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Esta revista faz parte da edição nº 2848 de 28 março de 2019 do Jornal da Marinha Grande e não pode ser vendida separadamente

MARINHA GRANDE

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

POENTE

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gabinete imagem e comunicação

março 2019

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REPRESENTAÇÕES DA LUSOFONIA Editorial

Dando con nuidade ao nosso projeto editorial que pretende contribuir para a construção da Interculturalidade, dedicamos esta edição à cultura dos países que falam a língua portuguesa, em par cular daqueles de que são oriundos alunos (e também professores) das escolas do Agrupamento Poente. Pensado inicialmente como uma edição dedicada ao Brasil, por ser o país de origem do maior número de alunos de países terceiros nas nossas escolas (30), este número do P&V foi-se transformando num projeto maior, abarcando também representações, plasmadas em textos e imagens, de Angola, Moçambique e GuinéBissau. Pela sua abrangência cultural, esta edição é também a que reúne o maior número de colaboradores, para além dos nossos jornalistas “residentes”. Acolhemos, com enorme sa sfação, as colaborações do João Pedro Thomaszeck (Brasil), Adelina Fadul (Guiné Bissau), Leonor Neto e Débora Francisco

culturais, que atravessam os textos, tornam esta edição do P&V um instrumento de valorização da interculturalidade e do património linguís co português. É justo referir também as professoras, que honrando os seus compromissos, nos fizeram chegar textos em que as vidas no mundo da lusofonia são contadas através de uma ghost writer, ou vidas de outros mundos distantes que têm de se reconstruir noutro espaço e noutra língua. Um destaque especial para a reflexão sobre aquilo que nos une – a língua – num texto magnífico de Jorge Alves, muito apropriadamente tulado Talvez D'acordo. E porque o P&V é um jornal, não faltam as no cias sobre o que de mais relevante se passou nas escolas do Agrupamento Poente, nos meses de fevereiro e março: Prémios Calazans, Erasmus, visitas de estudo, desfile de carnaval, ciência, palestras, uma aula especial e… muito mais. Folheie o jornal e vai ver que vale a pena… ler.

(Portugal), cujos textos enriquecem a edição e dos quais todos/todas podem orgulhar-se. Este foi talvez o projeto editorial mais ambicioso de Interculturalidade. Revisitar, através da memória, os países onde nasceram e viveram parte das suas vidas, é uma viagem que se faz também de saudade (essa palavra tão portuguesa!) e é preciso encontrar as palavras certas para dizer o que se recorda o que se sente, de forma a fazer ver e sen r os leitores. Esse é o árduo exercício de quem escreve para ser lido.Mas não é menos di cil ter de sair da zona de conforto, daquilo que conhecemos, e mergulhar na pesquisa sobre o que desconhecemos desses países que, falando a nossa língua, ainda estão tão distantes. É importante, por isso, escrever todos os nomes das/dos que, com sacri cio do seu lazer, dedicaram horas à pesquisa e a transformaram em informação para um jornal: Sofia Puglielli, Beatriz Menino, David Carreira, Inês Duque, Tomás Vicente e Diogo Heleno. Histórias de vida, abordagens da literatura, da música, da dança e outras vertentes históricas e

XIV EDIÇÃO DOS PRÉMIOS CALAZANS DIGNIFICA MULHERES E HOMENS P&V

Auditório cheio na XIV edição dos Prémios Calazans, que decorreu no passado dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Coincidência na data, mas não no guião da noite, que foi pensado especificamente para ela, por Emanuel Jacinto, professor de Expressão Dramá ca, que dirige também a Companhia de Teatro CalaBoca. Foram mais de cem os alunos premiados nas seis categorias de mérito - Académico, Ar s co, Cívico e de Cidadania, Cien fico, Desporto, Literário e Empenho – pelo seu desempenho e resultados alcançados no ano le vo 2017/18.

discurso do diretor Cesário Silva, que, sem esquecer ninguém nos agradecimentos, deu enfoque aos professores: “ daqui a uns anos, Portugal precisará de professores e não os terá, por não termos inves do seriamente na educação. Tiro o meu chapéu aos professores”. Houve também a entrega da Bolsa de Mérito, às alunas Beatriz Roque Oliveira e Marina Pereira, uma inicia va da Associação de An gos Alunos, prémio que homenageou, este ano, o Mestre Manuel Alves. Todo o espetáculo, dos discursos e entrega dos Prémios aos momentos de cultura e entretenimento, foi apresentado pela Inês

