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PANORAMA BÍBLICO – ESTUDO Nº 11 SAMUEL (1 Samuel 1:1-8:22) INTRODUÇÃO O profeta Samuel não recebe, no meio do povo evangélico, o merecimento que lhe seria realmente devido. Ele foi o último dos Juízes, instituiu o ofício profético (note que “a palavra do Senhor era mui rara” – 3:1), foi o instrumento de Deus para o estabelecimento da Monarquia do Reino Unido de Israel e Judá (que ainda não eram duas nações, mas tribos dispersas e informalmente ligadas entre si); além disso obteve uma grande vitória contra os filisteus. Seu juizado durou cerca de 45 anos, com grandes e notáveis episódios. Há um ministério que não podemos atribuir senão a Samuel de grande importância na Bíblia: O de ter sido instrumental nas mãos de Deus para organização (compilação), preservação e transmissão do Antigo Testamento. Em certa medida, cada profeta e sacerdote cumpriu este papel, zelando pelos rolos sagrados. Porém no caso de Samuel, temos alguém que se dedicou para preservar a história e o agir de Deus na história. Por sua grande instrumentalidade temos os volumes de Juízes, Rute e a primeira parte do livro que leva seu nome. Samuel também trouxe, na direção de Deus, um novo tipo de ofício profético, o que registrava sua profecia, o que compõe, como sabemos, grande parte do volume do Antigo Testamento. Sejamos gratos pela vida deste grande profeta e dispostos a reter as lições que encontramos em sua vida e seus escritos. ESBOÇO DA PRIMEIRA PARTE DO LIVRO (1:1-8:22): (1) A família e a consagração de Samuel (1:1 – 2:11) a) Os vicíos da cultura ao redor e o povo de Deus b) A fé e o voto de Ana c) O cântico de Ana d) A consagração de Samuel (2) O fim do ministério de Eli (2:12 – 3:21) a) Os crimes e pecados dos filhos de Eli (2:12-36) b) A primeira revelação de Deus a Samuel (3:1-21) (3) A Guerra contra os Filisteus (4:1 – 7:14) a) Israel é vencido e a Arca de Deus é levada (4:1-22) b) Deus faz os filisteus devolverem a Arca e eles são vencidos (5:1-7:14) (4) Samuel julga o povo durante c. 45 anos (7:15-8:22)


1- OS VÍCIOS CULTURAIS AO REDOR DO POVO DE DEUS 1 Samuel 1:1-8 A família de Samuel. Seu pai, um levita (1 Crônicas 6:23) que vivia em Efraim, sem se dedicar ao serviço levítico. Ainda que fosse mostrado para nós como um levita piedoso, que subia a anualmente a Siló (onde estava o Tabernáculo), também vemos que ele assimilou uma prática da cultura ao redor de forma muito penetrante: ele tinha duas esposas. E ainda que algumas figuras de destaque no Antigo Testamento tivessem duas (e até mais!) esposas, sabemos que isso em nenhum lugar da Bíblia foi sancionado por Deus, que, pelo contrário, instituiu um modelo na Criação e na Lei diferente, monogâmico. Porém era difícil para eles perceber isto. Nós que vivemos alguns séculos depois podemos ter alguma clareza, porque a sociedade mudou significativamente. Mas será que haverá outros assuntos que hoje para nós são simplesmente cotidianos e que não vêm da Palavra do Senhor? Martinho Lutero chamou as circunstâncias do seu tempo de cativeiro babilônico, aos seus olhos, os crentes estavam aprisionados por algemas culturais do seu tempo. Para Elcana parecia algo tão normal viver com duas esposas; tantos dos seus contemporâneos tinham duas esposas; “que mal há?”, ele talvez perguntaria. As algemas aprisionam até hoje, e são invisíveis, porém eficazes. Temos nós clareza a respeito das questões de nosso tempo? Devemos rogar a Deus que nos faça ver e delas queira nos libertar, a fim de vivermos na liberdade do Evangelho e de modo que honre a obra do Salvador por nós. 2- ANA EM PERSPECTIVA A mãe do profeta é objeto de nossa segunda reflexão, ao imergirmos nesta leitura: • Sua humilhação e busca de Deus Há consenso nos comentaristas antigos que Ana era a primeira esposa de Elcana, e que depois de se constatar sua infertilidade ele entrou em segundas núpcias com Penina. Isso por si só seria uma grande humilhação, mas Penina parecia disposta a aumentar a dor de Ana. As ações de Elcana trouxeram grande sofrimento para dentro de sua casa. Contudo, o agir de Ana em sua humilhação é exemplar para nós em nossas lutas: Ana subia à Casa do Senhor, chorava e não comia. Uma leitura superficial nos faria talvez pensar que se tratasse de birra e de comportamento rebelde, mas a verdade é que era tal a tristeza de Ana, que ela não tinha apetite. Tristeza porque não seria instrumento para trazer vida ao mundo e tristeza porque as mães levitas tinham a missão de gerar novos sacerdotes para o Culto do Senhor. Havia elementos de profundidade na sua tristeza, no seu lamento. Temos de indagar se nós, crentes em Cristo, lamentamos não produzir frutos para o Senhor, se choramos a falta de filhos espirituais: pessoas que tenhamos sido instrumentais em sua salvação. Será que estamos pensando em nossas vidas como instrumento de viver a vida ou de gerar novas vidas? Será que nos importamos de haver poucos sacerdotes no serviço de Deus?


