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REVISTA

Nesta edição, Continuum fala de Conectividade

O jornalista e apresentador Marcelo Tas responde às perguntas dos leitores.

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E mais: Seis graus de separação, em ficção inédita de Eduardo Baszczyn. Twitter, Orkut, blogs: vitrines do ego ou meios relevantes de informação?

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Continuum ItaĂş Cultural


Tudo o que nos une Este texto foi escrito ao mesmo tempo que seu autor dava dicas no Twitter, ouvia músicas que uma nova cantora brasileira disponibilizou no MySpace antes de lançar o próximo CD, via no YouTube a impagável série de vídeos de Bruno Aleixo, e, de quebra, conferia os últimos posts nos seus blogs favoritos. Tudo ao mesmo tempo agora. A frase é chavão, mas não há melhor definição para a atualidade, em que a internet é meio e mensagem. Esta edição da Continuum enfoca a comunicação entre pessoas através da rede, a conectividade. Por isso o título de capa é O que você está fazendo agora?, uma referência às frases de microblogs ou redes sociais que convidam seus seguidores a compartilharem experiências. A internet é algo tão mutante que corremos o risco de, ao refletir sobre ela, as ideias se tornarem velhas antes mesmo de este número ser publicado. E isso não seria demérito nenhum, apenas constatação dos tempos que vivemos. Para caprichar no retrato, a revista ouviu, em entrevista especial, um dos jornalistas mais conectados, Marcelo Tas, que conta como sua presença virtual modificou a atuação na mídia. A importância de existir na internet é o tema de artigo de Luli Radfahrer, especialista em comunicação digital, e da reportagem que analisa os blogs e os seus seguidores. As redes sociais são um espelho para egocêntricos ou um espaço para mobilização coletiva? Dividindo opiniões, a Arena traz as respostas do jornalista e escritor Fábio Fernandes e da professora universitária Raquel Recuero.

ilustração: Helder Santos

Mas a palavra conexão tem significados para além da internet. As ligações entre pessoas também estão em reportagens sobre as brincadeiras infantis, o fim de relacionamentos e a troca de cartas. A Mirada, assinada pelo jornalista e escritor Ronaldo Bressane, investiga os ícones que unem os latino-americanos. A fotorreportagem traz imagens captadas pelo fotógrafo Franco Hoff que, postas em sequência, contam pequenas histórias. E a conhecida teoria dos seis graus de separação é o mote para a Ficção, criada pelo escritor Eduardo Baszczyn.

Continuum Itaú Cultural Projeto gráfico Jader Rosa Redação André Seiti, Érica Teruel Guerra, Marco Aurélio Fiochi, Mariana Lacerda, Thiago Rosenberg, Revisão Polyana Lima, Samantha Arana Colaboraram nesta edição Augusto Paim, Carol Rivello, Cia de Foto, Edouard Fraipont, Eduardo Baszczyn, Fábio Fernandes, Fábio Prikladnicki, Franco Hoff, Helder Santos, Henrique Abreu, Luciana Veras, Luli Radfahrer, Marcelo Rampazzo, Mariana Sgarioni, Micheliny Verunschk, Pedro Hamdan, Raquel Krügel, Raquel Recuero, Ronaldo Bressane, Virgílio Neto On-Line Carlos Costa, Fabricio Lopez, Flávio Araújo, Ilma Guideroli, José Marcelo Zacchi, Laerte Ramos, Leonardo Foletto Agradecimentos Alexandre Inagaki, Escola Santo Inácio (São Paulo), Felix Ximenes, Patrícia Cornils, Ronaldo Lemos, Valéria Toloi capa As redes sociais oferecem janelas para a vida privada | ilustração: Henrique Abreu contracapa anúncio: Kultur Studio Receba a Continuum gratuitamente. Envie e-mail informando seu endereço para continuum@itaucultural.org.br Errata: O termo “histórias de Trancoso”, empregado na matéria “Roçando a língua de Luís de Camões”, publicada na edição de maiojunho, não se refere à cidade baiana, e sim à expressão usada em Portugal e no Brasil para designar relatos maravilhosos, inverossímeis. ISSN 1981-8084 Matrícula 55.082 (dezembro de 2007) Tiragem 10 mil − distribuição gratuita, periodicidade bimestral. Sugestões e críticas devem ser encaminhadas ao Núcleo de Comunicação e Relacionamento continuum@itaucultural.org.br. Jornalista responsável Ana de Fátima Sousa MTb 13.554 Esta publicação segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990, em vigor desde janeiro de 2009. Participe com suas ideias

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Entrevista 16. O homem seguido por 118.177 pessoas Os leitores da Continuum perguntaram e Marcelo Tas respondeu. Confira o que o apresentador e jornalista pensa sobre a conexão entre as pessoas e a internet.

Reportagem 6. Sigam-me os bons! Quer sair e não sabe que roupa usar? Quer reconquistar a ex-namorada? Então, acesse um blog e veja como eles deram uma nova cara à web.

Excesso de informação, celulares ligados 24 horas... Tanta conexão é realmente necessária? E desconectar-se é preciso?

12. Dentro da caixa de sapatos

56. O novo cavalo de Troia

Elas serviram (e ainda servem) para registrar a memória do cotidiano, as idas e vindas dos relacionamentos amorosos e os fatos históricos. Em tempos de e-mail, conheça a importância das cartas.

Projetos educacionais potencializados pela internet que até tornam possível uma aula de educação física sem a presença do professor.

44. Quando as conexões dão tilt

As brincadeiras da infância na origem das primeiras formas de relacionamento.

Cortando relações: por que os seres humanos carregam consigo a tendência inevitável de entrar em conflito e romper seus vínculos?

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48. A hora de se desconectar

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60. Ciranda, cirandinha


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Artigo

Fotorreportagem

10. Todo artista tem de ir aonde o povo está MySpace, Twitter, YouTube... Não basta fazer arte, é preciso também divulgá-la na internet.

34. As imagens e suas ligações Situações criadas pela fotografia: Franco Hoff registra cenas díspares que se vinculam em ensaio visual.

On-Line 24. Conexões da rede e pela rede As atualizações exclusivas, com matérias e trabalhos artísticos dos leitores, em itaucultural.org.br/continuum.

Arena 30. Espelho, espelho meu O escritor Fábio Fernandes e a professora Raquel Recuero discutem se as redes sociais são meras vitrines do ego ou se, de fato, trazem algo relevante.

Balaio 32. Fique conectado! As dicas de Continuum para não se desligar do mundo da arte.

Ficção 40. Fios de teia Seis pessoas. Seis graus de separação. O escritor Eduardo Baszczyn narra, em conto inédito, a busca pelo par ideal numa noite tipicamente urbana.

Mirada 52. Latinidade, latinidades Próximos na geografia, distantes nos costumes? Os elementos que unem – ou separam – o Brasil do restante da América Latina.

Espaço do Leitor 26. Convocação Conheça o tema da próxima edição e envie cartas ou e-mails com sugestões, críticas e, é claro, elogios. 28. Área Livre Cartuns mostram o lado divertido da conectividade.

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2009

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reportagem

Sigam-me os bons! Blogs e seus seguidores mudam a cara da web. Por Micheliny Verunschk | Ilustração Jader Rosa

Imagine que você queira presentear aquele amigo descolado mas não saiba por onde começar. Ou que você queira estar a par de quem é quem na poesia contemporânea brasileira. Ou queira apenas uma resposta para a clássica pergunta: “Com que roupa ir à festa à qual você me convidou?”. Qualquer que seja sua necessidade, esteja certo, a resposta está na web. No entanto, para não se perder em algum dos muitos desvios desse percurso labiríntico, blogs e redes sociais viram referência em quase todos os quesitos da vida contemporânea ao indicar produtos, influenciar tendências e apostar na voracidade com que o público procura novidades e, claro, opiniões.

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foto: André Lelis

foto: Eli Rico

André

foto: Rodolpho Pajuaba

Seguidores

Fernando

Luiza

Uma indicação dada por um blog ou por usuários de uma rede tem peso diferente da que é dada por um veículo tradicional de comunicação, como uma revista ou um jornal, por exemplo. Tudo passa por uma questão de proximidade. Saber que uma pessoa comum deu uma opinião positiva ou negativa sobre algo traz um valor de verdade, de comprovação muito mais eficiente, pois afinal é alguém “gente como a gente” que está dizendo, e se diz algo é porque (teoricamente) experimentou, sabe do que está falando. E acreditese ou não, há uma legião que frequenta a internet e se interessa pelo que o outro lê, escuta, consome, faz. No miolo disso tudo, a maior motivação é que blogs e redes sociais funcionam como marca-páginas para a grande biblioteca de Babel que a internet se tornou. Filtrar é a palavra de ordem, já que o congestionamento de informações pode deixar o navegante à deriva, e os meios jornalísticos tradicionais não respondem mais com tanta eficiência às demandas contemporâneas. É preciso um poder organizador, é preciso criar relevância, é preciso qualificar. E é isso o que mobiliza blogueiros, seguidores, usuários de redes sociais, todos os atores dessa complexa e barulhenta teia de informações.

Micheliny disse... 18:52

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Os meus favoritos Favoritos (favoritos.wordpress.com) é o nome do blog que a arquiteta de informação Luiza Voll mantém. Com mais de 50 categorias de dicas, o blog dá seu aval para coisas tão distintas quanto “os videogames que fazem bem a você” e o Ripple, um site de responsabilidade social, no qual com apenas um clique o usuário patrocina uma mudança do “bem”, como o acesso à água limpa para uma família durante seis dias, entre outras coisas. Luiza, que utiliza mais de 500 sites como fonte, fala da motivação que a fez criar o blog: “Sempre adorei compartilhar minhas descobertas na rede. No início, mandava um e-mail para os amigos mais íntimos que encaminhavam para outros amigos e assim o conteúdo se espalhava. Como a cada dia mais pessoas me pediam que lhes enviasse esse e-mail, decidi colocar tudo em um blog, que é acessível a todos. O nome veio naturalmente, não poderia ser outro”. Mas nem todas as indicações são, digamos, objetivas. Para quem pensa que os blogs não têm coração, a página de Luiza protagonizou uma história para geek romântico (espécie contemporânea de nerd) nenhum botar defeito. Um casal tinha por hábito ler o Favoritos todo dia pela manhã. Um dia, brigaram e se separaram e o rapaz mandou um e-mail pedindo ajuda para reconquistar a namorada no espaço do blog. A blogueira aceitou o desafio e publicou o post “Denise, volta pro Michel!”. Segundo Luiza, o post rendeu pano pras mangas na história do casal e mais de 80 comentários de leitores dando “pitaco” no romance e repetindo o apelo.

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Consumo e o outro lado da moeda Para o publicitário André Montejorge, criador do blog Bem Legaus (www.bemlegaus.com), as pessoas são ávidas por itens interessantes e consumistas por natureza. Para ele, que gasta cerca de quatro horas diárias na atualização da página, ela funciona como um filtro para o consumo. O perfil das pessoas que frequentam o Bem Legaus é plural, afirma. “O público é extremamente variado. De superjovens a idosos. As classes sociais também variam muito e consigo trafegar com sucesso em qualquer meio, principalmente porque o Bem Legaus é objetivo e direto, com um formato saia-e-blusa: título, texto e foto.” Segundo ele, o blog é acessado na grande maioria por brasileiros, “mas também recebe muitas visitas de Portugal e de outros países da Europa. O bacana mesmo é saber que ‘o mundo’ já visitou meu blog”. 8

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Isso também chama atenção para o outro lado da moeda. Se existem pessoas ávidas por informação e opinião – leitores fiéis que não apenas seguem determinados blogs, mas aumentam o status de quem os criou ao engrossar a fileira de seguidores –, é porque há os interessados em se tornar formadores de opinião. Virar referência agrega valor e pode render outros frutos. “Com o Bem Legaus, fui convidado a escrever para outros blogs, dou entrevistas, passei a fazer parte de um projeto do Yahoo! Brasil, ganhei o Best Blogs Brazil 2008, entre outras coisas”, explica. “Também recebo propostas de parcerias, de posts patrocinados, de gente querendo anunciar etc. Ou seja, faço uma coisa que gosto, sem compromisso, sou admirado e reconhecido por isso e ainda me inspiro e aprendo coisas que auxiliam a minha profissão”, conclui Montejorge.

