Ocupação Conceição Evaristo

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São Paulo, 2017




Em um ano no qual apenas mulheres serão tema do programa Ocupação Itaú Cultural, chegou a vez de Conceição Evaristo. Trigésimo quarto nome nesta galeria de homenageados, a escritora mineira, nascida em 1946 na extinta favela do Pindura Saia, no bairro Cruzeiro, em Belo Horizonte (MG), vem trazendo sua “escrevivência” – a escrita que nasce das vivências e do cotidiano, marca de toda a sua obra. O espaço expositivo convida o público para entrar no mundo de Conceição Evaristo de forma sensorial. Por meio de uma narrativa audiovisual não cronológica, a história será contada tendo como mote o campo afetivo de criação da escritora. “Minha literatura só toca as pessoas porque ela tem o sabor da vida”, disse em entrevista para esta publicação. Além de manuscritos de poemas e contos, compõem a cenografia da Ocupação cartas de familiares e amigos, objetos pessoais, obras que foram referência para Conceição. Pequenos fragmentos de um universo feminino, forte, inspirado e imenso. Apesar de escrever há bastante tempo, Conceição só chegou ao reconhecimento literário recentemente. Entre os destaques de sua obra estão seu romance de estreia, Ponciá Vicêncio (2003), cuja personagem-título carrega toda a solidão do mundo, e Becos da Memória (2006), que narra a vida de moradores de uma favela prestes a acabar e tem sua trajetória contada na exposição, do primeiro contato com a editora até o lançamento.


Nesta publicação, o projeto Cartas Negras, criado por Conceição e algumas amigas escritoras nos anos 1990, volta atualizado, trazendo para essa roda de mulheres jovens escritoras. Em uma troca de correspondências, elas vão além das questões pessoais e discutem temas universais, como solidão, machismo e racismo. Uma homenagem a Joana Josefina Evaristo, mãe de Conceição, a qual colecionou cadernos de escritos por muitos anos, também pode ser encontrada como encarte da publicação. Outros conteúdos, como entrevistas em vídeo sobre a vida e a obra de Conceição Evaristo, além de informações biográficas, podem ser acessados virtualmente, no site da Ocupação (itaucultural.org.br/ocupacao) e na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras (enciclopediaitaucultural.org.br). Itaú Cultural


Fotos: AndrĂŠ Seiti



UM A

VIDA , U MA h

Era uma manhã quente de fevereiro em São Paulo quando Conceição Evaristo contou que já fora chamada de canônica. “Talvez eu seja a canônica das margens!” Como canônico é “aquilo que está de acordo com as normas estabelecidas convencionadas”, ressaltar as margens como lugar ocupado pela escritora mineira é fundamental. Ela nada contra a corrente. Já veio ao mundo assim, em 29 de novembro de 1946. Nascida em uma favela em Belo Horizonte (MG), Maria Conceição Evaristo de Brito é filha de dona Joana, lavadeira que criou nove filhos em meio a muitas dificuldades. Inspirada por Carolina Maria de Jesus*, dona Joana não tinha estudo, mas colecionava cadernos que achava pelas ruas e os recheava com seus escritos sobre a vida, pensamentos, poemas. Conceição costuma dizer que, pelo hábito de dona Joana, ela cresceu cercada por palavras, mesmo que não tenha crescido cercada por livros. A mãe certamente é uma grande influência para Conceição, que no futuro adotaria e defenderia o conceito de “escrevivências” – a escrita que nasce das vivências. Viver para narrar. Narrar o que se vive. Conciliando os estudos com o trabalho como empregada doméstica, Conceição Evaristo concluiu o curso normal aos 25 anos, em *Carolina Maria de Jesus (1914-1977) é autora de Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada (1950), livro autobiográfico que narra a vida na periferia de São Paulo e traduzido para 13 idiomas.


1971. Em 1973 se mudou para o Rio de Janeiro (RJ) para concorrer a um cargo de professora primária na prefeitura. Lá, também começou a dar aulas, aprovada em um concurso público. Mestra em literatura brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ) e doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Conceição começou a publicar em 1990, na série Cadernos Negros, do grupo Quilombhoje. Essa aproximação com a militância de causas sociais naturalmente levou a escritora para o movimento negro. Ponciá Vicêncio, seu primeiro romance publicado, foi lançado em 2003 (também no exterior) e é até hoje um marco. “Por que Ponciá Vicêncio agrada brancos, pretos, homens, mulheres? Porque ela [a personagem-título] traz a solidão humana. Ela é extremamente só. A solidão não é da minha propriedade, é de propriedade do ser humano. Acho que todo mundo se encontra naquela personagem pela solidão dela. A solidão dela é que chama”, explica a autora. Depois do romance de estreia, Conceição Evaristo lançou Becos da Memória (2006) e Poemas da Recordação e Outros Movimentos (2008). Há ainda três livros de contos: Insubmissas Lágrimas de Mulheres (Nandyala, 2011), Olhos d’Água (Pallas, 2014) e Histórias de Leves Enganos e Parecenças (Editora Malê, 2016). A escritora também participou de inúmeras antologias. Toda a sua obra é marcada por questões raciais, de gênero e de classe.


Dona Joana, mãe de Conceição Evaristo Conceição Evaristo na sua Primeira Comunhão, em 1954 Ainá, filha de Conceição, aos 7 anos, em 1988 | Fotos: acervo de família


Nas três imagens, Conceição posa grávida de Ainá, em 1980 | Fotos: Rogério Santos de Brito


1950: Tia Laurinda, amiga da família, Maria Inês (irmã mais velha) e Conceição Evaristo no Parque Municipal de Belo Horizonte (MG) | Foto: acervo de família 1976: Oswaldo Santos de Brito e Conceição Evaristo, no Rio de Janeiro. Os dois foram casados até a morte dele, em 1989 | Autoria desconhecida 1973: Conceição (ao centro) com a mãe, dona Joana (à esquerda), tia Lia e Nui (Maria de Lourdes), em Contagem (MG) | Autoria desconhecida 1970: Tio Catarino, irmão de dona Joana, e as filhas Moemi (no colo), Macaé (à direita) e Mara (à esquerda) eram vizinhos da família de Conceição | Foto: acervo de família


Conceição Evaristo, 2017 | Foto: Richner Allan



Primeira carta escrita por Conceição Evaristo para o projeto Cartas Negras, em 1991


C r a N g a a t s e r s , A RETOMADA Com um grupo de amigas, todas escritoras, Conceição Evaristo revive o projeto de troca de correspondências criado nos anos 1990 O ano: 1991. Amigas estão reunidas para comemorar o lançamento de uma edição da coletânea Cadernos Negros* na casa de uma delas, Miriam Alves, onde também estão Sonia Fátima da Conceição, Lia Vieira e Esmeralda Ribeiro. Todas são escritoras, e entre elas há uma que se chama Conceição Evaristo. No encontro surge uma ideia: enviar cartas umas para as outras, criando um dossiê particular com temas ligados ao universo negro e feminino. Cartas Negras: assim é batizado o projeto. Ali, na origem da ideia, todas enviavam as cartas da forma mais tradicional possível, ou seja, pelo correio. Uma escrevia e mandava para todas a mesma carta, replicada em fotocopiadoras. Ao responder, o mesmo processo: a resposta era enviada a todas as participantes. “Todas as cartas circulavam entre nós. A carta de uma provocava a resposta de todas”, conta Conceição Evaristo. Não foram muitas as cartas trocadas. O processo foi se perdendo. Nem com o advento do e-mail a ideia foi resgatada. “O interessante é que nunca se perdeu aquela lembrança. Esse desejo ficou. Volta e meia a gente se reencontrava e falava de retomar. Fizemos algumas tentativas, pelo menos de discussão de retomada, mas nunca aconteceu realmente”, explica.


O ano: 2017. Homenageada da 34ª Ocupação Itaú Cultural, Conceição Evaristo transforma em realidade, nesta publicação, a troca de correspondências com as amigas. Participantes do projeto original foram chamadas para a roda (Esmeralda Ribeiro, Geni Guimarães e Miriam Alves), assim como autoras de uma nova geração, convidadas especialmente para resgatar a ideia (Ana Cruz, Ana Maria Gonçalves, Cristiane Sobral, Débora Garcia, Elizandra Souza, Jenyffer Nascimento, Lívia Natália, Mel Adún e Raquel Almeida). Chegar aos nomes atuais, segundo Conceição, não foi difícil. “Quando pensei nessa volta, já queria chamar outras meninas também – eu digo meninas por causa da renovação mesmo. Essa geração é formada por pessoas que são as nossas novas vozes. Sem dificuldade alguma esses nomes vieram à tona. Teria até mais”, conta. Entre a sua geração e a atual, Conceição vê muitas semelhanças, mas também uma diferença. “Hoje uma escritora nova vai citar Geni Guimarães, Miriam Alves, Conceição Evaristo e outras. Essa referência não tínhamos. Quando começamos a escrever e a publicar, nós sabíamos de Carolina Maria de Jesus e muito pouco de Maria Firmina dos Reis, tínhamos ouvido falar pouquíssimo de Auta de Souza... Hoje esse grupo de escritoras tem mais referências e tem com quem dialogar. A nossa condição de mulheres negras nos dá essa cumplicidade. Isso é muito bom. Isso também é uma responsabilidade da gente. Houve um momento em que éramos poucas.”