• Sua comunhão com o Senhor Em seguida (1:9-18) vemos Ana buscando o Senhor Deus “com amargura de espírito, orou ao Senhor e chorou abundantemente. E fez um voto: (...) se me deres um filho varão, ao Senhor o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha.” Talvez Ana tivesse ouvido falar da visitação do Anjo alguns anos antes na casa de Manoá, da tribo de Dã; talvez tivesse feito expressa sua compreensão que seu desejo não era gerar somente, mas sim gerar um sacerdote ao Senhor (por ser seu marido da tribo de Levi). Observação: Hoje os pais crentes não podem fazer promessas por seus filhos a Deus, porque a aliança antiga era um pacto nacional, enquanto a Nova Aliança é um relacionamento pessoal com Deus. Importante! Fato é que apesar de ter sido acusada de bêbada, Ana rejeitou a acusação porque estava orando a Deus de coração sincero. O diálogo seguinte (1:12-18) termina com Ana em paz, sem tristeza em seu coração; porém, que paz era a sua? Seria a paz supersticiosa pelo desejo simpático de Eli? Ou talvez falsa-paz meritória, por ter feito oração sensacional? Cremos, na verdade, que Ana provou a mesma paz que os crentes em Cristo podem provar hoje: A paz de termos comunhão com o Senhor, mesmo que a situação ainda não se tenha revertido (e talvez não venha a se reverter) temos paz com Deus e a encontramos ao ter comunhão com o Senhor. • A dedicação de Samuel e o Cântico de Ana Três anos depois, volta Ana, com seu filho e seu testemunho (1:26-28), cumprindo aquilo que tinha prometido e que Deus estava agindo de forma extraordinária na história, porque assim como Sansão (porém de maneira distinta), Samuel seria um grande instrumento de Deus naquele momento da história. De certa forma, Ana contempla pela fé o propósito de Deus na vida de seu filho, em alguma medida como Joquebede, ao ver o bebê Moisés “que era formoso”. O cântico de Ana (2:1-10) (de notável semelhança com o de Maria – Lucas 1:46-55) é um verdadeiro Salmo soteriológico, muito glorioso. Samuel ficou no Tabernáculo (aparentemente havia algumas construções ao redor da tenda que atendiam ao sacerdócio, além de câmaras e pousadas), sendo instruído pelo Sumo Sacerdote Eli. • Seu coração de mãe Há uma imensa beleza em 2:18-21: Ana vindo anualmente adorar a Deus ao mesmo tempo em que tinha algum contato e proximidade com seu filho, Samuel. Trazia todo ano uma túnica que para ele fazia – quanto valor aquele encontro tinha! Quanto significado num presente que mostra vínculo, propósito, afeto. Deus deu a ela outros filhos: sua provação inicial tinha um propósito; sobretudo vemos que os planos de Deus contemplam muito mais do que nós conseguimos supor. Não se fala mais sobre ela nem sobre seus outros filhos na Bíblia; seguramente não se envolveram com o sacerdócio do Tabernáculo.


