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REVISTA

Esta edição da Continuum amplia o debate sobre arte política.

A blogueira cubana Yoani Sánchez evidencia o esgotamento de uma revolução que não se renova.

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E mais: O crack, um dos problemas sociais e políticos mais contundentes da atualidade, visto pelas lentes da arte. Chargistas falam de seus traços nos tempos da censura. A trajetória do crítico Mário Pedrosa, para quem a arte espelhava a vida em sociedade.

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Abra os olhos e sinta! A arte que cutuca a ferida, que é incisiva, que muitas vezes passa longe de julgamentos pautados pela beleza, que é partidária, que não se submete ao poder. Talvez precisemos mais dessa arte, em meio a um universo artístico dominado pelo conceito. Ela é necessária também perante a diluição provocada pelos aparatos da contemporaneidade, como a internet e as máquinas cada vez mais multiúsos. Uma arte que incomode nosso olhar, pacificado pelo consumo, é, sem dúvida nenhuma, um antídoto, uma tábua de salvação, um escape para outra realidade possível. Nesta edição, a Continuum faz eco ao tema proposto pela Bienal Internacional de Arte de São Paulo e dedica sua pauta à arte política. A reportagem de abertura pinça obras presentes na exposição para abordar as intenções de seus artistas ao criá-las, seja nos chamados anos de chumbo, seja na atualidade brasileira. Em outra matéria, artistas contemporâneos fazem uma leitura entre os tons bem-humorado e crítico da campanha eleitoral.

Ilustração: Renan Magalhães

A censura é o mote para os depoimentos dos cartunistas Ziraldo, Santiago, Luis Fernando Verissimo, João Montanaro e Elias Monteiro sobre a charge, gênero que se nutre do noticiário político. Figura essencial para a compreensão da produção artística brasileira dos períodos moderno e contemporâneo, o crítico Mário Pedrosa é relembrado no Perfil, que conta a história do homem saído de engenho pernambucano para engendrar uma experiência libertária de resistência artística. Música, teatro e literatura são convocados, em matérias distintas, para criar um panorama das manifestações da arte engajada. Na Entrevista, a criadora-intérprete de dança Vera Sala mostra como o corpo pode se manifestar politicamente. A situação sobre-humana dos dependentes de crack, num comovente ensaio fotográfico de Daniel Marenco; o relato inédito da premiada blogueira cubana Yoani Sánchez, sobre a derrocada da revolução castrista; e outro olhar sobre a questão da pirataria de bens culturais fecham a edição em tom de denúncia, elemento essencial a toda arte que se queira conscientizadora.

Continuum Itaú Cultural Projeto gráfico Jader Rosa Design gráfico Thiago Lacaz Edição Marco Aurélio Fiochi, Mariana Lacerda Redação André Seiti, Roberta Dezan Produção editorial Caio Camargo Revisão Denise Costa, Polyana Lima Colaboraram nesta edição Augusto Paim, Carlos Costa, Daniel Marenco, Derlon Almeida, Josely Vianna Baptista, Lia Letícia, Lourival Cuquinha, Marco Lourenço, Mariana Leme, Mariana Sgarioni, Maurício Nunes, Micheliny Verunschk, Patricia Cornils, Renan Magalhães, Renan Marcondes, Renata Ursaia, Rochele Zandavalli, Tatiana Diniz, Yoani Sánchez, Zé Otávio Agradecimento Carlos Zilio, Ivon Piccoli, Maitê Ciancaglini, Isabel Pedrosa, Vera Pedrosa capa Identidade Ignorada, 1974, de Carlos Zilio – fotografia p&b, 18 x 24 cm [múltiplo], coleção do artista reprodução fotográfica: Fabio Praça/Itaú Cultural

ISSN 1981-8084 Matrícula 55.082 (dezembro de 2007) Tiragem 10 mil – distribuição gratuita. Sugestões e críticas devem ser encaminhadas ao Núcleo de Comunicação e Relacionamento continuum@itaucultural.org.br. Jornalista responsável Ana de Fátima Oliveira de Sousa MTb 13.554 Esta publicação segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990, em vigor desde janeiro de 2009. Participe com suas ideias

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Reportagem 6. Uma arte política As artes visuais e a política se fundem para retratar a sociedade e ampliar a compreensão do mundo.

Reportagem 12. Esquiva, ataque e contra-ataque Veja por que a tomada de posição em relação a problemas políticos, sociais e éticos é tratada com mais leveza pelos artistas de hoje. 20. Vem aí a próxima piada! Cinco chargistas brasileiros falam de suas trajetórias e respondem à mesma pergunta. 48. Se você pudesse, fugia deste mundo “Lado B” de brega: descubra quem são os verdadeiros subversivos da MPB.

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52. Nervos e coração Ao levar suas questões ao palco, o movimento popular modifica o debate do teatro brasileiro. 56. Ganchos contemporâneos Veja por que a pirataria de bens culturais é diferente da de outros objetos de consumo. 60. Rebelião à beira de um mouse A internet como espaço de militância política modifica a era da democracia.


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Perfil

Espaço do Leitor

16. A pisada é esta Mário Pedrosa e sua vida entre a arte e a política.

40. Convocação Fique por dentro do tema da próxima edição e descubra como ser repórter da revista.

Fotorreportagem 26. A quebra Sem esperança: imagens revelam o abandono e a decadência de dependentes de crack.

Balaio 32. Sinais de alerta Dicas de livro, música, filme e fotografia com temática política.

Entrevista 34. Um lugar de errância e impermanência A criadora-intérprete de dança Vera Sala fala das relações de poder que atuam sobre o corpo.

41. Área Livre Confira os trabalhos dos leitores que unem a arte à política.

Artigo 44. Como tijolos numa construção Obras literárias que ajudaram a construir o mundo e outras que impulsionaram mudanças.

Mirada 64. O sonho de ninguém Lenta derrocada do sistema: revolução cubana esgota sua capacidade de renovação.

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Carlos Zilio, Lute, 1967-1998, serigrafia sobre filme plástico e resina plástica acondicionados em marmita de alumínio [apropriação], 5,8 x 10,5 x 17,5 cm, coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo (SP) | reprodução fotográfica: Romulo Fialdini

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reportagem

Uma arte política Partindo das artes visuais para incorporar outras manifestações da cultura, exposições reúnem produção de significado político e refletem sobre o tempo em que vivemos. Por Carlos Costa “As artes só emprestam aos procedimentos de dominação ou de emancipação aquilo que podem emprestar, isto é, muito simplesmente, aquilo que têm de comum com elas: posições e movimentos dos corpos, funções da palavra, repartições do visível e do invisível. E a autonomia de que podem gozar ou a subversão de que podem atribuir-se assentam na mesma base.” Jacques Rancière, A Partilha do Sensível – Estética e Política (Editora 34, 2005) Arte e política fazem parte da vida e se enredam, constantemente, retratando a sociedade e ampliando a compreensão do mundo. Em 2003, a exposição Arte e Sociedade – uma Relação Polêmica foi exibida no Itaú Cultural, sob a curadoria da crítica e historiadora da arte Aracy Amaral, apresentando um retrospecto histórico do Brasil, desde 1930 até aquele ano, com base na observação da produção artística de significados políticos e sociais. O mesmo argumento, arte e política, volta à baila como tema da 29a Bienal de São Paulo – em cartaz no Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera, até 12 de dezembro. Sem a preocupação do retrato histórico, a mostra, defendem os curadores Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, afirma que a dimensão utópica da arte está contida nela mesma, tomando como metáfora o verso do escritor alagoano Jorge de Lima: “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”, do livro-poema Invenção de Orfeu (1952). Como política é um terreno de delicadezas e liberdades, nada mais comum que as duas curadorias apontem para recortes distintos. As coincidências se resumem a alguns artistas, e, para compor o panorama, as artes visuais não são o único objeto de observação. Entram também o teatro e a música; e a cultura é visualizada em um conjunto. O passado como documento A exposição curada por Aracy em 2003 foi o mote para os três volumes da publicação Arte e Sociedade no Brasil (Callis, 2005), em parceria com André Toral. Nos livros e na mostra, o recorte artístico é permeado de vários momentos da história brasileira. Durante o período militar, por exemplo, emerge o trabalho dos Centros Populares de Cultura (CPCs) e da União Nacional dos Estudantes (UNE). Era também a época dos grandes festivais. Músicos como Chico Buarque, Geraldo Vandré e Edu Lobo driblaram a censura e conquistaram multidões.


No teatro, ganham espaço os movimentos de resistência à ditadura – como os liderados por José Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, e pelos artistas Zé Keti, Nara Leão e Maria Bethânia, reunidos em torno do show Opinião. O Movimento Pró-Eleições Diretas, na década de 1980, é outro fato marcante, sobretudo pela agitação social que produziu na classe artística. “Desejei mostrar como, com a queda das ideologias a partir de fins da década de 1980 (fim da Guerra Fria e da União Soviética), surge uma mudança de mentalidade das novas gerações em todo o mundo”, lembrou Aracy, destacando uma das diferenças conceituais de seu recorte com o da Bienal.

Rosto no Espelho (2009), sobre esses espaços, são os mais importantes representantes de grito por justiça social no cenário contemporâneo, desde os CPCs, lembrados por Aracy em sua pesquisa. Surgidos em 2004, esses pontos somavam, em abril de 2010, 3 mil instituições, espalhadas em 1.122 cidades brasileiras. Com apoio e financiamento do governo federal, mantêm ações de impacto sociocultural em suas comunidades, tendo a arte, seja qual for a linguagem, como base da ação. O uso de novas mídias – audiovisual e internet – também é ferramenta essencial. Política, arte e tecnologia. “É a primeira vez em nossa história que o governo federal apoia instituições culturais populares sem mandonismo centralista em relação a seu conteúdo”, defende Tapajós.

O presente como referência Onde estão os artistas? Na 29ª Bienal, o passado não voltou como documento. “Obras históricas foram incluídas apenas por importância para entender o mundo contemporâneo. Interessou-nos mais o reflexo do lugar e do tempo a partir dos quais o evento foi pensado: desde o Brasil e desde o momento de rápida reorganização geopolítica que vivemos”, explicam os curadores. Dessa forma, na Bienal, Zé Celso voltou à cena, com seu grupo, na remontagem da performance do carioca Flávio de Carvalho O Bailado do Deus Morto [ocorrida em 26 de setembro, no prédio da Fundação Bienal, em São Paulo. E chama atenção, como retrato do tempo em que estamos, a participação de representantes dos Pontos de Cultura do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, nos Terreiros – seis espaços alternativos à exposição, onde ocorrem eventos artísticos diversos. “Para aproximar áreas vizinhas do campo das artes visuais, como a música, o teatro e a dança, selecionamos artistas ligados aos Pontos de Cultura. Interessanos bastante o trabalho do Programa Cultura Viva de mapear matizes da produção artística do país que estão fora das zonas centrais de visibilidade e financiamento”, afirma o curador Anjos. E o que são os Pontos de Cultura? Para o cineasta paulista Renato Tapajós, realizador do documentário Um 8

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Questionada sobre o que ocorreu na produção artística brasileira após sua pesquisa, Aracy aponta: “A sequência de manifestações de arte política, por certo, veicularia a densa influência da internet no comportamento humano e artístico e aprofundaria a análise da presença da preocupação ecológica ligada ao marketing por meio de artistas visuais. Também a hipervalorização dos esportes competitivos, assim como a violência urbana sob todas as suas facetas, em particular em um país emergente que se quer desenvolvido.” A historiadora reforça a crítica ao suposto desenvolvimento brasileiro, lembrando o abandono às vítimas dos desastres ocorridos no Nordeste devido a fortes chuvas [em junho de 2010] e a outras questões sociais, deixando no ar a conclusão no comentário: “Tudo isso é política. E os artistas, onde estão?”. Na 29ª Bienal, aparecem 161 desses artistas e seus questionamentos. “Nosso entendimento do que seja o efeito político da arte ultrapassa a mera ‘conscientização’ sobre conflitos. Seja qual for a natureza desses conflitos, o fundamental é que a arte seja capaz de, por meio do impacto que possui sobre nossos sentidos, alterar o modo como nos relacionamos com nosso entorno físico, social e afetivo”, justifica Anjos.


Wesley Duke Lee, O Guardião; a Guardiã, as Circunstâncias (tríptico), 1966, técnica mista, 197 x 107 cm; 150 x 56 cm; 136 x 60 cm

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Assim, a curadoria da Bienal destaca o trabalho do Grupo Rex, que atuou em São Paulo, de 1966 a 1967, tendo como um dos mentores Wesley Duke Lee, falecido em setembro. Duas pinturas de Duke Lee estão, com trabalhos de outros integrantes do grupo (Geraldo de Barros, José Resende e Nelson Leirner), expostas na mostra. “O Grupo Rex, nos anos 1960 e 1970, era considerado alienado e elitista, em contraposição às correntes de arte da época. Eis que agora comparece na lista de artistas da Bienal”, contesta Aracy.

