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ESPAÇO DO PROFESSOR

O CANTO DE MIGRAÇÃO DE PATATIVA DO ASSARÉ

HISTÓRIA | 

LÍNGUA PORTUGUESA | 

GEOGRAFIA | 

MÚSICA


guia de Ă­cones ler

ouvir, colocar (mĂşsica) para tocar

pesquisar, aprofundar, procurar

analisar, questionar, elaborar hipĂłteses, comentar (questionando)

registrar, criar, destacar, grifar, completar

apresentar, relatar, compartilhar em voz alta

comentar, explicar discutir, conversar


título

O Canto de Migração de Patativa do Assaré apresentação Esta sequência trabalha o conceito de migração pelas produções do poeta nordestino Patativa do Assaré. Esse fenômeno foi intenso no território brasileiro de 1940 a 1980. Nesse período, por conta da seca e das estruturas econômicas miseráveis, muitos nordestinos vieram para os centros urbanos em busca de vida mais digna. As terras do Sul foram, nesse tempo, a grande utopia. Nas metrópoles, muitos conseguiram a prosperidade; outros, engolidos pela urbe, retornaram em situação pior do que a inicial. Em quase todos os casos, a marca de deixar a terra natal, com sua gente e seus costumes, nunca se apaga.

objetivos ••Ampliar o conhecimento sobre a obra do artista Patativa do Assaré; ••Estudar alguns fatores dos movimentos migratórios do Nordeste para o Sudeste entre 1940 e 1980; ••Conhecer as contribuições da canção nordestina para a identidade cultural brasileira.

áreas do conhecimento História, língua portuguesa, geografia e música.


segmento

duração

Ensino Fundamental II.

2 aulas.

recursos necessários ••Um aparelho de som que reproduza CD ou um notebook/tablet com acesso

à internet; ••As canções: “Asa Branca” (1947), de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e “A Triste Partida” (1954), de Patativa do Assaré; ••Uma cópia para cada aluno do verbete sobre Patativa do Assaré; ••Uma ficha (anexo 1) para cada aluno com a letra e o roteiro de “Asa Branca”; ••Uma ficha (anexo 2) para cada aluno com o quadro sobre os principais aspectos do estilo poético de Patativa do Assaré; ••Uma ficha (anexo 3) para cada aluno com a letra e o roteiro de “A Triste Partida”.


desenvolvimento

I

nicialmente, apresente o tema da migração e peça aos alunos que exponham o que sabem sobre o assunto. Para ajudar na discussão, indague sobre o porquê de as pessoas migrarem, se a turma conhece músicas ou poemas que tratam de deslocamentos e se há histórias familiares de migração. A migração será centrada na matriz poética de Patativa do Assaré, porém, baseada na interpretação de Luiz Gonzaga, devido à importância desse músico e à fácil localização de seus fonogramas. Também será utilizado o clássico “Asa Branca” (1947), que possibilita um trabalho mais aprofundado e, na sequência, “A Triste Partida” (1954), de Patativa do Assaré.

1º MOMENTO

Primeira audição de “Asa Branca” Prepare o aparelho de som (ou tablet/note) com as canções “Asa Branca” e “A Triste Partida”. Organize os alunos em semicírculo, voltados para a lousa. Apresente os objetivos do trabalho e crie um clima favorável para a audição da canção sem o suporte da letra. Depois, troque com os alunos as impressões experimentadas. Aspectos que podem ser explorados:

••A imagem da ave asa branca, a última a migrar em situações de seca; ••A relação da migração dessa ave com os motivos da migração humana; ••O fato de a música ter temática triste, mas estrutura musical alegre; ••A tristeza do homem nordestino diante da seca do sertão; ••A força do tema da migração, que identifica a música imediatamente; ••A formação do conjunto musical (sanfona em primeiro plano); ••A sanfona que dobra a melodia com a voz do intérprete; ••A riqueza contida no verso: “Quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação”.

