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COMPANHEIRA SOLIDテグ Ivan Lacerda


“Nadie sabe lo que tiene hasta que lo ve perdido”

COMPANHEIRA SOLIDÃO Baú das Letras

1º Edição

2008


Agradecimento: André Brito, Bruno Husek e Carol Bizon. Agência Tubo de Ensaio Tel. (011) 50848808 www.tubodeensaio.com.br Capa: André Brito Revisão: Camila Camargo Diagramação eletrônica e direção de arte: Ivan Lacerda Cavalcanti 1º Edição Outubro de 2008 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Cavalcanti, Ivan Lacerda Registro na Biblioteca Nacional com o ISBN nº 978-85-902370-2-0 Título: COMPANHEIRA SOLIDÃO CGC editora: 08736442801902 Assunto: 869-3B Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida, copiada, transcrita ou mesmo transmitida por meios eletrônicos ou gravações, sem a permissão, por escrito, do editor. Os infratores serão punidos pela Lei nº 9.610/98. NOTA: Esta é uma obra de ficção. Os vários personagens verídicos que permeiam a trama embora inseridos no contexto histórico são tratados de forma ficcional numa mescla de fantasia e realidade. Informações ou solicitação de exemplares poderão ser feitos através do site:

www.baudasletras.com.br Email: baudasletras@baudasletras.com.br Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Dedico esse livro a Dona Lia. A mulher mais guerreira e de maior fĂŠ que jĂĄ conheci.


“Jamais encontrei companheira que me fosse mais companheira que a Solidão” Henry David Thoreau

Caro leitor, Uma das maiores lições que podemos ter na vida é aprender a ser humilde, o que não significa ser submisso. Digo isso, pois a importância é tamanha que os cientistas deveriam de alguma forma identificar a falta desse componente já no útero materno e se possível incluí-lo. Quem é humilde, consegue visualizar melhor e compreender o real sentido da vida. Não desperdiça tempo – O bem mais precioso e escasso que existe – com picuinhas, invejas e maledicências. Não desperdiça essa relíquia com esforço desnecessário em desejar ter ao invés de ser. Vivemos cercados de Natans – o personagem do livro – deve ter um motivo plausível para que eles existam, talvez sejam ferramentas para a nossa evolução. Aprender com eles. Evitar cometer os mesmos erros, além de exercitar a paciência, é claro. Enfim, quero acreditar que alguma utilidade hão de ter essas pessoas que em busca de uma pseudofelicidade não medem esforços para fazerem parte de um grupo seleto de celebridades, consomem signos de status, desejam títulos, selecionam seus pares pelos sobrenomes pomposos e na maioria das vezes, com seus hábitos fúteis são de um vazio tão grande que chego a pensar se realmente possuem alma. Dinheiro é bom e todos nós gostamos, mas inspirado em alguns “Natans” que já cruzei na vida – e não foram poucos – resolvi escrever Companheira Solidão, pois imagino o quão só eles devem ser. O medo que devem ter da vida. Pensei o que seria dessas pessoas se de um dia para o outro perdessem tudo o que realmente valorizam? Como se comportariam se tudo aquilo que são apegados, como iate, helicóptero, apartamento, carro blindado, roupas de grife, coleções de relógios, jóias, vinhos raros, cargos e títulos fossem por água abaixo, tal qual uma enchente da periferia que carrega tudo o que encontra pela frente. Em que eles se apegariam? Qual seria a tábua de salvação para tornarem-se felizes de fato? Natan vai passar por isso. Depois de sofrer um terrível acidente, terá que viver as agruras da outra face da moeda e ainda provar que


está vivo. Passará pelas maiores humilhações que um ser-humano é capaz de passar. Agora para escapar dessa peça que a vida lhe pregou, Natan terá que repensar sua vida e o remédio para a sua cura, não tem jeito, obrigatoriamente terá que passar pela humildade. Olhar também para o próximo. Por isso, ainda bem que existem os personagens dos livros, do cinema, do teatro para nos ensinarem. Assim evitamos sofrer na pele todos esses suplícios. Espero que Companheira Solidão seja útil e o ajude a encarar a vida de uma outra maneira, valorizando o que realmente é importante. Felicidades! Ivan Lacerda Cavalcanti Outubro/08


Companheira Solidão O que o dinheiro faz por nós não compensa o que fazemos por ele. Flaubert, Gustave

CAPÍTULO 1 A aeronave prepara-se para o pouso, forma-se uma sombra perfeitamente circular no heliporto. O vento natural confunde-se com os formados pelas hélices, balançando os galhos das árvores recém plantadas, próximas à varanda da cobertura do edifício. Palmeiras, Ipês Amarelos, Subipirunas e Fícus com o tronco entrelaçado, de porte médio, são as ideais para essa aplicação. Lentamente as pás vão parando, perdendo a intensidade até ficarem estáticas de vez. Natan prepara-se para descer, antes, porém, espera o sinal de positivo do comandante Ícaro. A prudência manda respeitar esses procedimentos, pois o risco de acidente é muito grande. O helicóptero, um modelo esquilo, é o ideal para duas pessoas, serve como salvação para livrá-lo do caos do trânsito da cidade de São Paulo e também para escapar dos enormes congestionamentos nos finais de semana nas estradas que ligam ao litoral norte ou até o Yacht Club de Guarujá. Ultimamente nota-se um grande aumento no tráfego aéreo nessa cidade, principalmente a região de Higienópolis e da Faria Lima. Justamente os pontos de maior presença de Natan, onde estão situados a sua residência e o escritório. A violência dessa metrópole tem favorecido a substituição dos automóveis por helicópteros. No alto, a inexistência de semáforos e dos meninos de rua, são motivos mais do que suficientes para essa troca, sem contar o prazer pessoal, por ser um jovem executivo da área de finanças, que buscou estar sempre à frente e principalmente, sentir-se superior a tudo e a todos. Deve-se levar em consideração também à economia do tempo ganho nessa locomoção diária. Aliás, para Natan como sua vida gira em torno do capital, o tempo está relacionado diretamente com dinheiro. Não é à toa que ostenta centenas de relógios para controlar cada segundo do seu precioso dia. Por ser um dos presentes que mais ganha dos seus clientes e fornecedores e também por sempre reservar um espaço na agenda para conhecer as novidades em suas viagens pelo mundo afora, conseguiu formar uma invejável coleção. A cada viagem um modelo novo. Uma ala do closet é destinada somente a eles. Se não fosse virginiano, certa


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mente perderia a conta de quantos modelos possui, no entanto, sabe ao certo tudo o que lhe pertence, inclusive o número de relógios. Poderia usar um modelo diferente a cada dia ou para cada situação. Os sóbrios para as reuniões com presidentes de empresa. Os esportivos para as viagens ao litoral. Os mais discretos, para quando estivesse no meio de pessoas comuns ou dirigindo, coisas que odiava fazer. Essa paixão por relógios às vezes faz com que perca preciosos minutos de manhã para a escolha de qual combina com o cinto, a pasta ou o terno. Natan nutre um carinho todo especial, por três modelos, os quais guardam em um cofre, separados dos outros. O primeiro está intrinsecamente ligado ao valor afetivo, um modelo Champion, que ganhou de sua mãe ao completar quinze anos, ele tinha a possibilidade de trocar a pulseira, eram diversas cores, algo totalmente inovador para a época. Mas como todo adolescente, que não cuida de suas coisas, só sobrou o modelo da pulseira azul. O outro pequeno e discreto, com pulseira de couro preta e marcador branco, um Mido, que herdou do pai, que por sua vez, tinha ganhado do pai dele. Era uma relíquia familiar, uma das poucas coisas que sobrou como lembrança e parte da herança do velho. E por final, um Breguet, modelo suíço, em ouro rosa dezoito quilates, com o tradicional ponteiro azul e numeral especialmente desenhado, com mostrador em ouro revestido de prata, gravado à mão e fundo de cristal de safira. Esta preciosidade foi feita exclusivamente para Natan sem que houvesse nenhum outro similar no mundo. Era uma peça numerada e a história de sua produção registrada nos arquivos da empresa. Profundo conhecedor, ele sabia que essa era a marca que desde 1775, fascinava e decorava os pulsos dos reis, rainhas, nobres e imperadores de todos os matizes. Inclusive foi utilizado por Napoleão Bonaparte em 1790 antes de conquistar o Egito. Churchill era mais um dos ilustres que apreciava a marca, e que, aliás, também herdara do seu avô. Esse relógio simbolizava uma conquista, uma forma de tornar Natan exclusivo. Usou apenas duas vezes. No dia em que foi retirá-lo pessoalmente na Suíça. Como parte da homenagem, o fabricante ofereceu um jantar ao novo cliente no mais famoso restaurante dos Alpes. Outra ocasião foi durante a festa de comemoração dos seus trinta anos. Nem é preciso falar do cuidado e do reforço na segurança durante o evento. Não apenas por ostentar o relógio novo, mas também pela seleta platéia presente. 


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O comandante consulta um dos inúmeros relógios da aeronave e autoriza a saída de Natan dando o sinal de positivo. Aproveita os poucos segundos de atenção dispensado pelo patrão para saber qual será a rotina do dia seguinte. — Senhor, que horas devo passar amanhã? — A mesma de hoje. Ícaro tentando ser cordial deseja uma boa noite, mas a cota de atenção recebida do chefe já tinha sido atingida. Também já estava acostumado e nem se incomodava mais com o seu jeito fechado. Deve ser preocupação, o homem tem muitos compromissos, concluía o piloto. Natan segura com a mão esquerda a pasta de couro Louis Vuitton que ganhou de aniversário do seu agente de seguros que lhe presta serviço. Com a outra, segura sobre os ombros o terno escuro risca de giz de lã fria italiana Ermenegildo Zegna. Apressa o passo, pois o tempo está mudando, o vento retornou, não propriamente pela decolagem da aeronave, mas dessa vez, pelo enorme temporal que está se formando. Coisas de São Paulo, todas as estações em um único dia. As primeiras gotas dão-lhe boas vindas, ele corre e alcança o hall de entrada do seu apartamento. Com a pressa habitual, por pouco adentra com o pé esquerdo, supersticioso que é isso seria uma falha imperdoável. O silêncio sepulcral instaura-se, a velha Companheira Solidão está de braços abertos e com o vasto sorriso à sua espera, aguardava ansiosa o retorno do ilustre parceiro e cúmplice. As luzes dos cômodos vão se acendendo e apagando automaticamente de acordo com a sublime presença de Natan. Ele cuidadosamente equilibra a pasta sobre o braço do sofá branco de couro, sugestão de um famoso decorador contratado especialmente para traduzir em mobílias e peças de decoração o seu sofisticado gosto. A luz fria do abajur vai lentamente aumentando, toda vez que acontece isso, Natan lembra duplamente do autor do projeto, uma pela semelhança com o nome e outra pelo valor do projeto, que foi aumentando, aumentando, aumentando cada dia que passava. Mas pensando bem, essa despesa era um luxo que ele poderia se dar. Natan posiciona a pasta sobre o facho da luz e aproveita para retirar o minúsculo celular prateado, os óculos escuros e a caneta Mont Blanc ainda na embalagem que acabara de comprar para presentear de amigo secreto Jonatham, diretor de marketing da companhia. Detestava participar 10


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desse tipo de evento ou de qualquer outro em que fosse obrigado a dividir o espaço com outras pessoas. Não gostava de acúmulo de gente, “happy-hour”, nem pensar. O grande problema era que a sua posição o obrigava. A presença do principal executivo da empresa depois do presidente era imprescindível. Para Natan esse tipo de brincadeira de confraternização, era um verdadeiro tiro no escuro, pois era obrigado a gastar uma fortuna com o presente, seja ele quem quer que fosse o seu “amigo”. Afinal de contas, os funcionários podiam comentar que ele sendo quem era gastava tufos de dinheiro a revelia e ficava economizando na troca de presentes. Seu medo era que o identificassem como um verdadeiro avarento. No entanto, seu maior receio, e o que lhe causava certo repudio em participar da brincadeira de confraternização era o risco que corria em receber novamente em troca uma camisa chinfrim, comprada numa loja sem prestígio ou provavelmente na Rua 25 de Março, a mais popular de São Paulo. No ano anterior ele acabou dando seu presente para Bento o seu fiel motorista. Natan desfaz o nó Windsor da gravata italiana feita à mão e a joga junto com o terno sobre a poltrona postada ao lado da lareira com frontal de mármore também italiano que nunca sequer usou. Encaminha-se para o quarto, antes, porém, aproveita para recolher as correspondências que chegaram. Esse gesto sempre lhe causou certo desconforto, pois nunca havia recebido uma carta de alguém querido. Nenhuma mensagem pessoal, nenhum cartão postal, nem sequer um telegrama de aniversário. Somente contas e mais contas ou aquelas manjadas encomendas dos bajuladores, fornecedores ou alguém que o estivesse prospectando para que ele passasse a ser cliente. Também pudera, em seus poucos anos de existência, não conseguiu cultivar nenhuma amizade real, relacionamentos afetivos sempre foi uma grande fonte de preocupação, um eterno questionamento em querer saber ao certo, se suas conquistas tiveram como base algum sentimento ou estavam fundamentadas no interesse financeiro ou na projeção de imagem que teriam por estarem ao seu lado. Isso lhe incomodava profundamente, chegando inclusive a passar longos momentos de abstinência sexual. Como exímio homem de finanças tinha aversão ao risco iminente, preferia se deixar envolver pelos encantos e sorriso da velha Companheira Solidão. Como bom virginiano, separa cuidadosamente o 11


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que é cobrança do que é propaganda. Tinha acabado de receber o novo catálogo de vinhos, isso chama a sua atenção e faz com que apareça um tímido sorriso na sua bela face esguia. Ele guarda as correspondências na mala e coloca o catálogo sobre a mesa de centro também de couro, para posteriormente reavaliar o seu estoque na adega. Natan é fascinado por vinhos, hábito que incorporou ainda menino, quando observava atentamente o seu pai apreciando a bebida todas às noites antes da refeição. A saliva saltava. Quase que jorrava como uma cachoeira para fora da boca de vontade de beber um gole. Um mísero gole que fosse. Mas como norma rígida do pai: Criança não podia beber. “Isso é coisa para adulto, você ainda não saiu das fraldas”. Dizia energicamente seu pai, enquanto cheirava a taça de vinho e lentamente sorvia um gole para posteriormente bochechar o líquido, engolir e demonstrar a sua satisfação com um sonoro estalar de língua. Natan achava aquele ritual ridículo, mas ao mesmo tempo, instigante. Questionava-se, qual seria o sabor daquela bebida vermelha. Certa vez até tentou beber escondido, mas confundiu o vinho branco com uma aguardente, que desceu queimando sua garganta, elevando sua temperatura e avermelhando o seu rosto pálido. Esse desastrado gole lhe causou durante sua infância e adolescência uma grande ojeriza por qualquer tipo de bebida. Mas com o passar dos anos o desejo adormecido foi voltando aos poucos à tona, principalmente depois que começou a frequentar os melhores restaurantes do mundo. Natan tornou-se um profundo pesquisador e conhecedor das principais reservas do planeta. Essa fama não demorou muito para ultrapassar os limites da sua confortável cobertura. Em seus jantares, fazia questão de rabiscar com seu garrancho as cartas de vinho, indicando qual a vinícola ou rótulo o estabelecimento deveria acrescentar para que ele retornasse ao local. Poderia parecer indelicado, mas ele encarava como sendo uma consultoria gratuita, e olha que para arrancar algo “Free” de Natan era quase impossível. Quando isso acontecia, uma alma era liberta do purgatório. Vários jornalistas especializados já tentaram uma entrevista ou colher uma opinião a respeito de determinada marca. Mas avesso que era a imprensa e divulgação de sua imagem, retaliava qualquer aproximação. Natan detesta a figura de repórter, achava todos uns enxeridos, espécimes que vivem à custa de escancarar a vida privada de pessoas como ele. Ao ver um por perto, 12


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sempre lembrava do fatídico momento em que recebeu a notícia da morte de seus pais, através de uma repórter, empunhando um maldito microfone com a logomarca do veículo. Devido a esse fato, e por trauma, ele negava veementemente qualquer possibilidade de entrevista, seja qualquer que fosse o assunto, principalmente, em se tratando de um dos seus maiores prazeres: o vinho. Natan não gostava de ser tratado como enólogo. Mas difícil não classificá-lo assim, cultivava o hábito de a cada novo pedido, selecionar uma garrafa de uma região totalmente fora do eixo dos famosos produtores. Foi dessa maneira que descobriu um maravilhoso norueguês, um indescritível australiano, elaborado com minúsculas uvas da colina e regado com água mineral. Natan agora, dono do seu nariz e responsável por seus atos, pode passar horas e horas apreciando uma boa garrafa, estudando a sua procedência, a espécie de uva utilizada e decifrando as enigmáticas informações contidas nos rótulos. O tempo dispensado nesse caso não tem a menor importância, são momentos de prazer que a vida proporciona para poucos privilegiados. O dia não foi fácil, aliás, nenhum tem sido principalmente com a perspectiva de guerra que se aproxima entre os Estados Unidos e o Iraque. A enorme oscilação do dólar e do risco país afugenta qualquer novo investimento no Brasil. Os que já foram aprovados e empenhados ainda estão sob risco de serem cancelados. As empresas passam por dificuldades para girarem os produtos nas prateleiras. A incerteza do novo governo é um fator também de suma importância para alimentar o caos financeiro. Mas no fundo, com o olhar mais apurado, para Natan o lema era: Quanto pior melhor. Ele estava numa posição super privilegiada. Respondia por uma substancial quantia de investimento, proveniente dos fundos de pensão e dono da carteira com os principais clientes da empresa. “O filézão” era assim que costumavam comentar de forma pejorativa, mas com um imenso fundo de inveja, os diretores da empresa. Sua habilidade em multiplicar os valores era impressionante, assim como o faro extremamente apurado para perceber qual empresa estava passando por dificuldades momentâneas e com perspectiva de crescimento a médio e longo prazo. Como num cassino, sabia as regras do jogo e jogava como ninguém. Comprar barato e vender caro. Sabia extrair cada centavo de uma negociação. Para os invejosos diretores, 13


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eles comentavam que estando na posição privilegiada que Natan está qualquer um pode fazer o que ele faz. Mas não foi sempre assim, ele teve que suar muito a camisa, chegando cedo e sendo o último a sair. Analisava os dados em todos os jornais, internet, balanços financeiros, fontes confiáveis e um bom relacionamento no governo para conseguir indicadores de que lado o vento estaria prestes a soprar. Não era difícil encontrá-lo em uma mesa estrategicamente escondida em restaurantes luxuosos nos eixos Rio-Brasília-São Paulo, sentado ao lado dos assessores do Ministério da Fazenda ou do Banco Central. Seu nome foi várias vezes trocado, por ser parecido com o do antigo ministro. Na verdade, independentemente do que se fala à boca pequena, deve-se dar o braço a torcer e reconhecer os méritos de Natan Castro, afinal, desde criança tinha essa habilidade com números muito aflorada. Sempre estudou em ótimas escolas em São Paulo. Tinha o privilégio de conviver quando criança, com os futuros formadores de opinião e a nata que iria perpetuar o feudo que está presente até hoje. Deputados, Ministros, Senadores e inúmeros empresários saíram das carteiras do seu colégio, muitos deles sentaram ao seu lado. Essa convivência prematura foi tecendo a teia de influências que hoje permeia as suas ações. Cada centavo ganho com os dividendos é um prêmio. Uma forma de recompensar o esforço que tiveram seus pais, em saldar cada prestação da escola no final do mês. Afinal, Natan tinha plena consciência que só estava naquele ambiente, devido ao desejo que seus pais tinham em prepará-lo para o futuro. O fato de ser filho único também ajudou muito, pois se tivesse irmão, fatalmente teria que estudar em um local menos privilegiado, quem sabe numa escola pública. “Deus me livre, eu não gosto nem de pensar” era o fechamento da frase de Natan quando relatava com orgulho para alguém a sua passagem pelo Dante Aliguieri e o sacrifício dos seus pais em lhe proporcionar estudo de qualidade. Essa era uma das poucas vezes que ele permitia expressar algum tipo de emoção. Para quem convivia mais de perto, era fácil identificar os seus olhos marejarem e o esforço dele em segurar as lágrimas. Quem facilmente percebia o seu humor ou os sentimentos aprisionados do chefe, era a Sara sua secretária, uma morena baixa, cabelo estilo Chanel e lábios delicadamente finos, emoldurados por óculos de armação grossa que lhe pesava a fisionomia. Ela por conviver vários anos, diariamente ao seu lado, tinha 14