“O século XX lançou o fundamento para a articulação entre arte e política por meio da relação que estabeleceu entre arte e vida.” (Carlos Zilio) Com nomes como Carlos Zilio, porém, ambas as curadorias coincidem. Nascido em 1944, no Rio de Janeiro, Zilio produziu, nos anos 1960 e 1970, importantes obras de protesto contra a ditadura: uma máscara anônima amarela com o dizer vermelho Lute, dentro de uma marmita (Lute, 1967-1998); uma maleta de executivo cheia de pregos enfileirados (Para um Jovem de Brilhante Futuro, 1973/1974); e uma fotografia preto e branco dos pés de um suposto cadáver, com a identificação pendendo do polegar esquerdo “Identidade Ignorada” (Identidade Ignorada, 1974). O artista se dedicou à militância política, foi ferido em um confronto com a polícia e se exilou, passando a dedicar-se exclusivamente à pintura abstrata. “O século XX lançou o fundamento para a articulação entre arte e política por meio da relação que estabeleceu entre arte e vida”, comenta, defendendo que a produção contemporânea retrata desdobramentos desse pensamento sob forma de micropolíticas. Assassinatos e erotismo

Gil Vicente, Inimigos [série], 2005-2010, desenho – carvão sobre papel, coleção do artista

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O autor de um dos trabalhos da 29ª Bienal em que é mais manifesta a relação política com a arte é Gil Vicente. Nascido em 1958 no Recife, ele expõe dez quadros da série Inimigos – iniciada há cinco anos e composta de desenhos realistas em carvão sobre


Matheus Rocha Pitta, Provisional Heritage [série], 2010, fotografia, 24 x 16 cm

papel, tamanho próximo ao natural, nos quais o próprio artista está prestes a assassinar líderes políticos. Com arma de fogo, ameaça George W. Bush; o Papa Bento XVI; o governador de Pernambuco, Eduardo Campos; o senador Jarbas Vasconcelos, do mesmo estado; o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; a rainha do Reino Unido Elizabeth II; o Nobel da Paz Kofi Annan; o ex-primeiro ministro de Israel Ariel Sharon; e, feito especialmente para o evento, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. E, com uma faca, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Desde 2005 não voto – segue a mesma escrotice, a mesma falta de escola. Foi a tomada de consciência que me fez produzir isso. Revanche, vingança e alerta. Quando existia a ditadura, o desaparecimento de alguém da classe média causava revolta. Hoje, desaparecem vários de fome e ninguém faz nada”, declara. Na Bienal, o artista expõe também 20 desenhos em nanquim da série Suíte Safada 2, que retrata cenas eróticas em páginas de livros, nas quais curtos trechos do texto são preservados. ���É um ato político transformar o conteúdo do livro numa putaria”, comenta. Os desenhos dos assassinatos despertaram o repúdio dos dirigentes da Ordem dos Advogados do Brasil,

seção de São Paulo, e do Instituto dos Advogados de São Paulo, que divulgaram notas públicas contra a exposição da série por fazer apologia ao crime. Prática da arte política O artista mais novo presente na seleção da 29ª Bienal é natural de Tiradentes (MG). Matheus Rocha Pitta (1980) expõe a obra Provisional Heritage [Herança provisória], financiada pela Bienal. “Realizei o trabalho em junho, numa fábrica desativada que foi destruída em agosto, onde toneladas de sopa de tomate, café e chocolate, enlatadas, estavam armazenadas e abandonadas. Entrei no lugar e o usei como se fosse meu; no entanto, como o que havia ali não tinha valor de troca e sim de uso, utilizei os materiais no intuito de acelerar o consumo mais do que de devolver valor a eles”, conta Pitta. O resultado é um inventário visual dessas ações em duas séries de fotografias e um vídeo. “É também um esforço de trazer à visibilidade pública aquele espaço que não existe mais, com todas as contradições que ele carrega”, explica. Segundo o artista, com o financiamento de seu trabalho, a Bienal conseguiu ir além da teoria, estimulando uma prática da arte política.

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reportagem

Lia Letícia, Vendo Meu Voto: Tratar Aqui, ação realizada em Porto Alegre, em setembro de 2010 | foto: Rochele Zandavalli

Esquiva, ataque e contra-ataque Artistas contemporâneos mantêm impulsos políticos, mas se engajam com mais leveza que as gerações de 1960 e 1970. Por Tatiana Diniz Na campanha presidencial norte-americana de 2006, o artista visual Shepard Fairey imprimiu 350 pôsteres criados como estratégia de apoio à eleição de Barack Obama. Neles, via-se o rosto do, na época, candidato acompanhado de palavras como “esperança”, “mudança” e “progresso”. Com preço original de 45 dólares a unidade, foram revendidos por até 200 vezes esse valor em sites de comércio eletrônico como o eBay. Inicialmente criticados por “imitarem” a estética da propaganda política soviética, os cartazes de Fairey desencadearam, por sua vez, uma avalanche de cópias e até mesmo o surgimento de plug-ins que permitiam ao usuário a criação do “seu próprio pôster Fairey-Obama”. Renderam ainda ao artista uma noite na prisão junto a um grupo de amigos videomakers por colar ilegalmente as imagens em muros e paredes de Denver, capital do Colorado. Dois anos antes de o rosto de Obama virar arte contemporânea, a artista gaúcha Lia Letícia conseguiu, durante uma campanha eleitoral para a prefeitura de Olinda (PE), cem camisetas nas quais estampou os dizeres “Vendo Meu Voto: Tratar Aqui”. Um grupo de eleitores votou carregando a mensagem no peito. O acordo feito com a oposição, fornecedora das camisetas, determinava que a ação não se relacionasse à sigla do partido. A ideia de Lia nasceu em 2002, inspirada na situação de uma moradora de favela cujo voto era disputado por dois candidatos em troca da quitação de contas atrasadas. “Naquela campanha, fiz um broche com essa frase”, lembra a artista. Desde então, eleições são períodos em que Lia reforça seu “desativismo político”. “É um contra-ataque ao voto obrigatório. O circuito político se estrutura por meio dessa ferramenta legal, encontrando várias maneiras de se perpetuar e multiplicar. A forma expositiva e verbal que encontrei para discutir algumas dessas questões foi esse humor abestalhado, bobo, cretino. Lembro que a obra não se reserva direitos, portanto façam livre uso nessas eleições”, comenta.

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Heróis do Brasil Estamparia e cartazes lambe-lambes também fazem parte do arsenal que o artista paulista Ricardo Tatoo emprega na linha de camisetas TV Kills, marca sem fins lucrativos. “A ideia é usar as mesmas plataformas da propaganda para gerar uma rota de fuga”, diz. Em um dos modelos, o apresentador de TV Chacrinha é visto ao lado da frase “I Want You”; outro velho guerreiro menos bem-humorado, o Tio Sam, usava esses mesmos dizeres na convocação de recrutas para o exército norte-americano. Em outra estampa, o slogan “Vote Bob” acompanha o rosto do cantor jamaicano Bob Marley. “Louco por louco, vote Bob! É um deboche com a propaganda política, que invade nossas casas aos berros”, explica o artista. No decorrer de 2008 e 2009, com o projeto Heróis do Brasil, Tatoo grafitou suas versões nacionais de conhecidos heróis dos quadrinhos em cidades de cinco estados brasileiros. Nessas interpretações, a Mulher Maravilha é Irmã Dulce; o Homem de Ferro é o sociólogo Betinho; e o Justiceiro é o ativista ambiental Chico Mendes. Atualmente circulando com o projeto Grafite Cidadão, ele leva oficinas de grafite a ONGs, centros socioeducativos e escolas. O tema atual é uma campanha pela cidade limpa. Limpando as cidades com outra forma de grafite, o artista mineiro Bim Fernandez marcou a última Semana Experimental Urbana de Porto Alegre [em junho de 2010] com uma intervenção que debatia a epidemia de crack. Feito em uma área frequentada por usuários, o trabalho é uma imagem de Perseu segurando a cabeça da Medusa, acompanhado de um balão de texto em que se lê a frase “Pra que transformar tudo em pedra?”. Empregando a técnica de reverse graffiti, o artista retirou camadas já existentes de uma parede (como sujeira, musgo e fuligem de poluição) até formar a figura. Ricardo Tatoo, TV Kills Arte Ataque [série], camisetas com estampas

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“Na minha cidade, usuários de crack são chamados de ‘medusas’, numa alusão ao fato de que tudo o que veem, têm ou desejam é para transformar em pedra”, revela Fernandez, que diz pensar seus trabalhos como “levantes”: “São microrrevoluções que cumprem sua demanda ali e na hora. O importante é que consigam provocar alguma coisa, qualquer sentimento. Não gosto de pensar que gastei horas ou dias para criar algo meramente estético”, enfatiza. Tomada de posição

Imagem que integrou intervenção urbana de Bim Fernandez na Semana Experimental Urbana de Porto Alegre, junho de 2010

A abordagem de Fernandez dialoga com a noção definida por Hélio Oiticica em seu “Esquema Geral da Nova Objetividade” (1967). No texto, o item quatro enfatiza “a necessidade da tomada de posição em relação a problemas políticos, sociais e éticos, necessidade esta que se acentua a cada dia e pede uma formulação urgente, sendo o ponto crucial da própria abordagem dos problemas no campo criativo”. Para Oiticica, na ausência dessa consciência, o artista estaria “fadado a uma posição cada vez mais gratuita e alienatória ao persistir na velha posição esteticista, para nós, hoje, oca, de considerar os produtos da arte como uma segunda natureza em que se processariam as transformações formais decorrentes de conceituações novas de ordem estética. Definitivamente é essa posição esteticista insustentável”, escreve.

Com o fim da ditadura, pode-se dizer que as questões sociais se tornaram um dos grandes focos da ação artística mais engajada. Compartilhando desse estímulo, em 1970 Cildo Meireles chocou a plateia de Belo Horizonte durante a mostra Do Corpo à Terra ao atear fogo em dez galinhas vivas na obra Tiradentes: Totem-Monumento ao Preso Político. Amarradas no topo de uma estrutura composta de um quadrilátero de tecido branco em torno de uma estaca de madeira de 2,20 metros, as aves foram sacrificadas como metáfora das atrocidades cometidas contra os presos políticos na ditadura. 14

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Com o fim da ditadura, pode-se dizer que as questões sociais se tornaram um dos grandes focos da ação artística mais engajada. As épocas de campanha eleitoral com seus horários políticos televisionados e a repentina multiplicação de faces estampadas em papéis de todos os formatos também provocam uma ebulição de reações. Um grupo de identidade desconhecida fez circular em Pernambuco vídeos de uma ação intitulada Nonino Nino Nino, na qual tinta preta era jogada sobre os sorrisos agigantados dos políticos em outdoors na região metropolitana do Recife. As cópias foram deixadas em redações de jornais, galerias, museus e residências de políticos e atingiram diversos festivais de cinema no país. A autoria jamais foi reivindicada. Apocalípticos e integrados Se alguns artistas se alinham a causas, outros acirram o debate em torno das políticas institucionais a partir de radicalismos individuais. É o caso do carioca Fernando Peres, que, em uma de suas principais exposições, ateou fogo à própria obra e em seguida pulou a fogueira. Além de um leve eco do impulso piromaníaco de Cildo Meireles, Peres não apresenta mais traços da inflamada herança da década de 1970. Conta que presta muita atenção no horário eleitoral, mas

se recusa a portar um título de eleitor desde 1994: “Acho o maior saco ir votar e acho todos os políticos idiotas”, afirma. Fora o título, por quase uma década, optou por viver sem nenhum documento além da certidão de nascimento. Resistência cotidiana. Antigo parceiro de Peres no coletivo Molusco Lama, o pernambucano Lourival Cuquinha prefere costurar formatos políticos. Recentemente, dedicou-se a angariar cabos eleitorais para se eleger vencedor da versão on-line do Pipa, importante prêmio brasileiro que reserva uma vitória ao artista mais votado via rede social Facebook. Cuquinha divulgou uma literal compra de votos, oferecendo cinco centavos do dinheiro do prêmio a cada pessoa que o apoiasse, mais a possibilidade de ter sua moeda soldada numa obra em forma de pipa a ser leiloada, com lucro dividido entre o “eleitorado”. Chegou ao primeiro lugar em dias. A abordagem reproduzia a do Jack Pound Financial Art Project, no qual Cuquinha ativou, em 2008, uma rede de investidores que cederam notas de libras esterlinas para ser costuradas numa peça que reproduz o desenho da bandeira da Inglaterra. O trabalho foi a leilão durante a edição 2010 da Frieze Art Fair, que aconteceu em outubro, em Londres, e acabou sendo vendido por 17 mil libras.

Autoria desconhecida, Nonino Nino Nino, 2002, vídeos

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perfil

A pisada é esta A trajetória do crítico Mário Pedrosa, para quem a arte nunca esteve distante da política e da vida social. Por Mariana Lacerda Revolução, sensibilidade, intuição, transcendência. Liberdade. Essas são algumas palavras recorrentes em textos deixados por Mário Pedrosa – e não raro por aqueles que tentam entender e explicar os escritos deixados por ele sobre arte e política. Posto no lugar de um dos mais importantes críticos do Brasil e do mundo – muito embora, é provável, classificações assim pouco interessassem a ele –, seu trabalho inclui um sem-número de textos publicados em jornais, revistas e catálogos brasileiros e estrangeiros e a participação (e promoção) em diversos júris e concursos internacionais. Além disso, integrou a direção da Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica), dirigiu o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) no início da década de 1960 e, no mesmo período, a VI Bienal de Artes Plásticas. O currículo de Pedrosa e sua trajetória de vida, entre idas e vindas ao exterior, inclusive enquanto exilado, são extensos. De certa forma, espelham tudo aquilo que ele acreditou. A essência de sua lição: “O artista deve buscar na força expressiva da forma a possibilidade de reeducação da sensibilidade do homem, de modo a fazê-lo ‘transcender a visão convencional’, obrigando-o a enxergar o mundo com outros olhos e, assim, a ‘recondicionar-lhe o destino’ ”, escreveu a filósofa e professora aposentada da USP Otília Arantes, em seu livro Mário Pedrosa: Itinerário Crítico (CosacNaify, 2004), citando aquele a quem dedicou parte de seu trabalho de pesquisadora nessa universidade. ”Ele acreditava que a independência da arte e a revolução andavam juntas, batalhando para que o Brasil saísse do isolamento e se alinhasse à arte mais avançada do tempo”, escreveu Otília. Natureza generosa Mário Pedrosa nasceu em um engenho de cana. Era 1900, tempo suficiente para, anos depois, lembrar-se do ritual de lava-pés que negros já alforriados cumpriam na casa em que cresceu. Seu avô materno era o senhor dos engenhos Jussaral, Pindoba e Pindobinha. “Em Jussaral nasci eu”, escreveu Pedrosa em seu único texto de memórias, intitulado “A Pisada É Esta”, escrito em 1974 durante seu exílio em Paris (texto nunca revisto por ele). Jussaral pertencia ao distrito de Cruangi, no município de Timbaúba, região da Zona da Mata de Pernambuco. Foi o sexto filho do casal Pedro Cunha Pedrosa e Antônia Xavier de Andrade Pedrosa, que, além de Mário, colocou no mundo quatro moços e cinco moças.

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Mário Pedrosa em discurso na época em que dirigiu o MAM/SP, em 1960 | foto: acervo UH/Folhapress

Sobre seu pai, homem que teve carreira pública, Mário contou em seu relato que ele “guardou [...], ao fim e ao cabo, uma pureza nativa [...], uma capacidade de entusiasmos frequentemente ingênuos (que herdamos todos), uma tolerância instintiva, tribal, para os transviados, como eu”. “Ele sempre se entusiasmava, uma das características generosas de sua personalidade”, diz Bel Pedrosa, uma entre os três netos do crítico. “Ingênuo, nunca”, reitera ela. Era tido como o “diferente” da família. “Talvez por causa de sua escolha profissional”, diz Vera Pedrosa, filha única do casal Mário e Mary Pedrosa. “Mas eles sempre foram muito unidos”, diz Bel. “Na volta do último exílio até o fim da vida, por exemplo, conversava diariamente com seus irmãos por telefone. Por mais diferentes que fossem, isso jamais interferiu no amor, na amizade, na camaradagem e na confiança que havia entre eles”, explica ela. Bel lembra que, independentemente das diferenças, o avô sempre escutava seu interlocutor com atenção. “Fazia parte da sua natureza generosa.”

