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Memória e identidade na América Latina

Reinventando conceitos se chega a um novo lugar. Ressignificando arquivos, imagens e pontos de vista, a exposição Arquivo Ex Machina e o IV Fórum ­L atino-Americano de Fotografia de São Paulo – realizados pelo Itaú Cultural – promovem um espaço de discussão e construção das imagens que retratam e traduzem um território: a América Latina, cada vez mais próxima do continente real, não mais um mundo novo idealizado.

Nas imagens de arquivos, temas como revoltas populares, criminalidade, escravidão, extermínio indígena e repressão política. Fantasmas que insistem em existir, sempre acuados pelo olhar crítico da arte. Sobressaem no conjunto o tema da identidade – seja ela real ou alegórica, imposta ou natural – e sua constante elaboração. Outro dado relevante é a maturidade que o pensar e o fazer a fotografia latino-americana adquiriram nestes anos de fórum.

Compõem a mostra dez conjuntos de imagens de arquivos/artistas, representações de nuances da história da vasta região e de seus múltiplos habitantes. Para resumir os sentidos dessa diversidade, uma solução mágica – esse deus do teatro grego, ex machina – foi chamada à cena.

Convidamos o visitante a ver com os próprios olhos a potência desse retrato de nosso continente. A esperança de um mundo novo. Itaú Cultural


Arquivo Ex Machina

Esta exposição não trata apenas de rever a ideia de América Latina proposta por arquivos elaborados em processos cheios de vícios coloniais. Arquivo Ex ­Machina revisita, de maneira contundente, os critérios que denominam aquilo que definimos como local de guarda de um conjunto de indícios documentais.

dizer ao índio mapuche [população autóctone do sul do Chile e da Argentina] que – como definiu Cesare ­Lombroso [criador da antropologia criminal] – criminoso ou suspeito é aquele que o aparenta ser nos arquivos que solidificam o status quo, o estado das coisas, e não o status quae sera tamen, uma liberdade criativa.

Quem define? Quem nomeia? Para quem define? Para quem nomeia?

Como método de trabalho para a consolidação de ­Arquivo Ex Machina, fomos ao encontro de pesquisadores, curadores, colecionadores e artistas envolvidos com material de arquivo. De início, interessava-nos qualquer releitura dos paradigmas tradicionais. Posteriormente, estabelecemos três linhas de pesquisa: uma nova forma de olhar velhos arquivos, a manipulação dos sais de prata e o documento inventado.

A exposição aponta ainda o dedo para outros formatos que podem ser inventados e nomeados como arquivo. A América Latina, incluindo o luso-Brasil, construiu sua história sobre paradigmas que interessavam muito mais àqueles que falavam do outro do que aos que tentavam falar de si mesmos. Cabe no escopo do IV Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo a tarefa de escolher outras cápsulas, para outros futuros. Ou de renomear velhas cápsulas, de futuros antigos.

Claudi Carreras e Iatã Cannabrava

[O título da exposição deriva da expressão latina deus ex machina. Criada no teatro antigo grego, definia a entrada em cena de um deus cuja missão era solucionar de forma arbitrária um impasse vivido pelos personagens. Por extensão, virou reso-

Se, por um lado, nenhuma das cápsulas lançadas em décadas passadas sequer esbarrou no presente, por outro lado, no território desta mostra, elas servem para

lução inverossímil para um problema dramático. Em sentido figurado, algo que inesperadamente propicia uma solução para uma situação difícil.]


Cabanagem – André Penteado | Brasil O documento inventado

É possível criar documentos para interpretar o passado, ainda que sejam documentos contemporâneos. A reconstrução da passagem de um furacão histórico quase desconhecido e não retratado: a Revolta dos Cabanos, na selva ao norte do Brasil. O trabalho mostra que, em qualquer tempo – ontem, hoje e amanhã –, o abandono dos dirigentes e dos trópicos gera ódio e violência. André Penteado, nascido em São Paulo, é fotógrafo e artista plástico. Em 2013, venceu o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger. Em 2014, teve seu projeto Tudo Está Relacionado selecionado pelo Rumos Itaú Cultural 2013-2014. Em 2015, publicou o livro Cabanagem, incluído na lista de melhores do ano dos sites Time LightBox e Photo-eye.

Documents can be created to interpret the past, even if they are contemporary documents.

Es posible crear documentos para interpretar el pasado, aunque sean documentos contemporáneos.

André Penteado traces back events of a nearly unknown and not portrayed historical hurricane: the Revolt of the Cabanos, in the Northern forest of Brazil. This work shows that, at any time - yesterday, today, tomorrow the abandonment by the government authorities and by the tropics lead to hatred and violence.

La reconstrucción del paso de un huracán histórico casi desconocido y no retratado: la Rebelión de los Cabanos en la selva al norte de Brasil. El trabajo muestra que, en cualquier tiempo —ayer, hoy y mañana—, el abandono de los dirigentes y de los trópicos genera odio y violencia. André Penteado, fotógrafo y artista plástico, nació en São

André Penteado, born in Sao Paulo, is a photographer and

Paulo. En 2013, recibió el Premio Nacional de Fotografía Pierre

fine artist. In 2013, he won the Pierre Verger National Award of

Verger. En 2014, su proyecto Tudo Está Relacionado [Todo

Photography. In 2014, his project Tudo Está Relacionado was

Está Relacionado] fue seleccionado por Rumos Itaú Cultural

selected to take part in the 2013-2014 Rumos Itaú Cultural pro-

2013-2014. En 2015, publicó el libro Cabanagem, incluido en la

gram. In 2015, his book Cabanagem was published and was

lista de los mejores del año de las páginas web Time LightBox

included in the year’s top best list of Time LightBoxlist and

y Photo-eye.

Photo-eye web sites.

Sem Título, Série Cabanagem, 2014, André Penteado


Cabanagem – André Penteado | Brasil O documento inventado

[texto original]

Caros Iatã e Claudi, tudo bem? Dentre toda a loucura que está sendo o começo deste ano, será que consigo responder com clareza a pergunta de vocês? Como cheguei no Cabanagem? Como cheguei no Cabanagem... bom... aqui em casa está começando a festa de aniversário de quarenta anos da Karlla e, entre a música, os amigos e um copo de cerveja, vou tentar contar como tudo se deu. Parece-me uma situação apropriada para explicar um projeto que tenta investigar – fotograficamente – um momento de revolução de nossa história e suas ondas que ainda chacoalham o presente. Acho que o Cabanagem é sobre isto: ver como as ondas do passado ainda movimentam o presente. O que daquilo que sempre existiu em nossa história continua a existir. Pense na imagem de uma espiral: em diferentes momentos, passamos sempre sobre os mesmos pontos. É bom olhar para eles, compreender quão fundo eles vão, em qual camada de nosso substrato está o começo de tudo. Isto se for possível chegar lá. Talvez um projeto de investigação como esse seja uma boa imagem para ajudar a (re)pensar, (re)significar o que é pensar a nossa história. O que é a narrativa histórica? Se a história que fica é a dos vencedores e os revolucionários nunca venceram no Brasil, qual é a narrativa que se construiu dos muitos levantes, revoltas, revoluções que aqui ocorreram? Quando ocorreram as manifestações de 2013, eu havia acabado de voltar ao Brasil, e tive vontade de pesquisar nossa história e ver em que outros momentos este povo – dito pacífico, acolhedor, amoroso – se rebelou contra os poderes instituídos. Para a minha surpresa, a lista era muito maior do que eu lembrava de meus tempos de escola. Muito maior! E não era só isso, havia a Cabanagem, uma revolução que, além de ter sido bem-sucedida por um tempo – afinal, os revolucionários, após matarem o governador (!), conquistaram e mantiveram o poder no