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armazenado na memória, todas as suas reações e manias. Na verdade, sempre que vinha à lembrança a imagem dos seus pais, não tinha jeito, seus olhos marejavam. Eles se foram muito cedo. Não puderam ver a evolução do filho, não souberam e nem tiveram a chance de vê-lo ingressar na tão sonhada USP. Um acidente trágico de carro no cruzamento da Rua Alvarenga com a Vital Brasil, justamente numa das poucas vezes em que se aventuraram a dirigir, pôs fim na vida do Sr. Alberto e Judith Castro. Estavam a caminho da Cidade Universitária, onde pegariam Natan e caso ele tivesse passado no vestibular, iriam comemorar almoçando num restaurante famoso dos Jardins. Conforme tinham combinado se o resultado não fosse positivo talvez não houvesse clima para o almoço. Mas Judith insistiu que tivesse mesmo assim. Afinal seria uma das poucas oportunidades de estarem juntos. Por não gostar de guiar, normalmente o Sr. Alberto, utilizava os serviços de Bento, o seu amigo motorista. Um sujeito com a estatura baixa, um fino bigode emoldurando os lábios escuros e ostentando uma barriga desejosa de saltar o cinto, conseguiu cativar o patrão desde o primeiro encontro, quando chegou recém-casado do norte da Bahia com a esposa grávida e sem um local definitivo para morar. Por incrível que possa parecer, tinha o perfil exato, simplicidade, bom humor, ria de sua própria dificuldade, mostrando os dentes um pouco avariados na frente. Mas afora isso, possuía algo em especial que foi um motivo de identificação e provável aprovação na seleção. Tinha uma enorme vontade de trabalhar e vencer na vida, tanto que em muito pouco tempo, tornou-se o jardineiro, porteiro, eletricista, mecânico e amigo da família. Naquele fatídico dia do acidente, Bento não pôde trabalhar, teve que levar a mulher às pressas para a maternidade. “Por pouco a minha senhora não deu à luz no ônibus”. Pelo menos foi essa a justificativa dada a Natan quando soube do acidente. Uma motocicleta cruzou o farol vermelho, bem à frente do Sr. Alberto, por puro reflexo, ele ao desviar, foi de encontro ao poste, situado bem na esquina. Um caminhão carregado com materiais de construção, que vinha praticamente colado na sua traseira, não conseguiu frear a tempo e espremeu ainda mais o carro contra o poste. Os pais de Natan não tiveram como sair do carro totalmente retorcido. Segundo testemunhas que passavam pelo local, depois do impacto, o motorista ainda movimentou a cabeça e esboçou 15


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alguma reação, parecia estar muito zonzo. Passou a mão sobre o rosto ensanguentado e esticou o braço direito, tentando alcançar a cabeça da esposa, que permanecia desacordada. Depois disso não puderam ver mais nada, a fumaça e o fogo tomaram conta do carro, formando labaredas que por pouco não atingiram a fiação e o transformador preso ao poste. Quando os populares conseguiram apagar o incêndio já era tarde demais. Natan soube do acidente através de alunos que passaram pelo local com passos apressados e determinados em busca do resultado do vestibular. Ouviu o comentário que um casal acabara de se envolver em um desastre de trânsito e o carro transformou-se em uma enorme fogueira. Natan não se interessou pelo assunto, eufórico com o resultado positivo, permaneceu no local combinado aguardando a chegada dos pais. Nunca passaria pela sua cabeça que eles estariam envolvidos no acidente em questão. Foram duas horas de espera, a alegria com o resultado obtido era gradativamente anestesiada pela fome e o nervoso por ter que ficar estático, esperando que um carro estacionasse a sua frente, abrisse a porta e o levasse dali para saciar a sua fome. Natan detestava ter que aguardar alguém. Nesse ínterim, ligou do telefone público várias vezes para sua residência, mas só chamava e ninguém atendia. Isso era sinal de que eles estavam a caminho. Os pensamentos de Natan voavam livres e soltos como os pássaros que circulavam pela Cidade Universitária. Imaginava-se já vestido com a beca, recebendo o diploma das mãos do reitor e discursando, agradecendo aos pais pelo esforço que tiveram em formá-lo e bancarem o seu estudo. Natan nem sequer sabia em qual prédio seria a sua sala e já ficava alimentando a sua imaginação. Observava ao seu redor, inúmeras árvores, a grande circulação de estudantes e professores. Chegou a pensar que os seus pais tinham se atrasado, porque passaram antes em algum shopping e compraram um belo presente. Neste caso o resultado do vestibular pouco importaria. Se tivesse ingressado na Universidade, seria um prêmio em reconhecimento à conquista. Se tivesse sido reprovado, o presente seria um consolo. Mais uma hora se passa. Depois de inúmeras tentativas de concluir uma ligação para casa a paciência esgotou-se. Furioso, Natan caminha até o ponto de ônibus mais próximo. Detestava andar de coleti16


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vo, mas como estava sem dinheiro suficiente para um táxi, e também, para não correr o risco de chegar a sua casa e não encontrar ninguém para pagar a tarifa, resolveu encarar o “busão”. O trânsito estava muito lento, a curiosidade dos motoristas que passavam pelo local do acidente querendo ver o que restou do veículo, dificultava ainda mais o escoamento do tráfego. O calor, o falatório no ônibus e a fome insuportável aumentavam a ira de Natan que, sem saber que se tratava dos seus pais, ao passar pelo local soltou um comentário com o velho banguela e suado que estava em pé ao seu lado: — Para abraçar o poste desse jeito, no mínimo estava correndo feito louco ou bêbado. O velho, de tão preocupado em olhar o que sobrou do veículo, nem sequer prestou atenção no jovem inquieto ao seu lado. Natan ao lembrarse da enorme espera debaixo do sol forte, da barriga vazia roncando e do calor no ônibus, não teve coragem de falar, mas pensando quase em voz alta, soltando um longo suspiro, virando o rosto com indiferença para o acidente, sentenciou com um infeliz comentário: “Esses aí, já foram tarde”. Ao chegar próximo à sua residência, achou estranha a grande movimentação defronte à sua casa. Lá estavam uma viatura e uma motocicleta da polícia parada. Alguns vizinhos conhecidos no portão de sua casa, um carro de reportagem de uma emissora de televisão sensacionalista, com uma repórter, empunhando um microfone e falando sozinha, tentando decorar o texto. Natan se aproximando pensou se tratar da prisão de algum bandido que tivesse tentado um assalto ou sequestro relâmpago ou arrombamento de carro. Isso estava se tornando um fato corriqueiro na região. Mas estranhou os olhares das pessoas em sua direção ao chegar cada vez mais perto do portão de sua casa. Um misto de tristeza e piedade nos olhos deles. Um enorme ponto de interrogação formou-se no rosto do rapaz. — O que está acontecendo aqui? Natan questionou sem que tivesse direcionado a pergunta a alguém em especial. Escutou como reposta, não diretamente a ele, mas proveniente de um comentário de uma senhora com uma bengala na cor marfim na mão direita e com a outra mão no ombro da sua provável neta: 17


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— Pobre rapaz, tão novo e agora sozinho. Natan demonstrando sua aflição pergunta aos gritos. — O que está acontecendo? Em sua direção vem correndo a repórter, que quase cai, depois de tropeçar na raiz sobressalente de um Fícus, localizada no passeio. Sem nenhuma cerimônia, ela quase enfia o microfone goela abaixo de Natan. — O que você é do casal? Indaga num tom inquisitivo. — Que casal? Responde Natan com outra pergunta. — O casal que morreu num carro incendiado na Cidade Universitária. Eles moram aqui, não moram? Pronto. Não foi preciso falar mais nada. Tudo agora fazia sentido, o telefone tocando sem que ninguém atendesse, o enorme atraso, o trânsito, o acidente, o carro incendiado, o monte de urubus na frente de sua casa, a polícia, a repórter. Natan senta-se no chão, encostandose no portão de ferro e permanece calado de cabeça baixa. Os vizinhos tentaram uma aproximação, falar algo que o reconfortasse, mas ele estava totalmente atordoado. Com as mãos segurando a cabeça, chorava compulsivamente. A senhora que o chamou de “pobre rapaz”, superou a sua dificuldade de locomoção e trouxe um copo com água e açúcar para tentar acalmá-lo. Natan bebeu de uma só vez. Os policiais também se aproximaram e o encaminharam para dentro da casa. Experientes no assunto tentavam proteger o garoto e livrá-lo daquela difícil situação. Num momento como esse nenhuma palavra conforta. Natan sente-se culpado até hoje pela morte deles e principalmente não se perdoa pelo infeliz comentário que fez no ônibus. O remorso, a escassez de palavras de hoje, o jeito direto, sempre calado, pensativo, sua maneira sempre introspectiva, talvez tenha tido início no interior daquele coletivo a partir dessa frase. Outro culpado pelo acidente e que também nunca foi perdoado, era Bento. Como ele pôde faltar ao trabalho, justamente naquele dia? Questionava-se. O motorista tinha consciência que o Sr. Alberto detestava dirigir e fazia de tudo para evitar pegar uma direção. Só de sentar no banco do motorista suas mãos suavam. Na noite anterior, Bento foi informado que Natan iria saber o resultado da faculdade e os pais precisariam do seu serviço próximo ao horário do almoço. Sabia que ainda era jovem e que não podia perder os pais em hipótese nenhuma, afinal era filho único e não 18


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tinha nenhum outro vínculo familiar. Bento tinha noção de tudo isso e ainda teve o desplante de faltar no trabalho. Até hoje, sempre que pode Natan não perde a oportunidade e joga na cara do motorista a culpa pela morte dos seus pais. Talvez seja uma maneira de tentar apaziguar o seu doloroso remorso. Nem o fato do motorista ter prestado uma homenagem demonstrando todo o seu apreço pelo patrão e ter escolhido Alberto como sendo o nome do filho que nascera no mesmo dia da tragédia, reduziu em Natan o sentimento de rancor. O telefone toca, Natan atende pela viva-voz a ligação que havia solicitado a Sara sua solícita secretária. Estava esperando ansiosamente. No outro lado da linha era mais um promissor cliente que lhe proporcionaria novos negócios e dividendos. Dessa vez, com interesses puramente pessoais estaria prestes a entrar num setor que não estava acostumado: “show-business”. Avesso que era a badalação sentia certa repulsa a envolver-se com esse segmento. Mas fazer o quê, “negócios são negócios” ou “Business are business” dizia ele. Pelo que o seu interlocutor tinha comentado na apresentação do plano estratégico, parecia que esse seria uma bela fonte de recursos. Ainda mais agora, com as novas leis de incentivo cultural e o crescente interesse dos empresários em terem suas marcas vinculadas a grandes espetáculos. Em cada projeto, cotas substanciais de patrocínio e possibilidades de trabalhar esse investimento no setor financeiro, captando os recursos necessários para aplicar nos eventos e com retorno rápido, através da divulgação em mídia, venda de ingressos e licenciando subprodutos relacionados aos espetáculos. Natan visualizava um mercado ainda insípido, mas que com algum trabalho e ações de marketing corretas, lhe proporcionaria bons dividendos ou como ele costumava citar: “frutos polpudos”. Vislumbrava um modelo de trabalho, semelhante ao aplicado nos grandes shows internacionais da Broadway ou nos filmes de Hollywood, onde apesar das exorbitantes somas pagas aos artistas, o retorno normalmente era infinitamente maior. Natan ponderado e precavido que é, sabia que nas terras Tupiniquins não seria bem assim. Mas valeria à pena pagar para ver. Ou melhor, receber, para ver. Pagar é um verbo proibido no dicionário dele. No outro lado da linha, indicado por seu advogado, está o dirigente de uma empresa de marketing cultural, que inicia a conversa tentando aparentar certa dose de intimidade: 19


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— Bom dia Natan é Sérgio Freire, como está a vida mansa? — Bom dia Sérgio, vida mansa é? Só eu sei o que pode acontecer com minha credibilidade se falhar com os investidores. — É verdade, é muita responsabilidade. Depois que meu casamento faliu e me separei por causa dessa loucura que é o mercado financeiro, resolvi largar tudo e maneirar um pouco. Sabe como é... Cuidar da saúde e da vida. Abri a empresa de marketing cultural e fui trabalhar com os artistas, shows, espetáculos, eventos. Mas descobri que também não é nada fácil lidar com esse povo. — É muita badalação, né? — O pior é o estrelismo, neguinho vem do Cafundó do Judas, chega implorando uma boquinha, uma aparição rápida, uma citação. A gente ajeita o lado deles, investe, divulga, faz contatos com a mídia, põe o cara lá em cima e depois o que acontece? Vem o sucesso e o ingrato, para não dizer outra coisa, quando cruza com você nos corredores ou em alguma festa ou estréia, o sujeito nem te conhece ou finge não te ver. E o pior ainda é quando te procura para cobrar direitos de imagem. Natan vê se pode uma coisa dessas. — Sérgio, como está o contrato, já foi assinado? Interrompendo o diálogo parcialmente amistoso, posicionando que a partir de agora o tom é outro. — Claro Natan só falta agora colher sua assinatura e passar no cartório. — Envie para o meu advogado, a Sara, vai te dar o endereço. — E quanto ao adiantamento referente às despesas, quando vai depositar? — Só depois de assinado. Estou transferindo a ligação. Curto e grosso. Sem perda de tempo. Nunca deixa transparecer seu real interesse. Mesmo quando está explodindo por dentro, querendo fechar o negócio, ele por fora é gelado como um “yceberg”. Por vezes chega a tripudiar sobre o negócio, tentando uma desvalorização. Aplicava com uma disciplina feroz, o manual de conduta que ele mesmo desenvolveu ao longo dos anos. Sérgio era somente o fio condutor que ele precisava para conhecer o meio, ser apresentado formalmente aos diretores dos veículos de comunicação, chegar aos cineastas, produtores e agentes culturais mais influentes. Saber quem é quem. Son20


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dar o mercado, para aí sim, iniciar a sua estratégia de atuação. Investir nos setores mais promissores e rentáveis. Foi através do Sérgio, que a contragosto teve que se expor um pouco mais, frequentando algumas festas e eventos que em outra época, não participaria de jeito nenhum. Uma delas, depois da enorme insistência do seu novo sócio, foi a visita ao barracão de uma escola de samba. O que para Natan, significou um verdadeiro tormento. Costumava comentar com o parceiro, que por precaução era salutar evitar estar próximo de pessoas de cabelo pixaim, além do que não se devia confiar em quem possuía menos de dez dentes. Essa gentinha sem educação e sem nenhuma perspectiva de futuro. A única exceção que fazia, ainda que contrariado era para Bento. Só de pensar em ir ao galpão, já lhe causava calafrios. Não suportava aquelas batidas estridentes, o acúmulo de gente se esbarrando. Não entendia como podia uma comunidade que mal tinha o que comer, se comprometer com tamanho empenho numa tarefa diária de costurar fantasias, adereços e alegorias, construir imensos carros, alguns com vários patamares e depositando naquela Instituição, além do suor e do dinheiro escasso, mas principalmente, a esperança e a alegria que contagia todos na avenida, culminando com o título de campeã. Natan foi recebido com um repique da bateria. Percebeu que estava sendo aguardado pelo Diretor da escola. Isso o agradou, sentiuse importante como um astro. A linda porta-bandeira deu uma volta ao seu redor, invertendo o papel que a ela é destinado na avenida. Ele estava sendo cortejado pela bela morena, que sambando freneticamente, fitava-o olhando fixamente nos seus olhos, quase que o hipnotizando. Natan frio e tímido como é, corou. Estático e atônito desviou o olhar e encaminhou-se para a sala do diretor, localizada no final do corredor. Ainda teve que se encolher para romper as estreitas passagens. Chegou a esbarrar a perna na quina de uma das máquinas de costura. Sentiu a dor em silêncio. No fundo desejou xingar, mas tinha que manter a aparência. Para as pessoas que trabalhavam espremidas ali, aquele percurso com diversos obstáculos era mais que o normal. Ouviu ainda o comentário do diretor, tentando alertá-lo e ao mesmo tempo ser engraçado: — Sr. Natan cuidado com a cabeça, para não bater no batente. No final do corredor o pé direito é baixo. Como sou baixinho não tenho problemas. Mas muita gente já quebrou o chifre nele. 21


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Natan continuou em silêncio, pensando numa maneira de organizar toda aquela bagunça. Aplicar sistemas modernos de gerenciamento, contratar um executivo de organizações e métodos para sistematizar os trabalhos, quem sabe aumentaria a produção e reduziria as despesas. Distribuir melhor os móveis e o fluxo de atividades, melhorando o processo produtivo, profissionalizar toda essa equipe. Mas calado e com um falso olhar de atenção, ouviu pacientemente a apresentação e as histórias de glória da agremiação. Os títulos conquistados recentemente. Pôde ver as fotos e reportagens penduradas em quadros rudimentares colados em isopores pintados com as cores predominantes da escola. Ficou sabendo como são feitas a escolha do tema, a avaliação dos integrantes, os materiais escolhidos, as cores e tendências para o próximo desfile. Enfim, teve uma breve aula, na verdade um verdadeiro intensivão de carnaval. Natan sentia-se cada vez mais incomodado, não só pelo ambiente nada acolhedor, totalmente diferente do seu confortável escritório cravado no prédio mais moderno da Faria Lima, mas também pelo cheiro forte de tinta que adentrava na apertada sala, incluindo também nesse incômodo o assunto, nem um pouco interessante para ele. O diretor não tinha entrado no tema principal, no real motivo de sua visita àquela Instituição. Ele ainda não tinha falado de números. Natan dirigiu-se até lá, porque queria saber como era feito o caixa, de que forma era contabilizada a doação dos sócios. Se os integrantes pagavam um valor mensal fixo através de carnê ou eram livres para doarem o que pudessem. Quais outras fontes de renda a escola tinha. Se as fantasias e os locais privilegiados nos carros alegóricos eram vendidos. Se a marca da escola e os produtos relacionados ao evento eram licenciados. Se as visitas monitoradas de turistas ao barracão eram cobradas. Se os direitos de imagem para as redes de televisão eram pagos. Ou seja, o que ele através da sua experiência de empreendedor poderia agregar, para ao investir o mínimo possível pudesse ter o maior retorno. Com sua perspicácia, Natan notou que naquela conversa os interesses eram totalmente incompatíveis, o prazer do diretor era fazer a arte, “colocar o bloco na rua”. Natan queria saber dos bastidores, como faturar com o evento. Por mais tempo que ficasse na sala, não conseguiria extrair daquele empolgado homem maiores informações. Como sempre fazia, sem nenhuma cerimônia, interrompeu de forma elegante, 22


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porém seca, a fala do diretor. Levantando-se e retirando do local, ele agradeceu a recepção e o convidou a visitar na semana seguinte o seu ambiente de trabalho, a fim de tratar dos números e a forma de atuação da sua empresa para gerenciar a escola de samba e torná-la profissional, ou melhor, um “produto”, como gostava de frisar. Em seu território, ficaria mais fácil retirar todas as informações que necessitasse. Ao sair da sala, o diretor de forma tardia tentou avisá-lo novamente sobe o pé direito baixo: — Sr. Natan cuidado com a... Apenas escutou-se a batida seca, da cabeça de Natan indo de encontro ao batente da porta. A assistente do diretor que estava próxima da porta fez um esforço tremendo para conter o sorriso. Natan mantendo a compostura e disfarçando a dor, ajeita o cabelo com a mão direita, arruma o nó da gravata de seda italiana da Ricardo Almeida e caminha a passos largos, como se nada tivesse acontecido. Apesar de alguns contratempos e hematomas, a visita ao barracão teve um impacto mais importante, foi uma espécie de semente plantada no coração de Natan. Ele saiu de lá intrigado com aquela organização. Durante o percurso, sentado no banco traseiro de sua BMW série cinco, preta e blindada, fugindo o mais rápido possível daquele local periférico e indo para o seu confortável apartamento, questionava-se em voz alta: — Como podem, chegam de noite na quadra, depois de uma jornada de trabalho e ainda tem pique para mais uma etapa. Estampam um enorme sorriso no rosto, cantando o enredo da escola. E o pior, sem receberem nada em troca. Mão-de-obra grátis. Ou melhor, às vezes tendo que por dinheiro do próprio bolso para que o sonho se realize. A felicidade das pessoas o incomodava profundamente. É isso mesmo! A felicidade das pessoas incomodava Natan. Para ele, era impossível ser feliz sem dinheiro, sem bens, sem um barco, um carro e um relógio importado, sem ser reconhecido e aclamado, sem beber um bom vinho, sem apreciar um legítimo Jazz extraído do berço de New Orleans. Lembrando daqueles pobres coitados, como podem sorrir e cantar banguelas ou com dentes cariados, dançar com a barriga vazia e chinelo de dedo. Como pode o olho desse povo brilhar tanto. A maio23


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ria vive uma vida miserável, não possuem instrução, não tem onde cair morto, não tem nenhuma perspectiva de um futuro melhor e ainda assim são felizes. Como pode? Bento estaciona ocupando as duas vagas na garagem destinadas a Natan. Fazia isso contrariado, mas era obrigado a respeitar a ordem do patrão. Egoísta e espaçoso ao extremo, não queria permitir em hipótese alguma que um visitante ou outro morador utiliza-se o que lhe pertence. Durante a manobra, ou mesmo quando estava aguardando o farol, o velho Bento, parece que sem perceber, como um hábito que se instala sem saber ao certo o dia ou o que o motivou, ficava batendo rapidamente e no compasso de um samba a parte superior da dentadura na debaixo, fazendo um barulho semelhante a um pandeiro desafinado. No início do cacoete era engraçado, mas que com o passar dos anos deixava muito irritado o patrão. Outro hábito que causava uma profunda repugnância era quando o motorista começava a cutucar o nariz. Começava de forma tímida, como que apenas coçando, esfregando as costas da mão na ponta do nariz. Depois do estímulo, começava a vasculhar a parte interna com o dedo indicador à procura de algum elemento intruso. Não contente em retirar secreções secas, introduzia ainda mais o dedo no orifício, invadindo e arrombando as fossas nazais. Não sossegava enquanto não extraísse como troféu o muco, ou mais popularmente conhecido como ranho. Chegava por vezes a rotacionar o dedo em quase trezentos e sessenta graus garimpando algum elemento estranho, ou mais popularmente conhecido como catota. Ficava estampado o ar de felicidade e a satisfação do motorista quando tinha êxito na operação e sacava um belo exemplar. Bento não percebia ou talvez considerasse normal tal gesto, afinal desde criança nunca foi repreendido. Por outro lado era nítido o asco que o patrão sentia, chegava a nausear ao ver o nojento espetáculo. Natan não comentava nada, talvez por algum respeito que ainda alimentava pelo condutor, uma vez que o conhece desde menino e de certa forma era a pessoa que mais tempo conviveu. Bento era quase um membro da família. Na verdade, por várias vezes teve o ímpeto de despedi-lo, trocar por um motorista com uma melhor imagem e formação, alguém como Ícaro, mas por consideração a memória dos pais prorrogava a contra gosto a decisão. Depois de concluída a manobra, rapidamente o motorista cir24