Fazer livre Com 12 anos, a mando do pai, Mário foi estudar na Bélgica. Era 1913, véspera da Primeira Guerra Mundial – motivo pelo qual foi transferido para a Suíça. Em 1916, de volta ao Brasil por causa desse conflito, foi morar no Rio de Janeiro, pois seu pai tinha se candidatado a senador por aquele estado. Formou-se em direito em 1923 e, dois anos depois, vinculou-se ao Partido Comunista. Tinha 25 anos. Em decorrência de ter se filiado ao partidão, viajou para Moscou a fim de estudar. Mas, ao passar pela Alemanha, em pleno inverno, adoeceu. E ficou em Berlim. “A tal doença permitiu que entrasse em contato com a arte moderna que ele, ainda pouco interessado no assunto, pôde presenciar na Berlim do expressionismo e da Bauhaus. Suas estreitas relações com Leon Tróstki fizeram dele secretário-geral da IV Internacional (organização fundada em 1938 e que tinha o revolucionário

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ucraniano como principal militante), o que o levaria a viver em Nova York nos anos 1940. Isso propiciaria o encontro com a crítica moderna norte-americana e a decisiva aproximação com [Alexander] Calder”, diz Francisco Alambert, professor de história da arte na USP e crítico de arte. Sobre a trajetória política de Pedrosa, Alambert acrescenta uma nota curiosa: em 1980, aos 80 anos, ele foi convidado a assinar a ficha número 1 de filiação ao Partido dos Trabalhadores (então um novo partido de esquerda). “Creio que esta é uma situação única no mundo: um partido socialista fundado por um crítico de arte!”, diz ele.

“[Pedrosa] reconhecia que, ao contrário das outras formas de conhecimento, a experiência estética é da ordem da intuição, mas essa ‘apreensão imediata’ requer estudo, ao longo do qual se prepara e cultiva a sensibilidade.” (Otília Arantes) Seu primeiro texto como crítico de arte foi escrito em 1933, para uma conferência sobre a gravurista alemã Käthe Kollwitz (1867-1945), cuja obra é marcada por temas como fome, guerra e pobreza. Tratava-se do ”primeiro estudo propriamente marxista de arte, e creio que uma novidade em toda a América”, escreveu Alambert em seu texto intitulado “1001 Words for Mário Pedrosa” [1001 palavras sobre Mário Pedrosa], espécie de apresentação do crítico brasileiro publicada na revista americana Art Journal em 1960. A partir daí, o militante da esquerda se tornou crítico de arte. Em sua visão, a arte e a política caminhavam juntas. “Para ele, a arte emancipadora significava o ‘exercício experimental da liberdade’. Essa arte, em suas vertentes construtivas e críticas, foi até certo momento o melhor laboratório da experiência possível de uma utópica situação social emancipada”, explica Alambert. 18

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“Exercício”, nas palavras de Pedrosa, porque ele acreditava na arte com um fazer atento às coisas. “Experimental”, porque o exercício artístico permite aos indivíduos uma relação mais aberta e livre com a matéria, reinventando sempre o mundo para não perdê-lo. “E, por fim, ‘liberdade’, porque a função do artista, como a do crítico, é extravasar no mundo vivido aquele conteúdo que precisou de liberdade para decantar-se segundo leis próprias”, diz Alambert.

A moda vai ao teatro

Figurinos peças são uma prova de que Colhendode sensibilidade... e utopias a moda certamente é arte. Fica claro então, explica Alambert, que, para Pedrosa, o potencial emancipatório da obra de arte deriva da possibilidade de um fazer diferente e, portanto, livre. “Mas fazer ‘livremente’ nunca significou para ele fazer qualquer coisa, uma vez que sem reflexão apenas se repete aquilo que o mundo dita ou ensina a fazer. Por isso nem toda forma de arte, para ele, vale como exercício de liberdade”, diz o crítico.


Por isso, também, ele “achava que a crítica precisava se renovar, revendo suas ideias de método e rigor [...] É verdade – reconhecia – que ao contrário das outras formas de conhecimento, a experiência estética é da ordem da intuição, mas hoje, como ontem, essa ‘apreensão imediata’ requer estudo, ao longo do qual se prepara e cultiva a sensibilidade”, escreveu Otília. Apesar de acreditar numa arte autônoma, que se entrelaça com a liberdade social, Pedrosa soube ver e reconhecer os desenlaces, no decorrer da história, de crises e impasses – políticos e econômicos (a sociedade de consumo). Na década de 1960, começa a chamar de pós-moderna a arte contemporânea. “Queria marcar com esta denominação uma dupla diferença em relação à arte moderna: no plano dos meios, a predominância do suporte eletrônico e tudo o que daí segue no domínio da informática”, escreveu Otília. E começa a observar a mudança do mundo refletida nas artes. Talvez por isso mesmo tenha dito (no texto “Lance Final”, publicado no livro Forma e Percepção,

Conheça trecho de crítica escrita por Mário Pedrosa Ensaio de 1960 reflete sobre a obra da artista Lygia Clark. “O espectador não é mais um sujeito passivo e puramente contemplativo em face do objeto; nem tampouco um sujeito egocêntrico que para se impor nega a obra, o objeto, como na pintura e na escultura romântica e baixamente naturalista, ora em moda, que foge à realidade exterior, acovardada diante das dificuldades e complexidades do mundo contemporâneo, numa posição inteiramente solipsista. A nova arte de Clark

lançado pela Edusp, em 1996): “Tudo se passa como se o velho homem estivesse a preparar-se para deixar [...] o casulo dentro do qual até aqui viveu, do seu arcaico habitat [...] e sair por aí a debater-se, incerto e corajoso, num outro habitat cultural que ele mesmo veio criando, ou se vai formando, já agora por si mesmo, e que também vai transformando, de contradição em contradição”. Mário Pedrosa trabalhou até o fim da vida. Aos 80 anos, empenhou-se na edição do livro Museu de Imagens do Inconsciente, publicado pela Funarte no ano seguinte, 1981, quando sua coletânea de textos Dos Murais de Portinari aos Espaços de Brasília também é lançada pela Editora Perspectiva. No mesmo ano, morreu em seu apartamento, no bairro carioca de Ipanema. Tinha um câncer. Seu enterro foi marcado pela presença de inúmeras pessoas, inclusive pelo atual presidente do Brasil, então líder do cenário político de uma esquerda que Mário ajudou a criar e a fortalecer.

convida o sujeito-espectador a entrar numa relação nova com a obra, quer dizer, com o objeto, de modo a que o sujeito participe da criação do objeto e este, transcendendo-se, o reporte à plenitude do ser. A arte moderna começa a romper de novo com o obscurantismo romântico e, retomando uma atitude otimista, se propõe vencer com o homem e para o homem o enigma do mundo, e lhe recondicionar o destino. As atuais realizações de Lygia Clark têm esse papel.” Trecho da crítica intitulada “Significação de Lygia Clark” (catálogo do MAM/RJ, 1963), citado em Mário Pedrosa: Itinerário Crítico, de Otília Arantes (CosacNaify, 2004), p. 164 e 165.

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reportagem

Vem aí a próxima piada! Cinco chargistas brasileiros falam de suas trajetórias e visões acerca de seus trabalhos: o humor que não apenas persegue panoramas sociais e políticos, mas também está às voltas com as paixões e as fraquezas humanas. Por Augusto Paim Vinte e cinco anos após o fim da ditadura no Brasil e tendo a política em voga com o período de eleições, a Continuum propôs a cinco chargistas brasileiros a seguinte reflexão: “Sem ditadura e sem censura, para onde se volta o chargista político hoje?” . As respostas são tão variadas quanto os perfis dos chargistas: veteranos como Ziraldo, Santiago e Luis Fernando Verissimo aparecem ao lado de João Montanaro, que aos 14 anos de idade assina a charge política do jornal Folha de S.Paulo. Também há depoimento de Elias Monteiro, chargista do jornal Diário de Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul. Eles contam sobre o que você vai rir – ou chorar – amanhã. E sem censura!

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Ziraldo Não é que os chargistas da época da ditadura tenham sido melhores que os de hoje. Quer dizer, acho que são – mas isso é uma opinião pessoal. Acontece que a grande maioria de seus leitores era como eles, contra a ditadura, contra a falta de liberdade de expressão, contra a violência da repressão e a favor da democracia. O alvo de suas charges era um só: os ditadores. Por esse motivo as charges eram entendidas mais rapidamente, circulavam com mais eficiência. De todo modo, o chargista prefere ter menos sucesso pessoal e mais liberdade. Hoje, na democracia plena, em que todos têm o direito de expressar o que pensam, é a opinião pessoal do chargista, isoladamente, que transparece no seu trabalho. Não há um alvo fixo. Cada cidadão tem sua opinião e o chargista, querendo ou não, revela suas tendências.

“Enquanto existir a chamada fraqueza humana, o humorista ainda vai ter motivos para o seu trabalho.” (Ziraldo)

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O que é sentença, o que não pode existir no seu trabalho é a “charge a favor”. Vai daí, muitas vezes, que o leitor – ou decodificador – não consegue entender contra quem o chargista está. Mesmo assim, sobra muito assunto para uma boa charge. A corrupção ainda permeia a vida pública, a violência continua assolando o país em todos os níveis (de baixo para cima ou de cima para baixo), a injustiça social continua gritante, a hipocrisia e a mentira ainda imperam – e isso não vai mudar nunca. De forma que, enquanto existir a chamada fraqueza humana, o humorista ainda vai ter motivos para o seu trabalho.

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Santiago O problema para mim é sempre o mesmo: nunca sofri censura externa nos jornais pelos quais passei (trabalho desde o período do governo Geisel), mas, sim, interna, feita pela direção do veículo. No período Collor, quase 30% do que fiz criticando o “caçador de marajás” no Estadão foi recusado pelos editores. Em meu último emprego, no Jornal do Comércio, de Porto Alegre, fui demitido por fazer uma crítica que desagradaria aos anunciantes. O dono do jornal se recusou a publicar. Sei que a censura interna continua. A mídia, por exemplo, se recusa a discutir transporte porque as montadoras – poderosas anunciantes – não querem que se diga que a única saída para o planeta é o transporte coletivo e a restrição ao carro particular. A falta de autocrítica nos grandes meios é também uma forma de censura. A verdadeira “não censura“ é quando tenho direito de publicar e discordar do meu próprio jornal. Um dos pouquíssimos que fazem isso é Luis Fernando Verissimo.

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Luis Fernando Verissimo Não conheço muito o humor escandinavo, mas tenho certeza de que há chargistas até na Islândia, e que não lhes falta assunto. Onde há gente e governo há matéria para crítica ou pelo menos para piada. Claro que quanto mais racional e organizada – isto é, sem graça – for uma sociedade, sem falar em quanto mais longo for o inverno, menos conflitos haverá e, portanto, menos razão para o humor crítico. Mas conflitos sociais não são indispensáveis para a charge, bastam as paixões e as fraquezas humanas. A prepotência, a hipocrisia, a ganância e outros alvos existem em qualquer latitude, sob qualquer regime. Em países menos escandinavos, em que os conflitos sociais são evidentes e os governos muitas vezes tendem a ser ditatoriais, ou com pendores totalitários, os alvos estão mais à vista e as charges são mais consequentes – quando não são proibidas. Durante os 20 anos da nossa última ditadura, não havia dúvida de quem era o inimigo. Depois que abriu, pulverizaram-se os alvos, ou o consenso de quem merecia ser alvo. Mas a charge não ficou sem assunto ou sem serventia. Continua necessária e pertinente. Tanto aqui quanto na Islândia. 24

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João Montanaro Nasci em 1996, mais de uma década depois do fim da ditadura. Acredito que na época do Pasquim era mais desafiador fazer charges; o chargista realmente colocava o dedo na ferida. Também havia mais espaço: em razão da censura, muitas matérias caíam e o diretor do jornal precisava usar desenhos para preencher os vazios da página. Hoje é essencial que o chargista seja apartidário – eu procuro ser nas minhas charges para a Folha de S.Paulo, principalmente em época de eleições. Tem de meter o pau em quem estiver fazendo mais besteiras. Nunca fui censurado. No entanto, há chargistas que são pautados pela redação. Eu não sou, mas preciso enviar três trabalhos não finalizados para o jornal. E eles escolhem um. Eu já fazia charges havia dois anos, para mim mesmo, sempre depois de ver o Jornal Nacional. Para fazer charges é necessário estar bem informado, tem de ler jornal. Acho que é esse o desafio para os chargistas nascidos no fim da década de 1990. Superando isso, acho que a nova geração pode desenhar qualquer coisa, menos Maomé.


Elias Monteiro Chargista de jornal do interior, no mundo globalizado, vive os mesmos desafios de seus colegas do mundo inteiro. E jamais estivemos livres da censura. Enganase quem diz que ditadura é coisa do passado. Ela está aí e atende por outro nome: mercado. Na ditadura militar nosso inimigo nos achatava com repressão ostensiva, hoje ele domina a arte da dissimulação, mas ainda nos reprime: não nos joga nos porões. Ele nos joga para a margem. Na ditadura de nossos dias, o censor é sempre um ser intangível, mas é ele quem temos de atacar. Nosso alvo segue sendo o sr. Poder: a ditadura da programação televisiva, que emburrece; a ditadura da beleza, que escraviza; a ditadura do poder econômico, que mata de fome... Basta que o chargista atinja o ponto certo para ver a censura emergir. Porque toda censura emana do poder.

