao pensar em um hospital ou — tento não pensar assim, não é minha pauta, mas é impossível — um abatedouro. Desço a rampa até que a parede do prédio a minha direita acabe. No lugar dela, a calçada leva a uma pequena escada onde um homem me chama. Subo, não antes de olhar para uma porta baixa que estava escondida de meus olhos até o momento e ver as urnas, palavra usada pelo pessoal de lá. Naquele momento anotei em meu caderninho: caixões. A porta baixa, impede parte de minha visão, mas os caixões de criança não escapam meus olhos. Depois de subir as escadas, pergunto ao homem que me chamava: — Você é o Marco? — Sou, mas não o que você tá procurando — responde ele. Marco Bosa é um dos donos da funerária, com quem tento falar há mais de uma semana por indicação da tanatóloga com quem vou me encontrar. A autorização dele é necessária para que eu esteja presente durante o trabalho dela. O único jeito de encontrá-lo foi indo diretamente àquele lugar. No decorrer do dia, ele não parava de se mover entre a funerária, a clínica — local onde eu estava — e sei lá por onde mais.

Trabalha na funerária há dezoito anos, cuida da clínica e ajuda aqui e ali quando necessário. Tem a pele enrugada e olheiras que eu não esperava ver naquele lugar por acreditar que seria estereotípico demais. Encontrar alguém de olhar tão fúnebre trabalhando em uma funerária, quem diria? Mas não é Marco que eu vim entrevistar. É Edelgard Malafaia. No telefone, ela me disse que todos a chamam de Ed. Ela está usando um casaco de lã para se proteger do frio. Tem cabelos curtos e loiros. A pele é branca, clarinha, clarinha. Quando ri — ela faz isso bastante —, seu rosto todo fica corado e sua risada transforma o clima do ambiente. Animada, divertida, risonha. Os sapatos são fechados, brancos e de borracha. São mais fáceis de limpar em sua linha de trabalho. É dia de plantão e ela precisa estar preparada. Nunca se sabe quando a morte vai chegar. Edelgard trabalha há 34 anos com funerárias, 22 deles como tanatóloga. Quando cheguei, ela já estava à espera de um corpo. Em pouco menos de 30 minutos estávamos no andar debaixo novamente, ela já sem seu casaco de lã, vestida toda de branco. A clínica pareceu assustadora quando entrei no portão, mas estar dentro dela com aquela mulher por alguns minutos retirou toda a estranheza.

Ela diz que sente por aquelas pessoas. A cada corpo que trata, pensa nas histórias daquele ser humano em sua mesa, mas já está há tempos no serviço. Não tem dificuldades com lidar com os corpos em seu cotidiano: seis a oito por dia de plantão. Incomoda um pouco quando são muito jovens ou crianças. — Lembro dos meus filhos. Mas, tirando esse sofrimento, ela diz que o trabalho é “fascinante”. Sempre uma nova história. Em sua mesa deitam-se os finais de vidas cheias de dor, alegria, amigos, acontecimentos, sofrimentos e tudo o mais que pode acontecer. Em sua mesa, deitam-se os finais, sim, mas os desfechos de vidas inteiras. “O final de uma acaba de chegar”, penso comigo mesmo quando vejo o portão abrir de dentro da clínica. O carro da funerária se aproxima de ré, devagar e eu não me importo em anotar ou decorar a marca ou a cor dele. Só um homem sai e Ed pergunta se ele está sozinho hoje, enquanto recebe dele o relatório do corpo. Alzheimer avançado. — Só? — pergunta ela para o motorista, que responde que é o que está no relatório. A preocupação é válida. São muitos produtos diferentes, para causas mortis diferentes, e algo não especificado pode dar problemas.

Breno H. M. Soares

A maquiagem é parte essencial da preparação dos corpos para o velório.

Marco, o Marquinho, também é o nome do homem que me recebeu e me guiou para o escritório. Jornalismo PUCPR Revista CDM

