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EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ LENDO Ivan Lacerda


EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ LENDO Baú das Letras

1º Edição

Ivan Lacerda

São Paulo, 2011


Projeto Gráfico e Capa: Ivan Lacerda Fotos: Capa: Larissa Coutinho Ivan Lacerda Revisão: Camila Camargo Diagramação eletrônica e direção de arte: Ivan Lacerda Cavalcanti 1º Edição Julho/2011

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Cavalcanti, Ivan Lacerda Registro na Biblioteca Nacional com o ISBN nº 978-85-902370-2-0 Título: EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ LENDO CGC editora: 08736442801902 Assunto: 869-3B Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida – por qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. – nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora. Os infratores serão punidos pela Lei nº 9.610/98. NOTA: Esta é uma obra de ficção. Os vários personagens verídicos que permeiam a trama embora inseridos no contexto histórico são tratados de forma ficcional numa mescla de fantasia e realidade. Texto fixado conforme as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº. 54, de 1995). Informações ou solicitação de exemplares poderão ser feitos através do site:

www.ivanlacerda.com.br Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Dedico esse livro a todos os jovens, em especial, a Mimi; A minha fiel crítica que deve me odiar, mas só tenho a lhe agradecer, por me fazer mover e do contrário que dizem, escapar da areia movediça.


Caro leitor, Não é novidade que vivemos em meio a um turbilhão de revoluções. A tecnológica, a da comunicação, a social, a cultural, a econômica, a globalização, entre outras. Acho ótimo, pois temos que evoluir, não há como parar a ordem natural das coisas, o novo sempre vem, quer queiram ou não. E ainda bem que é assim. Já pensou se tivéssemos ainda que andar com fichas telefônicas no bolso; dirigir automóvel com carburador e platinado, sem ar-condicionado, freio ABS e GPS; ficar angustiado, com medo de ser assaltado nos Drive-ins escuros e apertados; andar com walkman e fitas K7 ouvindo as canções que gravávamos das rádios, e só pra nos deixar furiosos, o infeliz do locutor soltava a vinheta no meio da música. Se for pensar bem, eu mesmo, não conseguiria usar aquelas antiquadas máquinas de escrever. Nunca fiz o curso de datilografia. Provavelmente isso me desanimasse a contar as minhas histórias. Gosto de ver minhas filhas sempre contando as suas descobertas, e de quebra, eu é acabo aprendendo. São tantas novidades, todos os dias, que acabam sendo descartadas sem serem degustadas por completo. Parece que o bacana é descobrir o novo, sempre e cada vez mais rápido. Essa garotada não passou pela fatídica “era da inflação”, nem teve que levar coronhada da repressão. Meus irmãos mais velhos viveram essa fase dura do país. Graças a Deus, não tive que passar por isso, e ainda assim, lutei pela democracia, estive presente nos comícios pelas eleições diretas, e como recompensa, tive a felicidade de poder votar e escolher o presidente em 1989. Nossa geração buscava um novo modelo de país, que oferecesse mais oportunidades aos jovens, e claro, que pudéssemos pavimentar uma estrada mais segura e confortável para os precoces e ansiosos motoristas, que assumiriam o volante do futuro. Depois de mais de vinte anos, com as benesses das trans-


formações citadas, temo pela falta de uma grande mudança que deveria estar trilhando o mesmo caminho. A revolução da educação, da ética e da moral. Tenho notado que os jovens estão preocupados em exercitar os músculos, a agilidade, principalmente dos dedos, em especial, o polegar. Usam frequentemente o indicador contra os pais e avós, inclusive puxando o gatilho, justamente contra aqueles que lutaram para oferecer uma vida mais tranquila. Nada mais os satisfazem, estão fartos de estímulos, e correm o risco de ficarem anestesiados. Se contrariados, não conseguem argumentar, já fecham a mão e atacam. Costumam se esconder em meio à multidão e atiram pedras, sem ver que também são humanos e, portanto, possuem falhas. Perderam a identidade. Ou talvez nunca as tiveram. Mais uma vez reafirmo, sou um democrata, aceito críticas, aliás, prefiro a palavra dura e seca, mas com conteúdo e razão, pois me fazem aparar as minhas arestas e falhas, do que elogios demagógicos que me mantém atolado nessa areia movediça. Eu sei que você está lendo, é fruto da observação, tive o insight de escrevê-lo ao notar a necessidade do jovem em tentar ser notado. O meio ficou mais importante que a informação, e como aquela famosa frase: “fale bem ou fale mal, mas fale de mim”, sinto a garotada implorando, para quem puder ouvi-los: “Não me deixem no escuro”. Pouco importa se o que fizeram foi positivo ou negativo, o importante é aparecer, serem vistos. Como sou observador, curioso, adoro o novo, amo a nova geração, torço para que se apresente a verdadeira juventude, brilhante e lapidada de moral. E que esse livro, possa servir para olharmos com mais carinho a essa garotada que tanto precisa de apoio. Que venha o novo. Pode entrar, sem bater. Um grande abraço. Ivan Lacerda Julho/11


Eu sei que você está lendo

CAPÍTULO 1

O post Confesso, foi ódio à primeira vista. Não que o tenha visto frente a frente, mas era como se fosse. Igual a um retrato falado da polícia, vi no alto da tela, à direita, o imbecil segurando um livro, com pinta de galã, com um olhar “fake”, ou como se dizia antigamente, meio “blasé”, querendo parecer inteligente, ou talvez, letrado. Nunca tinha ouvido falar dele, talvez minha memória esteja me traindo, mas parece que o sujeito lançou recentemente um livro com um razoável sucesso, e de vez em quando, aparecia nos portais de notícia com essa mesma foto manjada que acabo de me deparar no seu blog. Se muito, devo tê-lo visto em alguma entrevista daqueles programas vespertino que meu pai gostava de assistir enquanto consultava o seu extrato do banco e resmungava, coçando a careca com a ponta da tampa da caneta. O mais estranho, é que sua figura é familiar, parece que se forçar um pouquinho mais, nos recônditos, numa esquina qualquer do meu inconsciente, é bem capaz que o traste já tenha vindo aqui em casa, quem sabe cortar a grama ou desentupir o encanamento do banheiro, ou assim como aquelas propagandas imbecis que repetem toda hora, a imagem dele ficou impregnada, como pichação nos meus neurônios. Beleza de fato não tinha, nem sequer fazia meu tipo, um cabelo escorrido, tentando disfarçar a escassez nas entradas laterais, usava óculos preto, com armação enorme e com grossas lentes pesando sobre aquele nariz, que na verdade, mais parecia um viaduto no seu rosto triangular, ligando a testa quase ao queixo. Sem contar aquelas olheiras de 10