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cula o carro e abre a porta de trás do lado oposto ao seu. Essa era uma das inúmeras manias que o chefe tinha. No ponto de vista de Bento, exigia isso somente para sacaneá-lo. Talvez o “Big-Boss” o fizesse como uma das formas de puni-lo pela sua falta no dia da morte de seus pais. Postado numa posição quase de sentido, tenta iniciar um diálogo: — Senhor, que horas devo passar amanhã? — A mesma de hoje. Responde secamente. — Senhor Natan aqui está a sua pasta. — Senhor... Natan interrompe a frase de Bento e mostrando-se contrariado: — O que é dessa vez? O motorista, gozando de uma intimidade que ninguém possui e com o seu jeito engraçado emenda com a frase: — Senhor cuidado com a cabeça no batente. Natan acha engraçado, mas prontamente censura o sorriso que espontaneamente queria nascer. Sem dar a menor atenção ao motorista, retira a pasta bruscamente das mãos dele e caminha pisando firme até o elevador panorâmico. Conforme subia, as imagens das pessoas trabalhando felizes povoavam novamente seus pensamentos. A bela visão da cidade iluminada apresentava-lhe alguns questionamentos, como estava mais uma vez sozinho, o fez em voz alta: — Quem na verdade é feliz nessa bucólica metrópole? Será que conheço alguém realmente feliz ou são concedidos apenas pequenos minutos de felicidade durante a vida? O elevador sobe lentamente, a vista passa a ser cada vez mais panorâmica. Natan gira a cabeça em direção à zona norte e lembra-se da região onde está instalada a escola de samba que visitou há pouco. Volta o questionamento: — Será que aquelas pessoas são realmente felizes ou vivem uma espécie de fuga momentânea, doses diárias de alegria e cinquenta minutos de desfile, culminando no êxtase anual. O elevador abre-se praticamente defronte à porta do seu apartamento, a luz acende automaticamente. Natan ajeita a calça com a mão esquerda, já que a outra está ocupada segurando a pasta de couro. Os pensamentos não dão trégua: — Será que o Bento é feliz? Não pode ser. Mora no Grajaú, 25


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extremo sul e periferia da cidade. Nunca fui até lá, mas pelo que conta, a casa permanece sempre em construção, nunca termina. A família também não para de crescer. Será que o nascimento de um novo filho é um espasmo de felicidade ou de tormento? Enquanto procura a chave da porta na pasta, continua o seu inquérito pessoal. Bento é muito religioso, acredita piamente em Deus e sempre aos domingos visita a igreja do seu bairro. Só não concorda em doar dinheiro, o que Natan apóia plenamente. O motorista tem um ótimo senso de humor, talvez isso seja um dos antídotos da tristeza. Vive falando de futebol, do seu Corinthians. Quem o houve, pensa que o clube lhe passou uma procuração assinada e com firma reconhecida no cartório. A cada vitória ou título, nota-se a felicidade estampada no rosto de Bento. O motorista era tão aficionado por futebol que chegou a fundar junto com vizinhos uma equipe no bairro. Batizaram o time com o nome de Casarão. Uma variação da sugestão de Bento, por ele seria Casagrande, uma homenagem ao centroavante artilheiro do timão e um dos lideres da Democracia Corinthiana. Talvez inconscientemente fosse a única forma de a senzala ter de fato uma casa grande. Posto em votação junto com outras sugestões foi o mais votado, afinal os corinthianos de plantão eram a maioria, seguidos pelos palestrinos. Para não criar dissidência logo de cara, Portuga, um dos patrocinadores da equipe, dono da padaria do bairro e torcedor da querida Lusa, sugeriu para não ter briga, Casarão. Além do que, estando no superlativo mostraria a sua grandeza. Se bem que o futebol propriamente dito ainda deixava muito a desejar. Porém a torcida apaixonada estava sempre presente nas pelejas gritando a pleno pulmão o nome do clube para incentivá-lo. Os moradores, torcedores do Palmeiras, Santos, São Paulo e Corinthians como que irmanados, abraçavam-se apertados nas arquibancadas improvisadas nas lajes ao lado do singelo campo de terra. Bento só não conseguiu tornar as cores do Casarão as mesmas do seu Timão. Seria querer demais. Os palestrinos conseguiram convencer os Santistas e São Paulinos e elegeram o verde e branco como cor oficial. Natan intrigado continuava refletindo. Será o futebol, a dose de felicidade destinada aos pobres? Ao achar o molho de chaves, e depois encaixar com certa dificuldade na fechadura encerra o comentário com 26


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um sonoro: — Tristeza. Esse povinho se contenta com tão pouco. Ao abrir com a mão direita a porta, após ter passado a pasta para a esquerda, vem correndo como de costume ao seu encontro, com o sorriso largo decorando a face alva e com os braços abertos aguardando um carinhoso e saudoso abraço a sua mais fiel amiga: “A Companheira Solidão”. O silêncio domina o ambiente, o espetáculo das luzes acendendo e apagando é um verdadeiro show à parte no apartamento de Natan. Os questionamentos sobre a felicidade continuam. Como de hábito, ele coloca a pasta sobre o sofá. Assolado por um súbito surto, tenta lembrar com qual pé adentrou a residência. Põe a mão sobre a testa, como se estivesse psicografando algo. Força a memória para reviver cada passo minuciosamente. Como num videocassete, ou melhor, como num DVD — é mais moderno — vai retrocedendo as cenas quadro a quadro, porém a dúvida permanece. Contrariado, solta um palavrão junto com o seguinte comentário: — Natan, você e essa sua maldita mania. O executivo pega de volta a pasta sobre o sofá e retorna até a porta do elevador, o show de luzes também. Quem vê de fora, pensa que está tendo uma animada e fantástica festa. Natan fecha a porta, respira fundo, faz meia-volta, observando detalhadamente e controlando como um recém acidentado cada passo, entra com o pé direito na sua mansão. Com ar de satisfação, talvez esse seja um dos flashes de felicidade que possui. Aliviado solta sem nenhuma cerimônia: — Agora sim. Chegando ao quarto, sua consciência ainda exige mais alguns minutos de questionamento. Desatando o nó da gravata em frente ao espelho, Natan fixa o olhar e aproxima-se lentamente. Tenta enxergarse, olhando no fundo do globo ocular, como que buscando decifrar algum enigma. Fica sem piscar por alguns instantes, começa a arder, mas mesmo assim continua estático. Falando sozinho, afinal, fora a Companheira Solidão que vaga a esmo pelos cômodos, nenhuma alma viva habita esse ambiente, ele volta ao tema que o aflige: — Natan meu querido amigo Natan você é feliz? — Claro que sou. Responde sem pestanejar. Prosseguindo a argumentação: 27


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— Tenho tudo que desejo. Compro tudo, onde e na hora que desejo. Quem mais pode ser atendido exclusivamente de madrugada numa loja de shopping para não ter interferência de ninguém. Tenho uma saúde de ferro. Não permito ninguém do meu lado para me cercear, faço tudo o que desejo. Moro aonde e do jeito que quero. Sou imprescindível na empresa, sem mim, aquilo vai para a lona. Sou respeitado e reconhecido. Se resolver parar de trabalhar amanhã eu posso. Se desejar ter um ano sabático, rodando pelo mundo afora, visitando as melhores vinícolas, tomando vinho e conhecendo os melhores restaurantes, eu posso! Quem é que possui uma coleção de relógios no Brasil igual a minha? Quantas pessoas podem ter um Portinari e Picasso lado a lado na sala de estar além de outras obras de pintores e artistas plásticos importantes? Se resolver pegar o helicóptero até o litoral dar um passeio de barco e voltar no mesmo dia eu posso. Quantas pessoas podem falar com o ministro da Fazenda pelo celular? Então Natan, por que essa besteira de querer saber se é feliz? Você é feliz é pronto! Intimando-se e piscando ao mesmo tempo. Senta na cama. Desarruma o lençol de cetim cuidadosamente esticado e passado no próprio local por uma das funcionárias da equipe de limpeza da empresa que decidiu contratar, somente para que não tivesse contato diário com uma única pessoa e criasse algum tipo de vínculo. Já não bastava ter que aturar o Bento. O economista continua o seu papo solitário: — Natan, acho que nessa cidade, tirando as crianças, afinal elas não têm compromisso com nada e vivem brincando o dia todo, só conheço uma pessoa que pode dizer que é feliz e essa pessoa é... Faz um intervalo, como se fosse um suspense ou um apresentador de televisão e sacramenta: — Você! Tentando mais uma vez se convencer, emenda: — Veja bem, a Sara sofre solitária, vive angustiada pelos corredores da empresa chorando por um relacionamento que não chega a lugar nenhum, que nada lhe acrescenta. Seu marido, um desajustado inconsequente que além de não respeitá-la, vive pendurado, devendo na praça e nos bancos. Deixando tudo nas costas da pobre coitada. E para ajudar, bebe como um bode. Então Natan meu filho, para que você 28


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quer ter alguém vivendo ao lado, quer arrumar sarna para se coçar? O presidente da empresa, coitado, uma figura apagada. Um fantoche dos diretores do escritório nos Estados Unidos. Não pode mover uma pena, sem que tenha que consultar a matriz. Não fala direito o português e vive queixando-se de dores nas costas e no joelho. Deve ser o peso que tem que carregar e a responsabilidade em manter a empresa lucrando. Como se isso dependesse exclusivamente dele, se não fosse eu já tinha entrado água. Complementa com a língua afiada: — O Jonatham tem toda aquela pose de publicitário moderno, vive dando entrevistas para todo mundo, falando em nome da companhia, mas ele sabe muito bem que se farta, comendo as minhas migalhas. Na verdade aqueles abutres vivem me procurando, insistindo numa coletiva de imprensa ou apenas uma opinião sobre o mercado, sobre vinho, sobre o futuro do país. Eu é que não faço a mínima questão da presença deles. Não quero vê-los nem pintado de ouro. — e olha que ouro é a cor preferida de Natan — Um bando de carniceiros inescrupulosos. Jogando uma praga conclui o comentário: — Essa racinha nojenta devia sumir do planeta. Seria ótimo ver a manchete em todos os meios de comunicação: “Jornalistas entraram em extinção”. Se for pedir demais, então que pelo menos aquela maldita repórter que não teve a menor sensibilidade em noticiar a morte dos meus pais suma da face da terra. Melhor, que caia no ostracismo ou que apareça a sua foto na seção policial com a nota: “Repórter de TV morre atingida por bala perdida durante reportagem em zona de tráfico”. Natan empolga-se com a situação e despeja a sua metralhadora giratória sem piedade: — O Ícaro será que ele é feliz? — Talvez, um pouco. — responde — Vive voando, tem uma bela visão da cidade, não pega trânsito, tem um bom salário, é um cara bem apessoado. Mas... — Destilando o veneno — É um pobre coitado também. Seu filho mais velho o faz de gato e sapato. Vive elogiando o moleque, mas no fundo sabe que ele é mesmo um baita de um folgado que não quer nada com a vida. Para ter um filho assim, Deus me livre. Solta a frase final, atirando a meia sobre o travesseiro e levantando da cama, indo na direção do banho. No percurso lembra-se de Bento: 29


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— Este coitado, não vale a pena perder tempo com um comentário a seu respeito, veio ao mundo única e exclusivamente para sofrer. A Felicidade não faz a mínima questão de saber que ele existe. Mora mal, come mal, vive mal, tudo é mal. E ele ainda vive dizendo que Deus é grande. Imagine se fosse pequeno? Após ver a nuvem de fumaça formando-se no Box e testando a temperatura da água, finaliza: — Natan pare de perder o seu precioso tempo com essas bobagens e aproveite as delícias da vida. Um reconfortante banho, um ótimo perfume e uma cama maravilhosa exclusiva lhe aguardam como prêmio ao merecido repouso do guerreiro.

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Companheira Solidão Se fizeres do dinheiro o teu Deus, ele atormentar-te-á como o demônio. Fielding, Henry

CAPÍTULO 2 Termina mais um mês. Janeiro passa voando, tenso, como tem sido todos os outros. A semente da esperança plantada no Natal e a torcida para um ano melhor, vão ficando para trás. O dólar inicia uma escalada, o risco Brasil dispara, o perigo da inflação está de volta, com o dragão querendo acordar de um sono profundo. A insegurança impera. O crédito escasso, os juros absurdamente altos, na ótica do consumidor, é claro, porque do ponto de vista de Natan ainda dá para espremer um pouco mais e conseguir uns dividendos mais polpudos. Os jornalistas continuam insistindo com Sara, pedindo uma audiência com o “todo poderoso”, para tirar nem que seja uma frase sobre a atual situação econômica, mas habilmente a secretária vai mantendo-os afastados. O tão desejado acordo com a empresa de marketing cultural foi finalmente selado. Natan a partir de hoje é quase um “Show-men”. Alguns projetos exaustivamente analisados e selecionados, agora passam a receber os seus investimentos particulares e partem para que sejam postos em prática. E o principal, que tragam mais frutos polpudos. Regularmente Natan recebe informações de um dos principais projetos que está envolvido e investindo o seu próprio dinheiro e que por sinal, está prestes a entrar em cartaz: O desfile de carnaval. Depois da inusitada visita ao barracão, preferiu manter-se distante “daquela gente”. Era dessa forma que costumava referir-se aos trabalhadores e voluntários. Esse ano a escola patrocinada pelo mais novo “carnavalesco” iria tratar dos quatro elementos da natureza: Água, terra, fogo e ar. Como eles iriam conseguir transmitir tudo isso, era algo que Natan gostaria de saber antecipadamente, mas o sigilo e falta de intimidade com o assunto dificultava a compreensão. Se dependesse exclusivamente dele, iniciaria um corte no orçamento, retirando o elemento fogo do desfile. Detestava fogo. Só aí, levando em conta a regra matemática, já teria um lucro garantido de vinte e cinco por cento. Sérgio, seu parceiro, praticamente destinou o seu tempo para acompanhar de perto esse projeto. Passava relatórios via e-mail dos gastos e fotos do andamen32


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to da construção dos carros alegóricos, fantasias e também “daquela gente” trabalhando. Natan achava um absurdo, o realismo que a escola desejava passar durante o desfile na avenida. Um descritivo detalhado de cada carro, passando por um aprofundado estudo histórico. Talvez tudo aquilo escrito seja apenas uma forma para justificar o imenso valor gasto. Um deles era o projeto de construir uma cachoeira real, um carro alegórico com uma caixa de água de dez mil litros e pedras de isopor, com vários modelos e artistas em destaque e a possibilidade da presença de um nadador profissional, de preferência um medalhista olímpico. Para Natan era tão utópico que não conseguia ver formas de concretizá-lo. Na decoração, com várias simbologias, muitas imagens esculpidas em fibra de vidro e cuidadosamente pintadas. Na frente à figura de Iemanjá, tida como a Deusa dos mares e oceanos. Mãe de todos os orixás e representada no carro alegórico com seios fartos e volumosos, simbolizando a maternidade e a fecundidade. Ao seu lado Posêidon, segundo os Gregos, o Deus dos mares que habitava o Olimpo e para finalizar a miscelânea, um pouco atrás as imagens de Oxum, a Deusa das águas e Oxumaré, Deus da chuva e do arco-íris e ao mesmo tempo de natureza feminina e masculina. Aquele que transporta a água entre o céu e o mar. Enfim, segundo Natan, uma verdadeira salada. Outro carro alegórico iria representar o ar, imensos redemoinhos, a criação de um verdadeiro tornado, utilizando um potente compressor, que segundo Sérgio, iria literalmente sacudir e movimentar a platéia presente na avenida. As imagens de divindades também estavam em destaque, a de Iansã, Deusa dos ventos, das tempestades e dos raios, além de ser dona da alma dos mortos. Mas de todos os carros alegóricos o que mais intrigava Natan era o projeto de um vulcão em plena passarela. Era o carro principal da escola, o último a entrar, o maior e mais alto de todos e representaria o elemento fogo. Aquele que aquece. Aquele que tem energia, que impõem mais respeito. Representado por Vulcano, segundo a mitologia romana, era filho de Júpiter (ou Zeus) e Juno (ou Hera), o rei e a rainha dos deuses. Na mitologia grega, é denominado de Hefestos. Era reverenciado com o objetivo de aplacá-lo em sua ira, de modo a torná-lo protetor dos mortais quanto aos efeitos nocivos do fogo. Conforme constava no projeto, um moderno sistema de propulsão cuspiria uma chama com pelo menos uns três metros aci33


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ma da boca do vulcão. Seria um sistema semelhante aos utilizados nos balões de competição de ar quente, com quatro cilindros de gás estrategicamente localizados internamente. Uma lava incandescente, simulada com uma espécie de gel, escorregaria por uma calha de aço, deslizaria do alto do vulcão, chegando até a base. Com uma bomba, a lava retornaria por um tubo também de aço até o reservatório, descendo novamente, sem parar. Pelo que constava no papel seria algo realmente sensacional e produzido dentro das mais rígidas normas de segurança. Inclusive com o apoio e fiscalização de órgãos públicos competentes. Mas pra que representar o fogo? Tinha mesmo que gastar tanto com esse carro, resmungava Natan. No fundo existia um desejo contido de Natan em retornar ao barracão. Como preceito básico e parte integrante da sua famosa cartilha, gostava de estar perto fiscalizando tudo, queria saber se os recursos que fornecia estavam sendo realmente aplicados no lugar certo. Queria fazer uma espécie de blitz e verificar pessoalmente como anda os trabalhos, mas havia um impedimento: Detestaria que voltasse à tona os questionamentos sobre a felicidade. Além do mais, pensando bem, era importante para ele estar distante. Manter a postura do homem que viabiliza todas aquelas idéias e loucuras. Era uma maneira de poder cobrar um resultado satisfatório com relação à redução de custos e um melhor retorno do capital investido. E o principal, fazer com que ele não tivesse mais um assunto para que fosse importunado pelos malditos jornalistas abutres. Era bom que ninguém soubesse que está metido também com a maior festa popular do país: O carnaval. Ao mesmo tempo em que Natan estava apreensivo com o resultado da escola e principalmente com o retorno do seu investimento, ele não aguentava mais ouvir a palavra desfile. Naquela semana inteira não se falava em outra coisa. A sensação era que todos ao seu redor eram integrantes de escola de samba, pois sempre tinham algum comentário a fazer. Parece que o vírus infecta todas as pessoas nesse período. Será que não existe uma forma de vacina para me imunizar do carnaval, pensava ele. O mais empolgado com o evento era Bento. Fanático pelo seu time do coração, não era de estranhar que a sua escola favorita fosse a Gaviões da Fiel. Vivia cantarolando o enredo enquanto dirigia. Dizia que tinha que estar afinado no desfile para não fazer feio 34


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e correr o risco de perder pontos preciosos. Como nos anos anteriores, iria sair numas das alas intermediárias. Segundo ele, o valor da fantasia era mais barato. Os locais nobres eram destinados aos endinheirados e celebridades. Era assim que ele se referia às pessoas que tinham condições de escolher o bloco ou a posição no carro alegórico. — Sabe senhor Natan meu sonho era um dia ser um daqueles destaques lá em cima, dando tchauzinho para todo mundo, que nem um marajá. Já pensou? Eu ia abafar geral. Mas é só um sonho mesmo. Voltando à dura realidade acho que isso nunca vai acontecer na minha vida. Tudo bem. Não vou esquentar a cabeça com isso, o importante é que na avenida que a coisa acontece. É lá que a felicidade é maior. Bento sempre que podia visitava a sede, revia os amigos e ficava por dentro do andamento da produção do desfile. Comentou que esse ano a escola vinha para quebrar. Para Natan isso podia dar duplo entendimento, pois pelo repúdio que tinha a futebol e em especial às torcidas organizadas, aquela frase, simbolizava que eles iriam de fato destruir tudo o que vissem pela frente na avenida. Pensava contrariado: “Deus me livre de estar num local desses. Só mesmo quem não tem nada para fazer, ou não tem outra diversão na vida pode se sujeitar a ficar quase uma hora sambando no tumulto e ainda correr o risco de ser envolver em confusão”. Outra pessoa empolgada com o desfile e cantarolando o enredo era Sara. Este ano seria a sua primeira vez. Resolveu criar coragem e esquecer um pouco do marido. Quem sabe sambando sozinha exorcizaria a imagem do traste que a despreza e humilha tanto. Numa das rápidas reuniões de início de dia, para tomar conhecimento da agenda, Sara convidou Natan para participar do desfile. Disse que se desejasse conseguiria uma fantasia no mesmo bloco que ela estaria. Natan verbalizou para a secretária o pensamento que tivera alguns dias atrás, sentado no confortável banco de couro traseiro de sua BMW preta e blindada: — Sara, Deus me livre de estar num local desses. Só mesmo quem não tem nada para fazer, ou não tem outra diversão na vida pode se sujeitar a ficar quase uma hora sambando no tumulto e ainda correr o risco de ser envolver em confusão. Natan não tinha a menor sensibilidade. Sem perceber, estava recriminando descaradamente a iniciativa da secretária, que sem graça ainda 35