Sendo rigorosa e justa, há que escrever a frase no feminino, porque o número de mulheres chamadas ao palco foi sensivelmente o dobro dos homens, entre alunas, diretoras de turma, atrizes e performers em geral. O mesmo pode dizer-se do auditório, maioritariamente feminino. Mesmo sendo a noite de 8 de março, muitas mulheres dispensaram os gestos, no mínimo duvidosos, da “toma lá uma flor e vamos jantar fora” e quiseram estar presentes numa cerimónia que significa tanto para elas como para as suas filhas e filhos: um percurso escolar e de cidadania bem sucedidos. Mantendo a tradição dos Prémios, houve o

Coordenador: José Nobre

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Redação Residentes: Alice Marques, Alda Santos, Adelina Fadul, Adriana Simões, Beatriz Menino, Carla Panta, David Carreira, Débora Francisco, Diogo Heleno Inês Duque, José d’Encarnação, Leonor Neto, Tomás Vicente e e Sofia Puglielli.

março 2019

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

MARINHA GRANDE

POENTE

Redação: Armando Severino, Carina Cardoso, Cármen Santarém, Fá ma Roque João Thomaszeck e Jorge Carreira Alves Impressão: Gráfica Diário do Minho

e Sofia Puglieeli.

Tiragem: 4000 exemplares

Produção gráfica: gabineteimagem eseacd

Coordenação:

gabinete imagem e comunicação


Aleixo, Rafael Almeida e Duarte Quitério (Duda), com elevado grau de profissionalismo. Estes momentos focaram-se no tema per nente das relações de género, desde o sketch inicial (com Duda, Catarina Luís e Joana Rodrigues), que abordou com humor os papéis conservadores de homem e mulher na relação conjugal, ao quadro (desempenhado por Joaquim Heleno e Ma lde Tarento), de mulher culta e marido tosco, a fazer lembrar a sitcom Nelo e Idália, de Herman José e Maria Ruef. Não faltou uma “curta” sobre a violência domés ca, realizada pelo professor José Nobre com a par cipação de

alunos de Mul média. E se a dança dispensou os homens (uma situação que marca, desde que há registo, as dis nções de género), permi ndo a Beatriz Menino e Catarina Brito brilharem no palco, houve um homem que, com palavras, prendeu todas as atenções: Tomás Vicente, com Fado Falado. Dificilmente se encontra alguém, homem ou mulher, que, com apenas 15 anos, demonstre tamanha expressividade como diseur! Adelina Fadul surpreendeu o público com um cover de uma canção chinesa, cantada na língua

original – o mandarim- evidenciando não só caraterís cas vocais e interpreta vas notáveis, mas também o sucesso na aprendizagem desta língua. Catarina Brito e Beatriz Menino es veram no seu melhor no úl mo sketch da noite e Catarina Luís encerrou a festa, homenageando a mulher, Simone de Oliveira, cantando e pondo o púbico a cantar a Desfolhada. João Carvalho e Jorge Soares asseguraram as condições técnicas (iluminação e sonoplas a) do espetáculo.


UM DIRETOR OTIMISTA A CONFIANTE Alice Marques |Entrevista a Cesário Silva Os finais de período le vo são sempre momentos de fazer balanços, refle r e projetar alterações para melhorar resultados. É esse o propósito desta entrevista ao diretor do Agrupamento. Projetos consolidados, inovações decorrentes dos norma vos e … novos projetos na forja revelam um diretor o mista e confiante. Alice Marques - Estamos no final do 3º semestre do PIPPe… comecemos pelos números: quantas turmas estão envolvidas? Cesário Silva – Todas as turmas do 2º ciclo (16) e toda a escola da Fonte Santa. E este ano, também, todas as turmas do 1º e 2º ano estão a funcionar em semestres. AM - Como é que as escolas aderiram a essa organização por semestre? CS- Foi o resultado da reflexão sobre as prá cas na Fonte Santa e a avaliação feita nos focus grupo, que encorajou a avançar para isso. Todos os envolvidos reconhecem vantagens na avaliação por semestre: mais tempo para iden ficar e recuperar as dificuldades, menos pressão. Percebemos que esta forma de organização, juntamente com os instrumentos de avaliação está a mudar o paradigma. AM- Que temas estão a ser tratados na Oficina de Projeto? CS- A água que nos move; De olho na floresta, Ambiente + e Património local, no 5º e 6º ano. No 7ºano, os próprios alunos estão envolvidos na construção dos projetos, na área do voluntariado, questões de prevenção de riscos e preservação do ambiente.