Publicação e para além da publicação As cartas serem publicadas também é uma ideia antiga. “Nos anos 1990, já criamos Cartas Negras pensando em uma publicação. Se não exatamente pensando, desejando uma”, explica Conceição Evaristo. “E isso partia muito da nossa dificuldade de publicar”, completa. A dificuldade, infelizmente, continua. “De lá para cá, alguma coisa mudou. Mas acho que, se formos pensar na posição ou no lugar das autoras negras, o que mudou foi muito pouco. As dificuldades que temos para publicar, para divulgar nossos nomes... Temos de reconhecer que alguma coisa mudou, mas ainda é muito pouco”, avalia. A esperança depositada nesse resgate existe e resiste. “Essas Cartas Negras nos servem também de incentivo. É como um voto de confiança. Porque a escrita é um processo muito difícil. Quantas coisas eu já escrevi e não mostro?”, analisa. “Ainda tem mais: nós, mulheres negras, oriundas de classes populares, nunca tivemos a escrita apontada como uma possibilidade nossa. Então, há uma autocensura muito grande. Eu vou a determinados seminários de literatura, escuto algumas coisas na fala das pessoas consagradas e fico pensando: ‘Será que o que faço é literatura mesmo?’. Está tão diferente do que é colocado como literatura!”, completa. Além de ser um incentivo, a retomada de um projeto tão significativo pode até gerar uma continuidade. Para Conceição, mesmo que ainda apenas como um sonho, “as cartas podem


continuar”. “Esta publicação pode fomentar esse desejo. De qualquer maneira, vai ser um estímulo muito grande para que cada qual continue na sua escrita. Mesmo que Cartas Negras fique aqui, sei que vai ser um estímulo para cada uma. É um reconhecimento do trabalho e precisamos disso.” *A série Cadernos Negros surgiu em 1978, com oito poetas dividindo os custos do livro. De lá para cá, uma edição a cada ano é lançada, com poemas e contos. Organização, editoração, lançamento e distribuição são feitos pelo grupo literário paulista Quilombhoje. Escritores afro-brasileiros de vários estados já participaram da coletânea e as edições mais recentes foram lançadas em parceria com uma editora.


Amiga, Aqui estou novamente. As saudades são tantas e o receio também. Por isso quase desisto de buscar a sua casa, moradia que tanto me aquece. E se não nos encontrarmos mais? E se você tiver me colocado em algum lugar de uma defensiva deslembrança? E se o silêncio que se alojou em cada uma de nós provocar um efeito amnésico apagando nossas fraternais experiências vividas em tempos anteriores?

Amiga, o que fizemos de nossos desejos de en-

contros? O silêncio se tornou a nossa fala? Por

que a nossa letra fugiu de nós mesmas parecendo

se esconder no tempo do esquecimento? Tenho mais que saudades. Experimento um tipo de banzo, que me leva a sonhar com o território que abandonamos, logo depois de ter sido fecundado com nossos gestos de ternura e que distinguia uma terra-letra que queríamos como nossas. Você se lembra do chão onde firmamos nosso pacto? Creio que, se olharmos o solo, ainda veremos fortes vestígios de nossos passos, que vieram de longe, de muito longe... Veremos pegadas de mulheres que se inscreveram


em nossa vida, antes mesmo de nossas escritas tomarem formas concretas de publicações. Aqueles passos anteriores, nossos presentes e os que virão hão de se emparelhar, nos possibilitando o cruzamento de mãos.

Então, amiga? Vamos ferir esse silêncio que

nos machuca e reacender o pacto de criação de Cartas Negras? Vamos? Foi um momento tão fe-

cundo. Havia tanta intenção em nossa fala-sentimento que entendi nossos gestos da hora como uma celebração do nascimento de uma criação que se multiplicaria entre nós. Tenho relido as poucas cartas trocadas entre nós, precisamos celebrá-las. Façamos novos rituais. Façamos de Cartas Negras nossas ofertas, nossas dádivas e nossos recebimentos mútuos. Amiga, você se lembra do momento primeiro

da fecundação de Cartas? Um acasalamento em

grupo de vozes-mulheres. Nossas vozes. Em casa de Miriam, ao sabor de um encontro regado com

nossos risos, nossa euforia e teimosia em crer em nós mesmas. Gestamos tudo, escreveríamos cartas umas às outras. As cartas circulariam entre nós: Miriam Alves, Lia Vieira, Esmeralda Ribeiro, Sonia Fátima da Conceição e


eu. Geni Guimarães, que não estava presente naquele momento, foi trazida pela memória de Miriam. Vozes-letras de seis mulheres se multiplicariam, pois cada uma criaria sua carta a partir da recebida e enviaria da mesma forma para cada uma da confraria de mulheres. Fecundada, a parir escrita em pensamentos, retornei à minha casa e, antes mesmo de desfazer a mala de viagem, enviei uma carta inicial. Assim

as

primeiras

cartas

foram

trocadas.

Hoje, relendo algumas que encontrei entre os meus guardados, pergunto: o que houve? Por que interrompemos nossas águas, ora mansas, ora revoltas, correndo o risco de nos entregar à secura? Por que abafamos nossas chamas,

nosso calor íntimo, se podemos trocar entre nós o agasalho, o aconchego, o alimento, antes de sucumbirmos tísicas de carinho? Amiga, creio que nosso silêncio não signi-

fica um irreversível esquecimento, mas apenas uma interrupção para intensificar nossos desejos e forças. Capto em nosso silêncio a imagem de corpos no jogo da capoeira, que recuam e avançam. Recuam e avançam... Neste exato momento visualizo corpos de mulheres em cena,


na roda. Avanço e recuo de corpos. Tudo um jogo a significar a vida. Dos movimentos da ca-

poeira uma lição retiro. Recuo e avanço! Recuo

e avanço! A cada recuo o corpo se potencializa e volta ganhando espaço. A volta traz sempre um corpo novo – no mesmo corpo anterior – porém potencializado na rapidez, na sagacidade, aprendizagens adquiridas na tática do recuo. Proponho, pois, nossa volta. Voltaremos potencializadas com mais vozes para juntas sustentarmos nossa confraria. Um chamado está

sendo feito. Aguardo a vinda de Ana Cruz, Ana

Gonçalves, Cristiane Sobral, Débora Garcia,

Elizandra Souza, Jenyffer Nascimento, Lívia Natália, Mel Adún e Raquel Almeida.

Amiga, sigamos concebendo as Cartas Negras.

Espero viver o conforto de sua chegada. Guarde em você o meu intensificado carinho sempre e sempre.

Conceição


iam, tian p itav evic dere e e osso inev ta az er en Eliz e Dé a o n será suas m tin andr d brig bora e o a r c p e a m i u aparid e c as ça, q . E notí gira é e s tant chão r ndo e o e u d b h q ndo os ce ol a rça mpo nest e re ue, prop na fo um te porq o qu a gar m õe, s i e , s t a e s o d f a r i até on futu de v o a c r ou r. C a zo t e o a s ã l o ç u da. p tro nzur rc osi infin a dis nome e ci a. disp anet idão l l ment nha p o ó. i para e rum s m m stá s ce u u a o da

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o ju nto, que nos e é mais que olho s em vez hemo de s ma is. corp o pe nder terá apoi o. hora r, ação

e e vo et a par reno s pés decr mos Terr s seu om o a o c de so b , s n o i e o s nt daqu sado rado bita s g a a a p h s io eus tem o itór os s jam terr m que , se ingué es. ém um n z b í m s a ento a a r m t M o s é m a s saio o nos glob nio, ja n las Este domí este s pe u a ê e d tras c s i e o m alec as l ue v as e fort noss ânci er q nos t u s s q a n e n u u q rc Onde ança tes s ci r n a e e p d m u es nós, re excl por ive s fo ones ós, quai re t a n n p â m c e e d egri os ue s lar a al rar ba q vel a fa o á rasu f s s e a i a n b i as, e ma síla o. É pret São mais as entr d . m r m o e e a c d d n s und itas este orça circ Escr der do f além unin nós. r po ito o u , a p m m z r e u a b rade p am C t o c v d a e n n on te meA i s. os c rren que riai r a co ue n mate orre dest is q a s o u o d t l não m i ri cu tec as da a espi bstá i o d i s i e e s c u e do açõ rasg tou d vibr as e tos isso ue es ânci imen por dist sso q e , sofr s f s n a i o d a s c m o s d de. , i e a o ab id suc siçã Quer ios, nos impo lênc que a eus i s s o e e s com eus sobr iore em m ondaAn,a MariaTudo r nter alar i f a d s . s n aça Crirsecisamo ência mo ai mord exist racis ri s. P as p ossa i. O n dito e a r o são a ã a n s ç al e a f e n m r o ca a, a entã ssas ustiç Pois . No sem j rpos s o o c d a s mand osso os n ça n come o,

ceiçã Cara Con Elizandra

pleta com ua car s r e b lavras m rece suas pa eliz e , f e r p o m t e i s mu e nos Como Estou aminhos dora. c a r s i e p t s n n e i sobre difer tamente flexões ontando

p re o m nos a númeras do, com continua truir i s n o c ste mun e o n d n r a a t g i o u l m onis . sso l possibi e protag obre no t s n e e r e a f d i i or d e suas nossa v força d a luta p n a s m a o r c g e a : n emecid guntar mulheres me per te estr

i a bastan rcomece Fiquei essa fo amente t a i d e smo com m e i m e á t em s s a ismo e aposta palavr tal rac porque e e s õ s p e m e mens e se i será qu nós, ho e soment u q e l á e r e com a ou uando s ça tod idades des? Q ar as c p gilida u a c r o f s Déb s mo eora nossa ras, ir s? ém res neg e h l história u m s a tamb a u e s e s a cart o u b s m o , l s i a u tanto ergunt nossos q íodo um ssas p r e e d p e m t é l a ou nes Para a do pel f ois est rovoca dor, p rtou, p e o o c f d e n n d o a r c c d u s s u n b e me re s o lêncio moment num si lguns suas a infusa asso a do em P n a . s i n a e p p u , e e m u l o e e n s d d s os e a e r i t p c mor ca ex xistên Raqu ele nun er a e P el e d e u n v a q e e e r ra s r comp que se s, dore enciai s, mas t o a s r . l i v o x a s h e l o os m pa eligi dores uçada e ismo r o o adical ra esmi