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tentou argumentar: — Credo senhor Natan uma festa tão bonita. É tanta energia, sempre quis participar dos desfiles, meu marido não permitia. Muito ciumento. Se o senhor soubesse a quantidade de turistas da Europa, Estados Unidos, Japão e de outros lugares que vem para cá, só para participar do desfile, o senhor não estaria falando uma coisa dessas. Cada ano que passa o número é muito maior. Existe até agências de turismos especializando-se em eventos dessa natureza. Sabia que um dos diretores da nossa matriz nos Estados Unidos virá especialmente para a festa e vai trazer toda a sua família pra participar? — São todos uns desocupados também. Retrucou Natan, mas podia-se notar uma pequena alteração na sua fisionomia. Isso significava que realmente a iniciativa em investir na festa era positiva, afinal poderia explorar de alguma forma esse seleto grupo. — Sr. Natan — continuou Sara — Se pudesse desfilaria em mais de uma escola. Pena que o valor da fantasia é muito caro. Ainda bem que o Bento conseguiu um bom desconto. O Senhor sabia que ele desfila todos os anos e é super conhecido na escola de samba Gaviões da Fiel? Tentando mais uma vez convencer o chefe — Se o senhor quiser, falo com ele, está em cima da hora, mas ainda dá tempo. — Sara, qual é a programação de hoje? O chefe encerra secamente assunto. Ficou nítido que Natan balançou. Sua empáfia não lhe permitia aceitar, mas como um vírus encubado, também estava sendo contaminado. Pensou em ele mesmo ligar para Sérgio, mas desistiu da idéia. Seria ridículo. — Pensou em voz alta — Não posso me rebaixar. Estou financiando a escola, tenho que cobrar resultados, que moral vou ter em cobrá-los se estiver lá no meio deles dançando. É melhor mesmo deixar como está. Mas ainda, com uma pontinha de desejo, avaliando uma outra possibilidade, continuou batendo a ponta da caneta na apara e olhando fixamente ao quadro vermelho e azul de Tomie Otake em frente a sua mesa. Sussurrou: 36


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“Natan e se aceitasse o convite de Sara? Você vai estar lá no meio e ninguém vai te reconhecer”. Contrariado, já emenda: “Não posso, o que o Sérgio e o Diretor da escola vão falar de mim, se descobrirem que desfilei numa agremiação concorrente. Não Natan, não invente moda. Além do mais, se fosse para desfilar eu nunca iria escondido. Que negócio é esse de ficar no meio da multidão. Que isso Natan, não estou te reconhecendo. Você está doente? O que está acontecendo com você rapaz? Pirou? Se fosse para ser um destaque no carro alegórico, talvez”. O telefone toca, encerrando os pensamentos de Natan e o posicionando no papel de principal homem de negócios da empresa. No outro lado da linha, mais um investidor à procura de “frutos polpudos”. Para finalizar a Sexta-feira e aguçar ainda mais o desejo de Natan na volta para casa de helicóptero, Ícaro comenta que, caso ele necessite de um piloto nesse final de semana, como de costume, para descer até o litoral, ele indicará um amigo super profissional. Pois como estará no Rio de Janeiro nesse período, não poderá atendê-lo. — O que você vai fazer no Rio? Você nunca disse que tinha família por lá. Pergunta contrariado, uma vez que não gosta de voar com alguém que não fosse de sua inteira confiança. Natan tem medo de acidente ou receio de ser sequestrado. — Senhor Natan, tenho dias pendentes de férias e alguns amigos pilotos, que se formaram na mesma turma que eu no Rio de Janeiro querem reunir o grupo novamente e me chamaram. Acabei aceitando. — Você é doido. — Complementa o patrão — Ir para o Rio no carnaval, aquilo vira uma baderna. — Mas Senhor Natan é justamente por isso que vou. A escola Estácio de Sá esse ano vai ter uma ala que homenageará a aeronáutica, como os meus amigos vão participar e me convidaram, resolvi aceitar. — Ícaro, você está completamente maluco. Empolgado o piloto emenda: — Senhor, vai ser a minha primeira vez. Nem sei qual é o enredo, mas tudo bem se aprende na hora. Chegando lá me entroso com a rapaziada e tudo certo. Seja o que Deus quiser, o importante é a farra, no meio da galera, sambando, vendo a animação do povo, aquele colorido todo. Deve ser o máximo. 37


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Sem respirar, o piloto engata uma pergunta. — O senhor não tem vontade de desfilar? Natan repete a mesma que frase que verbalizou para a secretária de manhã: — Ícaro, Deus me livre de estar num local desses. Só mesmo quem não tem nada para fazer, ou não tem outra diversão na vida pode se sujeitar a ficar quase uma hora sambando no tumulto e ainda correr o risco de ser envolver em confusão. — Que nada senhor Natan, deve ser uma energia sem igual. O trabalho de um ano todo sendo avaliado e decidido ao vivo, em frente da multidão e das câmaras de televisão. O esforço de cada integrante formando um exército de passistas, todos imbuídos do mesmo objetivo. Ser feliz. Natan ouve novamente a palavra chave: Feliz. Dessa vez não responde nada. Certo silêncio instaura-se na aeronave que já está preparando o pouso. Forma-se uma sombra perfeitamente circular no heliporto. O vento natural confunde-se com os formados pelas hélices, balançando os galhos das árvores recém plantadas, que estão próximas à varanda da cobertura do edifício. Lentamente as pás vão parando, perdendo a intensidade até ficarem estáticas de vez. Natan prepara-se para descer, antes, porém, espera o sinal de positivo do comandante Ícaro. Diferentemente de outras vezes, Natan mostra-se cordial. — Cuidado Icaro, no Rio de Janeiro a criminalidade está pior que aqui. — Pode deixar Senhor e tenha um ótimo carnaval também. — Ícaro por segurança passe os dados do seu amigo para Sara checar os antecedentes dele. Acho que vou ficar no barco esse final de semana, bem longe dessa festa maluca. — Pode deixar e fique tranquilo senhor, o piloto que estou indicando é muito profissional. Conclui Ícaro autorizando a saída do patrão. Natan segue intrigado a caminho do apartamento. Inicia novamente os seus questionamentos a respeito da felicidade. Parece que alguém ou alguma entidade superior estava forçando-o a fazer aquilo a todo instante. “Imbuídos do mesmo objetivo: Ser feliz. Eu não nasci mesmo para essas 38


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coisas. Que prazer é esse que tanto falam? O que veem nisso? Que energia é essa? Deve ser um escape desse povo para esquecer os seus problemas e dificuldades financeiras. Como não tenho problemas, não preciso disso. Ponto final”. Dessa vez não errou o passo, entrou certo com o pé direito. Sempre que lembra a tempo, aproveita para pisar firme, como que ratificando sua decisão. Tudo está no lugar e limpo. Tinham acabado de fazer a faxina, o cheiro de lavanda invade o nariz de Natan. Meticuloso que é, passa o dedo indicador sobre o aparador localizado ao lado da porta de entrada para certificar se está realmente limpo. Numa primeira impressão, o serviço passa pelo seu rigoroso controle de qualidade, mas ainda não convencido, levanta a vela cor de laranja em formato de gota e verifica se existe pó. Um sorriso perspicaz surge em sua bela face esguia, sinalizando que se estivessem querendo enganá-lo; não foram suficientemente espertos. Imediatamente a fisionomia transforma-se em sisudez. Pegando o celular, busca apressadamente o número da empresa responsável pela limpeza. — Quem eles pensam que enganam. Pago uma fortuna para deixarem tudo perfeito e não fazem o que eu mando. — Alô, aqui é Natan Castro, quero falar com o gerente. No outro lado o sujeito de uma forma defensiva responde: — Boa noite Senhor Natan, algo errado? Posso ajudá-lo? — Há algo errado sim. Minha casa está de pernas para o ar. Não fizeram a limpeza direito. Tem pó por toda a parte. Desse jeito vou procurar outra empresa para fazer esse serviço. Será que não existe um controle de qualidade? — Sim Senhor Natan deve ter havido algum engano, pois nossos funcionários são exaustivamente treinados e preparados para prestar um serviço de extrema qualidade. — Pois é então pode rever esses conceitos. Aqui está um verdadeiro caos. — Senhor Natan se me permite, enviarei agora mesmo uma equipe para refazer o serviço e deixá-lo totalmente satisfeito. Eu mesmo irei vistoriar o trabalho deles posteriormente. E não iremos cobrar nada a mais por isso. — Muito bem, é o mínimo que poderiam fazer. Escuta. Quero que esse povo só venha amanhã, aproveitar que é final de semana. In39


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clusive, como vai ser feriado prolongado, e esse povinho gosta tanto de carnaval, quero ver o desfile das vassouras, o bloco do aspirador de pó e a ala das lavadeiras em ação. — Ok Senhor Natan pode ficar tranquilo que faremos tudo conforme deseje e mais uma vez desculpe pelo transtorno. Demonstrando um ar de satisfação e superioridade, após fechar bruscamente o celular, Natan como de hábito vai consultar as correspondências. Nota sobre a mesa de jantar uma enorme caixa branca de papelão, destoando a decoração “clean” criada pelo famoso decorador. Intrigado Natan joga os envelopes sobre o sofá de couro e anda até a mesa. Coça com a mão direita a cabeça escorregando o dedo até a testa, tentando identificar o pacote. Não se lembrava de ter comprado nada para presentear algum grande investidor ou político. Nem encomendado nenhum objeto para a casa ou para o barco novo. Trocou recentemente o modelo Ferretti Luxury Yachts trinta e seis pés por um de cinquenta curiosamente batizado de Solitude. Os vinhos normalmente eram entregues em caixas e colocados em frente da porta da adega. Ninguém tinha autorização para entrar nela. Era como se fosse uma espécie de seu santuário onde fazia suas orações ao Deus Dionísio. Pensou em ligar para a recepção, mas o envelope sobre a caixa poderia esclarecer tudo. Natan cuidadosamente retira o envelope preso ao pacote. Verifica o verso totalmente em branco, sem a menor possibilidade de identificar o remetente. Coça novamente a cabeça. Olha ao redor, como se alguém pudesse informá-lo do que se tratava. Talvez a Companheira Solidão pudesse auxiliá-lo. Antes de abrir o pacote, pega o celular e disca para a portaria. — Alô, aqui é Natan Castro. A voz no outro lado da linha demonstra certo nervosismo, afinal se ele ligou, com certeza não foi para agradecer ou desejar boa noite. O sujeito também de forma defensiva responde: — Senhor Natan? Algo errado? Posso ajudá-lo? — Há algo errado sim. Tem uma caixa enorme aqui em cima da mesa da minha sala de jantar, o que é isso? — Não sei dizer não. Senhor Natan só sei que um homem que se identificou como sendo Sérgio Franco passou aqui na recepção e deixou essa caixa para o senhor. 40


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— Sérgio? E como ficou sabendo que moro aqui? — Não sei dizer não. Senhor Natan só sei que ele perguntou se o senhor estava aqui, eu disse que não, que o senhor só estaria de noite. Então ele pediu para entregar para o senhor. Daí como tinha gente fazendo a limpeza no apartamento do senhor, eu pedi para um dos funcionários pegarem o pacote e deixar bem à vista do senhor. Natan desliga sem ao menos agradecer o rapaz, fica satisfeito em ouvir várias vezes a palavra senhor. Isso era sinal de respeito e respeito é bom e o jovem executivo sempre gostou. Volta a concentrar-se no embrulho. Estava mais tranquilo, pois poderia ser um pacote com explosivos, nunca se sabe do jeito que as coisas andam com o terrorismo mundial uma simples carta é suspeita. Natan abre a correspondência, dentro um bilhete do Sérgio, escrito de próprio punho. No texto, a tentativa de mudar a opinião do sócio a respeito da maior festa popular do país. Na caixa de papelão branco mais um ingrediente para apimentar o desejo e servir como uma espécie de desafio para Natan. Uma fantasia de carnaval produzida exclusivamente para ele e uma credencial vip para que possa entrar no sambódromo sem misturar-se aos foliões comuns. Sua bela face transforma-se, a curiosidade supera o sentimento de censura que deseja manifestar-se. Ele retira a parte superior. Na sua concepção, devia ser uma espécie de chapéu, revestido por um tecido vermelho, com listras pretas, formando um desenho que lembrava a chama de uma vela. Natan sufocando a curiosidade fecha os olhos e como que se estivesse mexendo numa macumba, rapidamente tampa a caixa e coloca sobre uma das cadeiras, voltando a mesa à sua decoração normal. Em voz alta, fala contrariado: — Quem esse Sérgio pensa que é? — Que brincadeira é essa? Ele sabe muito bem que não quero participar de nenhuma festa popular. Já disse inúmeras vezes que prefiro ficar distante para não misturar as coisas. — Ele que vá. Está a fim de ser como um deles, que pegue esses trapos e vá desfilar. Com certeza deve ser um infeliz e precisa também extravasar. O celular de Natan entra em ação novamente. — Sérgio que palhaçada é essa? 41


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No outro lado da linha o seu parceiro com um sorriso maroto. — E aí Natan serviu? — Que serviu o quê Sérgio, você acha que vou usar essa roupa chinfrim, Deus me livre. O que faço com isso? — Como o que faço com isso? Sérgio repete a indagação devolvendo o questionamento. — Essa fantasia custa uma fortuna foi feita para um dos principais carros alegóricos da escola. O que tem de celebridades e atores pedindo uma fantasia para desfilar é brincadeira. E você diz que é chinfrim. Não fala isso não Natan. — Sérgio, então venda a fantasia para um desses interessados. Pronto, pelo menos, não terei prejuízo. O sócio apelando para a emoção, tenta mais uma vez: — Mas Natan é a sua escola, vai ser importante para o pessoal ver você no carro desfilando junto. Eles vão dar o melhor de si. Ainda mais vendo o padrinho da escola incentivando. — Padrinho não. Eu não sou padrinho de porcaria nenhuma. Eu invisto. Ouviu? Invisto. Meu interesse é que esse ano ela tenha uma boa classificação, melhor ainda, se for campeã. Para daqui para frente, conseguir valorizar e negociar melhor os direitos de imagem e produtos. É isso que estou interessado. Entendeu Sérgio? Dinheiro é só isso que quero! — Desculpe se não gosta, não vou mais chamá-lo de padrinho, mas escute, você será o destaques principal do carro. O que acha? Tentando agora apelar para o ponto fraco de Natan a vaidade. — Deus me livre, para depois ser visto por jornalistas e fotógrafos. Tenho uma imagem a zelar, não quero ser abordado por aqueles abutres. Sérgio é o seguinte, se não vier retirar esses trapos, então vou jogar no lixo. Ou melhor, nunca usei a minha lareira, talvez seja esse um bom motivo. Afinal os desenhos lembram chama, não lembram? — Natan do céu, não faça isso pelo amor de Deus, se você realmente não deseja ir, dou um jeito de pessoalmente retirar no seu apartamento amanhã cedo. Silêncio na conversa e Natan Conclui: — Pensando bem não precisa não. Tenho uma pessoa que o sonho dele e ser destaque numa escola de samba. Ele nunca fez nada para merecer, mais acho que vou dar a fantasia para esse infeliz mesmo 42


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assim. Imediatamente desliga o aparelho. Natan pega novamente o celular e procura na memória o número de Bento, o felizardo premiado. Apesar de um pouco mais gordo que o patrão, ele não perderia uma chance dessas por nada na vida. Mas também quem vai reparar? Se fosse preciso emagrecer uns dez quilos da noite para o dia ele faria esse sacrifício. Tudo para ser o destaque do carro alegórico. Nem se preocuparia em desfilar em outra escola que não fosse a Gaviões. O Seu coração haveria de compreender. Quando na vida apareceria uma chance de ser destaque num desfile do sambódromo? Ao tentar concluir a ligação, o aparelho emite um som, indicando que a bateria está fraca. Natan joga o celular no sofá e fala sozinho: “Depois ligo para o Bento, ele não vai acreditar. Vou prepará-lo antes de dar a notícia, é até perigoso ter um ataque cardíaco de tanta emoção. Bento não merece, ainda mais depois de tudo que fez comigo. Acho que deveria cobrar o mesmo valor que pagou na fantasia do Corinthians. Mas tudo bem, vou quebrar o galho dele. O coitado disse que o seu sonho era ser destaque num carro alegórico. Como pode um ser humano, sonhar tão baixo? Bom deixa pra lá, depois falo com ele, agora vou tomar o meu merecido banho”. Natan do chuveiro foi direto para a cama. Estava exausto. Nem sequer visitou a cozinha para preparar alguma coisa para comer. Nem foi à adega, como fazia toda sexta-feira para apreciar uma de suas inúmeras e calmantes bebidas. Essa semana estava saudoso. Lembrou algumas vezes da recente visita a Concha y Toro, a saliva surgia inundando a boca. A imagem do rótulo do Alma viva safra 2004 ou o Dom Melchor 1998 era um convite para apreciá-lo. Se bem que ultimamente Natan tem sido seduzido por um vinho verde típico da região portuguesa do Minho. São brancos produzidos com a uva “Alvarinhos”, que produz vinhos bastante aromáticos e muito agradáveis, principalmente para ser bebido em pleno verão. Na opinião de Natan hoje eles estão entre os melhores do mundo. Os vinhos de Portugal passaram por uma verdadeira revolução de qualidade e hoje se pode encontrar tintos e brancos realmente excelentes, do nível dos mais apreciados do velho mundo, os franceses, italianos, espanhóis, sem esquecer é claro, dos nossos vizinhos chilenos. Pronto, enfim chegou o dia da escola de Natan entrar na avenida. Inclusive sonhou com o desfile. No sonho, ele assistia pela televisão 43


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a entrada triunfante na avenida. Via a porta-bandeira que lhe deu as boas vindas no barracão rodopiando como um pião. O diretor da escola, bastante apreensivo, com a impressão de que algo estava preste a dar errado. Esse sentimento é comum, por mais que se esforce em pensar em cada detalhe, estudar todas as alternativas de segurança, sempre existe a possibilidade de uma falha. Talvez esse seja o combustível que move todos. O desejo de acertar, ser perfeito. Mas no sonho de Natan nem tudo era perfeito. Com o movimento constante dos modelos pulando e dançando freneticamente no carro alegórico que simbolizava a água e pela infelicidade de um dos pneus murcharem rapidamente, o ponto de equilíbrio, o centro de gravidade pendeu para a esquerda e a estrutura que suportava o peso da caixa de água cedeu. Como numa verdadeira cachoeira, semelhante à vazão da extinta Sete Quedas, uma imensa enxurrada varreu todos os integrantes do carro deixando a avenida totalmente encharcada e com alguns foliões deitados no chão. Por sorte ninguém se feriu, mas aquele acidente foi literalmente um imenso balde de água fria. Os integrantes não conseguiram manterem-se concentrados até o final e para ajudar, os malditos jornalistas e fotógrafos invadiram a passarela e fotografaram tudo. Foi um verdadeiro fiasco. Por sorte era apenas um sonho. Sinal de que mesmo querendo isentar-se, Natan não conseguia ficar com o pensamento distante da escola. Ainda mais levando em consideração que em breve, em menos de doze horas, ela estaria adentrando na avenida. Durante todo o sábado, desde o momento em que acordou, não sei se influenciado pelo sonho, Natan estava muito apreensivo. Para quem não queria saber de carnaval, aquela atitude era no mínimo estranha. Os questionamentos sobre a sua própria felicidade retornaram com força total. Pensava se deveria realmente importar-se com a opinião dos outros. Sendo ele quem era e não tendo ninguém para dar satisfação, poderia fazer o que lhe desse na telha. O problema de Natan, não era em fazer o que quisesse, mas sim, ao fazê-lo, de quebra teria que aceitar e reconhecer que não é totalmente feliz. Que precisa, assim como um pobre mortal, extravasar e exorcizar os seus problemas, medos e demônios. Natan não aceitaria em hipótese alguma, rebaixar-se a esse nível. Na sua análise isso era apenas um grilo momentâneo, que passaria assim que a escola entrasse na avenida e não existisse a menor condição de participar do 44


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desfile. Seria como chegar ao aeroporto e o avião iniciar a decolagem. Impossível fazê-lo voltar ao aeroporto e embarcar. Se bem que no caso de Natan o avião tinha que esperar o quanto fosse necessário. Certa vez em uma viagem a Brasília, Natan estava atrasado. Pediu que Sara ligasse para a companhia avisando que estava à caminho e que por um terrível contratempo, não poderia chegar a tempo e fazer o “check-in” no horário. Dessa forma, a secretária deveria passar os dados da passagem para que já fosse providenciado o cartão de embarque. Algo fora dos padrões da empresa. Mas como a irmã do traste do seu marido trabalhava na companhia justamente no balcão de atendimento e após muita insistência chegando a apelar à cunhada, inclusive dizendo que poderia perder o emprego caso o chefe não embarcasse nesse voo, ela abriu uma exceção. Minutos mais tarde, após saber que conseguiu fazer o “check-in” Natan chega ao portão de embarque andando naturalmente, como se estivesse no prazo. Dentro da aeronave, os passageiros incomodados com o atraso questionavam a aeromoça, que coitada, sem saber de quem se tratava, respondia quase cochichando, que a demora era devido a uma autoridade que estava embarcando. Muitos pensavam se tratar de um Senador ou quem sabe um Embaixador. Até que uma van vermelha com a sirene ligada, parecida com uma ambulância, avança pela pista estacionando ao lado da escada do avião. Quando Natan entra e aos olhos dos passageiros não se trata de ninguém conhecido, ouve uma sonora vaia. Sem o menor constrangimento, como se aquilo não fosse para ele, senta na poltrona do corredor, na segunda fila e abre a pasta retirando um minúsculo notebook. Com o atraso no voo e havendo lugares vagos na aeronave, outra van com a sirene ligada trás um grupo que tinha acabado de chegar de um voo com conexão. Como diz o ditado: “Perdido por um perdido por dez”. Quem está atrasado vinte minutos pode aguardar mais cinco, e desta feita, o grupo acabou embarcando. Natan estica o corpo e gira a cabeça para trás tentando encontrar uma das aeromoças, como não avista nenhuma delas, volta à posição inicial e olhando para o alto, como se estivesse falando com o todo poderoso, solta o seguinte comentário: — Meu Deus do céu! Nunca mais voarei nessa companhia. Será possível que nesse país nenhum avião consegue sair no horário programado. 45