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AM – Esses projetos estão ar culados com Cidadania e Desenvolvimento? CS–Não só com Cidadania e Desenvolvimento, mas também com o currículo de várias disciplinas e o perfil à saída da escolaridade obrigatória. AM – Em que alterações se traduziram, na prá ca, os decretos 54 e 55? CS- O 55 deu mais autonomia às escolas na organização e gestão pedagógica do currículo não que nós precisássemos, porque como escola PIPP já temos essa autonomia -, permi u a organização de equipas educa vas que trabalham com várias turmas, quebrando o caráter está co do conselho de turma… O 54 traz várias alterações: durante 2 décadas houve um mecanismo referenciador, muito assente em caraterís cas do foro clínico, e o 54, ao colocar o foco na Educação Inclusiva, considera e respeita a heterogeneidade (todos diferentes) par ndo do pressuposto que todos aprendem (todos iguais) desde que tenhamos medidas estratégicas de inclusão que garantam que todos cheguem o mais longe possível, carreguem a sua mochila de conhecimentos/competências. AM – Recentemente houve reuniões das 7 escolas/agrupamentos com PIPP e os responsáveis do ME. Que balanço saiu desses encontros? CS – Podemos elencar: concluímos que estamos de facto a diversificar estratégias, com base na centralidade do aluno e na certeza de que cada um aprende de forma diferente. E, se na prá ca pedagógica fazemos diferenciação, temos de diversificar também a avaliação, adequando os instrumentos à heterogeneidade dos alunos… AM- Prevê-se a con nuação deste projeto? E a disseminação? CS- Sabemos que este grupo de escolas vai

prosseguir com o PIPP. E está na forja um despacho que permi rá às escolas, já no próximo ano, contratualizar experiências de inovação pedagógica. O ano le vo por semestres será uma possibilidade. Serão as escolas a decidir. AM – Quais são as áreas de inovação em que precisamos de inves r? CS–Reforçar o domínio dos projetos, em ar culação com as aprendizagens essenciais das várias disciplinas e a ligação com o tecido económico empresarial da região, e reforçar o modelo de avaliação ao serviço das aprendizagens. AM – A rece vidade dos professores a estas inovações tem aumentado? CS – Sem dúvida. O facto de haver cada vez mais professores envolvidos trouxe-lhes confiança no que estão a fazer. AM – Um projeto que passou ao lado dos profs deste Agrupamento é a geminação que a Calazans estás a construir com uma escola da China. Como é que surge este projeto e em que ponto está? CS – O protocolo decorre do facto de sermos uma das 11 escolas do país com Mandarim na sua oferta forma va. Estamos a construir o projeto com a Escola Ilha Verde de Macau… AM – É o obje vo da tua deslocação à China? CS – Sim, os diretores de 7 escolas/Agrupamentos foram convidados a deslocar-se à China nesse âmbito. O Ins tuto Confúcio é parceiro deste projeto, que é também apadrinhado pela Delegação Económica e Comercial de Macau. AM – A equipa do P&V (e certamente toda a comunidade escolar) deseja boa viagem ao diretor.


APRENDER EXPERIMENTANDO

Carina Cardoso

Aprender experimentando é uma a vidade integrada no projeto Clube de Ciência e que visa complementar os conhecimentos adquiridos pelos alunos do 1°ciclo, em Estudo do Meio, com a realização de a vidades experimentais. Assim, os alunos seguem um protocolo experimental e realizam as etapas inerentes a um processo de descoberta no âmbito das ciências. Ao longo do 1° e 2º período foram realizadas,pelas turmas do 4º ano e 1 do 3º, da Escola Guilherme Stephens, as seguintes a vidades: observação de células ao

microscópio ó co composto, observação de coração e pulmões de mamíferos, a garrafa fumadora, a resistência dos ossos e observação virtual do corpo humano com a aplicação virtuali-tee. Uma das experiências bem interessantes procurava uma resposta à pergunta: Há micróbios nas nossas mãos? Cumprindo os procedimentos cien ficos, observação dos resultados e relatório, a experiência foi mais longe: incluiu a aprendizagem de como lavar corretamente as mãos, o que envolveu a par cipação da turma do Curso Profissional de Técnico de Massagem de Esté ca e Bem-Estar.