“Conflitos sociais não são indispensáveis para a charge, bastam as paixões e as fraquezas humanas. A prepotência, a hipocrisia, a ganância e outros alvos existem em qualquer latitude, sob qualquer regime.” (Luis Fernando Verissimo)

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fotorreportagem

A quebra Fotos Daniel Marenco [provacontato.blogspot.com] Retratos de dependência e abandono protagonizados por corpos magros e ausentes de esperança e de políticas públicas que lhes apontem novos e melhores caminhos. O olhar torna-se mais incômodo ao passar das imagens, que mostram gradualmente a apatia de quem não encontra saídas possíveis para o vício. Tristes passagens da realidade brasileira revelam a decadência proporcionada pela droga, no ensaio fotográfico Crack, produzido em Porto Alegre, em 2009. 26

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balaio

Sinais de alerta Obras audiovisuais, musicais, literárias e fotográficas mostram o poder da arte diante de opressões políticas. Por André Seiti | Fotos divulgação

cinema A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck (Sony Pictures Classics, 2006) Um metódico integrante da Stasi – polícia política da ex-Alemanha Oriental – é encarregado de espionar um casal de artistas em busca de provas contra o governo. O que era para ser uma simples missão acaba se tornando um conflito moral que provocará mudanças irreversíveis na personalidade do agente secreto.

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cinema

LITERATURA

A Batalha do Chile, de Patricio Guzmán (Videofilmes, 1975, 1977, 1979) Considerado pelos críticos um dos mais importantes documentários sobre a América Latina, esta obra, dividida em três partes – A Insurreição da Burguesia, O Golpe Militar e O Poder Popular –, registra um dos períodos mais conturbados da história chilena: da tentativa do presidente Salvador Allende de implantar um regime socialista aos episódios que resultaram na ditadura militar de Augusto Pinochet.

Esaú e Jacó, de Machado de Assis (original, 1904; sugestão de edição: Martin Claret, 2002) O penúltimo romance de Machado de Assis, escrito quatro anos antes de sua morte, conta a história dos gêmeos Pedro e Paulo, uma analogia direta com os personagens bíblicos que dão nome à obra. Tendo como pano de fundo eventos políticos como a Proclamação da República, o livro traça uma espécie de paralelo entre a trajetória dos irmãos – um republicano e o outro monarquista – e a própria história do Brasil.

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LITERATURA Os 120 Dias de Sodoma, de Marquês de Sade (sugestão de edição: Iluminuras, 2008) Quatro poderosos membros da nobreza francesa se enclausuram por 120 dias em um castelo, na companhia de prostitutas e pré-adolescentes (que foram sequestrados). Durante esse período, cometem as mais diversas e absurdas atrocidades. O livro foi adaptado para o cinema por Pier Paolo Pasolini em 1976 – o diretor trouxe a história para uma Itália fascista – e para os palcos, entre outros, pela companhia paulistana de teatro Os Satyros, que contextualizou a obra na cidade de Brasília, em 2006.

MÚSICA Show Opinião, de vários artistas (Phillips, 1965) A apresentação, que mesclou teatro e música, dirigida por Augusto Boal e produzida pelo Teatro Arena e pela União Nacional dos Estudantes, reuniu composições com alto teor de contestação social e política, em pleno ano de 1964. Com interpretações de Nara Leão, João do Vale e Zé Keti, o espetáculo se tornou referência da resistência durante os anos de chumbo.

FOTOGRAFIA Walter Astrada (walterastrada.com) Adepto do fotojornalismo clássico, o argentino Walter Astrada testemunha, ao redor do globo, problemas sociais e políticos que o resto do mundo parece não enxergar – ou prefere não enxergar. Em seu site, é possível conferir diversos ensaios, entre eles a série de imagens sobre a violenta eleição presidencial no Quênia, em 2007, que lhe rendeu o prêmio World Press Photo, em 2008.

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Vera: “[A dança] é sempre política, no sentido de trazer diferentes visões de mundo.”


entrevista

Um lugar de errância e impermanência Por Marco Aurélio Fiochi | Fotos André Seiti e arquivo da artista As relações de poder que atuam no corpo são o centro da pesquisa da criadora-intérprete de dança Vera Sala. Professora do curso de comunicação das artes do corpo da Faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC/SP, onde desenvolve em grupo sua produção, Vera investiga um lugar marcado, entre outros elementos, pela transitoriedade e precariedade. Vulnerável às limitações impostas por fatores externos, como arames ou cacos de vidro, é nesse espaço que o corpo tem de se organizar ou reorganizar. Sua trajetória, iniciada em 1987, já deu frutos diversos, como os espetáculos Espelho d´Água (1996), Estudo para Macabéa (1998) e Corpos Ilhados (selecionado pelo Rumos Itaú Cultural 2001), realizados em palco convencional. Desde 2003, vem incorporando ao trabalho estruturas as quais batizou de Corpo-Instalação e que se modificam a cada estágio da pesquisa. Desse processo contínuo surgiram ImPermanências (2006) e Disposições Transitórias ou Pequenas Mortes (obra dividida em procedimentos, iniciada em 2007). Premiada, entre outros, pela Associação Paulista dos Críticos de Arte na categoria criação-intérprete em 2005, Vera acredita que a dança, tanto quanto as outras artes, é sempre política. “A política está na forma até mesmo quando esta não é organizada, quando se deixa ao acaso. Isso também é uma posição política.”

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Fios de arame como elemento de contenção em ImPermanências | foto: Jorge Etcher

Em que medida a dança carrega em si uma expressão política? A dança é uma maneira de organização de determinadas questões. Ela é, tanto quanto as outras artes, sempre política, no sentido de levantar hipóteses e trazer diferentes visões de mundo. Pode reforçar certo status social, afirmar um pensamento ou propor outro. Não tem a ver com o tema que se escolhe, mas, sim, com a maneira como se organizam o corpo, as relações de espaço e o fazer da dança. Pode-se falar sobre um tema absolutamente banal, mas com uma forma de organizar que aponte para uma reflexão. Pode-se fazer um tema dito político, mas de uma maneira absolutamente contraditória. Sempre se trabalha com questões, visões e relações de poder. A política está na forma até mesmo quando esta não é organizada, quando se deixa ao acaso. Isso também é uma posição política. Cite algumas obras de dança que tiveram intenção política. Essas obras a marcaram pela atitude de cutucar determinadas feridas ou por uma ruptura estética? Posso citar as obras do [coreógrafo americano] Merce Cunningham [1919-2009]. Ele introduziu 36

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uma série de modos de criação, que são uma ruptura política, no sentido de carregar outra visão de mundo. Em sua forma de organizar a dança, escolhia o acaso, tirava a hierarquia do espaço e do corpo. Nas obras criadas antes dele, havia uma hierarquia na organização da espacialidade. Cunningham rompe com isso, mas sem uma postura panfletária. A estrutura de suas obras ajuda a repensar as relações de poder. Alguma de suas obras teve a intenção de conscientizar? Nunca tive a intenção de conscientizar, mas, sim, de fazer as pessoas refletir. Desde o começo de minha criação, fui passando por momentos bastante diferentes, mas o que mais motiva a minha pesquisa é pensar que corpo é esse que discute as relações de poder e o estar no mundo hoje. Quero dar visibilidade a um tipo de corpo que tenha organização própria. Para mim, interessa muito trabalhar com a precariedade, a instabilidade e a transitoriedade. Por exemplo, a pesquisa para a instalação que estou desenvolvendo no momento já vem de quatro anos. Iniciei esse trabalho sozinha e agora o estou desenvolvendo em grupo.


Trata-se de um campo aberto de trocas. O público, ao entrar nesse espaço, tem uma experiência sensóriomotora. Ele causa instabilidade, não se sabe onde se está, se o que se vê é real ou não, porque há várias coisas que refletem. Há pessoas que saem da instalação completamente à deriva. Faz sentido à arte contemporânea falar de política ou falta a ela mais abertura para essa questão? É difícil generalizar. É lógico que há trabalhos que produzem imediatamente uma reflexão política. Hoje se fala muito em pesquisa, e isso quer dizer que

O uso que se faz do corpo, num país que tem uma relação muito diferenciada com ele, que esbarra na moralidade, mas também em certa permissividade, é uma preocupação em seu trabalho? Em primeiro lugar é errado falar “o corpo do brasileiro”, porque dessa forma se exclui a diversidade de regiões, de culturas. Se reduzirmos tudo a “o corpo do brasileiro”, anulamos o que é mais importante: as diferenças. Alguém que vive no campo tem um corpo totalmente diferente daquele que vive numa cidade. Tem ações, percepções e possibilidades físicas distintas. O que há no meu trabalho é um recorte, um pensamento sobre

É errado falar “o corpo do brasileiro”, porque dessa forma se exclui a diversidade de regiões, de culturas. Se reduzirmos tudo a “o corpo do brasileiro”, anulamos o que é mais importante: as diferenças. é preciso encontrar uma nova organização para dar conta da atualidade. Deve-se olhar como os artistas estão propondo outra organização de suas obras, porque isso abre uma possibilidade, a quem entre em contato com elas, de promover novas reflexões, ter outro olhar, fazer conexões diferentes. Isso ajuda a reorganizar a relação das pessoas com o mundo. É política no sentido mais amplo da palavra. Posso falar da relação entre homem e mulher, de amor, e fazer isso de forma extremamente política. Sua pesquisa do corpo é ligada à mobilidade, à motricidade, às possibilidades que o corpo pode oferecer em movimento? Sim, e também ligada ao não movimento. Em alguns trabalhos, eu me imobilizo, eles são estáticos. Num dos meus espetáculos [ImPermanências, de 2006], o corpo está imerso em um monte de fios de arame, que o contêm. Mas não quer dizer que não haja movimento. É outro tipo de mobilidade. Esses micromovimentos, essas microações me interessam muito. Não é preciso fazer algo grandioso para ter visibilidade.

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aspectos que me interessam no corpo: a precariedade e a instabilidade, que são questões que vêm das relações de poder. A mim interessa, por exemplo, a fronteira entre a vida e a morte. Como essa potência coabita o cotidiano. Tenho interesse pela violência implícita e explícita que vem das relações de poder. Comecei a criar em 1987 e essa questão já estava em meu trabalho. Mas ela foi se desdobrando. Até 2000, fazia trabalhos no palco. De lá para cá, passei a buscar o que chamo de Corpo-Instalação. São ambientes que produzem outra relação com o corpo e com o público. É um lugar que permite às pessoas certa errância.

Dar aulas em uma universidade é algo que toca bem de perto a questão política, nem que seja a política acadêmica. Como professora, você sente a necessidade de vestir um personagem mais político do que aquele que veste como artista? Não consigo ver a separação desse ser político que é artista daquele que está dando aulas. Não tenho um “casaquinho” de professor e um “casaquinho” de artista. Acho que o fazer artístico exige 24 horas uma postura diante das coisas, uma forma de atuar no mundo. Isso ocorre tanto na hora em que se apresenta o trabalho,

Não consigo ver a separação desse ser político que é artista daquele que está dando aulas. O fazer artístico exige 24 horas uma postura diante das coisas, uma forma de atuar no mundo. Num ambiente de contenções, como no espetáculo ImPermanências, os movimentos são espontâneos ou coreografados? Na verdade, trabalho com conceitos de movimento, com qualidades de movimento, não com uma partitura fechada, um desenho. Não penso “vou fazer assim ou vou fazer assado...”. Até porque a discussão, nesse trabalho com os fios, é sobre a relação, a coadaptação do corpo ao arame. Só posso me mover de acordo com o que aquela estrutura me permite, e ela também é móvel. Então, às vezes, ela impede o movimento em determinada direção, e não dá mais para ir por ali. Se a gente fizer um paralelo, isso ocorre a todo momento com as pessoas. É a vida, não é? Nesse espetáculo, não posso ter uma partitura. Não posso dizer “quero neste momento mexer a mão para a direita e a cabeça para a esquerda”, porque às vezes não dá, o arame me impede e tenho de achar outro caminho. Peter Pál Pelbart [filósofo brasileiro] aborda em um de seus textos a capacidade de ser afetado e de afetar. Ele acredita que as pessoas têm de ter certa fragilidade para ser afetadas e, ao mesmo tempo, uma grande força para se deixar afetar. Então, não posso endurecer a ponto de dizer “quero, eu vou” e aí me machucar inteira, porque o arame não me vai permitir fazer. Se eu me deixar afetar, meu corpo encontra outros caminhos para sobreviver com essa contenção. 38

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quanto nas ações que precedem o resultado final. Nesses momentos se organiza o trabalho, mas também são ações que determinam a relação do artista com sua obra. Na dança, tem de se lidar com editais, secretarias de cultura, instituições. No ambiente acadêmico, com outro tipo de instituição. Considero-me uma artista que compartilha com outros. Não me vejo como “a mestra”. Detesto chegar com coisas prontas e fechadas. Em todo trabalho deve haver um campo aberto para afetar o outro e ser afetado. É isso que trago ao ensino. Às vezes, falo que não sou professora, sou uma artista compartilhando parte da minha pesquisa. Não sou detentora de um saber, até porque esse saber está sempre se modificando e vejo que tenho muito que aprender. A dança é bem representada na universidade? Creio que a universidade, com a crise econômica, passa por um momento delicado. O Centro de Estudos do Corpo, do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC/SP, por exemplo, tem uma proposta diferenciada. Ele tem uma indisciplinaridade, que é dança, teatro e performance. Mas a instituição não consegue reconhecer isso. Uma multidisciplinaridade, uma interdisciplinaridade, no entanto, ela aceita. De modo geral, as universidades não conseguem lidar


Para a criadora, a política cultural é um conjunto de ações que visam produção, circulação e pesquisa

com a questão do professor que é também artista. Como permanecer artista nesse ambiente? Não tenho mestrado nem doutorado, e na universidade se é pressionado a ter esses títulos. Ao mesmo tempo não se aceita uma obra artística como tese. A pesquisa que estou realizando com o grupo já dura quatro anos. Quer dizer, é uma tese. E isso é muito difícil de ser aceito e negociado na universidade. Há um formato acadêmico a seguir. Conheço artistas que se depararam com grande angústia, pois quando entraram na universidade acabaram tendo de fazer mestrado e doutorado e se viram afastados de suas obras. Para mim, não há uma separação entre teoria e prática. A criação artística envolve ambas. Ao elaborar o trabalho, estou criando uma teoria sobre ele, um conceito que vem do próprio fazer. Mesmo quem escreve, os grandes pensadores, é teórico-prático; elaboram, com base em suas vivências, o seu pensar. O grande problema da universidade é fazer essa separação. A arte, por sua própria organização, faz conexões com o mundo em que se vive, e isso é produção de conhecimento.