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Precisava ver a cara de espanto e indignação do senhor do banco ao seu lado. Natan como sempre, vivendo em outra frequência e dimensão, nem percebe a reação do vizinho. No relógio da sala, um sinal semelhante a um champanhe estourando indica que são 20:00 horas. Natan hoje não saiu do apartamento. Ficou contrariado diversas vezes com a equipe de limpeza. Aproveitou que estava presente, um fato raro, para exigir que limpassem tudo que via pela frente. Sua coleção de shows ao vivo em Dvds. As molduras dos seus valiosos quadros. Retirar a poeira dos lustres de cristal. A adega, garrafa por garrafa, uma a uma, e que colocassem no mesmo local para não confundi-lo. Estavam todas classificadas por país, em ordem alfabética e separadas pelo tipo de uva utilizada. Ele próprio segurou com todo o cuidado, como se fosse uma jóia rara, — o que não deixava de ser — a garrafa do principal troféu de sua adega. Um famoso francês Châtheau d´Yquem da safra de 1931 que arrematou no leilão da Sotheby´s de Londres por parcos trinta e sete mil dólares. Foi um verdadeiro orgasmo quando recebeu a notícia que tinha dado a maior oferta. Como condição pediu sigilo absoluto. Sem saber desse fato, os jornalistas vivem pegando no seu pé, solicitando um depoimento, imagina se soubessem que o disputado Yquem está hibernando em sua famosa, porém impenetrável adega. É incrível como um mero suco de uva fermentado e engarrafado pode lhe causar tamanha satisfação, ficando horas e horas num verdadeiro estado de contemplação das garrafas, ou melhor, como ele mesmo diz: “troféus”. Explorando ao máximo a possibilidade de utilização dos serviços de limpeza, e valorizando cada centavo pago, Natan pediu também que limpasse toda a sua coleção de relógios. Inclusive os mais valiosos que costumava guardar no cofre. Ficou como um legítimo guarda costa, olhando fixamente a movimentação das mãos da senhora, que cuidadosamente tirava a poeira e o magnetismo. Natan aproveitou para separar um modelo que há muito tempo não usava. Um Seiko cronógrafo, com pulseira de aço dourado como ouro, vidro de safira e resistência de até cem metros de profundidade. Caso ele resolvesse mergulhar nesse final de semana, esse modelo era o ideal e lhe trazia sorte, pois da última vez que praticou caça submarina, conseguiu trazer à tona um belo exemplar de Mero. Apesar de este ser um peixe de pouca agilidade, quase um alvo 46


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parado e sua caça proibida por estar entre as muitas espécies em declínio, por assim dizer, em extinção. Mesmo sabendo disso, Natan não se comoveu, em hipótese alguma deixaria passar batido um exemplar daquele tamanho. Outro motivo para usar o relógio era o fato de ser um dos raros presentes de amigo secreto que ganhou e que realmente valeu a pena. O presidente da empresa sorteou o seu nome e o velho acabou sentindo na pele, o que ele tinha que passar todo final de ano. Ou seja, comprar um presente decente de acordo com o seu poder financeiro. Não foi um presente barato, mas também, se for pensar sob a ótica de Natan, estava à altura do que ele dava de retorno à companhia. Todos os diretores ficaram babando no relógio, com certa dose de inveja, perguntavam-se à boca pequena: — Será que se o presidente tivesse tirado um de nós teríamos ganhado um desses? A resposta era muito fácil de saber qual era. Quem escolheu o modelo foi Sara a pessoa que mais conhecia Natan. O presidente passou um e-mail para a secretária, pedindo uma dica. Como ela sabia do gosto do chefe por relógios, sugeriu um modelo que viu num anúncio de uma revista de celebridades. Para não haver engano, ela foi pessoalmente à loja fazer o pedido e pegar os dados bancários para que o presidente fizesse o depósito diretamente na conta. Depois de acertado o pagamento, Sara voltou ao local para retirá-lo. Na verdade, o presidente também só pôde ver o presente ao vivo apenas no momento em que Natan abriu o estojo, anteriormente só o conhecia pelo catálogo. O dourado do aço brilhava, concorrendo com o brilho dos olhos estatelados e surpresos de Natan. Sara sabia que era a cor preferida do chefe. Aproveitando o ensejo da limpeza geral de sua coleção, Natan coloca a relíquia no pulso e confirma as horas com o relógio de parede situado acima do espelho defronte de sua cama. Mantinha acima da cabeceira da cama quatro relógios de parede circular e com fundo branco com os horários de Brasília, Washington, Londres e Tóquio. Problema para checar o horário do relógio dourado não teria. Natan encaminha-se para o home-theater com um balde de inox cheio de gelo e uma garrafa de vinho especialmente escolhida para assistir o desfile. Depois de vasculhar a adega em busca de um espanhol, ficou na dúvida entre dois maravilhosos: O Federico Pater47


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nina 1967, um Rioja de estilo antigo, não tão poderoso, mas elegante, perfumado e longo. Ou essa noite seria o caso de abrir o Vega-Sicilia Único 1991, um tinto de Ribera del Duero, um dos melhores do mundo. No entanto, não sei se já prevendo ou por intuição do que estaria para acontecer, mas essa noite o troféu selecionado, como tem sido ultimamente, foi um português maravilhoso, o Pêra-Manca, safra de 1998, de cor rubi intenso, com discreto reflexo acastanhado, com aromas de frutas vermelhas e negras, estrebaria, alcaçuz e especiarias. Ainda estava cedo e daria tempo para ver um dos vários Dvd’s que possui. Após minuto de hesitação, escolhe um show do Supertramp em Paris e depois repousa em sua poltrona de couro. Seria uma forma de preparar e tentar amenizar o sofrimento que seus ouvidos passariam em breve com aquelas batidas estridentes e constantes. Natan não sabia ao certo o horário de entrada da sua escola. Segundo Sérgio, ela seria a terceira a entrar na avenida, provavelmente próximo à meia-noite. Era nítida a sua inquietação, não conseguia ficar parado e compenetrado no show. Vai até a janela, abre uma fresta para sentir a temperatura externa, o bafo quente contrasta com o frio do ar condicionado. Olha para o céu a fim de verificar o tempo. Estava uma noite limpa, uma lua linda. Tudo perfeito para o desfile. Retorna a sua poltrona favorita, assiste alguns minutos do espetáculo. Dessa vez uma repentina dor de barriga faz com que levante rapidamente e dirige-se ao banheiro mais perto. Ficou por lá tentando relaxar por alguns minutos, o problema era que a hora não passava. Volta ao home-theater, no caminho, vê o pacote que recebeu do Sérgio ainda sobre a mesa de jantar ao lado de sua pasta. De súbito, fica estático. Inconformado, bate com as costas da mão direita na testa, lembra que se esqueceu de avisar o pobre do Bento. Segundos depois, já conformado movimentando os ombros para cima e para baixo solta o seguinte comentário: — Também não merecia. Quem mandou o condenado faltar ao serviço justamente no dia da morte dos meus pais, ele que continue desfilando “na sua Gaviões”. Rogando uma praga, complementa: — Tomara que o carro deles quebre e que vão parar na segunda divisão. Natan ainda intrigado segura novamente o pacote e retira por 48


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completo a fantasia, esticando sobre a mesa. Abre a sua pasta e pega os relatórios que recebia frequentemente. Folheia rapidamente até chegar à descrição técnica e fotos do carro alegórico do vulcão. Se os documentos estivessem em ordem, do fim para o início, seria mais fácil de encontrar, pois o carro alegórico era o último. Provavelmente o desenho e especificação técnica estejam no final. Depois de certa dificuldade consegue localizar. Observa atentamente comparando os croquis e imagens com o resultado final da fantasia. Natan reconhece o esmero deles na busca de retratar fielmente o que constava no projeto. Realmente era uma perfeita obra de arte a transformação de materiais singelos em um símbolo da mitologia grega. De volta à poltrona, com o relatório em mãos, Natan começa a ler interessado o descritivo técnico. Queria entender como foi concebido. Projeto descritivo: Carro alegórico – Elemento Fogo Título: Vulcano o Deus do fogo. Descrição: Vulcano, segundo a mitologia romana, era filho de Júpiter (ou Zeus) e Juno (ou Hera), o rei e a rainha dos deuses. Na mitologia grega, é denominado de Hefestos. Reverenciado com o objetivo de aplacá-lo em sua ira, de modo a torná-lo protetor dos mortais quanto aos efeitos nocivos do fogo. Tendo nascido feio e coxo, sua mãe, envergonhada, o jogara do Olimpo ao mar. Foi recolhido pela titânia Tétis, que o educou na ilha de Lemnos. Único Deus da mitologia gregorromana fisicamente imperfeito (coxo) casou-se, no entanto, com a mais bela das deusas Vênus ou Afrodite. Deus do fogo, sobretudo nos aspectos destrutivos como vulcões ou incêndios, também era cultuado como Deus das forjas nos lugares de metalurgia desenvolvida. Vulcano tornou-se o ferreiro divino e instalou suas forjas no centro dos vulcões. Ali fabricou os raios de Zeus, o tridente de Posêidon, a couraça de Heracles, as flechas de Apolo e as armas de Aquiles. Confeccionou também uma rede invisível em que aprisionou os amantes Afrodite e Ares para expô-los ao ridículo diante dos outros deuses e se vingar das traições da esposa. Seu culto, muito antigo, teve provável origem etrusca e se estendeu às regiões vulcânicas como a Sicília e parte da Campânia. Os epítetos de Vulcano, Quietus e Mulciber (mitigante do fogo), sugerem que era invocado para ajudar a debelar incêndios. O culto 49


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do Deus tinha lugar em templos afastados das cidades. Sua principal festa, as Vulcanais, realizava-se a vinte e três de agosto e era marcada por rito de significado desconhecido: Os chefes das famílias romanas lançavam peixinhos vivos ao fogo, talvez como oferenda de criaturas normalmente fora do alcance do Deus. Na outra página uma nova descrição: HEPHAESTOS (Vulcano) o Deus do fogo e das erupções vulcânicas. Era o ferreiro dos deuses e construía seus palácios e suas armas e ferramentas. Ele era aleijado. Diziam que uma vez ele tentou salvar sua mãe, Hera, da cólera de Zeus. Zeus o apanhou pelo pé e o jogou do céu, e Hephaestos foi caindo até aterrizar na ilha de Lemnos. De acordo com outra versão, sua mãe o jogou do céu porque nasceu manco. Para se vingar, ele fabricou um trono glorioso no fundo do mar e o mandou para sua mãe no Monte Olimpo como presente. Ela aceitou alegremente e sentou-se nele. Imediatamente, correntes invisíveis ataram-se em sua volta e ela não conseguia levantar-se. Ares, Deus da guerra, tentaram trazer a força Hephaestos para o céu a fim de libertar Hera, mas bateu rapidamente em retirada frente às chamas do Deus do fogo. No entanto, Dioniso, Deus do vinho, amigo de Hephaestos, embriagou-o com vinho e o levou ao céu onde Hephaestos libertou a rainha e passou a residir de novo no Monte Olimpo. Uma das mais célebres criações de Hephaestos foi a armadura para o herói Aquiles. Após a morte do seu amigo Patroclos na guerra de Tróia, Aquiles decidiu entrar de novo no conflito, mas não tinha armadura, pois a havia dado a Patroclos. Naquele momento, a mãe de Aquiles, Thetis, que morava no fundo do mar e que cuidou de Hephaestos quando ele foi jogado do céu, procurou o Deus do fogo no Monte Olimpo e pediu que ele fabricasse uma nova armadura para o seu filho. Hephaestos concordou e fabricou uma esplendida armadura. Era um escudo decorado com representações elaboradas e uma bela borda tripla reluzente. Sua braçadeira era de prata e os adornos representavam a terra, o céu, o mar, o sol, a lua e as estrelas. Duas cenas descreviam magnificamente a vida nas cidades, a beleza dos campos, a emoção da caça e a felicidade da juventude. Além do escudo, o Deus do fogo criou um capacete com uma crista de ouro, uma proteção do peito que reluzia mais que o próprio fogo e uma proteção das pernas de extraor50


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dinária resistência. Natan levanta, retorna à mesa de jantar e observa atentamente e intrigado a fantasia que possuía. Ela realmente tinha muita semelhança com o desenho, mas não representava o que ele tinha acabado de ler. Faltava a armadura, o escudo e o capacete. Permitindo que o raro sorriso surja em sua bela face esguia concluiu apressadamente: — Vai ver que cobrei tanto a redução de custos que eles eliminaram do projeto os acessórios. Sem perceber, pegou-se folheando página por página o relatório. Começou a entender o porquê de tanta solicitação que a ele parecia esdrúxula. A leitura serviu de distração, o tempo passou um pouco mais rápido, permitindo que esquecesse que faltavam poucas horas para o início do desfile. No entanto, Natan já não estava tão imune ao vírus. O desejo de estar no meio de todos retornou, dessa vez com força máxima. Ele olha ao redor, como se estivesse fazendo algo errado e alguém pudesse flagrá-lo. Neste caso a única que poderia delatá-lo era sua Companheira Solidão. Mas isso não aconteceria em hipótese alguma, ela era fiel. Natan pega o relatório e o pacote com a fantasia e encaminha-se para a sua suíte. Em frente ao espelho começa a vesti-la. No início sente-se um verdadeiro imbecil. Mas conforme ia completando o vestuário, uma magia fazia com que se sentisse o verdadeiro Hephaestos. Olhava o espelho sob todos os ângulos. Correu até um dos quartos e pegou uma espada de Samurai que ganhou quando foi ao Japão e de volta ao espelho, ergueu como se fosse uma arma. Olhou no relatório a imagem e notou que o Deus do Fogo não possuía nenhuma espada, somente o Escudo. Agora um sorriso meio sem graça surgiu, depois deu lugar a um verdadeiro. Estava adorando aquela situação. Ser um verdadeiro Deus do Olimpo, isso era tudo que ele mais queria. Realmente o vírus tinha infectado Natan. Agora podia sentir um pouco o que “aquela gente” — como se referia aos voluntários — sentia quando entrava na avenida. A transformação do ser frágil, cheio de dificuldades, temores e angústias em um poderoso Deus, herói ou mesmo um singelo palhaço. Isso servia para desviar as tensões, para que os fortalecessem na luta diária. Ser folião por alguns minutos é o antibiótico, o antídoto do sofrimento. Mesmo sentindo-se o todo poderoso, sem nenhum problema ou dificuldade, somente pelo fato 51


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de estar fantasiado, ainda que de forma prática, sem maquiagens já pôde captar a energia. Aquele disfarce podia transformá-lo em alguém comum, um sujeito simples por alguns minutos. Uma maneira de dar um descanso para o economista bem sucedido e sentir-se simples. Olha para o relógio de parede logo acima do espelho, confirma com o do pulso. Faltam duas horas para o início. Natan faz as contas e chega à conclusão que daria tempo suficiente para chegar até o sambódromo. Precisaria de apenas meia hora. O trânsito nesse horário é livre e com a credencial vip não perderia tempo para entrar. Ele despe-se da fantasia. Nu, apenas de relógio dourado diante do espelho, sente um vazio. Voltou a ser a máquina de ganhar dinheiro. Coloca de qualquer jeito a fantasia na caixa de papelão, alguns adereços coloridos colados, caem fora. Natan finge não perceber. Ainda pelado, leva cuidadosamente a espada de volta para o outro quarto no final do corredor. Retorna à suíte, ainda nu pega o pacote e encaminha-se para a sala de cinema. Chegando lá, joga a caixa de qualquer jeito no chão ao lado da poltrona. Estava nervoso, alterado, era como se após passada a euforia, viesse à depressão. Sintoma semelhante aos dos dependentes químicos. Natan tenta concentrar-se no final do show, mas novamente não consegue. Para exorcizar aquele sentimento, retira o vinho do balde de gelo. Confirma a temperatura e inicia o ritual de abertura da bebida. Pronto, estava saindo de uma frequência que lhe causava sofrimento para entrar em outra que lhe proporcionava prazer. Sempre que abria um vinho, suas mãos suavam, depois sentia o choque térmico com o contato com a garrafa gelada e molhada. Despeja uma pequena quantidade do líquido na taça, balança circularmente, aproxima do nariz, agora dos lábios, sorvendo lentamente a bebida e mantendo-a por alguns instantes em contato com a língua e o céu da boca. Confere as características do vinho e estalando a língua igual ao seu pai, bebe num único gole. Dessa vez, completa a taça e repete o ritual. Na mesa de centro outra taça vazia. Natan também pega e completa com a bebida. Essa era destinada especialmente à sua fiel Companheira Solidão. Natan sempre fazia isso. Dessa forma, sentia-se acompanhado. Com uma taça em cada mão, faz um brinde em voz alta: Salve Dionísio, o Deus do vinho. Com a mão esquerda coloca de volta a taça na mesa de centro. Essa sempre era a última a ser degustada. Para ele, a melhor 52


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de todas. Significava o último ato, o “grand finale”, já que normalmente nesse momento já estava um pouco acima do nível ideal de consciência e na hora exata de parar. Normalmente era essa taça que lhe fazia companhia na cabeceira da cama ou ao lado do sofá de couro branco. Natan consulta agora o relógio de parede da sala, novamente confirma com o do seu pulso dourado. Estava na hora de desligar o show, iria começar o maior espetáculo da terra. Era assim que o diretor da escola sempre se referia ao carnaval. Natan procura o controle do projetor. Tem certa dificuldade em localizá-lo no meio de tantos outros, assim como, após achá-lo, para acionar a tecla desejada. Demora um pouco para selecionar o canal que irá transmitir o espetáculo. Ele dificilmente utiliza canal aberto, prefere aqueles no cabo que falam de economia. Contagem regressiva na tela de projeção. Está iniciando as transmissões, antes, uma infinidade de comerciais dos patrocinadores. Natan desvia o olhar, volta a mirar em sua taça, enquanto não começa o desfile. Completa novamente com o vinho, fazendo o seguinte comentário: — Quem te viu e quem te vê Natan. Em pleno feriado em frente à televisão assistindo desfile de carnaval, que decadência! Coincidindo com o término da frase o interfone toca. Natan nu tem certa dúvida para identificar o sinal, se era do home-theater, do celular ou do telefone fixo. Nessa mesma ordem, ele foca sua atenção e busca eliminar a dúvida, até perceber se tratar do interfone. Retirando o fone do gancho pendurado na parede da cozinha, ele reclama: — O que esse porteiro quer agora? Alô, aqui é Natan Castro. No outro lado da linha, a voz que vem da recepção, como sempre, demonstra certo nervosismo: — Senhor Natan? Tem um senhor aqui na recepção querendo falar com o senhor. — Comigo? Tem certeza? Quem é? — Senhor Natan é o senhor Sérgio Franco. — Sérgio? O que ele quer comigo? Diga que não estou. — Mas senhor Natan ele sabe que é o senhor que está falando. Pois estou falando com o senhor. — Deixa-me falar com ele então. O recepcionista passa o aparelho para Sérgio. 53


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— Natan como vai? — Bem obrigado. O que você quer? Aconteceu alguma coisa com a escola? — Não Natan vim aqui pessoalmente, justamente para tentar convencê-lo a ir comigo assistir ao desfile. — De jeito nenhum, se é para isso, perdeu sua viagem. — Mas Natan sua presença é importante. — Você já falou Sérgio, mas prefiro ficar aqui. — Mas Natan vai ser legal. — Que legal o quê Sérgio, ficar no meio daquela gente, por acaso é legal? — Não vamos ficar no povão, ficaremos no camarote vip. — Sérgio, mas já estou no meu camarote vip. Se é que você me entende. Sem o menor constrangimento, Natan desliga o aparelho. Sérgio não se dá por satisfeito, engana o recepcionista, dizendo que Senhor Natan pediu para ele subir. O Rapaz, acreditando na sua palavra, autoriza a entrada. Natan estava prestes a pegar a taça para apreciar mais um gole, quando a campainha toca. Ele se assusta, quase derruba o vinho no tapete espanhol. Xingando vai atender, sem lembrar que está nu, ou melhor, apenas usando o relógio dourado que ganhou de amigo secreto. — Quem será o infeliz que está tocando? Observa pelo olho mágico a presença de Sérgio. Pensa em não atendêlo, mas volta atrás e abre a porta, soltando um palavrão. — Mas que coisa Sérgio, você é um saco! Sérgio vendo a hilária cena do sócio sem roupa complementa, apontando com o dedo indicador. — Se sou um saco isso aí é o que então? Natan fica vermelho e completamente sem graça. Num gesto de puro reflexo, bate a porta na cara de Sérgio, que estático aguarda o sócio se recompor. Passados alguns minutos, Sérgio toca novamente a campainha. Natan agora de cueca, camiseta e o relógio dourado no pulso retorna à porta reclamando outra vez do sócio. Inicia um diálogo, Natan dentro e Sérgio fora do apartamento. 54


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— Sérgio que impertinência, pensei que já tivesse ido. — Natan vim para te levar e não vou desistir. — Para com isso Sérgio, você perdeu sua viagem. — Mas Natan lá é seguro, você fica no camarote, não precisa desfilar. Só se tiver vontade, e tenho certeza que você não vai resistir. — Deus me livre Sérgio. — Natan eu te levo e trago de volta. Você não precisa ir com o seu carro. — Sérgio você é muito chato. — Natan, estando lá, você vai poder ter contato com a festa, ver todas as alternativas que podem ser exploradas comercialmente já no próximo ano. Natan balança, acaba de levar um punhado de “jabs” de esquerda e de direita. — Natan pensa só, vai poder conhecer os diretores da emissora que cobre o evento. Você precisa dar as caras se quiser ter melhor participação na cota de transmissão do ano que vem. Natan leva outro golpe, agora um cruzado de esquerda no rosto. Estava preste a abrir contagem, empolgado com a possibilidade de vitória, Sérgio emenda: — Natan nós estaremos no mesmo camarote do Governador e parece que o presidente vai aparecer por lá. Sabe como é, o homem veio de baixo, vai ser bom estar próximo do povo. Pronto agora ele cai, levou um direto no queixo. Estar perto do presidente. Bambeou. Os joelhos dobraram, o árbitro vai abrir a contagem. Mas Natan é salvo pelo gongo. Sérgio percebendo que esta vencendo o combate empolga-se ainda mais e acaba jogando um balde de água fria ao fazer o comentário final. — Sabe como é Natan festa popular, alegria, visibilidade na mídia, cobertura dos jornalistas... Pronto, tudo que ele não queria ouvir era a palavra jornalistas. Interrompendo Sérgio, ele emenda. — Sérgio, você sabe que abomino jornalistas. Estava quase me convencendo, mas está aí um grande motivo para não aparecer por lá. — Mas Natan você não pode fugir deles. Basta dizer que deseja se divertir e que não vai dar nenhuma entrevista. 55