DESFILE DOS HERÓIS DA FRUTA P&V

Nunca o auditório ao ar livre do Jardim das Artes da Calazans Duarte teve tão dis nto público como na manhã de 1 de março. Neste caso, as dezenas de crianças foram ao mesmo tempo público e atores/atrizes. A pequenada da escola de Casal de Malta, fez do desfile de Carnaval uma autên ca salada de frutas andante. Dezenas de miúdos e miúdas das turmas desta escola do Agrupamento, acompanhados pelas

educadoras, desfilaram nos espaços amplos da escola sede e posaram para a fotografia no Jardim das Artes. Os fatos, totalmente feitos em materiais reciclados, confecionados pelas educadoras, meninos e famílias, são um excelente exemplo do que se pode fazer com o suposto lixo. E são também um exemplo de trabalho de equipa e envolvimento da comunidade em projetos escolares.

GANHAMOS VISIBILIDADE P&V

Inês Duque e Anastasia Khimich es veram presentes na entrega dos prémios Comunicação Pela diversidade Cultural, que decorreu no dia 28 de fevereiro, no Grémio Literário em Lisboa. O concurso, referente aos trabalhos publicados em 2018, incluía a categoria Prémio Jovem, e foi nesta categoria que concorreram 6 dos nossos “residentes” do P&V. Não ganharam prémios nem menções honrosas,

mas ganhamos visibilidade. No painel de apresentação estavam três páginas do P&V, uma de cada edição que no ano passado dedicamos à Interculturalidade.

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HIGIENE ORAL NA ESCOLA! P&V

Os alunos da Escola Básica do 1.º ciclo de Casal de Malta candidataram-se ao Concurso Sobe Mais, em parceria com o Projeto Heróis da Fruta, tendo ganho kits para todos. A enfermeira Dina Pascoal, do Centro de Saúde da Marinha Grande, disponibilizou-se para colaborar na sensibilização e formação dos alunos, no âmbito da higiene oral. Apesar das dificuldades na operacionalização desta tarefa, devido à dimensão da escola, as profissionais aceitaram o desafio: os alunos passaram a lavar os dentes após o almoço!

Alunos da Calazans apurados

OLIMPÍADAS DE FÍSICA E QUÍMICA + Armando Severino|No cias

Nos 25 e 27de fevereiro de 2019, nos laboratórios de Física e Química da nossa escola, cerca de 40 alunos do ensino secundário realizaram as provas teóricas que permi ram selecionar os três alunos que representarão a nossa escola, na fase regional das olimpíadas de Física (escalão B – a nível individual), que decorrerá na Universidade de Coimbra no dia 4 de maio, e a equipa de três alunos que par cipou na fase regional das olimpíadas de Química +, que decorreu no dia 9 de março na Faculdade de Ciências da U. de Lisboa. Os alunos selecionados foram: para a fase

regional das olimpíadas de Química +, Beatriz Menino (11º C), Mafalda Sofia Pires (11º B) e Lara Filipa Pereira (11º C), e para as olimpíadas de Física, escalão B, DiogoHeleno (11º B), Mafalda Sofia Pires (11º B) e Iara Botas (11º C). Os principais obje vos destas olimpíadas con nuam a ser: dinamizar o estudo e ensino da Física e da Química nas nossas escolas; proporcionar a aproximação entre as Escolas e as Universidades e Ins tutos Superiores; despertar o interesse pela Física e Química e ca var vocações para carreiras cien ficotecnológicas entre os estudantes. O nível de conhecimentos requeridos para realizar estas provas foram as metas curriculares

de Física e Química dos 10.º e 11.º anos de escolaridade, envolvendo por parte dos alunos algum esforço e dedicação durante a fase da sua realização.