Sem Título, Série Cabanagem, 2014, André Penteado

Grão-Pará por mais de um ano –, causou a morte de mais de 30 mil pessoas! Como seria possível que eu não soubesse nada dela? Fiquei espantado. Quanto mais lia, mais me interessava. Foi esse o começo de tudo. A partir daí, o processo foi de ler muito sobre a Cabanagem e, nessas leituras, conheci a professora Magda Ricci da Universidade Federal do Pará (UFPA), que é especialista no assunto. Além de outros textos sobre a Cabanagem, ela me introduziu o conceito de micro-história e as obras de Carlo Ginzburg e de Natalie Davies. Deles veio a ideia de que existem outras narrativas que não as dos grandes feitos, dos grandes personagens, uma outra forma de olhar a “história”. Foi com tudo isso na cabeça que criei, ainda aqui em São Paulo, uma lista de fotografias possíveis para o projeto, uma lista de lugares para ir. Esse roteiro serviu basicamente para permitir que o acaso – esse fator que sempre considerei como o preponderante na vida – fizesse a sua parte. É assim que trabalho em todos os meus projetos: as ideias servem somente para me colocar no lugar em que as imagens se oferecerão a mim. Dessa forma, fui ao Pará, vocês sabem, duas vezes. A primeira, por 15 dias, para aprofundar a pesquisa e testar minhas hipóteses e a segunda, algum tempo depois, por dois meses. O intervalo foi muito importante para olhar para/pensar sobre o que havia produzido. Foram essenciais, também, as conversas que tivemos, pois me ajudaram a ver o que havia no material. Percorrer Belém e o interior do Pará buscando rastros, traços e vestígios de algo de que quase nada sobrou: uma ideia, um pensamento, 30 mil mortes... Depois de um ano editando as fotos para o livro – vocês também sabem bem desse processo! – e chegando na seleção final, acredito que o Cabanagem, com suas imagens que se repetem – burocracia, violência, religião, natureza, desgaste, passagens –, não é um livro sobre um fato histórico em si, mas uma ferramenta para ajudar a pensar o presente. Acho que, como artista, é isso que posso oferecer: uma mola propulsora de pensamentos. Nenhuma explicação. Fez sentido? Respondi? Abraços fortes, André


Arquivo Morto – Andrés Felipe Orjuela Castañeda | Colômbia A manipulação dos sais de prata

Se em alguns trabalhos aqui expostos apresenta-se o documento in natura, puro, em outros os artistas hiperbolizam suas linguagens para uma abordagem absolutamente política da repressão, do desrespeito às liberdades civis e às igualdades étnicas. O colombiano Andrés Felipe Orjuela Castañeda, pesquisando sobre as drogas, encontra no verde obsessivo a reafirmação da denúncia sobre a repressão. Artista colombiano radicado no México, Andrés Felipe Orjuela Castañeda é formado em artes plásticas e visuais pela Universidade Nacional da Colômbia. Participou de exposições em diversos países – Colômbia, Estados Unidos, México, Panamá, Cuba, Peru, França, Espanha, Inglaterra e Brasil.

If some of the works displayed here present the pure and plain document, some others mirror the hyperbolized language used by the artists for an absolute political approach to repression, disrespect for civil liberties and ethnic equalities.

Si en algunos trabajos aquí expuestos se presenta el documento in natura, puro, en otros los artistas hiperbolizan sus lenguajes hacia un enfoque totalmente político de la represión, de la falta de respeto a las libertades civiles y las igualdades étnicas.

Colombian Andrés Felipe Orjuela Castañeda, while investigating drugs, finds in the obsessive green a way to reaffirm denunciation over repression.

El colombiano Andrés Felipe Orjuela Castañeda, al investigar sobre las drogas, encuentra en el verde obsesivo la reafirmación de la denuncia sobre la represión.

A Colombian artist settled in Mexico, Andrés Felipe Orjuela

Artista colombiano radicado en México, Andrés Felipe ­Orjuela

Castañeda holds a degree in fine and visual arts from Univer-

Castañeda está licenciado en artes plásticas y visuales por la

sidad Nacional de Colombia. He has participated in a number

Universidad Nacional de Colombia. Participó en exposiciones en

of exhibitions in different countries – Colombia, United States,

diversos países —Colombia, Estados Unidos, México, Panamá,

Mexico, Panama, Cuba, Peru, France, Spain, England and Brazil.

Cuba, Perú, Francia, España, Inglaterra y Brasil—.

“Se Hacia Pasar por Zapatero”, 2013 impressão jato de tinta preto e branco sobre papel de algodão; intervenção à mão com pigmentos Marshall’s | B&W inkjet print on cotton paper; manual intervention with Marshall’s pigments | impresión de chorro de tinta blanco y negro sobre papel de algodón; intervención a mano con pigmentos Marshall’s, de Andrés Felipe Orjuela Castañeda arquivo | archive | archivo: El Espacio


Arquivo Morto – Andrés Felipe Orjuela Castañeda | Colômbia A manipulação dos sais de prata

[texto original em espanhol]

5 mil cigarros do entorpecente, com um valor de 7 mil pesos, que até a presente data seriam aproximadamente 3 milhões de pesos (1.500 dólares).

Prezado Claudi, No meu site estão todas as imagens disponíveis e os textos. Ou você precisa que lhe envie separadamente um PDF? Em uma hora, enviarei as duas fotos que ainda não pintei, mas que seria ótimo exibir pela primeira vez. http://www.andresorjuela.co/archivo-muerto.html

É dessa aparentemente banal notícia, muito habitual nos jornais da época, que surge o meu projeto Cantidad Suficiente [Quantidade Suficiente].

Texto extraído do site Cai “distribuidora geral” de maconha na capital

Na Colômbia, foi assinado um acordo para evitar o estímulo à violência por meio de imagens midiáticas no ano de 1999, como resposta às sangrentas cenas deixadas pela guerra e à já maciça dor de uma sociedade que, àquela altura do conflito, havia transposto as fronteiras socioeconômicas: pobres, ricos, políticos, jornalistas, pessoas comuns morreram em meio a uma guerra sem quartel, em que não era permitido nem andar pela rua.

Em 15 de agosto de 1966, o jornal El Espacio, de Bogotá, Colômbia, intitulava assim o seu artigo policial após a intensa operação do F-2, em que foi capturado Juan de Jesús Cifuentes Bautista, de 27 anos, oriundo de Girardot e identificado com o documento de identidade C.C. 2902118, e que, conforme o jornal, levava em seu poder pouco mais de meia arroba de droga, o suficiente para

Foi precisamente na rua que um reciclador, no ano de 2011, viu caixas de fotografias diante do velho edifício do jornal, nas quais foram encontradas estas fotos. Todo o arquivo foi abandonado como lixo, mas a perspicácia do senhor Jaime Rueda o levou a comprá-lo e depois, em um esquema de permuta tradicional, a ceder-me algumas das fotos, que hoje fazem parte da minha obra.

Enviado do meu iPhone

Alias “El Mexicano”, 2014, Andrés Felipe Orjuela Castañeda impressão jato de tinta preto e branco sobre papel de algodão; intervenção à mão com pigmentos Marshall’s | arquivo: El Espacio


Bajo Sospecha: Aqui Todos Somos Suspeitos – Bernardo Oyarzún | Chile O documento inventado

Criminoso e suspeito, Bernardo Oyarzún completa a visão de arquivo proposta por esta mostra. Ao misturar fotografia/ documento, fotografia/arte e fotografia/performance, lembra a todos de que estamos prontos para aceitar visões equivocadas, desde que elas apareçam documentadas em fotografias com carimbos oficiais. Bernardo Oyarzún, nascido no Chile, é artista visual. Formado em arte pela Universidade do Chile, participou de mais de trinta exposições internacionais, incluindo duas bienais. Seus trabalhos podem ser encontrados em importantes coleções de arte, como a Daros Latinamerica (Zurique, Suíça), e no Blanton Museum (Austin, EUA).