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Obri gada pelo Esme conv rald Lívia ite a , zand Soni para ra a e me j e J Geni E ta unta enyff . E ntos r a er e você Ana o Lívi nest utro , Mi e C a e a ci s no rist riam r M m a e e iane zonz , nda l e s qu ura. de l e me Raqu e E lietra el Um a vêm para e s m à ca igo Débo que esta me e beça ra. você gent falt nsin , gi n e a a o o s rand u qu de t p i r n chão opõe -rod o ge e qu quan , e , at a-od alqu sta do é a a-od er o dema r f o a u a d -oda tro lta a-ro is. nome -oda de da-r Que talv rumo -daseja odaez a da-d que , en roda a tão: -rod gira dist a -a-a r em a-ro ânci aaaa a, t zonzura daaa sent do s . é a ido lvez Ta enti bran cont do a o te lvez o s co Ajus rári pont i m temo l p o ê o , ncio a d f f s o o a r fala ç , os por corp ndo este a do eix a a gen os, todo s pa o, d te de v p s ois! mund o pr sos ida o ju um e de que Sent nto, escu segu iam o, emos ação n i ta q rmos e i q e M s u m t e no e ar . ue é roda s fa s co reba . S mais z le nsom tame eja r ol q e u n , e a q to f hos seja colo ue eroz em v , se para nos ez d ja n ndo s e olhe e o si para boca deix mos lê s e

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Cara Conceição, Estou muito feliz em receber sua carta comple-

tamente inspiradora. Como sempre, suas palavras continuam nos apontando diferentes caminhos e nos possibilitando construir inúmeras reflexões sobre nossa vida e sobre nosso lugar neste mundo, como mulheres negras na luta por diferente protagonismo. Fiquei bastante estremecida com a força de suas

palavras e imediatamente comecei a me perguntar: será que esse tal racismo está mesmo com essa força toda ou ele somente se impõe porque aposta em nossas fragilidades? Quando será que nós, homens

e mulheres negras, iremos ocupar as cidades com nossos quilombos e suas histórias? Para além dessas perguntas, sua carta também

me reconfortou, pois estou neste período um tanto infusa num silêncio ensurdecedor, provocado pela morte de meu pai. Passo alguns momentos buscando compreender a existência dele, pensando em suas dores existenciais, dores que ele nunca expressou de maneira esmiuçada em palavras, mas que se revelavam em seus períodos de radicalismo religioso. Aquele seu contexto intenso de fundamentalismo,


além de me irritar profundamente, me fazia sentir quanto ele se punia – por sua condição racial e social e também por gostar tanto de todos os ritos que compunham a identidade de sua alma negra. Bem, agora falando de nós, de fato: há anos não sentamos para desbravar as miudezas da vida, esgotar as energias de embotamento, limpando assim nossos espaços internos para que os sentimentos verdadeiros possam cumprir suas etapas, fazendo com que a gente estampe formas e nos movamos em ternuras. Essas são ações concretas, que através de palavras vão para o mundo afora sendo abraçadas e criticadas, assim nos ajudando a apurar nossos métodos de análise acerca do objeto que nos propomos conceituar. Da mesma maneira, também somos criticadas. Isso se dá com o intuito de semear incertezas sobre a qualidade dos diferentes gêneros literários produzidos por escritoras e escritores negros. Apesar de meu distanciamento, por causa de mi-

nhas tantas demandas, você está sempre fresca em

minhas lembranças, sobretudo neste ano em que se

completam duas décadas da publicação de meu primeiro livro. Eu a conheci logo após o lançamento, quando a notícia chegou a você através da saudosa Malu, que estava presente, ela e sua companheira,


Jurema da Mata. Surpreendentemente fui abraçada por você, que trazia na bagagem o debate a respeito da literatura afro-brasileira e literatura de escritoras negras. Já sabia que você era uma grande especialista em literatura, mas eu nunca ouvira falar a respeito de tal Conceito Literário. Asseguro que aquele encontro, em que você teceu sinceros elogios a meu trabalho, me causou, num primeiro momento, uma profunda insegurança, pânico até. Como dizemos entre nós, lá nos recôncavos mineiros, “perdi o rebolado”. Passei horas matutando: por que ela desceu até mim? Que desconstrução é essa? Demorei bastante para elaborar nosso encontro, mas, com o tempo, percebi o tamanho de sua sabedoria. Sabedoria essa construída a partir da longa experiência de luta e enfrentamento ao sexismo e ao racismo, na trajetória de construção de sua

carreira como escritora e como intelectual. Imagino quanto você necessitou evocar todos os dias suas convicções, exprimindo delas forças e resiliência para subverter os olhares cruéis do racismo. Senti que, ao me buscar para sua confraria,

você me cuidou, tratou para que eu não desistisse nem me perdesse de meu tímido propósito, logo que diagnosticado por você. Com uma imensa generosida-


de, você me ofereceu como suporte um mundo de escritoras negras de diferentes gêneros literários. Mulheres instigantes, que igual a você continuam me iluminando, me fazendo olhar com dignidade e lucidez a causa do ofício e a qualidade de minhas produções. Esteja certa, Conceição, a cada prêmio e a cada nova publicação sua, eu me sinto extremamente contemplada. Nós, mulheres negras, dos

diferentes lugares, nos sentimos visibilizadas e encorajadas com a sua Escrevivência. Saiba também que a cada produção minha em pen-

samento eu lhe agradeço e me pergunto: será que a Conceição vai gostar? Quero iniciar nossa primeira troca de cartas confessando que permaneço com meus pânicos, minhas inseguranças, mas sempre ouço sua voz me orientando e me dizendo: vá, persista mais um pouco. Um grande e afetuoso abraço. Ana Cruz

Ana Cruz é mineira e mora em Niterói (RJ). Poeta e escritora, trabalha principalmente com o tema memória e identidade negra e tem cinco livros publicados: Efeito de Luz, Com Perdão da Palavra, Mulheres q’ Rezam, Guardados da Memória e Eu Não Quero Flores de Plástico.


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ONCE

Conceição, Obrigada pelo convite para me juntar a você, Miriam, Esmeralda, Sonia e Geni. E Ana e Cristiane e Elizandra e Jenyffer e Lívia e Mel e Raquel e Débora. E tantos outros nomes que me vêm à cabeça, girando nesta ciranda de letras que você nos propõe, até a zonzura. Um amigo me ensinou que qualquer outro nome para esta falta de chão, esta falta de rumo que a gente atinge quando roda-roda-roda-roda-roda-roda-roda-oda-oda-oda-oda-da-da-da-a-aaaaaaa

é

branco

demais. Que seja, então: zonzura. Talvez o silêncio,

talvez a distância, talvez o tempo faça a gente girar em sentido contrário, fora do eixo, do prumo, do sentido apontado por estes passos que seguimos.

Ajustemos os corpos, pois! Sentemos em roda. Seja falando todo mundo junto, neste arrebatamento feroz de vida e de ação que nos consome, seja parando para a escuta que é mais que colo, seja no silêncio que nos faz ler olhos em vez de bocas; sentemos em roda.

Para que nos olhemos mais. Para que fechemos os olhos e deixemos o corpo pender para um lado e para o outro, sabendo que terá apoio. Para que sintamos necessidade de rir, e chorar, e cantar, e dançar, e brindar, e comer e ser quem somos sendo também a


outra. Nesta capacidade incrível de transmutação que

os corpos negros, quando juntos, parecem resgatar de uma tradição que atravessa o tempo, que atravessou outros corpos, que nos atravessa, que nos remete para o futuro. E que mais ninguém sabe fazer igual, porque é também jogo, mandinga, malícia. É o que você fala da capoeira. Escrevo hoje, então, me dizendo presente. O que posso levar? Tenho aqui agora, ao alcance das mãos, um xale que foi da minha avó, um vidrinho contendo água do mar que banhou por um instante uma praia no Senegal, trazido por uma amiga que levo em memória para a roda, dois batons vermelhos, uma folha de árvore que eu trouxe da rua sem querer, emaranhada nos cabelos, uma figa, uma caixa de fósforos que serve também para batucar,

uma vontade imensa de saber sempre e mais de vocês.

Axé, irmã. Até muito, muito, muito breve. Um chêro, Ana

Ana Maria Gonçalves é mineira. Começou a escrever ficção em 2001. Em 2002, mudou-se de São Paulo para a Ilha de Itaparica (BA), onde escreveu e lançou o romance Ao Lado e à Margem do que Sentes por Mim. Enquanto escrevia a obra, fazia a pesquisa histórica para Um Defeito de Cor, metaficção historiográfica baseada na vida de Luisa Mahin, tida como mãe do poeta Luiz Gama. Tem textos publicados em antologias em Portugal e na Itália. Morou por sete anos nos Estados Unidos, pesquisando e ministrando cursos e palestras sobre relações raciais.


IÇÃO D CE

OBRAL ES

RISTIAN E: C

RA: CON PA

Querida amiga, Imensa a minha alegria, a honra e a gratidão por poder endereçar esta carta a você, uma missiva resposta parida com tinta azeviche embebida de afeto genuíno, na força do chão que abriga o nosso passado, presente e futuro em um tempo que é e sempre será inevitavelmente circular. Confesso que receber notícias suas renovou a minha disposição de vida porque, olhando daqui, a Terra parece um planeta disposto a castigar os seus habitantes com o decreto da solidão infinda.

Mas ninguém que tem o passado sob os seus pés está só.

Este globo é também um território sagrado onde somos fortalecidas pelas nossas raízes.

Onde quer que você esteja no momento, sejam quais forem as circunstâncias em seu domínio, saiba que sempre tive esperança nas nossas letras pretas, a rasurar os cânones excludentes que nos circundam. São sílabas a falar de nós, por nós, para nós. Escritas de dentro. É inefável a alegria que me invade por poder estender mais e mais o tecido desta corrente do bem, unindo forças com as vibrações espirituais que nos conectam muito além das distâncias e dos obstáculos materiais. Querida, confesso que estou decidida a não morrer em meus silêncios, abismais, por isso rasguei as mordaças interiores e a imposição dos sofrimentos não ditos. Precisamos falar sobre o que nos sucede.