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— Sérgio, em que planeta você vive, onde já se viu um jornalista dar-se por vencido tão facilmente. — Natan, me comprometo a barrar a entrada deles, só entra os jornalistas que concordarem em não importuná-lo. — E como vai conseguir isso? — Pode deixar comigo. Ainda sob os efeitos dos golpes anteriores, Natan fala: — Olha lá em Sérgio. — Fique tranquilo Não permitindo a entrada de Sérgio no apartamento, Natan pede que aguarde uns minutos. Ele não confia em ninguém. Nos seus aposentos só pode entrar, ou melhor, apenas quem pode ficar e usufruir todo o conforto é a sua inseparável Companheira Solidão. Passado um tempo, aparece Natan vestindo um traje esporte fino. Calça de micro fibra azul escuro, camisa branca de algodão com suas iniciais gravadas no bolso com as mangas dobradas e sapato de pelica italiano. Só faltava a gravata para parecer que ia ao trabalho. Sérgio rindo comenta: — Natan o que isso cara? Você está indo assistir um desfile no Sambódromo, não pense que vai para o Jóquei Clube. Com esse sapato vai ficar cheio de bolhas no pé. Olha só como estou, tem que ficar bem à vontade. Natan não fala nada. Contrariado, dispara um olhar furioso, não precisaria dizer a mãe de quem ele xingou. Passado mais alguns minutos, o novo folião retorna num traje mais adequado. Calça de sarja bege, camisa polo azul e um confortável calçado de camurça. Querendo uma confirmação, ele pergunta: — É agora está bom? — É isso aí Natan. Agora está um verdadeiro folião. Só tem uma coisa errada. — O que é agora? — Esse relógio todo dourado. Ele chama muita a atenção. Você tem um monte, não é melhor trocar? — Não. — Mas Natan... Parece de ouro. — É mesmo? Você não disse que lá é seguro? — É Natan, mas pra que facilitar. 56


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— Sérgio, ou eu vou com ele, ou não vou. — Está bem Natan, está bem. Então vamos logo que já estamos em cima da hora. Só está faltando uma coisa. — O que é agora? — A fantasia Natan. É bom levá-la, como disse você não vai conseguir resistir. Natan no fundo sabia que essa era uma possibilidade remota. Mas se não levasse, nem teria condições de sonhar com a chance de usá-la. Fingindo estar contrariado, ele retorna à sala e pega a caixa com a fantasia. Antes, porém, aproveita para beber num só gole a taça de vinho que estava pela metade. Olha para a outra cheia que está na mesa de centro. Tem o impulso de pegá-la, mas pensa melhor: — Calma Natan, quando voltar você vai degustar tranquilamente às últimas gotas desse maravilhoso Pêra-Manca e poder comemorar o sucesso da escola.

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Companheira Solidão Somos sozinhos com tudo o que amamos Novalis, Friedrich

CAPÍTULO 3 Sérgio tinha razão. Logo ao entrar no Anhembi, podia-se notar que a frequência cardíaca estava começando a se alterar. O barulho da bateria na concentração e a marcação do bumbo eram muito mais lentos que o coração de Natan. O que o incomodava era realmente o acúmulo de pessoas na entrada. No entanto, Sérgio, conhecedor dos atalhos, entrou numa pequena porta de alumínio, retirou a sua credencial e foi caminhando a passos largos em direção ao camarote. O sócio, com os olhos de turista, observando tudo ao redor foi ficando para trás, ao tentar passar pela mesma porta, um dos seguranças que faziam o controle de entrada, prende firme o seu braço direito, não permite sua entrada. O pacote de fantasia quase caiu no chão. De forma educada, o funcionário pergunta: — Senhor sua credencial, por favor. — Como? Questiona Natan. — Sua credencial, por favor. Para entrar aqui nessa área só com a credencial. — Estou com o Sérgio, ele acabou de passar. — Senhor, cada pessoa tem que ter a sua autorização, sem credencial não é permitido à entrada. Natan estava prestes a “dar a carteirada” e soltar o famoso “você sabe com quem está falando”, mas antes disso, num lampejo da memória, recorda do Sérgio ter escrito sobre a credencial no bilhete. Lembra agora de ter visto a credencial dentro do pacote. Natan ajoelha-se, fato raro de acontecer e põe o pacote no chão, apressado, tenta encontrar o passaporte de entrada, pois com a intervenção do segurança, estava obstruindo a passagem e começando certo congestionamento na entrada. Nesse instante, percebendo que tinha se perdido de Natan o sócio retorna. — O que foi Natan? — Estou procurando a credencial, tem que estar aqui. — Será que você esqueceu no apartamento? 58


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Começando a se irritar e mentindo para o Sérgio, responde: — Não esqueci não, nem mexi nessa porcaria e no bilhete dizia que estava aqui. — Está bem Natan, se você não abriu a caixa então ela está aí, pois coloquei pessoalmente. — Achei. O olhar de alívio surge no belo rosto de Natan. O segurança confere e permite a entrada. Esse foi o primeiro teste para a sua paciência, e que pelo visto, passou com louvor, sem ter que apelar para condição de patrocinador da escola. Depois de vários outros esbarrões e o pacote com a fantasia quase ter caído algumas vezes, Natan chega ao camarote vip. Na porta, outro segurança, dessa vez de uma maneira mais discreta, de forma sutil apenas observa as credenciais de cada convidado. Sérgio e o sócio entram sem maiores problemas. Ao adentrar no ambiente, uma câmara de televisão mira e focaliza com um close o rosto de Natan, simultaneamente sua imagem é transmitida no telão, estrategicamente instalada numa lona de pano branco ao lado do buffet. Ele totalmente constrangido tenta cobrir o rosto colocando o pacote na frente. Isso acaba chamando ainda mais a atenção das pessoas e de alguns jornalistas, que rapidamente se encaminharam em direção de Natan achando ser ele alguma celebridade. Durante o percurso os jornalistas se perguntavam: — Quem será aquele que acabou de chegar? Sérgio percebendo que poderia ter problemas, de forma bastante polida, prontamente afasta todos de perto. Se fosse o sócio que tivesse que despachá-los, com certeza não seria de forma tão educada. Afinal a aversão de Natan pela imprensa era tamanha que invariavelmente sentia dores de cabeça e ânsia de vômito após ser abordado por algum jornalista. Se tivesse a humildade de visitar um analista, provavelmente teria a resposta para esse mal estar. A inexperiência ou a ânsia de uma única repórter à busca de uma nota em primeira mão, pôs por água abaixo o conceito de uma categoria inteira. Certamente o analista poderia tratar esse trauma e mudar o conceito já enraizado na cabeça de Natan. Ele nunca perdoou à forma truculenta com que a repórter informou a morte de seus pais. Depois de liberada a área, Sérgio retira o pacote de Natan e coloca na sala reservada às pessoas envolvidas com 59


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a organização do evento. Na avenida, a primeira escola estava em plena ação. O público vibrava, estavam empolgados, com o gás total, afinal a noite só estava começando. Natan discretamente, não querendo demonstrar nenhuma emoção, vai até abertura que possibilita assistir o desfile de forma privilegiada. Fixa o olhar em um dos passistas, observa todos os seus movimentos, mais a frente um integrante brinca com o pandeiro, girando em uma das mãos, parece um verdadeiro malabarista. Mais um bloco passa e Natan observa que além da luz que ilumina a avenida, outra mais intensa brilha nos olhos de cada um que está lá embaixo. É notória a felicidade estampada no rosto deles. Como ficar imune, como não se emocionar ao ver um senhor, perto dos sessentas anos, rodopiando e sambando como criança. A impressão de Natan era que cada passista ou integrante da escola ao passar em frente ao camarote desfilava exclusivamente para ele. Parecia que queriam esnobar a sua felicidade, mostrando que não precisam de nada mais para serem felizes. Que aquele enredo, misturado com a fantasia e tendo o público como moldura desse imenso quadro, era a mistura necessária para exalar alegria e emoção a quem permitisse sentir. Natan lembra a sensação de euforia que o preencheu, no momento que estava no seu quarto, em frente ao espelho, vestido de Deus do fogo. Sérgio, retornando da sala, percebe a transformação no semblante de Natan. Para provocá-lo o questiona: — E aí Natan vai encarar. Disfarça, dando uma de desentendido. — Encarar o quê? — Encarar a avenida. Veja só a alegria desse povo. É ou não é um espetáculo à parte? — Bacana. Responde sem maiores adjetivos. — Bacana Natan? Imagina só, quando a nossa escola apontar na avenida e for anunciada. Você vai tremer inteiro. Só de pensar que todos aqueles projetos saíram do papel e se transformaram em realidade. É de mais Natan. Para mim não interessa a posição que ela vai ficar só de saber que participei desse trabalho já é o bastante. — Você tá louco Sérgio, você é um romântico, eu sou racio60


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nal. E a fortuna que investi não conta não? Ela tem que estar entre as primeiras. Nem repita uma coisa dessas. Pelo amor de Deus, dá mau agouro. — Está bem. Vamos assistir mais um pouco o desfile. — Quem será a próxima? Indaga Natan. — Será a Vai-vai, ela vem sempre para arrasar. — E depois? — A Gaviões, essa é sempre favorita. — E depois? — E depois Natan adivinha? — É a nossa? — Sim, nossa escola. Ela será a melhor da noite, pode crer. Foi a primeira vez que Natan se referiu à escola, da mesma forma que Bento referia-se ao Corinthians, sentindo-se realmente dono da escola. Era um sinal que o vírus está combatendo o seu sistema imunológico e contagiando-o. Só mais alguns minutos para estar totalmente infectado. Daí em diante, não tem mais jeito. Natan irá se sentir como um verdadeiro carnavalesco. Irá se apaixonar pela sua escola querida. Natan pergunta a Sérgio se trouxe o celular, pois na correria acabou esquecendo o seu. O sócio retira o aparelho da cintura e avisa: — Está com a bateria fraca. — Fica tranquilo, parece que não me conhece, sempre sou rápido no telefone. — É verdade. Responde Sérgio que sofre na pele toda vez que fala com ele. — Sérgio você tem o número do celular da Sara. — Claro, um homem prevenido vale por dois. Sabe como é o casamento dela não anda lá essas coisas, vai que ela precisa de um apoio. Um colo, um ombro amigo. — Deixa de ser safado Sérgio. Sara esta enroscada até o pescoço. Não larga aquele pilantra por nada nesse mundo. Deve ser carma de outras vidas. Natan após localizar o número na memória do aparelho liga para a secretaria. — Alô, Sara aqui é Natan Castro. — Natan? Apareceu o nome do Senhor Sérgio no celular, acon61


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teceu alguma coisa? — Aconteceu Sara. Mantendo certo ar de suspense. — O que foi meu Deus. Onde você está, envolveu-se em algum acidente na estrada. — Calma Sara, está tudo bem. Quer dizer quase tudo. — Então o que houve pelo amor de Deus, já estou aflita. Minhas pernas estão até bambas. — Calma mulher, pode voltar ao normal, você vai precisar bastante das suas pernas para o desfile. — Natan você está esquisito. Que bicho te mordeu? — É verdade, acho que fui picado por algum bicho mesmo. Imagine só onde estou? — Não faço a menor idéia. — Bem vou manter o suspense. Mas faça o seguinte. Na hora que você e o Bento estiverem desfilando, de uma olhada para o camarote. Soltando um grito, Sara expressa seu espanto. — “I dont believe” Você veio no desfile. Meu Deus, por favor, não deixe chover na avenida. Vou entrar daqui a pouco. — Para com isso Sara. Que chuva que nada. Se chover vai estragar o carro alegórico Deus do fogo da minha escola. — Sua escola, você disse que detestava carnaval, eu hein Natan. Você está com febre? — Bem a bateria do celular do Sérgio está acabando. Só liguei para dizer que estou aqui e vou ver você desfilar. Não fala nada para o Bento, só mostre na hora que estiver aqui na frente. Quero ver a cara de espanto dele. — Que pena, você podia estar junto da gente desfilando. — Sara já estou aqui não estou? Acho que é exigir demais de mim, não é mesmo? Beijos e divirta-se. Sérgio quase cai de costas. Ouviu a conversa e não acreditava que era o Natan que estava falando daquela maneira. Nunca o tinha visto tão amistoso, muito menos se despedindo, e ainda mais com cordialidade. O sócio, brincando encosta a costa da mão direita na testa de Natan e questiona se está tudo bem. Ele empurra a mão para o lado e volta a compenetrar-se no desfile. 62


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O coração de Natan bate forte, acelera um pouco mais ao perceber o barulho do público quando acaba de ser anunciada a entrada da Vai-Vai. Era como se já fosse saudada a campeã antecipadamente. Será que quando a minha escola entrar será assim, questiona-se em silêncio. Perspicaz, observa tudo ao redor. Estava exercitando também o seu lado empreendedor. Como reage o público, vendo as possibilidades de explorar comercialmente da melhor forma o evento. Ao perceber a chegada vagarosa da bateria, Natan se afasta da janela e começa a circular pelo camarote à procura de Sérgio que tinha sumido de vista. Deve ter percebido que o sócio estava compenetrado no desfile e aproveitou para dar uma escapada, provavelmente à procura de um rabo de saia. Natan antes de crucificá-lo, pondera que ele sendo um dos responsáveis pela organização, sempre é solicitado a resolver problemas ou dificuldades. De qualquer forma, sente-se traído por ter que ficar ali sozinho. Logo em seguida, pensa intrigado, onde foi parar aquele tratante? Buscando encontrá-lo por todas as partes, entra na sala restrita à organização. Lá estava o fugitivo, que ao ver Natan solta a frase: — E aí Natan, estou bonito? — O que é isso Sérgio? — Não está vendo, estou me preparando para o desfile. — Que desfile Sérgio? — Vou desfilar no carro da água. Serei um dos que estarão em destaque ao lado da cachoeira. Natan lembrando o sonho pensou em alertá-lo, mas preferiu o silêncio. Concluiu que era paranóia sua. Afinal, hoje tudo seria perfeito. Nenhum imprevisto aconteceria. Tudo transcorreria na melhor maneira possível e para selar o sucesso, quem sabe um honroso terceiro lugar. — Sérgio, você não me disse que iria desfilar. — Você não perguntou. — E agora, vou ficar sozinho aqui. — Que sozinho Natan tem um monte de gente no camarote, uma multidão na arquibancada, um exército desfilando e você vem-me dizer que está sozinho. — Você entendeu Sérgio. Não se faça de ignorante. — Natan sua fantasia está aqui se lembra? — Já disse que não vou desfilar. 63


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Interrompendo a conversa e contrariado ele pensa em ir embora. Mas lembra da ligação que fez a secretária e resolve ficar, não queria passar por mentiroso. Natan volta à janela e assiste ao final do desfile da Vai-Vai, sem muita empolgação é verdade, não porque a escola tenha ido mal, mas pelo seu estado de espírito momentâneo. Passado mais alguns minutos, ouve anunciar a Gaviões. O Sambódromo quase vai abaixo. Se na anterior o seu coração bateu mais rápido, agora, praticamente saltou à boca. Pensou intrigado: “Esse Sérgio não entende de porcaria nenhuma. Era essa que deveria ter patrocinado. Olha só essa multidão, que loucura, será que é assim que acontece no estádio durante os jogos do Corinthians? Bento tinha razão, é uma verdadeira explosão de felicidade”. Natan não sentiu o tempo passar, ficou encantado com cada ala, cada integrante, principalmente quando pôde identificar Bento e Sara empolgados sambando na avenida. Pôde sentir tudo aquilo o que o motorista tanto falava. A alegria de fazer parte de um grupo que só tinha um único objetivo: A busca da felicidade. A secretária ao passar em frente ao camarote chamou o chefe para participar. Natan se pudesse teria pulado de lá de cima. Já estava conseguindo aplacar o seu preconceito, praticamente venceu a dura batalha interna. Aqueles minutos mágicos foram à conta para contagiá-lo de uma vez por todas, não mais existia nenhum anticorpo para resistir ao combate do vírus carnavalesco. Tinha acabado de decidir que também iria participar do desfile, mesmo não estando presente em nenhum ensaio, nem sabendo ao certo como se samba, nem a letra do samba enredo, resolveu que iria provar daquele momento mágico. Tal qual a figura mitológica de Dionísio, beberia do elixir da felicidade. Estaria na avenida, vendo de um ângulo privilegiado o público suado sacudir o sambódromo. A próxima escola era a sua. Natan nem viu o sócio indo para a concentração. Não sabia direito para que lado seguir. Pegou o pacote na sala da organização e seguiu a lógica. Se eles estão vindo da esquerda, então é para lá que vou. Natan não estava acreditando no que estava preste a fazer, para ser sincero, nem queria pensar, pois poderia desistir. Segurou firme o pacote e apressou o passo. Por várias vezes quase caiu, mas habilmente conseguiu equilibrá-lo. Ao chegar à concentração, pensou estar no meio de um verdadeiro formigueiro, uma infinidade de pessoas estressadas. Sentiu-se no 64


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meio do pregão da bolsa de valores. Alguns integrantes da organização vestindo um colete amarelo limão, de forma truculenta encaminhava as pessoas para suas respectivas alas. Um deles chegou a questioná-lo, querendo saber qual a posição. Natan já tinha a resposta na ponta da língua: — Sou Natan Castro, patrocinador da escola, vou sair no carro do fogo. Pronto, essa era a senha para que conseguisse ir adiante. Na verdade, não tão longe assim, pois logo em seguida um novo organizador lhe fazia a mesma indagação. Passou pelo carro da água, tentou encontrar Sérgio, mas aquela altura era muito mais fácil achar agulha no palheiro. Seguiu para o final da concentração. Sabia que o seu carro seria o último a entrar na avenida, dessa forma teria um pouco mais de tempo para se vestir. Além do que sua fantasia não era assim tão complicada de colocar. Já vivenciou essa experiência na frente do espelho. Ao passar pelo carro do ar, Natan ouve seu nome. Achou estranho, pois no meio daquela imensa loucura e correria quem o reconheceria? Ao seu encontro, vem o diretor da escola. Aquele que lhe recepcionou, dando as boas vindas e o atendeu no pequeno escritório contando a história da agremiação. — Que bom Natan que veio prestigiar a nossa escola, você não sabe como estou feliz. Vou passar um rádio agora mesmo, informando todos que você está aqui conosco. Será até um fator a mais de motivação para que cada integrante da escola dê o melhor de si. Natan não conseguindo lembrar o nome do diretor responde: — Imagina, não precisa divulgar nada, resolvi desfilar de última hora, acho até que estou atrasado. — Que nada Natan está no prazo. Aqui é assim mesmo, uma correria danada, todo mundo fica estressado, maluco, mas no final tudo da certo. — Onde está o carro do fogo? Pergunta ansioso, querendo enxergá-lo logo. — Ele está no final da concentração, tivemos um pequeno problema com a válvula de injeção do gás, mas já está tudo resolvido. Foi trocada por uma nova. É sempre assim, na hora do vamos ver, de por o bloco na avenida, não tem nenhum carro de nenhuma escola que entre 65


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sem problemas. É muito comum ter reparos de última hora para serem feitos. É justamente pra isso que estamos aqui né Natan? — Mas ele vai sair, não vai? — Claro Natan é o carro principal da escola. Você vai ver que maravilha, não é à toa que lhe reservamos um local especial. — Bem, então vou indo. Boa sorte para nós. — Boa sorte Natan, se precisar de ajuda é só pedir para o responsável pelo carro, estão de colete limão. Eles passam uma mensagem pelo rádio e eu resolvo. Fique tranquilo. Natan segue rumo ao Deus do fogo. Por alguns instantes, ficou preocupado em saber que o carro teve problemas, mas se sentiu mais seguro com o comentário do diretor, dizendo que era coisa simples, que resolveram o problema pela raiz, trocando a peça por uma nova. Pensando bem, até agora nenhum carro, de nenhuma escola falhou, todos estiveram impecáveis, não seria agora que aconteceria uma falha. O seu pesadelo não iria se concretizar. Natan caminha mais um pouco. Alguns esbarrões e de repente, dá de cara com o Vulcano. Assustase, seu coração chega a disparar. Realmente era o maior carro alegórico que viu até agora. Eles conseguiram transformar aqueles simples rabiscos coloridos, num verdadeiro monumento. Natan boquiaberto observa cada ângulo do carro. A sensação era que o tempo tinha parado. As pessoas tinham ficado imóveis só para que pudesse apreciar aquela obra de arte. Era nítido notar Natan em verdadeiro estado de contemplação. Só caiu em si e voltou à realidade, quando um daqueles organizadores, repetiu a pergunta que já estava cansado de responder: — Quem é você e qual é a sua ala? — Sou Natan Castro, patrocinador da escola, vou sair no carro do fogo. Sem dar a mínima importância a quem se tratava o dirigente só processou o final da frase. — Está bem, então se vista logo, pois temos que colocar o carro na ordem de saída. — Mas onde me visto? — E por que ainda não se vestiu? Responde com outra pergunta, num tom de voz que aborrece Natan, não estava acostumado com esse tipo de tratamento. 66