1 comentário O fim dos seis graus de separação Para Fernando Souza, um dos criadores do Twitter Brasil (twitter.com), a rede social do momento, o que motiva a febre por ter seguidores é a busca pelo sucesso e pela audiência. Entretanto, Souza lembra a equação básica, na qual quantidade e qualidade nem sempre dão o resultado esperado: “Quem o está seguindo? Talvez uma pessoa com menos seguidores possa ter uma relevância muito maior se o conteúdo que publica é mais bem-selecionado e seus seguidores sejam pessoas com um perfil semelhante. Sendo assim, essa busca pela autorrealização através de números não é uma real obtenção do status desejado”, diz. Para os interessados nessa hiperconectividade, há ferramentas para todos os gostos, que trazem consigo a promessa de manter o indivíduo ligado ao mundo e, consequentemente, a tudo o que acontece, extinguindo para sempre os míticos seis graus de separação. Feeds (www.feeds.com.br), Technorati (www.technorati. com) e o próprio Twitter, entre outros, são opções para quem quer saber de tudo e de todos, controlando números, estatísticas e até o cotidiano dos amigos. “É tanta opção, tendência, modismo, que dá vontade de fugir de tudo. E o grande mal é que se você não está em todas as linhas de frente, ou em quase todas, parece que está ficando para trás, está ficando defasado”, diz Montejorge. O risco de tornar esses recursos em discursos vazios é real. Mas se bem-utilizados podem se transformar em mapas valiosos, seja para quem se interessa por temas de maior densidade, seja para quem quer apenas se divertir. Blogs e redes sociais “atuando” como bússolas são o presente da navegação no ciberespaço e também apontam para o futuro, pois nesses caminhos ainda há muito o que se descobrir, há muito por fazer. Enquanto isso, é melhor consultar um blog para ver qual a melhor opção de roupa para uma balada informal numa noite de inverno nos trópicos.

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artigo

Todo artista tem de ir aonde o povo está Existir na rede determina o sucesso de muitos produtores atualmente. Por Luli Radfahrer | Foto Cia de Foto A frase que dá título a este artigo é velha, e a música, de tão tocada, acabou por se tornar um estereótipo de violões, rodas de amigos e Visconde de Mauá nos anos 1970. Em tempos digitais, porém, ela ficou mais atual do que nunca. É fácil entender o porquê: antigamente, quando a informação se concentrava em veículos de comunicação, editoras, museus e gravadoras, era preciso passar por uma série de curadores para garantir a publicação de um artigo ou livro, a gravação de um disco ou a produção de uma exposição. O mesmo funil que poderia ser injusto e deixar grandes talentos de fora simplesmente porque estes não tinham acesso às ferramentas, às pessoas ou às fontes de informação também servia como filtro de qualidade. Tocar violão ou encenar uma peça de teatro em um grande auditório costumava ter um peso muito maior do que fazê-lo em um bar, centro cultural ou uma calçada. Nas raras ocasiões em que esse valor se invertia era justamente porque o espaço “alternativo” tinha usado mecanismos de seleção tão ou mais rígidos que o espaço “oficial”. As evoluções tecnológicas ajudaram os artistas a melhorar a qualidade de suas produções. Hoje é possível comprar equipamentos de ilustração, fotografia, vídeo, iluminação, gravação e edição, bem como um computador potente que aglutine, monte e finalize todos esses conteúdos a preços bastante acessíveis. A banda larga e as mídias sociais – blogs, comunidades de fotografia e ilustração, YouTube e redes sociais – ajudaram os produtores de conteúdo a dar um passo adiante e se tornar seus próprios editores e distribuidores. Com isso, desaparecem os filtros de seleção e o horizonte para a produção criativa se torna a cada dia mais amplo e promissor. Em termos. O mesmo processo que democratiza a produção e a distribuição também diminui a importância dos centros de exposição. Hoje, momento em que o principal curador de conteúdo é o Google e seu maior critério de seleção é a popularidade, é fundamental a um produtor cultural ter sua presença na internet, já que ela é a forma mais eficiente de ir aonde o povo está. É só pensar na quantidade de vezes que você foi buscar nesse serviço ou em seus equivalentes mais informações sobre algo que viu na TV, ouviu no rádio, leu no jornal ou “soube por aí”. Ter presença on-line pode significar várias coisas, desde possuir um website complexo até ter uma conta em comunidades restritas a textos ou mensagens curtos, como o Twitter e o MSN, ou recados, como o Orkut. Músicos, por exemplo, não podem abrir mão do MySpace e do YouTube. Já poetas podem facilmen-

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te ignorá-los e partir para blogs em que conseguem expressar suas ideias com toda a extensão e a profundidade que essas possam requerer. Hoje que todos estão na rede, é a forma pela qual se estabelece um discurso que faz a diferença. Ela pode ser tão ou mais importante do que uma apresentação presencial, e certamente muito mais completa e relevante do que um currículo ou fita demo.

A pulverização das mídias tornou todos os conteúdos passíveis de auditoria e escrutínio, e não há ninguém melhor do que o próprio artista, jornalista ou músico para falar sobre sua obra. Pena que tão poucos o façam, talvez por uma mistura de insegurança, desconforto e arrogância.

Hoje que todos estão na rede, é a forma pela qual se estabelece um discurso que faz a diferença. Estar na rede, enfim, é um conceito amplo e pode significar várias coisas. São muitos os serviços, e as comunidades se aglutinam em torno deles da mesma forma pela qual elegemos nossos bares prediletos: a qualidade e a atmosfera até têm sua importância, mas são as pessoas que se encontrará por lá que determinarão seu sucesso.

Infelizmente esses comportamentos são luxos perigosos na sociedade da desinformação digital. Quem não estabelecer claramente seu discurso pode ficar à mercê de comentários infundados ou preconceituosos de qualquer indivíduo, com qualquer formação. A mesma democracia que torna todas as vozes iguais tende a valorizar quem fala mais alto em detrimento de quem tem mais a dizer. Luli Radfahrer doutorou-se em comunicação digital pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde é professor. Trabalha com internet desde 1994.

Sinal dos tempos: os estúdios de músicos (profissionais ou não) agora também devem estar presentes na rede virtual

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reportagem

Dentro da caixa de sapatos As cartas, uma das formas mais antigas de conexão entre as pessoas, trazem o mistério do passado para o presente. Por Mariana Lacerda | Imagens arquivo particular Por mais rápida que se torne a comunicação entre pessoas nos dias atuais, graças ao mundo virtual, as cartas, escritas desde tempos imemoriais, são testemunhas em tinta e papel da história de países, de descobertas científicas, de guerras, do cotidiano dos povos, dos laços de família, das ligações amorosas e da memória. Correspondências contêm tantos significados que, por isso mesmo, ficam salvas, protegidas da bagunça do restante da casa: em caixas de sapatos, gavetas, esconderijos onde aqueles que sonham com o passado encerram seus segredos. Remexer nesses cantos adormecidos, seja um armário caseiro, sejam arquivos de bibliotecas com suas pastas amarelecidas, significa, no desenlace da fita ou do cordão que os ata, tocar no universo íntimo (já que uma carta só deve ser aberta pelo seu destinatário) e, num único gesto, fazer tilintar lembranças. Por isso mesmo é que, dificilmente, alguém abra um envelope que contenha uma carta sem antes estremecer. Notícias de tempos idos O filme Querida Mãe (2009), da jornalista Patrícia Cornils, é um bom exemplo dos tantos sentimentos que nos envolvem com relação aos escritos que nos contam coisas já vividas. Para construir o roteiro, Patrícia mergulhou nas cartas que a sua mãe, Zélia, escreveu para a avó da diretora, dona Esmeraldina. Nelas, Zélia conta de sua mudança do Recife, cidade natal, para São Paulo, tão logo se casou. Relata a viagem (“por sinal eu era a dona mais bonita do ônibus”), descreve a casa nova, reclama da TV recém-comprada que não funciona, fala dos vizinhos, da feira próxima à residência... Em correspondências mais adiante, os enjoos vêm à tona, bem como a ida a médicos, a descoberta da gravidez, a chegada de Patrícia e o diagnóstico de uma tosse muito estranha. Patrícia conviveu apenas no primeiro ano de sua vida com a mãe. Mas aprendeu a se relacionar com Zélia por meio das cartas. Querida Mãe, seu quarto documentário, ainda inédito, é uma resposta em imagem às palavras que Zélia grafou com as letras da máquina de escrever Triumph. “Além da óbvia questão emocional, o que gosto nas cartas é a conexão com outro tempo. As palavras que ela usava, o modo de escrever, são próprios de sua época. E de cartas, que são diferentes de e-mails: menos objetivas, imediatistas. É como se elas tivessem, ao ser lidas hoje, um tempo interno todo delas. E entrar no tempo dessa leitura é entrar em outra época”, diz Patrícia. Há mais um aspecto interessante: as cartas de Zélia, como todas as missivas, ainda que escritas numa máquina, contêm correções, ranhuras, a caneta ou a lápis. “É a assinatura do erro. Marcas que se perdem em textos feitos no computador.”

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Visita a outro mundo Não são poucos os arquivos de cartas que, adormecidos, estão prestes a ser acordados e a revelar o que guardam em segredo. Os originais de correspondências manuscritas em tupi trocadas entre líderes indígenas no Brasil setecentista repousam em gavetas holandesas. No país constam apenas algumas traduções feitas no início do século passado, depositadas nas prateleiras da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. A historiadora Bartira Ferraz, professora da Universidade Federal de Pernambuco, entrou em contato com o conteúdo de cartas assinadas por Pedro Poty, índio que, representando seus nativos na região da Paraíba, ficou ao lado da Holanda na guerra contra os portugueses no período colonial brasileiro (1630-1654). Poty se correspondia com Filipe Camarão, seu parente próximo, líder indígena do lado inimigo: “Estou bem aqui e nada me falta; vivemos mais livremente do que qualquer de vós, que vos mantendes sob uma nação que nunca tratou de outra coisa senão nos escravizar”, escreveu Poty numa carta datada de 31 de outubro de 1645. As correspondências indígenas daquele período são, para a historiadora, “testemunhos de autores que sempre estiveram à margem da história. Nessas cartas, eles deixam mais do que visões e sentimentos de uma época. Nelas, estão a saudade do tempo pré-contato com o mundo europeu, as dificuldades da vida sob domínio português ou holandês e a esperança em um futuro para os diferentes grupos indígenas e suas culturas, apesar da guerra”. Bartira tem o projeto de, no futuro, traduzir o restante do material em poder da Holanda e transformá-lo em livro. Vida a dois, literatura para muitos Em 2007, um dos maiores sucessos nas livrarias europeias foi um livrinho de poucas páginas mas que, só na França e na Alemanha, vendeu mais de 100 mil exemplares. A Carta a D. (Cosac Naify, 2007) foi escrita pelo filósofo austríaco André Gorz para a sua esposa, Dorine. “O texto não apenas revela o amor dos dois; mais que isso, mostra uma vida em cumplicidade, durante a qual a esposa pouco aparecia como parte da

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atividade intelectual do marido, exceto pelo fato de seus livros serem dedicados a ela”, explica o sociólogo Josué Pereira da Silva, pesquisador da Unicamp e estudioso da obra de Gorz, de quem foi amigo. “Por isso, a carta também faz justiça à presença de Dorine, corrigindo uma lacuna.” “Você está para fazer 82 anos. Encolheu 6 centímetros, não pesa mais do que 45 quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca”, escreve Gorz no início da carta. O fim do texto, contudo, dá sinais de que o filósofo escolheria morrer junto com a mulher.

mas os textos originais estão na Bibliothèque Nationale de Paris e podem ser consultados por todos. Mas foram as cartas de Simone a seu amante americano, o escritor Nelson Algren, que causaram surpresa quando publicadas em 1997 (no Brasil, com o título Cartas a Nelson Algren, Um Amor Transatlântico 19471964, pela Nova Fronteira). “No momento, estou preocupada principalmente com você: como passar a seu lado o maior tempo possível, oh sensato crocodilo, armadilha de rã”, escreveu a filósofa em 6 de março de 1948 – ela assinou algumas das cartas com um singelo “sua rãzinha”.