3- CORRUPÇÃO RELIGIOSA E SEU JUÍZO Em 2:12-17 e 2:22-26 lemos sobre a forma como os filhos de Eli conduziam seu serviço do Tabernáculo em corrupção, oprimindo os ofertantes, usando de violência para roubar das ofertas e menosprezando o serviço do Senhor nem a profunda simbologia dos rituais da velha aliança. 2:12 nos diz que eles “não se importavam com o Senhor”. Eli os admoestou (2:22-24), porém “não ouviram a voz de seu pai”. Finalmente o propósito de Deus de julgá-los se cumpriria, “o Senhor os queria matar”. Deus não levará levianamente àqueles que menosprezam Sua santidade, ofendem Seu povo e desensinam a fé santa e salvadora. Sem dúvida que hoje ainda temos aparecendo no meio do povo de Deus pessoas de perfil semelhante; aleivosos que ocupam posições que o Senhor não lhes deu. Há pregadores do “evangelho da prosperidade”, dissimulados por quaisquer interesses, enfim, pessoas de perfil malsão. Não nos aflijamos, Deus os vê e agirá. Um profeta (2:27-36) foi enviado pelo Senhor Deus para confrontar Eli. Novamente vemos o caráter coletivo da Antiga Aliança (e ao interpretarmos alguns de seus incisos não podemos esquecer disso, senão incorreremos em grave erro!) em que a geração seguinte foi desterrada, e Samuel, um jovem que não era da “primeira linha” de descendentes de Levi, foi escolhido por Deus. Em 2:30 vemos que além de coletiva, a Antiga Aliança era condicional1. A respeito de Eli temos de reconhecer que em grande medida era um verdadeiro homem de Deus. Ele zelou pela pureza do santuário (1:14), demonstrou genuína compaixão pela mãe provada (1:17), abençoava ternamente a família (2:20) e até mesmo repreendeu seus filhos (2:24). Foi repreendido gravemente pelo profeta: “por que honras a teus filhos mais do que a Mim?” Deus jamais aceitará isso de ninguém, lembremo-nos do que disse o Salvador: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim não é digno de Mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a Mim não é digno de Mim.” (Mateus 10:37) Porém nos parece que Eli se arrependeu disso, porque aceitou o juízo de Deus (3:18) e quando de sua morte sua preocupação e seu temor estavam mais ligados às coisas do Senhor do que à condenação de seus rebeldes filhos (4:13, 18). O profeta fez um grande retrato duplo do Salvador (2:35) quando Deus por meio desse Anônimo diz: “Suscitarei para Mim um sacerdote fiel que procederá segundo o que tenho no coração e na mente; edificar-Lhe-ei uma casa estável, e andará Ele diante do meu Ungido para sempre.” Aqui o Senhor é apresentado como Sacerdote (e Hebreus 5-10 deixa isso muito claro), mas também como objeto de Culto e como Senhor de uma Casa Estável, que é a Igreja (2Tm3:15, 1Pe2:9). Em certa medida, a Nova Aliança também é “condicional”; contudo, as condições da aprovação divina são aquelas que se cumpriram no Senhor Jesus Cristo, que Ele sustentou integralmente para nos oferecer uma posição inarredável na família de Deus. Enquanto Israel, na antiga aliança, falhou com sua parte, dando lugar à Nova Aliança quando cometeu o pecado imperdoável e rejeitou definitivamente o Filho de Deus. 1