A criminal and suspect, Bernardo Oyarzún is the last stop of this overview of the archive proposed by this show. By putting together photography/document, photography/ art and photography/performance, he reminds all of us that we readily accept mistaken views, provided that they are fixed in photographs bearing official stamps.

Delincuente y sospechoso, Bernardo Oyarzún completa la visión de archivo propuesta por esta muestra. Al mezclar fotografía/documento, fotografía/arte y fotografía/ performance, nos recuerda a todos que estamos listos para aceptar visiones equivocadas, siempre y cuando estén documentadas en fotografías con sellos oficiales.

Bernardo Oyarzún, born in Chile, is a visual artist. A gradu-

Bernardo Oyarzún nació en Chile y es artista visual. Licen-

ate in arts of the Universidad de Chile, Oyarzún has taken part

ciado en arte por la Universidad de Chile, participó en más de

in over thirty international exhibitions, including two biennials.

treinta exposiciones internacionales, incluyendo dos bienales.

His works can be seen in mainstream art collections, such as

Sus trabajos pueden encontrarse en importantes colecciones

Daros Latinamerica (Zurich, Switzerland) and Blanton Museum

de arte, como Daros Latinamerica (Zúrich, Suiza), y en Blanton

(Austin, USA).

Museum (Austin, EE.UU.).

El Delincuente, o por el (d)Efecto, 1998 foto | photo | foto: Pamela San Martín


Bajo Sospecha: Aqui Todos Somos Suspeitos – Bernardo Oyarzún | Chile O documento inventado

[texto original em espanhol]

Olá, Claudi, Vou enviar o material amanhã, sábado. Estou ciente da urgência, mas estou trabalhando fora de Santiago e chegarei hoje à noite em minha casa. Vou revisar o material e o enviarei a você. Sinto muito, mas essa é a minha realidade; não posso fazê-lo antes, já que tenho de trabalhar em outras coisas que me ocupam bastante. Atenciosamente, bernardoyarzun

El Delincuente, o por el (d)Efecto A obra é construída menos de um ano depois que a polícia me deteve como suspeito e fui submetido à acareação com algumas perturbadas testemunhas de um violento assalto. Vivi a fragilidade candente e sofri a in-

El Delincuente, o por el (d)Efecto, 1998 foto: Pamela San Martín

certeza mais delirante, porque esse episódio poderia ter mudado totalmente a minha vida se eu fosse indiciado como criminoso. A minha situação, o meu futuro nesse minuto dependia de um procedimento policial. Desse acontecimento extraí uma ficção de criminoso como ideia de obra, uma construção por meio da performance de um criminoso comum, com ficha policial, retrato falado e parentesco do criminoso. Se pensarmos no martírio e no abuso de muitos, como os indígenas e os imigrantes, pelas perversões sociais e racistas instaladas no Chile, não é difícil entender a situação anedótica e dramática que desencadeia esta obra. Ao que parece, o estigma de um criminoso em potencial caminha comigo, amaldiçoado pelos preconceitos superficiais, não se encaixa na sociedade chilena, uma aura maléfica de um “marginal” que aflora obstinadamente por seus traços fisionômicos indígenas, com sua matriz central de antissocial, “defeito” de criminoso.


La Huella Invertida – José Domingo Laso (fotógrafo) e François “Coco” Laso (pesquisador do arquivo) | Equador Uma nova forma de olhar velhos arquivos

Uma frase do fotógrafo José Domingo Laso (1870-1927) sobre a cidade de Quito é a antecipação explícita da gentrificação executada nas modernizações urbanas dos dias de hoje. “El elemento indígena, afeándolo todo y dando pobrísima idea de nuestra población y de nuestra cultura.” O material produzido por José Domingo entre 1911 e 1925 foi recuperado pelo bisneto François “Coco” Laso. Nas imagens, para eliminar os indígenas, o fotógrafo riscou as placas de vidro, os negativos do passado, e cobriu as marcas com vestidos brancos e sombreiros largos. “Coco” Laso, fotógrafo e curador, nasceu na Bélgica. Estudou artes na Escola Superior de Artes e Imagem Le 75, em Bruxelas, e comunicação na Universidad Central del Ecuador. Radicado no Equador, participou de diversas exposições mundiais. Premiado inúmeras vezes, é autor de diversos livros, entre os quais La Mirada y la Memoria, Otro Cielo no Esperes e Nunca un Río.

A statement of photographer José Domingo Laso (18701927) about the city of Quito is the explicit anticipation of the gentrification that took place in today’s urban modernization processes. “El elemento indígena, afeándolo todo y dando pobrísima idea de nuestra población y de nuestra cultura.” [The indigenous element, disfiguring everything and giving the faintest sense of our people and our culture] The material produced by José Domingo from 1911 to 1925 was retrieved by his great-grandson François “Coco” Laso. In order to erase the indigenous from the images, the photographer scrached the glass plates, the negatives in the past, and covered the marks with white dresses and big Mexican hats.

Una frase del fotógrafo José Domingo Laso (1870-1927) sobre la ciudad de Quito es la anticipación explícita de la gentrificación ejecutada en las modernizaciones urbanas de los días actuales. «El elemento indígena, afeándolo todo y dando pobrísima idea de nuestra población y de nuestra cultura». El material producido por José Domingo entre 1911 y 1925 fue recuperado por su bisnieto François «Coco» Laso. En las imágenes, para eliminar a los indígenas, el fotógrafo tachó las placas de vidrio, los negativos del pasado y cubrió las marcas con vestidos blancos y sombreros anchos. «Coco» Laso, fotógrafo y curador, nació en Bélgica. Estudió

“Coco” Laso, photographer and curator, was born in Belgium.

artes en la Escuela Superior de Artes e Imagen Le 75, en Bru-

He took arts at the École Supérieure des Arts de l›Image Le 75,

selas, y comunicación en la Universidad Central del Ecuador.

in Brussels, and communications at the Universidad Central del

Radicado en Ecuador, participó en diversas exposiciones

Ecuador. Settled in Ecuador, he has participated in a number

mundiales. Premiado innumerables veces, es autor de diver-

of world exhibitions. Recipient of a myriad of awards, Laso has

sos libros, entre los cuales La Mirada y la Memoria, Otro Cielo

written several books, which include La Mirada y la Memoria,

no Esperes y Nunca un Río.

Otro Cielo no Esperes and Nunca un Río.

Mulheres e Jovens Indígenas Amazônicos (Album Antropométrico de Tipos), ca. 1920, José Domingo Laso Acosta arquivo | archive | archivo Histórico del Ministerio de Cultura y Patrimonio del Ecuador


La Huella Invertida – José Domingo Laso (fotógrafo) e François “Coco” Laso (pesquisador do arquivo) | Equador Uma nova forma de olhar velhos arquivos

[texto original em espanhol]

Claudi, Envio nos documentos anexos uma apresentação em PDF sobre a fotografia de Laso. Além do que vocês já viram na exposição, acrescentei uma fotografia de “los locos en el manicomio” (os loucos no manicômio) que não estava na mostra do museu e que é impressionante... Acho que exagerei nos textos... Um grande abraço como sempre e nos vemos amanhã para jantar. Coco

O texto abaixo foi reproduzido do livro Quito a la Vista, de J. D.