Nao sao poucos os arquivos de cartas que, adormecidos, estao prestes a ser acordados e a revelar o que guardam em segredo desde tempos remotos. Os dois cometeram suicídio no dia 22 de setembro de 2007. Dorine tinha uma doença incurável. Seu companheiro não conseguia enxergar a vida sem estar ao lado dela. O texto foi escrito para ser um romance epistolar (feito de correspondências), cuja intenção seria a publicação? “É difícil ter certeza”, diz Pereira da Silva. “O que sabemos é que ela leu a carta e permitiu que fosse publicada. Isso aconteceu em outubro de 2006, quase um ano antes da morte dos dois.” O primeiro sexo Bisbilhotar a correspondência de um dos casais mais famosos da história, Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre, significa descobrir características de ambos que ninguém, nem mesmo os amigos mais próximos, imaginou. As cartas de Sartre a Simone (e a algumas outras namoradas) foram compiladas por ela, após a morte do filósofo. Para proteger os envolvidos, a edição de dois volumes de Lettres au Castor et à Quelques Autres (Gallimard, 1983) omitiu passagens e alterou nomes –

Seria essa a mesma pessoa que escreveu O Segundo Sexo (Nova Fronteira, 2000-2001), considerado texto fundador do movimento feminista? Seria a filósofa a mulher, como revelam as cartas, que desejava lavar as cuecas de Algren e sonhava com noites de amor e vinho ao lado do amado? A leitura das cartas torna transparente outro lado da pensadora. Mas “como então pôde viver com aquele sujeito de óculos [Sartre], com aquela voz metálica de proxeneta, aquele terno azul amassado, aquela obsessão com chatos [...] quando possuía uma vitalidade, um fogo e um frescor tão grandes?”, escreveu Jacques-Pierre Amette, um dos críticos da obra de Sartre e Simone (citado no livro Tête-à-Tête – Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre, Objetiva, 2006). “Que mistério!”, arremata ele. É isto: escrever é inventar-se para os olhos do outro. Acessar o universo contido em correspondências é desnudá-lo. As cartas deixadas por Simone de Beauvoir permitiram a seus leitores e pesquisadores descobrir as intimidades de uma filósofa agora também imortalizada como alguém que deseja, ama e se dá a um homem como uma rãzinha em face de um crocodilo. Participe com suas ideias

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entrevista

O homem seguido por 118.177 pessoas Por Marco Aurélio Fiochi | Fotos Cia de Foto A intimidade de Marcelo Tas com os computadores vem de longe: começou em um aperfeiçoamento em cinema e TV na Universidade de Nova York (NYU), na década de 1980, tempos em que a informática não era assunto corriqueiro como é hoje e o PC nem sequer tinha sido inventado. Desde esse primeiro contato, que se deu por acaso, devido à curiosidade que herdara de sua formação em engenharia, Tas vem construindo com grande atenção sua presença virtual, que hoje é tão importante quanto a atuação como jornalista e comunicador de TV. Um ranking realizado em 2008, por exemplo, posicionou-o entre os três perfis mais seguidos do Twitter brasileiro, e sua participação na rede (com o blog marcelotas.uol.com.br) contribui para torná-lo um dos formadores de opinião mais importantes da atualidade no país. Âncora do programa semanal CQC, da Rede Bandeirantes, ele não credita sua participação bemsucedida na internet a nenhuma fórmula mágica. “Quando as pessoas me falam ‘você pauta, você traz notícias’, digo que não. Só ouço com atenção o que me chega e separo o que acho relevante.” Ao analisar o impacto da conectividade na vida das pessoas, Tas define o momento como uma fase de transição que a seu ver nunca terminará. “Estamos em um novo estado permanente, um mundo, literalmente, mais etéreo.” O apresentador reforça ainda a importância da conexão através do olhar, do contato com o outro e com o próprio corpo como antídoto à sedução provocada pela conexão ultrarrápida da web. Em tempo: o título desta entrevista, cujas perguntas foram criadas por leitores da Continuum, é uma brincadeira com o número de seguidores do perfil marcelotas no Twitter. Mas é bom ressaltar que, devido à popularidade de seu criador, esse enorme contingente de pessoas terá se alterado quando você estiver lendo esta edição.

A presença virtual do jornalista o torna um dos principais formadores de opinião da atualidade Participe com suas ideias

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Ao que você atribui o alto grau de participação dos brasileiros em redes sociais, se comparado ao restante do mundo? Seria carência social ou procura de identificação em nichos? (Arieta Arruda, Curitiba/PR) Isso se deve a duas coisas: o Brasil tem uma distância intransponível, infinita do resto do mundo. É um país que se coloca espiritualmente longe de todos, de tudo, apartado do primeiro mundo. Tem complexo de cachorro magro e, ao mesmo tempo, a esquizofrenia de não se inserir na América do Sul. Com isso,

sileiro abre o computador com a mesma intimidade que abre um Sonho de Valsa. A gente não tem pudor com a tecnologia. Quando se vê um europeu mexendo num equipamento, ele tem respeito, tem medo, não aperta qualquer botão. O comportamento do brasileiro facilita a profusão de pessoas que usam as redes sociais no país. É uma intimidade com o meio, com a tecnologia e, obviamente, um exercício natural da nossa sociabilidade. Adoramos conversar, contar as coisas da vida. Isso se reflete na internet.

O brasileiro tem um afeto pela tecnologia; e a gambiarra é o drible tecnológico que dá em suas deficiências. É o puxadinho, a antena de TV com Bom Bril nas extremidades, o gato, o benjamim apinhado de tomadas, o remendo no fio do ferro de passar roupa ou do computador. despreza uma riqueza gigantesca que está ao seu lado, na Colômbia, na Argentina, no Chile, no Paraguai... A América do Sul tem uma história belíssima, muito próxima dos brasileiros, e nós estamos muito mais voltados para a Europa, os Estados Unidos, Miami, que é quase uma cidade brasileira. O outro motivo se resume numa palavra: gambiarra. Não faço um elogio ao precário e ao malfeito. Falo de quem consegue superar, com criatividade, nosso estado real. Não podemos perder de vista o fato de vivermos num país desigual, cheio de injustiças e dificuldades. Mas o brasileiro tem um afeto pela tecnologia; e a gambiarra é o drible tecnológico que dá em suas deficiências. É o puxadinho, a antena de TV com Bom Bril nas extremidades, o gato, o benjamim apinhado de tomadas, o remendo no fio do ferro de passar roupa ou do computador. O bra-

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Como você vê o impacto da conectividade na vida das pessoas? Até que ponto a superexposição causada pelos blogs, pelo Twitter e até mesmo pela TV é positiva? (Luciana Morgado, São Paulo/SP) A superexposição é positiva até o ponto em que ajuda as pessoas a conhecerem-se a si mesmas. Somos nós que a geramos. Parece que isso é causado por algum vírus, algo que está dentro do computador e que puxa as pessoas. Quem não gosta disso não se mostra na internet, assim como não é visto nas revistas de fofoca, ou no Orkut, ou no Big Brother Brasil, ou numa festa. O mundo virtual é um reflexo do mundo real. Quem é exibido no mundo real terá essa característica potencializada no mundo virtual. Depende do discernimento de cada um usar as ferramentas virtuais e saber até onde quer se expor. É um mundo muito sedutor, mas que também pode ser nocivo.


Tas: “As mídias não estão mais nas mãos do comercial de 30 segundos ou da primeira página da revista”

Você acredita que os milhões de brasileiros que não possuem acesso à internet são representados hoje na mídia? Tenho a impressão de que redações jornalísticas, produtoras de vídeo e agências de comunicação se concentram mais no que é visto na web do que na vida real daqueles que não têm acesso à internet e que também têm interesses, necessitam de informações. (Simone Castro, Itajaí/SC) Concordo em parte com esse pensamento, mas temos que enxergar a mudança gigantesca que vivemos. Eu era adolescente nos anos 1970 e 1980, quando a publicidade vendia uma marca de cigarros chamada Hollywood com o seguinte slogan: “O sucesso”. As pessoas que apareciam naqueles comerciais eram atléticas, superbonitas. Aquilo significava sucesso, era uma mensagem muito direta. Hoje, isso não tem o

menor espaço. As mídias não estão mais somente nas mãos do comercial de 30 segundos ou da primeira página da revista que estampava um maço de cigarros e alguém surfando numa onda gigantesca, com o slogan “O sucesso”. Atualmente, existe uma representatividade muito mais ampla por meio da internet. Esse é um caminho sem volta. O cidadão participa mais, mesmo se levarmos em conta o baixo índice de acesso à rede – o que é relativo, porque no Brasil já se tem algo em torno de 60 milhões de internautas. Até o caboclo que vive a três horas de barco de Santarém, na Amazônia, é afetado pela rede. A notícia chega até ele numa velocidade como nunca chegou. Não porque ele acessa um site, mas porque o barco que vai até ele para levar gelo e sal leva também a informação que acabou de sair na internet.

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Quando e como foi seu primeiro contato com a internet? (James H. Prado, São Paulo/SP) Meu primeiro contato foi um susto. Ele aconteceu na década de 1980, quando ainda não se falava em computador. Eu fazia um curso de pós-graduação em cinema e televisão na NYU, em 1987, com uma bolsa de estudos da Fullbright. Em um departamento que havia nessa universidade, vi um dia caixas de computadores empilhadas, que eu não sabia o que eram. Fui bisbilhotar e descobri que nesse departamento havia um curso que estava ganhando muita força naquele momento, o Interactive Telecommunications Program. Não havia computador pessoal, só aqueles usados em universidades e empresas. Pedi a prorrogação da bolsa e fiz esse curso, em 1988, no qual tive acesso ao primeiro Macintosh. Eu levei um choque! A biblioteca da NYU já era totalmente online e nela podiam-se fazer pesquisas em rede, com cruzamentos, igual ao que se faz hoje com o Google. Eu passava horas lá fazendo cruzamentos de informações, para adquirir experiência e por perceber que aquela era uma ferramenta interessantíssima. Ao voltar para o Brasil, só conseguia conversar com pouca gente sobre essa rede. Tinha alguns amigos nerds naquela época, pois fiz engenharia na Poli [Escola Politécnica da Universidade de São Paulo], e só eles entenderam o que eu estava falando. Mudei-me para o Rio de Janeiro no começo da década de 1990, onde tive acesso ao primeiro provedor brasileiro, o da ONG Ibase [Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas], coordenada na época pelo Betinho [o sociólogo Herbert de Sousa]. O Ibase proveu acesso à internet ao público brasileiro, seus integrantes foram pioneiros. Meu primeiro e-mail foi da Alternex, o provedor de acesso do Ibase. Registrei esse endereço em 1992, logo no início, quando o serviço começou a funcionar.

Desde quando você usa o Twitter e como descobriu essa ferramenta? Você imaginaria que seria uma das pessoas mais seguidas no Brasil? (Bruno Daniel Puga, São Paulo/SP) Nunca imaginei que isso fosse acontecer! Eu comecei a usar o Twitter em 2007. Quando surge uma ferramenta, eu sempre me registro e tento entender como ela funciona. Muitas delas não duram, mas as experimento e depois as esqueço. Percebo que algumas outras nasceram antes da hora, como o Second Life, no qual também me registrei e cheguei a usá-lo. Há ainda aquelas em que apostei muito que dariam certo e não deram, como o Joost, uma TV a cabo sem limites, de graça, na internet. Fui um dos primeiros a me registrar nele, mas não decolou. No caso do Twitter, sempre usei essa ferramenta muito intensamente, desde o começo. Em 2008, fiquei entre os três mais seguidos do Twitter brasileiro, o que foi um susto para mim, porque os outros dois são meganerds, que respeito muito, o Cris [Cristiano] Dias e o Carlos Merigo. Muita gente me pergunta como faço para ter tantos seguidores no Twitter. Penso que a gente imprime na rede a nossa experiência. Não há fórmula mágica. Às vezes, até se tem muita coisa para oferecer, mas não se sabe como. Talvez a linguagem não seja a mais adequada, ou a pessoa pode ser muito popular, mas a maneira como se comunica não é. O verbo da era em que vivemos é ouvir. Temos que aprender a ouvir, senão não sobreviveremos. Quando as pessoas me falam “você pauta, você traz notícias”, digo que não. Só ouço com atenção o que me chega. Gasto muito tempo ouvindo e separando o que acho relevante. Não sou eu que sei de tudo, mas tenho uma rede poderosa de pessoas às quais ouço e respondo e que respeito. Eu me corrijo quando erro, brigo, debato, discuto... Acho que isso gera confiança nas pessoas para que me procurem e compartilhem informações comigo.