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quem não é amado e passa noites em claro vendo pornografia no computador e digitando seus textos ininteligíveis. Será que ele nunca ouviu falar em photoshop? O caso era quase perdido, mas quem sabe um bom profissional de design poderia dar um jeito e disfarçar um pouco aquela falta de harmonia e publicar uma foto, digamos, menos ruim em seu blog. Será que ele não tem senso do ridículo? Taí mais um bom motivo para desejar que fosse com inúmeras escalas para o inferno, em classe executiva, com direito a várias turbulências. Foi um mau começo é verdade, mas ponha-se no meu lugar, abri minha caixa de entrada de emails e salta um link com aquela instigante linha azul, quase implorando que seja clicada. Como recaída de uma viciada ao ver a fileira do pó branco, sem refletir ou censurar o meu dedo indicador, eu cliquei. Maldita hora que não soube controlar meu impulso. Na verdade, esse foi só o primeiro de uma série de tantas outras ações catastróficas. Tenho a desculpa que ainda sou criança e não possuo a capacidade de ouvir e entender meus instintos. Pera lá Mimi, olha você novamente vestindo aquela justa roupa de inimputável. Desde os doze anos, enfrento uma batalha diária entre ceder a tentação dos benefícios infantis, como poder tomar um sorvete a qualquer hora e passar a tarde inteira pintando e repintando a unha indefinidamente, ou deixar tudo isso para trás e vestir uma roupa nova, sem barra pronta e o caimento perfeito dos adultos. Sempre me senti a frente do meu tempo, anos luz é verdade, meu pai nunca foi chegado à tecnologia, acho que ao nascer, invés de chorar, eu já mandei um SMS para a minha rede social comunicando a minha chegada e de quebra, adicionei os meus novos amigos do berçário. Assim como qualquer pessoa normal, eu vivia armada até os dentes dos meus inseparáveis amigos. O celular, Ipod, pendrive e a minha fiel companheira Nenê. Era assim que chamava carinhosamente a nécessaire violeta de couro 11


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que ganhei de presente de aniversário de minha avó. Tadinha faz muitos anos que não a vejo. Preciso arrumar um tempo para visitá-la. Mas voltando a Nenê, nela não podia faltar a escova de cabelo, lápis para os olhos e o esmalte para qualquer imprevisto. Sinto que em breve terei que me separar da querida Nenê, ela assim como eu, reluta em crescer, está ficando pequena, parece uma gestante às vésperas do trabalho de parto, não suporta mais os novos acessórios que insisto em socar, o zíper chega a travar, mas nada que uma forçadinha ou um jeitinho feminino não desse jeito. Outro sinal que a minha infância se foi, é que tenho que acostumar com os terríveis absorventes higiênicos, lenços umedecidos, balas para disfarçar o hálito, anticoncepcional e camisinha. Coitada da Nenê, quanto mais chega perto do parto, mais gorda vai ficando. Está com um sério caso de obesidade. Mimi, Mimi, deixe de tergiversar. Bonita palavra né? Ouvi meu pai uma vez usando-a para me repreender, como não sabia do que se tratava fui discretamente ao seu escritório escuro e impenetrável e abri o seu enorme dicionário vermelho e remendado de tanto uso. Como fui burra, devia ter consultado o Google no celular, mas lembrei que estava quase sem bateria, então tive que correr o risco de ser pega em flagrante. Ali, naquela espécie de bunker, o território era sagrado, só meu pai é que tinha a senha para acessá-lo. Intruso era tratado com a mais rigorosa lei. No caso a do mais forte. Sem direito a sursis, nem habeas corpus. Bem, nem precisa dizer que quem era o juiz e o executor em questão. Vai ver que desde que casou e se mudou para esse apartamento, aquele quarto que deveria ser do meu irmão, que pra minha sorte nunca nasceu, acabou se tornando o escritório, a biblioteca, o tribunal e o asilo do meu pai. O local exato para ele construir e lapidar a imagem de ermitão. Sei que é de se estranhar uma garota saber esses termos jurídicos, os códigos penais, eu também acho esquisito, mas tudo isso é culpa 12


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do meu pai, pois sendo um propagandista de medicamentos, no fundo, no fundo, é um advogado frustrado, fica horas e horas lendo aqueles livros e tratados jurídicos, sem nunca poder usálos de fato num tribunal. Como sou a única ré daqui do pedaço, ele vive usando essas palavras complicadas e me enquadrando nos artigos e incisos para cada traquinagem que cometo. Olha só, eu ia descrever o frio da barriga e da sensação de estar novamente fazendo algo errado, ao invadir o território sagrado e acabei praticamente falando só do meu pai. Não liga não! Descobri que desde pequena eu sou assim, quase uma bailarina, vivo dando voltas para chegar ao ponto central. Bem, voltando ao Traste, acho que nessa primeira parte, vou chamá-lo simplesmente assim. Traste. Justiça seja feita, tinha um belo nome, mais tarde, depois de estudar cada parágrafo da sua vida, soube que o nome artístico foi escolhido por um famoso agente literário de uma grande editora. Por coincidências da vida, os dois estudaram juntos na mesma escola. Um tradicional colégio espanhol num bairro nobre de São Paulo. Tudo bem, não custa dizer o nome da Instituição. Miguel de Cervantes. Mas por enquanto, e para o meu bem, melhor eu não expor a identidade do Traste. Pode acreditar, não fará muita diferença, e além do mais, me poupará de lembrar um nome que eu nunca deveria ter lido ou pronunciado. Não adianta insistir. Já disse, enquanto eu achar conveniente será tratado como merece. Apenas um traste. Tá bom me desculpe, às vezes eu sou um pouco grossa, mas logo passa. Para você não ficar magoado comigo, vou revelar o nome do Traste, queria tê-lo feito mais pra frente, mas também não ia mudar em nada o valor do dólar. O Maldito chama-se Tony Vieira. Bonito né? Não que eu viva por ai analisando os nomes das pessoas e classificando se são bonitos ou esquisitos, mas gosto de nome composto, do tipo Luis Paulo, Fernando Henrique, curtia demais quando os âncoras falavam o nome do 13


