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OS FILHOS bastardos do presidente


OS FILHOS bastardos do presidente

Baú das Letras

1º Edição

2010


Capa: Ivan Lacerda Revisão: Daniel Augusto Rachel Diagramação eletrônica e direção de arte: Ivan Lacerda Cavalcanti 1º Edição Julho de 2010 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Cavalcanti, Ivan Lacerda Registro na Biblioteca Nacional com o ISBN nº 978-85-902370-2-0 Título: OS FILHOS BASTARDOS DO PRESIDENTE CGC editora: 08736442801902 Assunto: 869-3B

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida – por qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. – nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora. Os infratores serão punidos pela Lei nº 9.610/98. NOTA: Esta é uma obra de ficção. Os vários personagens verídicos que permeiam a trama embora inseridos no contexto histórico são tratados de forma ficcional numa mescla de fantasia e realidade. Texto fixado conforme as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº. 54, de 1995). Informações ou solicitação de exemplares poderão ser feitos através do site:

www.ivanlacerda.com.br Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Dedico esse livro ao meu pai, Luiz Lacerda Cavalcanti, o homem mais íntegro, ético e justo que conheci em toda a minha vida.

O autêntico Lula saiu de Garanhuns/PE em um pau de arara e depois de doze dias, chegou a São Paulo, justamente em 7 de setembro de 1948, em busca de oportunidades que sua terra natal lhe privava. Não frequentou escola, mas através da experiência de vida do Mestre Lula, (como é carinhosamente chamado por todos) que aprendi a ser gente e respeitar o ser humano acima de tudo. Foi o motorista, alfaiate e o autodidata em história, sociologia, filosofia e ciências políticas que me inspirou a escrever esse livro.


Caro leitor,

Observador e curioso que sou com tudo o que me cerca, algo que sempre me intrigou é saber o que motiva uma pessoa a escrever um livro, pintar um quadro, compor uma música, criar uma escultura, enfim, fazer arte. Falando especificamente de literatura, independente da qualidade ou tema que se aborda, meu maior fascínio é tentar identificar o que motivou o autor a tornálo palpável. Encontrar a razão, o fio da meada ou descobrir qual foi a mola propulsora que fez com que o escritor passasse horas e horas isolado em seu mundo particular digitando, rascunhando ou tentando decifrar o mistério de encontrar a palavra certa, ou ainda, a ânsia de desvendar o enigma que é identificar o momento exato em que o livro está totalmente lapidado e pronto para ser entregue para degustação e crítica. No meu caso, se pudesse citar o que motivou a escrever esse livro, diria que foi a seguinte frase: Isso não se discute. Ué, como não? Todos tem o direito de exercer e apresentar o seu ponto de vista, vivemos num país democrático, aliás, recentemente comemoramos vinte anos de Democracia no Brasil e para evolução pessoal e institucional, devemos sim discutir e estarmos antenados sobre todos os temas apresentados. Sempre fui contra a censura e acho muito triste ver pessoas que se omitem diante de um determinado assunto. O curioso é que no nosso cotidiano, consegui identificar quatro temas que são uma espécie de tabu na nossa sociedade e existe um receio em iniciar uma conversa ou expor a sua opinião: Política, Futebol, Religião e Carnaval. Em 1999, diante dessa frase e bastante influenciado com os preparativos para a comemoração dos quinhentos anos do Brasil, resolvi escrever esse romance. Na época, a intenção era ter o título: Quinhentos Anos de Perdão. Existe o ditado que ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão, no caso do Brasil,


nossos políticos mais influentes teriam quinhentos anos. Queria colocar no liquidificador e misturar todos esses temas impróprios para discussão e, em especial, como pano de fundo, descrever os desmandos da nossa política, com todas as falcatruas e a impunidade que impera até os dias de hoje. Na ocasião, entrei em contato com algumas editoras com o objetivo de publicá-lo, porém comentaram que apesar de ser uma ideia muito boa e ter “qualidades literárias” não teriam como fazê-lo pois o tema “quinhentos anos” já tinha sido bastante explorado e a “agenda de lançamentos” estava totalmente completa para o ano de 2000. Diante disso, o quê fazer? Fiquei com o original empoeirando na estante do escritório. Os personagens, principalmente Capitão, (O jornalista aposentado que narra a estória) ele sempre me cobrando uma posição. Coitado, com medo da repressão militar da época, não pôde publicar o seu furo de reportagem no próprio jornal que fundou. Então, passados mais de quatro décadas, não seria justo censurá-lo ou deixar que seja roído e torturado por traças por mais tempo. Como Eu sou Brasileiro e não desisto nunca, não achei justo por causa de um título, abortar esse trabalho. Resolvi mudálo para: Os filhos bastardos do presidente, afinal estamos às vésperas de uma nova eleição presidencial e quem sabe esse livro, na sua simplicidade, possa alertar as pessoas para a importância do voto. É a minha contribuição para evitar que tenhamos novos Deodoros, Peçanhas, Fonsecas na direção do nosso país e de quebra realizo o sonho e a promessa do Capitão em ver sua estória publicada. Felicidades! Ivan Lacerda Cavalcanti Julho/10


Os filhos bastardos do presidente

DESPEDIDA Fechei as gavetas pela última vez, limpei minha mesa, dei um adeus àquela vida. Risquei no calendário o tão adiado e triste dia da minha liberdade. Foram exatos quarenta e cinco anos de trabalho árduo aqui na redação. Coloco cuidadosamente os meus pertences em uma sacola plástica de supermercado. Quase não cabem os meus dicionários, surrados pelo tempo e ultimamente empoeirados pela falta de uso, durante anos me ajudaram a relatar inúmeras passagens nessa vida de repórter. Hoje o computador nos livra desse contato físico. Eu era do tempo em que tinha que pedir para a telefonista uma linha para poder falar. Agora todos os números estão programados no telefone, e-mails e endereço de todos os meus contatos, registrados na minha agenda eletrônica ou no celular. Esfrego contundentemente o cigarro no cinzeiro como sempre fiz, girando-o de um lado para o outro, mesmo já estando apagado. Fumar tornou-se um hábito que aprendi a conviver, apesar de saber o mau que me causa. Meus colegas de trabalho me olham com certa tristeza, afinal, muitos me consideram como pai. Todos me chamam de Capitão, os mais antigos aqui no jornal se referem a mim como: O Velho Capitão. Aquele que trouxe na inauguração do jornal a primeira máquina de escrever, onde seis aventureiros disputavam cada tecla para transformar em palavras os fatos diários de uma cidade enorme como São Paulo e de um país confuso e perigoso como o Brasil. Essa posição me credenciou como o maior contador de casos da redação. Sempre me perguntavam: Capitão, conta aquela do cara que queria pular do prédio por ter sido traído. Conta aquela do turco que negociou a esposa com o credor. Conta aquela do fotógrafo que foi cobrir uma reportagem da exposição dos projetos de Santos Dumont e ele insistentemen10


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te, a todo custo queria tirar uma foto do homem ao vivo. Conta àquela outra, eram inúmeras histórias, que foram narradas tantas vezes, que se fosse escrever um livro, provavelmente seria da grossura de um desses dicionários que levo comigo. Vou sentir saudades da redação, minha vida se passou aqui nesse escritório. Contei a história do Brasil e do mundo, sentado nessa mesa, virada para esse imundo rio Tietê, que através do convívio diário, aprendi a amar, mesmo sabendo que aqui escoa a fossa aberta de São Paulo. Cobri algumas campanhas para tentar curá-lo desse mau, mas pelo que vejo, ainda terá matéria para muitos outros novos repórteres fazerem a cobertura e ajudá-lo, quem sabe com mais sorte. Não gosto de despedida, meus amigos vão formando fila para me cumprimentar, todos com aquela cara de tristeza, algumas meninas choravam, outros diziam: Não vai embora, Capitão, quem vai comandar o jornal agora? Fique mais alguns anos, você ainda tem muitas matérias e reportagens a fazer. Quem vai nos contar casos deliciosos com o seu jeito simples e engraçado? Para acabar com aquele clima de velório, convidei todos para o meu último Happy Hour, agora chamam assim, antes era tomar uma no boteco ao lado do jornal. Nem todos puderam ir, compromissos, alguns estagiários tinham aula e outros iriam cumprir a pauta. Essa frase era fatídica. Era como se submeter a um castigo. Mas essa era a nossa vida, cumprir um desafio, às vezes sem o tempo devido, às vezes tendo que divulgar algum fato sem importância, muitas vezes em locais que não nos permitiam fazer o nosso trabalho dignamente. Às vezes atirávamos no que víamos e acertávamos em cheio o que nem sequer imaginávamos. De uma pauta qualquer, muitas vezes saíram furos de reportagem. Durante esses anos inúmeras vezes tentei fazer uma matéria com os nordestinos que chegam a São Paulo, abrem um boteco ou outro comércio qualquer e ficam ricos. Mas a falta 11