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— Por que sou o patrocinador dessa escola e decidi desfilar agora, algum problema? Respondendo de forma bastante áspera. O coordenador tinha acabado de escutar no rádio, o diretor fazer menção que o patrocinador da escola estava presente e iria participar do desfile como destaque. E para o seu azar, estava justamente com ele à sua frente. Agora sabendo exatamente com quem estava falando e mudando o tom da voz e com a difícil tarefa de ser gentil, tenta apaziguar a situação auxiliando-o. — Senhor faz o seguinte, atrás do carro, tem uma espécie de barraca, onde os integrantes, modelos, convidados e os destaques do carro estão se maquiando e fazendo os ajustes finais. Vá até lá e pode se trocar. Se Natan realmente não tivesse sido contaminado pelo vírus, já teria ido embora xingando meio mundo. Era assim que normalmente agia, quando estava contrariado, mas o desejo de ser destaque superava qualquer contratempo. Estar lá no local mais alto do carro, sendo visto e contemplado pela multidão fazia com que segurasse os seus ímpetos. Natan entra correndo na barraca desnorteado e com ar de cansaço. Um homem magro, afeminado, vestindo umas roupas coloridas, diferentes das fantasias, lhe dirige o olhar, analisando-o da cabeça aos pés. Era o coreógrafo do carro, e não reconhecendo o modelo atrasado em questão faz a questionamento de sempre, no entanto, sendo um pouco mais dirigido, queria saber também qual era a posição que estaria no carro. Mais uma vez a resposta padrão: — Sou Natan Castro, patrocinador da escola, vou sair no carro do fogo. — Tudo bem querido, mas em que lugar do carro. — Vou ser destaque. O Coreógrafo abusando da feminilidade adoça a voz e explica: — Meu querido, você está vendo todas essas pessoas ao nosso redor. Todos eles serão destaques também. Apelando para a posição hierárquica na escola, Natan emenda: — Sou Natan Castro, patrocinador da escola e não posso ser igual a esses aí. Referindo-se com menosprezo. — Meu amor, você já disse quem você é. Mostre-me a sua fan67


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tasia e já lhe digo qual será a sua posição no carro. Sem abrir a caixa da fantasia, Natan nervoso responde: — Vou ser o Vulcano. — Vulcano? Não me faça rir meu bem. Está vendo aquele Deus grego ali sentado, sendo maquiado, ele vai ser Vulcano. Natan irritado, quase a ponto de largar tudo, ainda questiona. Abre a caixa de fantasia e mostra para ele ou ela, já não sabe ao certo de que forma tratá-lo ou tratá-la. — Não pode ser. Se eu não for o Vulcano não desfilo. — Então sinto muito meu bem. Essa fantasia que você tem é um lugar “super demais”, também desfilarei nesse local, fica bem aqui olha. Apontando na prancheta com o dedo delicadamente curvado o desenho do carro alegórico o local destinado a fantasia. Natan observa, realmente era uma ótima localização. Como o veículo tinha vários patamares, estaria apenas alguns degraus abaixo do Vulcano. Qualquer outra pessoa se daria por satisfeita. Como disse Sérgio, tem gente se estapeando para conseguir um lugar igual a esse. Mas no caso de Natan não serviria, sem contar o infeliz fato de ter que ficar perto do coreógrafo(a), o que iriam pensar, ou era tudo ou nada. Ou seria o Deus do Fogo ou largaria tudo aquilo e voltaria para sua casa, contrariado é bem verdade, mas como consolo, pelo menos poderia terminar de apreciar a última taça do Pêra-Manca que o aguardava, silencioso, tranquilo como água em poço. Voltaria a gozar o privilégio da presença da sua fiel amiga Companheira Solidão. Numa última tentativa de ser Vulcano, Natan pede para o coreógrafo(a) chamar o diretor da escola pelo rádio. Tinha acabado de lembrar o que ele lhe falou há poucos minutos atrás, que se precisasse de alguma coisa era só avisar. — Fala para ele que vou sair como o Deus do fogo. O coreógrafo, percebendo que não teria outra escolha e com o tempo passando e outras pessoas para cuidar, resolver atender ao pedido do patrocinador e chamar o diretor pelo rádio com uma voz menos adocicada. — Oi diretor, aqui é Aluizio, coreógrafo do carro do fogo. Tem um senhor aqui, o nome dele é Natan ele disse que quer ser o Vulcano. 68


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O que faço? — Faça o que ele pede. Natan ouve e nem sequer disfarça, abrindo um enorme sorriso de satisfação. O mesmo que tentava sem sucesso impedir sempre que fechava um grande negócio. — Mas e o modelo que vai sair de Vulcano, o que faço? — Ponha no lugar que seria de Natan. — Mas ele pagou uma fortuna pela fantasia e por aquele local, não vai querer trocar. — Te garanto que foi muito menos do que o Natan pôs de dinheiro aqui na escola. — Mas ele já está vestido. Pronto para desfilar. — Desvista. — Mas não é justo. Argumenta pela última vez, sem que ouça nenhum retorno do diretor. Natan satisfeito e reluzente com o teor da conversa vai até o falso Vulcano e tocando no seu ombro esquerdo fala: — O Aluizio quer falar com você. — O que ele quer? — Não sei, pediu apenas para chamá-lo. O coreógrafo, desconsertado e sem graça, totalmente sem jeito informa o modelo do que estaria preste a acontecer: — Olha o que tenho para te falar é um pouco chato. Mas vou ser direto, até porque não temos tempo para rodeios. Houve um equívoco na disposição dos destaques e infelizmente você não poderá mais representar o Vulcano. O modelo, processando somente o final da frase, visivelmente contrariado não aceita a proposta. — De jeito nenhum, me preparei o ano todo para ser Vulcano, estive em todos os ensaios, não vai ser agora que vou ser preterido. Mas quem pensa que vai tomar o meu lugar? O Coreógrafo apontando para Natan. Fala baixinho no ouvido do Deus Grego. — Ele é o patrocinador principal da escola. Sem ele, a escola nem entraria na avenida. — Não quero nem saber. Paguei uma fortuna por esse local, 69


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também sou responsável pela escola estar na avenida. — Mas o diretor geral da escola mandou que você fosse para o lugar dele. Nesse instante o coordenador do carro grita, informando que faltam seis minutos para entrar na avenida, pedindo para que todos estivessem a postos. O coreógrafo fala já de forma alterada e apressada sem dirigir a palavra a um dos dois em especial. — Está vendo só, gente, temos que resolver esse impasse o mais rápido possível. Percebendo que estaria preste a perder a queda de braço, o modelo apela para o lado financeiro. — Quero o meu dinheiro de volta. O coreógrafo tentando convencer o modelo emenda: — Veja bem, vai ficar apenas um patamar abaixo, olhe só o local, é super privilegiado. Também vou desfilar nesse nível, praticamente ao seu lado. Particularmente até prefiro esse ao invés do destaque principal. Eu hein, pendurada naquela base pequena, balançando pra lá e pra cá, Deus me livre. O modelo ouve a argumentação, mas mesmo assim reivindica: — Então, quero que me paguem a diferença de volta, paguei uma fortuna para ser Vulcano. Natan entra em ação. Negociador hábil que é percebe que daqui para frente deveria resolver o imbróglio. — Aluizio, então faz o seguinte, tudo bem, não é justo o cidadão levar prejuízo, afinal ele também contribuiu com a escola. Temos como princípio respeitar os direitos dos nossos patronos. Tome nota do nome e da conta dele. Veja quanto representa essa diferença que eu mesmo pedirei para a minha secretária depositar o valor. Ou melhor, para que não haja qualquer ressentimento, no próximo ano, você não precisará pagar a sua fantasia. — Nem morto. Responde o modelo. Você acha que vou cair nesse golpe. Depois do desfile, ninguém lembra mais nada e eu fico no prejuízo. Quero o dinheiro aqui e agora. — Mas como? Indaga o coreógrafo. Ouvindo ao fundo o grito dizendo que faltam apenas cinco minutos para o carro entrar na avenida. 70


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Percebendo que a estratégia adotada estava funcionando o modelo ressalta: — Não sei. Isso é problema seu e dele. Ou me paga a diferença agora ou eu não troco nada e vou ser Vulcano. Natan tenta argumentar: — Mas quem é louco de andar com dinheiro aqui? — Ou o dinheiro ou não tem troca. Como estavam em cima da hora e precisando chegar à conclusão de uma vez por todas, Natan mostra no pulso esquerdo o seu precioso relógio de aço dourado que ganhou de amigo secreto. — Está vendo esse relógio, custa uma fortuna. Com certeza vale muito mais do que essa diferença que você quer. Vamos fazer seguinte, te entrego como garantia de pagamento. O Aluízio vai anotar seus dados e amanhã mesmo, eu pessoalmente irei te pagar o valor em dinheiro e reaver o meu relógio. Tudo bem? O modelo analisou a jóia no pulso do patrocinador como se fosse um ourives. Todos ao redor ansiosos para saber a sua decisão. Depois de alguns segundos acabou concordando. Viu que era o momento “do pegar ou largar”. Ele não era tolo, percebeu que o relógio em questão era realmente muito caro. Com certeza valia até mais que o montante que pagou para ser Vulcano. E ainda mais, se tentasse bater o pé e não fazer a troca era capaz deles chamarem um dos seguranças brutamontes e aí, nem desfilar ele iria, ou pior, iria desfilar de olho roxo. Natan entregando cuidadosamente o relógio e na sequência a caixa com a fantasia para o modelo comentou: — Cuide muito bem desse relógio, ele vale uma fortuna. Amanhã quero de volta inteirinho sem nenhum risco ouviu. — Pode deixar, fique tranquilo, como não tenho onde guardar usarei no desfile. Apesar de ser dourado, dá para disfarçá-lo, cobrindo com os punhos da fantasia. Ninguém vai notar que estou de relógio. Aliás, se não quiser pagar a diferença tudo bem. Posso ficar com ele. — Você está louco, ele tem um valor sentimental muito grande para mim. Nesse ponto Natan tinha razão. Só destinava às coisas materiais algum tipo de sentimento. Ouve-se o grito de que chegou a hora. Um frenesi toma conta 71


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dos destaques do Deus do fogo. Natan depois de trocar as fantasias e sofrer para se vestir, não consegue sozinho atingir a base de sustentação destinada a Vulcano. Era feita de ferro com uma cerca na altura da cintura, para protegê-lo de uma possível queda. Por ironia, teve que ser ajudado justamente pelo modelo que acabou de tomar o lugar. O carro começa a se mover. Lentamente é verdade, mas estava adentrando ao palco do maior espetáculo da terra. Todos os integrantes do Deus do Fogo sentem um tranco inicial, principalmente o Aluízio que não estava preparado, por pouco não caiu sentado. Após alguns segundos, todos se acostumaram e equilibraram-se em seus devidos locais. O público estava empolgado, não como a Vai-vai ou a Gaviões, é verdade, mas podiam-se ouvir as vozes da multidão acompanhando o samba. A batida da bateria compassada, assim como o coração de Natan, que se movimenta um pouco sem jeito no início, mas conforme avançava avenida adentro, ia se descontraindo e permitindo além dos movimentos de cintura, uns rodopios, conforme fazia a porta bandeira, quando esteve visitando o barracão. Naquele momento pouco importava o que as pessoas ou os jurados achassem, o que importava é que ele estava exorcizando um dos seus maiores fantasmas. O medo de ser feliz. Natan notou que não precisava ser igual àqueles voluntários, que não precisa ser pobre ou passar fome para ter que extravasar na avenida os seus martírios. Ele sendo quem era podia também se juntar aos pobres e necessitados e ao seu modo, liberar a felicidade aprisionada. Natan sentia na pele, a sensação de ser o verdadeiro Deus do Fogo, Vulcano, Hephaestos ou quem quer o valha. A impressão que tinha, é que todos na arquibancada estavam lhe dirigindo o olhar. Reverenciando-o. Aquela pequena base de ferro transformara-se no verdadeiro Olimpo. O fogo que cuspia por detrás, vindo da boca do vulcão, iluminava ainda mais a avenida. Tanto os destaques, quanto Natan e o próprio público assustavam-se a cada jato de fogo. A lava, parecendo ser incandescente, passava por debaixo de seus pés, escorrendo e retornando ao centro do vulcão. Realmente de todos até agora, era o carro que mais atraia a atenção dos jurados, levantando a multidão. Talvez esse tenha sido o momento de maior alegria de Natan. Alegria espontânea e real, sem interesses comerciais por trás. Sentimento semelhante foi quando soube o resultado do vestibular na uni72


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versidade. Pena que a alegria foi momentânea, misturada a maior dor que já sentira até agora. Natan se lembra de seus pais, com os olhos cheios de água, imagina o que eles diriam se o vissem, esbanjando alegria na avenida. Com certeza estariam também no camarote ou quem sabe, na arquibancada incentivando-o como sempre fizeram por toda a vida. Os pensamentos tristes deram lugar novamente à felicidade. Não havia lugar para tristeza e dor. Aqui, respingando suor, transbordando felicidade, ele movimentava cada vez mais rápido as pernas, sambando descontrolado e sem ritmo. Natan estava no seu transe pessoal. Naquele momento, pouco importava a posição da escola, ou o valor investido, ou o valor que teria que pagar para o modelo por ter lhe tomado o lugar. Sentindo o saboroso gosto do prazer, poderia pagar-lhe dobrado que ainda assim valeria à pena. O carro atinge metade da avenida, o tempo parecia ter parado, uma verdadeira nebulosa cobre toda a escola. Tudo parecia estar em câmara lenta. Do seu ponto de vista poderia ver em detalhes o rosto de cada pessoa sambando descontraída na arquibancada. Queria ver a cara de Sara ou de Bento, o que eles diriam agora. A verdadeira felicidade só é sentida quando compartilhada. Para ser total, somente se eles estivessem aqui no carro sambando junto com Natan. Dizem que felicidade de pobre dura pouco, mas e a de rico dura quanto tempo? Será que alguém já mensurou esse prazo? Ou será apenas o período destinado ao desfile? Depois que termina tudo volta ao normal? Só que no caso de Natan a felicidade durou somente meio desfile. Da mesma forma que a alegria de passar no vestibular teve vida breve à de Natan na avenida, durou muito pouco também. A válvula de contenção do gás voltou a falhar. No início, alguns jatos de fogo não chegaram a ser disparados. Quando saía, ficavam meio sem controle. O coordenador responsável pelo carro, o mesmo que gritava avisando que estava chegando à hora do desfile, berrava agora agoniado, pedindo para que os operadores do fogo dessem um jeito rápido, pois o que era ponto alto do desfile, agora poderia tornar-se um fator de perda de pontos. Por outro lado, os operadores suados, tentavam fazer com que o sistema voltasse ao normal o mais rapidamente possível, ou que pelo menos cuspisse o fogo de forma ordenada. Não precisaria ser tão alto como no início do desfile. Mas que aparentasse aos jurados, estar funcionando normalmente. Natan continuava im73


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passível, na verdade, acho que nem notou o problema. Estava inserido no seu transe pessoal. Apreciando as últimas gotas do mais saboroso vinho de sua vida. Como o diretor mesmo disse, era normal acontecer algumas falhas no percurso. O que importava é que ele não estava sendo afetado. Continuava no Olimpo, mesmo sendo o Deus do fogo que falha. Numa tentativa de manter a chama alta, um dos operadores permitiu que o gás saísse numa quantidade superior ao de costume, nesse caso poderia compensar manualmente a falha na válvula de contenção. Na primeira vez, tudo bem, deu certo. Na segunda, idem. Um suspiro de alívio tomou conta dos operadores. Na terceira vez, a chama manteve-se normalizada. Porém relaxados, ao acharem que tudo estava resolvido, na quarta vez em que o gás era liberado, o fogo subiu sem controle, atingindo a boca do vulcão. O material de plástico moldado, já bastante aquecido devido ao tempo e pela proximidade das chamas, chegou a ponto de combustão. A mesma chama liberou labaredas dentro do próprio carro, atingindo a estrutura de madeira que também já estava aquecida, pronta para torná-la uma verdadeira fogueira. E foi isso que realmente aconteceu. O carro alegórico Deus do fogo, virou uma enorme fogueira no meio do desfile. As chamas se espalharam rapidamente, como um verdadeiro vulcão, iniciando a queima internamente, para depois alcançar a parte externa. Os primeiros a sofrerem os efeitos do imenso calor foram os operadores que no início tentaram apagar o fogo com os extintores, estrategicamente posicionados por medida de segurança ao lado dos tambores de gás. Mas na velocidade com que o fogo se expandiu, só tiveram tempo de liberar a trava dos tambores e jogá-los para fora do carro de qualquer maneira, a fim de evitar uma explosão. Um deles acabou acertando o coordenador do carro, que compenetrado, tentando resgatar as pessoas que estavam na base do vulcão, sem perceber, não conseguiu livrar-se a tempo do impacto. Ficou desacordado. O pânico tomou conta da avenida, principalmente para os destaques que se posicionaram nos patamares intermediários. Estavam todos literalmente no meio, no epicentro da lava do vulcão, qualquer um dos lados que corressem ou pulassem estariam indo de encontro ao fogo incandescente. A fantasia, sendo um material altamente incinerável, facilitou ainda mais propagação das chamas. O socorro não demorou a chegar, mas não foi o suficiente para resgatar 74


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com vida as pessoas que estavam abaixo de Hephaestos. Não vale a pena, nem é confortável para mim, descrever aqui o estado em que ficaram os corpos dos destaques. Todos impossíveis de serem identificados. Podia-se distinguir com certa dificuldade, somente os homens das mulheres. Não teria palavras para transmitir a dor e a agonia que eles sentiram ao ver o fogo se alastrar tão rapidamente e encurralá-los como gado minutos antes do abate. Não tinham para onde se refugiar ou livrar-se do acidente. No início da tragédia, a bateria e a escola como um todo, por não saber de fato, a gravidade, ainda entoava o enredo, mas ao perceberem o corre-corre e o tumulto que gerou, o silêncio instaurou-se na avenida. Pela primeira vez na história, o samba calou. Passistas chorando compulsivamente, afoitos na tentativa de salvar as pessoas feridas. Entre elas Natan que ao sentir as chamas alcançando literalmente o Olimpo e atingindo a sua bela fantasia, tentou debater-se e com o escudo abafar o fogo que ardia. Forçou a retirada do capacete, mas esse foi o que se incinerou mais rapidamente, retorcendo-se e fundindo-se em sua bela face esguia, ao tentar arrancar, percebeu a pele próxima ao queixo descolando. Sentiu-se dentro de um verdadeiro forno, essa sensação fez com que o fogo ardesse ainda mais. Num ato de desespero, sem medir as consequências, se bem que naquele momento, não haveria outra coisa a fazer. Saltou a cerca de ferro que o protegia, caindo dos quase cinco metros que separa o chão do Olimpo diretamente na avenida, sofrendo fratura exposta na altura do tornozelo direito, o primeiro a absorver todo o impacto do seu corpo no chão. Além disso, quebrou a clavícula, sofrendo escoriações e luxação nos ombros. Com o pânico dos passistas, foi pisoteado, agravando ainda mais os seus já delicados ferimentos. Por sorte, se é que podemos dizer que ele teve, acabou sendo visto e salvo por um dos brutamontes que empurravam o carro. Ele deitou-se sobre o corpo desacordado, febril e ainda sangrando de Natan, abafando e apagando as chamas que ainda insistiam em arder. Depois o colocou sobre as costas como um verdadeiro saco de batatas. Natan foi levado às pressas ao posto de atendimento mais próximo, depois, devido à gravidade, para o hospital da aeronáutica.