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2º MOMENTO

Segunda audição de “Asa Branca” e preenchimento do roteiro Distribua a letra e o roteiro de “Asa Branca” (anexo 1) e oriente os alunos para o correto preenchimento. Esta atividade pode ser feita em duplas, o que favorece o processo de troca e enriquece o preenchimento do roteiro. Vale destacar a chamada “licença poética” utilizada pelos autores. Eles se valem da forma coloquial de falar do nordestino. Se considerarmos a norma culta da língua portuguesa, pode-se dizer que os autores cometeram “incorreções” ortográficas. Essas palavras podem ser grifadas na letra da canção. Ressalte como a canção pareceria irreal se cantada “corrigindo” os termos grifados.

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ESPAÇO DO PROFESSOR


Asa Branca

1 Quando oiei a terra ardendo 2 Qua fogueira de São João 3 Eu perguntei a Deus do céu, ai 4 Por que tamanha judiação 5 Eu perguntei a Deus do céu, ai 6 Por que tamanha judiação 7 Que braseiro, que fornaia 8 Nem um pé de prantação 9 Por farta d’água perdi meu gado 10 Morreu de sede meu alazão 11 Por farta d’água perdi meu gado 12 Morreu de sede meu alazão 13 Inté mesmo a asa branca 14 Bateu asas do sertão 15 Entonce eu disse, adeus Rosinha 16 Guarda contigo meu coração 17 Entonce eu disse, adeus Rosinha 18 Guarda contigo meu coração

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira In: Luiz Gonzaga. Coleção Folha: raízes da música popular brasileira. São Paulo: Folha, 2010.

19 20 21 22 23 24

Hoje longe, muitas léguas Numa triste solidão Espero a chuva cair de novo Pra mim voltar pro meu sertão Espero a chuva cair de novo Pra mim voltar pro meu sertão

25 26 27 28 29 30

Quando o verde dos teus óio Se espalhar na prantação Eu te asseguro não chore não, viu Que eu vortarei, viu, meu coração Eu te asseguro não chore não, viu Que eu vortarei, viu, meu coração

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ANEXO 1

ROTEIRO Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (para ser preenchida pelos alunos individualmente ou em duplas)

• Canção: Asa Branca

• Autor: Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

• Ano de gravação: 1947

Álbum: Luiz Gonzaga

• Artista: Luiz Gonzaga

• Letra-tema (assunto) principal: migração

Trechos da canção que demonstram as causas da migração: seca no Nordeste 1 2 7 8 9

Quando oiei a terra ardendo Qua fogueira de São João Que braseiro, que fornaia Nem um pé de prantação Por farta d’água perdi meu gado

10 11 12 13 14

Morreu de sede meu alazão Por farta d’água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão Inté mesmo a asa branca Bateu asas do sertão

Sentimentos do migrante manifestados na canção: Saudade, solidão, esperança. Trechos da canção que demonstram estes sentimentos: 17 Entonce eu disse, adeus Rosinha 18 Guarda contigo meu coração 19 Hoje longe, muitas léguas

20 Numa triste solidão 21 Espero a chuva cair de novo 22 Pra mim voltar pro meu sertão

Principal metáfora (imagem poética), que resume a ideia trabalhada na canção: 25 Quando o verde dos teus óio 26 Se espalhar na prantação

10

27 Eu te asseguro não chore não, viu 28 Que eu vortarei, viu, meu coração

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3º MOMENTO

Pesquisa histórica Peça aos alunos que pesquisem sobre as migrações de 1940 e 1950 no Brasil. Lance perguntas, tais como: de onde saiam? Para onde iam? Havia uma política do governo que incentivava a migração? Por quê? Que transporte utilizavam nessas migrações? As pessoas voltavam à terra natal? Solicite que os alunos exponham o que foi pesquisado e elabore um quadro esquemático na lousa.

4º MOMENTO

Leitura do verbete de Patativa do Assaré Distribua as cópias do verbete sobre Patativa do Assaré e a ficha com o quadro: principais aspectos do estilo poético de Patativa do Assaré (anexo 2). Pode-se realizar uma leitura compartilhada do verbete, temperando-a com as imagens e os trechos poéticos citados ou constantes em livros. Selecionamos o trecho que mais contém características da obra e estilo do poeta. Peça para que os alunos grifem as principais características do estilo do poeta e suas referências e, em seguida, completem o quadro.