“O fake que é derivado de uma sátira pode ser muito legal” Participe com suas ideias

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Até que ponto a utilização de redes sociais pode ser viável no desenvolvimento pessoal e profissional de uma pessoa, sem que ela seja prejudicada pelo excesso de informação e se perca no gerenciamento de sua “vida virtual”? (Daniel Medina, Jundiaí/SP) Um bom termômetro são os olhos dos nossos filhos ou dos nossos melhores amigos. Para mim, o termômetro é a conexão afetiva. No dia que seu filho começar a achar que você é um idiota, é melhor tomar cuidado. Aliás, é melhor tomar cuidado antes disso. Não significa que dentro do computador mora um demônio, mas somos cobaias de uma fase de tran-

disso, mas, sim, um personagem. Ele aborda a realidade pela ótica do Victor Fasano, faz comentários sobre tudo, o Lula, o Big Brother, a seleção brasileira, é genial. Acho que esse cara é um dos maiores comediantes do Brasil atualmente, e ninguém sabe quem ele é. Mas há um segundo tipo, que causa confusão no público. Já criaram fakes meus para oferecer ingressos para a gravação do CQC e para xingar pessoas. Quando há a conotação de falsear uma identidade, o público demora a perceber. E isso é crime. Há muita confusão devido à fase transitória em que vivemos. As pessoas acham que cometer tais ações na rede não é ilícito.

Muita gente me pergunta como eu faço para ter tantos seguidores no Twitter. Penso que a gente imprime na rede a nossa experiência. Não há fórmula mágica. sição. É fácil ficar grudado nessa cola sedutora que é a conexão ultrarrápida. O que nos salva é que continuamos tendo de comer, dormir, cuidar do cachorro. Sugiro às pessoas: tenha um cachorro, um gato, de preferência filhos, namorados. Isso é o que importa no fundo. E as redes, meios de troca de informação, de imagem, devem servir a isso. Não é preciso separar uma coisa da outra. Há pessoas que falam: “Agora vou me desligar do computador”. Isso é bobagem. Checar o Twitter, por exemplo, é muito rápido, não é uma violência. O que você acha dos fakes [perfis falsos] espalhados pela internet, inclusive no Twitter? (Weslei Rodrigues, Antonio Carlos/MG) Há dois tipos de fake. O primeiro é resultado de uma sátira, que pode ser muito legal. É o caso do Victor Fasano, o fake mais famoso do Twitter. Não é o ator real, todo mundo sabe

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O impacto da incorporação da internet em aparelhos como celulares e TVs acarretará uma supervalorização da informação? (Adaildo Neto, Rio Branco/AC) A informação sempre foi valorizada. Quem a processa ou a pesquisa tem poder, como os cientistas, os artistas. Eles detêm algo muito poderoso. O mesmo para quem detém a informação do espírito. Não é à toa o crescimento do número de igrejas, de terapias. Tem poder, também, aquele que procura aprofundar a informação. Ela não é mais um bem tão valorizado; o que tem valor é o conhecimento, que é como se aprofunda uma informação. Valem mais as conexões que se fazem entre os fatos do que os fatos em si. Muitos professores implicam com seus alunos por causa da internet, do celular. Eles deviam proceder de outra forma, pois têm uma chance raríssima de exercer apenas a função primordial de sua profissão, que é promover o debate, os insights, aprender junto, gerar o movimento do saber com seus alunos e não apenas trazer coisas para eles.


Como você analisa a prática do jornalismo no mundo contemporâneo e o diálogo dos profissionais da comunicação com as ferramentas modernas e com a sociedade? Percebe-se a pobreza de pautas, além da infinita reprodução de releases. Com tanta informação disponível a um clique, você acredita que os jornalistas estejam cientes de que seu papel está em processo evolutivo e que lhes será exigido mais apuração, mais pesquisa e mais riqueza em suas reportagens? (André Patroni, Campo Grande/MS) Pode parecer paradoxal, mas creio que o jornalismo vive uma época de ouro. Apesar do sucateamento dos veículos de comunicação, há muita gente interessante que agora tem outros meios de fazer jornalismo. E há outras pessoas também interessantes que conti-

nuam a fazer o jornalismo tradicional. Podemos selecionar o que ler de uma maneira muito mais abrangente. O mundo está mais generoso com o talento das pessoas. Essa é mais uma característica dessa fase de transição de que falei há pouco. É uma transição que talvez não acabe nunca. Vivemos numa fronteira que não é e nunca será definida. Estamos em um novo estado permanente, um mundo, literalmente, mais etéreo, que escorrega, que não conseguimos pegar. Esse estado é, inclusive, mental, espiritual. Por isso, é importante a conexão pelo olhar, o contato com o outro e com você mesmo, com seu corpo. Hoje quase todos nós, invariavelmente, temos dores nos braços por ficar muitas horas em frente de um computador. É bom ouvir os sinais dados pelo corpo, pois tenho certeza de que daqui a cinco, dez anos a pauta da saúde vai ser uma pandemia de LER [lesão por esforço repetitivo]. “O termômetro para a conectividade excessiva é a conexão afetiva”

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on-line

ilustração: Rodrigo Silveira

Conexões da rede e pela rede Em julho e agosto, a Continuum On-Line (itaucultural.org.br/continuum) vai conectar quatro artistas contemporâneos que trabalham com diferentes suportes e linguagens. Selecionados pelo programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais 2008-2009, Fabricio Lopez, Flávio Araújo, Ilma Guiderolli e Laerte Ramos iniciarão, cada um, um trabalho de artes visuais. E a Continuum On-Line vai apresentar as etapas criativas desse encontro. Eles trocarão entre si as obras, que vão sofrer intervenções e se transformar até ganhar um formato final. Você pode acompanhar, no site, as várias fases desse troca-troca, que serão publicadas a cada duas semanas, e os resultados, a partir de 17 de agosto. *** Mesmo passados 20 anos do início do seu funcionamento em caráter comercial, na Costa Oeste norte-americana, a internet segue reverberando fascínio e perplexidade na revelação das suas possibilidades. Leia o artigo de José Marcelo Zacchi, diretor executivo do Instituto Overmundo, sobre a produção e a distribuição de arte e cultura na internet. *** Em tempos de comunicação virtual, o que os fenômenos da conexão e da interatividade trouxeram de novo para o universo da criação artística? Conheça, em reportagem, iniciativas que exemplificam esse novo panorama, a criação na rede, e veja como a premissa de a arte contemporânea ser uma arte dessacralizada se tornou real. *** Confira as atualizações exclusivas da Continuum On-Line durante o bimestre. Você também pode se cadastrar para receber a newsletter, acessar as edições anteriores da revista, responder a enquetes e conferir os trabalhos enviados pelos leitores, publicados na seção Área Livre.

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convocação

Mãos à obra! A próxima edição da Continuum Itaú Cultural (setembro-outubro) vai fazer uma viagem ao universo da infância. E, no meio das brincadeiras, dos personagens e, como não, da arte e da cultura que caracterizam esse mundo lúdico, há espaço para você. Crie uma música que expresse ao público infantil o que você entende por arte e cultura e participe da ação Canções para Arteiros. Os autores das melhores obras terão suas composições publicadas na versão online da revista – e o primeiro colocado ainda ganha um vale de R$ 500,00 em produtos da Livraria Cultura. Saiba mais em itaucultural.org.br/continuum. *** Os leitores que não se aventuram em letras e notas musicais podem enviar contos, poemas, ilustrações, vídeos e outros trabalhos artísticos à Área Livre da Continuum. Para que sejam publicadas nas versões impressa ou virtual da revista, as obras devem seguir o tema das edições: Julho-agosto: Conectividade [conheça nas próximas páginas alguns trabalhos selecionados] Setembro-outubro: edição especial infantil Envie até o dia 20 de julho uma pergunta ao entrevistado da edição infantil: o Menino Maluquinho, personagem do cartunista Ziraldo. Incentive as crianças que você conhece a participar, e mande sua pergunta também! Responda ainda à enquete da edição julho-agosto: O que você faz para se desconectar? O caminho da interatividade com a revista é simples: participecontinuum@itaucultural.org.br. Quer tirar dúvidas, propor sugestões, fazer críticas – ou pedir para receber a revista impressa em casa? Mande um e-mail para continuum@itaucultural.org.br e fale com a gente!

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ilustração: Virgílio Neto Participe com suas ideias

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área livre

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cartuns: Marcelo Rampazzo Participe com suas ideias

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arena

As redes sociais, especialmente aquelas dedicadas ao relacionamento interpessoal, servem mais como instrumentos de reforço do caráter egocêntrico da personalidade de seus participantes do que como uma fonte de conteúdos relevantes ou de mobilização e discussão coletiva?

Sozinho na multidão Por Fábio Fernandes Sim. Uma rede é composta de nós, mas essa metáfora é sempre muito deficiente quando falamos de seres humanos. Na verdade, não dialogamos, mas monologamos o tempo todo. Diálogos são invenções do romance, do folhetim do século XVIII. As tragédias gregas, as peças dos clássicos, são quase todas em monólogos que se entrecruzam, o que não é o mesmo que um diálogo. Redes sociais servem para que pessoas se exibam e vejam outras se exibindo. Isso não é ruim, é um comportamento humano. Não é uma característica do mundo digital. Qualquer rave, qualquer vernissage, qualquer Fashion Week é a mesma coisa. Isso somos nós. Gostamos de viver na multidão, mas fazemos questão de ser sozinhos nela. Somos espumas flutuantes, para citar Castro Alves numa recombinação com o pensamento filosófico de Peter Sloterdijk.

Contudo, por menos que as pessoas queiram responder umas às outras, por menos que elas queiram dialogar, elas certamente estão ali para pertencer. Então poderíamos dizer que o sentimento de pertencimento, ou de “pertença”, como diz Janina Bauman, está na base do sucesso do Twitter. Retomando a metáfora de “modernidade espumante”, de Sloterdijk, vivemos em bolhas transparentes de espaço-tempo onde é confortável saber que não estamos sós – mas que não nos peçam para participar de nada. O Twitter é para pseudogregários, aqueles que se sentem confortáveis sozinhos no meio da multidão. Isso não é um fenômeno moderno; apenas ocorre que esse microblog é a sua mais nova tradução. Fábio Fernandes é doutor em comunicação e semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e autor dos livros Interface com o Vampiro (Writers, 2000) e A Construção do Imaginário Cyber (Anhembi Morumbi, 2006). É colunista do site Le Monde Diplomatique Brasil.

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ilustração: Liane Iwahashi

Ao contrário do que muita gente pensa, o Twitter não existe necessariamente para você se comunicar com o outro, mas para você comunicar algo de si mesmo com quem quiser ler você. Ele é um monólogo interno, só que do lado de fora.


Potencialmente mobilizadoras Por Raquel Recuero Não. Redes sociais são expressões de grupos na internet. Não são todas iguais e servem a valores e interesses diferentes. No entanto, possuem elementos em comum, como o uso de sites que facilitam ou tornam complexas as conexões sociais. Por causa dessas conexões, as redes tornaram-se caminho para fluxos de informações. Elas são repassadas entre os atores que fazem parte de uma mesma rede e atingem pessoas cada vez mais distantes. Assim, as redes sociais acabam por repartir o poder antes característico dos meios de comunicação de massa através de novas mediações. Se essas redes permitem, portanto, que outras pessoas sejam contatadas e que interesses comuns sejam divididos, é apenas natural que proporcionem, também, ações coletivas. Várias dessas ações, nascidas prioritariamente nesses espaços, já tiveram repercussão na mídia e em espaços nacionais e internacionais. Recentemente, uma campanha pedindo a doação de sangue ficou entre as mensagens que mais circularam no Twitter por alguns dias. Outro exemplo foi a discussão em torno da proposta de lei do senador Eduardo Azeredo sobre crimes cibernéticos. Graças às redes sociais on-line, gerou-se grande debate em blogs, nas listas de discussão, no Twitter e até mesmo no Orkut. Com essa mobilização, o projeto passou a ser discutido em variadas instâncias da sociedade, com ampla cobertura da mídia e consequente reflexo no questionamento da lei no Congresso. Nas redes sociais, portanto, está um potencial mobilizador gerado com a construção de um espaço de debate. Sites como o Orkut não têm apenas um papel conversacional, têm também uma função informativa, uma participação na inclusão digital. Precisamos superar o preconceito com relação a essas ferramentas e observar o potencial que a presença das pessoas e dos diversos segmentos da sociedade no ciberespaço possui. Raquel Recuero é professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas e pesquisadora na área de comunicação mediada por computador, com foco no estudo das redes sociais na internet. É autora de Redes Sociais na Internet (Sulina, 2009).

Boom, de Lúcio Carvalho

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balaio

Fique conectado! Dicas culturais para se manter ligado. Fotos divulgação

CINEMA Ponto de Mutação, de Bernt Capra (Mindwalk, Estados Unidos, 1990, Cannes Home Vídeo) Baseado no livro de mesmo nome do físico ����������� Fritjof Capra, o filme narra o encontro de três personagens no litoral norte da França. Juntos, discutem questões que continuam atuais, como política, crise econômica, tensões sociais e problemas ambientais. Estruturada em seus diálogos e com trilha sonora – sempre eficiente – do compositor Philip Glass, a produção defende a tese de que nenhum evento pode ser considerado isoladamente, em outras palavras, uma coisa, por menor que seja, sempre irá interferir em outra.