PREVENIR É O MELHOR REMÉDIO P&V

Nos dias 12 e 13 de fevereiro decorreram na escola Calazans Duarte duas palestras sobre a Violência Domés ca e no Namoro, des nadas a alunos/alunas do 9º ano. Margarida e Ana, agentes PSP do Programa Escola Segura, contaram aos jovens histórias - exemplos deste flagelo e deixaram muitas recomendações sobre

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como agir em caso de serem eles/elas ví mas de violência ou, na qualidade de cidadãs/cidadãos, denunciar situações que a lei classifica como crime público. A prevenção da violência é uma aposta pedagógica que há vários anos vem sendo levado a cabo em Portugal. Várias ins tuições estão mobilizadas para este trabalho, onde

muito tem de con nuar a fazer-se, a avaliar pelos números que a comunicação social divulgou e debateu durante o mês de fevereiro. O Agrupamento Poente tem acolhido diversas inicia vas do Programa Nacional de Prevenção e Combate à violência no Namoro, levando a cabo palestras para sensibilizar e prevenir a violência nas relações interpessoais.


AGRUPAMENTO POENTE NO VI ENCONTRO REEI P&V

O Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente voltou a par cipar no encontro da Rede de Escolas para a Educação Intercultural (REEI). O VI Encontro decorreu no dia 13 de Fevereiro, no Orfeão de Leiria, (que também integra a REEI) no qual o AEMGP se fez representar pelo diretor, Cesário Silva, pelo coordenador da Educação para a Cidadania,Emídio Fernando, pela professora Graça Sapinho, membro da equipa, e Alice Marques, coordenadora do

projeto. À semelhança dos Encontros anteriores, ao longo do dia, os par cipantes foram desafiados a refle r sobre conceitos e prá cas relacionadas com a construção da Interculturalidade. As metodologias u lizadas incluíram curtas exposições teóricas, trabalho de grupo e rodízio pedagógico, a par r dos quais emergia a reflexão sobre conceitos e praxis pedagógica. A equipa dinamizadora destes Encontros integra elementos da Direção Geral de Educação, do Alto Comissariado para as Migrações e da Fundação Aga Khan.

KARL MARX VEIO À CALAZANS DUARTE Alice Marques

Pela voz de João Frazão, dirigente do Par do Comunista Português, as principais ideias de Karl Marx fizeram-se ouvir no auditório da Calazans Duarte, no dia 6 de fevereiro. A palestra, organizada pelos professores da História, integra-se no II Centenário do Nascimento de Karl Marx, que o PCP tem vindo a comemorar desde 2018, com diversas inicia vas por todo o país. João Frazão trouxe ao auditório uma “visão do Par do”, como fez questão de anunciar, sobre a interpretação da história e as propostas poli coideológicas de Marx. Centrada naquilo que no pensamento marxista con nua tão atual como quando foi escrito, há quase dois séculos, a palestra fundamentou totalmente a necessidade de con nuar a reler Marx, pensar Marx, pensar como Marx, na sua proposta fundamental: Transformar o Mundo! Mais valia, exploração do trabalho, luta de classes, conceitos que Marx não inventou, mas

que foram as suas ferramentas conceptuais para interpretar o mundo e propor a intervenção dos operários na transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista/ comunista, foram explicadas no contexto de há 200 anos e João Frazão demonstrou porque con nuam atuais, com exemplos irrefutáveis. As atuais desigualdades sociais, o enriquecimento dos capitalistas, os salários que quase não chegam para sobreviver, a forma como a tecnologia, ao potenciar o aumento da produ vidade, “aumenta a exploração dos trabalhadores e não o contrário, como muitos pensam”, como clarificou o dirigente comunista, foram explicitadas com obje vidade, com os conceitos de Marx, sem juízos moralistas e sem falsa ideologia. Uma lição de marxismo, a lição possível em pouco mais de 60 minutos, que completa, ou melhor, colmata a falta de abordagem séria que os manuais de história fazem do papel do marxismo na história do mundo: menos de ¼ de página nos manuais do 8º ano, quase 1 página nos do 11º. Expostas as ideias, vários jovens colocaram questões ao dirigente comunista, visando essencialmente os momentos históricos em que as ideias foram postas em prá ca, desafiando João Frazão a jus ficar a violência das revoluções e regimes comunistas. Sem negar os “erros” e sem branquear os regimes comunistas, o dirigente do PCP procurou sobretudo que os jovens olhassem para a atualidade e refle ssem sobre “a irracionalidade dum sistema

económico em que 26 pessoas no mundo têm tanta riqueza como metade da população do planeta e que destrói produções de alimentos enquanto milhões de seres humanos passam fome. E isso prova que o capitalismo não pode ser o fim da história.” As ideias mestras do pensamento marxista e do seu papel transformador puderam também ser lidas, durante vários dias, nos cartazes da exposição patente no átrio em frente ao auditório: II centenário do nascimento de Karl Marx. Legado; Intervenção; Luta. Transformar o Mundo.