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Patativa do Assaré

(...) Sua obra é marcada pela agilidade do improviso e pelo inesgotável repertório de situações – o que aprende com o modelo de mote e glosa dos cantadores, isto é, o estilo de versificar nos desafios feitos entre violeiros. Não costuma retrabalhar o verso: a transcrição serve-lhe apenas como um exercício de memória, e continua dentro dos códigos da transmissão oral. Da mesma forma, o poeta estuda tão somente para satisfazer a curiosidade, sem se ater a categorias gramaticais. Em relação à forma, seu único estudo se dá pelo contato com o Manual de Versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos. Interessa-se por poetas românticos brasileiros, elegendo Castro Alves como seu preferido, em função do compromisso social. Aprecia também os escritores Artur Azevedo, Casimiro de Abreu, Luís de Camões, Machado de Assis, e o poeta cearense Rogaciano Leite. Aprende com Os Lusíadas a oitava camoniana, tipo de estrofe que emprega em seu poema “O Inferno, o Purgatório e o Paraíso”. O poeta usa as corruptelas da língua popular de modo a aproveitar a sonoridade das palavras, recorrendo a esse vocabulário que lhe é próprio, o que o distingue, por exemplo, do compositor Catulo da Paixão Cearense, que o faz para estilizar, dando um aspecto exótico à fala nordestina. Embora prefira não investir no viés da literatura de cordel, seus poemas seguem a tradição, numa narrativa que traduz a experiência do camponês e aborda personagens do imaginário popular, como o caboclo, o roceiro, o caçador, o mendigo, o cangaceiro Lampião. Há ainda referências a aventuras encontradas em obras literárias internacionais como As Mil e Uma Noites, no poema “A História de Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”. Baseado em preceitos cristãos, defende que as coisas da natureza são para todos os homens. Há em sua obra um sentido de comunhão de experiências, estabelecendo um vínculo entre a poesia, o sertão e o público interlocutor, ao qual o poeta transmite valores morais, seja instruindo ou divertindo, como se observa na curiosa narrativa “Brosogó, Militão e o Diabo”. O poema conta a história de um vendedor ambulante que contrai dívidas com um coronel, e no fim é defendido pelo seu advogado – o diabo –, a quem ele havia ofertado três velas, por nunca ter lhe tentado. A história inicia com a lição de moral:

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O melhor de nossa vida É paz, amor e união E em cada semelhante A gente ver um irmão [...] Quem faz um grande favor Mesmo desinteressado [...] Um dia sem esperar Será bem recompensado.

Mais surpreendente é a recomendação final:

Bom leitor tenha cuidado Vivem ainda entre nós Milhares de Militões Com o instinto feroz Com traçadas e mentiras Perseguindo os Brosogós.

uma clara crítica à exploração pelos coronéis. Alguns de seus poemas se enquadram no gênero de canto de trabalho, que, em geral, culminam na reivindicação por melhores condições para o homem do campo e pelo extermínio das desigualdades sociais. Num desses, fica latente a questão da burocracia, a complicar mais a vida do trabalhador. É o caso de “Aposentadoria do Mané Riachão”, em Aqui Tem Coisa, como se verifica no seguinte trecho: [...] e sem podê trabaiá, Com secenta e sete ano precurei me apusentá, Fui batê lá no iscritoro depois eu fui no cartoro, Porém de nada valeu [...] Me disse que só dava pra fazê meu apusento Com coisa que eu só achava no Antigo Testamento, Eu que tava prazentêro mode recebê dinhêro, Me disse aquele iscrivão que precisava dos nome E também dos subrinome de Eva e seu marido Adão [..]