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de tempo e a preocupação em conseguir anúncio para bancar o jornal sempre adiavam essa matéria. Chegamos ao consultório, era assim que chamávamos o boteco do Moreira, um português careca, cara fechada, que servia a gente como se estivesse sendo obrigado. Por várias vezes chegou a derrubar a caninha no balcão. Eu sempre tomava uma dose depois do expediente. No consultório, havia cinco mesas postadas uma em frente à outra no fundo do corredor. Junto com o dono do bar, trabalhava o seu Eurico, um garçom à moda antiga, daqueles que tem paciência para ouvir as histórias dos fregueses e ainda fazer menção de que estava interessado. Vestia sempre aquela camisa branca com as golas puídas pelo uso e uma gravata borboleta preta desfiada. Seu Eurico fazia questão de passar um creme ou gel no cabelo, ficava lambido, com a impressão de que nunca foi lavado. Era boa pessoa, sempre concordava com a gente, fosse o assunto religião, política ou música. Ele nos servia e ficava observando atentamente a conversa, quando perguntávamos se concordava com o nosso ponto de vista, ele sempre balançava a cabeça positivamente. Só não podíamos falar mal da Portuguesa, seu time do coração. Ela nunca chegava às finais do campeonato, portanto, sempre foi um prato cheio para gozações. Quando a Lusa perdia, Eurico ficava vermelho de raiva, nos servia com a cara fechada, batia os copos na mesa, trazia o chope quente e com colarinho. Sempre defendi a tese que ninguém está imune aos assuntos: Futebol, política, religião ou música. A festa estava animada, recordamos vários casos passados na redação, lembramos de pessoas que já se foram, reportagens que não puderam ser publicadas por causa da ditadura, as surras que levamos de policiais. Os tiros de que tivemos que nos esquivar. O soco que recebi do pugilista que não queria ser entrevistado, após perder a luta e o cinturão de campeão. Fiquei mais de uma semana com o ouvido apitando e de olho roxo. Lembrei 12


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de fatos tristes, como o do velhinho que morreu na fila do INSS esperando o pagamento. Estava ali do seu lado e não pude socorrê-lo a tempo. Os desabamentos das encostas e as enchentes nas águas de março. Do senhor, na Favela do Socorro, que matou a família inteira por não ter o que dar de comer. Mas também lembramos de coisas alegres e boas, como o nascimento de um bebê em plena Avenida Paulista. Estava fazendo uma cobertura em frente ao prédio da FIESP e por coincidência a moça pariu a criança no estacionamento ao lado. Lembramos do resgate da menina que caiu no poço na periferia. Da chegada do homem à lua, parecia mentira ou um conto de ficção, teve muita gente que não acreditou. Da final do campeonato Paulista de 1977, afinal o meu time tinha saído da fila. Eu estava lá no campo, entrevistando o Vicente Matheus. A cobertura das Diretas Já, a chegada dos exilados da ditadura, os festivais de música na Record. Foram inúmeras lembranças, vividas novamente com intensidade e riqueza de detalhes. Percebi o quanto a nossa memória suporta armazenar dados, o que para um repórter é a sua referência e principal ferramenta de trabalho. Passamos horas sentados ali, bebendo, sorrindo, alguns estavam chorando. Eu nunca chorava e para distrair o ambiente ficava batucando um samba ou contando uma piada de português. Aos poucos os colegas do trabalho iam embora, somente os amigos mais antigos permaneciam comungando aquele momento. Só os pioneiros viveram tudo aquilo desde o começo e tinham noção do que era uma despedida. Só eles poderiam avaliar o meu sentimento de deixar tudo para trás. Meus companheiros em tom de gozação discutiam como seria noticiada a minha saída, uma pequena nota no rodapé do jornal que eu ajudei a criar, dizendo: “Agradecemos ao Capitão, os trabalhos prestados, desejamos muitas felicidades e que enfim recebeu o merecido descanso”. 13


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Aquilo para mim era uma dor imensa, só faltavam colocar a nota na seção dos mortos. Tentava disfarçar a tristeza, bebendo mais um gole ou contando mais um caso, no fundo queria prolongar ao máximo aquele momento, pois quando enfim estivesse indo para casa, quando o despertador tocasse às 5:00H da manhã e eu não tivesse mais que sair correndo para a redação é que sentiria que o meu mundo teria desabado. Talvez fosse melhor realmente me enterrar e publicar a nota na seção dos mortos. Todos já estavam de saída, antes, porém, me deram de recordação uma foto emoldurada com a equipe da redação e uma caneta dourada para autografar o livro que publicaria contando a minha experiência como jornalista e os casos censurados no jornal pela ditadura. Recebi com certo descaso, preferia que ao invés do presente eles pagassem à conta, pois imagino que vai ficar o olho da cara e o livro ao qual se referiam, nunca iria sair mesmo, portanto, a caneta não serviria para nada, assim como me sinto agora. Dez horas. Como a conta da despedida, eu é que teria que pagar, aproveitaria também para acertar todas as pendências com o Moreira. Fazia o pagamento mensal, sempre na última sexta-feira de cada mês. O meu copo ainda estava cheio e gelado, a porção de calabresa não tinha terminado, contei tanta história que acabei esquecendo de comer. Agora poderia provar sem pressa aquele petisco, não tinha mais horário nem compromisso com ninguém. Chamei o Eurico, pedi um queijo mineiro quente no pão de forma, sempre foi o meu lanche predileto. Avisei que quando estivesse pronto que ele trouxesse também uma cerveja gelada e dois copos limpos. E que deveria sentar-se à mesa comigo para comemorarmos juntos a minha morte. Ele relutou afinal garçom que se preza não senta na mesma mesa dos clientes. Retruquei dizendo que era a última vez que estaria ali e ninguém melhor que o meu fiel garçom Eurico para me acompanhar. 14


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Moreira me olhava furioso, não sei se por causa da dívida ou pelo fato de estar demorando a ir embora. Ele não tinha motivos para estar inquieto, era sexta-feira, hoje quitaria minhas despesas e além do mais, amanhã ele não teria que acordar cedo para abrir o bar. Eurico vem equilibrando na bandeja a cerveja, os dois copos limpos e o meu lanche de queijo. Acho que através dessa cena que João Bosco inspirou-se para compor “O bêbado e o equilibrista”. Estava fácil identificar quem era quem nessa cena. Fiquei por alguns instantes observando a decoração do bar, há mais de dez anos não se mudava nada, apenas acumulava teias de aranhas e bolor nas paredes, já estava mais do que na hora de uma reforma nesse botequim. Eurico começa a me servir como de costume, com uma das mãos segura o gargalo da garrafa e a outra esconde nas costas. Acho que ele não tinha entendido o que falei há pouco, imediatamente me levanto, retiro a cerveja de sua mão e ordeno que sente. Pego o seu copo e falo num tom de sacanagem: — Olha, Eurico, é assim que se serve. Vou derrubando vagarosamente a cerveja no copo inclinado para não formar espuma. Ele sorri como sempre, aquele riso enigmático de concordância. Nem quando ensino o cara a trabalhar ele muda a sua feição. Pergunto se deseja mais alguma coisa, ainda tímido diz que gostaria de um cinzeiro. Pergunto ao Moreira com a voz mais alta que o normal onde ele escondia. O Português, invocado como sempre, apenas indica com a ponta do nariz, informando que o cinzeiro está na mesa do fundo, junto com os paliteiros. Vou até lá, pego o cinzeiro e finalmente me sento junto com Eurico que me acompanhava o tempo todo com os olhos e ar de reprovação. Eu não sabia nada do Eurico, apenas que torcia para a Lusa. Pergunto onde nasceu. Ele responde: — Lisboa. 15


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Pergunto onde mora, ele responde: — Vila dos Remédios. Pergunto se tem filhos, ele apenas balança cabeça positivamente. Tentei iniciar um diálogo, mas estava difícil. Sua timidez bloqueava qualquer tipo de conversação. Num supetão gritei: — Porra, Eurico! Se fosse para ficar calado eu conversaria com a garrafa de cerveja, com a mesa ou com os guardanapos. O garçom me olhou assustado, essa noite eu ainda não tinha gritado assim com ele. Eurico, refazendo-se do susto, fala pausadamente, com a voz tão baixa e com aquele maldito sotaque que mal posso ouvir. — Sabe, Capitão, o Moreira não pára de olhar para cá, se continuar sentado aqui ele vai acabar me mandando embora. Olhei para os olhos assustados do garçom e gritei no mesmo tom do berro anterior. — O quê? Espera aí, o que é que esse lusitano está fazendo? Quem ele pensa que é? Levantei-me rápido da mesa, quase derrubando todos os copos e garrafas, me dirigi apressado para dentro do balcão, chegando lá, tive que reduzir a velocidade, pois o estrado estava molhado e escorregadio. Falei em voz alta, ainda segurando-me para não cair. — Escuta aí, ô Moreira, tem algum problema o Eurico sentar na minha mesa? O dono do bar com aquele sotaque carregado respondeu: — Ô raios, claro que não, afinal de contas já acabou o seu expediente, ele pode sentar onde quiser. Durante os quase quarenta anos que frequentei esse bar, essa foi a primeira vez que consegui arrancar do português uma frase com mais de cinco palavras. Voltei para a mesa com ar de vencedor, convencido que tinha solucionado o problema. Agora poderia tomar minha cerveja sossegado com o meu fiel amigo. 16