Poucos, pouquíssimos se preocuparam em escolher o objetivo daquelas vistas, de forma que nos apresentaram como um país praticamente selvagem ou conquistável. Poderiam ter exibido edifícios ou os costumes populares, as paisagens etc. Porém, em seus trabalhos, o que aparece predominantemente, para não dizer exclusivamente, é o elemento indígena, enfeando tudo e dando uma paupérrima ideia da nossa população e da nossa cultura. Além disso, nem sempre foi possível para os filhos deste país – talvez por falta de aviso – se livrar daquele empecilho nas poucas ocasiões nas quais resolveram formar uma série metódica, de maior ou menor interesse, de vistas da capital ou dos seus arredores. Pois bem, achamos que faríamos uma obra de reivindicação, uma obra de perfeito patriotismo ao demonstrar graficamente que a capital do Equador, tanto por sua população quanto por seu aspecto externo, não deixa nada a desejar se comparada com as cidades do nosso continente.

Laso e J. R. Cruz (Quito, 1911).

AVISO Quando anunciamos ao público a próxima aparição de Quito a la Vista e manifestamos qual era o propósito que nos motivava a empreender a edição deste álbum, dissemos que, na medida das nossas forças, queríamos preencher uma das lacunas que sentíamos que havia entre nós em termos de publicações ilustradas referentes à capital da república. Agora, quando temos o prazer de apresentar a conclusão da primeira série da nossa obra, queremos chamar a atenção das pessoas imparciais para o cuidado especial que dedicamos para oferecer-lhes uma coleção de vistas isenta do principal defeito do qual geralmente padecem e padeceram todas ou quase todas as fotografias da capital tiradas por turistas estrangeiros e que circularam no exterior.

Esse é o objetivo da nossa obra. Por isso, além do nosso cuidado escrupuloso para que todas as nossas fotografias saiam limpas e livres daqueles grupos aos quais acabamos de nos referir, quisemos incluir neste álbum quão notável é a capital no âmbito político, social, literário, industrial etc. Como já dissemos, a obra completa terá várias séries, cada uma disposta de tal forma que, uma vez terminada a coleção, poderá ser formado com elas um único volume. Para que se diferencie pela atratividade e pelo interesse do conjunto, consultamos a variedade, de forma que, em cada série, juntamente com as vistas, haja retratos e, ao lado dos grupos, as paisagens e os monumentos mais famosos. Dependendo do sucesso obtido pelo álbum dedicado à capital, prometemos estender o mesmo método de informação gráfica às províncias, nas quais as indústrias e a beleza esplêndida do solo equatoriano oferecem objetos dignos de ser perpetuados pela arte. Os editores

Iglesia de la Compañia de Jesús – Quito, 1922, José Domingo Laso Acosta Arquivo Histórico del Ministerio de Cultura y Patrimonio del Ecuador


A Boa Aparência – Eustáquio Neves | Brasil A manipulação dos sais de prata

O fotógrafo Eustáquio Neves pesquisa a partir de textos periódicos e classificados de oferta de empregos o hábito cotidiano de se julgar os negros pela aparência – podia se chamar “boa esperança”, nome que se dava aos navios negreiros que buscavam uma saída no final da travessia dessa destruição de povos chamada escravidão. Nascido em Minas Gerais, Eustáquio Neves é fotógrafo e videoartista. Considerado um dos grandes nomes da fotografia contemporânea, seu trabalho tem sido amplamente divulgado em mostras no Brasil e no exterior. Em 1994, recebeu o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia com trabalho voltado para fotografia de caráter étnico-cultural.

Using periodical articles and classified ads offering jobs, photographer Eustáquio Neves investigates the daily habit of judging black people by their looks - it could be called “good hope”, a name given to the slave ships that, at the end of their voyage, attempted to swerve from this destruction of peoles called slavery.

El fotógrafo Eustáquio Neves investiga en textos periódicos y clasificados de oferta de trabajo el hábito cotidiano de juzgar a los negros por su apariencia —podría llamarse «buena esperanza», nombre que se daba a los navíos negreros que buscaban una salida al final de la travesía de esa destrucción de pueblos llamada esclavitud.

Born in Minas Gerais, Eustáquio Neves is a photographer and

Nacido en Minas Gerais, Eustáquio Neves es fotógrafo y vi-

video artist. Considered one of the big names of contemporary

deoartista. Considerado uno de los grandes nombres de la foto-

photography, his work has been made widely known in shows

grafía contemporánea, su trabajo se ha difundido ampliamente

both in and out of Brazil. In 1994, he won the Funarte Marc Fer-

en muestras en Brasil y en el exterior. En 1994, recibió el Premio

rez Award of ­Photography for his photographic work with an

Funarte Marc Ferrez de Fotografía por un trabajo dirigido a la

ethnic-cultural ­approach.

fotografía de carácter étnico-cultural.

Sem Título, Série A Boa Aparência, 1999-2000, Eustáquio Neves


A Boa Aparência – Eustáquio Neves | Brasil A manipulação dos sais de prata

[texto original]

Quase todas as minhas séries surgem da inquietação e da pesquisa.

No meu trabalho, não acredito na ideia de perder uma imagem de determinada cena porque, em determinado momento de uma cena “imperdível”, eu não estava munido de equipamento fotográfico. Eu acredito na interpretação de todo o universo de coisas e informações à minha volta para transformar isso em fotografias e criar um diálogo maior com os outros. Além da ideia daquilo que eu quero discutir, preciso criar uma estratégia de abordagem, procedimentos e meios para chegar a um resultado.

Quando chego a uma cidade que para mim é nova, vou logo para o mercado, se houver um, para as conversas nas ruas em lugares muito pequenos ou para os arquivos e instituições públicas nas cidades que os tenham. Com a série A Boa Aparência não foi diferente. Em uma ida a Diamantina na década de 1990, descobri uma série de textos sobre escravos fugidos na biblioteca pública local. Notei que alguns desses textos traziam a expressão “boa aparência” para descrever o escravo, visto ali como um bem precioso.

Além do conceito, me interessam muito os meios e o processo como pesquisa. Por isso, uma boa ideia é importante para que meu trabalho não fique resumido ao processo e à utilização dos meios. Sobre a linguagem, eu acredito que ela vem da pesquisa, da inquietação e da necessidade de expressão de cada criador. Sempre recorro a arquivos e, na maioria das vezes, já tenho as imagens que faço pré-concebidas. Mas nunca quis me acomodar a um determinado processo, até porque ideias diferentes, às vezes, pedem processos diferentes. Sistematizo aquilo que me interessa e recorro àquele mais coerente à ideia de um novo trabalho. Penso a estratégia como forma de pensar no futuro e como um procedimento articulador de resultados.

Sem Título, Série A Boa Aparência, 1999-2000, Eustáquio Neves

No final dessa mesma década, em 1999, recebi uma bolsa para passar um tempo em Londres como artista residente. Fiquei acomodado no bairro de Brixton, que tem uma população negra bastante expressiva, um mercado e um black archive no qual acabei descobrindo textos sobre escravos fugidos e que também usavam os termos “boa aparência” em alguns anúncios. Voltando para o Brasil e folheando um jornal local por curiosidade, lembrei que os classificados de oferta de emprego desses jornais também traziam os termos “boa aparência”. Essa série surgiu do confronto desses dois usos de “boa aparência”. Eustáquio Neves


Arquivo Nuñez De Arco/ Javier Nuñez De Arco (pesquisador) | Bolívia Uma nova forma de olhar velhos arquivos

De uma perspectiva eurocêntrica, não há figura mais exótica possível da América Latina do que um pequeno indígena boliviano posando de rei, com o mundo aos seus pés. Essa figura – explorada pela literatura, pelo cinema no mítico O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin, e parafraseada na série Game of Thrones (2011- ) – serve aqui para reafirmar a esquizofrenia construída ao longo dos anos por aqueles que não se deram o trabalho de entender o diverso. As imagens são de Muñoz Reyes (um dos primeiros engenheiros de mineração na Bolívia, formado em 1985 pela Escola de Construção Civil e de Mineração em Lima) e formam parte do tesouro gráfico achado em uma velha caixa de sapatos há 15 anos em um antiquário boliviano: o arquivo perdido do fotógrafo, cinegrafista, escritor e correspondente de guerra alemão Hans Ertl, que posteriormente fixou residência na Bolívia. Javier Nuñez De Arco é considerado o maior colecionador de imagens bolivianas. Pesquisador dos fotógrafos pioneiros dos séculos XIX e XX em seu país, em 1994, recebeu pelo Círculo de Fotógrafos Profesionales da Bolívia o reconhecimento por seus trabalhos de preservação e restauração de material fotográfico antigo.

