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PROFESSOR,

Entre agosto e outubro de 2015, o Itaú Cultural apresenta a Mostra Rumos, que reúne obras feitas com o apoio da última edição do Rumos, seu programa de incentivo à arte e à cultura brasileiras. Com base em quatro trabalhos da exposição, pensamos em algumas atividades que você pode realizar com seus alunos – sejam eles do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio. Ainda que bastante diferentes entre si, todas essas atividades – bem como as obras nas quais se baseiam – têm pelo menos dois pontos em comum. O primeiro deles diz respeito à ideia de processo. Uma ideia, diga-se, presente nos mais diversos âmbitos do nosso dia a dia – preparar algo para comer, escrever um texto, estudar para uma prova, aprender a tocar um instrumento musical... Tudo, até mesmo a própria vida – nascimento, crescimento, envelhecimento, morte –, pode ser entendido como um processo. E com a arte, especificamente a contemporânea, não é diferente (veja box na página ao lado). Por sinal, a palavra “processo” também teve um processo de desenvolvimento. Se pesquisarmos sua origem – em latim –, veremos que ela se relaciona com outros conceitos, como os de percurso, deslocamento, trânsito, travessia e transformação. Daí as inúmeras formas de abordar a questão.

O outro ponto comum entre as atividades – também diretamente ligado ao nosso dia a dia – é o foco sobre o cotidiano e o espaço urbano. Cada vez mais relevantes no debate público e tangenciados por várias das obras contempladas pelo programa Rumos, temas como a paisagem sonora dos grandes centros e as transformações pelas quais passam as cidades não poderiam deixar de ser explorados na escola. Vamos lá? Além de explorar essas ideias por meio das atividades que vêm a seguir, você e seus alunos também estão convidados, é claro, para conhecer de perto os trabalhos da Mostra Rumos – que está em cartaz na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, entre 27 de agosto e 25 de outubro (terça a sexta, das 9h às 20h; sábado, domingo e feriado, das 11h às 20h). Boa leitura e bom trabalho!


DANDO FORMA AOS PROCESSOS

Antes de começar, você pode sugerir à turma a produção de um diário experimental. Assim, os alunos têm a opção de registrar o desenvolviAFINAL, O QUE É ARTE CONTEMPORÂNEA?

Podemos dizer que a arte contemporânea é aquela produzida nos dias de hoje ou dos anos 1960 para cá. Mas isso não dá conta de definir em que consiste, de fato, essa produção. Se é que ela pode ser definida. A ideia de processo, com a qual vamos trabalhar nas atividades a seguir, está no centro de muitas dessas obras de arte – que abrangem uma enorme gama de linguagens, suportes, poéticas etc. Para vários artistas contemporâneos, o próprio processo de criação, em vez de ser um meio, passa a ser um fim em si mesmo, o próprio trabalho que o público vai ver – ou ouvir, tocar, sentir... Apesar de sua complexidade, a arte contemporânea pode ser trabalhada em sala de aula. De certa forma, ela pode ser fruída por todos, independentemente da idade, já que os códigos com os quais opera estão presentes em nosso cotidiano. E mais: ela abre espaço para que professores de diferentes áreas se juntem e integrem seus respectivos programas em atividades interdisciplinares.

mento – ou o processo – das atividades.

Esse diário pode ser um caderno de anotações, um livro de desenhos, uma caixa de recortes, um álbum de fotografias, um blog com vídeos... Além de fazer com que os alunos materializem – e, posteriormente, compartilhem – seus processos criativos, a produção do diário pode ser vista como um exercício transversal, capaz de integrar o conhecimento de diversas áreas. No fim do percurso, você e sua turma podem pensar em formas de expor todos os registros. Uma mostra coletiva de diários experimentais, talvez? Lembre-se: estar atento ao processo é estar atento ao presente, ao aqui e agora. Não deixe de incentivar a turma a se manter sempre atenta durante o percurso.