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presidente nos noticiários noturnos que meu pai assistia, não tinha muito apreço por nomes do tipo Luis Otávio, Carlos Augusto, acho meio afrescalhado, li uma vez numa revista semanal que não me lembro o nome, sobre a importância do nome da pessoa, só pela escolha já possível saber se o sujeito vai ter êxito na vida. Olha só, Carlos Alberto, Ana Beatriz, Julio Cezar, tudo vai virar alguém na vida, um médico, professor, engenheiro, arquiteto, executivo, agora Ambrósio, Renailton, Elisadora, Alceu, Delfina, Edicleilson, não vão dar lá em muita coisa. Imagina só então Setembrino, coitado! O outro filho nasce em novembro, vira Novembrino, Dezembrino e por ai afora, pelo amor de Deus, tem hora que dá vontade danada de dar cabo na vida de um pai que escolhe um nome desses para os seus filhos. Melhor nem tê-los então. Mas também não sei por que estou falando tudo isso, os pais perdem um tempo danado de suas vidas escolhendo nomes e nunca os chamam por eles. Luis Eduardo vai fatalmente virar Edu, Duda ou só Du. Já Ana Carolina vai ser Carol, pode crê! Não tem escapatória. Eu mesmo de tanto me chamarem de Mimi, quase sempre esqueço que me chamo Milena. Na verdade, se for pensar direito deveria se Mimimi, mas acho que de uma maneira carinhosa acabou ficando apenas Mimi. Pra ser mais completa, Milena Miguel Miranda, ah como detesto esse Miguel no meu nome. Culpa do meu pai. Aliás, tô pra ver o que não é culpa dele. Tinha que querer se meter a besta de incluir Miguel no meio do meu nome. Também, fazer o quê? Minha mãe picou a mula e me largou ainda quase uma pré-matura, vai ver que ela nem sabe que tenho esse Miguel no meio do meu nome. Acho que o meu lado meio revoltado ou sonso vem desse Miguel que me separa da Milena e do Miranda. Sei lá, às vezes para me safar de alguma arte, vou logo dizendo que foi influência do Miguel. É fato! Vivo por ai, sempre dando um “Migué”, nem sempre é por querer, na maioria das vezes eu admito que tenha um dedinho 14


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meu, mas noutras eu sou completamente inocente, mas vai comprovar que não, esse Miguel no meio do meu nome é um atestado de incriminação, um laudo, uma prova cabal de que sou sempre culpada. Aliás, quase sempre me vejo como culpada. Deve ser uma sina que carrego desde a barriga daquela que me pôs no mundo. Culpada pela separação deles. Culpada por meu pai não arrumar uma namorada ou se casar de novo. Culpada por não ter um irmão. Culpada pelo aumento da camada de ozônio e o aquecimento global. Culpada pelo preço do aumento dos remédios. Culpada pela enorme conta de luz mensal. Nunca tenho um álibi, um maldito alibizinho sequer. Veja bem, posso tirar um dez em geometria, um nove e meio em biologia e também em química. Ser condecorada com honras militares por ter tirado dez em história e exaltar a competência de Napoléon Bonaparte pelas suas conquistas Napoleônicas, mas se eu fechar a janela do meu quarto ou da sala e não puxar a cortina para cobrir os vidros, pronto! Sou penalizada quase que com prisão perpétua pelo meu pai. Deus do céu, eu nunca vi gente tão metódica, caramba, já não está bom eu ter fechado a janela? A pena não teria que ser abrandada, mas não, se não fechou as cortinas também está sentenciado. Lembrei também do lance do varal, é brincadeira, quer dizer, parece brincadeira, mas é verdade! Você tem que estender as roupas, primeiro, pelo tipo: Roupas íntimas, meias, depois, camisetas, camisas, calças do uniforme, calças sociais, calças jeans, blusas, depois vem os panos de prato, lençol, fronhas, edredons, cobertores e por fim, em hipótese alguma, deve-se misturar com o pano de chão. Eles devem ser postos no varal solitariamente. Ah! E um detalhe, após a separação pelo tipo, ai vem, o lance das cores. Não é permitida a mistura brusca de tonalidades. Caramba! Pra mim basta pendurar no varal e pronto. Parece mais coisa de quem não tem o que fazer ou gente pirada. Por Deus, me dá nos nervos ter que ouvir a mesma ladainha do meu pai cada vez 15