No tocante à política cultural, o que é preciso para que a dança se transforme numa arte que tenha o mesmo peso que as outras? Você vislumbra uma política efetiva de incentivo à dança no país? É claro que isso depende de políticas públicas, tanto para a produção, quanto para a circulação. Falta uma política mais constante para promover essa circulação. A grande dificuldade do artista é estar fora desse circuito. Ao apresentar seu trabalho, ele não consegue divulgá-lo. Atualmente, há alguns editais de dança, o que é um ganho. Conseguimos ter fomento, mas determinados editais pararam no tempo. Política cultural é ter um conjunto de ações que promovam a produção, a circulação e a manutenção de pesquisas. Essas ações devem abarcar diferentes necessidades e a diversidade que hoje existe. O que acontece em alguns editais é que tudo tem de se formatar para caber neles. A classe precisa ser ouvida, pois há várias pessoas trabalhando com propostas diferentes, que podem se complementar.

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convocação

Revista abre espaço para a colaboração de quem a lê. A cada edição, a Continuum reserva algumas páginas para publicar, na seção Área Livre, colaborações enviadas por leitores. São fotos, ilustrações, gravuras digitalizadas, cartuns, isso só para falar de imagens. Mas é bom lembrar que os arquivos devem ter no mínino 300 dpi de resolução e 1 MB de tamanho. Se o seu talento é escrever, você também pode participar enviando pequenos contos, crônicas ou textos analíticos e poesias, com até 5 mil caracteres (contando o espaço entre as palavras). Enfim, vale tudo para mostrar sua arte! Só não vale fugir do tema. Envie seu trabalho para participecontinuum@itaucultural.org.br – depois de analisado, ele poderá ser publicado. Por isso é que divulgamos nesta seção o assunto da próxima edição e também o prazo para que você possa se programar e produzir com antecedência seu trabalho. Nos meses de janeiro e fevereiro, trataremos de Colecionismo. Comece a pensar o que a arte de colecionar desperta em você. Receberemos trabalhos de leitores de 10 de novembro a 10 de dezembro (após essa data, os trabalhos não serão mais analisados). Estamos esperando sua obra. Leia, em itaucultural.org.br/continuum, o Regulamento da Área Livre. Se tiver dúvidas, escreva para o e-mail da revista. *** Agora o papo é com os estudantes universitários. Há uma seção aberta à sua participação. É a Deadline. Para participar, ingressos em qualquer curso universitário, público ou privado e de todo o país, devem enviar uma pauta, um projeto para a realização de uma reportagem, de acordo com o tema da edição: Colecionismo. O projeto é um breve descritivo de até uma lauda. Antes de enviá-lo para o e-mail participecontinuum@itaucultural.org.br, o estudante deve acessar em itaucultural.org.br/continuum o Regulamento e a Convocatória específicos para a edição de janeirofevereiro, que estabelecem as etapas e os prazos para o cumprimento da ação. Com o projeto, é necessário enviar a ficha de inscrição preenchida, cujo modelo também está no site da revista. A seleção é feita por uma Comissão Julgadora e apenas um projeto é escolhido. Em seguida, o estudante selecionado deverá desenvolver a reportagem, que será publicada na seção. Então, mãos à obra! A Continuum espera sua colaboração.

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Ilustração [detalhe]: Virgílio Neto

Leitores também podem ser criadores


ĂĄrea livre

Cartuns do leitor MaurĂ­cio Nunes

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Serigrafia digitalizada, do leitor Renan Marcondes

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Ilustraçþes do leitor Derlon Almeida

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artigo

Como tijolos numa construção Obras literárias que mudaram o mundo ou que o ajudaram a ser construído. Por Micheliny Verunschk | Ilustração Mariana Leme Muito embora tenham sido expulsos da República por Platão, os poetas e, por extensão, os escritores se revelaram os tradutores por excelência do mundo em convulsão, sempre agitado em maior ou menor grau por mudanças sociais e políticas. Partindo da premissa de que toda obra literária é de certo modo uma obra política, muitos livros serviram de apoio ao estabelecimento de normas e regimes, saindo da superfície e tocando o que de mais profundo há nas relações entre nós e os outros. Desse modo, não seria exagerado dizer que o mundo se faz com pessoas e livros, parafraseando e ampliando a famosa frase do escritor brasileiro Monteiro Lobato. Assim, não seria absurdo pensar na construção de uma biblioteca imaginária que em poucas linhas, e, claro, de modo incompleto, pudesse dar conta do emblema “livros que mudaram a humanidade”. Político e República, ambos de Platão, estariam na base do modo ocidental de entender as relações sociais e os métodos de aplicação da chamada arte de governar a coletividade; pois, embora se refiram a uma Grécia distante historicamente, mas diacronicamente presente em tudo o que fazemos até hoje, esses escritos filosóficos mantêm uma atualidade ímpar porque, guardadas as diferenças, as distâncias tecnológicas e de estilos de vida e de pensamento, a humanidade é sempre a mesma em suas buscas, anseios, dúvidas, grandezas e mesquinharias. Na mesma prateleira, figura O Príncipe, de Maquiavel. A obra extrapola seu contexto e o objetivo de ser um manual de conduta para o governante de uma Itália renascentista, idealizada como forte e poderosa. Legou às gerações seguintes um tratado sobre a arte política que, para além da frase que o conceitua e define, “os fins justificam os meios”, ensina a todos, governantes e governados, os mecanismos do funcionamento do poder. No entanto, talvez o mais ambicioso empreendimento das letras na tentativa de refletir e interpretar uma época, dando-lhe de quebra uma gama de nuances e diretrizes intelectuais, morais e mesmo – ou principalmente – políticas, tenha sido a moderna Encyclopedie, compilada por Denis Diderot e Jean Le Ronde D’Alembert e publicada na França no século XVIII. Com 33 volumes e 71.818 artigos, essa vasta obra provavelmente não impressione a princípio os deslumbrados com sua prima distante, a contemporânea Wikipedia. Se levarmos em conta, porém, que foi organizada numa época em que a imprensa começava a se consolidar e tinha entre seus colaboradores nomes do calibre de Jean Jacques Rousseau, Montesquieu e Voltaire, tudo muda de perspectiva.

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Biblioteca estendida Maurício Silva, doutor e pós-doutor em letras clássicas e vernáculas e membro da Brazilian Studies Association (Universidade do México) e da Modern Language Association (Nova York), fala sobre livros que marcaram e marcarão nossa política e sociedade. Você poderia citar clássicos que mudaram ideias, modos de vida e mesmo o pensar a política e a sociedade? Não diria que certos livros mudaram modos de vida ou o pensar a política como um todo, pois acredito que a literatura, sozinha, não tenha esse poder. Mas, certamente, ajudaram – e muito – a combater determinados regimes e formar opiniões favoráveis ou contrárias a eles. Thomas Mann, autor do célebre romance A Montanha Mágica (1924), foi um nome referencial contra a política nazista na Alemanha; o contista Rodolfo Walsh, na Argentina, autor dos Dez Contos Policiais (1953), escreveu sistematicamente contra a ditadura em seu país e foi morto por ela; o russo Alexandre Soljenítsin, autor de Arquipélago Gulag (1973), fez da literatura uma arma de combate ao regime stalinista; no Brasil, Graciliano Ramos, preso pela ditadura getulista, acabou relatando sua experiência no comovente Memórias do Cárcere (1953), exemplo de uma obra que resulta de um regime ditatorial, mas serve também como panfleto contra a ditadura.

Que livros brasileiros você elegeria indispensáveis para a construção política do nosso país? Se dermos ao termo política um sentido amplo, eu poderia citar centenas de nomes, desde Padre Antonio Vieira (que por meio de seus sermões defendia os índios) até Castro Alves (com a defesa dos escravos); desde Gregório de Matos (que atacava a aristocracia local) até José Lins do Rego (que denunciava os desmandos dos senhores de engenho). Se dermos ao termo um sentido estrito, vinculando-o, por exemplo, à atuação partidária, eu citaria Jorge Amado (principalmente seus primeiros romances, alguns de evidente extração comunista). Daqui a 50 anos ou mesmo um século quais livros terão mudado “nossa” época? Você tem alguma aposta? Eu apostaria em livros que devem deixar uma marca na literatura brasileira e, certamente, em nossa mentalidade cultural: acredito que o romance Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato, pode ser um deles; o mesmo deve ocorrer com Subúrbio, de Fernando Bonassi.

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Que livros proclamaram mudanças sociais e de pensamento ao longo da história? Escritores brasileiros contemporâneos respondem a questão e elencam os títulos de sua preferência. A Metamorfose, de Kafka. Esse romance curto, publicado em 1915, mostra o cidadão comum reduzido a inseto, involuído, totalmente apartado de sua humanidade perdida. As duas guerras mundiais e as guerras coloniais na África e na Ásia criaram um número absurdo de Gregor Samsas alienados e famintos. Nelson de Oliveira Folhas de Relva, de Walt Whitman, que, segundo Borges, é de todos. Apesar do tom exaltado e das fortes referências à filosofia de Emerson – em O Destino Manifesto –, as Folhas de Relva antecipam as lutas feministas, pela igualdade racial e pela liberdade sexual. Ronaldo Correia de Brito

A Encyclopedie, filha predileta do Iluminismo, teve sua parte de responsabilidade no abandono de antigas superstições e mais, na própria queda do Antigo Regime e no estabelecimento da crença de um mundo mais objetivo, racional, capaz de se gerir pelo intelecto e pelas tecnologias que constrói para conforto e assombro. Da França do século seguinte vem uma carta. Intitulado J’accuse e escrito pelo romancista Émile Zola, esse manifesto defende Alfred Dreyfus, oficial francês de origem judaica acusado de alta traição num processo fraudulento que desencadeou uma onda de antissemitismo na Europa do século XIX. A carta de Zola, comovente em sua indignação por justiça, é um dos documentos políticos de maior intensidade dos últimos séculos. O caso Dreyfus renderia ainda o romance O Anel de Ametista, no qual Anatole France reconstitui os ânimos agitados da época. 46

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O Manifesto Comunista, originalmente denominado Manifesto do Partido Comunista (em alemão, Manifest der Kommunistischen Partei), publicado pela primeira vez em 21 de fevereiro de 1848. Chacal Acho que os livros que preconizaram mudanças no sentido de formar mentalidades, fora da literatura e de algum jeito não deixando de sê-la, são os livros religiosos, como o Velho Testamento, por exemplo. Andrea Del Fuego Daqui a algumas décadas o livro Cibercultura, do filósofo Pierre Lévy, será imprescindível em qualquer bibliografia deste século, embora tenha sido escrito no século passado. Mostra como a internet e as novas tecnologias mudaram radicalmente nossa cultura, nossa maneira de ver e se relacionar com o outro e com o conhecimento. Edson Cruz


Publicado em 1949, o romance 1984 antecipa um mundo oprimido pela massificação, em crise diante do totalitarismo tanto de esquerda quanto de direita, no qual a singularidade e a individualidade são sacrificadas no altar de um coletivismo duvidoso. Do mesmo modo, obras poéticas podem ter a capacidade se não de instituir uma nação, ao menos de ser a planta sobre a qual se arquiteta o sentido de nacionalidade. É o caso de Os Lusíadas, de Luís de Camões, epopeia sobre a força heroica do povo português na saga de fundar não só a nação, mas sua própria identidade.

Um bom romance na maioria das vezes tem um poder insuspeitado de uma bomba contra o poder estabelecido. Os romances, a poesia e os costumes

Ala brasileira

Voltando à imagem da biblioteca imaginária, é preciso ter em mente que essa é uma biblioteca elevada ao infinito, posto que nela cabem tanto os livros já escritos quanto aqueles que ainda estão por escrever. Versátil, nela estão catalogadas obras de certo modo díspares entre si, já que nem todo livro capaz de revolucionar o mundo se configura como tratado filosófico, ensaio ou manifesto. Um bom romance na maioria das vezes tem o poder insuspeitado de uma bomba contra o poder estabelecido.

Poderíamos citar à mancheia inúmeros títulos de uma seção brasileira nessa biblioteca. De Macunaíma, de Mário de Andrade, a Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. No entanto, encerramos essa viagem com uma citação de um livro não muito conhecido. Trata-se de América Latina – Males de Origem, do sergipano Manoel Bomfim. O livro, publicado em Paris, em 1903, analisa a colonização ibérica e prevê caudilhismos e crises ligados à corrupção política a que países latinos seriam subordinados ao longo do século XX e mesmo XXI, e oferece opções, saídas: “Eduquem-se as almas inconstantes destas populações, habituem-nas a vencer as impressões do momento, ensinem-lhes as consequências últimas dos atos imorais […] e daí sairão as gerações de fortes, capazes de dominar-se a si mesmos, capazes de lutar e de progredir”.

Ora, se por um lado temos A Origem das Espécies, de Charles Darwin, A Riqueza das Nações, de Adam Smith, A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, e O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, por outro lado e com igual intensidade temos A Náusea, de Jean-Paul Sartre, O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, e 1984, de George Orwell.

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reportagem

Se você pudesse, fugia deste mundo No tempo das canções de protesto, artistas esquecidos pela esquerda também foram censurados por contestar a realidade brasileira. Por Marco Lourenço Os anos de chumbo marcaram a história brasileira com chagas da repressão. A repressão, no entanto, não era apenas política, tal qual os artistas da MPB se empenharam em denunciar. Havia uma repressão moral, uma ditadura do corpo que não era observada pela arte considerada engajada. As roupas, o corte de cabelo e até o modo de viver eram condenados e muitas vezes reprimidos. O músico dos Novos Baianos Paulinho Boca de Cantor conta que o estilo da sua “turma”, como ele prefere chamar, foi estranhado e, em alguns momentos, reprimido. “Cheguei ao Rio de Janeiro no dia que o homem chegou à Lua. Na TV, o homem pisando na Lua e eu pisando na calçada de terno amarelo, parecendo o Máscara”, diz ele. A música “Dê um Rolê”, por exemplo, é um retrato da vivência da juventude carioca daquele tempo. “A gente não podia ficar na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, senão éramos parados na blitz. Por isso tínhamos que dar um rolê mesmo”, explica. Conhecidos por fusões de estilos tidos como brasileiros e pela incorporação da guitarra elétrica e do rock, a “turma” de Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Moraes Moreira e Paulinho trazia uma ruptura estética musical que tem uma dimensão política. Para o historiador José Geraldo Vinci de Moraes, “o artista quando promove essas mudanças está na realidade contestando a interpretação cultural hegemônica, como quem diz ‘a cultura deste mundo não me satisfaz’, e, por isso, um enfrentamento é travado com a ordem dominante”.