CINEMA

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A Mosca, de David Cronenberg (The Fly, Estados Unidos, 1986, Fox Home Entertainment) Refilmagem do clássico A Mosca da Cabeça Branca, de 1958, com direção de Kurt Newmann. O cientista Seth Brundle trabalha com experiências de teletransporte. Certo dia, ele resolve ser a cobaia de sua invenção. Sem saber, seu organismo é fundido ao de uma mosca, que involuntariamente também participara do teste. A partir daí, o filme é tomado por cenas bizarras, que fizeram a fama de Cronenberg. Ao abordar um tema recorrente em sua obra (a questão da dupla identidade), o diretor canadense traça um retrato grotesco de seu personagem, que é capaz de trazer consigo o que de mais selvagem e humano um homem pode carregar. Continuum Itaú Cultural


INTERNET musicovery.com Para quem gosta muito de uma música e quer descobrir outras semelhantes, seja pelo ritmo, seja pela batida ou pelo vocal, este site é um bom meio. Diferentemente do concorrente Pandora (www.pandora.com), o Musicovery disponibiliza uma parte de seu conteúdo. O usuário tem a opção de escolher o ano, o ritmo e o estilo musical. São dadas sugestões de músicas e, a partir delas, surgem outras, configurando assim uma ramificação que lembra uma árvore.

LITERATURA

Fotos: divulgação

Hamlet no Holodeck, de Janet Horowitz Murray (Itaú Cultural/Unesp, 282 páginas, 2003) Qual é a conexão da internet com a literatura impressa? A resposta pode ser conferida neste livro, que derruba alguns preconceitos e mitos – como aquele que diz que a internet irá acabar com o livro – e analisa como a rede virtual mudou a narrativa literária, testando seus limites e escancarando novas possibilidades. Doutora em literatura, Janet bebe de uma ampla fonte de referências culturais (de Shakespeare a Jornada nas Estrelas, de Jane Austen a ficção ciberpunk) para ilustrar e basear sua teoria. [Este livro faz parte da Midiateca do Itaú Cultural e pode ser consultado gratuitamente.]

LITERATURA Ansiedade de Informação: Como Transformar Informação em Compreensão, de Richard S. Wurman (Editora de Cultura, 384 páginas, 1991) Apesar de ter um pé na autoajuda, o livro passa quase intacto à tentação de cair na linguagem típica do gênero. Apresentando um texto fluente e simples (não simplista), o arquiteto Wurman – talvez um dos primeiros arquitetos da informação – antecipa situações atuais, como o excesso de informação e a necessidade de sempre estar ligado ao mundo. E não se preocupe, pois mesmo com um pouco de teoria da comunicação, educação, psicologia, semiótica e administração, Ansiedade de Informação provavelmente não irá sobrecarregar o leitor. Participe com suas ideias

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fotorreportagem

As imagens e suas ligações Fotos Franco Hoff | [francohoff.com.br] Lugares distintos. Tempos díspares. Situações diferentes. Uma única imagem, unindo tudo isso. Confira algumas narrativas, inexistentes na realidade, mas possíveis pelo registro fotográfico.

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ficção

Fios de teia Por Eduardo Baszczyn | Ilustração Raquel Krügel Pode ser pelo homem que me olha com cara estranha, descendo a rua por mais uma noite. Eu não desisto. Porque também pode ser pelo velho que passa na ambulância. Falta de ar, a caminho do hospital que nunca chega. Ou pela menina que atravessa a avenida com pressa. Pés, sem querer, na poça depois da chuva. Meias molhadas atrapalhando os passos no retorno para casa. Pode ser por qualquer um deles. Por um dos garotos dentro do carro em alta velocidade. Sinal vermelho ignorado, música no rádio, latas de cerveja, palavrões para quem está na calçada. Ou pela moça parada em frente à janela. Dúvida. Indecisão de horas sobre o pulo de um dos apartamentos acesos da cidade, enquanto o telefone toca para ninguém. Pode ser por ela. Ou pela mulher que sai da igreja. Arroz sobre a cabeça depois do sim. Buquê atirado por cima do ombro para as amigas solteiras. Por uma delas também pode ser. Ou pelo vigia sentado na portaria. Cochilo proibido, embalado pela voz chiada do pequeno rádio ecoando rimas pobres pelo corredor vazio. Amor com dor. Por isso, eu não desisto. Porque pode ser por qualquer um deles. Pela mulher parada no cruzamento. Vidro aberto pelo abafado depois da tempestade. Talão de cheques, cartão de crédito e fotos dos filhos na bolsa levada pelo menino-bandido que corre. Que some como um inseto. Que desaparece como um rato virando a esquina no escuro da noite. Até por ele pode ser. Pelo menino. Ou pelo homem que pede dinheiro no intervalo rápido entre o vermelho e o verde. Malabarismos com fogo sobre a faixa de pedestres. Número sem aplausos. Nariz de palhaço e chapéu vazio estendido para o público do outro lado dos vidros blindados. Por qualquer um deles pode ser. Por isso, eu não desisto. Por isso, eu saio descendo a rua mais uma vez. Em mais uma noite de busca. Eu não me canso. Porque pode ser pelo executivo, no carro, diminuindo o volume do rádio. Ligação para a mulher, avisando sobre o atraso. Secretária ainda na memória. Perfume de outra na gravata. Traição refletida, ainda há pouco, no espelho do teto. Por ela também pode ser. Pela jovem no ponto de ônibus. Maquiagem retocada no pequeno espelho trincado. Batom vermelho. Lápis no olho. Pó. Ou pelo garoto que também espera, sentado sobre o banco de cimento pichado. Desenhos eróticos e palavrões. Violão encapado nas costas. Partitura repassada na mente, enquanto o Lapa não vem. Será por ele? Ou pela menina que volta para casa? Enjoo no estômago, depois da primeira vez escondida. Pernas moles e medo do tapa do pai. Pavor do castigo da mãe. Por ela também pode ser. Ou pelo casal que escolhe o filme na entrada do cinema. Ele, americano, explosões e tiros. Ela, europeu, silêncio e poesia. Discussão em frente à bilheteria. Cada um para um lado da avenida. Será por um deles? No café, a moça sozinha. Bebida forte e sem açúcar para uma sexta-feira amarga desde cedo. Há dias impossíveis de ser adoçados, ela sabe. No orelhão, o rapaz promete. Foi sem querer. Não vai fazer de novo. Junta os pés e jura. Claro que ama. Na mesa da calçada, os amigos esperam. Garrafas vazias. Copos pela metade. Risadas e gritos contaminando a noite. Atrapalhando o silêncio dos vizinhos. Pode ser por eles

Tanta gente. Por isso, eu saio por mais uma noite. Em mais uma busca.

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também. Por qualquer um. Desse prédio. Do outro. Do seguinte. Daquele e daquele outro até o infinito. Pode ser por quem dorme com a televisão ligada. Com a revista aberta caída sobre o peito. Pode ser por quem se revira na cama à espera do efeito do punhado de comprimidos. Por quem sua na febre. Se encolhe no choro. Ou por quem enrosca os pés nos pés do outro debaixo das cobertas. Por qualquer um deles pode ser. Por isso, eu não desisto. Tanta gente. Por isso, eu saio por mais uma noite. Em mais uma busca. Eu não me canso. Deixo o apartamento e caminho sozinho pela cidade cinza porque tenho certeza. Pode ser por qualquer um desses. Pelo velho estacionado na esquina. Carro importado e proposta para a prostituta tingida. Balas de hortelã, canivete e camisinhas na minúscula bolsa que gira. E gira. Pode ser por ela também. Ou pela outra encostada no poste em frente à boate de letreiros coloridos. Ou pelo garoto que passa no ônibus. Cabeça apoiada no vidro. Os olhos na primeira frase de um livro. Certa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama metamorfoseado em um monstruoso inseto. Pode ser por ele também. Pelo garoto. Ou pelo outro, que deixa o bar quase vazio. Cabelos coloridos, calça justa, tatuagens. Esbarrão, sem querer, no homem parado no meio da calçada. Música alta nas orelhas. Vontade de dividir os fones compartilhando o gemido sofrido de um solo de sax com qualquer um. Pode ser por esse homem. Ou pelo outro que me olha com cara estranha. Que me observa descendo a rua por mais uma noite. Eu não desisto. Não me canso. Por isso, eu saio. Deixo o apartamento vazio, caminhando pela cidade. Tentando montar meu quebra-cabeça incompleto. Atrás da última peça. Sabendo que o caminho até ela pode começar por um desses. Por isso, eu não desisto. Pode ser por qualquer um. Apenas seis passos. Apenas seis casas a ser andadas sobre o tabuleiro depois dos dados lançados. Seis obstáculos a ser saltados. Seis fios de uma longa teia. Seis degraus até a chegada ao topo. Seis muros a ser derrubados. Seis graus de separação. Por isso, não adianta. Você pode correr. Fugir. Se trancar no cômodo escuro. Se esconder debaixo da cama. Se enfiar entre a multidão. Não adianta. É comprovada a ligação. Apenas um punhado de gente. Apenas seis apertos de mão. Por isso, eu não desisto. Não me canso. Por qualquer um desses começa a nossa conexão. Pode ser pelo velho na esquina. Pela moça indecisa na janela. Pela menina que enfia os pés na poça, sem querer, depois da chuva. Tanta gente. Pode ser pela noiva que sai da igreja. Pelo menino-bandido que corre com a bolsa, como um rato, até sumir na virada da esquina. Pela mulher de vidro aberto. Pelo malabarista que ilumina a noite sobre a faixa de pedestres. Pelo garoto na primeira frase de um livro. Pelo homem que me olha com cara estranha, descendo a rua mais uma vez. Caminhando sozinho pela cidade cinza. Tentando achar a última peça. Sabendo que o caminho até ela pode começar por qualquer um desses. Repetindo como reza cochichada pelo canto da boca: Quantas noites ainda? Quantas vezes mais a rua percorrida? Tanta gente. Qual boneca russa guarda o que procuro? Qual dessas devo escolher? O velho? A moça? O malabarista? Qual dessas porcelanas devo quebrar até chegar ao que desejo? Pode ser por qualquer um. Por esses que estão na rua. Nos carros. Pelos que passam nos ônibus. Pelos que bebem nos bares. Pelos que se espremem entre as luzes coloridas das pistas de dança. Pelos que espiam pelas frestas das infinitas janelas acesas. Pelos que se escondem no escuro. Pelos outros que também procuram. Tanta gente, mas eu não desisto. Somos fios ligados de uma teia. Por isso, eu saio. Deixo o apartamento em mais uma noite de busca com a certeza de que, por um desses, eu ainda chego até você.

Qual boneca russa guarda o que procuro? Qual dessas devo escolher? O velho? A moça? O malabarista?

Eduardo Baszczyn é jornalista e escritor. Seu primeiro romance, Desamores (7 Letras, 2007), foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura e, na categoria Melhor Livro do Ano – Autor Estreante, do Prêmio São Paulo de Literatura.

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reportagem

Quando as conexões dão tilt Ao cortar as relações com quem tivemos alguma desavença, perdemos a chance de construir vínculos duradouros e de exercitar uma palavrinha mágica: tolerância Por Mariana Sgarioni | Ilustração Carol Rivello Não tem jeito. Onde quer que existam pelo menos duas pessoas, mais dia, menos dia, haverá um conflito entre elas. Até porque, como já deve ter dado para perceber, é humanamente impossível dois seres concordarem em tudo. Já que hora ou outra vamos nos estranhar mesmo, a questão passa a ser não mais o bate-boca, e sim a maneira pela qual vamos lidar com ele. O que a maioria responde neste momento é que o importante é dialogar até chegar a um consenso. Tem razão. Porém, cá entre nós, essa resposta tem um baita cheiro de frase feita sem pensar – a verdade mesmo é que preferimos desprezar o “inimigo”. Cortar relações, virar a cara, deixar a pessoa para lá, armar um clima. Convenhamos, é muito mais fácil do que tentar resolver a desavença, certo? Alguém o contrariou, disse algo indigesto? Simples: aperte o botão “delete” do computador, esqueça essa pessoa, finja que ela não existe mais. Arrume outro amigo, outro namorado, outro colega de trabalho. E, assim, como num passe de mágica, uma conexão que estava firmando sua base é quebrada.