Pois então falarei. O racismo ainda ronda, com seus

mandados sem justiça, ameaça a nossa existência. Tudo

começa nos nossos corpos. Nossas carnes são as pri-


meiras vestes, legítimas habitantes neste universo mítico e ancestral. Conhecemos o gosto da liberdade e não vamos retroceder. Vamos aproveitar a oportunidade de celebrar os nossos compartilhamentos genuínos. Eis que te escrevo. Deixo cair a seiva endereçada na ponta dos meus dedos incensados no calor dos raios. São palavras que dançam, cantam, batucam, têm vozes, suspiros, saudades, emitem a urgência dos silêncios diaspóricos represados, ecos da nossa memória atemporal. São palavras especulares. Refletem quem somos, o que nunca seremos, o que não pudemos ser, o que ninguém é. Sempre fui das que têm fé, lembra? Pode até ser que a felicidade não venha, mas nem por isso deixaremos de ser felizes, sei que ainda vou encontrar você; essa certeza tinge o meu céu de certo rosa, a abrigar os nossos sonhos e desejos. Um rosa de guerra enfrentada com espada de fêmea, amolada na forja de Ogum. Sei que ainda chegarei bem perto de você, sentirei os aromas que definem a sua identidade, sempre móvel, ao sabor das brisas, celebrarei cada uma das entidades que circundam o seu corpo.

Hoje estarei em você por meio desta carta.

Nunca deixei de procurar você no meio das ma-

tas, de folha em folha, no axé de cada erva, no correr do vento e nos bambuzais, no suave toque das gotas de chuva a molhar os meus pés na grama orvalhada, aliviando o cansaço do caminho. É certo, ainda estaremos sorrindo em alguma embarcação a caminho do mar, dentro das águas negras, na alegria do nosso reencontro.


Quando estiver lendo esta carta, sei que viverei mais e com mais força, recebendo as vibrações enviadas no seu axé a restaurar aspectos diversos da minha cabeça, ori sagrado e potencializado nos encontros afetivos como o nosso. Minha amável, por aqui gotejam as saudades! Contra tudo e contra todos sempre teremos as nossas letras pretas, férteis, frágeis, fêmeas, a nossa literatura de anunciação que a tudo tem enfrentado, transformando-se, penetrando searas e multiplicando as suas plataformas

de libertação. Estejamos cada vez mais vivas e com-

batentes em nossos corpos, na capacidade de insistir além dos decretos de derrota e de invisibilidade, das máscaras estereotipadas secularmente. Estimada aliada, estaremos juntas, mais do que

somos, além do que pensamos, reformaremos o espaço-tempo, criando um vácuo-saída na ginga, no jongo, na força do nosso abraço coletivo a gerar um fogo consumidor de toda maldade. Até breve,

Cristiane Sobral

Cristiane Sobral é carioca e vive em Brasília desde 1990. Imortal cadeira 34 da Academia de Letras do Brasil (ALB), é escritora, poeta, atriz, diretora e professora de teatro. Mestre em arte pela Universidade de Brasília (UnB), com pesquisa sobre as estéticas nos teatros negros brasileiros. Já lançou as obras poéticas e ficcionais O Tapete Voador, Não Vou Mais Lavar os Pratos, Só por Hoje Vou Deixar Meu Cabelo em Paz e Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção.


IÇÃO D CE

RCIA P GA

ÉBORA E: D

A: CON AR

Querida Conceição, Foi com grande alegria que recebi sua carta. Chegou a mim em um dia de forte chuva. O céu chorava intensamente e os estrangulados rios desta cidade já quase transbordavam. Tenho certeza de que nossa mãe se encarregou de trazer o seu barquinho de papel

até mim. As águas de Oxum tudo levam e tudo trazem. O carteiro estava ensopado, mas feliz por ter

entregado a correspondência intacta. Convidei-o a aguardar, na varanda, o temporal passar. O convite foi aceito imediatamente. Resolvi preparar um chá para aquecer o rapaz e aproveitei para abrir sua carta no bico da chaleira, como fazia nos velhos tempos. Desfeita a selagem do envelope, visualizei sua letra miúda e tímida, quebrando um silêncio que se alocou imperativo em meio ao anseio coletivo de diálogos correspondentes. Sim. Lembro-me com carinho do momento em que fecundamos Cartas Negras e selamos o pacto da nossa confraria de mulheres negras escritoras. Um pacto selado a partir do anseio

de nos (re)conhecermos individual e coletivamente.

Trocaríamos cartas, multiplicando nossas vozes-letras ansiosas por diálogos reais. Nesse tempo de ausências, também me questionei de maneira assertiva sobre os rumos das nossas intenções, da magnitude e ousadia de Cartas Negras, que, até o momento, trazia a narrativa do silêncio. Agora, ao reabrirmos esse pacto de criação, para mim, tornaram-se evidentes os motivos que sustentaram esse silêncio: a vida concreta.


Antes de sermos escritoras, somos mulheres negras, trabalhadoras. No primeiro turno, nós nos

dedicamos à garantia do pão e aos afazeres domésticos. No segundo turno, o anseio pela escrita disputa com o corpo fatigado, que grita por descanso. Este é o cotidiano massacrante que se impõe a nós, que ousamos entrar – sem sermos convidadas – no seleto mundo branco e masculino dos escribas. Confesso, amiga, que inúmeras vezes, ao final do dia, adormeci em cima da folha em branco, com tanto a lhe dizer. Assim, encubei a semente de Cartas Negras no lugar reservado aos meus melhores sonhos. Quisera eu que tivéssemos o tempo e a disposição que Carlos Drummond de Andrade, Alceu Amoroso Lima, Clarice Lispector, entre muitos outros, tiveram para trocar grande volume de correspondências com seus pares. Correspondências hoje reunidas e pu-

blicadas. Sonho meu! A situação adversa já está colocada para nós, e é neste contexto que teremos de sustentar e alimentar nosso espaço de fala. Após um movimento de recuo, sua carta que agora

afago trouxe-me o ânimo necessário para avançar.

Certamente avançaremos. Tempos sombrios se apro-

ximam e, mais do que nunca, devemos estar próximas para tecer narrativas de proteção e afeto.

Não quero mais ausentar-me da roda onde aprendi a ginga, a esquiva e o ataque. Ainda mais neste mo-

mento em que as mais novas emergem suas narrativas

em publicações independentes, slams e saraus literários nos quais, finalmente, são protagonistas.


Nosso ciclo se retroalimenta neste diálogo intergeracional, com o qual podemos potencializar as vozes-letras de ontem, hoje e de amanhã. Assim, certamente sustentaremos

nossa confraria. Não quero mais vivenciar os períodos de seca, e sim navegar no rio caudaloso de possibilidades, alimentado por nossos encontros. Enquanto eu me embalava nesta escrita, alguém bateu à porta. Era o carteiro me avisando que iria embora, pois a chuva diminuíra. O chá já havia feito à infusão. Servi-o. E no ínterim em que o rapaz apreciava a bebida envelopei e selei esta carta e entreguei-a a ele, pedindo que fizesse a gentileza de postar para mim. Receba, amiga minha, o meu barquinho de papel – resposta ao seu chamado – nas mesmas águas que o trouxeram. As águas de Oxum tudo levam e tudo trazem. Asè. Débora Garcia

Débora Garcia é formada em serviço social pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Poetisa e produtora cultural, publicou o livro Coroações – Aurora de Poemas e textos em diversas antologias voltadas para a literatura negra, feminina e periférica. É idealizadora e artista no coletivo Sarau das Pretas, sarau literário protagonizado por mulheres negras.


D

OUZA AS

IÇÃO CE

LIZAND R E: E

RA: CON PA

Saudações, Conceição!

Antes, saúdo nestas poucas linhas as minhas mais velhas, as mais novas e as que estão por vir... Muito me alegra este convite para fazer parte da retomada das Cartas Negras. Confesso que às vezes sinto saudades de tempos que não vivi e tenho aprendido que o melhor momento é aquele em que podemos intervir. Ainda

sem

saber

da

existência

das

cartas

trocadas por vocês, minhas antecessoras, é como se

de alguma forma o conteúdo dessas escritas tenha chegado a mim: pelo vento, pelo fogo, pelas águas, por esta ancestralidade, que em tudo encontra um meio de acender as chamas e de espalhar boas sementes. Pois me senti enlaçada e penso que os desejos de encontros estão neste banzo que todas nós carregamos. E o pacto, ele tem se refeito, ainda que nenhuma palavra tenha sido dita dentro deste silêncio que se instala dentro de nós. Estou aqui, disposta e disponível para juntas lavarmos nossas feridas com água quente e ervas de proteção, pois, ainda que muitos passos já tenham sido peregrinados, nosso caminhar parece que se torna mais denso e nossas feridas mais expostas à

medida que os anos vão passando. A invisibilidade

insiste em nos enterrar vivas em deslembranças.

Tenho lutado muito contra essa sina de esquecimento,

isso de nossos passos serem desfeitos como escritas


que as ondas do mar apagam. Que isso possa ser

lapidado com o fogo que muito me envolve. Sinto a

mesma necessidade de estarmos juntas.

Em meados de 2013, fizemos um experimento com 20

escritoras negras da Literatura Periférica de São Paulo, a Antologia Pretextos de Mulheres Negras, que foi justamente essa necessidade de estarmos juntas e de partilharmos este carinho umas com as outras.

Penso que, se nós nos lembrarmos uma das outras, não seremos esquecidas e podemos dar sequência. Precisamos

crescer em espiral, como é a transformação da alma para os espiritualistas, pois da forma que estamos fazendo voltamos sempre ao começo, como se toda a trança da nossa caminhada tivesse sido desfeita. Quando você menciona de criarmos uma confraria de escritoras negras com nossas Cartas Negras, esta ideia muito me encanta, pois podemos dar continuidade ao que nossas mais velhas já começaram em tempos muito mais complicados do que este que partilhamos no agora, como a Confraria da Irmandade da Boa Morte.

O que nos reconecta é este carinho que temos uma pela outra. Penso muito sobre esta nossa

lembrança: seremos nós mesmas que vamos refazer a trança, trazer aconchego, acalanto e alimento, pois os dias têm sido difíceis. Temos adoecido com

todo este racismo, que nos invisibiliza, não nos potencializa, que nos tira nossa humanidade, que nos impõe uma fortaleza de deusas nas condições


de mendigas e obstrui nossa capacidade de seguir

em caminhos muito mais audaciosos. Acredito que

quando uma se cura todas nós nos curamos. Por isso

estou aqui respondendo esta carta, pois ainda tenho fé nesta roda de capoeira mencionada. O avançar e o recuar são estratégias de sobrevivência das nossas potencialidades... Quero com vocês refazer o pacto das escritas negras em movimento e alicerce para que nenhuma das nossas tranças seja desfeita e possamos de mãos dadas caminhar por novos horizontes...