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Odair José, que teve mais músicas censuradas que Gil e Caetano juntos foto: divulgação

Os Novos Baianos apresentaram, mais que uma grande mistura de ritmos, uma alternativa. “Em plena ditadura militar, nós vivíamos em estado de sítio. Na verdade, morávamos num sítio em Jacarepaguá onde passávamos o tempo respirando música”, brinca Paulinho, que definiu sua turma como anarquistas modernos, não militantes políticos, e com uma linguagem que se fazia entender pela juventude. “Não éramos hippies. O hippie era o jovem que havia abandonado o sistema, e aqui seria o cara que acompanhava tudo o que acontecia lá fora sem questionar o que acontecia aqui dentro. Nós tínhamos uma alternativa que era falar tudo através da nossa música”, argumenta. Sexo sem banalização À margem do prestígio de que gozavam figuras como Chico Buarque, Gonzaguinha e Geraldo Vandré estavam artistas que dialogavam com as camadas populares. À sombra da revolução estética musical que o tropicalismo propagou e da tietagem conquistada pela jovem guarda, muitos artistas tornaram-se pequenos coadjuvantes da historiografia musical brasileira. Ícones do que ficou conhecido, e desprestigiado, como brega, tais como Odair José, Luis Carlos Magno

e Agnaldo Timóteo, eram ignorados pela intelligentsia musical e censurados em medida similar à dos artistas das canções de protesto. O historiador Paulo César de Araújo, autor do livro Eu Não Sou Cachorro, Não (Record, 2002), conta que as temáticas abordadas pelos bregas – sexo, pílula, prostituição – eram absolutamente reprimidas, consideradas subversivas e censuradas. Vale dizer que a própria letra da canção composta por Waldick Soriano que dá título ao livro de Araújo é um exemplo das diversas formas musicais que contestam a realidade social brasileira. Segundo o autor, “Odair José teve mais canções censuradas que Gil e Caetano juntos. A canção ‘Em Qualquer Lugar’, que propaga o amor livre, foi vetada integralmente por contradizer um parâmetro da família brasileira, onde o sexo é mantido sob a discrição do quarto, no silêncio e ‘papai-mamãe’, de preferência.” “Nunca fiz canções sobre o sexo para banalizá-lo. Sei que na época parecia atrevimento, mas minha visão era livre e pura sobre a intimidade de um casal, fosse ele homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher. Em nenhuma forma ele deve ser reprimido”, afirma o músico.

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O quartinho da empregada A despeito da intenção de um conteúdo crítico, a abordagem das canções bregas revela uma série de condições sociais do Brasil daquele tempo. Araújo se lembra de trabalhos de Agnaldo Timóteo que ele rotula de “trilogia da noite”. Trata-se de três discos lançados entre 1975 e 1977 cuja temática homossexual é escancarada. “Por exemplo, ‘Eu Pecador’ é uma canção sobre a angústia que um rapaz do interior, de família católica, enfrenta ao chegar ao Rio de Janeiro e ter de lidar com sua orientação sexual reprimida.” Apesar de nunca ter sido panfletário da libertação sexual, Timóteo, aos olhos de Araújo, provocou mais impacto que qualquer passeata dos dias atuais. “É muito legal ver essas manifestações, 1 milhão de pessoas brindando a diversidade. Mas quem teve coragem de dizer naquele tempo ‘Senhor, sou pecador, venho confessar porque gostei, foi tudo por loucura, mas eu gostei’?”

Discos de Agnaldo Timóteo tocaram no tema homossexualidade muito antes do orgulho gay | foto: divulgação

A sensibilidade dos artistas bregas com seu público era intensa. Falar da vida das empregadas domésticas tornou-se tema amplamente explorado nas canções. Mas ali, diagnostica Araújo, era retratado o autoritarismo do dia a dia, disseminado na nossa sociedade, e denunciada a grande contribuição brasileira à arquitetura mundial, o quartinho de empregada, ironiza o autor. O cantor e compositor Luiz Carlos Magno, sucesso na época, cantava: “Dois por dois mede o quarto da empregada, o quarto da empregada não tem janela, acham que ela não merece olhar as estrelas”. Ao passo que o discurso da MPB se articulava nos centros universitários, a partir de setores da classe média, os artistas da jovem guarda e os cantores bregas, filhos de operários que não passaram pela vivência desses centros e tampouco dispunham de uma tradição familiar de politização, eram indevidamente condenados pela falta de participação e protesto. “Eu fazia apenas música e sentia aquilo que estava no ar, o que acontecia. Nunca tive preocupação com o impacto nas pessoas”, revela Odair José.

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A proximidade com o público que consome essas canções nos permite observar os pontos escurecidos pela batalha declarada entre a ditadura e a militância de esquerda, seja ela armada ou não. Por isso, Araújo entende que Odair José ao cantar “Eu sei que seu quartinho fica lá no fundo, e, se você pudesse, você fugia desse mundo”, embora não estabeleça uma discussão com a ordem institucional, protesta com a mesma importância que Chico Buarque ou Caetano Veloso. “Como disse, eu escrevia o que via, o assunto vinha e eu fazia a canção. A empregada doméstica, por exemplo, não servia para ser esposa. Eu sabia que ela era marginalizada”, comenta Odair.

Ao passo que o discurso da MPB se articulava nos centros universitários, a partir de setores da classe média, os artistas da jovem guarda e os cantores bregas, filhos de operários que não passaram pela vivência desses centros e tampouco dispunham de uma tradição familiar de politização, eram indevidamente condenados pela falta de participação e protesto. “Respeito todos esses grandes artistas, mas faziam parte de outro rol de músicos. A censura que Odair sofria vinha de suas letras consideradas amorais. No meu caso, eu fazia críticas contundentes à ditadura. Sempre tive uma posição política contrária ao que estava acontecendo”, observa o cantor e compositor Luiz Ayrão. “A música ‘Divórcio’, por exemplo, é o resultado de uma ideia que eu trazia desde os tempos da faculdade de direito, onde tive influência dos grandes ícones da esquerda naquele tempo, Fidel Castro e Che Guevara”, conta Ayrão. Censurada, a canção, que também é conhecida como O Samba dos 13 Anos do Regime Militar, explicita o protesto em versos como: “Você vem me infernizando, você vem me enclausurando, você vem me sufocando como o próprio gás”. O termo gás foi utilizado como referência a Ernesto Geisel, presidente entre 1974 e 1979.

Os Novos Baianos: “estado de sítio” em plena ditadura | foto: Derly/Folhapress Participe com suas ideias

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reportagem

Cena de Arena Conta Tiradentes, 1967 | foto: Derly Marques/Acervo Idart/Centro Cultural São Paulo

Nervos e coração O teatro épico, cuja política está tanto no tema quanto na forma, deixou sua marca na produção de grupos contemporâneos. Por Roberta Dezan Com o fim da ditadura militar, a classe teatral brasileira passou um tempo considerável, e necessário, digerindo os acontecimentos até retomar completamente o fôlego e voltar a tratar de temas políticos e sociais. As obras de Bertold Brecht, Antonin Artaud e de outros dramaturgos importantes para as mudanças teatrais ocorridas no Brasil, sobretudo nas décadas de 1950 e 1960, continuam a ser estudadas em montagens de grupos como o Coletivo Núcleo 2 e a Cia. do Latão. Hoje uma das preocupações centrais diz respeito à formação de público. Peças de conteúdo político, por exemplo, são levadas a instituições de ensino e locais como a Fundação Casa, em São Paulo. Para o ator e diretor Sérgio Audi, “o artista deve sair das salas de espetáculo e ir ao encontro do público. A arte é muito elitizada no Brasil e o sistema não privilegia a transformação por meio dela e também da cultura”. A companhia paulista Ocamorana, por exemplo, realiza peças como A Guerra dos Caloteiros, para crianças e adolescentes, na tentativa de despertar-lhes o gosto pelo teatro. “No Brasil não existe um programa organizado de formação de público e os jovens não são movidos a gostar de teatro. Precisamos de projetos efetivos nesse sentido”, observa Márcio Boaro, diretor e ator do grupo.

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Como escreveu Artaud em O Teatro e Seu Duplo (Martins Fontes, 1993), a verdade é que “no ponto de desgaste a que chegou nossa sensibilidade, certamente precisamos, antes de tudo, de um teatro que nos desperte: nervos e coração”. No princípio era o Brecht No Brasil, o teatro épico moderno deu seu primeiro passo em 1958 com Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, encenada pelo elenco do Teatro de Arena, de São Paulo. Pela primeira vez, uma greve operária figurava no centro de uma peça e, ao levar suas questões ao palco, o movimento popular modificava o debate cultural. Em paralelo, o Cinema Novo tomava forma e convocava a arte ao neorrealismo, que pretendia produções com mais realidade e menos recursos.

A reorientação da dramaturgia brasileira foi rápida, e o Arena se motivou a buscar soluções dramáticas e definições estéticas e políticas, bem como a discutir as peças de Brecht. O dramaturgo e poeta alemão é um dos responsáveis pela obra do teatro épico, que pressupõe “um poderoso movimento social interessado na livre discussão de seus problemas vitais e capaz de defender seu interesse contra todas as tendências adversas”, como o próprio autor observa em Escritos sobre Teatro 1 (Nueva Visión, 1970). Em 1960, Augusto Boal, integrante do Arena, escreveu Revolução na América do Sul, que estreou num momento de acirramento dos movimentos nacionalistas em razão das eleições presidenciais. A peça utilizava canções, cartazes e frases de ligação entre as cenas e dava espaço para a direção manipular as técnicas brechtianas em interpretações e soluções cênicas. O espetáculo de

“É possível ser inovador sendo político, ou não político, e a maioria das grandes transformações teatrais no Brasil surgiu a partir do teatro político.” (Márcio Boaro) Com a mudança de tema, deu-se a transformação do público, que manteve o espetáculo em cartaz por mais de um ano. Formada por “pessoas ligadas às reivindicações sociais, a plateia era mais jovem, politizada, informal e descontente com as elites”, lembra o crítico literário Roberto Schwarz no prefácio de A Hora do Teatro Épico no Brasil (Graal, 1996), de Iná Camargo Costa. Carregada de inocência, Eles Não Usam Black-Tie deslizava ao tratar de um conteúdo político utilizando o drama burguês como forma. “É possível ser inovador sendo político, ou não político, e a maioria das grandes transformações teatrais no Brasil surgiu do teatro político. O drama foi constituído pelas questões e necessidades burguesas. Se pegarmos a receita de bolo do drama e tentarmos colocar assuntos maiores, a forma não dará conta”, afirma Boaro. Vale lembrar que esse gênero, surgido na França do século XVIII, deu origem ao melodrama, conhecido no Brasil por meio das novelas.

Boal não ficou nem um ano em cartaz, o que na época sugeriu uma espécie de crise de identidade no grupo. Independência cultural A situação do teatro brasileiro era fruto de uma estratégia de pequena empresa incapaz de enfrentar a realidade do teatro comercial e sua legislação, como anotou Iná Costa. O ideal era que os profissionais pudessem controlar os meios de produção, pois só a independência cultural seria capaz de permitir o desenvolvimento e a sobrevivência artística de peças políticas. Descontente com os rumos do Arena, Vianinha, outro de seus integrantes, mudou-se para o Rio de Janeiro e se juntou ao grupo do Teatro Jovem para montar, em 1960, A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar. A peça – primeira do Centro Popular

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de Cultura (CPC) da UNE – dava continuidade às experiências de Boal e era consequência da discussão travada no grupo paulistano. A obra mostrava uma forma de produção coletiva, com ensaios abertos e participação efetiva dos atores na concepção das cenas, prática comum no teatro brasileiro atual, sobretudo o da capital paulista, em grupos de elenco estável e locais como a Praça Roosevelt. “Espaços de escuta, coletividade e diálogo possibilitam uma forma muito política de criação, independentemente do tema”, acredita o ator e diretor Enrique Diaz, responsável, entre outras, pela montagem In On It, atualmente em cartaz. Em março de 1964, o CPC preparava a inauguração de seu teatro na sede da UNE, no Rio, com a peça de Vianinha, Os Azeredo Mais os Benevides, inspirada em Mãe Coragem, de Brecht. O golpe militar surpreendeu o elenco em meio aos ensaios e o teatro acabou incendiado.

Reação e susto Os que despertaram para a vida cultural logo após 1964 foram assediados pela palavra de ordem “arte como incitação à ação política” – a própria razão de ser do agit-prop (teatro de agitação e propaganda). Se naquela ocasião a frase parecia não fazer sentido, com o tempo gerou questionamentos sobre o teatro dito político feito no Brasil. Tania Pacheco, em registro de Iná Costa, indagou: “até onde você tem a coragem de inserir num contexto atitudes que, pessoalmente, não tem coragem de assumir?”. Audi acredita que “cada um desenvolve o papel que lhe cabe. Hoje vivemos uma guerra ideológica, não armada, portanto o teatro cumpre sua função de gerar questionamentos e reflexões”. Com o golpe militar, as experiências vividas colidiram com um obstáculo assombroso. Parte do teatro reagiu, parte se moldou e parte se moldou reagindo. O Show Opinião e as peças Arena Conta Zumbi e Arena

“A situação do teatro brasileiro era fruto de uma estratégia de pequena empresa incapaz de enfrentar a realidade do teatro comercial e sua legislação.” (Iná Camargo Costa)

Cena do espetáculo Roda Viva, 1968 | foto: Derly Marques/Acervo Idart/Centro Cultural São Paulo

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Cena de A Guerra dos Caloteiros, da Cia. Ocamorana | foto: Rogéria Bonfim

Conta Tiradentes foram identificados como tentativas de resposta ao golpe. Escrito por um coletivo de autores, o Show Opinião contou com a participação de Zé Keti, João do Vale e Nara Leão e com a colaboração de Cartola, Dona Zica e Ferreira Gullar, e marcou o despertar da música para a problemática social. Dadas as características de época, tratou-se de uma revolução, que resultaria no surgimento da música popular brasileira nos círculos universitários. Quando o teatro político brasileiro se deu conta de que em 1964 o caminho democrático estava definitivamente bloqueado, a própria ideia de resistência tomou outros rumos. Longe de resistir, a classe abandonou as frágeis conquistas do gênero épico, como registrou Iná Costa em sua análise sobre o tema. Terra em transe Diferentemente do Arena, o Teatro Oficina, fundado em 1958, desenvolveu-se à margem da movimentação política. Até 1966, embora tenha feito uma ou outra experiência com a dramaturgia local, seu repertório de sucesso concentrou-se em obras internacionais que evidenciaram um considerável atraso estético do grupo naquele momento. Paralelamente, uma das mais contundentes encenações de José Celso Martinez Corrêa com o Teatro Oficina, O Rei da Vela, de 1967, foi um espetáculo-manifesto que se tornou emblema do tropicalismo. O texto de Oswald de Andrade, de 1933, considerado inviável em termos de encenação até então, forneceu o que o grupo buscava para refletir sobre a crise do momento histórico e cultural, tendo como alvo a pequena burguesia. A montagem foi dedicada a Glauber Rocha, que lançara pouco antes Terra em Transe. Convergiam, assim, as propostas estéticas que estruturavam o tropicalismo

como algo abrangente. A montagem apelava para procedimentos paródicos, satirizava a ópera, a revista musical e a comédia de costumes e abusava de signos que remetiam a uma sexualidade explícita. O próximo passo na trilha não seria dado pelo Oficina. Em 1968, o grupo foi para o Rio com O Rei da Vela e Zé Celso realizou sua única encenação fora da companhia: Roda Viva, de Chico Buarque. Nesse espetáculo, o diretor pôde dar expansão à sua criatividade e exercitar o teatro da crueldade, do francês Artaud. O idealismo artaudiano pretendia transformações nas estruturas profundas, na forma de a sociedade viver suas relações, não como indivíduos isolados, mas como seres integrados ao social. Para ele, “a arte não se encontra como algo a se apreciar, mas como algo a ser vivido”.