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literário

— Se a pessoa é hepática e eu uso o produto padrão, é facinho de a pele ficar verde ou chumbada. Marlos é o motorista. Simpático, não deve ter mais do que 30 anos e trabalha há dois meses para a funerária, mas também é eletricista. Aproveitando os horários de plantão, seus dois empregos ajudam a pagar as contas. Ele ajuda Ed a retirar o corpo de dentro do carro da funerária e levá-lo para a mesa que fica atrás de uma parede. Lá, removem o lençol que a esconde. Senhora K., 88 anos. Morta às 11h30 daquela quinta-feira fria de final de outono. Por um instante, meus olhos se fixam nos dela, abertos sobre a mesa. Lúcidos e límpidos, de um castanho claro bonito, provavelmente tão vivos quanto sempre estiveram. Lembrei de ler em algum lugar que a sensação de ver sentimentos nos olhos dos outros era puramente psicológica e naquele instante concordei. Edelgard me perguntou se eu estava bem e eu disse que sim. Julgava-me imune ao efeito de corpos e não era minha primeira vez vendo alguém morto. Para todos os efeitos, a estranheza me afetou por apenas por alguns instantes. Marlos foi embora e Ed começou seu trabalho, me explicando o passo a passo. Ela lavou o rosto, a cabeça e o pescoço da mulher. Então abriu um pequeno corte no pescoço e puxou a carótida para fora. Através de uma agulha colocada na artéria, começou o trabalho de substituir o sangue pelo líquido arterial, feito para preservar os vasos e dar uma tonalidade mais viva à pele, ao menos tanto quanto possível. Enquanto me contava dos detalhes, aos poucos eu entendia melhor o que ela quis dizer com fascinante. — Ela teve um AVC em algum momento da vida, olha.

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A tanatóloga apontou a região da orelha direita da Senhora K. e depois a comparou com a esquerda. Olhei de perto. Ambas estavam brancas, sem circulação, mas uma delas tinha uma coloração levemente diferente da outra. Edelgard diz que é sinal de que alguns vasos não foram bem irrigados naquela região em decorrência do AVC enquanto ela estava viva. Não dá para saber se havia acontecido há anos ou se era recente, mas estava lá. Enquanto o sangue é drenado, Ed corta as unhas da mulher. É no velório que as pessoas se despedem de seus entes queridos e é bom que eles pareçam o máximo possível com quando estavam vivos. O velório é onde a ficha cai para muita gente. Por isso, o tratamento do corpo é tão importante. O produto de conservação percorre cada microvaso do corpo. As unhas são cortadas e a pele recebe uma limpeza. Para evitar qualquer odor estranho, através

Seus problemas com o trabalho são como os de qualquer um. Horários, estresse, relações. Os corpos não reclamam. Os anos fazendo a mesma coisa, sim. Depois de terminar o trabalho de preservação, ela volta a trabalhar no rosto da senhora K. Para evitar que qualquer líquido saia, preenche a garganta e o nariz com algodão. Ela não é especialmente delicada nesse processo, mas não precisa ser. Percebo que já vi médicos ainda menos delicados com pessoas vivas. Ed inspeciona os dentes da senhora. São dela mesmo e estão limpos. — Quer me ver passar mal, me mostra uma dentadura suja — conta com uma risadinha — aguento tudo, mas isso é complicado. Os olhos são fechados com uma cola específica, assim como os lábios.

“Quer me ver passar mal me mostra uma dentadura suja.” Edelgard Malafaia de um pequeno corte na barriga, cada órgão e a cavidade torácica são drenados e preenchidos com um líquido para conservação temporária. Edelgard faz tudo isso com naturalidade. Enquanto seu aparelho passa de um órgão a outro, sugando, ela conta sobre como pensa em se aposentar. — Eu já tava querendo sair do trabalho, voltar pro Rio. Você acaba se estressando, sabe? Com coisinha pequena. Aí está chegando a hora de parar.

Quando Ed começa a fazer a maquiagem da mulher, Marquinhos aparece novamente. Ele tem mais de 60 anos, com certeza, mas não pergunto. Sua voz é grave e, apesar dos olhos fúnebres, faz piada. Enquanto Edelgard passa uma pasta no rosto da Senhora K., dando à ela mais cor e encobrindo imperfeições, Marquinhos sai da sala assobiando “Gonna Fly Now”, música-tema do filme Rocky, um Lutador. Volta assim que o trabalho de Ed acaba, empurrando uma mesa de rodas sob a qual está a urna e as últimas roupas que a Senhora K. vai


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vestir. Depois Marcos empurra uma maca para o lado da mesa de tanato. Colocam o corpo na maca e então a levam para perto do caixão. Vestem Senhora K. com as roupas enviadas pela família. As peças não chamariam atenção em uma igreja. Saia preta longa, uma blusa de lã marrom e, por cima, um casaco, também de lã, bege claro. Ed fecha o zíper do casaco até o pescoço enquanto conta sobre problemas que já teve com roupas. — Às vezes um homem de 90 anos chega e mandam um terno que talvez tenha sido usado na primeira comunhão, de tão pequeno que é. Nesses casos temos que dar um jeito, cortar o terno, arrumar no corpo pra ficar bem. Mas, às vezes, temos que chamar a família. Uma vez mandaram um vestido tomara-que-caia pra uma mulher obesa e necropsiada. Não tinha como, os cortes apareciam, tivemos que pedir outras.