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Eurico pega o copo de cerveja com a mão esquerda, agora confiante de que não perderia seu emprego, vira de uma só vez. Observo a cena espantado, nunca o tinha visto beber. Ainda mais daquele jeito tão afoito. Segurando o seu braço lhe repreendo: — Ô meu, isso não é água não, vai devagar. Ele me olha com um sorriso matreiro e fala: — Ô Capitão, tenho que aproveitar. Vou encher a cara, afinal hoje é de graça mesmo. Não é que o cara era chegado numa bebida, se soubesse, durante esses quarenta anos eu o teria convidado para fazer parte do nosso partido. O PDPFRMA, o nome era difícil de o eleitor decorar, mas traduzindo era o seguinte: Partido de Discussão de Política Futebol Religião Música e Afins. Perguntei o que ele achava dessa vida de garçom. Agora com uma voz mais audível Eurico responde: — Capitão, aqui conheço as mais variadas pessoas, do pobre trabalhador que vem tomar um pingado e pão com manteiga de manhã, ao patrão que só entra apressado para comprar cigarros e não olha para a nossa cara. Vejo os pivetes querendo roubar os nossos fregueses, as meninas de programa chegando à tarde de banho tomado, os hábitos dos frequentadores assíduos como o senhor. Nessa vida, fico sabendo de tudo, sobre todos, dos casos românticos dos maridos, dos chifres que eles acabaram de ganhar, do carro ou casa que compraram, dos filhos que nasceram ou passaram de ano na escola, das atividades que fizeram no final de semana, do tema que a escola de samba vai usar no próximo desfile, dos jogadores que os times acabaram de contratar, das notícias que vão sair na próxima edição do jornal, enfim, estou sempre muito bem informado. Fiquei ouvindo atentamente o Eurico e processando como pode uma pessoa tão simples conseguir armazenar tantas informações a respeito de tudo. O cuidado que não tive durante esses 17


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anos com assuntos estritamente confidenciais. Já pensou se o Eurico fosse um dos delatores da ditadura, certamente não estaria aqui sentado nessa mesa com ele agora. Já teriam me jogado esquartejado no Rio Tietê por causa de suas informações. Respirei aliviado. Agradeci em silêncio a Deus por ele ser humilde e simples e também por ser o meu ouvinte mais discreto. Levanto a garrafa contra a luz, verifico se ainda tem alguma coisa e completo o meu copo com cerveja quente. Após ter contado como era a sua vida de garçom, Eurico me perguntou como me sentia sendo um famoso jornalista. Fiquei em silêncio por alguns instantes, procurei o último cigarro do maço, peguei o isqueiro no bolso esquerdo da calça, acendi, dei duas tragadas daquelas que o pulmão quase que explode. Depois desse rápido intervalo perguntei qual a intenção em querer saber, porque me perguntou isso, uma vez que ele já sabia de toda a minha vida. Ele me olhou sem graça, deve ter pensado na besteira de ter feito aquela pergunta, deve ter se sentido um idiota querendo ser agradável tentando continuar aquele início de conversa. Sempre defendi uma tese que o mais difícil de toda conversa são os primeiros minutos. As primeiras palavras têm uma importância crucial para o desenrolar de um bom bate papo. Tentanto não deixá-lo ainda mais sem graça respondi: — Sou igual a você, com apenas uma diferença, eu publico a vida dos outros, sou um delator, uma pessoa que não está preocupado em manter o sigilo de ninguém, pelo contrário, meu trabalho é expor as pessoas e a vida delas, tenham feito coisas ruins ou boas. Do contrário você guarda consigo tudo o que ouve ou vê. O admiro Eurico pela sua discrição. Coisa que na minha profissão é pecado. O garçom me olha novamente com um ar de espanto, acho que nunca se deu conta disso, talvez nunca na vida chegasse a essa conclusão. Ele me pergunta novamente se houve algum caso 18


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em que tivesse cometido um pecado, ou seja, se alguma vez na vida soube de um fato extremamente secreto e importante e por algum motivo, não foi publicado ou veio à tona. Olhei fundo nos olhos do garçom, perguntei brincando se ele tinha alguém conhecido no extinto SNI (Serviço Nacional de Informação), ou se dessa vez iria desrespeitar a sua conduta e contar para alguém o meu maior segredo profissional. Ele sorriu e pela primeira vez contrariou uma afirmação minha, respondendo: — Claro que não, Capitão, se você não quiser falar tudo bem, mudamos o assunto para futebol. Olhei mais uma vez nos seus olhos, senti que com ele poderia extirpar aquele tumor preso há anos no meu cérebro. Que era a pessoa mais indicada a me ouvir. Esfrego contundentemente o cigarro no cinzeiro como sempre fiz, girando-o de um lado para o outro, mesmo já estando apagado, levanto-me da mesa, vou até o banheiro, situado no fundo do bar. Abro a porta que está emperrada pela umidade, desvio de papéis higiênicos espalhados perto do cesto de lixo, com as pernas bem abertas tento evitar pisar na poça d’água ou urina formada no chão. Abro o zíper com certa dificuldade e urino com ar de satisfação pelo prazer do alívio. Queria estar livre e limpo para poder contar a minha história que nunca ninguém soube. Saio apressado sem dar descarga, afinal de contas ninguém fazia isso, o banheiro fedia da mesma forma que o Tietê, deveria ser um afluente dele. Vou até a frente do bar, dou uma olhada no movimento da rua, sempre fazia isso quando tinha que falar de um assunto importante, na volta peguei duas cervejas geladas, um maço de cigarros, pedi ao Moreira uma porção de batatas fritas e duas doses de cachaça para amaciar a garganta. Uma para mim, outra para o meu fiel ouvinte Eurico. Estava me sentindo no confessionário, meu consultório, onde fazia diariamente a minha análise, junto com os meus ami19


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gos da redação, tinha se transformado em uma igreja, o padre não usava batina, nem segurava o terço, era o Eurico com o seu uniforme habitual e na mão um copo de cerveja. Durante esse tempo todo, em que me preparava para iniciar a conversa ele pacientemente me observava, sem mencionar uma palavra sequer ou mesmo mostrando qualquer tipo de reprovação. Sentei cuidadosamente para não derrubar nada. Joguei no chão o resto de cerveja quente que ainda restava no copo. O português, detrás do balcão, observando meu gesto balançou a cabeça reprovando, ele ficava puto com isso. Eu sabia disso e não fazia a menor questão de censurar, tinha prazer em sacaneá-lo. Perguntei novamente ao Eurico se estava com tempo para poder ouvir. Ele como sempre, balançando a cabeça positivamente confirmou que sim.

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O PRESIDENTE DA REPÚBLICA O garçom deveria ser uns cinco anos mais novo que eu, portanto todas as pessoas que citaria ele seguramente já teria ouvido falar. Completei o meu copo e o do Eurico com a cerveja gelada. Abri o novo maço de cigarros, dessa vez foi fácil encontrar um, risquei por três vezes a pedra do isqueiro até conseguir acendê-lo, já estava muito velho e gasto, teria que completar o gás quando chegasse em casa. Solto a fumaça para o alto, pensando como iniciaria a história, se pelo fim, se separadamente cada caso ou colocaria tudo num liquidificador e bateria até extrair todo o caldo. Dou mais uma tragada. Ajeito-me na cadeira, respiro fundo e tomo coragem para começar a narrar o caso. — Eurico, existem assuntos na vida de um jornalista que são difíceis de serem discutidos, ou apresentados de forma imparcial. Sempre quando publicamos alguma matéria envolvendo política, religião, futebol ou música, acabamos carregando o nosso ponto de vista, por mais que nosso profissionalismo exija isenção. Esses assuntos são à base de um jornal, tudo gira em torno deles. E o caso que tenho para te falar gira em torno dos quatro juntos. Se um já é difícil não se envolver, imagina só a minha dificuldade tendo todos misturados de uma só vez. Ele permanecia me olhando, com aquela cara de interessado que sempre o acompanhou. Continuei: — Eurico, pior do que tocar nesses assuntos polêmicos é estar envolvido com pessoas de conhecimento e amplitude nacional. Algumas delas provêm de reconhecimento mundial, portanto, nessa pesquisa que fiz tive que ir a fundo a situações particulares de cada um, sempre com o devido cuidado de checar a fonte, saber até que ponto era verdade ou invenção de alguém querendo se projetar. Foram três anos de investigação, juntando 22


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cada caso com os fatos já armazenados na minha memória lotada ou nas lembranças dos meus amigos do jornal. — Eurico, você se recorda daquele presidente José Deodoro de Oliveira Quadros? Ele balançou positivamente a cabeça. Continuei: — Aquele que a turma falava que era mulherengo, que não perdoava ninguém, das secretárias, assessoras, até as faxineiras do Palácio. Pois é, minha história se refere a ele. Na campanha para presidente da República ele teve que percorrer todo o Brasil, realizando comícios, carreatas, visitando hospitais, fazendas de leite, portas de fábricas, inaugurando pontes, distribuindo cestas básicas, visitando todas as rádios do interior, enfim, usando de todas as artimanhas que um político tem em mãos para projetarse no cenário nacional. Já estava com a idade um pouco avançada, seus cabelos grisalhos davam os sinais que a velhice se avizinhava, carregava com dificuldade uma barriga bastante saliente, que insistentemente forçava os botões das camisas... — Quase igual a sua Capitão? Interrompe Eurico tirando uma da minha cara. — É igualzinha! Mas a sua mãe nunca reclamou. Respondo tentando recuperar a minha posição de cliente. Deodoro tinha um requinte todo especial, apesar das roupas mais velhas que vestia em campanha para as visitas no interior. Filho de um político também tradicional. Estudou nos melhores colégios da Europa, tinha fluência em três idiomas: Inglês, francês e espanhol. Mas nas épocas de campanha ou durante as visitas na periferia, preferia provocar erros gritantes de concordância verbal propositadamente para parecer mais simples. Dizia que isso dava muito voto. Costumava carregar consigo nos bolsos muitas balas e guloseimas, que distribuía às crianças que o acompanhavam, dizia que alegrando os pequenos, eles cobravam o voto do pai. Era um senhor já calejado, conhecedor dos 23