Saiba mais Conheça os principais dramaturgos, diretores, atores e espetáculos do teatro épico na Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro, em itaucultural.org.br/enciclopedias.

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reportagem

Ganchos contemporâneos A pirataria de bens culturais exige ser pensada de forma diferente da de outros bens de consumo. Por Patricia Cornils | Fotos Renata Ursaia O Fantástico divulgou, no dia 15 de agosto de 2010, uma reportagem especial sobre o “submundo da pirataria”. A equipe do programa, diz a reportagem, percorreu todo o caminho da pirataria, desde as fábricas no Paraguai – onde são montados relógios e produzidas escovas de dentes com marcas falsificadas, vendidos remédios e contrabandeados videogames – até o comércio popular no Brasil. A reportagem explica, logo na abertura, que por causa da indústria da pirataria o país perde, todos os anos, 40 bilhões de reais e 2 milhões de postos de trabalho, e que o mercado da pirataria movimenta, no mundo, mais dinheiro do que o tráfico de drogas: o equivalente a 1 trilhão de reais. Mas não cita a fonte desses números. Um mês depois, a Business Software Alliance (BSA) – associação internacional que representa a indústria de software comercial e seus parceiros de hardware (Adobe, Apple, Autodesk, Cisco Systems, Corel, Dell, HP, IBM, Intel, Microsoft e Siemens, entre outros) – divulgou um release no qual argumenta que, se a pirataria de software no Brasil diminuir dez pontos percentuais nos próximos quatro anos, haverá um aporte extra de 3,9 bilhões de dólares para as empresas do setor, 888 milhões de dólares em impostos arrecadados e 12,3 mil novos postos de trabalho no país. A BSA divulga anualmente uma pesquisa sobre a pirataria de software, feita pela IDC. Mas os números que servem de base a essa pesquisa, no Brasil, não são divulgados. Qual é a relação entre a falsificação de um relógio, a falsificação ou o contrabando de remédios, o contrabando de videogames e a pirataria de software? Nas matérias sobre o tema, todas essas práticas são classificadas como “pirataria”. No Brasil, em termos legais, a pirataria refere-se tanto à cópia de marcas (chamada

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de falsificação ou contrafação) quanto à cópia de um software, uma música ou um filme. Mas essas coisas, realmente, podem ser comparadas? Para Rosana Pinheiro Machado, cientista social e pós-doutora pela UFRGS, não. “A diferença não está sob o aspecto legal nem formal, mas moral: piratear remédios pode matar, falsificar um relógio não.” Rosana é uma estudiosa do tema. Sua tese de doutorado, baseada em mais de dez anos de pesquisa, acompanhou a cadeia global de mercadorias na rota China-Paraguai-Brasil, com foco no mercado informal. Ela passou meses estudando os camelôs de Porto

Não dá para ser, simplesmente, “contra” ou “a favor” de produtos copiados, diz Rosana, “isso é banalizar a questão, banalizar o debate público”. Por um lado, explica ela, as empresas que fabricam produtos de marca não são heroínas. Cobram muito caro. “A população não pode defender o interesse privado, tem de lutar por preços mais justos. Meus 12 anos de pesquisa me certificaram que todos preferem o produto original, mas os preços são absurdos. Por outro lado, não dá para defender a pirataria de bens de marca, porque muitas vezes (nem sempre) ela envolve um sistema de trabalho informal, sem regulamentação, cuja base explora mulheres e crianças. “O que não é possível é relacionar a pirataria com o crime organizado, pois são coisas muito diferentes e nunca ninguém provou tal correlação.” Pirataria, explica Rosana, é uma indústria baseada na cópia e no não cumprimento das políticas de propriedade intelectual. “Apenas isso. A demonização não leva a nada.”

“A diferença não está sob o aspecto legal nem formal, mas moral: piratear remédios pode matar, falsificar um relógio não.” (Rosana Pinheiro Machado) Alegre e depois morou no Paraguai e também nas zonas econômicas especiais (ZEE) do sul da China para entender como funciona essa cadeia de produção e comércio. Foi uma das especialistas entrevistadas pelo Fantástico na elaboração da reportagem (embora sua participação não tenha ido ao ar). E não gostou do resultado daquela matéria. “O problema é apontar apenas um lado da questão, o da ilegalidade, do perigo à saúde e do crime”, diz ela, “e assim cair no risco da história única”. A história única não é uma mentira, mas reproduz estereótipos e deixa de lado uma parte riquíssima do tema. “Morei na Tríplice Fronteira [região fronteiriça entre Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai] e encontrei a figura de trabalhadores mais do que a de contrabandistas”, conta. “Milhões de trabalhadores que tentam ganhar seu pão diariamente.”

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Um mundo diferente Com a internet, que é uma gigantesca máquina de copiar arquivos digitais, operada a partir de cada computador ligado a ela, a pirataria de bens culturais protegidos por direitos autorais ganhou escala global. Como a natureza da informação – e da cultura – é circular, é ser compartilhada, a indústria que depende desses direitos autorais está realizando um esforço igualmente global para impedir que seus produtos sejam acessíveis sem gerar receitas. É nesse espaço da rede mundial que a ideia de pirataria de marcas e produtos se encontra com a de pirataria de software e de música, apesar de serem coisas de natureza e consequências distintas, explica Oona Castro, diretora executiva do Instituto Overmundo. De acordo com Oona, os benefícios dessa confusão, para a indústria que combate a pirataria, são dois: primeiro, popularizar a pauta, o debate. O segundo é o que ela chama de “troca de argumentos”. “Ao utilizar, por exemplo, o argumento dos riscos que a falsificação de medicamentos pode representar à saúde pública, a indústria do copyright beneficia-se de uma justificativa que nada tem a ver com as consequências da pirataria em si.”

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A confusão ajuda, afirma Oona, os diversos segmentos de propriedade intelectual em suas campanhas de combate à pirataria. Mas o que deveríamos nos perguntar é quanto isso contribui para a criação de políticas públicas para a área ou a prejudica. Segundo ela, a formulação e a aplicação de políticas eficazes dependem da distinção de natureza dos problemas. Essas políticas buscariam respostas adequadas aos problemas. “Conhecemos diversas iniciativas inovadoras que não se baseiam necessariamente no direito autoral para tornarem possível a sustentabilidade do autor/criador. Tratar cópias não autorizadas de obras intelectuais e software como caso de polícia significa apenas perpetuar a falta de solução para um problema que é, basicamente, a falta de equilíbrio entre a sustentabilidade dos criadores, o retorno de investimentos no mercado e o acesso às obras pelos cidadãos”, explica. Essas obras, hoje, estão quase todas digitalizadas, e acessíveis por meio da internet. Há criadores para os quais o problema da pirataria não existe ou, pelo menos, existe de maneira diferente do que os consumidores e a indústria pensam. “Os piratas de música são os fãs”, constata Helder Aragão, o DJ Dolores. “Somos nós que baixamos um track [faiFigurinos de disco, peçase são uma prova deisso queà xa musical] ou um há ferramentas para a moda certamente é arte. disposição de qualquer um.” Para os produtores, diz ele, essa mudança tecnológica transformou também o modelo de produção musical. “Se antes havia o filtro da gravadora, responsável por bancar o disco e promover o trabalho, hoje em dia produz-se em casa. O artista pode ser seu próprio divulgador usando a web. E funciona! Como alguém que já trabalhou com gravadora, sinto que tenho de me virar, ser músico e label ao mesmo tempo.” Sobre a pirataria e as campanhas que tentam mostrá-la como algo que faz mal à saúde, o músico opina: “Falta de informação é que faz mal à saúde. Cresci numa era pré-web, numa cidade pequena onde ter acesso a livros, filmes e música era um trabalho árduo. A facilidade de conseguir informação com o advento da internet não tem preço, é um sonho, uma coisa que faz bem para a humanidade”.

A moda vai ao teatro


Cópias não autorizadas de obras intelectuais fazem parte do dia a dia de artistas hoje, na chamada era da cultura digital. Cópias, aliás, fazem parte da criação intelectual. Sem copiar parte das velhas histórias dos irmãos Grimm, ou outras velhas histórias, explica Lawrence Lessig, professor da Escola de Direito da Universidade de Harvard, Estados Unidos, e um dos criadores do Creative Commons, Walt Disney não poderia ter realizado obras como Branca de Neve, Pinóquio, Alice no País das Maravilhas, Peter Pan, Robin Wood. “Em todos esses casos, Disney, ou sua empresa, usou a criatividade do mundo à sua volta, misturou-a ao seu extraordinário

“Ao utilizar o argumento dos riscos que a falsificação de medicamentos pode representar à saúde pública, a indústria do copyright beneficia-se de uma justificativa que nada tem a ver com as consequências da pirataria em si.” (Oona Castro) talento e imprimiu esse mix na alma da cultura.” Com acesso a computadores e à internet, qualquer pessoa pode recriar obras – não é preciso uma fábrica, não é preciso fazer contrabando de mercadorias para produzir e compartilhar músicas e filmes. Ao combater a pirataria sem pensar nessa possibilidade, é isso que se combate também. É por isso que a confusão de conceitos impede as pessoas de enxergar a revolução digital e pensar em um mundo diferente, a partir dela. Mais que isso: a atual Lei de Direitos Autorais brasileira proíbe cópias de obras. Com base nisso, e em uma denúncia anônima de violação de direitos autorais, a Polícia Civil invadiu o campus da UFRJ, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, no dia 13 de setembro, para fechar o xerox da Escola de Serviço Social. Apreenderam todo o material deixado pelos professores e levaram Henrique, o dono da loja, à Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM). “Temos de pensar um caminho que não nos exponha a essa brutalidade e garanta o acesso

à leitura. Isso é um direito que temos de assegurar; a universidade, o Estado brasileiro”, observou a diretora da escola, Mavi Pacheco, em entrevista à imprensa. Uma das mudanças propostas pelo Ministério da Cultura, na revisão da Lei de Direitos Autorais, visa permitir a cópia de livros para finalidades didáticas – de resto, uma prática comum nas faculdades, apesar de condenada pelas associações de defesa dos direitos autorais. Essa proposta do MinC esteve em consulta pública até o fim de agosto, e o ministério deverá apresentar um projeto de lei ao Congresso antes do final do ano. Além de permitir a cópia para fins educativos, a alteração vai possibilitar a reprodução de obras para preservação. Hoje, bibliotecas, museus e cinematecas não podem copiá-las sem a autorização dos detentores dos direitos. A revisão também vai permitir o uso de obras em sala de aula e a cópia de arquivos digitais (músicas, por exemplo) do computador para o tocador MP3. E ainda a modificação de obras para a criação de outras (como no remix de músicas). Tudo isso hoje é proibido, tudo isso, hoje, é pirataria.

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reportagem

Rebelião à beira de um mouse Política pela internet é algo vivo. Qualquer um pode reclamar, se mobilizar, opinar, votar e até abalar a estrutura de um governo por meio da rede. Seja bem-vindo a uma nova era da democracia. Por Mariana Sgarioni | Ilustração Zé Otavio A jornalista e blogueira Yoani Sánchez é uma mulher marcada. Em Cuba, país onde nasceu, cresceu e vive até hoje, é vigiada pela polícia dia e noite. Mal consegue sair de casa. Não pode viajar, passear, dar entrevistas. Seus textos foram proibidos na ilha e ela chegou a ser sequestrada e espancada por agentes do governo. Nada disso, no entanto, a impede de se expressar [leia artigo inédito da autora para a seção Mirada, na página 64]. Por meio de seu blog, chamado Generación Y [desdecuba.com/generaciony], ela conta como é viver em um lugar em que não há o direito à liberdade individual. Yoani revela detalhes do cotidiano em seu país, desmente a propaganda do governo, ironiza seus dirigentes. Em suma: para a ditadura castrista, ela é intolerável. Para o resto do mundo, é uma importante porta-voz que escancara os meandros de um regime autoritário. O que os governantes cubanos, que tomaram o poder em 1959, não previram na época é que anos depois teriam de engolir o poder incontrolável de um inimigo oculto: a internet. Blogs, sites, e-mails, redes sociais: um caminho de revolução muito mais poderoso do que as armas, ainda que seus ícones, segundo dizem os estudiosos, não tragam a força da mudança de valores como trazia uma foto de Che Guevara, por exemplo. Por mais que se tente, a verdade é que nos dias de hoje ninguém consegue conter um internauta ativo. Até a blogueira Yoani consegue burlar os arapongas cubanos e postar seus textos, escondida em lan-houses, apenas permitidas a turistas estrangeiros.

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Não há dúvidas de que a internet tenha feito nascer uma modalidade de ação política que beira uma nova geração de paradigmas. O Twitter, por exemplo, mostrou há pouco mais de um ano sua violenta capacidade de mobilização: internautas indignados com a reeleição do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad organizaram protestos pela rede, levando centenas de opositores às ruas de Teerã, além de divulgarem pelo mundo inteiro as imagens da repressão policial no país. “Da mesma maneira que no Irã, há indícios de que as eleições no Afeganistão tenham sido influenciadas pelo Twitter. É a voz das pessoas comuns ganhando dimensão pública”, afirma o site Web Ecology Project, centro de estudos sobre a internet da Universidade de Harvard, Estados Unidos, que comanda uma pesquisa sobre o assunto.