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que me vê estendendo as roupas no varal. Ele fica meio que disfarçando, dando um Migué que esta procurando algo na geladeira, só para analisar se estou fazendo corretamente. Se falho em uma peça, uma única e mísera peça, pronto! Está aberto o julgamento, lá vem ele com a sua toga invisível e o martelo de macetar alho para me conferir uma pena inafiançável. Por vezes quase fui parar na cadeira elétrica ou passar pela injeção letal, por sorte, no Brasil ainda não sacramentaram a pena de morte, senão eu já tinha sido executada pelo menos um milhão de vezes. Inocente de tudo, eu comecei a ler o post. Ah! Espere um pouco, esqueci de dizer que o tal email foi o Léo, meu namorado que me encaminhou, pois o infeliz do professor de história pediu que visitássemos o blog do Traste. Faltei na aula para tirar a minha nova identidade, a anterior ainda estava com a minha foto de quando entrei no maternal. Imagina só a minha vergonha toda vez que tinha que apresentá-la a alguém para obter algum desconto na compra dos ingressos ou para provar que eu era eu mesmo. Era um saco, quando ia ao cinema ou a um parque de diversão e tinha que aturar a cara do cara do guichê, segurando o riso, ou ainda, tentando encontrar alguma feição infantil que tenha permanecido em mim. Dá vontade de matar as pessoas ou riscar uma navalha na cara de quem vive rindo de nossas fotografias antigas. Bem, deixa pra lá, onde estava mesmo? Ah! Lembrei, falava do professor de história e do seu jeito estranho. Deixa-me esclarecer uma coisa. O nome dele era Osvaldo Prado, ou professor Prado, mas chamávamos mesmo, à boca pequena, de professor Pierre pelo uso excessivo, para não dizer, descomunal dos erres nas frases. Acho que ele pensa que ainda está vivendo na época da Queda da Bastilha. Costuma carregar na tinta do francês para reforçar a narrativa. “Meus Querrridos alunos, a RRRREvolução Françáise, iniciou justamente após a tomada da Bastilha, a Prrrriision onde errram destinados os Prrresos poli16


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tiques”. Tenho certeza absoluta que ele esteve na França e ajudou a por fim na prisão. Às vezes acredito que só mesmo um sujeito bem velhinho, assim como o professor Pierre, poderia dar aula de história. Talvez a escola contrate professores de história bem velhinhos para dar mais credibilidade à matéria. Permita-me só um aparte, prometo, tenho que falar do professor antes que eu esqueça. Imagina um velhinho. Não, um velhinho qualquer, mas um velhinho bem velhinho. Cabelos excessivamente brancos, a pele até que não era lá tão enrugada para a sua idade, mas o seu modo de vestir era tipicamente de um cidadão do século XVIII. Mesmo em dias quentes, ele vinha com o seu uniforme habitual, calça em tom marrom claro de veludo, sapato de camurça e blazer de lã, normalmente com linhas que se cruzavam, formando vários retângulos. Fazia questão de a cada dez minutos, retirar do bolso do blazer, um relógio que devia ter sido usado por Santos Dumont. Só para citar uma de suas inúmeras facetas, ele não largava por nada um guarda-chuva quadriculado, com cabo de couro e um relevo com perfeito encaixe dos dedos para dar mais firmeza, decorado com uma enorme pedra, lembrando um diamante ou a pirâmide envidraçada do Louvre. Dava nos nervos ver o professor pra cima e pra baixo e nos corredores, com aquele maldito guarda-chuva. Mesmo quando o dia estava de um azul irritante e sem a menor possibilidade de cair algumas gotas do céu, lá estava ele com o maldito, fazendo Toc Toc Toc batendo com a fina ponta de ferro no piso de madeira. Acho que ele evitava usar bengala para não mostrar a sua verdadeira idade e substituía pelo guarda-chuva, achando que assim pareceria com um jovem senhor. Às vezes durante o intervalo, zuávamos o professor Pierre dizendo que ele deveria usar o guarda-chuva para proteger os alunos, pois assim que exagerava nos erres, invariavelmente ele cuspia nos alunos. Coitado, vai ver que aquela ponte mal feita em sua boca, com os dentes presos com grossos arames 17


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prateado facilitasse a salivação. Pior quando ele se empolgava e falava em francês do seu ídolo Napoléon Bonaparte, dizendo euforicamente que ele venceu as Batalhas Napoleônicas, ai era um Deus nos acuda, não tinha um sortudo na sala que não saia respingado pela baba do velho. Nada a ver, mas por falar em baba de velho, me lembrei do delicioso doce baba de moça e me deu uma puta vontade de comer alguma coisa doce. Por Deus será que estou ficando menstruada de novo, que ódio! Mas voltando ao guarda chuva, talvez o professor Pierre imaginasse que fosse sua espada e ela lhe proporcionasse super poderes. Sem nenhuma cerimônia, bastava ver algum dos seus alunos perambulando pelos arredores da escola, no pátio ou no corredor fazendo hora pra entrar na sala, lá vinha ele com uma destreza de dar inveja ao zorro, cutucar a cabeça do aluno e fazê-lo entrar na sala. Eu nunca dei bobeira, mas devo confessar que curtia a beça ver a cara dos meninos entrando envergonhados e com a coluna arcada com medo de ser atingido no cocuruto. Engraçado, pela primeira vez na vida, eu escrevi essa palavra: Cocuruto. Acho engraçada a beça essa palavra. Mais ainda, quando o professor acerta com o guarda chuva exatamente o cocuruto dos meninos sem nenhuma piedade. Repara não, às vezes uso muito o termo à beça. Acho que de tanto ouvir meu pai falar que vendeu à beça, que comeu à beça, que dormiu à beça. Pra ser sincera, nunca fui pesquisar o que significa exatamente à beça. Mas acho o termo legal. Uma das poucas coisas que dá pra se aproveitar do meu pai é a palavra beça. Feita as devidas apresentações, vamos voltar aos fatos. Pierre escreveu na lousa, com aquela mão trêmula, o endereço do blog, e queria uma análise de um dos textos publicados pelo Traste. Disse ainda, isso o Léo fez questão de frisar no email, que o professor o achou de uma clareza impressionante, e fazia tempo que não se fartava de um local tão agradável na internet, 18