ATIVIDADE

Um mapa de lembranças, emoções e sensações

Imagens que compõem a instalação O Corte, de Cecilia Cipriano

PALAVRAS-CHAVE:

instalação, cidade, arquitetura, processo, desconstrução, espaço privado, espaço público, rastro, vestígio, tempo, memória, transformação, deslocamento, realidade, utopia

“A reflexão contínua sobre o processo de ver aponta para um mundo cujo sentido deve ser buscado ou construído por cada um de nós, por meio do olhar. É um exercício fundamental de olhar para o outro, pois somente assim podemos formar uma imagem do espaço no qual nos encontramos. É um processo contínuo que não se esgota, é um estado de questionamento permanente.” (Cecilia Cipriano)


A instalação O Corte, da artista Cecilia Cipriano, foi elaborada a partir de um episódio – a demolição de uma casa – ocorrido no Morro da Providência, ponto onde se estabeleceu, no fim do século XIX, a primeira favela do Rio de Janeiro. Um portão, pedaços de parede e outros vestígios da residência – além de fotos e vídeos do local – foram deslocados de seu contexto original para o espaço expositivo, formando um conjunto que pode gerar reflexões sobre temas como identidade, pertencimento e o acelerado processo de transformação do espaço urbano. Com base nas discussões levantadas pela obra, você e seus alunos podem desenvolver um mapa afetivo coletivo. Não uma representação fiel, não um mapa que um turista possa usar para se localizar ou encontrar uma rua, mas, sim, um mapa que dê conta de retratar uma parte da cidade por meio de lembranças, emoções e sensações que ela desperta. O primeiro passo é decidir qual espaço vai ser mapeado. É importante que ele esteja presente no cotidiano de toda a turma – por isso, o entorno da escola pode ser uma boa opção. E então começa o trabalho de campo, ou seja, reunir os elementos que vão compor o mapa. Pode ser fotos, desenhos ou vídeos do local, por exemplo. Quem sabe até mesmo objetos coletados pelo caminho ou pequenos textos – descritivos, poéticos? – feitos a partir da observação de detalhes ou personagens do espaço. Com todos esses elementos juntos – em um mural, um álbum, um site... –, reparamos como um mesmo lugar pode gerar experiências bastante diferentes para cada pessoa.

E, voltando às questões mais diretamente ligadas à obra de Cecilia, ainda temos a chance de pensar os elementos destacados e explorados pelos alunos no contexto de uma cidade em constante transformação. Eles sempre estiveram, ou sempre estarão, ali? Caso desapareçam, devem dar lugar a quê? E em que medida isso afetaria a paisagem urbana e o cotidiano das pessoas? Como a cidade, ao se transformar, também transforma a vida de seus habitantes?

Caso seja organizada com alunos do Ensino Fundamental I, esta atividade pode contribuir para o desenvolvimento das noções de grupo, pertencimento e localização geográfica. Se você achar mais adequado, pode pedir a eles que explorem, em vez do espaço público, a própria residência ou a área interna do colégio. O importante é que tenham a oportunidade de trabalhar com um lugar do qual sintam fazer parte. Estudantes do Ensino Fundamental II, por sua vez, podem tentar reconhecer os diferentes processos de transformação da paisagem urbana, bem como dos costumes e da cultura locais. A atividade, neste caso, pode integrar um projeto mais amplo, que conte com o apoio dos professores de artes, língua portuguesa, história, geografia e outras disciplinas. Inserida na grade curricular do Ensino Médio, por fim, a ação pode abrir espaço para todos os aspectos educacionais já citados e, ainda, para uma série de discussões de caráter social ou político, contribuindo para o aprimoramento do pensamento crítico.


ATIVIDADE

Um pequeno jardim pode mudar (quase) tudo

Registros da performance Jardim de Passagem, de Teresa Siewerdt

PALAVRAS-CHAVE:

proposição, performance, provocação, natureza, passagem, deslocamento, ressignificação, narrativa, tempo, processo, transição, efemeridade, percurso, movimento, interrupção, espaço público, espaço coletivo, cidade

“A ideia é produzir um hiato poético nesses lugares do dia a dia das cidades. Jardim de Passagem gera uma espécie de curtocircuito no cotidiano das pessoas que usam meios de transporte urbano, pegando-as desprevenidas e arrancando-as de um estado de automatismo e individualismo.” (Teresa Siewerdt)