No contexto democrático, o Twitter também mostrou suas garras quando o candidato à presidência norteamericana Barack Obama usou a ferramenta para divulgar sua campanha e mobilizar novos eleitores. Acredita-se que o segredo do sucesso de Obama, sobretudo entre os jovens, esteja justamente ali, no mouse. No Brasil, em tempos de eleições, a maioria dos candidatos também se beneficia da internet – e não apenas do Twitter – para discutir propostas e até angariar fundos. Na esteira de Obama, a ex-candidata do Partido Verde à presidência, Marina Silva, é uma das que mais apostaram na força da rede. Desde fevereiro, colocou no ar seu blog, Minha Marina, que reúne biografia, artigos e fotos. Uma aba chamada “Fatos e Versões” responde a boatos e esclarece sua opinião

“[A campanha Ficha Limpa] é a prova de que os indivíduos, por meio da tecnologia, têm hoje um poder maior do que um político profissional, ou seja, o centro do poder foi deslocado.” (Massimo Di Felice)

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sobre assuntos polêmicos. Em julho, Marina alcançou a marca de 100.746 seguidores no Twitter, contando com uma mobilização que surgiu entre seus simpatizantes no Orkut e se espalhou pelo Facebook, chamada “twitaço”. “Na minha época, a gente chamava de panelaço, agora é panelaço virtual. É bom porque não faz barulho”, brincou a candidata em sua página no Twitter. José Serra, do PSDB, também tirou o máximo proveito da tecnologia em sua campanha – ele, aliás, foi o primeiro a entrar no Twitter, em junho de 2009. Em pouco mais de um ano, já contava com cerca de 300 mil seguidores. Processo em andamento A força política da comunicação digital inaugura um conceito do fluxo comunicativo em que todas as pessoas podem receber e distribuir mensagens. É como se não houvesse mais emissor nem receptor. “Isso significa uma grande revolução no conceito de democracia. Trata-se de uma superação desse conceito, que agora se torna algo colaborativo, em que todos os indivíduos podem participar do processo decisório, sem existir um centro de poder. É uma nova forma de cidadania, a democracia direta”, afirma Massimo Di Felice, professor da ECA/USP e coordenador do Centro de Pesquisa Atopos, da mesma universidade.

Felice lembra que essa revolução já foi discutida por pensadores de décadas passadas. O cientista político italiano Norberto Bobbio, no texto “O futuro da democracia”, de 1992, diz que a democracia direta é algo totalmente utópico e só seria possível quando houvesse uma máquina que permitisse ao cidadão apertar um botão e assim distribuir sua ideia ou voto em tempo real à população inteira. Talvez, em 1992, isso realmente fosse impossível. Hoje em dia essa atitude é real e acontece o tempo todo, o dia inteiro. Um bom exemplo recente é a campanha Ficha Limpa, que impôs, a partir de um processo dirigido pela rede, a impugnação da candidatura de políticos com problemas na Justiça. “Trata-se de um marco histórico na América Latina. A campanha foi disseminada pelas redes sociais e foram elas que obrigaram os políticos a aprovar a lei em Brasília. É a prova de que os indivíduos, por meio da tecnologia, têm hoje um poder maior do que um político profissional, ou seja, o centro do poder foi deslocado”, lembra Felice. “É como se cada indivíduo tivesse seu próprio meio de comunicação”, teorizou o sociólogo francês Michel Maffesoli, durante um simpósio realizado na USP, em 2007. Entretanto, é difícil falar em democracia se pensarmos que o acesso à tecnologia e a inclusão digital não são uma realidade para boa parte da população. Ou seja: ainda não é um meio de expressão para todos. De acordo com pesquisadores, trata-se de um processo em andamento. Se formos colocar a internet no mapa histórico da evolução da humanidade, em comparação com a disseminação da escrita, a rede mundial avança em todas as camadas sociais numa velocidade assustadora. “Não há elementos parecidos na história”, pontua Felice.


A Web 2.0, por exemplo, tem apenas quatro anos e hoje é uma realidade de conexão e comunicação mundial. “As comunidades da Web 2.0 são para nós hoje o que as comunidades tribais ou de aldeia eram para nossos ancestrais. Elas representam um lugar no qual podemos fazer novas conexões, compartilhar detalhes de nossa vida e discutir tópicos que nos interessam”, afirma a especialista em indústria high-tech Ayelet Noff, em um estudo da Universidade de Tel Aviv sobre o assunto. Esse é o fenômeno do agrupamento das tribos para o qual Maffesoli tanto chama a atenção em seus trabalhos – nas comunidades virtuais, os participantes têm a sensação de pertencimento, de fazer parte de determinado grupo.

Blogs, sites, e-mails, redes sociais: um caminho de revolução muito mais poderoso do que as armas, ainda que seus ícones, segundo dizem os estudiosos, não tragam a força da mudança de valores como trazia uma foto de Che Guevara. No campo da cultura, as comunidades virtuais vão além desse agrupamento de pessoas com interesses em comum. Elas discutem determinado segmento artístico, informam seus desdobramentos, debatem as políticas públicas e chegam a promover certos artistas. É o caso do site Canal Contemporâneo (canalcontemporaneo.art.br). Em sua descrição, a página é definida acertadamente como “uma comunidade digital focada na arte contemporânea brasileira para promover sociabilidade, informação, participação política e senso de pertencimento, com o objetivo de provocar transformações no seu contexto”. Já no Idança (idanca.net), site ligado à dança contemporânea, a conexão com a política está mais do que aberta. “É também uma atitude política de juntar pessoas, habilidades e conhecimentos para tornar possível a

troca de ideias. Foi esta convicção na democratização da informação e na profissionalização que nos juntou neste projeto”, afirma o texto de apresentação do site. E é justamente para esse novo conceito de democracia que apontam os especialistas. Não se trata de algo que se aplica apenas a uma forma de governo, e sim a todas as esferas da vida. “Todos os processos decisionais serão colaborativos, desde políticos, artísticos, empresariais. O centro das decisões passou a ser a opinião pública”, diz Massimo Di Felice. Seria o caminho mais curto para uma sociedade aberta, do povo, como tanto queriam os hippies da década de 1970 ou os anarquistas do início do século passado? Ainda não se sabe. Quem quiser fazer parte da nova contracultura poderá escrever o final desta história.

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mirada

O sonho de ninguém Após 52 anos da revolução, Cuba segue em lenta derrocada do sistema. Por Yoani Sánchez | Ilustração Lourival Cuquinha | Tradução Josely Vianna Baptista A revolução, o sistema, o processo, isso – qualquer que seja o nome que se use – esgotou há muito tempo seu combustível, sua capacidade de renovação. Não lhe resta mais nada de velho para destruir, mas ainda há muita coisa a ser feita. Cinquenta e dois anos depois do triunfo revolucionário, o país tem mais terras improdutivas do que nunca e o déficit habitacional mais alto da história. A moeda com que se paga o salário dos trabalhadores não tem valor real e as duas áreas de maior prestígio, a educação e a saúde, passam por um momento de verdadeira crise. Observa-se um índice demográfico em retrocesso e uma emigração crescente. O marxismo-leninismo, que um dia foi a ideologia oficial, hoje é uma curiosidade arqueológica só mencionada em círculos acadêmicos, e o Partido Comunista, o único permitido pela lei, não convoca nenhum congresso há mais de uma década. Todos se preocupam com a crise de valores, principalmente com a diminuição da cidadania responsável, com a aceitação do ilícito como algo normal, até mesmo como forma de sobrevivência. Saltam à vista a depreciação das regras de decência mais elementares, a falta de respeito pelo que é do outro, principalmente se for um bem comum. Nós, cubanos, convivemos com o vandalismo, o enraizamento do racismo, o aumento do regionalismo, o culto crescente a tudo o que é estrangeiro, o desprezo desmedido pelo que é nacional. Somados a tudo isso, a falta de escrúpulos na gestão dos recursos públicos, o suborno como método preferencial para solucionar um problema ou satisfazer um desejo, a metástase da corrupção em todas as esferas

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da sociedade. Campeiam à solta o nepotismo, a condescendência popular com o mercado negro, a falta de confiança nas instituições e nos processos de suposta solução que elas promovem. Com uma população carcerária beirando os 80 mil detentos, Cuba se transformou num país onde trabalhar chega a ser visto como um absurdo e, na melhor das hipóteses, como uma formalidade. O pior de tudo, porém, não é a variedade nem a intensidade desses problemas, e sim a falta de perspectiva de encontrar-lhes uma solução. A sociedade civil está desarticulada e os meios de comunicação só projetam um país que não tem relação com a realidade. Não há um debate estruturado sobre as mazelas que assolam o país. A oposição política, dispersa, perseguida, satanizada e, muitas vezes, instrumentalizada ou infiltrada pouco pode fazer para divulgar seus programas e propostas.

O pior de tudo não é a variedade nem a intensidade dos problemas, e sim a falta de perspectiva de encontrar-lhes uma solução. A sociedade civil está desarticulada e os meios de comunicação só projetam um país que não tem relação com a realidade. As mudanças que a sociedade cubana reivindica são inadiáveis, mas podem ser consideradas, se analisadas do ponto de vista estritamente revolucionário, um retrocesso. Em decorrência disso, há uma enorme resistência para implementá-las de vez, principalmente entre aqueles que dedicaram seus melhores anos à construção de um ideal que jamais foi alcançado. No campo dos direitos civis, as pessoas almejam que o governo acabe com os trâmites humilhantes da “permissão de saída”, que restringe as viagens ao exterior. E, principalmente, com o conceito de “saída definitiva”, que transforma em estrangeiros os emigrantes, impedindo-os de se radicar novamente em seu próprio país e confiscando suas propriedades na saída. Já houve um pequeno avanço quando se permitiu que cubanos se hospedassem em hotéis e contratassem telefonia celular. Em meados de 2008, suspendeu-se

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o veto à venda de alguns artigos eletrodomésticos – como fornos de micro-ondas, leitores de DVD e computadores, até então proibidos –, mas ainda há muito a ser conquistado. Entre as reivindicações nesse sentido, está a permissão para que o cidadão cubano possa comprar livremente um carro ou contratar serviços de internet e TV a cabo. Essas “aspirações de classe média” são pouca coisa se comparadas às mais essenciais: a necessidade de expressar livremente suas opiniões e o direito de se associar a qualquer tendência ou preferência sem temer represálias. Descriminalizar a discordância No longo percurso de transformações que temos pela frente, ao menos foi dado um primeiro passo com a libertação, a partir de julho deste ano, dos presos políticos encarcerados durante a Primavera Negra de 2003. Foi essa a principal reivindicação apresentada ao governo da ilha por todos aqueles que, por um motivo ou outro, tentam mudar o atual estado das coisas. Nas mais diversas agendas de política e cidadania dos partidos de oposição e dos grupos da sociedade civil, a libertação desses prisioneiros era obrigatória para o avanço da democratização do país. 66

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No começo deste ano, a greve de fome do preso político Orlando Zapata Tamayo comoveu a opinião pública dentro e fora de Cuba. Um dia depois de seu falecimento, ocorrido em 23 de fevereiro, o psicólogo e jornalista independente Guillermo Fariñas declarouse em greve de fome e sede até a morte ou até que o governo beneficiasse, ao menos com “licença extrapenal”, os presos que estavam com a saúde mais debilitada. O próprio presidente Raúl Castro disse publicamente que o deixaria morrer, mas jamais cederia à chantagem. Aconteceria por aqueles dias o sétimo aniversário da Primavera Negra e as Damas de Branco desafiaram o regime decretando sete dias seguidos de passeatas por todas as ruas da cidade. Levavam gladíolos nas mãos e foram agredidas e insultadas por partidários do sistema, que, fingindo representar o povo indignado, eram conduzidos de ônibus até os locais das manifestações. As agressões provocaram a reação da alta hierarquia da igreja católica, que, num feito sem precedentes, conseguiu uma moratória para os ataques e um acordo para sentar-se e conversar com as autoridades. Em decorrência desse diálogo e com a intervenção do chanceler espanhol Miguel Ángel Moratinos, levantou-se o compromisso de libertar todos esses prisioneiros num prazo não superior a quatro meses e de facilitar sua saída do país para a Espanha. Vistos em


No longo percurso de transformações, foi dado um primeiro passo com a libertação dos presos políticos encarcerados durante a Primavera Negra de 2003. seu conjunto, os acontecimentos das últimas semanas poderiam ser considerados um sinal positivo para aqueles que estão esperando mudanças profundas na sociedade cubana, mas somente isto: um sinal. De pouco adianta o governo libertar um grupo de presos políticos se não puser abaixo todo o arcabouço legal que lhe permite mandar novamente para a prisão um número igual de pessoas pelos mesmos motivos.

são motivo de alegria, porque os que não deviam ter ficado nem um único dia atrás das grades hoje estão em liberdade. No entanto, não há, nem haverá, uma atmosfera de agradecimento ou de complacência até que a discordância não seja descriminalizada; não antes que Raúl Castro pegue o microfone e garanta que ninguém mais nesta ilha será preso por suas opiniões. Mas o tempo está se esgotando.

Ainda hoje segue em vigor a Lei 88, conhecida como Lei da Mordaça, que prescreve longas penas para quem colaborar em revistas e jornais estrangeiros ou conceder entrevistas a jornalistas desses meios. Sem caminhos legais disponíveis para a criação de associações, a fundação de sindicatos, partidos políticos ou organizações estudantis constitui um crime de “associação ilícita”, e qualquer meio pelo qual um cidadão manifeste sua divergência com o governo, mesmo que seja um inocente cartaz, pode ser interpretado como o cometimento de um crime de propaganda inimiga. Do ponto de vista dos opositores, as libertações

A Revolução Cubana, tal como é atualmente, não se parece com o sonho de ninguém, nem dos que a construíram e muito menos de nós, que a herdamos. Ao menos já sabemos que não há tempo nem vontade de começar de novo pelo princípio. Yoani Sánchez, jornalista cubana, tornou-se internacionalmente conhecida por denunciar, em seu blog, Generación Y (desdecuba.com/generaciony), a situação de exceção vivida em seu país devido à ditadura castrista. Recebeu vários prêmios internacionais por seu trabalho e foi considerada uma das cem pessoas mais importantes do mundo pela revista americana Time, em 2008.

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