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atalhos da política. Gostava de acompanhar os jogos nos estádios de cada estado para ser fotografado junto aos ídolos locais. Em cada cidade que passava, fazia questão de assistir à missa e posteriormente cumprimentar o padre. Adorava ir para o Rio de Janeiro, visitava todos os barracões de escola de samba e ainda ajudava a fazer algumas fantasias. Era matreiro, diziam que só faltava ser mineiro para ser um político completo. Ele ria muito disso. Com todos esses trabalhos, juntando aos conchavos políticos que teve que fazer e as promessas de distribuições de cargos nos primeiros escalões do futuro governo, não foi muito complicado chegar à presidência da República. Eurico continua balançando a cabeça sem parar. Penso comigo, se continuar assim, até o término da conversa ficará com um terrível torcicolo. Meu ouvinte prestava uma atenção danada, para ele devia ser a primeira aula de história da vida, já que nunca deve ter frequentado uma escola no Brasil. Dou um gole na cerveja, precisava de líquido, pois minha boca já estava secando. Enquanto descrevia os primeiros passos de Deodoro o cigarro queimava solitariamente no cinzeiro preto de plástico. Dou uma tragada demorada e pergunto ao garçom onde parei. — O presidente foi eleito. Ele responde. Certo, rebobinei minha memória e já estava pronto para continuar. Bem, dando sequência, àquela fama de mulherengo, realmente tinha fundamento, durante uma das visitas que fez à terra do Santo “Padim” Padre Cícero Romão Batista, Deodoro, devido ao calor excessivo e ao enorme percurso que teve que fazer junto com os fieis sofreu uma brusca queda na pressão arterial. Os correligionários e bajuladores de plantão que estavam ao seu lado tentaram animá-lo, afinal o candidato não podia cair em frente à multidão, o que os opositores iriam falar? Certamente perderia um punhado de votos. Muitos políticos perderam eleições, por boatos espalhados dizendo que não chegaria ao final do 24


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mandato. Mais recentemente temos como exemplo o triste caso do Dr. Ulisses. Os seguranças atarracaram Deodoro um de cada lado e continuaram a procissão até o fim. Após o discurso de agradecimento, dessa vez, mais rápido e objetivo que o normal, Deodoro encaminhou-se para o hotel para descansar e tentar recuperar-se, pois no outro dia teria que estar em Feira de Santana, na Bahia. O hotel escolhido era um pouco afastado do centro, bastante simples por sinal, na cidade tinham outros muito melhores, o prefeito local, do seu partido, ainda tentou mudar a sua opinião, mas foi em vão. O velho não gostava de hospedar-se em hotéis luxuosos durante a campanha política. Dizia aos mais íntimos, por enquanto, me ralo um pouco nessas espeluncas, dormindo nessas camas cheirando a pobre, isso chama bastante voto, mas quando me tornar presidente, tiro a barriga da miséria, vou visitar e conhecer os melhores hotéis do mundo com o dinheiro desses trouxas. Chegando ao hotel, escolheu o quarto treze, supersticioso, como todo “bom” político. O homem foi levado pelo próprio recepcionista, que mostrou todas as dependências do quarto, explicou como funcionava a televisão, o banheiro, o chuveiro, etc. Deodoro estava louco para mijar, mas como todo político matreiro, em frente de mais um voto prestou toda a atenção do mundo. Agradeceu a explicação, apertando a mão direita do rapaz. Dessa vez era o futuro presidente que acompanhava o funcionário até a porta de saída do quarto, Deodoro já ia trancá-la e sair correndo para o banheiro, quando o recepcionista com o gesto de solicitação de gorjeta estica sua mão, obstruindo o fechamento da porta. O candidato disfarça, tenta ganhar tempo, mas ao ver que iria se molhar todo, retira do bolso da calça uma nota das graúdas. Deodoro titubeou em dá-la, mas não teve como retornar a ação. Manteve um controle hercúlio para não demonstrar a irritação. Sua face apresentava um sorriso amarelo. Colocou o dinheiro na 25


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palma da mão do rapaz com tanta raiva que a vontade de mijar passou. Foi só o funcionário virar-se, Deodoro sussurrou, com o dedo indicador apontado para as costas do rapaz: “Eu te dou agora seu corno filho de uma égua, para te tomar depois seu lazarento, e encher ainda mais o meu bolso quando estiver no Palácio da Alvorada”. Deodoro foi tomar banho, estava cansado, encheu a banheira e perdeu a noção da hora deitado, relaxado e brincando com a espuma como sempre gostava de fazer. De repente toca a campainha do quarto, ele finge não escutar. Ouve o toque pela segunda vez, agora mais demorado. Enfurecido levanta e quase cai, escorregando no sabão que jogou para fora da banheira. Assustado, pois o tombo podia literalmente “deixá-lo de molho” durante toda a campanha, sai xingando: — Quem será esse condenado, esse mizerento que interrompeu o banho presidencial? Deodoro enrola-se em uma toalha branca com as iniciais do hotel bordada em azul, que mal consegue abraçar sua cintura. O político abre a porta, já ia iniciando o xingamento, quando dá de cara com uma jovem, cabelos preto, lisos e compridos, mal tratados é verdade, mas nada que com um bom creme ou um shampoo um pouco melhor do que o que ela costumava usar, se é que usava algum, resolveria o problema. A moça tinha um rosto fino e delicado, pele morena pintada cuidadosamente dia após dia pelo sol nordestino. Vestia um uniforme meio cafona, mas que ainda assim, conseguia ressaltar as suas curvas. Deodoro fica atônito, iria despejar um caminhão de palavrões, mas ao ver a tal menina, ficou paralisado. Segurou a toalha com firmeza, com receio de que ela caísse, não ficaria bem vê-lo naquela situação. Possivelmente perderia o voto da linda donzela e ainda correria o risco de ser caluniado por tentativa de atentado ao pudor. Seria um prato ainda mais cheio, ou melhor, quase uma travessa para 26


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os opositores. Deodoro mantém a porta entreaberta e segurando a maçaneta com a outra mão, pergunta com um tom de voz diferente do usual, chegando a ser meloso: — A senhorita deseja alguma coisa? Ela esboça um sorriso, sempre esteve acostumada a ser tratada por homens grossos, responde que gostaria de verificar se está faltando alguma bebida na geladeira e que também iria trocar os lençóis da cama, por um jogo ainda sem uso, já que se tratava de um hóspede muito especial. O velho, em questão de segundos retira a máscara de político, despe-se da fantasia de raposa e despeja toda a sua porção de Dom Juan Tupiniquim. De maneira açucarada continua o diálogo: — Entre senhorita, fique à vontade, caso necessite de algo, posso ajudá-la com o maior prazer. A moça agradeceu, retribuiu com outro sorriso a gentileza, mas negou o favor, disse que se tratava das suas obrigações e que de maneira nenhuma o futuro presidente do país teria que arrumar a cama. O velho feliz por ter assegurado mais um voto, aproveita a deixa da garota e inicia uma conversa mais amigável. — Você não vai se importar se eu desarrumasse o lençol logo em seguida, vai? Ela sem entender qual era o real sentido daquela frase, disse que não, afinal estava ali para isso mesmo. A máscara de Dom Juan cai, começa a metamorfose para a Raposa. Deodoro matreiramente segura o braço da moça e pergunta o seu nome, ela notando o interesse do velho responde, incluindo uma pitada de sedução na voz e um sorriso contido: — Seu Deodoro, eu sou Maria das Graças Baptista Neves. O velho aproveita a segunda deixa da moça e fala: — Minha princesinha do agreste, não me chame assim de Seu Deodoro, apenas diga você, para que tantas formalidades? Aproveitando-se da situação, passa as mãos nos cabelos embara27


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çados da jovem camareira. Foi a conta certa para poder arrastá-la para a banheira, afinal ninguém nunca a tinha chamado daquela maneira e além do mais, com toda a sua simplicidade, nem sequer imaginaria que um dia estaria deitada, tomando um banho tão refrescante e relaxante como aquele de verdade e junto com o futuro presidente do Brasil. Enquanto limpava o local diariamente, vivia sonhando que era uma moça rica e poderosa e poderia ficar horas e horas brincando com as espumas, igual às estrelas do cinema. Mas rapidamente caía na real e lembrava que o único contato que poderia ter com aquela banheira era com as luvas e os produtos de limpeza e que aquilo não era para o seu bico. Eurico e foi assim que o velho traçou a primeira mulher dessa minha história. O garçom olha para mim sem entender nada e pergunta com a cara de absoluta normalidade: — E daí Capitão? Não é novidade nenhuma um político transar com uma camareira de hotel, isso acontece quase todo dia em diversas cidades do país. Peguei outro cigarro do maço, tentei acender, mas não conseguia, o isqueiro estava falhando. Eurico levanta-se lentamente, evitando esbarrar na mesa e causar um desastre. Vai até o balcão ao lado do caixa e esticando o braço, apoiado apenas pelas pontas dos pés pega um novo isqueiro preto pendurado na parede. O garçom sabia que se fosse de outra cor eu certamente devolveria. De lá mesmo ele joga, tento segurá-lo, mas como era de se esperar, minha coordenação motora já não está cem por cento. Tentando agarrá-lo quase que derrubo novamente tudo que estava na mesa. Também pudera depois de tanta bebida. Além do que, ser goleiro nunca foi o meu maior forte, atualmente gostava de jogar no meio de campo, daqueles que só sabem destruir as jogadas. Meu fôlego não era mais o mesmo. Quando tinha meus vinte e poucos anos jogava na ponta direita, corria de um lado para o outro do campo sem me cansar, se tivesse outro quadro, 28