Depois de vestir a mulher, Ed puxa um carrinho com produtos de beleza. Alguns são de marcas conhecidas, outros eu nunca vi e talvez sejam específicos para cadáveres. A delicadeza se mostra aqui. Com cuidado ela maquia a mulher, passando uma base em seu rosto. As pálpebras não precisam de nada, Senhora K. era uma mulher vaidosa e tinha maquiagem permanente. As unhas são pintadas de bege e as mãos são juntas em frente ao corpo. Um batom rosado é passado nos lábios juntos. Enquanto faz a maquiagem, Edelgard conta que alguns trabalhos são muito mais complicados do que outros. Por exemplo, houve uma mulher que sofreu um acidente de carro e perdeu metade do rosto abaixo da pálpebra.

— Com cera, massa, algodão e cola, refiz tudinho e maquiei ela. Se você olhasse sem saber onde ela tinha machucado, não ia adivinhar. Ela levou seis horas para fazer o trabalho e depois do velório, recebeu uma ligação da mãe da mulher, agradecendo pelo serviço. Isso acontece com frequência. As famílias mandam presentes e Ed diz que já ganhou de tudo. Pantufas, chinelos, colares. — Ganhei uma jaqueta de couro uma vez — diz ela sorrindo enquanto coloca o corpo dentro do caixão com a ajuda de Marquinhos. Olhos fechados, pele branca, lábios selados e com batom. Depois de uma hora de trabalho, a diferença é clara como o azulejo ao meu redor. Senhora K. está pronta para seu último dia acima da terra.

Luiz Mourão

Um portão pichado e discreto separa a rua do trabalho de Edelgard.

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perfil

Ela não vai ficar sozinha Haja o que houver, não se iluda. Essa história tem final feliz! Caroline Deina

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la tem um sorriso cativante e um abraço caloroso, o que faz com que todos queiram sempre estar ao seu redor. Talvez, essas sejam as estratégias de Amanda para nunca ficar sozinha, o que é o seu maior medo. Filha única, ela sempre ganhou amor exclusivo dos pais, reforçado pelo carinho dos tios e dos avós, que nunca perderam um capítulo sequer da sua história. Enquanto a mãe trabalhava, era a avó quem dedicava seu tempo e seu amor, para que Amanda nunca se sentisse sozinha. Quando avó se foi, coube à tia preencher esse espaço. Mas tinha algo errado. Amanda sentiu que ela não precisava mais de cuidados. Ela queria uma companhia. Alguém para conversar. Alguém para compartilhar seus sentimentos confusos. Alguém para contar os seus segredos mais indecifráveis. Uma pessoa orgulhosa, mas humilde. Com a força de um touro, mas que soubesse como agir com a delicadeza de um pássaro. Que seja capaz de provocar sorrisos, mas que esteja por perto quando ela precisar chorar. E acima de tudo, que haja amor. Um amor genuíno, intenso, resistente, digno e seguro. E esse se transformou em seu maior sonho.

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Ela fez uma conta nas redes sociais, a princípio, com uma foto de outra pessoa. Amanda achava que ninguém iria aceitar seus olhos pequenos e seus lábios retorcidos. Mas ela precisava tentar. Amanda ainda lembra o nome do seu primeiro amor: Michel. Conversavam durante horas. Debaixo de sol. Debaixo de lua. As coisas iam bem até ele pedir para ligar para Amanda. Ela tentou, mas não conseguiu esconder a língua presa e a dificuldade na fala. Depois disso, Michel nunca mais quis assunto, sem nem mesmo conhecê-la pessoalmente. O segundo amor foi Ícaro. Ele era um pouco mais novo do que ela, mas, mesmo assim, o sentimento era puro e verdadeiro. Até o dia em que eles marcaram de se encontrar. Amanda chegou primeiro, vestindo um suéter vermelho, como eles haviam combinado. Não demorou muito para ela identificar o menino de jaqueta de couro preta, que era o grande amor de sua vida naquela época. Ela chegou perto e ele entendeu do que se tratava. Ícaro foi indelicado, com suas palavras frias e seus gestos perturbadores. Amanda costuma dizer que se a sua mãe não

estivesse por perto, ela estaria até hoje sentada na mesa daquela lanchonete, chorando. Ela deixou seu sonho de lado. Nunca iria achar um namorado, muito menos se casar. Passou semanas chorando, excluiu as contas nas redes sociais, não queria nem sair do quarto. Nunca se sentiu tão sozinha. A mãe, Daniela, se revoltou. Apesar de sempre tentar proteger a filha, Amanda tinha que viver, conhecer o mundo, conhecer pessoas, mesmo que o primeiro encontro fosse, por vezes, cercado de preconceitos. Foi aí que Daniela encontrou um projeto com pessoas parecidas com a filha. Por ali, todos