Asé! Elizandra Souza

Elizandra Souza é poeta e jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie [pelo Programa Universidade para Todos (ProUni)]. Trabalha como editora da Agenda Cultural da Periferia na Ação Educativa e como locutora da Rádio Comunitária Heliópolis FM, além de integrar o Sarau das Pretas, em São Paulo (SP). É ativista cultural com um trabalho consolidado há 16 anos na cultura de periferia e na literatura negra e autora do livro de poesias Águas da Cabaça, lançado em outubro de 2012, e de textos publicados em antologias literárias, como Cadernos Negros e Negrafias.


EIÇÃO D NC

RA: CO PA

Amiga,

Leia esta missiva em voz alta, para que sua voz me console em qualquer parte do planeta. Com certeza esta carta encontrará você pelo país ou pelo mundo. Sim, fizemos um pacto, junto com as demais amigas,

de conceber um livro da nossa confraria negra; se-

riam cartas e mais cartas, mas o tempo me desvirtuou para outras estradas, cheias de paralelas, nem sempre possível seguir reto. Confesso, tive receio, sim, de bater à porta do seu íntimo, pois, às vezes, são pouquíssimas as pessoas que podem entrar em nossa vida sem que sejam convidadas. Por isso, o silêncio. O que escrever? PSIU!!! “Em quais mulheres não quero me transformar?” Não te escrevi porque estava ocupada brigando com o tempo. Sempre trilhei nas frentes pela independência da escrita feminina negra, sempre mais e mais mulheres negras escrevendo com liberdade sobre nossas opções

sexuais, sobre nosso corpo, sobre nosso íntimo. Queria ter asas; asas literárias para instituir na nossa escrita a palavra “corpa negra”, seria o meu jeito de feminizar a escrita. Eu queria, mas... A censura é

uma cobra que troca de pele, cujo veneno age lento e mortal; a censura/serpente se arrasta de mansinho

para cima de nós. O tempo está quebrando a minha espinha dorsal? Amargura e rancor querem habitar dentro de mim e eu sei que são ímãs para doenças incuráveis.

Amiga, não escrevi porque queria que a minha juventude ficasse presa naquele solo onde firmamos o pacto de conceber cartas negras. Saboreio cada palavra nossa,

servida em prato de ágata na sala/íntimo de cada uma de

nós. Não escrevi porque as palavras vêm num turbilhão de imagens do passado. Agora é presente, algumas de

RIBEIRO DA

SMERA L E: E


nós olham para o futuro do futuro. “Será que olho para o passado do passado e, por isso, em algumas de nós bate o constrangimento em me dar as mãos?” Para você eu queria escrever coisas sutis, sem importância, cartas que nos fizessem dar muitas risadas, cartas em que falássemos de amor, repletas de esperanças, em que liberássemos nossas opções sexuais, letras que esbanjassem luxo e riqueza...

Mas politicamente vamos mal. A violência está cada vez mais acirrada contra crianças, jovens e mulheres negras. É violência física, cultural, estética, financeira etc. e tal. O silêncio foi preciso para eu recompor e fortalecer as minhas palavras. Que bom, amiga, que você me trouxe de volta para a roda. Quando a gente se encontrar quero dar um abraço apertado, de bom coração. Quero segurar a sua mão e a das demais e, num grande xirê, irradiar energias positivas para que possamos contar umas com as outras. Tenho a certeza de que durante esse xirê eu poderia responder a mim e a elas: “Qual mulher negra quero ser?”. Sim, moldada para melhor, sempre. Meu carinho para você, amiga, e para as demais. Você sempre estará em meu coração. Sempre. Axé! Mojubá, Mukuiu, Motombá, amigas.

Esmeralda Ribeiro

Esmeralda Ribeiro é jornalista, escritora e pesquisadora da literatura afro-brasileira. É integrante, desde 1982, do Quilombhoje Literatura, grupo de escritores afro-brasileiros sediado em São Paulo, e há mais de 20 anos organiza e edita, com Márcio Barbosa, a série Cadernos Negros. Tem trabalhos publicados em 35 antologias no Brasil e no exterior.


N CO CE

Oi, Conceição, Que bom te ouvir novamente. Também eu sinto muitas saudades, porém a depressão que me agarrou há tempos tem me tirado o gosto.

Ótimo que você tenha me cutucado bem no fundo das lembranças. Entra que minha casa precisa de esperança e varredura. Preciso das irmãs adotivas com as quais dividi

vontades, sonhos e desejo de fazer uma revolução, abolição concreta, como sempre, difícil e dolorida. Querida, os fatos familiares me enfartaram, de modo que os meus membros, sem que eu desse conta, se atrofiaram. Nem força fiz para romper as amarras.

Às vezes, não temos força para ter força. Você já passou por essa experiência? É triste.

Sempre, sempre me lembro de nós, caio no meu comodismo doentio e deixo para lá. A gente sofre com as lembranças das mulheres que nos abriram os olhos e nos impulsionaram a alçar voo em prol de tantas outras que nunca tiveram voz e das que até hoje não sabem e não podem decifrar a “tristeza não sei por quê”. Como não nos lembrar do nosso parto espontâneo? Como esquecer tanto sonho, tanto desejo explodindo do quilombo interior?

Quero com você e outras mulheres reacender as nossas chamas abafadas. Quero contigo fazer e refazer.

Que bom que as lembranças te levaram a me/nos procurar.

:

G E NI

PA R A

ÃO D

E:


Vamos, sim, reerguer as Cartas Negras. Acredito que elas sejam a forma de nos reencontrarmos. Lembro-me, é claro, da fecundação delas na casa da Miriam. Ouço ainda nossos risos, nossas vozes felizes diante da fecundação, embora eu não tivesse presente no momento. É o sentimento que transcende tanta identificação entre nós e as nossas buscas que o distante nos acaricia e transcende.

Quero reaprender a recuar, mas avançar quando é bom e preciso. Vamos então ao recomeço.

Vamos, sim, romper o silêncio e buscar a libertação literária ou não. Bem-vindas, Ana Cruz, Ana Gonçalves, Cristiane

Sobral, Débora Garcia, Elizandra Souza, Jenyffer Nascimento, Lívia Natália, Mel Adún e Raquel Almeida. Conceição, lendo/vendo esses nomes vejo quanto estive ausente, quanto me isolei de tudo. Eu não as conheço, mas, se você as conhece, está tudo certo. Obrigada, Conce. Sei que você está fazendo esta proposta pensando muito em mim também. Talvez seja um sopro para a minha ressurreição. Abraços. Geni

Geni Guimarães é poeta e escritora, nascida no interior de São Paulo. Seu primeiro livro, Terceiro Filho, é de 1979. Logo depois disso, nos anos 1980, ela se aproximou do movimento negro e sua literatura passou a ter como tema central a cultura negra.


EIÇÃO D NC

SCIMEN T NA

ENYFFER E: J

ARA: CO OP

Conceição, Cá estou, sentada à mesa da cozinha, lugar aonde me achego quando quero escrever com tranquilidade.

Não à toa, a cozinha sempre me pareceu o lugar

mais vivo de minha casa, cheio de sons, cheiros e sabores, mas essencialmente muito rico em histórias, desde aquelas ouvidas quando criança, atrás da porta, até aquelas que foram vividas ou narradas em tom confessional nesse pequeno território-vida. É tomada por essa aura da cozinha de segredos e conversas sinceras que respondo sua carta. Há dias venho saboreando o doce de suas palavras e o cla-

mor de suas perguntas. Fui tocada pelo chamado de Cartas Negras e tomada por sentimentos agudos aos quais ainda não consigo nomear. Eu conheço bem a falta de resposta, a ansiedade

e o espinhoso silêncio. É exatamente como me sinto quando penso: “Onde estava que nem percebi que meu filho cresceu tanto?”. Daí me lembro que sempre estive aqui. Não há ausências, há temporalidades

distintas de estado de presença, talvez seja isso. Será que a interrupção de Cartas Negras significou distância e desconexão? Será que não foi pactuada


involuntariamente outra forma de estarem juntas no decorrer dos anos? A lembrança de como poderia ter sido e não foi perturba. Penso que a densidade de carregarmos o peso do mundo em nossas costas nos faça sentir que segurá-lo sozinha é muito doloroso. Então sentimos saudades de quem segura nossa mão na travessia, dessas mulheres que oferecem o acalanto e nos ajudam a olhar para nosso estado de presença no mundo e também dentro de nós.

Para mim é uma grande honra e alegria poder comungar da confraria de mulheres que carregam em suas trajetórias a sina da escrita. Digo sina por-

que entendo onde a palavra dói e onde ela liberta,

neste chão miúdo em que nós, escritoras negras, fazemos morada. Das portas abertas e fechadas para nós. Dos silenciamentos que ainda vigoram, mesmo que estejamos bradando alto e forte. Do apagamento e invisibilização das (r)existências das gerações

anteriores e das atuais. Da teimosia na escrita das

vozes negras e periféricas, ao driblar o cotidiano e o tempo do relógio para ir além do improvável. Fico cá pensando nos não ditos de nossas escrevivências de mulheres negras (como você ensinou e tem

ensinado à minha geração), do que ficou marcado em nossos corpos durante o processo, mas não foi para o papel, e das tantas reflexões em que não encontramos

lugar para dar vazão... Eu mesma, como jovem escritora negra, carrego muitos medos. Tenho medo em mo-


mentos que a palavra parece me abandonar, tenho medo de explorar outros gêneros, tenho medo da estereotipia, tenho medo de sucumbir a uma escrita insossa sem identidade, tenho medo de que a escrita perca o

sentido para mim. Mas onde posso compartilhar esses

medos e inquietações senão com vocês?