4- A ERA DA PROFECIA “Naqueles dias a palavra do Senhor era mui rara; as visões não eram frequentes”. De fato, houve poucas ocasiões em que Deus suscitou um Porta Voz para Si, até ali. Vimos que Abraão foi o primeiro a receber este título. Jacó, por sua vez, foi notavelmente o maior profeta da primeira era da história humana, por meio dele o Senhor Deus falou muito de Jesus Cristo. Após, Moisés, mas depois de Moisés, exceto duas ocasiões no tempo dos Juízes, Débora (cap. 5) e um Anônimo (cap. 6), “a palavra do Senhor era mui rara”. E um que julgou Eli e sua família, logo antes. Por isso dizemos que foi Samuel quem inaugurou a era profética do Antigo Testamento, especialmente porque deu especial atenção ao registro de parte de suas profecias. A vocação de Samuel combinava o ofício Profético com o Sacerdócio, o que faz dele uma eminente figura, ou tipo, de Cristo no AT. Foi inicialmente difícil para Samuel reconhecer o que estava se passando ali, mas depois ele se afinou grandemente com o Senhor. Em 3:1 começa uma linha ininterrupta de profetismo que se concluiu em João, o Batista, e sobretudo em Nosso Salvador. O ministério profético como vemos no Antigo Testamento findou-se, e na era da graça a comunicação divina se dá por meio do Salvador. Hebreus 1:1-3 “Havendo Deus, outrora, falando muitas vezes e de muitas maneiras aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o Universo.” Quando Paulo instruiu os crentes em Corinto a buscarem profetizar, nada havia ali do profetismo do Antigo Testamento, mas sim em saber interpretar a Escritura Sagrada adequadamente para ser um pregador do Evangelho. Para justiça, devemos mencionar que Paulo e Ágabo (Atos 11 e 20) foram pontualmente usados por Deus nos modelos do Antigo Testamento, mas é evidente que as epístolas (que instituem o padrão doutrinário e ministerial das igrejas) não apontam nenhuma razão para buscarmos profetismo em nosso meio. E é de suma importância mencionar que os profetas não eram PROGNOSTICADORES nem ADIVINHOS, mas sim representantes, emissários, núncios, de Deus, por quem falavam ao povo: “Assim diz o Senhor:”. Para nós é uma imensa tristeza ver que em muitas igrejas evangélicas há uma corruptela do ofício profético cujo alvo consiste em tomar decisões pelas pessoas, ou de maneira muito supersticiosa e quase pagã, dar orientações que seriam melhor dirigidas se pelos grandes princípios norteadores que encontramos na Escritura Sagrada. Foram os profetas aqueles homens que Deus usou para por meio deles nos dar Sua Escritura Sagrada; hoje nós a temos completa. Haverá necessidade de profetas? Haverá algo que Deus ainda não tenha revelado em Seu Filho? Será que de fato Deus “envia recados” por meio de indivíduos? Afirmamos sem qualquer reserva que não. Práticas espúrias no meio do povo de Deus devem ser expugnadas.


5- OS FILISTEUS VENCEM E LEVAM A ARCA: “ICABÔ” O dia em que o menino Icabô nasceu foi um dos mais trágicos e históricos das páginas do Antigo Testamento. Num só dia: i. ii. iii. iv. v. vi. vii. viii.

O povo sofreu uma amarga derrota de parte dos Filisteus. Sem se arrepender nem buscar o Senhor, mandaram vir a Arca. Os filisteus confessam o vazio de sua religião, mas se animam. Os filisteus venceram novamente o povo de Israel. Os filisteus capturam a Arca da Aliança como espólio. Morrem Hofni e Fineias, corruptos e corruptores. Morre Eli, o Sumo-Sacerdote. Ao ouvir tudo isso, a mulher de Fineias dá à luz precocemente e chama o menino de “ICABÔ”: foi-se a glória de Israel. (No Hebraico, “Icavod” significa “nenhuma glória”).