A temática de sua obra denuncia a morosidade dos políticos em eliminar a pobreza, afirmando que o problema maior do sertão não é a seca, mas a “cerca”, defendendo abertamente a reforma agrária. Esse tema é tratado em poemas como “O Poeta da Roça”, “Eu e o Sertão”, “Caboclo Roceiro” e “ABC do Nordeste Flagelado”, no livro Cante Lá que Eu Canto Cá, e “Reforma Agrara É Assim”, em Aqui Tem Coisa. Por esses temas é transformado num ícone da esquerda política. Ao mesmo tempo, é arrebatado pela direita por valorizar a tradição.

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ANEXO 2

QUADRO: PRINCIPAIS ASPECTOS DO ESTILO POÉTICO DE PATATIVA DO ASSARÉ • Poeta: Patativa do Assaré (1909-2002)

• Nome de batismo: Antônio Gonçalves da Silva

• Local de nascimento: Assaré, Ceará

• Formação: alfabetizado aos 12 anos, durante um semestre

• Estilo: poeta popular

Principais aspectos do estilo do poeta: • Agilidade do improviso; • Inesgotável repertório de situações; • Influenciado pelos repentes dos cantadores e desafios de violeiros; • Versos feitos na linha da oralidade, sem retrabalho; • Não obedece à norma culta da língua portuguesa; • Poemas com forte teor de compromisso social; • Uso de corruptelas da língua popular para aproveitar a sonoridade das palavras; • Poemas de tradição popular que representam a experiência do homem do campo; • Uso de personagens do imaginário popular: caboclo, roceiro, caçador, mendigo, cangaceiro; • Defesa do conceito cristão de igualdade em seus poemas; • Poemas com forte conteúdo social (por melhores condições de trabalho, pelo fim das desigualdades sociais e pela reforma agrária).

Principais influências do poeta: • Romantismo e Castro Alves; • Artur Azevedo; • Casimiro de Abreu; • Luís de Camões (oitava camoniana); • Machado de Assis; • Rogaciano Leite; • As Mil e Uma Noites.

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5º MOMENTO

Audição da canção “A Triste Partida”, de Patativa do Assaré Distribua a letra e o roteiro de “A Triste Partida” (anexo 3). O educador deverá contextualizar a canção na mesma linha de “Asa Branca”, só que com mais detalhes. A canção trata da saga do homem nordestino que vive no sertão e migra para a cidade grande, sem condições de vida em sua terra natal, por causa da seca. Ao chegar no centro urbano, este sertanejo enfrenta dificuldades e vive saudade da terra de origem. Os alunos deverão ouvir a canção e, na sequência, preencher o roteiro.

ANEXO 3 A Triste Partida 1 (Meu Deus, meu Deus) 2 Setembro passou 3 Outubro e Novembro 4 Já tamo em Dezembro 5 Meu Deus, que é de nós, 6 (Meu Deus, meu Deus) 7 Assim fala o pobre 8 Do seco Nordeste 9 Com medo da peste 10 Da fome feroz 11 Ai, ai, ai, ai

Patativa do Assaré (1964) In: Luiz Gonzaga. A triste partida. Rio de Janeiro: RCA, 1964.

12 13 14 15 16 17 18 19 20 21

A treze do mês Ele fez experiênça Perdeu sua crença Nas pedras de sal, (Meu Deus, meu Deus) Mas noutra esperança Com gosto se agarra Pensando na barra Do alegre Natal Ai, ai, ai, ai

22 23 24 25 26 27 28 29 30 31

Rompeu-se o Natal Porém barra não veio O sol bem vermeio Nasceu muito além (Meu Deus, meu Deus) Na copa da mata Buzina a cigarra Ninguém vê a barra Pois barra não tem Ai, ai, ai, ai

32 33 34 35 36 37 38 39 40 41

Sem chuva na terra Descamba Janeiro, Depois fevereiro E o mesmo verão (Meu Deus, meu Deus) Entonce o nortista Pensando consigo Diz: “isso é castigo não chove mais não” Ai, ai, ai, ai

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42 43 44 45 46 47 48 49 50 51

Apela pra Março Que é o mês preferido Do santo querido Sinhô São José (Meu Deus, meu Deus) Mas nada de chuva Tá tudo sem jeito Lhe foge do peito O resto da fé Ai, ai, ai, ai