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me oferecia para atuar. Agora não, com essa imensa barriga, já não consigo correr nem meio tempo. Acho que mais alguns anos serei obrigado a catar no gol. Mas pelo que vi agora, o meu time será um fracasso total. Eurico senta-se novamente e encosta a mão no queixo apoiando o cotovelo na mesa para sustentar a cabeça. Depois solicita que eu continue a contar o caso: — Pronto Capitão. Vamos lá, porque até agora não vi nada que o impedisse de contar essa história no seu jornal. Acendi o cigarro, dei mais duas tragadas daquelas que meu pulmão gostava. Estava um pouco nervoso, por ter que contar algo que para mim era um grande Segredo de Estado. Afinal, na vez que mencionei ao editor a minha vontade de publicar no jornal uma matéria a respeito do caso 1º de Abril, onde estava envolvido o presidente da república e os seus filhos espalhados pelo país, meu editor me forçou a ficar quieto. Disse que estaria mexendo num ninho de cobras. Lembrou-me que só nos últimos três meses, todos que estavam envolvidos com o Escândalo de Alagoas tinham sido assassinados e que se me atrevesse a falar, seria despedido ou correria o risco de ser o próximo da lista de execução. O jornal já não era mais o mesmo, todo o conceito que sempre tentei imprimir durante as décadas em que fui um dos responsáveis pela publicação, o de torná-lo um meio de comunicação investigativo, imparcial e dinâmico estava sendo demolido pelo novo grupo estrangeiro que o arrematou. A nova diretoria não queria publicar matérias que pudessem gerar polêmicas com o Governo. O jornal tornou-se um grande e discreto elefante branco nas bancas. Para minha alegria ou desespero, já tinha começado a contar a história para o Eurico, ele era uma pessoa confiável, além do que não tinha mais nada a perder, afinal, morreria de qualquer forma na segunda-feira de manhã, quando o despertador tocasse. 29


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Bem, Eurico, o Deodoro depois de faturar a Princesinha do Agreste, viajou para uma visita rápida a Feira de Santana, foi fazer um comício e inaugurar um centro de saúde comunitário, onde a população tinha acesso fácil aos médicos recém formados da cidade e a remédio de graça distribuídos em farmácias populares. Depois correu para a recém inaugurada Brasília. Você lembra, Eurico, foi uma das maiores festas que cobri como jornalista, nunca me esqueço daquele dia 21 de abril de 1960, foi um sufoco danado conseguir uma credencial. Algumas pessoas já estavam vendendo os convites como cambistas no estádio do Maracanã. A nata dos políticos do Brasil e do mundo, artistas, escritores, pessoas ligadas à igreja, jogadores de futebol, sambistas, tinha de tudo lá. Até o Deodoro estava lá, de olho em uma recepcionista do evento que distribuía os crachás. Dizem as “boas” línguas que ela além do crachá, mais tarde, no final do evento, também forneceu mais algumas coisas a velha Raposa. Naquela época já era o candidato oficial do partido, portanto, aquela festa era uma boa oportunidade para costurar mais alguns votos com os outros partidos de apoio à base governista. Nessa nova estada em Brasília, por não ter hotéis antigos como só ele gostava, acabou hospedando-se no apartamento de um deputado do mesmo partido que estava em viagem à Argentina. Na manhã seguinte, teria que visitar um grupo escolar cujo trabalho social já estava sendo comparado ao de países do norte europeu. As crianças eram retiradas em suas casas de manhã através de ônibus devidamente identificados com a logomarca do projeto e principalmente, com o destaque ainda maior para o nome do responsável. Afinal era época de eleições. Os alunos passavam o dia inteiro na escola e somente à tarde eram levados de volta para suas respectivas casas. Nesse projeto, eles tinham uma agenda diária carregada a cumprir. Às oito horas, todos cantavam o Hino Nacional, tomavam café da manhã reforçado e de acordo com a 30


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idade, faziam ginástica, natação, tinham aula de inglês, comiam uma merenda também reforçada, faziam teatro, obras de artes que eram vendidas em leilões na cidade, cuidavam de uma horta comunitária, enfim, uma infinidade de atividades. Essas crianças estavam sendo preparadas para tornarem-se os futuros líderes do país, mesmo sendo crianças de condição social mais baixa. Aliás, essa era a premissa principal para que fosse acolhida no projeto. Deodoro queria conhecer melhor a mecânica de funcionamento e utilizá-lo como plataforma política e referência de educação para todos os municípios do país. Eurico, ainda bem que ele não cumpriu a promessa de construir centros de referência em estudo em cada cidade do Brasil. Já pensou, que chato, nossas crianças preparadas para a Era de Aquário, encarando os desafios do novo milênio e a globalização com os pés nas costas? O Brasil sendo o principal país do mundo, anos luz à frente dos Estados Unidos, já pensou que chato, nós não teríamos mais rebeliões na Febem, aliás, seria extinta e nas áreas construídas, seriam transformados em centros culturais e de lazer. O crime organizado não teria a menor chance de se organizar. Os nossos jornais não teriam o que publicar no caderno policial. Os políticos de hoje seriam reverenciados em praça pública. Já pensou Eurico, você perguntando qual é o seu maior ídolo e as crianças ao invés de falar: Pelé, Zico, Senna, Oscar, Guga, eles diriam é o deputado federal Fulano de Tal. É o prefeito Sicrano da Silva. Dou um tempo na fala para respirar e resolvo num esforço hercúleo, tentar escalar uma equipe de futebol com os principais políticos que esse país já teve em sua história. Só poderia jogar nesse time aqueles que cumpriram religiosamente o seu mandato com ética, probidade administrativa e acima de tudo, respeito aos interesses supremos da sociedade em detrimento dos seus próprios. Abro a sacola e pego a caneta dourada que acabei da ganhar e rascunho no guardanapo os 31


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nomes dos atletas: No gol, Rui Barbosa, nas laterais, o Dr. Ulisses Guimarães e Teotônio Vilela. Na zaga o meu xará de sobrenome, Luís Carlos Prestes, no meio de campo, Mario Covas, Tancredo Neves e como capitão e craque dessa equipe com a camisa dez, o Dr. Barbosa Lima Sobrinho que, aliás, é o meu maior ídolo. O Jornalista que sempre me inspirou. O homem que foi minha maior referência profissional. Percebo que por mais que me esforce, não consegui montar um time de futebol. Se muito uma equipe de futebol de salão com alguns reservas. Como estava perdendo um tempo precioso e o garçom me dando nojo ao vê-lo lambuzando o dedo indicador ao coçar aquele cabelo lambido, resolvi deixar para lá a escalação e conclui com o seguinte comentário: — Eurico, veja bem, se todos os políticos pelo menos cumprissem dez por cento do que prometem, já estaria bom demais. Mas voltando ao Velho Deodoro, nessa escola ele foi apresentado a uma jovem, aparentava uns trinta anos, era Joana, a professora da turma de inglês. Ela estrategicamente tinha sido escolhida pela equipe de apoio, pois além de ser a mais bonita do grupo social, uma mulher alta, loira, dos cabelos ondulados, olhos verdes, sorriso perfeito, também soaria melhor nos meios de comunicação as crianças conversando com o futuro presidente em inglês. A imagem que seria passada para os países do exterior era que o Brasil finalmente estava entrando nos eixos. Deodoro ao vê-la ficou todo excitado, chegou a comentar com um deputado que o acompanhava: “Que mulher linda, as crianças daqui realmente passam muito bem mesmo”. Mas perto dela tratou de ser o mais cordial possível, além do que, as câmaras de diversas emissoras estavam ao seu lado cobrindo tudo. Não poderia dar a menor chance de alimentar ou deixar que os comentários de mulherengo que todos, inclusive os opositores viviam falando fossem confirmados em cadeia nacional. Seria assinar a renúncia mesmo antes de ter sido eleito. 32


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A Raposa em pele de cordeiro se mostrava muito interessado, fazendo várias perguntas. A professora estava um pouco encabulada, pois nunca tinha sido alvo de notícia, estar ali em frente de todas aquelas câmaras explicando o projeto era muito constrangedor, mesmo para uma pessoa tão preparada como ela. Deodoro percebeu a dificuldade da moça e para ajudá-la perguntou o seu nome completo. Não é, Eurico, que o homem começou em frente às câmaras um discurso de improviso, dizendo: “Vejam só o exemplo dessa mulher, Joana Fonseca da Costa e Silva, uma brasileira batalhadora, teve um sonho e foi atrás dele, sabe que o futuro desse país está diretamente ligado aos cuidados que temos que ter com nossas crianças, que deixá-las à margem da sociedade é como algemar o país, tirando qualquer possibilidade de defesa ou de crescimento, pois como podemos ser livres com nossas crianças passando fome ou ter que trabalhar cedo, muitas vezes em regime de escravidão...” e por aí em diante. Ela não sabia o que fazer ou onde colocar as mãos. Estava totalmente desconsertada. Deodoro notando essa fragilidade da moça, logo aproveitou para se tornar mais solícito ainda, por várias vezes tocou no seu ombro ou pegou a sua mão para levála a algum lugar da escola em que supostamente estivesse interessado. Joana de certa forma até um pouco inocente, parecia que não percebia as outras intenções do velho. Num descuido da imprensa, o candidato a levou para uma sala mais privativa, onde permaneceram apenas os três, ele a professora e uma das crianças do projeto. Deodoro colocou a moça nas nuvens, teceu os melhores elogios possíveis, disse que se tivesse um filho naquela idade o colocaria sem sombra de dúvidas naquela escola. Disse ainda que a semente base do país estava sendo plantada ali por aquela indefesa mulher e que no futuro todos se lembrariam dela como a educadora do século. O Raposão às vezes forçava a barra, mas era o jeito dele dizer vamos para a cama. 33