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estavam no mesmo barco, com olhos pequenos, boca retorcida e histórias peculiares. Nas primeiras vezes, ela frequentou o lugar sozinha. Estudou o terreno, os “habitantes”, as atividades. Tudo para garantir que o sofrimento não fizesse mais parte da vida da filha.

semana. E de uma hora para a outra, Eliseu e Amanda começaram a passar a maior parte do tempo juntos. Apesar de saber do que se tratava e não gostar do que estava por vir, Daniela teve de aceitar. Afinal, era a felicidade da filha que estava em jogo. E bota felicidade nisso.

E deu certo. Já no primeiro dia sozinha, na ausência, Amanda conseguiu fazer algumas amizades. Sem receio, sem vergonha, sem limitações. Fez bons amigos, como Eliseu, um homem de 46 anos, sério, pé de valsa e muito inteligente, que falava o que queria, quando queria e para quem queria. Mesmo assim, era incapaz de magoar alguém.

Eliseu passou a acompanhar as viagens, as festas de amigos. Era como parte da família. Até o dia em que ele tomou iniciativa e beijou Amanda. O mundo entrou em festa.

A amizade seguiu por um longo tempo. Ele visitava Amanda com frequência. Várias vezes na

Seis meses se passaram e o amor, a paciência, a admiração e a parceria só aumentaram. Neste domingo, em meio à uma festa de aniversário, Eliseu subiu ao palco, tomou o microfone em suas mãos e pediu o silêncio da plateia. Dirigiu as palavras primeiramente Caroline Deina

à Daniela, que deu o carinho de uma mãe ao seu genro. Em seguida, foi a vez de Jeferson, pai de Amanda, ser homenageado. Em suas palavras, Eliseu agradeceu pela confiança depositada todos os dias, por incentivar e também por colocar limites. Prometeu também que nunca deixaria sua menina preferida sozinha e sem amor. Por último, as palavras foram dirigidas à Amanda. Ela já chorava, pois sabia do que se tratava. Ele se ajoelhou, mesmo sem uma caixinha ou um anel brilhante em mãos. O que importava naquela hora era o sentimento e isso Eliseu tinha de sobra. O pedido foi feito, seguido de um beijo apaixonado, que foi aplaudido por todos de pé. Apesar de ainda não ter sido o “sim” do casamento, foi o “sim” para a próxima fase, imprevisível, cheia de expectativas e de boas energias. Foi o “sim” que encerrou o medo da menina e ao mesmo tempo realizou o seu maior sonho: Amanda vai casar e nunca mais vai se sentir sozinha, no auge dos seus 29 anos. Uma última informação, não relevante para essa história de amor: Amanda e Eliseu têm Síndrome de Down, que se trata de uma alteração cromossômica, em que os portadores desenvolvem traços físicos específicos e déficit intelectual.

Um dos principais passatempos de Amanda é cantar.

Nenhuma dessas características impedem os dois de aprender, se divertir, trabalhar, se relacionar com outras pessoas e principalmente amar. A síndrome não é transmissível e também não tem cura. A única coisa que tem cura, nesse caso, é o preconceito.

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esporte

Guardiões de aluguel As peladas não terão mais de ser canceladas. Um aplicativo promete resolver um grande problema dos times amadores: arranjar um goleiro. Heloisa Masetto, Flávia Farhat, Luis Gustavo Ribeiro

Luis Gustavo Ribeiro

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esporte

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país do futebol encontrou uma inconveniência no mercado esportivo. Nos campos de peladas de Norte a Sul, começou-se a perceber que a posição de goleiro para os jogos de domingo é sempre escassa de voluntários. Há muita gente querendo correr atrás da bola e poucos querendo segurá-la. Sabe-se lá por que, o sonho do brasileiro em campo nunca teve muito a ver com o território das traves. O curitibano Samuel Toaldo provavelmente não foi o primeiro a perceber essa situação, mas foi o primeiro a considerar uma alternativa para revertê-la. Sua própria experiência em jogos amadores o ensinou que muito jogador se sente sacrificado quando precisa assumir a posição de goleiro. E se existe crise existe oportunidade, dizem os profissionais de marketing. Toaldo comprovou essa máxima com uma ideia simples e funcional: um aplicativo para contratar goleiros de aluguel. Funcionou. Samuel Toaldo foi o primeiro goleiro de aluguel do Brasil. Começou divulgando a ideia pelo Facebook e convidou outros amigos para se juntarem a ele. Com alguma pesquisa de mercado descobriu que, em um período de 30