Jardim de Passagem, da artista Teresa Siewerdt, é uma intervenção criada para o contexto do transporte público das grandes cidades. Durante a ação, um grupo de performers se dividiu em diferentes paradas de uma linha de ônibus da capital paulista – cada um deles carregando um vaso de plantas. E, à medida que embarcavam no coletivo, iam transformando-o em uma espécie de jardim sobre rodas – ou em um “jardim de passagem”. A performance coloca em prática um processo de ressignificação daquilo que entendemos por “jardim” e por “transporte coletivo”, modificando suas características originais. Ou seja: um jardim deixa de ser um espaço fixo, um local por onde as pessoas transitam, e vira um ambiente capaz de se locomover por entre as pessoas; e o transporte coletivo perde um pouco de seu caráter utilitário para se transformar em um espaço poético. Partindo dessa experiência, que tal pedir a seus alunos que produzam pequenos jardins em lugares inusitados? Assim vocês podem ter uma base para conversar sobre a ideia de ressignificação – ou sobre o que acontece quando mudamos a função de objetos que usamos no dia a dia. Primeiro, cada aluno deve escolher qual é esse objeto que vai virar um minijardim. Uma garrafa de refrigerante, uma xícara, um estojo, uma gaveta? Feito isso, basta seguir o passo a passo abaixo: • forrar o fundo do objeto com um algodão umedecido; • colocar um grão de feijão sobre o algodão; • deixar tudo em um lugar iluminado, regando com água o “solo” de algodão – sempre, para que ele não fique seco em momento algum, e aos pouquinhos, para que ele não fique encharcado.

Pronto: em pouco tempo, se tudo correr bem, um pé de feijão vai crescer naquilo que antes era só uma garrafa de refrigerante, uma xícara, um estojo, uma gaveta... Podemos dizer que esses objetos agora devem ser chamados de vasos? O que eles ainda preservam de seus significados originais? E o pé de feijão: inserido nesse novo contexto, ele continua sendo só um pé de feijão?

Professores do Ensino Fundamental I também podem usar esta atividade para explorar conceitos ligados, por exemplo, à natureza e ao meio ambiente. No contexto do Ensino Fundamental II, por sua vez, ela pode dialogar com o programa de ciências. No Ensino Médio, a atividade pode ser adaptada ou ampliada: além de propor o cultivo de um pé de feijão em um objeto, o professor tem a possibilidade de sugerir a seus alunos a realização de uma intervenção urbana – semelhante ao trabalho de Teresa Siewerdt. Que tal instigá-los a produzir pequenos jardins móveis em espaços públicos?


ATIVIDADE

Retrato: entre a ficção e a realidade

A artista Berna Reale na performance Precisa-se do Presente

PALAVRAS-CHAVE:

deslocamento, performance, fotografia, montagem, realidade, ficção, violência, representação, cultura, identidade

“Estar fora de casa hoje é meu grande interesse. Quero poder estar em países que me digam muito e dos quais quase nada conheço, a não ser pelos meios de comunicação, que me apresentam a imagem que decidem, sob o ângulo que lhes é mais conveniente.” (Berna Reale)


A artista Berna Reale desenvolveu a performance Precisa-se do Presente em cinco países que possuem características econômicas e sociais semelhantes e, juntos, formam o grupo de Estados “emergentes” que ficou conhecido como Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A artista se fotografou em cada um desses lugares e, de volta a Belém (PA), sua cidade de origem, fez outros retratos – desta vez usando um figurino especialmente elaborado para a ocasião. Então, por meio de uma montagem digital, inseriu a Berna fotografada na capital paraense nas paisagens estrangeiras que visitou, gerando um complexo jogo de figuras e referentes. O objetivo era fazer com que o trabalho final – articulando realidade e ficção – não possibilitasse afirmar se a imagem fora manipulada ou não, se de fato a performance acontecera daquela forma e naquele lugar que são mostrados na foto. Com base no processo de criação da artista, você e sua turma podem realizar um exercício de fotomontagem. A ideia é que cada aluno faça uma composição usando uma foto de si mesmo – uma selfie, por exemplo – e imagens encontradas em jornais e revistas. Depois de produzir esses retratos, vocês podem discutir os resultados obtidos. Como foi o processo de construção dessas montagens? O que elas dizem sobre quem somos e de onde viemos? Revelam o que pensamos e o que sentimos? O debate pode enriquecer o entendimento de temas como identidade, alteridade e representação.