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Existem diversas razões para agirmos assim – entre elas a preguiça pura e simples, um pecado que, ao contrário de sua vizinha luxúria, nos traz perdas irreparáveis pela simples leseira de movimentos. Mas a razão mais preocupante fica por conta de um fenômeno social do sistema moderno, no qual estamos inseridos, que não valoriza a criação de vínculos sólidos. Para chegar lá, no entanto, é importante entender primeiro a maneira pela qual fomos construídos. Precisamos dos outros Nosso caráter começa a ser moldado no momento em que começamos a interagir com tudo e todos ao nosso redor. Um recém-nascido é como um molde de argila bem flexível: tudo aquilo que ele aprender, ver, ouvir, sentir será armazenado no cérebro e irá compor suas ações no futuro. Conforme vai crescendo e interagindo com os adultos, a criança vai aprendendo o que pode ou não fazer. Começa a perceber que, ao chorar mais alto, por exemplo, a mamadeira vem mais depressa. Portanto, vale a pena ser manhosa, pelo menos de vez em quando. Quando joga um objeto no chão, é repreendida pela mãe, não ganha um afago e sim uma bronca. Sem contar que ela se depara

com a realidade nua e crua, nem sempre agradável: mães por vezes cansadas, camas frias, fraldas sujas, situações em que ela precisa reagir. Ou seja, a criança vai se construindo, devagarzinho, a partir dos outros. Sigmund Freud sustentava que o conflito aparece logo nos primeiros anos de vida, quando a criança começa a perceber que a mãe não é sua propriedade. Ela sente, aos poucos, a perda das atenções maternas, sua principal fonte de afeto, com a entrada de um terceiro elemento na história: o pai. Essa perda vem carregada de um sentimento de raiva. No desenvolvimento normal do indivíduo, esse conflito está na base da formação de uma personalidade capaz de limitar os impulsos instintivos. “Nascemos com um programa inviável, que é atender aos nossos instintos, mas o mundo não permite”, dizia Freud. Trocando em miúdos: somos seres sociais e, para estarmos vivos, precisamos sempre interagir com alguém. No momento em que ocorre essa interação é que surgem os conflitos. Não fale mais comigo Se os estranhamentos são inerentes à nossa vida em grupo, por que então cortamos a conexão com quem nos incomoda? Isso é nada mais do que uma consequência das contingências do mundo atual – que podem vir desde a infância. “Crianças educadas como pequenos reis, que tudo podem, certamente terão baixa resistência a frustrações na vida adulta.

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Quem for contra aquilo que ela pensa deve ser jogado fora e substituído por outra pessoa que não a frustre”, observa a psicóloga Mariângela Gentil Savoia. Além disso, como salienta o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, vivemos num tempo de pressa, em que as relações acompanham o modo de vida existente: o capitalismo, que tem “sede de consumo”, adora tudo o que for descartável, rápido e fácil de ser

Aprofundamento dá trabalho, requer calma, paciência e vontade. Coisa que não estamos mais acostumados a ter – em nenhuma esfera da vida. Fica tudo na superfície, como se provássemos as coisas (e as pessoas) aos pedacinhos. Já existe até um termo para isso: snack culture, ou cultura aos pedaços. “Ao descartarmos as pessoas o tempo todo, e não nos fixarmos em nenhuma relação, sofremos, pois precisamos de um grupo, de um lugar com o qual nos identificamos”, diz

Nosso caráter começa a ser moldado no momento em que começamos a interagir com tudo e todos ao nosso redor. trocado. Não vale a pena, portanto, investir tempo e energia em uma pessoa que está nos desagradando. Ele chama esse fenômeno de fluidez da existência contemporânea. “A vida numa sociedade líquidomoderna não pode ficar parada. Deve modernizar-se ou então perece. É preciso correr. Ligar-se ligeiramente é uma ordem. Não importa o que aconteça, propriedade, situações e pessoas continuarão deslizando e desaparecendo numa velocidade surpreendente”, afirma, em seu livro Vida Líquida (Jorge Zahar, 2005). Já que não dá tempo de nos aprofundarmos em nada, isso vale principalmente para os conflitos.

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Mariângela. “Até porque o conflito é uma oportunidade única de aprendizado, de entendimento de como o outro funciona.” Comunique-se melhor Os conflitos são, sim, inevitáveis e cada vez mais o mundo faz questão de descartar as pessoas. Qual é a saída, então? Um caminho é tentar minimizar esses conflitos. Boa parte deles acontece, acredite, por causa de palavras malcolocadas – e malcompreendidas. Fulano diz algo, você entende outra coisa, e pronto. Está armado um desentendimento. Segundo o psicólogo americano


Marshall B. Rosenberg, é na maneira pela qual falamos e ouvimos os outros que está a chave para o problema das discórdias. Ele, que desde a década de 1960 se dedica a promover o diálogo pacífico mundo afora, fundou em 1984, na Califórnia, o Centro de Comunicação Não Violenta. “A grande falha da comunicação está em apontar problemas nos outros em vez de olhar o que eles causam em nós. A comunicação começa quando expressamos nossos sentimentos. Não fazemos isso porque achamos que ficamos vulneráveis”, afirma. “Mas só assim criamos um relacionamento baseado na sinceridade. A partir do momento em que as pessoas falam o que precisam, em vez de falarem o que está errado com os outros, o entendimento aumenta.” Rosenberg ensina uma boa tática. O primeiro passo é reformular a maneira pela qual falamos e ouvimos. Se aconteceu alguma coisa que afeta o seu bemestar, procure dizer isso sem responsabilizar o outro. Por exemplo: se o seu colega de trabalho deixa a sua mesa bagunçada, em vez de bufar e armar um escândalo, você pode dizer a ele o quanto precisa de espaço e como fica incomodado. Repare: sempre o foco é você e não ele. Ao olhar um pouco mais para as suas próprias limitações e deixar de jogar o problema nas mãos alheias, tenha certeza de que a chance de entendimento será bem maior.

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reportagem

A hora de se desconectar Estamos tĂŁo acostumados com a conectividade que se desconectar pode ser angustiante. Mas precisa mesmo ser assim? Precisamos nos desconectar? Por Augusto Paim | Fotos AndrĂŠ Seiti

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O computador está ligado à internet. O celular jaz ao lado. O internauta já fez tudo o que tinha de fazer. É tarde, ninguém telefonará. Mesmo assim, há hesitação em desligar os aparelhos. Vai que entra um e-mail novo! Vai que há uma chamada urgente no meio da noite! Em maior ou menor grau, a maioria das pessoas vive essas angústias na hora de se desconectar. É o momento de dar as costas a um mundo cheio de oportunidades, contatos, encontros, reencontros, comunidades e conhecimento que a internet proporciona. Também quer dizer ficar desinformado sobre os acontecimentos do último segundo. Sentir-se aflito nessa hora é então normal? É necessário entender do que o usuário da internet sente falta. Como diz Patrícia Degani, mestra em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), “hoje o senso de território deixou de ser espacial para se tornar virtual”. Isso significa que nossas redes de relações não envolvem mais apenas o espaço do clube e da vizinhança, como há algumas décadas. A rede de identificações da atualidade pode unir, via internet, um brasileiro e seu amigo japonês, ou mesmo o brasileiro e seu compatriota que faz doutorado em Nova York. É corriqueiro uma pessoa sentir mais falta de falar com seu amigo via internet do que com o vizinho, com quem tem pouca coisa em comum.

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Adair Caetano Peruzzolo, professor de comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (RS), acredita que uma parcela da população procura na internet as relações que não possui presencialmente. A conectividade teria preenchido um vazio que existe desde quando as pessoas passaram a viver mais na cidade do que no campo, onde a vida comunitária tem muita importância. Com a migração para as cidades, houve a tentativa frustrada de construir essas relações no espaço urbano. A internet veio suprir essa necessidade, embora não a substitua. “O social tem de ser vivido no humano, não no tecnológico. Só o humano pode preencher o vazio humano”, alerta Peruzzolo. Estamos realmente (des)conectados? Juremir Machado da Silva, professor de comunicação da PUC/RS, propõe a seguinte questão: um homem com um celular no bolso, sem receber nenhuma ligação e sem ter para quem ligar, está realmente conectado? Outra: a ferramenta que permite a conexão está por toda parte, mas será que todos estamos de fato conectados? Machado acredita que se conectar de verdade é estar em sintonia com a ferramenta tecnológica, imergir nela, e que a maioria das pessoas está apenas semiconectada. Felipe Schroeder de Oliveira, psicólogo e professor do Centro Universitário Franciscano, de Santa Maria (RS), diz que estar na internet de certa forma anula a existência real. Daí vem a ideia de virtualidade. Mas é possível virtualizar-se mesmo desconectado. Como aponta Oliveira, a maioria dos casos de ansiedade que creditamos ao excesso de conexão não seria motivado pela ferramenta em si. Alguém com características ansiosas apenas manifesta pela internet algo que já possui na vida cotidiana. No Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o grupo de pesquisa Oficinando em Rede, coordenado pela professora Cleci Maraschin, leva a internet a pacientes do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Por meio de oficinas, os pacientes aprendem a construir novas redes de relacionamento, para além daquelas redes “reais” que os levaram ao adoecimento. O grupo se lembra de apenas dois jovens

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para os quais a internet acabou sendo prejudicial. Um deles era muito tímido. Outro tinha propensão ao jogo. Ambos os problemas vindos da vida real e manifestados também virtualmente. “A internet permite possibilidades infinitas de uso. Inclusive pode servir para manifestar o vazio humano”, comenta Machado. A ansiedade da desconexão também pode ser questionada. Como lembra Póti Gavillon, membro do grupo de pesquisa, uma pessoa digitalmente excluída pode ficar ansiosa tentando encontrar a letra A no teclado. Múltipla escolha Uma das acusações contra a internet é que ela permite um número extremamente amplo de possibilidades de identificação e tipificação, o que geraria confusão. O ser humano, antes tão acostumado a se enquadrar em um papel que a sociedade lhe impunha, hoje precisa decidir por contra própria o que ou quantos quer ser. A ansiedade, portanto, viria da escolha.


Patrícia acredita que o problema não está na escolha em si, mas na não escolha. A internet manifestaria, assim, uma angústia, tematizada pelo escritor francês André Gide, que em seu livro Frutos da Terra (Rio Gráfica, 1986) comenta como cada escolha representa uma renúncia a inúmeras outras possíveis. “Quanto menos educados para aceitar a frustração da não escolha, maior a ansiedade”, diz a pesquisadora. Machado não concorda. Acredita que já estamos acostumados com o excesso de opções. Ele lembra as inúmeras renúncias que fazemos ao escolher um prato no cardápio de um restaurante, e como isso não

Oliveira, porém, vê conflitos no ato de escolher na era da conectividade. “Como evitar a sensação de fracasso diante dos 80 canais de TV à que você não vai poder assistir?” A resposta seria mudar a pergunta: A quais desses 80 canais você gostaria de assistir? Para escolher, é necessário descobrir do que se gosta e do que não se gosta. É necessário encontrar-se consigo mesmo. Conectar-se “pela” e não “na” internet Segundo Oliveira, desconectar-se da internet não é assim tão necessário. Importante é conectar-se consigo para gerar escolhas, procedimento inerente às demandas da própria vida. Algumas escolhas já são corriqueiras, não geram angústia. Outras ainda geram. Escolher a profissão na hora do vestibular, por exemplo, é diferente de escolher que roupa vestir para sair de casa.

“Um homem com um celular no bolso, sem receber nenhuma ligação e sem ter para quem ligar, está realmente conectado?” (Juremir Machado da Silva) gera aflição. O professor percebe uma tendência atual do elogio à escassez como facilitadora da escolha. “Mesmo tendo possibilidades de fazer mais, aprendemos a escolher”, diz. Essa angústia pela multiplicidade de opções seria um momento de passagem, até a sociedade se acostumar com as novas ferramentas à sua disposição. E acrescenta: “No futuro, a internet vai ser como a geladeira, não vai chamar a atenção de ninguém dentro de casa”.

Sobre como encarar a conectividade, Oliveira diz que “é necessário sair da dependência e da passividade para tornar-se agente, ator principal de si mesmo”. Ele costuma brincar dizendo que devemos nos tornar na vida real nosso personagem no Second Life. “Ou melhor, você deve fazer na sua vida o que idealiza no Second Life: first life!” Uma sugestão para começar? Dizer olho no olho para o seu amigo o que você diz via testemonial (depoimento). Patrícia acredita que o verdadeiro sentido da vida, no fim das contas, está nas relações de afeto. Afinal, como se sentir único nesse mar de relações e identificações da internet? “Para o amigo do peito, só você é você”, ela diz. A internet (mas não só ela) “proporciona tantas relações sem fundura que esquecemos das relações realmente importantes”.