Por isso, Cartas Negras são para mim um presen-

te! Afago na alma, como doce de banana caseiro, feito no fogão à lenha. Sinto que os ecos de suas vozes nunca calaram e posso reconhecer as pegadas deixadas – nem o perverso racismo conseguiu apagar. Entre recuos e avanços, no passo grande e no pequeno, o chão continua sendo nosso alicerce, e sempre foi base para a ginga. Chão miúdo que pisamos, do qual conhecemos os cacos e espinhos, mas

sabemos que é fonte. Estar irmanadas nos dá fôlego

e nos impulsiona a atravessar fronteiras inimagináveis. Reconheço que foram as mulheres negras que

me fizeram e fazem descobrir diariamente quem sou e por onde quero caminhar. Foram elas e foram vocês que me colocaram nesta roda. Não posso deixar de

falar em Pretextos de Mulheres Negras*, um marco para minha geração, que no horizonte apontou para um mar de mulheres pretas, vozes além-tempo que se cruzaram em uníssono.


Pensando nas histórias de mulheres que carrego comigo, lembrei-me de Celina Bragança, que há dez anos numa formação perguntou: “Por que as pessoas escrevem?”. Em meio a diversas hipóteses levantadas, a resposta dela foi simples: “Nós escrevemos para sermos maiores que o tempo e o espaço”. Essa fala me atravessou e me atravessa até hoje. Hoje conheço e reverencio a importância dos passos que vêm de longe, muito longe e agora são registros de memória e vida que renascem para a continuidade. Somos e seremos maiores que o tempo e o espaço! Certo como o cheiro de feijão de minha mãe, nosso

(re)encontro não é mero acaso, é um legado trazido na travessia, uma determinação incansável de nos fazer resistir para existir, embora haja o cansaço, embora a solidão se

faça presente, embora o sol não venha nos acalentar, embora o silêncio pareça ausência e o tempo siga seu curso, sem responder os porquês. É uma dádiva ter o privilégio de ler e ouvir umas às outras. A sagacidade, o despertar e a dança dos movimentos são estratégias que funcionam melhor quando a gente se olha, se reconhece e celebra a nós. Quando isso acontece, muita força se movimenta no universo e criamos nossa própria atmosfera de modo que presente, passado e futuro são religados.


As mais novas com as mais velhas, juntas e conectadas, para que não esqueçamos o que precisa ser lembrado e para construir o que não podemos esquecer!

Agradeço imensamente a generosidade do convite,

a palavra-alimento e o carinho contido nas trocas potentes e fumegantes de Cartas Negras de vozes que nunca deixaram de ecoar. Que nunca nos faltem o amor e a disposição em compartilhá-lo! Jenyffer Nascimento

*Reunindo 22 autoras, a antologia Pretextos de Mulheres Negras foi lançada em 2013 pelo coletivo Jovem Mulher Revolucionária (Mjiba).

Jenyffer Nascimento é educadora, feminista, poeta e escritora. Publicou nas antologias Pretextos de Mulheres Negras (Mjiba, 2013), Sarau do Binho (2013 e 2015), Memorial Matuto (2015), Pretumel de Chama e Gozo (Organização Cuti e Akins Kintê, 2016) e Brasil Periférica (Chile, 2016). Em 2014 publicou seu primeiro trabalho autoral, Terra Fértil, organizado pelo coletivo Mjiba. Há dez anos integra o movimento dos saraus das periferias de São Paulo e atua com mulheres negras e periféricas.


RA

D

ÃO EIÇ

ÁLIA PA AT

L ÍV I A N E:

: CONC

Amiga querida, O silêncio sempre foi a nossa fala. Nós, mulheres

negras, tecemos a vida no silêncio, e apenas por isso escrevemos. Não sei o que foi feito do desejo

de encontro das primeiras mulheres que se juntaram

para escrever as cartas, mas eu sei que as águas se

encontram. Sejamos lama, salgada, doce, chuva, seja qual for nossa natureza, corremos umas para as outras,

e foi assim que, há alguns anos, na Universidade de Brasília, as minhas águas ainda jovens demais se encontraram com a robusteza das de Lia Vieira, Geni Guimarães e as suas. Em outros tempos, antes e depois daqueles dias, vieram Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Cristiane Sobral, Mel Adún, Elizandra Souza e Ana Gonçalves... Depois, novos e novos encontros e reencontros. Foram os caminhos que conduzem as águas que promoveram o encontro. Certa vez, quando me perguntaram sobre minha escrita, sobre as dificuldades no caminho de escrever num país racista, sexista e tão mal resolvido no que diz respeito aos lugares das mulheres negras,

afirmei sem pestanejar que o chão que meus pés

pisavam vinha amansado pelas escritoras negras que me antecederam. Costumo dizer que sou uma


pessoa de heranças, acredito que herdei um legado espiritual e uma fortaleza – ainda pouco explorada – das mulheres da minha família. Herdei do meu Orixá a delicadeza e a força das águas doces, seu apreço pela beleza que se sustenta nas coisas, mas que, na verdade, compõe Sua verdadeira essência. Herdei da minha mãe a bochecha fofa, o nariz pequeno e a facilidade de sorrir, da minha avó a firmeza na briga, da minha madrinha o apreço pelo ouro e pela cozinha. Tenho essas heranças guardadas nas palavras da minha poesia. É de lá que bebo a beleza pequena de cada dia, a dor e o desamparo de ser uma mulher que tem de ser forte e que carrega um coração sempre partido, apequenado. Mas a poesia me liberta. Escrevo como uma salvação dentro da maldição que é sentir com tanta intensidade um mundo feito para pessoas que se devoram e atravessam.

Acredito que escrevemos para sobreviver ao mundo e para eternizar, nas nossas vozes, as falas das mulheres silenciadas que nos antecederam. Conceição, nós escrevemos porque a vida não

nos cabe, somos água que às vezes nasce calada de um olho pequeno e às vezes devora o mundo em sofreguidão e espanto. Somos água, se cristalinas ou opacas, somos nós que trazemos o mundo na


barriga, a minha, prenhe de palavras, assim a vida escolheu, ao me dar útero de poeta. Mas nós nos encontramos. Corremos, caídas do céu, plenas no mar, densas nas correntezas, aqui estamos e, no tempo das coisas, chegamos aqui, a este ponto de encontro que será eterno, pois está escrito na intensidade de nossas palavras.

O silêncio sempre será nossa fala, mas a nossa literatura não calará jamais. Ela morará na dobra das orelhas, no vinco bem pinçado do canto da página, na digital dos dedos que acariciam nossos livros.

Para

isso

fomos

feitas,

escrevendo.

Mandamos embora o silêncio que nos impuseram e construímos outro, onde irmanamos nossos sonhos nos apoiando nas asas umas das outras. Sigamos!

Lívia Natália

Lívia Natália é filha de Oxum, poeta, doutora em letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professora de teoria da literatura na mesma instituição. Autora dos livros Água Negra (EPP Publicidade, 2010, Prêmio Banco Capital de Literatura), Correntezas e Outros Estudos Marinhos (Ogum’s Toques, 2015) e Água Negra e Outras Águas (Caramurê, 2016).


D

ÃO IÇ : CONCE

certo dos acertos. Das tentativas de continuarmos,

colhendo, mas também plantando. Engraçado que, ao

ler suas cartas, vejo que andamos, mas algumas

coisas não deixamos pelo caminho, trazemos na mala da vida com a gente. E isso é bom. Muito bom. Tenho

incontáveis cartas, escritas a punho, para amigas

tão próximas do coração, mas geograficamente tão afastadas. E lá morava o meu eu mais profundo. Mais até do que era dito às amigas daqui: vizinhas

de porta, de escolas, de cidade. Porque a carta nos motiva a abrir, mostrar, entregar. Como é bom sentir o gosto da entrega novamente! É tudo tão rápido, tão instantâneo. É o café da máquina, os fast(bad)foods, e-mails, zaps. Outro dia ouvi uma mãe agoniada porque a bateria do celular tinha acabado e o filho ficava “indócil” no carro, numa viagem “longa” de 30 minutos. Lembrei

na

hora

da

minha

infância,

quando

estava dentro do ônibus indo para qualquer lugar, e ficava na janela olhando para o céu. A cada nova nuvem, uma nova imagem e muitas possibilidades de criação. Era divertido brincar com Deus. Era assim que eu entendia. Elx não tinha nome, mas era responsável por tudo que existia por aqui. E na minha cabeça adorava brincar com crianças, ou então por que teria criado as nuvens? Massa de modelar aérea feita de algodão. Baita invenção! Não que eu nunca tenha dado uma distração para a minha menina. A maternidade, entre muitas coisas,

RA

Espero que esta carta a encontre. Encontre o tempo

PA

Conceição,

ÚN

M EL A D E:


traz à tona nossas contradições. Mas confesso que tento, sim, em tempos de agenda cheia, incentivar o não fazer nada. Nem sempre conseguimos, mas seguimos tentando. É tão instigante e apavorante a ideia de criar filhxs. Hoje, apesar de o país viver mais, nós vivemos

menos. Já fomos frutas estranhas penduradas em

árvores com sangue na folha e na raiz; hoje

continuamos alvos, expostxs na televisão. Tarja no olho, sangue no chão. Como podemos ainda estar aqui? Aqui neste lugar. Nesta posição tão vulnerável. Onde um pai de família pode ser assassinado e “dado cabo”, pela certeza de que um corpo negro a menos não faz a mínima diferença. Mesmo com a ficha limpa. Mesmo pagando as contas em dia, podemos ter nossas vidas arrastadas pelo carro de quem jurou proteger e servir. Proteger, nós.

Servir? Continuamos frutas estranhas, com rostos

distorcidos, assim como as verdades reveladas. Aqui, onde nem todos os santos juntos conseguem segurar o dedo de quem puxa o gatilho e mata o que poderia ser seu próprio filhx, e são celebrados como heróis da seleção. O artilheiro não encontra ninguém na zaga. Tudo livre. É gol. É gol? E tudo isso passa por nós. Tudo isso é questão

de gênero. Questão de mulher preta. Qualquer caso.