A palavra do profeta se cumpriu e a família de Eli foi desterrada da posição de honra que antes ocupava. O povo que tinha tratado das coisas de Deus com leviandade e superstição foi julgado como sinal claro de que objetos sem sinceridade e arrependimento verdadeiro não serão instrumento do Senhor Todo-Poderoso. Enquanto isso, porém, a Bíblia nos mostra como a Arca se tornou um problema na terra dos filisteus: i.

À Cidade de Asdode levaram a Arca de Deus. Porém Deus parecia obstinado em expor a vergonha do ídolo e a veracidade do Seu poder. É impressionante que isto não tenha levado os idólatras a se converter!

ii.

Uma infestação de ratos (6:4,5) e feridas doentias (5:9,12; 6:4,5) enviadas da parte do Altíssimo, se tornaram um tormento insuportável durante sete meses (6:1) que a arca esteve com os filisteus.

iii.

A religião da Filístia, uma mistura de ídolos com feitiçaria e sincretismo, tomou sua chance na situação, em mais uma grande confissão: 6:3-8. E ainda que tomassem como realidade o agir do Senhor para com os egípcios, mesmo assim insistem em suas tolices, 6:9, considerando que podia ser só mero acaso.

INFORMAÇÃO IMPORTANTE: Quem eram os Filisteus? Um povo canaanita, de origem fenícia, que construíram uma pequena federação na costa de Israel, entre Judá e o deserto de Sinai. Dos fenícios trouxeram a metalurgia (13:19) e sua economia local era baseada na pesca. Seu estado era federativo: havia cinco cidades (6:17): Asdode, Asquelom, Ecrom, Gate e Gaza, cada uma com seu príncipe e os cinco príncipes dividiam o poder e tomavam decisões em conselho. Foram um inimigo permanente dos Israelitas desde que se instalaram na terra no tempo dos juízes, contidos durante o tempo de Davi e Salomão, mas que permaneceram na terra até o tempo dos gregos.


6- ARREPENDIMENTO E AJUDA DO CÉU: “EBENÉZER” Pensaríamos que a ruidosa, flagrante, derrota para os filisteus seria o suficiente para que os Israelitas deixassem de “usar” e “abusar” do seu Grande Deus, mas não. Os filisteus mandaram um carro com a Arca e sua oferta de culpa (6:9-20), sem condutor, e a mão de Deus conduziu o objeto de volta ao território de seu povo. O povo tinha fixado na Arca da Aliança uma objetificação idólatra, por isso se alegram ao ver a Arca, sem se lembrar “da Aliança”. Prestaram sacrifício ali mesmo sem a presença de um sacerdote levita, e, ainda mais do que isso, 6:19: “Feri o Senhor os homens de Bete-Semes, porque olharam para dentro da Arca do Senhor, sim, feriu deles setenta homens; então o povo chorou, porquanto o Senhor fizera tão grande morticínio entre eles.” Por infantil curiosidade, talvez movida pelo combustível da incredulidade, se deram o direito de abrir a Arca, onde estavam as segundas tábuas da lei, um gômer de Maná e a vara de Arão que floresceu (Hebreus 9:4). Nosso Deus não aceita que as coisas santas sejam tidas como brinquedos de entretenimento, fulminantemente os julgou ali mesmo. O povo, então, chorou; antes, enquanto pecava, ria. E disseram: “Quem poderia estar perante o Senhor, este Deus santo?” – a compreensão da santidade e da soberania do Eterno Deus, o começo do verdadeiro arrependimento. Contudo, ainda levou vinte anos (7:2) para que a nação em sua dimensão mais ampla se arrependesse, anos durante os quais estavam sob alguma forma de opressão filisteia. Lembremo-nos que Samuel e Sansão foram contemporâneos em alguma medida de tempo. Passado este tempo longo, o povo “dirigia lamentações ao Senhor” (7:2) e Deus envia Seu profeta, Samuel, para julgar o povo (7:6), chamando-os: “Se é de todo o coração que voltais ao Senhor, tirai dentre vós os deuses estranhos e os astarotes, e preparai o coração ao Senhor e servi a Ele só, e Ele vos livrará das mãos dos filisteus.” O povo se purificou e se congregou em Mispa. Ali mesmo os filisteus queriam atacar, mas “enquanto Samuel oferecia o holocausto, os filisteus chegaram à peleja contra Israel; mas trovejou o Senhor daquele dia sobre os filisteus, e os aterrou de tal modo que foram derrotados diante dos filhos de Israel.” (7:10) Tão grande foi a vitória que Samuel erigiu uma Pedra, um monumento memorial, ao qual chamou Ebenézer (hebraico: “eben”: pedra + “ézer”: ajuda; “pedra da ajuda”) para que ninguém se esquecesse da grande e valorosa intervenção de Deus. Nós, cristãos, temos nossos memoriais, sobretudo a Ceia do Senhor, em que nos lembramos da ajuda e da valorosa intervenção de Deus em nosso favor.