From an Eurocentric standpoint, there is no more exotic figure in Latin America than a little Bolivian indigenous posing as a king with the world at his feet. This figure explored in literature, cinema, in the mythical The Great Dictator (1940), by Charles Chaplin, and paraphrased in the Game of Thrones series (2011- ) – is used here to reaffirm the schizophrenia built over the years by those who do not care to try to understand the diversity.

Desde una perspectiva eurocéntrica, no hay figura más exótica posible de América Latina que un pequeño indígena boli­viano con pose de rey y el mundo a sus pies. Esa figura —explorada por la literatura, el cine, en el mítico El Gran Dictador (1940), de Charles Chaplin, y parafraseada en la serie Juego de Tronos (2011- )— sirve aquí para reafirmar la esquizofrenia que construyen a lo largo de los años quienes no se dedicaron a entender lo diverso.

The images are from Muñoz Reyes (one of the first mining engineer in Bolivia, formed in 1985 at the School of Construction and Mining in Lima) and an integral part of the graphic treasure found in an old shoe box 15 years ago in a Bolivian antique shop: the lost archive of German photographer, cinematographer, writer and war correspondent Hans Ertl, who later settled down in Bolivia

Las imágenes son de Muñoz Reyes (uno de los primeros ingenieros de minería en Bolivia, graduado en 1985 en la Escuela de Construcciones Civiles y de Minas en Lima) y forman parte del tesoro gráfico encontrado hace 15 años en una vieja caja de zapatos, en un anticuario boliviano: el archivo perdido del fotógrafo, cámara, escritor y corresponsal de guerra alemán Hans Ertl, quien después se estableció en Bolivia.

Javier Nuñez De Arco is considered the greatest collector of Bolivian images. A researcher of pioneer photographers from

Javier Nuñez De Arco es considerado el mayor coleccionista

the 19th and 20th centuries in his country, he is the recipient of

de imágenes bolivianas. Investigador de los fotógrafos pioneros

an acknowledgment from the Círculo de Fotógrafos Profesio-

de los siglos XIX y XX en su país, recibió del Círculo de Fotógrafos

nales, from Bolivia, in 1994, for his efforts to preserve and restore

Profesionales de Bolivia, en 1994, el reconocimiento por sus traba-

old photographic material..

jos de preservación y restauración de material fotográfico antiguo.

Con el Mundo a Mis Pies, 1900, Juan L. Muñoz Reyes arquivo | archive | archivo: Javier Nuñez De Arco


Arquivo Nuñez De Arco/ Javier Nuñez De Arco (pesquisador) | Bolívia Uma nova forma de olhar velhos arquivos

[texto original em espanhol]

de material representativo de mais de cem fotógrafos da Bolívia e do mundo, dedicados a captar com a lente uma diversidade de imagens desde 1850 até 1960.

Querido Claudi, Envio uma pequena resenha escrita há algum tempo que espero que lhe seja útil. Envio também uma fotografia de retrato e uma cópia escaneada do passaporte, que a Júlia pediu. Ela me disse que estaria de férias. Em relação às fotos dos anões, é uma série feita pelo engenheiro Muñoz Reyes no início do ano de 1900. Desde a primeira vez que as vi, e foram as minhas primeiras placas, eu as achei fantásticas, especialmente quando comecei a imaginar como havia sido a produção das fotos. Fazendo os cálculos, eu me dedico à fotografia há 45 anos, primeiro como fotógrafo e, pouco a pouco, colecionando tudo o que se refere à fotografia e a fotógrafos, assim como a diferentes arquivos, câmeras, papéis e materiais fotográficos, desde Lumière. Comecei com a restauração digital de placas de vidro e a fundação do primeiro museu fotográfico na Bolívia, que infelizmente durou muito pouco por falta de apoio.

Entre os acervos mais importantes, sem dúvida está o do engenheiro naval e arqueólogo austríaco-boliviano Arthur Posnansky (1873-1946), que se empenhou muito para destacar Tiwanaku e questionar o passado dos seus habitantes, explorando a vida e a organização social dos diversos grupos do altiplano (aymaras, urus, chipayas) em mais de 160 livros e folhetos ilustrados. Seus negativos em placas de vidro (excepcionalmente de 24 x 30 cm), seus álbuns de apresentação e seus filmes (8 mm) são conservados como testemunho de uma intensa atividade arqueológica e etnográfica. Este material é complementado com as fotografias tiradas em Tiwanaku e no Lago Titicaca na segunda metade do século XIX pelos exploradores pioneiros do Ocidente. Por exemplo, o vulcanologista alemão ­Alphonse Stübel (1835-1904) e o linguista e arqueólogo alemão Max Uhle (1856-1944), enviados ao país pelo Königliches Museum für Völkerkunde. Além disso, há fotografias de dois importantes pesquisadores do Museu de História Natural: o etnólogo suíço-estadunidense Adolf Bandelier (18421914) e o arqueólogo norte-americano Wendell Clarck Bennett (1905-1953).

Espero que seja útil. Envio um forte abraço. Javier

As quatro imagens do arquivo Nuñez De Arco apresentadas aqui fazem parte de um acervo reunido, com paciência e cuidado, ao longo de 35 anos dedicados à sua recuperação, à sua restauração e à recente exposição

Enano a Caballo, 1900, Juan L. Muñoz Reyes arquivo: Javier Nuñez De Arco

Os acervos também contêm, entre muitas fotografias, as tiradas para o jornal apartidário La Nación (La Paz). A partir delas é possível fazer um acompanhamento da atividade política, social e esportiva. Têm destaque, por sua importância técnica, as tomadas feitas por Max Ch. Vargas, que foi professor do fotógrafo cusquenho Chambi. O mesmo vale para as tomadas feitas pelos irmãos Valdez – Rodrigo, Talvot, Sterling e Sintich, entre outros nomes.


Operação Condor – João Pina | Portugal O documento inventado

Como um detetive particular a serviço da história, João Pina pesquisa aquele que foi um dos mais obscuros acordos feitos pela repressão em diversos países do continente americano. Seu trabalho baseado em imagens históricas e absolutamente contemporâneas é o mais impactante relato que temos da Operação Condor. João Pina, nascido em Lisboa, é fotógrafo. Formado em fotojornalismo e fotografia documental pelo International Center of Photography (ICP), em Nova York (EUA), tem trabalhos publicados nos jornais The New York Times e El País e nas revistas The New Yorker, Time e Newsweek. Em 2011, recebeu o Prêmio Leão de Ouro do Festival de Publicidade de Cannes.

Like a private detective at the service of history, João Pina investigates a campaign that was one of the most obscure operations of political repression implemented in a number of countries in the Americas. His work based on absolutely contemporary, historic images is the most impacting report available on the Operation Condor.

Como un detective particular al servicio de la historia, João Pina investiga el que fue uno de los más oscuros acuerdos hechos por la represión en diversos países del continente americano. Su trabajo basado en imágenes históricas y totalmente contemporáneas es el más impactante relato que tenemos de la O ­ peración Cóndor.