dias, chegam a acontecer cerca de 1 milhão de partidas em campos amadores do país, e que desse 1 milhão, 60% penam para encontrar um bom goleiro. Não levou muito tempo para que os pedidos se multiplicassem e o negócio virasse lucrativo. Toaldo encontrou um sócio, Eugen Braun, e juntos transformaram a fanpage do Facebook em aplicativo. “Procuramos várias empresas para criar o aplicativo. Erramos um pouco no começo, inclusive gastamos dinheiro com profissionais que nos deixaram na mão. No fim encontramos o Rafael e o Leo, que desenvolveram nosso aplicativo em agosto de 2016”, diz Toaldo fazendo referência a Rafael Marques e Leo Muckenfuss, desenvolvedores do Goleiros de Aluguel para Android e iOS. Hoje o Goleiros de Aluguel acumula 22.500 cadastros de goleiros e 11.226 cadastros de contratantes. Por mês, uma média de 2000 goleiros têm seus serviços solicitados pelo aplicativo pelo valor de R$30 a hora cobrado no cartão de crédito, boleto ou transferência bancária. Chamado de “Uber dos goleiros”, o aplicativo possui um sistema de avaliação bastante parecido com o que lhe confere o apelido: ao fim da partida é possível pontuar a técnica e

a personalidade para formar um ranking dos craques. Em 2017 o aplicativo foi impulsionado por um espetacular crescimento de 230% no mercado após conseguir fechar um contrato com os investidores João Appolinário e Carlos Wizard Martins, do programa Shark Tank Brasil. “Já tivemos vários relatos de pessoas que pagam a faculdade com o dinheiro que recebem pelo aplicativo”, conta Toaldo. “Há também casos de goleiros que conseguem aperfeiçoar sua técnica por meio dos feedbacks que recebem.” Além do impacto na atmosfera pessoal, o Goleiros de Aluguel também se preocupa em contribuir de uma forma mais universal: parte da renda é doada à primeira escola de goleiros em Mali, na África, que Toaldo e Braun ajudaram a fundar. Mesmo com tantas transformações e deslanches na carreira, o Goleiros de Aluguel continua sendo movido pela ideia simples que o originou: um canal de comunicação entre goleiros e jogadores. Sem grandes complicações, é assim que Toaldo e Braun tocam o jogo. E mudam muito pouco no seu modo de fazer negócio. Afinal, em time que está ganhando não se mexe.

O aplicativo também dispõe de um ranking dos jogadores de melhor

Luis Gustavo Ribeiro Jornalismo PUCPR Revista CDM

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esporte

A jornada dos meninos Crédito repórter

Jogar futebol não é apenas uma brincadeira para mu tos meninos brasileiros. É um sonho que vai além de classes sociais e envolve famílias Leticia Garib e Patricia Munhoz

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er jogador de futebol é o sonho de muitas crianças brasileiras. Um objetivo que independe de classe social e condições financeiras. No Brasil, existem milhares de escolinhas e projetos sociais que incentivam a prática do esporte e auxiliam na construção do caminho profissional dos meninos. Na Escolinha Coxa-Capitão, em Colombo, todos chegam ao campo, professores e meninos. O Sol não dá trégua e não há tempo para perder: é hora de jogar. “Ninguém entrou aqui pensando em ganhar dinheiro, tenho certeza que todos entraram pensando em jogar futebol. Não se percam nisso”, discursou o professor Murilo Balbino, antes de começar mais um dia de treinamento com os alunos da base Sub 13.

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Do Sub 13, fazem parte crianças que nasceram até 2005, ou seja, hoje meninos com 13 anos. Entre esses, está João Schmeieer, que mora em São José dos Pinhais com os pais e a irmã mais velha. Ele começou a jogar futebol com 6 anos numa escolinha perto de casa, logo seu talento foi visto. Em 2015, foi chamado para fazer um teste na escola do Coxa, que durou três semanas, conta Francine, mãe de João. Ele joga na posição de volante, aquele que é responsável por levar a bola da defesa para o ataque e recuperar a bola do time adversário. Mas esse talento não é do nada: seu pai, Eder, já jogou como profissional e, mesmo não continuando a carreira no esporte, sempre incentiva o filho e aconselha sobre as dificulda-

des que esse caminho pode lhe aguardar. Como João, Lucas joga desde os 7 anos. Hoje com 11, já está treinando na categoria de base do Coxa. Para ele, o contato com o esporte existe desde sempre, sendo que seu pai jogou por três anos na categoria de base também. Lucas começou numa escolinha e se destacou. “Todo ano a base faz a peneira na escolinha”, conta Luiz, pai de Lucas. Essa peneira quer dizer que olheiros vão aos treinos da escola e observam os garotos para encontrar talentos. Lucas foi chamado em 2015 e, depois dos testes, no final do ano, ele passou. Os pais apoiam o filho, mas sempre se certificando se Lucas