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Companheira Solidão Quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Schopenhauer, Arthur

CAPÍTULO 4 Os feridos sem gravidade foram submetidos aos postos de atendimento de urgência instalados em vários pontos do Sambódromo. O socorro foi rápido. Os que necessitavam de maiores cuidados, porém sem gravidade, foram distribuídos em diversos hospitais das redondezas. As vítimas foram transferidas imediatamente para o Instituto Médico Legal para reconhecimento. Os inúmeros repórteres, de praticamente todos os veículos de comunicação, sedentos por informação, com o intuito de identificar os nomes das pessoas para poderem divulgar em primeira mão seguiram as viaturas até o IML. Chegando lá, forçavam a porta que dava acesso ao setor administrativo em busca de algum depoimento. Os funcionários, indiferentes ao enorme tumulto gerado lá fora, continuavam seus afazeres naturalmente. Tinham ordens de não permitir a entrada da imprensa, apenas poderiam autorizar a presença no recinto, dos possíveis familiares, mediante apresentação de documentos e registro no livro oficial do órgão. Somente em épocas de comoção social ou acidentes de grandes proporções é que os urubus baixam voo e aterrizam no IML. O diretor da escola, Sérgio, Sara e Bento estavam entre as pessoas que aguardavam autorização para o reconhecimento dos corpos. Eles já tinham passado por alguns hospitais e não encontraram o nome de Natan nas listas dos acidentados. Após várias horas de tortura, espera e ansiedade em querer saber se algum conhecido estava entre as vítimas, foi permitida a entrada deles. Primeiro do diretor, responsável pela escola e depois Sérgio. O carnavalesco estava visivelmente transtornado, muito provavelmente iria encontrar alguns dos seus amigos, pessoas que faziam parte da comunidade ou do dia a dia da escola. Ao todo até o momento, foram contabilizados onze mortos. Mas o número poderia subir, muitos feridos em estado grave poderiam não suportar, o que aumentaria sensivelmente essa marca. Sérgio também estava apreensivo, ele não fazia noção do que estaria preste a vivenciar, nem em que estado encontraria 76


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os corpos. Com certeza esta cena seria a mais chocante da sua vida. Ter que abrir gaveta por gaveta na busca de encontrar alguém conhecido, neste caso, com grandes chances de localizar o próprio sócio. O procedimento de reconhecimento de vítimas exigia que indicasse o nome da pessoa, preenchendo corretamente o formulário preso à prancheta pendurada na gaveta. Se tivesse certeza de que a pessoa em questão era um dos procurados, bastava colocar o nome completo dela no campo com o título: Identificado. Caso não estivessem totalmente certo, grafariam o nome no campo: A Confirmar. Após o preenchimento dos formulários pelos parentes e amigos mais próximos, era possível chegar a uma conclusão da real identidade da vítima. Havendo ainda alguma dúvida, eles seriam submetidos a exames mais especializados, como da arcada dentária ou impressão digital, se fosse ainda necessário, finalmente recorreriam ao de DNA. O rosto do diretor se transformava a cada gaveta aberta, era uma mistura de horror, pânico, medo e principalmente de culpa, por ser o responsável de cada detalhe da escola. Para ele, deveria ter vetado a participação do carro logo que apresentou os primeiros sinais de defeito. Mas também, por respeito a todos os envolvidos, a cada ferreiro, cada marceneiro, cada pintor que trabalhou exaustivamente na execução do projeto. Por respeito às pessoas que depositaram seus sonhos, que acreditaram na escola e ainda mais, pagaram pela fantasia e pelo espaço que ocupariam no carro, não era justo, deixar todos a verem navio. O problema foi rapidamente sanado, a válvula foi trocada por uma nova. Estava tudo perfeito. Só se ocorreu alguma outra falha, questionava-se a todo o momento. O acidente apenas será totalmente esclarecido, após averiguação e liberação do laudo oficial das autoridades competentes. O que lhe restava fazer agora era cumprir a árdua missão que lhe foi reservada. Olhar cada gaveta e indicar o nome do provável dono daquilo que sobrou de cada corpo. Após pelo menos duas horas de observação, vendo o que seria possível identificar, algum traço, algum sinal que pudesse chegar a uma conclusão de quem estaria repousando naquela gaveta fria, o diretor da escola, chegou ao número de apenas cinco reconhecimentos. Entre eles, Giba, o coordenador do carro, foi o mais fácil de ser identificado, pois praticamente não teve queimaduras. O hematoma na 77


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cabeça após ser atingido pelo tambor não foi um grande empecilho no reconhecimento. No restante, supunha que entre eles, estaria também, Aluízio, o coreógrafo, Deise, ex-rainha da bateria, que mesmo após o nascimento do seu filho, ainda mantinha um corpo escultural, por essa razão, foi escalada para uma posição de destaque no carro. Geléia e Deco, os operadores das chamas e amigos inseparáveis. O primeiro, por ser muito gordo, tinha até certa dificuldade em caber na gaveta. Talvez a obesidade tenha sido um agravante para escapar do epicentro do vulcão, complicando o seu socorro e locomoção. A certeza de o outro corpo ser o Deco, era pela sua enorme tatuagem nas costas. Era possível ver ainda partes do distintivo do Corinthians, fundido com o símbolo dos Gaviões. Deco, por sinal, estava um pouco contrariado, por não poder ter tido a chance de desfilar na escola que mais amava. Somente após muita insistência resolveu concordar e colaborar com a escola do amigo Geléia. Abdicando-se do direito de desfilar na sempre favorita Gaviões. Sérgio não demorou muito nas análises, estava visivelmente abalado. Confirmaram os nomes de Giba, Deise e em uma das gavetas, acreditou ser o seu sócio, mas ainda estava com dúvidas. De qualquer forma, preencheu o formulário com o nome dele no campo “a confirmar”. Sara e Bento entraram juntos, diferentemente dos anteriores, buscavam apenas identificar uma única pessoa: O patrão. O motorista mesmo acostumado às tragédias da periferia não conseguiu esconder a angustia de abrir cada uma das gavetas. As que já tinham dado a vítima como certo eles nem abriram, seria menos chocante, se detiveram àquelas que ainda restavam dúvidas ou não tinham sido identificadas. Sara e Bento ficavam aliviados quando ao puxar a gaveta o corpo ali presente não tinha nenhuma característica com a que eles procuravam. Se bem que, numa visão mais apressada, pareciam todos iguais. Na quinta gaveta, talvez influenciada por nela constar o nome do patrão, já escrito por Sérgio, Sara começa a chorar. Bento mais forte, ou pelo menos tentando aparentar frieza, prepara-se para abrir. A secretária segura sua mão com firmeza, algo que se contrapõe com sua maneira meiga de tratar a todos. Pede um minuto para se preparar emocionalmente. Ela respira fundo, olha para o motorista e com um sinal positivo movimentando a cabeça e fechando os olhos pede para que ele 78


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abra a gaveta. Bento, lentamente vai puxando, no início estava com o rosto voltado para o lado. Como que tentando também evitar encarar a difícil situação. Sara espia meio de rabo de olho, coloca as mãos sobre a boca, contendo o choro. O corpo estava muito avariado. Queimaduras por toda à parte, a face negra disforme com pedaços da fantasia misturados à pele, totalmente diferente daquela bela e delicada, tratada pelos melhores cremes importados. Simplesmente irreconhecível. Dava para notar que parte do cabelo, os pequenos tufos que sobraram eram da mesma cor que o do chefe. As mãos pequenas e delicadas eram muito semelhantes. Mas o que mais chamou atenção dela e tornou-se a principal evidência de que aquele corpo era realmente o do patrão, foi no pulso esquerdo o relógio que ela mesma sugeriu como presente de amigo secreto e foi pessoalmente buscá-lo na loja. O vidro estava quebrado e a pulseira danificada, mas não haveria a menor sombra de dúvidas que era o modelo que Natan ganhou de presente. Seria muita coincidência. Duas pessoas, no mesmo carro, no mesmo dia, com o mesmo porte físico e alguns traços parecidos estarem usando o mesmo relógio que ela escolheu na revista. Sem contar que quando o viu no camarote, o relógio reluzia em seu pulso a cada aceno. Bento, talvez sem a mesma certeza, mas vendo a reação da secretária, que como ele, era a pessoa que mais conhecia os hábitos de Natan acabou se convencendo. A dupla, que até o momento tentaram se mostrar fortes, por fim acabaram revelando o sentimento que tinham pelo chefe. Para quem observasse o relacionamento deles, ou a forma como eram tratados, diria que seria impossível acontecer uma cena dessas. Mas os dois estavam muito comovidos, principalmente pela forma como aconteceu o acidente e por ele ser muito jovem. Tinha muito que conquistar e aprender ainda nessa vida, evoluir como ser humano. Quem sabe se apegar a alguma religião ou absorver os ensinamentos do tempo e perceber que muito mais importante que uma conta bancária obesa e o status o que vale é o que deixamos de bom, registrando nossa passagem por esse planeta de forma digna, honesta e responsável. Os amigos nem sequer olharam as outras gavetas. Não tinham que analisar o corpo de mais ninguém. Cada um deles preencheu o formulário, indicando o nome de Natan Castro como identificado. De três avaliações feitas, tinham dois pareceres certeiros e um ainda com dúvidas, o que no término do processo de 79


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reconhecimento, os funcionários do IML, acabaram decretando como sendo de Natan mesmo aquilo que sobrou do seu corpo. Até por que, por tratar-se de ser filho único e seus pais já terem falecidos, qualquer outro exame mais aprofundado seria muito complicado de se fazer. Natan foi dado como morto. A notícia espalhou como rastilho de pólvora. Entre os jornalistas, estava um em especial, Gabriel Toledo, que representava um grande jornal de São Paulo. Era ele que por várias vezes tentou uma entrevista ou pelo menos um comentário, sobre o cenário econômico do país. Por ironia do destino, estava lá agora, para ser um dos primeiros a divulgar oficialmente a morte do ilustre economista, empresário e expert em vinho do país. Apesar da catástrofe, o jornalista produziu a matéria com uma pequena ponta, mínima é verdade, de prazer. Depois de ser preterido tantas vezes, esnobado e em alguns momentos ser tratado com pouco caso por aquele homem, a manchete na seção de economia, seria uma forma de vingança. Não que o jornalista desejasse a morte dele, de forma alguma, mas que algumas vezes desejou que ele fosse para os quinto dos infernos, a isso ele não podia negar. De certa forma, a sua tão trágica morte, foi meio que uma viagem sem volta, do Olimpo ao Inferno. Pensou em soltar essa manchete: Empresário morre no Olimpo. Mas, afinal de contas, o perfil do jornal não é de ser sensacionalista nem popular, é um dos principais veículos de comunicação do país e por assim dizer, do mundo, portanto, tirando as desavenças de lado, foi noticiado da seguinte forma:

Empresário Natan Castro está entre as vítimas do Sambódromo. O suposto Natan é liberado do IML, com direito a certidão de óbito. Sérgio e Sara cuidaram de tudo, desde a liberação do que pôde se chamar de corpo até os procedimentos referentes ao funeral, digno de um verdadeiro chefe de estado ou celebridade. Tanto o diretor da escola, quanto Sérgio, Sara e principalmente o presidente da empresa exigiram que fosse feito tudo do bom e do melhor. Era uma maneira de homenageá-lo. Ele em vida sempre desejou tudo que tivesse requinte, glamour, que fosse “In” ou que mostrasse a classe social que ele se enquadrava. Não seria diferente no seu funeral. Pediram autorização ao 80


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cemitério para reformar o túmulo onde seus pais estavam enterrados, eram simples, muito aquém para um homem de negócios como ele. Retiraram o reboque descascado e revestiram com mármore italiano, semelhante ao que ele tinha no hall de entrada da sua cobertura. Afixados nela três placas de aço escovado. Cada uma com o nome dos inquilinos. Encomendaram também um caixão lacrado de madeira de lei. Chegaram centenas de coroas, algumas inclusive de Brasília, enviadas pelo Ministro Chefe da Casa Civil e do Ministério da Fazenda. No local não havia muitas pessoas, quinze talvez. Entre elas, apenas os que tinham maior contato, como Sara, Bento e sua esposa, Ícaro, Sérgio e o diretor da escola. No círculo de negócios o próprio presidente da empresa que fez um discurso breve, mas comovente. Dizendo sentir-se mutilado, não só por ter perdido um dos pilares da companhia, muito mais que isso, pela vida levar uma pessoa tão jovem e cheia de energia. Estavam presentes também, Jonatham o seu último amigo secreto e dois diretores, que sorrateiramente escondiam um discreto sorriso estampado na face, ao vê-lo fora da batalha. Quem sabe, agora eles teriam alguma chance de serem reconhecidos na empresa. A secretária percebeu a reação deles, mas comovida e envolvida com a cerimônia, não se deixou abalar. Como são as coisas, nem bem o corpo literalmente esfriou e a concorrência já está a postos tentando pegar o lugar que a ele pertencia. O velório foi muito rápido, se dependesse dos dois diretores invejosos e piadistas, Natan deveria ser cremado, já que iniciou o processo na avenida. Suas cinzas seriam despejadas do seu helicóptero sobre o mar e o seu barco, pelo menos seria uma forma de continuar usufruindo dele. Talvez esse seja um motivo que fazia com que aparecesse um sorriso maroto nos seus rostos. Alegravam-se com a situação, fazendo piadas de mau gosto. Natan agora poderia sentir novamente a presença dos pais, estariam juntos novamente, senão espiritualmente, pelos menos descansando no mesmo túmulo. A maior ausência que foi sentida no funeral, foi sem dúvida nenhuma, da sua fiel e discreta amiga Companheira Solidão. Ela não foi vista circundando o caixão do seu velho parceiro. Talvez por que não goste de tristeza, sempre que via Natan corria ao seu encontro com um largo sorriso. Não saberia se comportar numa situação triste como essa. Quem sabe se não apareceu, provavelmen81


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te deve ter se transferido para o novo imóvel, indo direto a gaveta, aguardar a sua chegada e dividir o espaço do caixão. Ou quem sabe, percebendo que se tratava de uma farsa, decidiu continuar esperando pacientemente nos aposentos do amigo. Ou ainda, desesperada, sentindo-se órfã, foi à sua procura.

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Companheira Solidão A solidão, mais ainda que a doença, demonstra, da maneira mais radical se um homem foi criado e predestinado para a vida; ou se, como a maioria, o foi para a morte Nietzsche, Friedrich

CAPÍTULO 5 O verdadeiro Natan chegou ao hospital inconsciente. Na ambulância sofreu uma parada cardíaca. Mais precisamente ao fazer o retorno na Marginal Tietê. Foi salvo pela agilidade e persistência dos médicos e talvez pelo amor que eles têm à profissão, apesar de todos os percalços econômicos e dificuldades com a falta de condições dignas de trabalho. Com o paciente na condição calamitosa que se encontrava, os médicos tiveram que priorizar o atendimento, primeiro fazendo o possível para ter os sinais vitais estabilizados, depois cuidando da fratura no tornozelo, para que não perdesse sangue ou atingisse alguma artéria importante e por fim amenizando as dores, se é que existia essa possibilidade. Natan tinha poucas chances de sobrevivência, praticamente da cintura para cima, não havia nenhum lugar do corpo que não estivesse queimado, alguns pontos com maior gravidade outros apenas chamuscados. O que mais impressionava era a ferida aberta do queixo, passando pelos lábios chegando até parte da sobrancelha. Numa primeira análise mais “fria” da situação, podia-se notar que, se ele por um milagre da natureza, conseguisse sobreviver, a pele do rosto no lado esquerdo, não iria se recompor e ficaria uma marca irreversível na sua bela face esguia. Se tivesse sorte, continuaria enxergando normalmente, talvez com certa dificuldade para piscar, sentiria um repuxo, mas precisar, ou garantir que não tivesse sequelas, era algo que nenhum dos especialistas que estavam empenhados em salvá-lo acreditaria. (Peço desculpas e não vou me perdoar, pelo trocadilho infame e fora de hora, mas com certeza os médicos não colocariam a própria mão no fogo para confirmar). O Hospital Aeronáutico, por ser o mais próximo do evento, foi o que recebeu o maior número de acidentados. Logo ao saber da tragédia, os diretores da Instituição destinaram uma área especial logo na entrada do pronto socorro para os primeiros cuidados. A movimentação era intensa com a chegada a todo instante de ambulâncias, viaturas 84


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da polícia ou mesmo dos carros dos voluntários que chegavam socorrendo os feridos. Era um corre-corre fora do normal, tanto de pessoas chegando feridas como de familiares ou amigos à procura de notícias. Ali mesmo, na sala improvisada, semelhante a uma cena de guerra, os médicos de acordo com a gravidade, faziam à classificação e escolha de quem seria encaminhado para atendimento imediato e os que deveriam procurar outro hospital para serem socorridos. Para complicar ainda mais o trabalho da equipe médica, alguns parentes em estado de choque contribuíam para tornar o clima mais pesado. Natan teve a sorte ao seu lado, por estar muito ferido, foi retirado da ambulância na maca e transferido às pressas para a sala de cirurgia, que naquela hora, também já estava de prontidão para o atendimento. Muitos médicos que folgaram naquela noite foram chamados às pressas para auxiliarem no atendimento aos feridos. Natan foi direto ao centro cirúrgico. Os médicos não tiveram tempo de tentar uma possível identificação, até por que praticamente todos os feridos, por estarem fantasiados, não portavam nenhum tipo de documento ou identificação enquanto desfilavam. Com certeza isso ficaria para depois, para o departamento competente, quer ele conseguisse sobreviver ou não. A preocupação da equipe médica era fazer com que o batimento cardíaco permanecesse estável, pois ele estava sedado, respirando devido à ajuda dos aparelhos e monitorado a cada segundo. Se retirassem os equipamentos, não teria a menor chance de vida. Natan, antes tendo o controle sobre tudo e todos ao seu redor, agora depende do empenho e da capacidade de outras pessoas, que não tem sequer a mínima noção de quem ele era. Na posição que se encontrava não podia exigir nada, estava recebendo cuidados da mesma forma que o pé rapado da periferia, vivendo na pele os horrores que passam diariamente os menos necessitados. Naquele momento ele havia se transformado em uma cobaia, um experimento científico, um desafio para superar os limites da ciência, saber em que grau de dificuldade o homem consegue vencer a morte iminente. O ser humano, qualquer que seja a sua profissão, classe social ou educação, tem sempre as mesmas reações ao ver outra pessoa ferida gravemente, é inerente do espírito. Podia-se constatar isso, pela fisionomia dos médicos. Mesmo experientes, estavam abalados com 85


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a gravidade dos ferimentos de Natan. Talvez isso tenha gerado uma sensação de desafio para a equipe, forçando-os a lutarem com todas as suas forças para que o mantivesse vivo. Como se ao chegar aos quarenta do segundo perdendo de cinco a zero ainda acreditar que é possível virar o jogo. Afinal ainda resta um minuto por gol. Quem sabe, os médicos por perceberem o sofrimento e a dor que aquele corpo passou, sendo assado vivo com aquele cheiro insuportável de coro queimado. Ou talvez por terem se colocado no lugar de Natan e imaginado o que ele teve que passar. Imaginar a angústia do calor adentrando e torrando sua pele, carne, músculos, nervos, cartilagem, cabelo. No pânico da difícil e mais rápida decisão de sua vida. Por não encontrar outra saída, saltar às cegas de uma altura de um sobrado. Tinha escolha é verdade, derreter nas labaredas incandescentes ou tentar uma ínfima hipótese de salvamento voando em queda livre para a morte ou quem sabe ter como consolo uma fratura grave no pé e ainda ser pisoteado pelo povo alucinado tentando se salvar daquela tragédia. Aquela disposição para a vida não podia ser em vão, os médicos tinham que dar o melhor de si, para compensar todo esse sacrifício e premiar o desejo de viver que aquele espírito tão bravamente demonstrava. E assim se deu. A tensa primeira cirurgia de mais de dez horas, com direito a revezamento de equipe médica, de início, deu resultado. Eles conseguiram manter Natan vivo. Ainda com a ajuda e monitoramento de uma enormidade de aparelhos. Com o passar dos dias, podese constatar que o risco de morrer estava gradativamente e lentamente diminuindo. A preocupação aos poucos foi mudando de foco. Primeiro para saber quem ele era, pois ainda não tinha sido oficialmente reconhecido, nem procurado por nenhum familiar ou amigo. Muito menos, pela sua inseparável Companheira Solidão. Como identificar aquele indivíduo que estático na cama, travava uma enorme luta pela sobrevivência. O chefe da equipe médica batizou-lhe com o nome provisório de Fênix, fazendo referência à ave mitológica que renasce das próprias cinzas. O Segundo foco de preocupação era com relação ao que ele teria de sequelas daqui para frente. Alguns pontos eram facilmente certificados que não voltariam mais ao normal. A lesão no pé. Ele não conseguiria voltar a caminhar de forma natural. Um pedaço do osso perto do tornozelo que praticamente esfarelou, foi serrado e colado 86


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à canela com dezenas de pinos e parafusos para darem à sustentação necessária. Houve reação e infecção no local e os médicos chegaram a pensar na amputação, mas apiedados, ao verem a situação já deprimente do coitado, decidiram abrir o local e tentar mais uma vez. Rasparam as pontas dos pinos e um pouco mais o encaixe dos ossos, de forma que não tivesse nenhuma aresta. Reforçaram a dose de antibiótico e os cuidados com a região, antes relegada a segundo plano. Para sorte do enfermo, a tentativa foi um sucesso e o organismo reagiu bem à cicatrização. Fênix mancará eternamente. Talvez tenha até que utilizar o apoio de uma muleta ou quem sabe de uma bengala. Isso não estava totalmente certo, tudo dependeria de sua adaptação à nova situação. Após os exames mais aprofundados, perceberam que os olhos não foram afetados, a pálpebra iria se adaptar ao novo molde ocular. Fênix, se sobreviver, terá uma visão digamos normal. Apenas a aparência — se é que se pode dizer apenas — é que ainda não podia precisar como ficaria, pois seu rosto estava ainda em processo de cicatrização, misturado ao pus próximo ao canto do que sobrou do seu delicado nariz. Com certeza, Fênix teria que passar por diversas cirurgias plásticas para que pudesse, ao menos, amenizar o estrago ocasionado pelo fogo. Nesse caso, nem o mais famoso dos cirurgiões plástico poderia auxiliá-lo e retornar a sua fisionomia natural. Mas para os médicos, isso era um assunto secundário, a preocupação ainda estava em fazer com que ele se restabelecesse. O que duraria pelo menos mais trinta dias. Tempo suficiente para que algum familiar o encontrasse e fosse transferido para um novo hospital, abrindo vaga no leito para outro que estivesse entre a vida e a morte. Com o passar de duas semanas, a equipe médica foi vencendo o desafio de mantê-lo vivo, dia após dia, após os cuidados, após cada nova batalha, a vitória na guerra estava praticamente sendo alcançada. Era possível sentir o ar de satisfação e dever cumprido da equipe médica. Pelo visto se não viraram o jogo, pelo menos conseguiram o feito milagroso de empatar o resultado. 5X5. Fênix após vinte dias do acidente começa a retomar a consciência, saindo do estado vegetativo que se encontrava. Durante esse período, seus olhos mesmo fechados movimentavam-se freneticamente, era um sinal que algo além dos comandos básicos de sobrevivência estava sendo processado pelo debilitado cérebro. Discretos movimentos dos 87


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dedos delatavam a intenção do corpo em voltar à atividade. A cada novo sinal, uma comemoração efusiva da equipe médica, em especial dos enfermeiros que o velavam na cama diuturnamente. Os avanços do combalido corpo em nada poderiam ser comparados às tentativas de reconhecimento. Nenhum progresso, praticamente todos os envolvidos no acidente tinham suas situações já regularizadas. Fênix era uma incógnita. Talvez fosse um dos turistas argentinos ou americanos desaparecidos. Mas só teriam certeza, quando estivesse com suas funções cerebrais totalmente reabilitadas. Essa dúvida seria facilmente elucidada quando pronunciasse a primeira palavra. O idioma indicaria o país de origem. Esclarecendo de uma vez por todas a sua identidade.

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