João Pina, born in Lisboa, is a photographer. Holding a degree

João Pina, fotógrafo, nació en Lisboa. Licenciado en fotope-

in photojournalism and documentary photography from the

riodismo y fotografía documental por el International Center of

International Center of Photography (ICP), in New York (USA),

Photography (ICP), en Nueva York (EE.UU.), publicó trabajos en

his works have been published on The New York Times and El

los periódicos The New York Times y El País y en las revistas

País newspapers and The New Yorker, Time and Newsweek

The New Yorker, Time Magazine y Newsweek. En 2011, recibió

magazines. In 2011, Pina received the Gold Lion of the Cannes

el premio León de Oro del Festival de Publicidad de Cannes.

Lions International Festival of Creativity.

Londres 38, 2008, João Pina


Operação Condor – João Pina | Portugal O documento inventado

[texto original em português de Portugal]

Em 2005, estava eu a terminar o meu primeiro livro, Por Teu Livre Pensamento – no qual retratei 25 ex-presos políticos portugueses –, quando descobri pela primeira vez a existência da Operação Condor, um plano secreto que em 1975, no auge da Guerra Fria, uniu seis países ­latino-americanos (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai) que viviam sob regimes militares de extrema-direita. Através da partilha de informações, recursos, técnicas de tortura e prisioneiros políticos, esses países pretendiam aniquilar a oposição política, que chamavam de “ameaça comunista” ou de “subversivos”. Sabendo, por via familiar, dos efeitos que um longo regime ditatorial pode provocar na sociedade e nas vítimas diretas dos abusos cometidos pelos repressores, a minha curiosidade persistiu o suficiente para eu concluir que essas experiências podiam e deviam ter uma existência visual. Assim, decidi usar a fotografia, que é a minha linguagem, para observar as vítimas da Condor. Durante os oito anos seguintes, com a máquina fotográfica numa mão e o gravador na outra, pude entrar provisoriamente na vida de algumas pessoas, a quem pedi que partilhassem comigo tanto as suas memórias como os lugares onde viveram experiências realmente terríveis. Durante vários anos, falei com pessoas, tentando compreender os pormenores e as principais diferenças entre as várias ditaduras, bem como os processos de democratização. Já a viver na Argentina, pude ver de perto o sofrimento de muitos dos familiares das vítimas, que não sabem até hoje o que aconteceu com seus parentes queridos. Os Estados criminosos, liderados pelas mais altas patentes militares, fizeram tábua rasa de todos os tratados sobre o acesso à justiça, a advogados, e de forma covarde executaram milhares de pessoas, negando às famílias até o direito de velar os seus mortos. Mas, até hoje, a grande maioria dos responsáveis pelas mortes e desaparições forçadas nunca foi levada à justiça.

Esteban Echeverria, 2011, João Pina

Testemunhei ainda como alguns dos sobreviventes e familiares lidam com os profundos traumas, que vão desde depressões agudas a estados de paranoia e outros problemas psíquicos menos visíveis, mas que de alguma maneira transformaram a vida de várias gerações. Milhares de pessoas lutam todos os dias em silêncio contra os fantasmas do passado e as suas sombras. Quase todos os Estados envolvidos negam até hoje um dos mais elementares direitos humanos, o de a vítima ser realmente considerada como tal. Não bastam as campanhas de propaganda eleitoral de alguns partidos que, para chegarem ao poder, usam a bandeira dos direitos humanos, nem que alguns dos antigos revolucionários estejam hoje na presidência. É realmente necessário um sentimento de justiça plena. No campo jurídico, julgando e condenando todos aqueles que tenham irrefutavelmente participado nos crimes contra a humanidade, o que até agora apenas a Argentina está fazendo. No plano econômico, assumindo o Estado o dever de indenizar as vítimas e seus familiares, tanto pelos crimes cometidos como pelos traumas causados. E, finalmente, no plano moral e histórico, assumindo publicamente esses Estados, hoje democráticos, o mal que fizeram no passado. Isso é exequível através da investigação de todos os casos de desaparições, criando programas de memória histórica e educação pública e, naturalmente, reeducando e refundando as forças armadas. Acredito que seja essa a única forma de evitar que planos como o Condor se repitam no futuro, mesmo que sob outras bandeiras. Ainda hoje, da selva amazônica no Brasil até as terras geladas da Patagônia, milhares de vítimas continuam enterradas em fossas não identificadas. As fotografias aqui expostas fazem parte de um projeto que tenta prestar homenagem a todas as vítimas das ditaduras que governaram com mão de ferro esta região. Atenciosamente, João Pina


Arquivo Rikio Sugano – Centro de la Imagen – Jorge Villacorta (pesquisador) | Peru Uma nova forma de olhar velhos arquivos

Rikio Sugano (1887-1963) foi um aventureiro japonês que viajou o mundo inteiro, retratando-se em planos inusitados, em busca do exótico, e que integra a mostra como o primeiro obcecado com o selfie. O material aqui exposto foi achado e pesquisado primeiramente pelo Centro de la Imagen de Lima, no Peru. Centro de la Imagen, instituto dedicado à formação de fotógrafos e à difusão da fotografia, foi criado em 1999, no Peru. Além da programação acadêmica, o centro conta com um departamento de restauração e conservação que abriga vários acervos e com um espaço de exposição – a galeria El Ojo Ajeno –, também sendo organizados eventos como a mostra fotográfica LimaPhoto e a Bienal de Fotografia de Lima. Jorge Villacorta é pesquisador, crítico e curador do Centro da Imagem, em Lima, no Peru. Foi curador-chefe da Bienal de Fotografia de Lima em 2014 e da exposição permanente do Lugar de la Memoria, la Tolerancia y la Inclusión Social (LUM), antigo Museu da Memória do Peru.

Rikio Sugano (1887-1963) was a Japanese adventurer who traveled around the world portraying himself in unusual shots in his quest for the exotic. He appears in this exhibition as the first man obsessed with selfies. The material showcased here was first found and investigated at Centro de la Imagen de Lima, in Peru.

Rikio Sugano (1887-1963) fue un aventurero japonés que viajó por todo el mundo, retratándose en planos inusitados, en busca de lo exótico y que forma parte de la muestra como el primer hombre obcecado por la autofoto. El material aquí expuesto fue encontrado e investigado primero por el Centro de la Imagen de Lima, en Perú.

Centro de la Imagen, an institute dedicated to the education of photographers and dissemination of photography, was set up in 1999 in Peru. Aside from the academic programming, the center also has a restoration and conservation department that houses several collections plus an exhibition hall – El Ojo Ajeno gallery – and promotes events such as the LimaPhoto photography show and the Bienal de Fotografía de Lima.

Centro de la Imagen, instituto dedicado a la formación de fotógrafos y a la difusión de la fotografía, creado en 1999, en Perú. Además de la programación académica, el centro cuenta con un departamento de restauración y conservación que alberga varios acervos, con un espacio de exposición —la galería El Ojo Ajeno— y organización de eventos, como la muestra fotográfica LimaPhoto y la Bienal de Fotografía de Lima.

Jorge Villacorta is a researcher, critic and curator with ­Centro

Jorge Villacorta es investigador, crítico y curador del Centro

de la Imagen, in Lima, Peru. He was the chief curator of the

de la Imagen, en Lima, Perú. Fue el curador jefe de la Bienal de

­Bienal de Fotografía de Lima in 2014 and of the permanent

Fotografía de Lima en 2014 y de la exposición permanente del

exhibition of Lugar de la Memoria, la Tolerancia y la Inclusión

Lugar de la Memoria, la T ­ olerancia y la Inclusión Social (LUM),

Social (LUM), former Museo de la Memoria of Peru.

antiguo Museo de la Memoria de Perú.