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Convenhamos, Eurico, o cara pelo menos tinha uma lábia com as mulheres fora do comum. Ela escutando tudo aquilo, via nele o seu príncipe encantado, pois estava sendo cortejada por nada menos que o futuro presidente da República. A velha Raposa sentindo o cheiro da caça, percebendo que já havia abatido, deixou um cartão com o endereço do apartamento do amigo, dizendo ser seu. Disse que teria a noite inteira livre e que poderiam conversar mais sobre o grandioso projeto para o futuro da educação do Brasil. — Adivinha só o que aconteceu na noite, Eurico? Ele me responde com toda a certeza do mundo, como se já soubesse do desfecho: — O homem comeu a professora. — A resposta está correta! Respondi imitando a voz de um antigo apresentador de televisão e com o dedo indicador para o alto, tal qual ele fazia. O garçom continuou na mesma posição em que estava quando comecei a contar esse episódio. Apenas mais confuso ainda. Em seguida retrucou: — Puta que pariu, Capitão, se for para ficar contando as puladas de cerca do cara, deixa que eu conte um monte de coisa que sei também. Tem um punhado de gente conhecida aqui do boteco que faz a mesma coisa e ninguém desconfia. Ao ouvir aquelas palavras, quase engasguei engolindo a cerveja, pois a definição que tinha dado para o garçom há poucos minutos atrás, tinha acabado de ir por água abaixo, ou melhor, cerveja abaixo com aquela frase. Era só o cara tomar uma que também já queria falar da vida dos outros. Para falar a verdade, fiquei com uma enorme vontade de escutar as suas histórias, deviam ser saborosas, mas se permitisse contar, estaria ajudando a torná-lo um delator. E o Eurico para mim, tinha uma imagem já formada de homem de bem, imaculada. De forma nenhuma 34


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permitiria que algumas doses de cachaça e um pouco de cerveja mudasse a impressão que tenho dele. Bebi em um só gole o restante da cerveja. Apaguei o cigarro, pois estava soltando uma fumaça que incomodava. Sempre fumei, mas nunca gostei do cheiro invadindo o ambiente e importunando todos que estavam por perto. Completei outra vez o copo e antes de continuar a contar o meu segredo, me certifiquei que o Eurico ficaria de boca fechada, sussurei com uma voz grave e ameaçadora e o indicador quase no seu nariz: — Escuta aqui, ô torcedor da lusa, parece putaria tudo isso, mas o que estou te contando é muito sério. Vê se escuta e fica com boca de siri, pois se contar para alguém, os homens vão vir atrás de você e de mim, entendeu? E você sabe o que eles fazem, não sabe? Quer que eu conte o que fizeram com um repórter amigo meu que descobriram que ele fazia parte do Partido Vermelho em 1968? Bom só para você ficar esperto, sabe aquele troço que você usa para tirar a rolha do vinho? Pois é, eles tentaram enfiar no buraco do pau do meu amigo. Acho que não doeu quase nada, não é mesmo Eurico? Depois que contei o fato, o garçom estava mais vermelho que o uniforme tradicional da Portuguesa. Com os olhos arregalados, ele tomou mais um gole dos grandes e assustado falou: — Que isso Capitão, nós somos amigos, não somos? Você acha que vou sair por aí contando umas coisas dessas. Ainda mais se tratando de uns caras graúdos. Se fosse de um pudim de pinga qualquer aqui do bar tudo bem, mas pode ficar tranquilo, tudo que o Capitão está falando vai entrar por esse lado e sair por esse. — Sinalizando com as mãos os seus ouvidos — Fiquei pensativo, avaliei se realmente deveria continuar aquela conversa, pois o cara não daria à mínima, acaba de dizer que tudo o que estou falando, que toda a minha pesquisa nesses últimos quarenta anos, ele vai ouvir por um buraco e depois vo35


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mitar pelo outro. Penso seriamente em levantar e ir embora para casa, mas me vem junto aquela sensação de morte pré-anunciada. Sinto que deveria prolongar um pouco mais o bate papo, mesmo que fosse em vão. Chamei o Moreira, pedi que trouxesse mais uma cerveja e só para sacaneá-lo, perguntei se conhecia alguma nova piada de português. Ele como sempre, ficava bravo e saia batendo o pé firme, falando que brasileiro é tudo folgado, gozador e que não via hora de parar de trabalhar, fechar o bar e voltar para Portugal. Acho que ele não tinha noção do estava falando, quem melhor do que eu sabia dessa sensação de despedida. O quanto é duro ficar obsoleto da noite para o dia, sem ter mais o que fazer na vida. Esse Moreira realmente não sabia o que estava falando. Belisquei uma batata frita fria que estava solitária no prato, antes de devorá-la, me senti um canibal, era como se mordesse o próprio dedo, afinal também me sentia só. Antes de a melancolia chegar e sem perceber começar a chorar, igual a tantos pinguços de boteco decidi continuar a prosa: — Bem, Eurico, depois da viagem a Brasília, Deodoro voltou para São Paulo, sua terra natal. Morava oficialmente num sobrado em pleno bairro do Morumbi, era herança da família, mais precisamente do seu pai, um político igual a ele, talvez sem a mesma dimensão nacional, mas que também tinha as suas artimanhas e influências no Governo. E pelo que diz a história não menos mulherengo que o filho. A velha Raposa adorava morar no Morumbi, sentia-se mais próximo da nata da sociedade paulista e como possuía informações privilegiadas, sabia que nesse bairro seria a nova sede do Governo Estadual. Fazia questão de passar todos os dias em que estava em São Paulo ao lado da obra da Universidade Fundação Conde Francisco Matarazzo, futura residência do Chefe do Estado. Com o passar dos anos, como nunca ganhou uma eleição para governador, dizia que só de bronca 36


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não estaria morando ali, mas no novo palácio que acabaram de construir em Brasília, com tudo do bom e do melhor, cheirando mármore italiano novo. Deodoro estava recém casado, sua esposa atual era muito bonita, tinha os olhos muito expressivos, filha de um empresário de origem italiana, conheceu a moça numa festa de inauguração de uma fábrica de macarrão no interior. Apesar da fama de mulherengo que sempre carregou por toda a vida, ele realmente gostava muito dela. Aparentemente era um marido exemplar, fazia questão de estar ao seu lado em passeios pelos teatros e shows da cidade. Dizia que São Paulo nada tinha a perder às outras cidades do mundo. Sua esposa, por ser mais jovem lhe causava ciúme e nas festas a sua beleza destoava. O comentário era geral, o que uma moça com um futuro brilhante, filha de um grande empresário, estava fazendo junto desse velho barrigudo, cabelo grisalho e mulherengo. Poderia estar ao lado do homem que quisesse. Na época, o que se comentava nos bastidores da política era que foi feito um acordo entre o velho e o pai da moça. Deodoro o apoiaria na abertura da fábrica, livrando-o de todos os impostos, para tanto, teria uma participação nos resultados da empresa, mas parece que nesse meio tempo conheceu a filha do homem e ficou apaixonado. Separou-se da antiga mulher rapidamente, mas teve o cuidado de colocar pano quente, pois já era seu plano candidatarse a presidente. Deodoro deu uma polpuda parte da sua fortuna para a ex-mulher, que ficou calada sem reclamar nada, mudando-se para a Europa junto com as crianças. A velha Raposa ainda conseguiu apoio dela para a campanha. Teve a coragem de gravar uma frase e colocar na rádio, onde dizia que o Deodoro era uma ótima pessoa, que o motivo da separação foi a escolha que teve de fazer ao resolver acompanhar os estudos das crianças no exterior. Na verdade Eurico, ninguém era obrigado a acreditar 37