Patricia Munhoz

Depois do treino os professores selecionam alguns alunos para jogar uma partida, entre eles João. Jornalismo PUCPR Revista CDM

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esporte

Patricia Munhoz

Lucas faz treinos diários, com frequência no campo de duas vezes na semana. está feliz jogando e afirmam que independentemente do que ele decidir fazer, sempre irão apoia-lo. “Porque se não quiser mais, não tem problema; estamos felizes do mesmo jeito”, diz Luiz, olhando para o Lucas que está sentado ao lado da mãe, Cida. Paralelamente, a ONG Águias da Bola trabalha com o objetivo de combater a ociosidade de crianças e adolescentes. Os organizadores e voluntários utilizam o futebol como um meio para isso. Atualmente, o projeto atende mais de 1.500 crianças ativas, entre meninos e meninas. Cristian Bonfim, de 13 anos, é um deles. Logo no começo da entrevista, o garoto dispara: “É daqui pro Atlético, né?”. Ele participa da ONG desde os 11 anos, na sede Jardim Holandês, em Piraquara. Os treinos acontecem todos os sábados, com as categorias Sub 11, Sub 13, Sub 15 e Sub 17. Durante a semana, a rotina dos meninos é estudar muito, pois o projeto faz acompanhamento de boletim e de comportamento, com a escola e a família. No fim

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de semana, é hora de treinar e, no caso de Cristian, correr muito, porque o menino joga como lateral. Além dele, Maicon Darri também treina na Categoria Sub 13 do projeto. Ele já participa há quatro anos e sonha em jogar no Santos. O menino demonstra tímidez durante a entrevista, mas no gramado, como meio-de-campo, faz passes e controla o jogo durante as partidas. Lucas já sabe que quer seguir carreira no futebol e diz que vai fazer faculdade de Educação Física. O pai sempre o aconselha sobre como funciona o mundo do esporte: “Eu mesmo fiquei três anos e não deu certo”. Lucas joga como lateral direita e também faz futsal, pois é comum os meninos começarem nessa modalidade para ajudar na parte de rapidez e agilidade no campo. A rotina dos pais é um vai e vem de levar e buscar o filho nos treinos. Moram em Colombo, divisa com Pinhais. Tanto a escolinha como o CT do Coxa são próximos e o colégio de Lucas fica na mesma região.

O futebol é o sonho e João sabe que é preciso de força, foco e dedicação para alcançar o objetivo. “A maior dificuldade para mim é conciliar os treinos com os estudos, mas como sou muito responsável ainda não tive problemas”, ele fala com muita desenvoltura. Para os pais, a maior dificuldade é a rotina maluca devido aos treinos do filho. Francine conta que a família tem um açougue. “Trabalhamos de domingo a domingo.” De manhã, ele vai para a escola em Pinhais e, na segunda, quarta e sexta-feira, João almoça ao meio dia e às 12h30 em ponto, o pai o leva para a base do Couto Pereira, de lá ou ele vai para o campo da Graciosa ou para a escola de Colombo com o ônibus do time. Lá por 17 horas, o treino termina, uma hora mais tarde volta para o Couto Pereira e 19h30 chega a casa. “Daí que eu vou pensar em tarefa, trabalho de escola”, completa a fala da mãe. Os pais apoiam o filho em tudo, sempre lembrando que o estudo e o esforço não podem faltar nunca.


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Para Cristian e Maicon, a rotina de treinos é um pouco mais tranquila. Como só vão ao projeto aos sábados, os meninos usam os horários livres durante a semana para estudar e brincar de bola. Eles também moram perto do campo, o que facilita a locomoção. Na prática, alguns detalhes diferenciam os treinos dos meninos da Escola Coxa-Capitão e dos garotos do Águias da Bola. Além da quantidade de treinos semanais, para eles, ainda há a situação socioeconômica das crianças. Nelson Santos, líder fundador do projeto, conta que o projeto não atente só crianças de classes mais baixas, mas que muitos meninos treinavam em escolas particulares e hoje migraram para o projeto. “A principal diferença entre os meninos é que os de classes mais baixas veem isso aqui como uma oportunidade única. Quem tem uma condição melhor pode ter outros caminhos no futuro, para os outros já pode ser a última