En Grupo Junto a un Chuillo (Weberbauerocereus Rauhii), ca. 1923-1924 Estudio Shirasaka | arquivo | archive | archivo: Inmigrantes Japoneses


Arquivo Rikio Sugano – Centro de la Imagen – Jorge Villacorta (pesquisador) | Peru Uma nova forma de olhar velhos arquivos

[texto original em espanhol]

Prezado senhor Huarcaya, Bom dia. Obrigado. O senhor Yanaguida, professor da Universidade de Keio (que domina o idioma espanhol), enviou-me resposta e comenta o seguinte: – É verdade que parece que as fotos foram tiradas na comunidade dos imigrantes japoneses por volta de 1922, mas parece que há algumas fotos tiradas após 1922, já que vemos uma imagem do edifício da Escola Japonesa Lima Nikko com o jogo de beisebol. – O senhor de óculos e barba que aparece em várias fotos se chama Rikio Sugano, um aventureiro japonês que visitou o mundo todo. No Japão, foi publicado um livro sobre ele recentemente, em 2010. Há um site de um grupo de pesquisa sobre sua vida:­ http://tankenka.j-wak.com/index.html. – O senhor Sugano chegou ao Peru em 10 de agosto de 1923 e, em 4 de abril de 1924, partiu para o Chile. Ele é da prefeitura de Fukushima, no Japão. Em sua estadia no Peru, visitava os imigrantes provenientes de Fukushima. Viajava por Huaral, Chankai, Chiklayo, pela serra e pela floresta. No final, por Canhete e Moliendo. Ele costumava tirar as fotos com a colaboração dos fotógrafos locais. No Peru, contava com a ajuda de uma loja de fotografia de imigrantes japonesa chamada Shirasaka. Ele costumava deixar as fotos na região que visitava para divulgar a sua aventura. Às vezes, dava de presente cartões com as suas imagens. Em todos os lugares do mundo são encontradas suas fotos e seus cartões. No Japão são conservadas 5.700 imagens em 20 álbuns, além de algumas cópias das fotos do Centro da Imagem de Lima. O professor Yanaguida

En Isla de Guano, entre Aves Guaneras, ca. 1923-1924 Rikio Sugano/Estudio Shirasaka | arquivo: Inmigrantes Japoneses Cementerio Prehispánico Saqueado, en Nazca, Ica, ca. 1923-1924 Estudio Shirasaka | arquivo: Inmigrantes Japoneses

tem todos os dados escritos sobre ele digitalizados em sua universidade. É possível que se encontrem mais fotos parecidas nas famílias nikkeis provenientes de ­Fukushima, já que o senhor Sugano costumava dar as fotos de presente às famílias que o recebiam. – Do ponto de vista de um historiador, o senhor Yanaguida comenta que é importante confirmar quem são os donos dessas fotos. (Devem ser famílias imigrantes provenientes de Fukushima.) E também digitalizar os dados para que possa ser feita uma pesquisa comparativa entre as fotos do centro e as imagens já guardadas no Museu de Imigrantes da Associação Peruana Japonesa (APJ) ou no Japão, com as famílias parentes do senhor Sugano. Após essa pesquisa, poderá ser discutida a forma mais adequada para a conservação das fotos. Vou entrar em contato com o museu contando o resumo do que conversamos, para ver se eles têm algum interesse nessas fotos. Com relação ao equipamento para este projeto, por favor, continue coordenando diretamente com Shimpei Otake, encarregado da doação cultural do governo do Japão. (Pelo que entendi, estamos esperando o envio do dossiê do projeto.) Atenciosamente, Naomi KURODA * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 在ペルー日本国大使館 広報文化班 一等書記官 黒田なおみ Naomi KURODA Primeira-secretária/Agregada cultural e de imprensa Departamento Cultural e de Imprensa Embaixada do Japão no Peru

* * * * * * * * * * * * * * * * * * *


1968, o Fogo das Ideias – Marcelo Brodsky | Argentina A manipulação dos sais de prata

Na Argentina, na documentação dos movimentos libertários de 1968, a representação plástica daquele que foi um dos mais importantes movimentos em rede de uma época em que não se falava de redes. Marcelo Brodsky alinha, com suas letras e cores, cada uma das diversas imagens com a força do historiador que o artista é. Marcelo Brodsky é fotógrafo, artista e ativista político argentino. Em 2008, recebeu o Premio de Derechos Humanos, concedido pela organização B’nai B’rith Argentina. Em 2014, fundou a Visual Action, plataforma digital dedicada a incorporar a cultura visual em campanhas de direitos humanos.

Digging out documents of the 1968 libertarian movements, Marcelo Brodsky found in Argentina the plastic representation of one of the most important network-based movements that emerged at a time when speaking of networks was not a fad. With letters and colors, he aligns each of the many images with his powerful background as a historian.

En Argentina, en la documentación de los movimientos libertarios de 1968, la representación plástica del que fue uno de los más importantes movimientos en red de una época en la que no se hablaba de redes. Marcelo Brodsky alinea, con sus letras y colores, cada una de las diversas imágenes con la fuerza del historiador que es el artista.

Marcelo Brodsky is a photographer, artist and political activ-

Marcelo Brodsky es fotógrafo, artista y activista político

ist from Argentina. In 2008, he received the P ­ remio de Dere-

argentino. En 2008, recibió el Premio de Derechos Humanos

chos Humanos, granted by the B’nai B’rith A ­ rgentina. In 2014,

otorgado por la organización B’nai B’rith ­Argentina. En 2014,

Brodsky founded Visual Action, a digital platform dedicated to

fundó Visual Action, plataforma digital dedicada a incorporar

incorporate visual culture into human rights campaigns.

la cultura visual en campañas de derechos humanos.

Paris, 1968, 2014 fotografia de arquivo de © Manuel Bidermanas, 1968, intervenção à mão por Marcelo Brodsky, 2014


1968, o Fogo das Ideias – Marcelo Brodsky | Argentina A manipulação dos sais de prata

[texto original em espanhol]

Querido Iatã,

do mundo se manifestam exigindo mais liberdade de expressão e ainda outras liberdades: de sonhar, de amar livremente, de imaginar um mundo melhor, de abrir as comportas do pensamento e de ir para a ação.

Estive com o Claudi na Guatemala e mostrei a ele o meu recente trabalho sobre 1968 em diferentes capitais do mundo e suas ideias, com fotos de arquivo – cujos direitos negociei com os fotógrafos ou suas famílias – nas quais fiz intervenções à mão com textos.

Muitos dos lemas propostos em 1968 foram se transformando em realidade em algumas sociedades. Segue-se lutando por outros. Enquanto a luta pelos direitos individuais e sociais continua, de alguma forma somos todos filhos das mobilizações de 1968.

Elas seguem anexas para que você as considere para a exposição, por sugestão do Claudi. Faltando dois anos para 2018, quando serão lembrados os 50 anos de 1968, acredito que este seja o momento ideal para discutir as ideias desse movimento na América Latina, especialmente agora que está vindo uma onda de direita em todo o mundo e que a repressão está sendo incentivada após os atentados que sofremos em Paris.

A imaginação ao poder, os mesmos direitos para todas as raças e todos os gêneros, a liberdade individual – o que então parecia um sonho impossível hoje está ao alcance das mãos… “O pessoal é político”, voltam a ecoar aqui as palavras de 1968. Nicolás Casullo disse que talvez os jovens do Maio Francês não tenham inventado novas ideias, mas sim novos modos de viver e sentir ideais herdados. No tocante às novas sensibilidades éticas e políticas que aquelas gerações inventaram, é difícil encontrar – se quisermos caracterizar as áreas mais relevantes da produção artística atual – um campo de referências que seja hoje mais vivo e determinante.

Em 1968, as ideias que foram levantadas eram as mesmas debatidas até hoje, ideias que marcaram diversas gerações e influenciaram poderosamente a transformação da sociedade.