No Ensino Fundamental I, a experiência pode ajudar na compreensão dos aspectos formais e técnicos que constituem uma imagem: formas, cores, materiais e texturas. Além disso, durante a mesma atividade, você pode incentivar seus alunos a descrever as sensações que certas imagens lhes causam. Essa questão sobre o potencial interpretativo pode ser aprofundada com os alunos do Ensino Fundamental II. A que emoções podem levar determinadas cores? A percepção de todas as pessoas é a mesma? Já para o Ensino Médio, a proposta pode ser mais desafiadora. Por exemplo: incentivar o aluno a, por meio do debate e do pensamento crítico, relacionar as reflexões sobre o poder das imagens com o programa de disciplinas como sociologia e história.


ATIVIDADE

Aguce os sentidos!

tranS(obre)por, instalação de Marcelo Armani

PALAVRAS-CHAVE:

instalação, espaço, percepção, deslocamento, som, cidade, mapeamento, ocupação, tempo, experiência, sensação

“Costumo brincar que eu enxergo com os ouvidos.” (Marcelo Armani)


Em tranS(obre)por, Marcelo Armani apresenta um mapeamento sonoro do espaço. Reunindo ruídos da cidade, o artista cria peças sonoras que, aliadas a fotografias do meio urbano, formam uma instalação. A composição aproxima vida e arte e desperta os sentidos, propondo uma nova percepção do cotidiano urbano. A partir da reflexão sugerida pelo artista, caminhar pelas ruas pode se tornar uma experiência estética e sensorial. Inspirados nessa obra, você e sua turma podem aguçar os sentidos e tentar entender de que maneira eles operam para o nosso entendimento do mundo. Uma das possibilidades é pedir aos alunos que prestem atenção em cada um de seus sentidos. Por exemplo: identificar diversos materiais usando só o tato, ou diferentes alimentos por meio apenas do paladar ou do olfato. Esses materiais e alimentos podem ser coletados pelos próprios alunos – e trocados durante a aula. Esses objetos sensoriais ainda permitem provocar uma rica experiência ligada à ideia de sinestesia. Que imagem é evocada quando escuto determinado som? Qual lembrança surge no momento em que sinto um cheiro específico? A quais cores associo certas texturas?

Por ter um caráter lúdico e poético, esta atividade pode ser muito bem aproveitada com as crianças do Ensino Fundamental I. Com os alunos do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio, a proposta pode avançar para um debate sobre questões relacionadas a conceitos como alteridade e acessibilidade para deficientes físicos.


REFERÊNCIAS

LIVRO Estilos, Escolas & Movimentos (Cosac Naify), de Amy Dempsey SITES Blog Rumos 2013-2014: Berna Reale novo.itaucultural.org.br/explore/blogs/rumos-2/rumos-2013-2014-berna-realequer-sair-da-zona-de-conforto Blog Rumos 2013-2014: Cecilia Cipriano novo.itaucultural.org.br/explore/blogs/rumos-2/rumos-2013-2014-entre-ciencia-earte-a-sensibilidade-de-cecilia-cipriano Blog Rumos 2013-2014: Marcelo Armani novo.itaucultural.org.br/explore/blogs/rumos-2/rumos-2013-2014-a-vida-e-cheiade-sons-e-ruidos Blog Rumos 2013-2014: Teresa Siewerdt novo.itaucultural.org.br/explore/blogs/rumos-2/rumos-2013-2014-artista-propoeum-curto-circuito-poetico-na-realidade Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras http://enciclopedia.itaucultural.org.br Hotsite do programa Ocupação Itaú Cultural http://itaucultural.org.br/ocupacao Site do Itaú Cultural [conteúdos do Núcleo de Educação] http://www.itaucultural.org.br/explore/educacao


FICHA TÉCNICA

NÚCLEO DE EDUCAÇÃO E RELACIONAMENTO Gerência Valéria Toloi Coordenação de programas de formação Samara Ferreira Concepção do material Josiane Cavalcanti, Maria Luisa Ramirez Soares e Thiago Borazanian

NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO E RELACIONAMENTO Gerência Ana de Fátima Sousa Coordenação de conteúdo Carlos Costa Produção editorial Felipe Silvani Neves e Raphaella Rodrigues Edição de texto Maria Clara Matos e Thiago Rosenberg Coordenação de revisão Polyana Lima Revisão de texto Rachel Reis Coordenação de design Jader Rosa Diagramação Guilherme Ferreira



Caderno de Atividade - Mostra Rumos