Envolvendo homem ou mulher. Tudo passa por nós. Tudo

sai de nós. E a cada filhx enterradx, vamos morrendo também. Ser mãe ou pai de uma criança preta exige mais do que estômago, exige corpo, mente, soul. Não é impressionante que tudo isso caiba numa carta? Do mundo de uma criança às nossas dores.


A todo esse derramamento de sangue. Não queria que nosso encontro tivesse esse vermelho. Temos tantos outros vermelhos lindos. Poderíamos falar dos ventos, falar do fogo. Mas tudo passa por nós. Tudo acaba sendo uma questão de gênero. Lembro de mainha repetindo que quem beija meus filhxs a minha boca adoça. Nossos filhxs precisam ser beijados, acarinhados. Não tem como isso não entrar nesta carta. Podem não ser nossos filhxs, mas são filhxs. Estranhas frutas, bolas “na cara” do gol. Vulneráveis.

Mandei muitas cartas para muitas você. E, a

cada carta escrita, antes mesmo da resposta, eu me sentia um pouco curada. Um pouco tratada. Um tanto

amparada. Ressuscitada a cada envelope selado. Porque a carta, como disse, nos motiva a abrir, mostrar, entregar. E o gosto da entrega, ah o gosto da entrega...

Mel Adún

• A autora optou por não usar os artigos definidores de masculino e feminino, substituindo-os pela letra “x”.

Mel Adún é escritora, jornalista, mestra em literatura e cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), além de diretora e cofundadora da Editora Ogum´s Toques. Começou a publicar Cadernos Negros há mais de dez anos e já teve textos em algumas outras antologias. Apesar de não se limitar a este gênero, lançou dois livros infantis nos últimos anos.


RA

ÃO D

EIÇ : CONC

Amiga,

VES PA AL

M IRI A M E:

Sua carta me encontrou num dilúvio de lembranças e

saudades. Confesso que por longo tempo fiquei a imaginar

o que aconteceu com nossos sonhos e planos feitos na tarde daquele dia em que rimos muito, choramos e nos propusemos a refletir sobre a nossa escrita-mulher, correspondendo-nos de coração aberto. Através das redes sociais tenho notícias de algumas de nós e alegro-me em saber que você, Lia

Vieira e Esmeralda Ribeiro seguem na batalha do reconhecimento e visibilidade da literatura negra feminina, e também ouço os ecos de conquistas de

Geni Guimarães. Entristeço-me em não ter notícias de Sonia Fátima da Conceição. Com ela, em especial,

tentei contato, e ela me respondeu afirmando não estar mais escrevendo ou publicando. Eu, por minha

vez, amiga, apesar da distância e do silêncio,

uno-me a vocês em pensamentos e desejos. Através

de seus textos em livros e antologias, eu me sinto

realizada e fortalecida em não esmorecer e não deixar apagarem os passos das que vieram antes de nós, como também não apagarem nossas pegadas, para serem marcas de caminhos para as que vierem depois. Uma certeza tenho, amiga: apesar de as missivas

cessarem, aquele nosso encontro tecido há anos nas

entranhas do tempo mudou nossa vida, nos deixou leves e mais decididas no nosso ato de escrever. Confesso

que

alguns

de

meus

contos

e

poemas

posteriores àquela tarde ali foram fecundados com emoção cúmplice. Não silenciei, não esqueci, não as abandonei em nenhum canto frio, eu as guardo


aqui aquecidas bem dentro de meu relicário de sentimentos e nos momentos de solidão que nos acometem; quando precisamos de um abraço de igual para igual e entre iguais, eu abro esse baú e dialogo com todas. Sua

atitude

de

retomarmos

o

diálogo

é

um

presente das deusas e traz bons presságios, espero que aumente o fluxo de águas em nosso rio criativo e inunde o papel com palavras dando vida a novos livros. Volto com sorriso no rosto e lágrimas nos olhos, abro os braços para agasalhar e ser agasalhada por você, amiga, e por todas as outras amigas destas nossas Cartas Negras. Para este reencontro você convidou novas vozes: Ana Cruz, Ana Gonçalves, Cristiane Sobral, Débora Garcia, Elizandra Souza, Jenyffer Nascimento, Lívia Natália,

Mel Adún e Raquel Almeida. Nossa ciranda

aumenta e se fortifica. É com prazer que recebo e enlaço esses corpos e com certeza outras tantas mulheres empoderadas na escrita estão na estrada e irão chegar e abriremos essa roda e cirandaremos juntas.

Amiga, estou engravidada de palavras e perspectivas de reestabelecermos esses elos. Fique

com meu abraço e o afeto que sempre lhe dediquei.

Miriam Alves

Miriam Alves é graduada em serviço social pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Foi integrante do Quilombhoje Literatura de 1980 a 1989. Já participou de várias antologias de poemas e contos internacionais e nacionais e publicou os livros Momentos de Busca, BrasilAfro, Mulher Mat(r)iz e Bará na Trilha do Vento.


MEIDA AL

IÇÃO D CE

RAQUEL E:

RA: CON PA

Querida Conceição,

Obrigada pelo chamado, espero por ele há tempos. Talvez eu mesma tenha colocado um muro invisível

e muito me alegra que seja rompido. Assim, podemos

nos unir e nos ouvir com mais frequência. O tempo é somente busca...

Eu sou parte dele e da sombra que paira nessa

ponte que nos religou. Entre um buraco histórico e outro, eu me refugiei nas letras e em busca de referências me envolvi na correnteza de belas vozes pulsantes que me provocaram e provocam até hoje. Fui do passeio à moradia e moro até então no aconchego das páginas negras que construímos. Elas me ajudam a sobreviver mais lúcida e dentro deste oásis me sinto blindada contra a loucura do mundo. Mesmo sem encontros de corpo presente, as palavras voaram até mim: presa fácil de uma estatística comum criada sob medida para mulheres como nós. Embora pareçam estáticas,

as

“palavrAsas”

voaram

até

mim,

se

movimentam e refazem seus percursos inimagináveis, chegando faceiras como um chamado ancestral.

Sou um grāo, desses que se espalharam no sopro

dado por Esperança Garcia, Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus... No entanto, só tive acesso a elas a partir de você, Conceição, junto de Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Geni Guimarães e outras que me firmaram nesse solo fértil. Eu sou ainda semente fecundando nessa terra e, como o


tempo modifica e tem seus processos, temos a seta e ela anuncia outros horizontes. Nessa teia existem muitos percalços, há uma falsa impressão de liberdade e de ascensão e, talvez por isso, não saímos da zona de conforto que é o silêncio. Tenho me perguntado com certa

frequência: quem de verdade me silencia? Percebo

que nossas vozes se multiplicaram e o processo de solidão continua o mesmo e isso é desesperador. Eu grito ou me calo? O calar provoca menos catástrofes?

O grito às vezes é incompreendido e isolado de mulheres que gritam como nós. Será que temos medo de dar um brado ainda mais alto? Por menos, muitas

desistem e se silenciam em gavetas e/ou cadernos nunca abertos. Há uma ponta de esperança quando nos encontramos em outras vozes mas o todo é tão perverso que nos enxergamos muitas vezes como

problema e nunca como solução. Se somos vozes

múltiplas e cheias de particularidades, por que o medo de sermos também uníssonas? Ser e fazer parte desse grupo de mulheres como

você sugere me enche de alegria. Quem sabe, com um vasto caminho traçado, consigamos achar nosso elo, a ponto de ecoar e nos espalhar cada vez mais para o mundo, sabendo ser porto e aconchego para quem chega e para quem parte, rompendo o dito lugar-comum em que vivemos. Essa que parte precisa estar segura de que estaremos aqui para acolher

na chegada. Trocar vivências é imprescindível para


que todas nós voemos. Todas temos asas e rumos diferentes se encontrando em um pouso e outro.

Acredito que recuar algumas vezes é uma boa estratégia (nem costumo chamar de recuo, chamo de encasular, que é quando me resguardo). Pode parecer silêncio, mas a força de tantos chamados reverbera

de

dentro

para

fora

e,

passando

o

período do casulo, se volta com lindas asas e o voo é rasante e cortante. Por isso a volta não me assusta. Somos a fortaleza que nos ampara. A fase

está para nos desprendermos e avançarmos em bando para o que nos é negado cotidianamente. Sejamos então o abrigo que buscamos: mel e pimenta para quem degusta. Existe o desejo comum da soma de vozes nas páginas deste ciclo.

Cartas Negras sempre estiveram presentes informalmente em nossa escrita, nos abraços e miradas na bolinha dos olhos. Eu me sentir parte é

um presente que guardo com muito apreço. Sigamos então

bolando

estratégias

na

construção

e

na

colheita de bons frutos. Obrigada por confiar essa missão.

Raquel Almeida

Raquel Almeida é poeta, escritora e produtora cultural. Cofundadora do sarau Elo da Corrente, ela é autora do livro de poesia Sagrado Sopro (2014) e coautora de Duas Gerações Sobrevivendo no Gueto (2008), que reúne poesias, contos e crônicas.


Foto: Richner Allan


ÃO

S DA

D

EIÇ

ON C E: C

RA: TO PA

Amiga, Sinto os dias como bonança, dias de permissão de vida, apesar de... Esta calma, mesmo com a tormenta ao nosso redor, se dá porque você chegou sem demora. Estou grata pelo seu

apreço. Sei, amiga, que somos várias. Duas,

três, dez, mil... São tantas que me trazem

abraços e cabem em meus braços que posso afirmar que o ideal quilombola se pereniza entre nós. Mil salvas para as letras de nossa confraria. E, apesar de sermos várias, singularizo o vocativo. Chamo por amiga as diversas que me chegaram. Entre elas, você, como se todas fossem somente uma. Eis a

razão. Singularizo porque quero chegar a cada

uma, com um diferenciado e mesmo carinho, na justa medida de cada individualidade. Amiga, saiba que há uma mesa farta,

pronta para a ceia coletiva, construída com o que você me trouxe e também com as oferendas das outras. É tanto alimento para repartir entre nós que o medo de um futuro escasso de palavras e sentimentos não precisamos ter. Tudo veio em abundância. Água e fogo. Palavras e silêncio. Amiga, vamos festejar nosso reencontro nesta

casa,

em

que

as

novas

têm

seus


aposentos,

junto

aos

das

primeiras

moradoras. Vamos, amiga? Miriam veio e me falou de “bons presságios”. Geni reafirma “quanto precisamos de um abraço de igual para igual e entre iguais” e não esquece a validade desses gestos em momentos de solidão.