Marcelo Brodsky De Paris a México, de Praga a Córdoba, de São Paulo a Santiago do Chile, de Washington a Bogotá, os jovens

USP, SP, 1968, 2014 fotografia de arquivo de © Marcelo Brodsky, 2002, intervenção à mão pelo autor, 2014


Arquivo Fototeca Nacional de México – Mayra Mendoza (pesquisadora) | México Uma nova forma de olhar velhos arquivos

Se o mítico sombreiro mexicano é o ícone mundial do país, transitando entre a representação da alegria e da violência, na pesquisa de Mayra Mendoza fica evidente a construção desse discurso na encenação fotográfica fora dos riscos da guerra, instrumento comum na produção contemporânea. Ou seja: nada disso é acidental. Sistema Nacional de Fototecas (Sinafo), instituição mexicana que reúne mais de trinta fototecas que, juntas, contêm mais de 3 milhões de imagens, de mais de 2 mil autores, em coleções públicas e privadas. Criado em 1993, o Sinafo tem como principal missão resguardar, conservar, catalogar, digitalizar e difundir o patrimônio fotográfico do México. Mayra Mendoza, pesquisadora e curadora mexicana, é subdiretora da Fototeca Nacional do Instituto Nacional de Antropologia e História (Inah), no México. É coautora dos livros Hugo Brehme y la Revolución Mexicana e Imágenes de Cámara: Identificación y Preservación.

While the mythical Mexican hat is the country’s world-famous icon which embodies feelings ranging from joy to violence, Mayra Mendonza evidences in her research the construction of such speech in the photographic representation out of the risky boundaries of the war, a common instrument in the contemporary output. That is: none of this is accidental.

Si el mítico sombrero mexicano es el icono mundial del país, transitando entre la representación de la alegría y la violencia, en la investigación de Mayra Mendoza queda evidente la construcción de ese discurso en la puesta en escena fotográfica sin los riesgos de la guerra, instrumento común en la producción contemporánea. Es decir: nada de eso es accidental.

Sistema Nacional de Fototecas (Sinafo), a Mexican institution gathering over thirty photo libraries. Altogether, they have over 3 million images made by more than 2 thousand photographers kept in public and private collections. Created in 1993, Sinafo’s main mission is to protect, preserve, catalog, digitize and disseminate Mexico’s photographic heritage.

Sistema Nacional de Fototecas (Sinafo), institución mexicana que reúne más de treinta fototecas, que juntas contienen más de 3 millones de imágenes, de más de 2 mil autores, en colecciones públicas y privadas. Creado en 1993, Sinafo tiene como principal misión resguardar, conservar, catalogar, digitalizar y difundir el patrimonio fotográfico de México.

Mayra Mendoza Avilés, Mexican researcher and curator, is

Mayra Mendoza Avilés, investigadora y curadora mexicana,

deputy director with Fototeca Nacional at the Instituto Nacional

es subdirectora de la Fototeca Nacional del Instituto Nacional

de Antropología e Historia (INAH), in Mexico. She co-authored

de Antropología e Historia (INAH), en México. Es coautora de

the books Hugo Brehme y la Revolución Mexicana and Imá-

los libros Hugo Brehme y la Revolución Mexicana e Imágenes

genes de Cámara: Identificación y Preservación.

de Cámara: Identificación y Preservación.

Manuel Mondragón y Felix Díaz Preparan Ataque a la Ciudadela, México, 1913, Eduardo Melhado ©Secretaria de Cultura.Nah.Sinafo.FN.México


Arquivo Fototeca Nacional de México – Mayra Mendoza (pesquisadora) | México Uma nova forma de olhar velhos arquivos

[texto original em espanhol]

Muito boa tarde do México, Segue o texto que tive muita dificuldade para resumir em uma lauda, são quase duas. Atenciosamente, Mayra Mendoza

Formas de representação: o retrato individual posado e a encenação coletiva durante o período revolucionário no acervo da Fototeca Nacional do México Não é novidade afirmar que a Revolução Mexicana (1910-1920) foi um acontecimento bélico que teve ampla cobertura da imprensa da época em diversas regiões do país, e que o acompanhamento das notícias foi além das fronteiras do México, não somente para os Estados Unidos, como também para diversos países do continente europeu. A iconografia do acontecimento que circulou em nível geral dentro e fora do país durante a segunda metade do século XX é, em grande medida, herdeira da chamada história oficial, nutrida, por sua vez, da proposta editorial de Gustavo Casasola, filho de Agustín Víctor Casasola, fundador de uma emblemática agência de fotografia na segunda década desse século – que, por volta dos anos 1960, se tornou uma indústria visual. Entretanto, o último decênio do século XX testemunhou o surgimento da foto-história: pesquisa desenvolvida a partir da fotografia como fonte documental. Em razão do centenário da Revolução Mexicana, em 2010, foram se somando ao panteão de autores, encabeçado pelo sobrenome Casasola, mais de 30 nomes envolvidos nessa produção fotográfica. Novas imagens refrescaram o contexto editorial e de exibição com fins comemorativos, resgatadas da imprensa ilustrada da época ou que haviam circulado de mão em mão em impressões realizadas em papel fotográfico ou em postais, enquanto outras haviam permanecido entorpecidas em coleções públicas e privadas. Em termos gerais, por meio das imagens desse período revolucionário é possível observar os momentos prévios

Revolucionários, México, 1914, Sosa ©Secretaria de Cultura.Nah.Sinafo.FN.México Mujeres en la Estación de Buenavista, México, 1912, Gerónimo Hernández ©Secretaria de Cultura.Nah.Sinafo.FN.México

ou posteriores às batalhas, com numerosas cenas em que os retratados percebem a presença da câmera, algumas vezes até posando para ela, enquanto são escassas as imagens feitas por fotógrafos mexicanos ou residentes no país que puderam permanecer na linha de fogo com a câmera em mãos para deixar um testemunho dos acontecimentos bélicos. No âmbito mundial, a fotografia de guerra apresentava características formais similares, apesar de avanços técnicos que implicavam a transição no uso da placa seca de gelatina para a de nitrocelulose e o uso de câmeras mais leves e menos volumosas. É no retrato que os fotógrafos mexicanos capturam espaços que permitem oferecer um testemunho fidedigno dos sujeitos atuantes e, em menor medida, incluem tecidos improvisados ao modo de ciclorama para cumprir os padrões de representação. O retrato individual ou de casal se destinou, em sua maioria, aos principais atores da revolução: os chefes militares e os caudilhos, conforme o bando do qual o fotógrafo estivesse participando. Também há rostos outrora identificáveis que, com o tempo, perderam nome e sobrenome e, em menor medida, figuras cujo anonimato lhes conferiu uma carga simbólica a partir da tomada. Todas elas imagens visualmente poderosas. No tocante ao retrato coletivo, a chamada encenação envolve não só uma preparação do espaço para a tomada, como também a utilização adequada da câmera e uma composição desejada que teve os seus adeptos desde o início do conflito armado. Estes contaram com o espaço, o tempo e as pessoas que fizeram parte da tomada. Apesar da montagem da cena, o valor documental da fotografia não foi questionado; a imagem, com a sua “evidente” carga de fidelidade, já era o testemunho da realidade visível. Um exemplo disso é a maior parte das encenações coletivas aqui apresentadas – que circularam na pós-revolução sob o selo do fotógrafo alemão Hugo Brehme, residente no México desde 1906 e cuja produção mais conhecida se centra no retrato de estudo e na paisagem do altiplano mexicano. Todas essas encenações foram tomadas no local do conflito, mas sem os riscos inerentes à ação bélica, e não há desordem ou dramatismo; pelo contrário, são afáveis, aprazíveis e harmoniosas, composicionalmente mais próximas do estudo fotográfico. Imagens de guerra sem que nelas seja mostrado o conflito, mas as inscrições no verso, a cena e os personagens constatam sua veracidade, embora ainda existam muitas histórias a ser conhecidas e analisadas.

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