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naquela história estapafúrdia. Deodoro teve um casal no seu primeiro casamento. Perdeu totalmente o contato com os filhos que já estavam cursando a faculdade. Somente lembravam deles ou vice-versa em datas de aniversário ou natal. Por algumas vezes tentou induzir o filho a participar da vida política, mas pelo que se comentava no meio, o rapaz não era muito chegado a obrigações, parecia até que além de estar envolvido com amigos viciados ele também não era muito fã do sexo oposto. A velha Raposa sempre teve dificuldades com crianças, não gostava delas, achava que todas eram chatas e que só sabiam pedir presentes. Sua atual esposa não via a hora de ter um filho, o que para ele era um projeto de longo prazo. Porém naquele dia em que voltou de Brasília descobriu que a mulher estava grávida. Por algum tempo ficou com a pulga atrás da orelha, afinal estava muito ausente nesses últimos tempos. Mas só foi nascer a criança para ver que o moleque era cagado e cuspido a cara do velho. A Raposinha tinha todos os detalhes do pai. O nariz comprido, os olhos azuis e um sinal nas costas da mão esquerda igualzinho ao do safado. Já são 10:30H, Moreira me olha ainda mais ansioso, pergunta se iremos continuar a prosa até amanhã de manhã. Respondo com a voz rouca, pois tinha acabado de arrotar: — Claro, Moreira. Estou contando um caso importante da minha vida para o Eurico e pelo que parece só vou terminar mesmo amanhã de manhã. Isso se conseguir contar tudo, pois vou ter que cortar boa parte dessa história. Ainda completei: — Se você estiver cansado e quiser dormir, pode ir, o Eurico vai anotando as despesas e depois acerto com ele todas as pendências que tenho aqui nesse bar fedorento. Moreira morava em um sobrado nos fundos do boteco e apesar da birra que tinha com o garçom, confiava plenamente nele. Quando precisava sair para ir ao banco ou comprar algum 38


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produto, deixava tudo por conta do Eurico. Todas as vezes que foi para Portugal, deixou o estabelecimento funcionando sob a batuta do seu fiel funcionário. Se Eurico quisesse poderia roubar o português, mas não fazia. Muitas vezes nós do jornal oferecíamos uma caixinha a parte caso ele marcasse menos cerveja ou petiscos na conta. Se o garçom nesses anos tivesse aceitado a propina, já teria juntado uma nota preta. Algumas vezes Eurico foi o assunto principal nas discussões da turma da redação, alguns o apoiavam, dizia que se todos os cidadãos brasileiros fossem como o garçom o Brasil estaria muito melhor. Eu era do contra, fazia as coberturas dos fatos políticos, descobria aquelas falcatruas enormes e ninguém era preso, porque o Eurico não podia fazer o mesmo? Além do mais era a luta do proletário contra a força empresarial. Nessa eterna batalha, os trabalhadores sempre se ferraram, era a chance do garçom ganhar a luta e sair por cima. Mas a nossa briga particular da redação sempre acabava empatada ou o assunto mudava de rota. O português não aceitou a sugestão, continuou lavando a louça, se bem me lembro, lavava o mesmo copo por exatos dez minutos. Moreira estava mais ligado na nossa conversa do que na sua própria tarefa. Fingi que não estava percebendo, antes de continuar contando a história, me espreguicei, estiquei todos os músculos, nervos e ossos. Ouvi estalos consecutivos, fazia isso sempre na redação, me deixava mais relaxado e atento. Quando o cansaço atacava, somente isso, regado a um café amargo resolvia o problema. Hoje substitui o líquido quente e preto por um amarelado e gelado. Para minha alegria acabo de descobrir que o efeito relaxante é o mesmo. Eurico enche o seu copo, tenta espetar uma azeitona solitária no prato, após várias tentativas desastradas ele desiste. Tento ajudá-lo, mas também tenho dificuldade, somente após a quinta tentativa, depois da azeitona ter saído do prato e ficar en39


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curralada entre o guardanapo e o cinzeiro consegui furá-la. Já estava ficando incomodado, pois esse gesto caracterizava a nossa embriaguez. Entrego a vítima espetada na ponta do palito com ar de vencedor, afinal tinha bebido muito mais que ele e ainda consegui tal feito. Eurico me olha meio sem graça, pega bruscamente da minha mão e enfia na boca apressadamente. Penso em tirar um sarro, mas não era o momento de gozar com meu ouvinte. Poderia ficar furioso e ir embora resmungando, como já fez tantas outras vezes durante esses anos todos. Espero o garçom cuspir o caroço e pergunto: — E aí Eurico posso continuar? Ele balança a cabeça positivamente, mas logo em seguida estica o braço e mostra a palma da mão pedindo para eu continuar em silêncio e pergunta: — Espera aí Capitão! Tive uma idéia. Já que você está se aposentando, porque não aproveita e escreve um livro contando essa história para todos ficarem sabendo. Você vai se sentir melhor, além de ocupar o tempo livre, poderá prestar um grande serviço ao Brasil. Fiquei escutando e processando tudo aquilo que ele me dizia. No meio de sua frase já tinha chegado a uma conclusão. Mas que sujeito burro, tinha que ser português mesmo. Quem mais do que eu gostaria de publicar essa história? Quem mais do que eu tendo um jornal ao meu inteiro dispor queria contar todos esses acontecimentos? Quem mais do que eu depois de pesquisar tanto, gostaria de ser o âncora dessa reportagem? Se pudesse já teria feito um encarte semanal, contando todos os fatos. Mas não consegui. Meu chefe com o rabo preso com os senadores, meu jornal mudando de dono, minha voz silenciando-se aos poucos, perdendo o crédito que tinha. Daria a impressão de que tudo aquilo que queria publicar seria uma forma de mostrar a minha própria inconformidade com a situação do país. Já tinha 40


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pensado nisso, mas e o medo de alguma retaliação. Já pensou um saca rolha sendo introduzido no meu pinto, só de imaginar, desviava o pensamento. Preferia manter o anonimato, todos os fatos e situações que pesquisei estavam registrados na minha memória, tive o cuidado de esconder todo e qualquer documento que pudesse me comprometer, se alguém o encontrasse nunca conseguiria montar novamente o quebra-cabeça. Só o fato de estar ali contando para o garçom já me deixava tenso. E se o Moreira estivesse gravando nossa conversa, será que ele era um dos contatos do serviço secreto? Ouvi dizer que durante a ditadura, muitos donos de botecos eram assediados pelos militares para servirem de espiões. Que local mais informal para começar uma revolução. Tento não acreditar nessa minha paranóia, mas meu sexto sentido sempre foi bastante apurado, graças a ele ainda estou vivo. Disfarçadamente levanto e vou até a porta do bar, olho por entre as frestas da porta de aço para ver se tem alguém lá fora na espreita. Vejo as luzes de uma ambulância passando. Numa primeira impressão, pensei que fosse um camburão. Na volta, aliviado, estico o olho para dentro do balcão, me penduro da mesma forma que o Eurico fez para pegar o isqueiro e espio se nos arredores do caixa existe algum gravador. O Moreira me olha sem entender nada. Depois de estar seguro que poderia continuar minha história, ajeito-me na mesa, mas noto a ausência do garçom. Penso, pronto, ele já deve ter ido ligar para a polícia, esse lusitano filho da puta, então era ele o agente do SNI. Levanto-me novamente, só que agora mais apressado, vou até o depósito de bebidas do bar, olho por todos os lados, mas nada dele. Volto até a frente do bar, verifico se a linha de telefone está sendo usada. Pergunto para o Moreira se ele viu o Eurico, o Português responde: — Ô raios, não era você que estava conversando com ele? Quem tem de saber dele é você. 41


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Fico confuso, onde se meteu aquele garçom. Tentando me manter calmo, vou vagarosamente até o banheiro do bar. Escuto o som interminável de urina caindo na água da bacia. Aquele som me acalmou, o torcedor da Lusa estava lá, retirando a água do joelho. Aquela correria e o barulho da urina desencadearam todo um processo no meu sistema urinário. Bati insistentemente na porta para que ele abrisse, na verdade daria para aguentar, mas o desejo de sacanear o Eurico foi muito maior. Ele grita lá de dentro, pedindo para eu esperar, escuto o som da descarga, acho que ele era a única pessoa que realmente executava o pedido do cartaz afixado acima do botão de acionamento: “Favor dar descarga depois de usar o banheiro”. Achava aquela frase tão óbvia que só de sacanagem não apertava o botão. Acho que todos que usavam o banheiro faziam o mesmo. Tenho certeza que aquela frase só poderia ser coisa de português. Coisa do Eurico. Ela me soava da mesma forma que frases espalhadas na cidade dizendo: “Se beber não dirija”, “antes de atravessar olhe para os dois lados” ou “Não pise na grama”, são coisas tão óbvias que não consigo entender porque ainda tem que avisar. Depois de alguns minutos já estávamos sentados novamente voltando a nossa conversa, continuei contando as peripécias do Deodoro. Eurico agora vou falar da última pessoa envolvida nesse caso. Numa visita ao Rio de Janeiro no dia seguinte a notícia da gravidez da mulher, o velho encontra-se com empresários do turismo local. Eles reivindicavam uma maior participação do Governo Federal nas campanhas de incentivo ao turismo carioca. Essa visita era importante, pois além de costurar mais apoio de um setor importante, ele poderia visitar algumas escolas de samba da cidade. Odiava subir os morros, tinha medo de ser alvejado por algum traficante ou bala perdida, mas por outro lado adorava ver os ensaios das escolas de samba. Aquelas morenas esculturais 42