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e por fim, talvez querendo que todos os alunos tivessem a mesma impressão e achasse o tal do blog um “Oasis literário”, disse em alto e bom som que os textos eram arrebatadores. Por Deus, um dia eu ainda mato um que ache as coisas arrebatadoras. Elas são normais, tudo é normal. A fechadura é normal. O teclado, a janela, o Metrô, o avião passeando nas nuvens, a tesoura cortando o papel, o forno assando o pernil ou o peru na véspera de natal, o caminhão do lixo recolhendo aqueles sacos pretos nas portas das casas, tudo é normal, não existe esse lance de arrebatador. Pra mim, é coisa de quem nem curtiu muito, ou não tem uma opinião clara e para se achar o bacana, logo vai dizendo: É arrebatador. Mas sabe como é... Pra variar eu precisava de uns pontinhos para ajudar na média e fui logo clicando no link. Já não gostei do título: Geração Y egoísta. O que o Idiota, quer dizer, o Traste, tinha contra a minha geração? Devia estar com dor de cotovelo. Ou vai ver que tentou seduzir uma garota numa sala de bate papo e com a sua conversinha antiquada, foi descoberto e deve ter sido achincalhado, chamado de tio ou de vovô. O pedófilo envergonhado, como forma de vingança resolveu disparar a sua metralhadora giratória e desqualificar todas as pessoas da minha idade. Quem ele pensa que é? Não sei se acontece com você, mas comigo é assim, quando estou nervosa ou compro uma briga, não adianta ninguém querer apartar, minha vontade é querer esganar, com toda a minha força, apertar o pescoço até ver os olhos saltarem da órbita. Cada palavra lida no post, por mais que detestasse, fazia com que continuasse adiante, acho que é mais ou menos assim como se sentem os viciados em drogas, sabem que vão se estrepar lá na frente, que não tem uma saída satisfatória, ou é sofrimento, dor ou tragédia, que não podem nem pensar em começar a usar que danou-se. Conheço um garoto aqui da escola que tomou esse rumo, começou só andando com uma turma meio barra pesada para querer se mos19


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trar, queria passar a impressão que já não era mais um menino e poderia sair com as meninas, começou a faltar nas aulas, depois, quando aparecia, logo se via que ele não tinha dormido em casa, ou se tinha, estava escondendo dos pais que estava usando drogas. Vinha aos trapos e farrapos e com aquelas olheira enormes. Notei também que chegou a emagrecer, nesse ponto até que deve ser bom, estou mesmo precisada de perder uns quilinhos, e quem sabe, fumando um baseado até que vai, mas droga mesmo, pesada, tô fora! Certa vez o viciadinho veio disfarçadamente oferecer um troço para o meu namorado, esqueci de dizer, o Léo, aquele que me encaminhou o email é o meu namorado. Eu já disse? Vixe; acho que estou ficando meio maluca e ainda nem fumei um baseado ou cheirei um pó, bem, o que eu ia dizendo é que o estagiário de traficante disse que o Léo ia pirar se provasse, que era uma sensação do tipo ir ao céu em um segundo, ou coisa parecida, mas tava na cara que ele não era lá o melhor garoto propaganda para mostrar as virtudes do bagulho, nem tão pouco era um bom vendedor. Talvez ele tivesse que ter tomado umas aulas com meu pai, um experiente profissional propagandista da área médica, ele ia mostrar como se induz um médico a oferecer um determinado medicamento. No início, não se pode querer vender nada, tem ser do tipo amigão, ter que confiar no sujeito, tem que parecer que o bagulho é mesmo algo fascinante, que vai curar em um segundo a doença do infeliz, depois, dá de brinde algumas amostras grátis e em seguida, quando o fulano já está dependente da coisa, ai sim começa a negociação. Mas encurtando a história, com o insucesso do garoto no comércio das drogas e devendo horrores aos traficantes, ele ficou desaparecido uns tempos, certo dia o trouxa apareceu em frente ao portão da garagem de sua casa, ganhou como amostra grátis uma bala bem no meio da ideia. Está vendo, estava falando de uma coisa agora já estou em outra, não consigo me conter, Mimi, Mimi, vamos 20


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para o que interessa você tem todo o tempo do mundo, mas esse sujeito que está te fazendo companhia não, Pode crer que ele tem mais o que fazer do que ficar lendo isso tudo. Mas voltando ao texto do Traste, conforme ia lendo, cada palavra ia alimentando minha ira e me deixando cada vez mais ansiosa, eu queria saber o que o idiota queria dizer, com: Geração Y egoísta. Tenho que confessar, li tantas vezes aquele texto, que se bobear, depois de tantos anos, ainda sou capaz de declamá-lo como se estivesse num palco de teatro ou em comício em praça pública. Pensei em transcrevê-lo aqui, mas vou poupá-lo, não o Traste do escritor, mas você que está lendo agora. Detestaria ter que dar ainda mais publicidade ao seu pensamento torpe. Tentei digerir, tive até a grandeza de me colocar no lugar do Tony o Traste, mas não deu. Meus hormônios já tinham sido afetados, coitado, um mal amado. Não deve ter ninguém que o suporte. Deve ser um viciado e logo, logo, vai ter o mesmo fim que o garoto da escola, ou talvez seja um alcoólatra, deve viver isolado naquele escritório empoeirado, imundo, cheio de livros mofos do arco da velha, deve se sentir um intelectual, um doutor em filosofia ou psicologia, mas na verdade, não passa de um boçal, um reles escrevinhador, e o pior, ainda tenta com aquele texto tosco, carimbar feito tabelião a minha geração como egoísta. Em resumo, dizia que fomos educados pela televisão, que sempre fomos chamados de “baixinhos”, por isso acabamos nos tornando uma geração egoísta e medíocre. Vai ver que o Professor Pierre achou o texto arrebatador, pois assim como ele faz com o guarda chuva batendo no cocuruto dos alunos, o Toni Traste dava uns belos de uns piparotes na cara da nossa geração. Só pra constar e mostrar que também sou uma aluna aplicada, escrevi piparotes, pois me lembrei do livro de Machado de Assis a que fomos obrigados a ler quando eu ainda nem tinha dez anos. Fico fula da vida quando tenho que fazer alguma coisa obrigada. Por todos os Santos, 21