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mirada

Latinidade, latinidades Por que o Brasil dá as costas aos seus vizinhos? Existem símbolos que nos conectam à América Latina? Temos mais em comum ou nada que ver com nuestros hermanitos? Por Ronaldo Bressane | Ilustração Pedro Hamdan Conversando com o músico Siba, ele elogiava a semelhança entre a música do Brasil e a da Colômbia – havia sido convidado para levar sua Fuloresta do Samba ao Carnaval de Barranquilla. Lá se pratica folia afeita à pernambucana, calcada em blocos de rua e em diversidade musical, embora tenha também desfiles meio cariocas. Pelas tantas, Siba reclamava da rara liga cultural entre Brasil e países vizinhos. “A gente cultivou uma aversão estranha em relação à América Latina. E nos achamos muito: esse mito da supermusicalidade brasileira nos coloca como tendo a música mais rica do mundo... é uma ignorância”, afirmava o rabequeiro pernambucano. Parece que tudo o que vem da vizinhança é meio brega, inferior ao que se cria nos Estados Unidos e na Europa. Será uma vergonha da nossa herança ibérica comum?

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Siba soltou uma tese: nos anos 1970, tudo o que fosse falado/cantado/ escrito em espanhol teria conotação subversiva. “De lá para cá, o Brasil não quis mais saber da América Latina porque engoliu o preconceito inventado pela ditadura. Exaltar a latinidade na mídia era sinal de subversão”, explicava o mestre. Integrar o continente sul-americano seria se indispor com o grande irmão nortista – à época orquestrando a Operação Condor, destinada a varrer todo sinal de pensamento revolucionário. Faz sentido. É só pegar um jornal ou uma revista e comparar a “centimetragem” gasta com as culturas europeia e norte-americana. Se a imprensa espelha ou estimula nosso desinteresse, já é tema para outro artigo... O que se pergunta é se há algo que liga o

Brasil aos vizinhos fora a geografia ou o passado colonialista comum, e se existe, como apontou o músico Siba, um afastamento natural da simbologia brasileira em relação à cultura latino-americana – conforme sugerido pelo próprio desenho da América do Sul, em que o Brasil parece dar as costas a seus vizinhos. El hombre muerto e a musa mexicana Em Soy Loco por Ti América, canção de 1968, Caetano Veloso esboçava o retrato do continente. Como não podia dedurar o nome do guerrilheiro Che Guevara, recém-assassinado na Bolívia em 1967 (“El nombre del hombre muerto/Ya no se puede decirlo, quién sabe?/Antes que o dia arrebente”), o músico resolvia a questão poetizando: “El nombre del hombre es pueblo”.

Toda mulher latino-americana é meio Frida Kahlo: trágica e apaixonada, libertária e conservadora, feia e bonita ao mesmo tempo. A mulher latino-americana é uma improvável. Que povo identifica cada nação da América Latina? Todos e nenhum. Por isso um argentino barbudo que liderou a revolução em Cuba e foi morto na Bolívia pode ser um rosto possível. E se procurássemos por uma mulher para simbolizar nuestra tierra? Não pensemos em Nossa Senhora, puer fabor. Da de Guadalupe, índia mestiça, à Aparecida, nossa virgem negra, a mãe de Cristo é a imagem que une os povos mais católicos do planeta. Mas não creio que as mulheres latino-americanas sejam hoje assim tão católicas: é clichê tão recorrente quanto o da sexualidade vulcânica de nossas irmãs y hermanas.

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Em lugar dessa sexualidade midiática, turística e exagerada – e o kitsch é adjetivo que nos folcloriza –, privilegio o sensualismo como força política, não sexual. Parece que nós latinos gostamos mesmo de nos pegar, de nos tocar, de nos cheirar, de chegar junto. Distancio sensualidade de sexualidade: assim como quem dança salsa a noite toda com una chica pode só ganhar um beijinho na despedida, nem sempre as cachorras em suas poses safadas num baile funk estão prontas para o crime. É mais jogo que verdade tropical. Nem virgem de Guadalupe, ou Aparecida, ou de Copacabana, nem as pudicas deusas do sexo de Copacabana, nem as capitalistas jineteras de Havana. A América Latina como o “Viagra do mundo” é imagem tão equivocada quanto a de Evita Perón como a “mãe dos pobres”. Do meu ponto de vista, toda mulher latino-americana é meio Frida Kahlo: trágica e apaixonada, libertária e conservadora, feia e bonita ao mesmo tempo. A mulher latino-americana é uma improvável. Quizas, quizas, clichês Por falar em clichê, tem-se que parar com esse negócio de carimbar o continente pelo negativo. Da preguiça do povo que se perde em siestas y fiestas às repúblicas bananeiras “trambicadas” por ditadores, a carnavalização da latinidade funciona mais como método turístico do que como identidade cultural. No mercado da arte, transformar em produtos

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a esculhambação da política, o culto do machismo, a paródia dos sincretismos religiosos e a inserção de traços de paganismo e elementos tragicômicos populares típicos vende bem a imagem da América Latina como o Éden do subconsciente planetário. Nos anos 1960, o boom literário puxado pelo realismo fantástico de Gabriel García Márquez, Guimarães Rosa e Julio Cortázar impôs uma arte de altíssimo nível. Seu contraponto ideológico, porém, reforçou o subtexto de que no continente o intuitivo predomina sobre o cerebral, o espontâneo sobre o premeditado. A ambição por habitar um paraíso terrestre opõe-se ao desleixo com o planejamento: somos uns irracionais. Assim, a arte da gambiarra e o senso de improviso, o jeitinho, expressam, na chave popular, essa falta de apelo à razão, à organização.


Isso tudo acaba mal. Quando a política não resolve a equação do subjacente ódio à autoridade – desde sempre personificada nos colonizadores –, que se caracteriza de um lado pelo desafio ao conceito de ordem e de outro pelo temor à “otoridade”, a solução é a prática do massacre. De Canudos a Iquiques, da violencia colombiana aos desaparecidos na Argentina. Prefiro os latino-americanos que separam o folclore do subdesenvolvimento, como o escritor Roberto Bolaño. Chileno, fundou um movimento literário no México e se tornou ícone da literatura na Espanha. Sua obra paradoxalmente tão visceral quanto matemática dinamita as falsas fronteiras que estabelecem a latinidade como território do irracional. Simboliza tanto os escritores latino-americanos exilados quanto os seres globalizados órfãos de chão. Não à toa é um dos autores mais comentados no mundo. Em recente viagem à Colômbia, fiquei pensando no que nos une. De todos os países latinoamericanos, a Colômbia talvez seja o mais próximo do Brasil em termos de miscigenação – lá, como aqui, a mistura de partes iguais de etnias europeias, africanas e autóctones funcionou, resultando em um povo bonito, diversificado e surpreendente.

Um povo amante do alto contraste, simbolizado pela Serra Nevada de Santa Marta, a maior cadeia de montanhas do mundo à beiramar. Uma pátria tão amante do fatalismo quanto a mexicana (“Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”) ou a argentina (“El mundo fue y será una porquería”, canta o tango Cambalache), que produz mundialmente famosos como García Márquez e Fernando Botero e gênios do crime como Pablo Escobar. Do fatalismo latino-americano, cheguei ao abismo como símbolo. Não ao buraco em si – mas à vertigem de descer e de subir. Embora o rei da arte que nos une no continente, o futebol, seja o brasileiro Pelé, nunca houve jogador com tanta fome de abismo quanto o argentino Maradona. Este, porém, foi ultrapassado por outro obcecado por ressurreições e mortes, títulos e vexames: Ronaldo Nazário. Assim, se é para escolher um símbolo latino-americano, fecho com o Fenômeno, enquanto está em alta – e, por favor, sem aquele ridículo cabelo do pentacampeonato. Ronaldo Bressane é jornalista e escritor. Publicou, entre outros, a trilogia de contos A Outra Comédia, entre 1999 e 2003. Mantém o blog Impostor (impostor.wordpress.com).

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reportagem

O novo cavalo de Troia Projetos educacionais aumentam seu alcance e suas possibilidades com a internet. Por Luciana Veras Fotos Cia de Foto No Amazonas, índios praticam educação física em aulas sem a presença de um professor, mas, sim, de vários computadores. Na Bahia, adolescentes da periferia de Salvador aprendem noções de produção e sustentabilidade combinando música com tecnologia. Para ajudá-los, um micro, uma conexão banda larga e a internet, que, cada vez mais potente e acessível, sobressai como forte aliada da educação, seja formal, com a mediação de instituições de ensino, seja não formal, com o trabalho realizado por ONGs especializadas. Junto da tecnologia que, como ela, se desenvolve a galope, a web tem remodelado os parâmetros de ensino e aprendizado no país. Contudo, a consolidação do papel educativo da internet ainda está em processo. “Ela está para a informação e para o conhecimento como as estradas estão para a circulação de bens e produtos no mundo físico. Cada vez mais, as pessoas se comunicam superando barreiras de distância geográfica ou temporal e acessam um volume de conteúdos antes inimaginável. Essas facilidades representam tudo o que qualquer educador possa ter almejado um dia nos seus sonhos mais fantásticos. Mas o desafio, para além de dotar as escolas de computadores e de banda larga, é usar as novas tecnologias não só para melhorar a qualidade da educação, mas também para repensá-la”, sinaliza Carlos Seabra, consultor de tecnologia educacional e redes sociais e diretor de tecnologia e projetos do Instituto de Pesquisa e Projetos Sociais e Tecnológicos (Ipso). Foi o que se propôs a pedagoga Alessandra Pamponet, há seis anos à frente da Eletrocooperativa – organização não governamental soteropolitana que, nas suas palavras, usa “a tecnologia e a música como recursos principais para a formação de ‘sevirólogos’, que aprendem se virando e produzindo com os recursos que têm”. A ONG funciona em uma casa no Pelourinho com a missão de “transformar a vida de jovens excluídos com foco na inclusão musical através da tecnologia” oferecendo cursos de produção musical e formação de DJ. “Durante o processo formativo dos jovens, a web é usada o tempo todo para divulgação, pesquisa, ampliação das redes de relacionamento e trocas de experiência. É o meio para as ações da organização, o canal de comunicação, difusão e pesquisa, abrangendo alunos e colaboradores”, pontua Alessandra. O raciocínio dela é simples: não é a internet que atua na ONG, e sim eles que atuam nela como protagonistas. “Na educação não formal, ela é uma ferramenta para recriar visões, ações, produtos e até formas de vida. Para quem trabalha com arte e cultura, é um instrumento muito valioso. Na Eletrocooperativa, é usada até como geração de renda para os jovens. Quando precisam de trabalho, criam trabalho”, situa.

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Na Eletrocooperativa, a música destaca-se como poderosa aliada da educação

Victor Hugo, 22 anos, também conhecido como Haggar, descreve-se como “músico, rapper, beatmaker, radiomaker, videomaker e ‘sevirólogo’ ”. Aluno da Eletrocooperativa, ele admite que seria possível, sim, aprender as lições sem a internet. Mas a grande custo. “Ainda existe o boca a boca, o olho no olho, porém sem a internet não seria tão forte nossa ‘bomba atômica’. Não haveria a rapidez e a eficiência com que os nossos conteúdos circulam na rede”, sustenta. Ele reitera que se estabelece uma relação de mão dupla com a rede: “Consumimos e produzimos ao mesmo tempo. Não adianta só baixar coisas o tempo todo, é preciso contribuir também. Com a internet, que disponibiliza a troca de conhecimento em várias esferas, vemos infinitas possibilidades de trabalhar com qualquer tema e nos atualizarmos”. Casos como esse se reproduzem no Brasil. Se por um lado atestam a importância das iniciativas do terceiro setor em multiplicar o alcance das tecnologias, por outro comprovam que, munidos dos meios adequa-

dos, é certo que os jovens recorrerão à internet em busca de informação e conteúdo. Tome-se como exemplo o Second Life, uma plataforma que simula a realidade na web. Surgiu como uma febre, um jogo, uma brincadeira; contudo, já abriga diversas instituições de ensino, muitas delas reunidas na Ilha Vestibular Brasil. Apoiado pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior, é o espaço educacional do Second Life mais visitado do Brasil. Quem garante é o educador, pesquisador e gestor Maurício Garcia, idealizador do projeto. “O Second Life usa uma unidade chamada ‘traffic’ para medir a visitação dos espaços. A Ilha Vestibular Brasil possui um ‘traffic’ médio acima de 5 mil pontos. Ela foi o primeiro espaço temático brasileiro totalmente voltado para a educação. Para o vestibulando, o ambiente é uma oportunidade a mais para seu processo de decisão de onde estudar, pois poderá interagir com as instituições que ocupam o ambiente”, diz.