“LEVANTEM-SE! LEVANTEM-SE, MULHERES!” Alice Marques

O grito da heroína Qiu Jin, a primeira revolucionária dos direitos das mulheres na China, que pagou com a vida a ousadia de lutar contra as tradições e pela igualdade, foi um dos pontos de par da para esta excecional aula intercultural na turma do 9º E, na terça feira, 12 de março. Tal como já acontecera com a aula sobre a par cipação da China na Primeira Guerra, Graça Sapinho, professora de história, em parceria com ChenChen, professora de mandarim, na rubrica Sabias que…? transformou a presença de um aluno chinês na turma no pretexto para enriquecer o programa de história, tratando a questão dos direitos das mulheres duma forma incomparável, que vale muito mais do que cem palestras professorais. Par ndo de 8 questões, claras e obje vas, que trabalhou com os alunos, fez com eles um percurso pelas lutas das mulheres no mundo, nos úl mos cem anos, pela igualdade de direitos, contra a subalternização e submissão, em suma, contra o patriarcado machista que, por todo o mundo, durante milhares de anos, as tornou invisíveis ou ví mas. A exposição, breve, mas rigorosa, de factos históricos, a interação con nua com os alunos, o uso do telemóvel por todos os alunos, para conferir datas e nomes, a exibição de trailers de filmes chineses sobre a luta das mulheres e um documentário sobre uma das mais arrepiantes prá cas tradicionais chinesas – os pés de lótus – informaram e emocionaramo auditório até às

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lágrimas. Graça Sapinho, no rescaldo de mais esta jornada de luta pelo enriquecimento do programa de história, pela formação de cidadãos globais, não apenas de nome, mas que de facto consigam ver para além do seu umbigo, disse ao P&V: “Esta foi uma sessão intensa e forte na mensagem, mexendo com a nossa sensibilidade e a de muitos alunos. Projetei uma aula para mexer com as consciências e para realçar a per nência de con nuar a lutar pelos direitos das mulheres até estes serem alcançados, fazendo uma viagem no tempo e à China, para perceber que já muito foi feito, mas que AINDA há muito para fazer”. O documentário sobre o mercado de casamentos na China, fundamenta esta afirmação. “No momento de confraternização, enquanto se bebia o chá, muitos vieram dizer-me que esta aula os marcou e mexeu com eles e que foi muito importante”, acrescentou. Aulas destas dão sa sfação e muito trabalho a preparar, como reconheceu a professora: “Para além do que muito aprendi com mais de 40h de trabalho (muito mais) nas pesquisas e par lha e debate de ideias com a ChenChen, ouvir isto no fim, deixou-me feliz e realizada por ter alcançado o obje vo a que me propus.” Por outro lado, acrescentou Graça Sapinho, “as alunas com necessidades especiais também pesquisaram como todos os outros e têm esse registo no caderno diário. O Jiafu pesquisou sobre a mulher em Portugal e na Europa e fez também um apanhado, mas como não quer falar (ainda tem imensa dificuldade com a língua portuguesa) não apresentou. Contudo,

aprendeu sobre Portugal, Europa e também sobre a própria China, havendo alturas em o vi chocado e emocionado. Nem ele nha consciência. Agora já tem.”