52 53 54 55 56 57 58 59 60 61

Agora pensando Ele segue outra tria Chamando a famia Começa a dizer (Meu Deus, meu Deus) Eu vendo meu burro Meu jegue e o cavalo Nóis vamo a São Paulo Viver ou morrer Ai, ai, ai, ai

62 Nóis vamo a São Paulo 63 Que a coisa tá feia 64 Por terras alheia 65 Nós vamos vagar 66 (Meu Deus, meu Deus) 67 Se o nosso destino 68 Não for tão mesquinho 69 Cá e pro mesmo cantinho 70 Nós torna a voltar 71 Ai, ai, ai, ai 72 73 74 75 76 77 78

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E vende seu burro Jumento e o cavalo Inté mesmo o galo Venderam também (Meu Deus, meu Deus) Pois logo aparece Feliz fazendeiro

79 Por pouco dinheiro 80 Lhe compra o que tem 81 Ai, ai, ai, ai 82 Em um caminhão 83 Ele joga a famia 84 Chegou o triste dia 85 Já vai viajar 86 (Meu Deus, meu Deus) 87 A seca terrívi 88 Que tudo devora 89 Lhe bota pra fora 90 Da terra natal 91 Ai, ai, ai, ai 92 O carro já corre 93 No topo da serra 94 Oiando pra terra 95 Seu berço, seu lar 96 (Meu Deus, meu Deus) 97 Aquele nortista 98 Partido de pena 99 De longe acena 100 Adeus meu lugar 101 Ai, ai, ai, ai 102 No dia seguinte 103 Já tudo enfadado 104 E o carro embalado 105 Veloz a correr 106 (Meu Deus, meu Deus) 107 Tão triste, coitado 108 Falando saudoso 109 Com seu filho choroso 110 Iscrama a dizer 111 Ai, ai, ai, ai 112 De pena e saudade 113 Papai sei que morro 114 Meu pobre cachorro

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115 Quem dá de comer? 116 (Meu Deus, meu Deus) 117 Já outro pergunta 118 Mãezinha, e meu gato? 119 Com fome, sem trato 120 Mimi vai morrer 121 Ai, ai, ai, ai 122 E a linda pequena 123 Tremendo de medo 124 “Mamãe, meus brinquedo 125 Meu pé de fulô?” 126 (Meu Deus, meu Deus) 127 Meu pé de roseira 128 Coitado, ele seca 129 E minha boneca 130 Também lá ficou 131 Ai, ai, ai, ai 132 E assim vão deixando 133 Com choro e gemido 134 Do berço querido 135 Céu lindo azul 136 (Meu Deus, meu Deus) 137 O pai, pesaroso 138 Nos fio pensando 139 E o carro rodando 140 Na estrada do Sul 141 Ai, ai, ai, ai 142 Chegaram em São Paulo 143 Sem cobre quebrado 144 E o pobre acanhado 145 Percura um patrão 146 (Meu Deus, meu Deus) 147 Só vê cara estranha 148 De estranha gente 149 Tudo é diferente 150 Do caro torrão 151 Ai, ai, ai, ai 152 Trabaia dois ano,

153 Três ano e mais ano 154 E sempre nos prano 155 De um dia vortar 156 (Meu Deus, meu Deus) 157 Mas nunca ele pode 158 Só vive devendo 159 E assim vai sofrendo 160 É sofrer sem parar 161 Ai, ai, ai, ai 162 Se arguma notíça 163 Das banda do Norte 164 Tem ele por sorte 165 O gosto de ouvir 166 (Meu Deus, meu Deus) 167 Lhe bate no peito 168 Saudade de móio 169 E as água nos óio 170 Começa a cair 171 Ai, ai, ai, ai 172 Do mundo afastado 173 Ali vive preso 174 Sofrendo desprezo 175 Devendo ao patrão 176 (Meu Deus, meu Deus) 177 O tempo rolando 178 Vai dia e vem dia 179 E aquela famia 180 Não vorta mais não 181 Ai, ai, ai, ai 182 Distante da terra 183 Tão seca mas boa 184 Exposto à garoa 185 A lama e o pau 186 (Meu Deus, meu Deus) 187 Faz pena o nortista 188 Tão forte, tão bravo 189 Viver como escravo 190 No Norte e no Sul 191 Ai, ai, ai, ai