oportunidade deles, então agarram com força”, comenta Santos. Além disso, de acordo com Fábio Okazaki, membro da comissão técnica das categorias Sub 15, Sub 17 e Sub 20 do Corinthians, há uma grande diferença na habilidade natural dos garotos. “Para que um menino jogue bem, é importante começar cedo, estimulando o esporte desde cedo. Uma criança que brinca de bola desde os 2 anos tem um potencial maior na infância do que uma que passou a infância jogando videogame.” O treinador também afirma que esse perfil geralmente é encontrado nos meninos vindos das classes mais baixas, já que os esportes e brincadeiras na rua são as que eles tem mais acesso. No entanto, essa diferença é nivelada com poucos anos de treino nas escolinhas. Contudo, apesar de qualquer característica que venha diferenciar a realidade desses garotos, cada um, a seu modo, sonha com a carreira. João sabe que seguir essa

carreira é 100% de dedicação e, mesmo assim, pode acontecer de não dar certo lá na frente. Para a família de Lucas, o mais difícil ainda é o custo de investir na possível carreira do filho no esporte. Quando tem jogo são os pais que pagam tudo que é preciso. Mesmo Lucas jogando na base, ele não tem contrato e não recebe. Cristian e Maicon olham para os colegas de projeto que já estão jogando no profissional e se espelham. Como Gabriel, 18 anos, que saiu do projeto recentemente e hoje joga na base do Londrina. Além das meninas Alessandra que hoje joga no Sub 15 da Seleção Brasileira; e Ronaldinha, que joga no profissional do Internacional. Como todos esses meninos, esses que já estão realizando seus sonhos, passaram por todas as mesmas fases de peneiras, treinos e muita dedicação. E, hoje, continuam lutando até conseguir uma carreira estável no esporte.

Leticia Garib

No campo do Águias da Bola, meninos dividem até a chuteira para participar dos treinos. Jornalismo PUCPR Revista CDM

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Decifra-me ou te devoro

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Pode ser por diversão, conhecimento ou adrenalina. Fato é que os enigmas online fazem parte de um universo amplo, complexo e misterioso. Leticia Garib

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uebra-cabeças, desafios e lógica são palavras que fazem parte da rotina dos amantes de enigmas. E antes que você acredite que estamos falando de jogos de lógica que se compram em bancas de revista, precisamos te alertar que o assunto é muito mais profundo. Os sites de enigma são jogos online que desafiam os usuários a responder perguntas para as quais são necessárias diversas áreas do conhecimento. Muitas vezes, o jogador precisa mergulhar em pesquisas e descobertas para avançar para a próxima fase. Um dos jogos mais tradicionais é o Notpron, criado em 2004 por David Münnich. Segundo ele, a ideia de criar o site surgiu enquanto ele estava jogando um quebra-cabeças online, que possuía login e senha escondidos em uma imagem. “Isso me fascinou, era tão misterioso e eu soube que tinha que fazer algo assim”, comentou.

Atualmente, o site já possui mais de 18 milhões de visitas em todo o mundo, no entanto, apenas 51 pessoas conseguiram solucionar os 140 enigmas do jogo. Além do site oficial, o jogo também tem um fórum, no qual os jogadores se ajudam com pistas e dicas. Mas spoilers não são nada bem vistos neste meio. Mesmo que os usuários colaborem entre si, não há troca de respostas finais, o objetivo é se superar e conseguir vencer os desafios sozinho. A grande maioria dos jogadores prefere não revelar sua identidade real e manter uma conversa apenas com seu nome de usuário, e é navegando nos fóruns dos jogos que é possível encontra-los. Muitos respondem com desconfiança e apenas de forma genérica. Um deles é o usuário Catz Works. Ele conta que conheceu sites de enigmas por meio de alguns amigos e que hoje ama resolver os quebra-cabeças. “Eu adoro que eles [os enigmas] me fazem

Münnich não fez seu site para um público específico, mas acredita que quem acessa são nerds em geral. No entanto, ele admite que o jogo possui poucos players porque é realmente muito difícil. “Eu estava apenas me divertindo criando coisas novas, não havia nada planejado. Então eu fui criando voltas e mais voltas (código fonte, manipulação de imagens, códigos etc) para torná-lo único”.

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pensar fora da caixa. Atualmente, estou resolvendo o Notpron, mas pretendo tentar novos sites em breve”. -.-. ...-- .-.. ....- .--. ..--- ----- .---Um outro enigma com um nível muito difícil é o Do not believe his lies (DNBHL) “Não acredite nas mentiras dele”. Esse jogo também é formado por uma sequência de enigmas, mas trabalha com a construção de uma história e é um aplicativo para mobile. A cada fase resolvida, o jogador recebe palavras que são utilizadas para narrar uma história. O DNBHL foi criado em 2014 e até o momento, nenhum usuário conseguiu completar o desafio. O usuário Torniel Resende conta que joga DNBHL, mas que Notpron é a sua referência de enigmas. “Eu me divirto com os enigmas porque eles me fazem aprender coisas novas. Conheci esses jogos através de um canal do Youtube chamado Cellbit”, comenta ele. retirada da internet

Na página inicial do jogo Notpron há o aviso: “O desafio mais difícil disponível na internet. -.-. ....- .-.. ..--- .--. ..--- ----- -....