7- O JUIZADO DE SAMUEL A simultaneidade dos acontecimentos nos dá a entender que Samuel e Sansão estavam em atividade nos mesmos dias. Ambas vitórias trouxeram um resultado que nenhum dos juízes conseguiria imaginar, senão pela fé: “Assim, os filisteus foram abatidos e nunca mais vieram ao território de Israel, porquanto foi a mão do Senhor contra eles todos os dias de Samuel. As cidades que os filisteus haviam tomado a Israel foram-lhe restituídas, desde Ecrom até Gate; e até os territórios delas arrebatou Israel das mãos dos filisteus. E houve paz entre Israel e os amorreus.” Samuel, assim como os demais juízes, inaugurou seu juizado com uma grande vitória militar, acima de toda a expectação e que somente poderia ser sinal da mão de Deus sobre ele. Foi um juiz zeloso, que viveu até aos 89 anos, durante toda a sua vida servindo no Tabernáculo e indo no meio do povo a julgar, isto é, ensinar o caminho do Senhor. Foi um período de paz, unidade, tranquilidade e prosperidade. 8- “TENDO SAMUEL ENVELHECIDO” Capítulo 8:1 nos introduz aos acontecimentos algum tempo depois, ficando dito somente que os anos entre a ascensão e a deposição (ou resignação) de Samuel foram anos de paz e tranquilidade. O gatilho do fim da era do governo de Samuel foi a conduta de seus filhos, triste e exatamente assim como Eli, antes dele. Porém o agir do povo foi desproporcional e de consequências imensas na história: quiseram um rei. Samuel se sentiu rejeitado pelo povo, por essa razão Deus lhe afirmou: “Atende a voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a Mim, para eu não reinar sobre ele.” (8:7) Qual era o regime de governo do povo de Deus? Não eram um reino, nem um império, nem tampouco uma federação ou domínio. Eram a única verdadeira Teocracia do mundo!2 É lamentável a forma como, até hoje, no meio do povo de Deus existe um ímpeto de sacrificar nossos distintivos em troca da pobreza e sujeira do mundo. Que não seja assim conosco! Foi apresentado ao povo as consequências tremendas e impactantes de sua escolha (8:9-18), “porém o povo não atendeu à voz de Samuel e disse: Não! Mas teremos um rei sobre nós, para que sejamos também como todas as nações.” Quão lamentável que o povo tenha desejado perder sua exclusividade! Assim terminaram os dias dos juízes. Samuel ainda interagiu longamente com Saul e com Davi, como veremos nos próximos estudos. Mas aqui o povo rompeu um dos elementos da Aliança e mergulhou de cabeça na próxima, e em grande parte trágica, Era da sua história.

2

Se houve outras teocracias, não eram genuínas, pois o povo de Deus do Antigo Testamento era Israel. Sacerdotes governando nada mais são do que uma aristocracia. A única genuína Teocracia que existiu foi o Povo de Israel até a escolha de Saul.

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A Vida de Samuel - Panorama Bíblico  

A vida de Samuel, estudo bíblico trazido à Igreja Batista Bela Vista-BH. Acesse: www.belavista.org.br | Redes Sociais: @IBBVBH Rua Gardêni...

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