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ROTEIRO A Triste Partida, de Patativa do Assaré

• Canção: Triste Partida (1954) • Autor: Patativa do Assaré • Ano de gravação: 1964

Álbum: Luiz Gonzaga – A Triste Partida

• Artista: Luiz Gonzaga • Letra – tema (assunto) principal: migração (saga do migrante) Causas da migração apontadas na canção: Seca e fome.

Problemas encontrados pelo migrante ao chegar na cidade grande: Pouco trabalho, pouco dinheiro, sempre deve ao empregador, vive preso ao contrato de trabalho e é desprezado.

Sentimentos do migrante manifestados na canção: Tristeza e saudade da terra natal.

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Trechos da canção que as ilustram: 7 8 9 10 32 47 87 88

Assim fala o pobre Do seco Nordeste Com medo da peste Da fome feroz Sem chuva na terra Mas nada de chuva A seca terrívi Que tudo devora

Trechos da canção que os ilustram: 172 173 174 175 189

Do mundo afastado Ali vive preso Sofrendo desprezo Devendo ao patrão Viver como escravo

Trechos da canção que os ilustram: 107 Tão triste, coitado 112 De pena e saudade 132 E assim vão deixando 133 Com choro e gemido 137 O pai, pesaroso 167 Lhe bate no peito 168 Saudade de móio 169 E as água nos óio 170 Começa a cair

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reflexão final

A

obra de Patativa do Assaré ajuda-nos a conhecer a história e a cultura brasileiras. Seus versos revelam o linguajar coloquial do Nordeste e o drama vivido por aqueles que abandonaram a terra natal em busca de uma vida mais digna. Com base nos movimentos migratórios do Norte para o Sul do país, a partir de 1940, o artista traz o testemunho da voz popular e a exclusão a que esteve submetida. Converse com a classe sobre essa exclusão: de que tipo ela pode ser (social, econômica, linguística)? Eles conseguem perceber a arte como veículo de crítica social? Qual a situação das pessoas que migram de uma região a outra do país? São acolhidas na terra de destino? Finalize pedindo para que os alunos pensem em propostas que contribuam para a melhoria das condições de vida das populações migrantes e também questione o que eles podem fazer por essas pessoas.

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referências ARTUR Azevedo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural. org.br/pessoa4395/artur-azevedo>. Acesso em: jan. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7. CASIMIRO de Abreu. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2813/casimiro-de-abreu>. Acesso em: jan. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7. CASTRO Alves. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural. org.br/pessoa2804/castro-alves>. Acesso em: jan. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7. CATULO da Paixão Cearense. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia. itaucultural.org.br/pessoa2895/catulo-da-paixao-cearense>. Acesso em: jan. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7. HUMBERTO Teixeira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia. itaucultural.org.br/pessoa12182/humberto-teixeira>. Acesso em: jan. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7.

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LUIZ GONZAGA. Coleção Folha: raízes da música popular brasileira. São Paulo: Folha, 2010. 1 livro-CD. LUIZ GONZAGA. A triste partida. Rio de Janeiro: RCA, 1964. 1 CD. MACHADO de Assis. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2815/machado-de-assis>. Acesso em: jan. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7. OLAVO Bilac. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org. br/pessoa2780/olavo-bilac>. Acesso em: jan. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7. PATATIVA do Assaré. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia. itaucultural.org.br/pessoa3743/patativa-do-assare>. Acesso em: jan. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7.