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um dia eu ainda pego aquele dicionário vermelho e pesado do meu pai e dou com toda a força do mundo na cabeça da minha professora de português. Mas para não perder o fio da meada, o livro em questão era: Memórias póstumas de Brás Cubas, onde ele dizia: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus...” Não achei o livro arrebatador, mas adorei o lance do piparote. Voltando ao Traste, eu não podia ficar estática. Você há de me dá razão. Não sei se no final das contas, foi por um bom motivo, mas uma coisa é certa: Já está feito e pronto! Não me arrependo! Também sei que inserindo esse ponto de exclamação, vai pesar ainda mais sobre mim, mas eu faria tudo novamente, com os mesmos requintes de crueldade, sem a menor culpa e piedade. Ao final da história, você verá que tudo que falo é da boca pra fora. Mas admito, é um imenso prazer ser cruel. Não resisti, antes de controlar os meus impulsos, dei o primeiro golpe. Na verdade um contragolpe, pois me senti atingida, aquele texto tinha sido escrito exclusivamente pra mim. Eu tenho certeza disso, só faltou usar o meu nome como exemplo. Respirei fundo, pensei em registrar um tratado sobre a minha geração, falar de todas as conquistas, os benefícios da tecnologia, a facilidade, o ganho de tempo, mas talvez por preguiça, ou por já sentir os primeiros incômodos da cólica mensal insuportável, ou ainda por estar quase na hora de começar o programa de reality show na TV, e eu não perco um só capítulo, escrevi de maneira curta e grossa: Alguém está com dor de cotovelo. Desliguei o computador mantendo pressionado o botão vermelho frontal. Sei que um dia vai dar pau, mas não estou nem aí, assim é mais rápido do que ficar esperando ele desligar sozinho. Pra ser franca, inconscientemente queria mesmo que ele pifasse, assim meu pai ia se mexer e comprar um novo pra mim, pois esse daqui já 22


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deu o que tinha de dar. Em seguida, corri até a cozinha para tomar o santo remédio, sempre achei que deveria ser canonizado o farmacêutico que inventou essa fórmula. Graças a ele consegui me manter menos periculosa, e até então, não agir contra a vida de ninguém. Acho que quando acabar o ciclo e esse maldito fluxo que tanto me incomoda, montarei um dossiê com todos os milagres realizados e enviarei ao Papa. Já até me imagino rezando e agradecendo pelos alívios mensais. “Ó meu Santo Anestésico Menstrual, rogai por nós pecadoras, agora e na hora da nossa cólica, amém.” Depois de tomar o remédio, lembrei de quando era criança e corri pelo corredor que liga a cozinha a sala de TV, escorreguei com a meia no chão de madeira pelo menos uns três metros, aproveitando o embalo, me atirei no sofá feito almofada, me encolhi e curti a dor e o programa calada.

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CAPÍTULO 2

Sem resposta Dormi o sono das princesas. Não lembro o que sonhei, mas uma coisa é certa, não foi com o Traste. Aquele dia, apesar das cólicas, e de sentir o fluxo aumentar consideravelmente, fui à escola. Não me lembro se cheguei a comentar com alguma de minhas amigas sobre o texto. Nem sei se demonstrava alguma inquietação, mas não via a hora de chegar ao meu quarto, tomar um banho, trocar o absorvente, ligar o computador e ver se tinha alguma resposta ao meu comentário. O desgraçado do Traste não publicou o meu comentário no blog. No mínimo ainda estava bêbado, ou bateu a cabeça na quina da mesa e desmaiou. É assim mesmo, esses fracassados não tem o que fazer, deve passar o dia remoendo os seus podres e só voltam a ter um sinal de vida na madrugada. Assim, pode acessar as salas de pornografia e conversar com travestis, gays e donas de casas frustradas que ficam sozinhas e nuas em seus quartos enquanto o marido vai viajar a trabalho. O escritor e sua laia que se fartem da mesma lavagem. Nem desliguei o computador, fui à cozinha e tomei outra dose do santo remédio para cólicas. Você não imagina a minha angústia em ver aquela pocilga. Mentira, nem liguei! Sob a mesa, o café com pão, a margarina e a faca ainda suja grudada a toalha. A pia transbordando de louça para lavar, as sobras da janta de ontem e o bilhete na porta da geladeira do meu pai, dizendo que essa semana ele faria a rota de vendas do interior. Ou seja, como de costume, ficaria uma semana fora de casa. Que droga, tinha 24


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que ser justamente nessa semana, quando estou literalmente de molho? Que ódio, ele não podia ter avisado com antecedência? Todo mês ele some, pra mim deve ter um caso com alguma vagabunda numa dessas cidades, e com medo que eu saiba e também suma de casa, não tem coragem de me contar. Vai ver que foi por isso que minha mãe se separou dele e sumiu com o novo namorado. Prometo, vou só abrir um parênteses, nunca vi mais gordo nem magro, nem sarado, esse sujeito, espero que minha mãe, nossa, detesto essa palavra, mas fazer o que? Espero que pelo menos para ela, tenha valido a pena essa troca, se bem que, qualquer coisa deve ser melhor que meu pai. Vou contar uma coisa, quando estou boazinha e me coloco no lugar daquela que me colocou no mundo, às vezes eu a entendo, sei que não deve ter sido fácil conviver com o marido, também, foi logo engravidar, justamente no auge de sua beleza e forma física, acabou sobrando pra mim, ter que aturá-lo como filha. Pelo menos uma coisa eu tenho que agradecer a Deus, meu pai nunca se engraçou pro meu lado, ao menos isso ele me respeita. Sei de histórias de uns pais cafajestes que existem por aí, que pensam que eles que tem o direito a usufruto sexual de suas filhas. Na escola e na televisão eu já ouvi um monte dessas histórias. Tem cada pai ou padrasto safado à beça. Nesse ponto meu pai é compreensivo e tenta me alertar para que eu não me estrepe. Vai ver porque quando jovem, ele teve que tomar desse veneno amargo. Ainda rapaz, sem casa e emprego assumiu uma criança. Meu pai nesse ponto honrou as cuecas. Mas uma coisa é certa, quanto a minha, bem, por mais que eu resista, não vai ter jeito, vou ter que escrever, quanto a minha mãe, pelo que sei a desgraçada nem sequer se deu ao trabalho e oferecer o peito pra mim. Devia ter um ódio daqueles, ou quem sabe pensou que eu fosse morder e arrancar o seu bico, ou que talvez eu fosse uma cobra e ao tocar no seu peito lhe inoculasse um veneno mortal. Deus me perdoe, tem momentos que 25