vidas da SAUDADES

Adelina Fadul|Vidas da Lusofonia

Cheguei à Portugal no dia 02 de maio de 2012. Desde esse dia, ainda não voltei ao meu país de origem, a Guiné-Bissau. Vim da Guiné ainda rela vamente nova, mas mesmo assim trouxe muitas lembranças comigo. Lembranças essas que hoje se transformaram em saudades…Saudades de tudo! Da comida, que embora a minha mãe prepare algumas em casa, não é o mesmo quando comparado com a que é feita com os alimentos de lá; dos amigos da escola; da vizinhança, com quem me diver a todos os dias com jogos (que por acaso eu vencia) como brincadeiras com bonecas, jogos de futebol e mini – corridas de velocidade; do tempo, aquele calor intenso que era uma boa desculpa para as idas à praia e para os sorvetes deliciosos; dos cheiros, principalmente do cheiro do chão que quando molhado libertava um cheiro di cil de explicar…era como que frescura. Este fenómeno dava-se quando o chão, depois de estar tão seco (devido ao sol) era molhado, pela chuva ou simplesmente porque alguém o molhou. Apesar de as saudades do que referi anteriormente serem enormes, maior é a saudade que tenho dos familiares que lá deixei. As lembranças mais presentes são dos dias em que à noite cantávamos todos juntos na sala de estar (por vezes fazíamos essas “cantadas” na varanda juntamente com vizinhos) e dos dias que passava em casa da minha avó de quem tenho saudades! Em casa da minha avó estavam alguns primos com quem brincava o dia todo! Foram tempos que nenhuma distância, seja ela qual for, irá apagar. Pois estão e sempre estarão

no meu coração. Quando soube que viria a Portugal fiquei feliz, por dois mo vos: por um lado, porque iria ver os meus pais depois de ter ficado longe deles por 3 anos; por outro, porque iria conhecer o país onde nasci. A chegada a Portugal teve um grande impacto em mim, principalmente na escola, dado que, em primeiro lugar, lá na Guiné, os livros eram pequenos e cá eles são enormes; segundo, a quan dade de matéria que nos era dada é completamente diferente da de Portugal. Mas não foi apenas a nível escolar que houve grandes diferenças, a nível climá co também, devido ao frio. Também, a nível de vizinhança reparei que havia muita diferença, nomeadamente na convivência, dado que na rua onde vivia não haviam muitas crianças com quem pudesse brincar, como acontecia na Guiné. A nível de sociedade, por um lado, reparei que cá, nomeadamente os jovens revelam um grande desrespeito para com os mais velhos, algo que dificilmente se encontra na Guiné. Lá, as crianças são, desde muito novinhas, instruídas a respeitar os adultos, devido ao facto de que estes viveram mais do que elas, e consequentemente, veram mais experiência de vida, na maioria dos casos. Na Guiné, vemos os mais velhos como sendo sábios e nós, os mais novos, como sendo os seus aprendizes. Apesar destas diferenças notórias, gosto de cá estar. Já fiz grandes amizades, as quais peço a Deus que perdurem. Porém, as saudades de casa já são muitas também.

DE MENINA DE COLÉGIO DE FREIRAS A “STORA DE FÍSICO-QUÍMICA» Alice Marques|Vidas da Lusofonia Ela percorreu a rota triangular atlân ca. Nascida em Angola, veio para Portugal com 14 anos, aqui fez escala e seguiu para o Brasil, 1 ano depois. Viveu no Rio de Janeiro, durante 4 anos, e os pais, que nem nham intenção de ficar no Brasil, um dia mandaram-na para Portugal, para se tornar engenheira ou doutora. Muitas peripécias depois, tornou-se a “stora” Helena Catarino.

Sentada aqui ao lado, teclando, preparando apresentações, lendo portefólios de RVCC, fui ouvindo fragmentos da história de vida da Helena, sempre que a de um formando bordeava as costas atlân cas e se tornava pretexto para um regresso de memória a África ou à América. Os pais foram para Angola na década de 50 do século passado e lá veram os seus descendentes. O pai, um dos 11 irmãos de uma