O CANTO DE MIGRAÇÃO DE PATATIVA DO ASSARÉ

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ANEXO 1

Asa Branca

1 2 3 4 5 6

Quando oiei a terra ardendo Qua fogueira de São João Eu perguntei a Deus do céu, ai Por que tamanha judiação Eu perguntei a Deus do céu, ai Por que tamanha judiação

7 8 9 10 11 12

Que braseiro, que fornaia Nem um pé de prantação Por farta d’água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão Por farta d’água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão

13 14 15 16 17 18

Inté mesmo a asa branca Bateu asas do sertão Entonce eu disse, adeus Rosinha Guarda contigo meu coração Entonce eu disse, adeus Rosinha Guarda contigo meu coração

19 20 21 22 23 24

Hoje longe, muitas léguas Numa triste solidão Espero a chuva cair de novo Pra mim voltar pro meu sertão Espero a chuva cair de novo Pra mim voltar pro meu sertão

25 26 27 28 29 30

Quando o verde dos teus óio Se espalhar na prantação Eu te asseguro não chore não, viu Que eu vortarei, viu, meu coração Eu te asseguro não chore não, viu Que eu vortarei, viu, meu coração

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1947 In: LUIZ GONZAGA. Coleção Folha: raízes da música popular brasileira. São Paulo: Folha, 2010.


ROTEIRO Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (para ser preenchida pelos alunos individualmente ou em duplas)

• Canção:

• Autor:

• Ano de gravação:

Álbum:

• Artista:

• Letra – tema (assunto) principal:

Trechos da canção que demonstram as causas da migração:

Sentimentos do migrante manifestados na canção:

Trechos da canção que demonstram estes sentimentos:

Principal metáfora (imagem poética), que resume a ideia trabalhada na canção:


ANEXO 2

QUADRO: PRINCIPAIS ASPECTOS DO ESTILO POÉTICO DE PATATIVA DO ASSARÉ • Poeta:

• Nome de batismo:

• Local de nascimento:

• Formação:

• Estilo:

Principais aspectos do estilo do poeta:

Principais influências do poeta:


ANEXO 3

A Triste Partida

Patativa do Assaré (1964) In: LUIZ GONZAGA. A triste partida. Rio de Janeiro: RCA, 1964.

1 (Meu Deus, meu Deus) 2 Setembro passou 3 Outubro e Novembro 4 Já tamo em Dezembro 5 Meu Deus, que é de nós, 6 (Meu Deus, meu Deus) 7 Assim fala o pobre 8 Do seco Nordeste 9 Com medo da peste 10 Da fome feroz 11 Ai, ai, ai, ai

32 33 34 35 36 37 38 39 40 41

Sem chuva na terra Descamba Janeiro, Depois fevereiro E o mesmo verão (Meu Deus, meu Deus) Entonce o nortista Pensando consigo Diz: “isso é castigo não chove mais não” Ai, ai, ai, ai

12 13 14 15 16 17 18 19 20 21

A treze do mês Ele fez experiênça Perdeu sua crença Nas pedras de sal, (Meu Deus, meu Deus) Mas noutra esperança Com gosto se agarra Pensando na barra Do alegre Natal Ai, ai, ai, ai

42 43 44 45 46 47 48 49 50 51

Apela pra Março Que é o mês preferido Do santo querido Sinhô São José (Meu Deus, meu Deus) Mas nada de chuva Tá tudo sem jeito Lhe foge do peito O resto da fé Ai, ai, ai, ai

22 23 24 25 26 27 28 29 30 31

Rompeu-se o Natal Porém barra não veio O sol bem vermeio Nasceu muito além (Meu Deus, meu Deus) Na copa da mata Buzina a cigarra Ninguém vê a barra Pois barra não tem Ai, ai, ai, ai

52 53 54 55 56 57 58 59 60 61

Agora pensando Ele segue outra tria Chamando a famia Começa a dizer (Meu Deus, meu Deus) Eu vendo meu burro Meu jegue e o cavalo Nóis vamo a São Paulo Viver ou morrer Ai, ai, ai, ai


62 Nóis vamo a São Paulo 63 Que a coisa tá feia 64 Por terras alheia 65 Nós vamos vagar 66 (Meu Deus, meu Deus) 67 Se o nosso destino 68 Não for tão mesquinho 69 Cá e pro mesmo cantinho 70 Nós torna a voltar 71 Ai, ai, ai, ai