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dá uma vontade danada de cometer uma atrocidade com todas as mães irresponsáveis e desnaturadas que estão espalhadas nas camas por ai, e que só querem saber do bem bom e que se danem se embarrigar, que jogam suas filhas nas caçambas de rua feito lixo. Nunca irei perdoá-la por ter me deixado ainda criança, no berço improvisado que meu pai construiu, com sobra de madeira de feira, com a fralda suja de cocô e xixi, com aquele pagão mixuruca e o macacão rosa de tricô que a minha avó fez. Olha só, falei da minha vovozinha de novo. Será que ela está pensando em mim? Será que ela ainda vai me reconhecer? Será que ainda vai me chamar de netinha depois de tudo que fiz?

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CAPÍTULO 3

Joana Darc Esqueci de contar uma coisa importante. Bem, ao menos pra mim é importante e basta. Eu tenho um bichinho de estimação, um gato. Na verdade uma gata. Eu a encontrei na escola. Mais precisamente no corredor do banheiro, ainda filhote, deve ter se perdido da mãe. Estava faminta e tremia muito, eu a enrolei com o avental e tentei acondicioná-la dentro da Nenê, mas deu pra sacar que não ia dar certo. Achei mais seguro colocá-la dentro da minha mochila, tomando o devido cuidado para deixar uma fresta e não matá-la asfixiada. Deus do céu deve ser uma morte muito cruel. Ninguém merece! Aquele dia foi um Deus nos acuda. Primeiro, tive que explicar para a professora Juliana, de química, o porquê de não estar usando o avental. Claro, joguei a culpa no meu pai, disse que sem querer, ele, apressado para o trabalho, derrubou o copo de café com leite quente em mim. Para dramatizar a cena, ainda tive que fazer cara de quem escapou por pouco de uma tremenda queimadura. Eu sou bem boa para fazer esse tipo de teatro. Não que eu tenha feito um curso específico de encenação, mas acho que está no sangue materno ou no tal do Miguel no meio do meu nome. Pelo que soube, minha mãe chegou a participar de uma trupe teatral quando era mais jovem, acho que conheceu meu pai nessa época. Parece até que os pais dela, no caso os meus avôs que nunca cheguei a conhecer, eles faziam parte de um grupo circense, daqueles que ficam perambulando pelas cidades do interior, com aqueles montes de trailers, onde 27


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eles acabam transformando em sua própria moradia. Vai ver que aquela que me pôs no mundo é assim meio cigana, meio nômade, talvez nem tenha tanta culpa por me largar com as fraldas cheia de bosta, nunca deve ter criado raiz em lugar nenhum, não sabe direito o que é vínculo familiar, desde criança teve que dividir a lona do circo e os cômodos do trailer com palhaços, equilibristas, mímicos e mágicos. Vai ver que me largou, justamente por ter que abandonar a trupe do teatro após conhecer o meu pai, e o pior, após saber que estava grávida. Deve ter sido um caos esse período da vida daquela que me pôs no mundo. Ai, ai, ai, Mimi, parece que você fica sempre arrumando um jeito de inocentar as pessoas ao seu redor e achar um motivo em que elas possam se apoiar e criar a sua base de defesa. Porque eu não sou assim tão complacente comigo mesma? Sempre cobro mais de mim do que dos outros. Sou incrivelmente severa com as minhas falhas e posso ser de uma condescendência sem tamanho para com o próximo. Você acredita mesmo nisso que eu estou escrevendo? Pois bem, vai então botando fé em tudo que escrevo que você vai acabar ficando aqui pra sempre, como eu. Aliás, uma perguntinha? O que você está fazendo aqui ao meu lado mesmo? Não vai responder? Tudo bem então, depois não adianta se arrepender! Caraca! Do que é que eu estava falando mesmo? Desculpe-me, deve ser os remédios que ando tomando, dão um sono daqueles. Acho que essa luz fraca acaba me dando a impressão que é sempre de noite, e a noite foi feita pra dormir não é verdade? Deus do céu, eu daria tudo para lembrar o que eu estava contando. Será que esse povo está aumentando as doses dos medicamentos. Ai se eu pudesse consultar o meu pai, ele não é médico nem nada, mas manja muito desses remédios, ele sempre visita os consultórios dos psiquiatras e orienta essa turma toda, informando o tipo de dosagem, os princípios ativos e coisa e tal. Ele pode não ter sido um bom pai, coitado! Mas uma coisa 28


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eu tenho que dar o braço a torcer, ele era fera nesse negócio de propagandista de laboratório. Desisto! Vou apertar a ponta da minha orelha, estou sem brinco mesmo, sempre funcionou e não há de falhar agora. Desde criança, bastava eu esquecer alguma coisa, logo apertava a ponta da orelha e como num passe de mágica, tudo voltava claramente. Foi minha avó que me ensinou esse truque, acho que aciona um sistema de emergência e o cérebro, evitando que entre em colapso e impedindo que eu passasse a apertar o nariz, a bochecha, as pálpebras, os peitos e tudo que visse pela frente, a lembrança surgia nítida quase que instantaneamente. Nossa pai! Eu quase dei um nó nos dedos para escrever instantaneamente. Acho que a tinta da caneta está acabando, mas não importa, depois eu dou um jeito de arrumar uma novinha em folha. Lembrei! Não disse que funciona! Estava falando da minha gatinha e como a escondi. A todo custo, tive que dar um jeito de disfarçar os miados da Joana Darc. Esqueci de apresentá-la, esse é o nome dela, não é lindo? Tudo bem, nesse caso eu explico o motivo. Justamente o professor Pierre, aquele da baba e do guarda-chuva, estava falando de tudo o que aconteceu na França na Guerra dos Cem Anos. Enfatizava que Joana Darc era uma mulher forte, descendente de camponeses, gente modesta e analfabeta, uma mártir francesa, e ainda por cima, foi canonizada em 1920, quase cinco séculos depois de ter sido queimada viva. Crê em Deus pai! Agora fiquei na dúvida se é pior morrer asfixiado ou queimado. Bom deixa pra lá, senão lá vou eu tergiversar novamente. Para sacramentar e levando em conta que o Pierre repetiu uma dúzia de vezes, insistindo em frisar: “Uma das mulheres mais guerreira que já existiu”, achei por bem, e nada mais justo que homenagear a minha gatinha com esse nome. Ela também desde cedo teve que ser forte. Vai ver que me identifiquei e me solidarizei com o seu sofrimento. Freud diria que eu me vi na gata. Ou será que os órfãos 29