Esmeralda

quer

segurar

minha

mão e “das demais para irradiar energias positivas para que possamos contar umas com as outras”. Vamos? E todas nós faremos um brinde às que não vieram ainda. À Sonia, que há muito apaziguou a vida, fora da escrita, escolha que é possível também. E igualmente à Lia, um brinde desejando que a qualquer momento ela possa vir em nossa direção. Absorvida por outras manhas da vida, Lia não teve tempo de ouvir nosso chamado. Amiga, além das fundadoras da Confraria

de Cartas Negras, outras mais chegaram para

compor nosso coro de vozes-mulheres-negras. Ana Cruz veio corajosa para “desbravar as miudezas

da

vida

buscando

nos

mover

em

ternura”. Ana Maria chegou pronta para a “roda, lugar de amparo próprio para nosso corpo, independentemente do lado para o qual ele possa pender”. Cristiane se aproximou


“disposta a não morrer em silêncios abismais e por isso rasgando mordaças interiores”. Débora sombrios

veio se

consciente aproximam

de e

que devemos

“tempos estar

próximas para tecer narrativa de proteção e afeto”. Elizandra se aproximou e quer refazer “o pacto das escritas negras em movimento e alicerce para que possamos de mãos dadas caminhar por novos horizontes”. Jenyffer chega afirmando a necessidade de as “mais novas com as mais velhas, juntas e conectadas, zelarem para o não esquecimento do que precisa ser lembrado e edificar a construção do que não pode ser esquecido”. Lívia traz o entendimento da força do nosso silêncio, pois crê que “mandamos embora o silêncio que nos impuseram e construímos outro, onde irmanamos nossos sonhos nos apoiando nas asas umas das outras”. Mel chega valorizando o exercício e o significado de escrita de uma carta, pois a carta “nos motiva a abrir, mostrar, entregar”. Raquel vem reconhecendose como semente ainda fecundando na terra, preparada por mãos antecessoras e que, “como o tempo, modifica e tem seus processos e seta anunciando novos horizontes”.


Amiga, sigamos, pois, com nossas Cartas Negras. Repito, sou grata pelo seu cuidado, pelo seu rápido

retorno. Pude confirmar que o silêncio que existiu entre nós não foi uma ação de esquecimento, mas um modo de nos dizer, no tempo de espera. Consegui então recolher porções de cada silêncio, do seu, das outras e do meu, e refazer falas que não foram ditas, mas que estão plenas de maturação e que arrebentam em nós, em forma de escrita. Percebi que nada do que conversamos caiu no esquecimento. Está tudo à flor da pele, tanto a dor quanto a alegria. E talvez, amiga, mais do que nunca, nestes tempos de tantas perdas, de tantos filhos mortos, de tantas semelhantes nossas agredidas, precisamos edificar nossas escrevivências como eco de vozes-mulheresnegras reivindicando a vida. Amiga, celebrando o conforto e o prazer de sua chegada, em gratidão registro meu intensificado carinho por você, irmã, sempre e sempre. Conceição




EXPEDIENTE coordenação editorial Carlos Costa edição Fernanda Castello Branco conselho editorial Ana de Fátima Sousa, Ana Estaregui, Caroline Rodrigues, Claudiney Ferreira, Conceição Evaristo, Fernanda Castello Branco, Islene Motta, Kety Fernandes Nassar, Roberta Roque, Tayná Menezes e Valéria Toloi coordenação de design Jader Rosa projeto gráfico Liane Iwahashi produção editorial Bruna Guerreiro produção gráfica Lilia Góes supervisão de revisão Polyana Lima revisão Rachel Reis (terceirizada) colaboraram nesta publicação Ana Cruz, Ana Maria Gonçalves, Cristiane Sobral, Débora Garcia, Elizandra Souza, Esmeralda Ribeiro, Geni Guimarães, Jenyffer Nascimento, Lívia Natália, Mel Adún, Miriam Alves e Raquel Almeida FICHA TÉCNICA Pesquisa, concepção, curadoria e realização Itaú Cultural e Conceição Evaristo Consultoria Islene Motta Projeto expográfico Itaú Cultural Concepção artística para projeto expográfico e roteiro audiovisual Aline Motta Trilha sonora da instalação audiovisual Bruno Elisabetsky As obras de arte em tecido que compõem a exposição são de Janaína Barros, Lídia Lisboa e Rita Damasceno Pesquisa Marcos Florence Martins Santos (terceirizado) Projeto de acessibilidade Viviane Sarraf/Museus Acessíveis

ITAÚ CULTURAL Presidente Milú Villela Diretor-superintendente Eduardo Saron Superintendente administrativo Sérgio M. Miyazaki NÚCLEO DE AUDIOVISUAL E LITERATURA Gerência Claudiney Ferreira Coordenação de conteúdo audiovisual Kety Fernandes Nassar Pesquisa e produção-executiva e audiovisual Caroline Rodrigues e Roberta Roque Roteiro Caroline Rodrigues, Richner Allan e Roberta Roque Captação e edição de imagens Richner Allan Som direto Glaydson Mendes e Tomás Franco (terceirizados) NÚCLEO DE EDUCAÇÃO E RELACIONAMENTO Gerência Valéria Toloi Coordenação de projetos especiais Tayná Menezes Pesquisa e produção-executiva Ana Estaregui Coordenação de atendimento educativo Tatiana Prado Equipe Amanda Freitas, Caroline Faro, Danilo Fox, Thays Heleno, Victor Soriano e Vinicius Magnun Estagiários Aline Rocha, Bianca Melo, Bruna Caroline Ferreira, Caique Soares, Danielle de Oliveira, Edson Bismark, Elissa Sanitá, Fernanda Oliveira, Gabriel Lopes, Gabriela Lima, Guilherme Wichert, Juliana Cristina do Nascimento, Juliana Rosa, Juliane Lima, Kaliane Miranda, Kim Mansano, Luan Lima Silva, Luene Mantovani, Marcus Ecclissi, Maria Luiza Kazi, Mario Rezende, Pamela Camargo, Pamela


Mezadi, Patricya Maciel, Renan Jordan, Sidnei Santos, Thais Gonçalves, Vinicius Escócia, Vitor Augusto da Cruz e Wellington Rodrigues Coordenação de programas de formação Samara Ferreira Equipe Carla Bortoloni Léllis, Cláudia Malaco, Edinho Santos, Josiane Cavalcanti, Lucas Takahaschi, Luisa Saavedra, Maria Luiza Ramirez Soares, Raphael Veiga, Thiago Borazanian e Vinícius Amaral

NÚCLEO CENTRO DE MEMÓRIA, DOCUMENTAÇÃO E REFERÊNCIA Gerência Fernando Araujo Coordenação Eneida Labaki Digitalização de fotos e documentos Laerte Fernandes

AGRADECIMENTOS Ademir Evaristo Vitorino Ainá Evaristo de Brito Aldair Evaristo Vitorino (Cailo) Almir Evaristo Vitorino Altair Evaristo Vitorino (Zinho) NÚCLEO DE PRODUÇÃO Altamir Evaristo Vitorino (Tami) DE EVENTOS Amauri Mendes Pereira Gerência Henrique Idoeta Soares Angela Bispo Coordenação Edvaldo Inácio Silva Bar Amarelinho e Vinícius Ramos Produção Antônio Gama (terceirizado), Benedito Sérgio Claudia Fabiana Daniel Suares (terceirizado), Érica Giovana Xavier Pedrosa, Fábio Marotta, Julia Munhoz Joana Josefina Evaristo (terceirizada), Renan Ortega (estagiário) Macaé Evaristo e Wanderley Bispo Mara Evaristo Maria Angelica Evaristo (Deca) NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO Maria de Lourdes Evaristo (Nui) E RELACIONAMENTO Maria Inês Evaristo Barbosa Gerência Ana de Fátima Sousa
 Coordenação de conteúdo Carlos Costa
 Maria Regina Pilati Pereira Marisa Abrunhosa Produção e edição de conteúdo Profª Constância Lima Duarte Fernanda Castello Branco, Jullyanna Prof. Eduardo de Assis Duarte Salles (estagiária) e Thiago Rosenberg Renato Farias Redes sociais Renato Corch Silvano Fidelis Supervisão de revisão Polyana Lima Revisão de texto Rachel Reis (terceirizada) Úrsula Isabel Dias de Araújo Waldemar Euzébio Pereira Coordenação de design Jader Rosa Projeto gráfico Liane Iwahashi Produção editorial Bruna Guerreiro O Itaú Cultural realizou todos os esforços Comunicação visual Yoshiharu Arakaki para encontrar os detentores dos direitos Captação de imagem e edição de autorais incidentes sobre as imagens/ fotografia André Seiti obras fotográficas aqui publicadas, além Coordenação de eventos e comunidas pessoas fotografadas. Caso alguém se cação estratégica Melissa Contessoto reconheça ou identifique algum registro Produção e relacionamento Simoni de sua autoria, solicitamos o contato pelo Barbiellini e Vanessa Golau Olvera e-mail atendimento@itaucultural.org.br.


quinta 4 de maio a domingo 18 de junho de 2017 terça a sexta 9h às 20h [permanência até as 20h30] sábado, domingo e feriado 11h às 20h

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Centro de Memória, Documentação e Referência Itaú Cultural | Itaú Cultural Ocupação Conceição Evaristo / organização Itaú Cultural. - São Paulo : Itaú Cultural, 2017. 72 p. : il. ISBN 978-85-7979-095-9 1. Conceição Evaristo. 2. Escritora brasileira. 3. Negritude. 4. Literatura brasileira. 5. Mulher. 6. Educação. 7. Exposição de arte – catálogo I. Instituto Itaú Cultural. II. Título. CDD B869.3