92 O carro já corre 93 No topo da serra 94 Olando pra terra 95 Seu berço, seu lar 96 (Meu Deus, meu Deus) 97 Aquele nortista 98 Partido de pena 99 De longe acena 100 Adeus meu lugar 101 Ai, ai, ai, ai

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102 No dia seguinte 103 Já tudo enfadado 104 E o carro embalado 105 Veloz a correr 106 (Meu Deus, meu Deus) 107 Tão triste, coitado 108 Falando saudoso 109 Com seu filho choroso 110 Iscrama a dizer 111 Ai, ai, ai, ai

E vende seu burro Jumento e o cavalo Inté mesmo o galo Venderam também (Meu Deus, meu Deus) Pois logo aparece Feliz fazendeiro Por pouco dinheiro Lhe compra o que tem Ai, ai, ai, ai

82 Em um caminhão 83 Ele joga a famia 84 Chegou o triste dia 85 Já vai viajar 86 (Meu Deus, meu Deus) 87 A seca terrívivi 88 Que tudo devora 89 Lhe bota pra fora 90 Da terra natal 91 Ai, ai, ai, ai

112 De pena e saudade 113 Papai sei que morro 114 Meu pobre cachorro 115 Quem dá de comer? 116 (Meu Deus, meu Deus) 117 Já outro pergunta 118 Mãezinha, e meu gato? 119 Com fome, sem trato 120 Mimi vai morrer 121 Ai, ai, ai, ai


122 E a linda pequena 123 Tremendo de medo 124 “Mamãe, meus brinquedo 125 Meu pé de fulô?” 126 (Meu Deus, meu Deus) 127 Meu pé de roseira 128 Coitado, ele seca 129 E minha boneca 130 Também lá ficou 131 Ai, ai, ai, ai 132 E assim vão deixando 133 Com choro e gemido 134 Do berço querido 135 Céu lindo azul 136 (Meu Deus, meu Deus) 137 O pai, pesaroso 138 Nos fio pensando 139 E o carro rodando 140 Na estrada do Sul 141 Ai, ai, ai, ai 142 Chegaram em São Paulo 143 Sem cobre quebrado 144 E o pobre acanhado 145 Percura um patrão 146 (Meu Deus, meu Deus) 147 Só vê cara estranha 148 De estranha gente 149 Tudo é diferente 150 Do caro torrão 151 Ai, ai, ai, ai 152 Trabaia dois ano, 153 Três ano e mais ano 154 E sempre nos prano 155 De um dia vortar 156 (Meu Deus, meu Deus) 157 Mas nunca ele pode 158 Só vive devendo 159 E assim vai sofrendo

160 É sofrer sem parar 161 Ai, ai, ai, ai 162 Se arguma notíça 163 Das banda do Norte 164 Tem ele por sorte 165 O gosto de ouvir 166 (Meu Deus, meu Deus) 167 Lhe bate no peito 168 Saudade de móio 169 E as água nos óio 170 Começa a cair 171 Ai, ai, ai, ai 172 Do mundo afastado 173 Ali vive preso 174 Sofrendo desprezo 175 Devendo ao patrão 176 (Meu Deus, meu Deus) 177 O tempo rolando 178 Vai dia e vem dia 179 E aquela famia 180 Não vorta mais não 181 Ai, ai, ai, ai 182 Distante da terra 183 Tão seca mas boa 184 Exposto à garoa 185 A lama e o paú 186 (Meu Deus, meu Deus) 187 Faz pena o nortista 188 Tão forte, tão bravo 189 Viver como escravo 190 No Norte e no Sul 191 Ai, ai, ai, ai


ROTEIRO A Triste Partida, de Patativa do Assaré

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Causas da migração apontadas na canção:

Trechos da canção as que ilustram:

Problemas encontrados pelo migrante ao chegar na cidade grande:

Trechos da canção os que ilustram:

Sentimentos do migrante manifestados na canção:

Trechos da canção que os ilustram:


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