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se atraem. Bem, continuando a aventura daquele dia, o obstáculo agora era como convencer o meu pai a adotar uma gata? Devo confessar que ela não era a gata tão gata, eu pelo menos me sentiria ofendida se fosse chamada de gata, tendo a pobrezinha da Joana Darc filhote como referência, mas coitadinha, ela assim como eu merecia uma chance de viver. Merecia ter um lar, alguém que a amasse. Depois de muita lábia, fiz um trato com o Seu Miguel. Era assim que eu me referia a ele quando queria alguma coisa. Eu não iria reclamar da comida, nem dos programas jornalísticos que ele desejasse assistir, justamente na hora dos meus programas favoritos. Confesso que foi uma tortura, mas aprendi desde cedo que tinha que saber negociar. Às vezes, usava o subterfúgio de ser sua única filha, noutra, fazia uma birra, dizendo que todas as minhas amigas já tinham o que eu queria, e às vezes, não via outra solução, eu apelava para o fato de não ter uma mãe. Era tiro e queda, sei que podia ser um golpe baixo, mas como diz o ditado: O mundo é dos espertos. Assim eu conseguia tudo o que queria. Não me recordo se cheguei a usar um desses argumentos, o fato é que meu pai cedeu mais uma vez e permitiu que Joana Darc fizesse parte de nossa família. Quer dizer, da minha família. Só uma ressalva, como ele tinha que dar a última palavra, claro, para se sentir dono do pedaço, falou de forma enfática e com a voz empostada. — Tudo bem, pode ficar, mas você vai ter que cuidar dela. Meu pai é um fofo!.

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Caro leitor/editor, Buscando me aproximar dos leitores e também dos editores, decidi publicar parte de minhas obras. Esse livro está com projeto gráfico finalizado. Incluindo capa, material publicitário. Obviamente que ainda é possível fazer ajustes necessários e também uma revisão ortográfica mais aprofundada. Caso deseje ter acesso à obra completa, gentileza entrar em contato. http://www.facebook.com/ivan.lacerda http://ivanlacerda.wordpress.com/ www.twitter.com/ivanlacerda Home page: www.ivanlacerda.com.br


Obras do autor Publicações Sobretudo - 1997 - Poesias - Parte da renda revertida para AACD — Associação de Assistência à Criança Deficiente, entidade que há mais de meio século trata, educa e reabilita, trazendo ao convívio social crianças portadoras de deficiência física. Passando tudo a limpo - 2002 - Romance - Empresário que teve uma origem muito humilde, educado com rigor e a disciplina de uma família religiosa, mas que com o passar dos anos e a ascensão financeira deixou tudo em segundo plano. Após vários anos trabalhando no limite da sua capacidade física sofre um ataque cardíaco, passando 15 dias em estado de coma. Justamente nesse período e com a ajuda do seu anjo da guarda faz uma retrospectiva de sua vida, passando tudo a limpo, voltando aos fatos que de uma forma ou de outra foram marcantes em sua vida. Os filhos bastardos do presidente - 2000 - Romance - Capitão, Jornalista recém aposentado, fundador de um grande jornal, pesquisou por mais de quarenta anos, toda a trajetória política de um Presidente da República bonachão, corrupto e sem caráter. Durante a campanha para o Palácio do Planalto, o político acaba tendo casos com inúmeras mulheres em todo o Brasil. No dia 1 de abril de 1960 nascem quatro crianças, um filho legítimo e três provenientes desses casos amorosos. Os jovens, sem saber que são irmãos, acabam se esbarrando e influenciando um a vida do outro com suas atitudes, durante todo o transcorrer da história. Companheira Solidão - 2008 - Romance – Através de uma narração envolvente, o livro conta a trajetória de Natan Castro, um famoso economista que no auge de sua carreira profissional,


se vê solitário e questionando se realmente é uma pessoa feliz. Ao avaliar a sua vida, uma questão lhe atormenta, percebe que nunca sorriu que não teve amigos nem um grande amor. Que a sua única companheira durante toda a vida foi a solidão. O livro nos força a refletir sobre o que um ser humano precisa de fato para ser feliz. Quantas pessoas estão nessa mesma situação, de ter tudo o que desejam na vida e ao mesmo tempo, sentirem-se totalmente isoladas. Poesias In Twittivas - 2009 - Poesia – O primeiro livro de poesias baseado na “Era Twitter”. Ou seja, utilizando o limite de até 140 caracteres em cada poesia. Como a ferramenta Twitter é gratuita o autor decidiu tornar o livro também gratuito disponibilizando para downloads no site do autor www.ivanlacerda.com.br Loucos Por Ti Corinthians - 2010 - Livro com crônicas narradas por São Jorge em homenagem ao primeiro centenário do Sport Club Corinthians Paulista. Com imagens de Ivan Lacerda e ILustrações de Vitor Lima e Ton Ferreira. Quintal de casa - 2010 - Livro com imagens, reflexões e poesias, em comemoração ao Ano Internacional da Biodiversidade. Inéditos: A Dois passos do paraíso, La Serenissima. Home page: www.ivanlacerda.com.br

Livro: Presente que ninguém esquece.

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Romance suspense, que aborda a nova geração, onde tudo é permitido, a influência da internet, a impunidade e o resultado da super proteção d...

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