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E esse é o depoimento mais recorrente entre os usuários brasileiros. O youtuber Cellbit apresentou aos seus inscritos em 2017 diversos vídeos mostrando os sites de enigmas e ensinando a resolução das primeiras fases dos jogos. Arthur Villa, que se identifica como Afivucpm nos fóruns, também conheceu os enigmas por meios desses vídeos. “Eu já conhecia outros enigmas menores, mas esses gameplays me incentivaram a começar essa jornada. No início, foi por pura diversão, mas que me proporcionou muito conhecimento e novas amizades. Desde fevereiro, estou na última fase do Notpron e meu objetivo agora é ser o próximo usuário a terminar o jogo.” A maioria dos jogos de enigma é em inglês, mas aqui no Brasil também existe um chamado Decifra-me ou Te Devoro, uma referência ao Enigma da Esfinge. O jogo possui um nível relativamente mais fácil do que os demais, além da quantidade de fases ser menor. O site brasileiro tem apenas 19 desafios. Mariana Reche não joga enigmas com frequência, mas jogou o Decifra-me ou Te Devoro e, apesar do desafio, achou uma experiência divertida. “Mesmo com as dicas após os erros não rebaixou o nível ou qualidade do jogo, porque elas apontavam um norte, mas não um facilitador. Não tenho experiências com enigmas, não joguei outros, mas esse me fez ter vontade de conhecer outros, talvez de maior complexidade.” Mesmo com milhões de acessos, o universo dos enigmas online continua misterioso e restrito, apesar de que qualquer um que deseje, possa desbravá-lo. Você pode começar com esta página, por exemplo.

“Isso me fascinou, era tão interessante e eu soube que tinha que fazer algo assim.” - David Münnich, criador do Notpron Aceita um desafio? 1. Código famoso 2 Tipo de representação gráfica 3. Escrita escondida 2 1

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O índice do $anduíche Caroline Deina e Sophia Cabral Canadá Moeda: Dólar Canadense U$ 5,26 / R$ 18,20

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s conceitos de “poder de compra”, “taxa de câmbio” e “valor da moeda” não são muito claros para você? Foi pensando nisso que a revista britânica The Economist criou, em 1986, um índice que leva em conta o preço do hambúrguer em uma famosa rede de fast food em todo o mundo, para proporcionar uma noção mais clara sobre a valorização da moeda em outro país. Em 2018, o índice foi atualizado (em dólares), incluindo 42 países e a zona do euro, com um ranking dos locais em que a moeda é muito valorizada e também das regiões em que o dinheiro não vale tanto. Apesar de não ser reconhecido como um indicador preciso do valor da moeda, o índice de hamburguer tornou-se uma ferramenta para tornar a teoria da taxa de câmbio mais digerível. No ranking mundial, a Suíça está na liderança, com o sanduíche custando cerca de U$6,76 (equivalente a cerca de R$ 23,40), enquanto na Ucrânia, lanterna da tabela, o hambúrguer está na faixa dos U$ 1,64 (equivalente a cerca de R$ 5,70). Confira como está a valorização da moeda no continente americano, a partir do índice do The Economist: *Países em cinza não foram contemplados na pesquisa

Estados Unidos Moeda: Dólar Americano U$ 5,28 / R$ 18,30

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Uruguai Moeda: Peso Uruguaio U$ 4,90 / R$ 16,95

Brasil Moeda: Real U$ 5,11 / R$ 17,70

Argentina Moeda: Peso Argentino U$ 3,96 / R$ 12,80

Colombia Moeda: Peso Colombiano U$ 3,83 / R$ 13,25

Peru Moeda: Novo Sol U$ 3,27 / R$ 11,32

Chile Moeda: Peso Chileno U$ 4,29 / R$ 14,85

Costa Rica Moeda: Colón Costa-riquenho U$ 4,03 / R$ 13,95

México Moeda: Peso Mexicano U$ 2,57 / R$ 8,90

Cotação feita no dia 29 de abril de 2018, quando o Dólar Americano valia R$ 3,46.

Fonte: Revista The Economist Jornalismo Jornalismo PUCPR PUCPR RevistaRevista CDM 51 CDM

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