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o deixavam excitadíssimo, além do que dizia que nunca tinha se deitado com uma sambista. Uma de suas maiores fantasias era ter uma porta-bandeira fazendo um desfile exclusivo para ele, só que na cama. Naquele dia a escola alvo de sua visita era no Morro da Casa Branca, sede da Escola de Samba Unidos da Tijuca. Conversaria com os líderes sociais da comunidade, anotaria as suas principais reivindicações e como ninguém era de ferro, almoçaria com o presidente da escola de samba. Como costume da agremiação, o almoço era regado a muita cerveja, feijoada e samba. O velho tinha orientação médica de que deveria evitar comida pesada, mas em época de campanha, valia tudo, tutu à mineira, vatapá, buchada de bode, mungunzá, pirão, arroz carreteiro, feijão tropeiro, como não saborear uma deliciosa feijoada, comeria apenas um pouco. Ele dizia aos seus companheiros de partido que era só para tirar algumas fotografias. Isso também dava voto. Naquele almoço uma bela morena sentou ao seu lado, cabelos alisados, cílios grandes, parecendo ser postiços, lábios pintados suavemente, era quase uma obra de arte, suas mãos grandes e ao mesmo tempo delicadas o serviam, ajeitando no seu prato o feijão preto, carne de porco, arroz e couve mineira. Deodoro adorava ser servido, principalmente por mulheres bonitas, sentia-se o máximo, enquanto ela preparava o prato, o velho já a imaginava tirando aquele modelito de sambista e se deitando junto com ele. Mas procurou ser educado, durante a refeição chegou a repetir o prato, esquecendo a recomendação médica. Depois do almoço, foi conhecer a quadra e ver o ensaio da escola. Durante o percurso, sentiu-se mal, da mesma forma que em Juazeiro, do seu lado, um sambista com o pandeiro, percebendo o problema, segurou Deodoro por um dos braços, do outro lado a sambista morena o apoiava também, evitando que ele batesse a cabeça no chão. Dessa vez ele não conseguiu evitar as fotos nem as manchetes nos 43


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jornais. Após alguns minutos, o velho volta à consciência, tenta manter um sorriso amarelo, aparentando estar bem. Os dirigentes da escola o encaminham para a enfermaria. Deodoro fica de repouso a tarde inteira, aproveita para pôr a agenda e os telefonemas em dia, evitando desgaste físico. A bela moça morena fica o tempo todo ao seu lado, estava preocupada, afinal foi ela que caprichou no prato. A pobre cozinheira gritava desesperada no corredor ao lado da enfermaria: — Meu Deus do céu, matei o homem, matei o presidente. A Raposa, percebendo o cuidado despendido pela moça, fingia ainda não estar totalmente recuperado. Os chás que a cozinheira preparou aliviaram o seu estômago rapidamente. Ele começou a jogar toda a sua lábia sobre a sambista. Primeiramente, como de costume perguntou o nome, ela respondeu: — Maria do Socorro Alves Franco. Ele sorrindo naturalmente pela primeira vez depois do mal estar, falou com a moça: — Socorro, você não poderia ter um nome mais apropriado. Quem melhor do que você poderia me socorrer? A Sambista sorriu, desfazendo o ar de preocupação que estava incrustado no seu rosto, junto da leve maquiagem que ainda permanecia. Ele perguntou onde a moça morava, ela respondeu: — Aqui no morro mesmo. — Aqui na escola mesmo? Retrucou Deodoro. Percebendo a dificuldade dela em continuar o diálogo emendou: — Socorro, ainda bem que você não dança da mesma forma que fala. Senão a escola estaria no segundo grupo. Ela sorriu meio sem graça, pois pelo visto não tinha entendido a colocação do candidato. O velho com a voz sedutora completou: — O que mais você faz bem que não seja dançar? Eurico veja bem, a impressão que passa é que todos os homens pensam que as mulheres do morro ou sambistas, são todas 44


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peruas, mulheres da rua ou de vida fácil. Imaginam que todas estão à disposição e que a qualquer momento ou estalo de dedos elas estarão prontas para lhe servirem. Só que isso não serve para muitas delas e principalmente para Socorro, pelo contrário, ela se mostrava bastante inocente. Apesar de saber de todo o seu potencial como sambista, saber que possuía um corpo escultural, ter consciência do furor que causava junto ao público masculino, Socorro realmente era bastante tímida, não fazia tipo. O Deodoro encantado com aquele monumento utilizou todas as artimanhas para seduzir a garota. Mas pelo que se notava, pelos cuidados que ela ainda prestava ao velho, mais parecia que o tratava como um pai ou avô. Por causa da enorme diferença de idade a sambista não o via com outros olhos. Isso para a velha Raposa tornava a caça mais interessante ainda. Na despedida, pediu ao seu assistente de campanha que descobrisse onde a moça morava e todas as informações possíveis. Deodoro queria um relatório completo, se era casada, se tinha filho ou família, se trabalhava, etc. À noite no hotel, de posse de todas as informações, pediu que enviasse um lindo bouquet de rosas vermelhas. Junto um cartão convidando a moça para jantar, ressaltando no bilhete que a comida deveria ser bem leve para evitar uma congestão. Disse que no horário marcado um motorista se encarregaria de buscála. A comida leve na verdade se referia a ela, com aquela cintura de pilão escultural. A moça devia ter ficado encantada, nunca tinha recebido rosas, nem motorista à disposição, nem jantou em um restaurante de luxo. Eurico, depois da janta, adivinha só qual foi a sobremesa? O garçom ciente da resposta desde o início da conversa me fala: — Capitão, o filho da mãe do mulherengo do Raposão chegou junto na comissão de frente da sambista. Achei engraçado a forma como o garçom falou. Realmente algumas doses de bebida transformaram o sujeito por completo. 45


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1 de ABRIL de 1960. Chego ao final da primeira etapa do meu relato, o filho legítimo e os três casos extraconjugais mais importantes do curriculum sentimental do Deodoro. Através desses romances passageiros, a vida política, futebolística, religiosa e musical do Brasil, nunca mais seria a mesma. Fico surpreso comigo, pois consegui formular os fatos da forma mais real possível, apesar do excesso de álcool que já consumi. Eurico começava a se mostrar mais interessado com o assunto, isso me deixava alegre, pois dessa forma não censuraria alguns fatos relevantes que acabariam em segundo plano. Continuando Eurico, já vou te adiantar um fato intrigante nessa história, todos esses casos amorosos do Deodoro resultaram em um novo filho. Um em Juazeiro do Norte, outro em Brasília, o terceiro no Rio de Janeiro e o legítimo em São Paulo. Pelo que se comentavam no circo político, a velha Raposa tinha mais de quinze filhos espalhados por esse Brasil. Alguns mais exagerados diziam que ele tinha herdeiro em cada estado, só não tinha ainda feito filho nos Territórios Nacionais, mas era apenas uma questão de tempo e oportunidade. Se Deodoro trabalhasse apresentando propostas para o país, da mesma forma e com a mesma eficiência que fazia filho, com certeza teria sido o político mais importante desse país e estaria escalado como titular e líder na minha seleção. Mas o fato mais curioso dessa história é que todos nasceram no mesmo dia. As quatro mulheres pariram seus respectivos rebentos no dia 1 de Abril de 1960.

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Caro leitor/editor, Buscando me aproximar dos leitores e também dos editores, decidi publicar parte de minhas obras. Esse livro está com projeto gráfico finalizado. Incluindo capa, material publicitário. Obviamente que ainda é possível fazer ajustes necessários e também uma revisão ortográfica mais aprofundada. Caso deseje ter acesso à obra completa, gentileza entrar em contato. http://www.facebook.com/ivan.lacerda http://ivanlacerda.wordpress.com/ www.twitter.com/ivanlacerda Home page: www.ivanlacerda.com.br


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Obras do autor Publicações Sobretudo - 1997 - Poesias - Parte da renda revertida para AACD — Associação de Assistência à Criança Deficiente, entidade que há mais de meio século trata, educa e reabilita, trazendo ao convívio social crianças portadoras de deficiência física. Passando tudo a limpo - 2002 - Romance - Empresário que teve uma origem muito humilde, educado com rigor e a disciplina de uma família religiosa, mas que com o passar dos anos e a ascensão financeira deixou tudo em segundo plano. Após vários anos trabalhando no limite da sua capacidade física sofre um ataque cardíaco, passando 15 dias em estado de coma. Justamente nesse período e com a ajuda do seu anjo da guarda faz uma retrospectiva de sua vida, passando tudo a limpo, voltando aos fatos que de uma forma ou de outra foram marcantes em sua vida. Companheira Solidão - 2008 - Romance – Através de uma narração envolvente, o livro conta a trajetória de Natan Castro, um famoso economista que no auge de sua carreira profissional, se vê solitário e questionando se realmente é uma pessoa feliz. Ao avaliar a sua vida, uma questão lhe atormenta, percebe que nunca sorriu que não teve amigos nem um grande amor. Que a sua única companheira durante toda a vida foi a solidão. O livro nos força a refletir sobre o que um ser humano precisa de fato para ser feliz. Quantas pessoas estão nessa mesma situação, de ter tudo o que desejam na vida e ao mesmo tempo, sentirem-se totalmente isoladas.

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Poesias In Twittivas - 2009 - Poesia – O primeiro livro de poesias baseado na “Era Twitter”. Ou seja, utilizando o limite de até 140 caracteres em cada poesia. Como a ferramenta Twitter é gratuita o autor decidiu tornar o livro também gratuito disponibilizando para downloads no site do autor www.ivanlacerda.com.br Loucos Por Ti Corinthians - 2010 - Livro com crônicas narradas por São Jorge em homenagem ao primeiro centenário do Sport Club Corinthians Paulista. Com imagens de Ivan Lacerda e ILustrações de Vitor Lima e Ton Ferreira. Quintal de casa - 2010 - Livro com imagens, reflexões e poesias, em comemoração ao Ano Internacional da Biodiversidade. Inéditos: A Dois passos do paraíso, La Serenissima. Home page: www.ivanlacerda.com.br

Livro: Presente que ninguém esquece.


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