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Oficina de DJ na ONG baiana

De que maneira? “Desde assistindo a palestras de avatares até interagindo com objetos de aprendizagem construídos no ambiente”, responde Garcia. Ele é um entusiasta da expansão educativa propiciada pela internet: “A possibilidade de as pessoas colaborarem entre si para produzir uma Wikipedia faria pedagogos como John Dewey e Jean Piaget pularem de alegria. Duvido que, ao afirmar que o conhecimento devia ser construído ativamente pelo aluno, e não simplesmente transmitido pelo professor, eles poderiam imaginar que um dia isso viria a ocorrer efetivamente em plataformas colaborativas baseadas na web”. Mobilidade e flexibilização O conceito de uma construção ativa por parte do aluno norteia a ideia dos cursos a distância. Dados da

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Fundação Getulio Vargas (FGV) indicam que 2,5 milhões de brasileiros são adeptos da educação virtual. “Quanto mais a gente disponibiliza informação e conteúdo na internet, mais ávido é o povo brasileiro. Dentro de um consórcio de cursos livres iniciado em 2001 pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), colocamos seis cursos gratuitos na rede. Em seis meses, tivemos 205 mil entrantes”, argumenta o diretor da FGV Online, professor Stavros Xanthopoylos. Na FGV, são cerca de 30 mil alunos em cursos a distância, que variam de uma pós-graduação de 30 horas/ aula a um MBA de 22 meses de duração. Os preços vão de R$ 680 a R$ 18 mil. Para o diretor, as vantagens de uma conexão professor-aluno sem a obrigatoriedade da presença são inúmeras: “A vida exige mobilidade e flexibilização. Todos os cursos têm tutores especializa-


dos e conteúdos estudados e debulhados pelos participantes em encontros presenciais mais curtos, mais efetivos e de maior agregação de valor”. E as críticas são minimizadas. “Evoluímos do giz e da lousa para as transparências, o LCD e hoje temos a web. A internet não pode ser usada como transparências amareladas. Ela possibilita que lá na Amazônia índios saiam de suas aldeias para ter aulas e que em outros locais se resgate o ensino básico. O ensino a distância não é uma substituição, e sim a própria educação”, rebate Xanthopoylos. E, na legitimação da web como turbina-mor da educação brasileira, reina a certeza do combate à acomodação. “O futuro é agora e a internet deve servir para a democratização da informação e a geração de renda, mas temos que resolver o acesso para todos”, pondera Alessandra. “Iluminar tudo com wireless e micros baratos, gerar conteúdos adequados e capacitar os professores. A internet tem um papel fundamental na democratização do conhecimento para gerar desenvolvimento”, sugere Xanthopoylos.

O músico Victor “Haggar” Hugo faz um alerta. “É necessário ‘bandalargar’ o conhecimento com estações pela cidade, disponíveis de graça para as comunidades, mas precisamos rever a implementação, de forma produtiva, da internet na educação brasileira. Porque o tiro pode sair pela culatra e, em vez de criar jovens líderes, criaremos jovens estagnados, aprisionados em seus mundinhos virtuais”, comenta. “Mais do que transferir para a web os métodos tradicionais de ensino, é necessário estimular a imaginação dos alunos, o prazer de aprender, o protagonismo cognitivo”, complementa Seabra. Sua tese é que a internet será o novo “cavalo de Troia”, transpondo muros e incorporando novas missões. “A educação é algo sério demais para ser deixada somente para a escola. Ela tem de ser, ainda mais na sociedade da informação e do conhecimento, uma preocupação de todos. A rede mundial pode e deve ser a ferramenta para a construção dessa nova realidade.” Será difícil encontrar alguém disposto a contestar tal afirmação.

Estação com internet gratuita: necessidade de expansão

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reportagem

Ciranda, cirandinha As brincadeiras infantis são a primeira forma de as pessoas criarem conexões e formarem seu grupo. Por Fábio Prikladnicki | Fotos Edouard Fraipont O historiador holandês Johan Huizinga ficou célebre, entre outros motivos, por ter popularizado a expressão Homo ludens. No livro que leva esse título, publicado em 1938, ele defende a tese de que, além do raciocínio e do trabalho (como sugerem as denominações Homo sapiens e Homo faber), o ser humano é motivado por uma terceira característica. “A verdadeira civilização não pode existir sem um certo elemento lúdico”, escreveu. Alguns dos jogos e das brincadeiras que se conhecem hoje, como bola de gude e pipa (papagaio ou pandorga, dependendo da região do Brasil), remontam ao tempo do Egito dos faraós, da Grécia dos filósofos e da China milenar. O Rei Luís XIII, da França, brincava de pião, cata-vento e cavalo de pau. Até mesmo Dom Pedro II, que com 8 anos já se dizia enfadado com as diversões infantis, costumava ser o padre nas cerimônias imaginárias das irmãs. A brincadeira é uma atividade social por excelência. Não é à toa que o primeiro esconde-esconde é uma experiência entre o bebê e as pessoas com as quais ele estabelece conexões – quando a mãe ou o pai cobrem o próprio rosto e depois o destapam, arrancando uma gargalhada gostosa da criança. Mas é apenas

Brincadeira de criança: segundo o historiador Johan Huizinga, a civilização não existe sem um elemento lúdico

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mais tarde, quando os menores começam a interagir com outros da mesma idade, que as brincadeiras assumem sua importância definitiva. Essas atividades costumam ser transmitidas, principalmente, entre pares, e não tanto entre pais e filhos. De Huizinga até hoje, o assunto tem atraído, cada vez mais, a atenção de especialistas das mais diversas áreas. Não é exagero dizer que nunca se reconheceu tanto a importância do aspecto lúdico. “Toda brincadeira tem potencial para se tornar patrimônio cultural”, afirma Ana Maria Almeida Carvalho, professora aposentada de psicologia da Universidade de São Paulo e colaboradora da Universidade Católica do Salvador, na capital baiana. Como todas as formas de cultura, as brincadeiras se modificam com o tempo e com o lugar onde são praticadas – em regiões do Ceará, bola de gude é jogada com castanha de caju, por exemplo. Assim, é natural também que algumas dessas formas se percam, enquanto outras superem a passagem dos anos. “Algumas brincadeiras tradicionais permanecem porque têm uma estrutura profunda comum a todos os seres humanos. Envolvem componentes motivacionais básicos, como fuga, medo, excitação. É o caso do esconde-esconde e do pega-pega”, explica

Ana. Empinar pipa é uma prática encontrada em tantas civilizações – do leste distante (China e Malásia) à Grécia antiga – que alguns cogitam que ela possa ter sido inventada em diversas partes do mundo independentemente. “Atualmente, temos uma capacidade enorme de registro. Podemos não saber como era na Pré-História, mas sabemos como brincava Luís XIII”, compara. O monarca, que reinou na França entre 1610 e 1643, foi tema de uma célebre e polêmica tese do historiador Philippe Ariès. Analisando a maneira pela qual eram retratadas as crianças em pinturas, tapeçarias e outros registros da época de Luís XIII, ele concluiu que o conceito de infância, como viemos a conhecêlo, foi sedimentado apenas no fim do século XVII. Até então, as crianças eram representadas, na arte, como “adultos em miniatura”. De resto, não havia muito pudor moral com relação aos menores. O próprio monarca francês teria tido noções de educação sexual no mínimo precoces para o padrão atual, aos 4 anos. Bonecas loiras Uma grande mudança de comportamento aconteceu no século XIX. A divulgação, em larga escala, de práticas de higiene levou à redução da mortalidade

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O brincar como linguagem das crianças para entender o mundo

infantil. Os europeus começaram a se preocupar com a exposição das crianças ao sol. No Brasil, levavam-se os filhos para nadar no mar, com a ideia de fortalecer ossos e tecidos. Isso aumentou a expectativa de vida, e o apego dos pais cresceu na mesma medida. Essa é, também, a época em que a família real chega ao Brasil. Com a Abertura dos Portos, entram no país os primeiros brinquedos importados: soldadinhos de chumbo, bonecas de porcelana etc. Seu público-alvo era a prole da elite – as crianças pobres brincavam de empurrar argolas com um pedaço de pau e de amarelinha, entre outras. “A criança brasileira é mulata e negra. Mas as bonecas francesas, que chegam na segunda metade do século, introduzem no Brasil a noção do menino ou da menina louros como padrão de beleza”, diz a historiadora Mary Del Priore. As bonecas estão entre as brincadeiras encontradas em praticamente qualquer canto do mundo, sejam elas de porcelana, sejam de pano ou até mesmo de sabugo de milho – como Monteiro Lobato retratou em seu personagem Visconde de Sabugosa. Via de regra, a boneca introduz as meninas ao mundo da maternidade: ela é cuidada, amamentada e vestida pela criança. A responsável pela quebra desse padrão é, curiosa-

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mente, a boneca Barbie, criada nos Estados Unidos na década de 1960. Não é uma boneca como as outras. Inspirada nos símbolos sexuais de Hollywood, Barbie é adulta, tem seios proeminentes e uma cintura irreal. Hoje, extremamente popular pelo mundo afora, ainda é tema de debate. Os simpatizantes argumentam que representa a mulher moderna e independente. Mas isso não é ponto pacífico. “Ela não é uma boneca em si. Precisa dos artefatos para se promover: os vestidos, a cozinha. Sua única finalidade é ensinar a criança a consumir”, critica Mary. Um país imaginário Não apenas a Barbie, mas os brinquedos modernos como um todo têm motivado a preocupação de que estariam substituindo as brincadeiras tradicionais. A bola da vez são as diversões digitais – videogames e jogos de computador. As acusações mais frequentes são de que induzem a criança ao isolamento e, nos piores casos, estimulam a violência. Para Suely Fragoso, professora de comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS), não se trata necessariamente de uma coisa, nem de outra: “Na minha família, todos gostam de games, e tenho encontrado, cada vez mais, famílias assim. As coisas não se eliminam. As crianças continuam jogando futebol”. Ela acres-


centa que os jogos eletrônicos viraram uma espécie de bode expiatório dos males da sociedade. “É uma resposta fácil dizer que a culpa é dos games. A possibilidade de naturalizar a violência existe em tudo, mas pais e professores têm o papel de orientar. Temos que ensinar as crianças a parar para pensar”, diz. Há certo consenso, no entanto, de que as pressões da vida contemporânea têm diminuído o espaço para a brincadeira entre as crianças, seja ela eletrônica ou não. Nas famílias, não apenas o pai, mas também a mãe trabalham fora de casa, levando a criança a passar mais tempo sozinha. Além disso, o aumento da violência tornou as brincadeiras de rua perigosas.

É difundida a ideia de que, se os filhos passarem muito tempo brincando, não serão ninguém na vida. Assim, o tempo é preenchido com atividades consideradas mais “produtivas”. O ato de brincar é, mais do que nunca, disciplinado em casa, pelos pais, e na escola, pelos professores. Mas há tempo de mudar. “A interação lúdica não pode ter hora marcada. Enquanto se leva a criança para a escola, já se pode fazer uma brincadeira, como contar o número de sinaleiras abertas e fechadas”, diz o poeta e escritor Fabrício Carpinejar, que batizou um de seus livros com o nome de uma das brincadeiras

“É uma resposta fácil dizer que a culpa é dos games. A possibilidade de naturalizar a violência existe em tudo. Temos que ensinar as crianças a parar para pensar.” (Suely Fragoso) Como se não bastasse, o ato de brincar assumiu um papel negativo em muitos casos. Os filhos são preparados para um mundo competitivo desde cedo – às vezes precocemente. Como resultado, a infância encolheu. A psicanalista Ana Marta Meira é testemunha disso: “Recebo crianças supostamente com problemas psíquicos, mas na verdade o problema é que elas não brincam. O brincar é a linguagem que as crianças encontram para elaborar o mundo”.

mais tradicionais: Cinco Marias (Bertrand Brasil, 1998). Pai de Mariana, 15, e Vicente, 7, ele colocou a ideia em prática. Inventou, com o mais novo, um país imaginário chamado Lídimo (“autêntico”, em português mesmo). Carpinejar explica que se trata de uma “ilha perto da Oceania”. Tem moeda, bandeira e até hino nacional. “Meu filho me liga de repente para falar algo novo que inventou sobre o país. Isso nos coloca em uma brincadeira sem fim. Toda brincadeira é um segredo entre pais e filhos.”

Seriam os videogames um meio de estimular a violência?

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