família do concelho de Vale de Cambra, foi um dos 3 que deixou a metrópole e foi para a maior província ultramarina de Portugal. Helena veio ao mundo em Malange, pelas mãos de uma parteira, mas as suas memórias são mais tardias. Lembra-se da povoação de Cacuso, a umas dezenas de kms da cidade, meia dúzia de casas de brancos, a loja do pai, a camioneta com que transportava algodão, a nespereira do quintal, os cães… Foi ba zada nas Cataratas ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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Duque de Bragança, no rio Kwanza, onde havia uma capela. Mas esta é uma memória que apenas está na fotografia, cinzenta, an ga! Helena dava-se com todos os miúdos, menos com brancos, que poucos havia lá na aldeia. Até lhe chamavam “bicho do mato”. Em Malange, Helena aprendeu a ser branca, no colégio de freiras, Nossa Senhora de Fá ma, onde estudou da primária ao 5º ano (equivalente ao 9º).Na metrópole, os capitães de abril traçavam o seu des no. Helena é das que podem dizer “I had a farm in África”. Mil cabeças de gado chegaram a ter na fazenda. E a sombra das mangueiras e do embondeiro. Os conflitos pré independência, entre a UNITA e o MPLA, aceleraram a sua história. Um dia, o pai decidiu mandar a família para Portugal, comprou passagens para ela, para o irmão e para mãe, mas ele, o Sr. Amaro Rodrigues não era homem para se assustar. “Ele era daqueles que achava que nunca teria de sair de Angola”, recorda Helena. Mas não foi assim que aconteceu. Um dia, o pai regressou da rua e anunciou: “Nós vamos embora”. Em poucos dias todos os brancos veram de deixar as suas casas e refugiar-se no quartel de Malange, enquanto se organizava a saída para uma cidade onde iriam apanhar um avião de regresso a Portugal. Os pais conseguiram encaixotar alguns bens de valor e fazê-los embarcar para Portugal, mas meses depois ainda a mãe de Helena ia a Lisboa esperar os contentores… que nunca chegaram,

ou chegaram e aqui foram roubados. Nunca se saberá! Helena lembra-se da caravana que atravessou a cidade a caminho do quartel onde ficariam duas semanas, das ruas destruídas, dos seus cães a “rondar a casa”. Depois saíram para Huambo, então Nova Lisboa, e aí foi o ponto de par da, “num avião russo”, pensa ela, para cruzar o Atlân co e iniciar em Portugal uma nova etapa da vida. A viver perto de Vale de Cambra, Helena foi estudar para Oliveira de Azeméis. Pouco tempo. O pai, que não era homem de se assustar nem acomodar, aguentou 2 meses em Portugal e par u para o Rio de Janeiro e para lá levou a família pouco tempo depois. Em pleno coração do Rio, ali perto da Praça Tiradentes, com vista para a Catedral de S. Sebas ão e para os Arcos da Lapa, com a praia do Flamengo a poucos minutos, ficava a casa e, do outro lado da rua a loja de roupas dos pais de Helena. Nos 4 anos que aqui viveu, Helena terminou o secundário com muito sucesso, embora no início o seu sotaque fosse notado e dela dissessem “olha a portuguesinha”, e só passassem a respeitá-la quando começou a ter excelentes notas. Fez o ves bular e entrou numa Universidade no Curso de Química Industrial. Mas os pais não nham intenção de envelhecer por lá e acabaram por mandar Helena de volta a Portugal, com uma família amiga, como quem viveu, meio ano, em Viseu. E os pais foram

ficando,ficando… até à reforma. Depois foi a saga da transferência, das equivalências, com os papeis de gabinete em gabinete, a demorarem uma eternidade, quando ainda não havia internet. Do Rio de Janeiro para o Porto, da Química Industrial para a Engenharia Química, depois para Química em Coimbra… sempre vários passos à frente dos papeis. Estávamos no ano de 1983/84 e Helena foi dar aulas em Vila Nova de Paiva. Gostou tanto que decidiu ser professora. Em 1984 foi ao Brasil e acordou com o pai voltar à Universidade e terminar o Curso de Química Via Ensino. O pai financiou-lhe este final de curso, com um “salário” bem superior ao de professora. De meados dos anos 80 a 2019 é um sal nho no tempo. Curso terminado, estágio na Avelar Brotero em Coimbra, um ano em Alenquer e, em 1988/89 torna-se efe va na Secundária da Marinha Grande, donde só saiu um ano para trabalhar nos Açores, onde o marido fazia serviço, na base das Lajes. Entre Coimbra e Marinha Grande aconteceu um casamento e nasceram 2 filhos, que, entretanto, já deixaram o ninho! Foram três décadas, em que não voltou a Angola nem voltou ao Brasil porque a vida tornou-se… provável. Mas as viagens de memória a estes países, à sua vida em rota triangular tornou-se história nesta edição do P&V que dedicamos aos países da Lusofonia!

SAUDADES DO MAR E DA MATAPA Alice Marques|Vidas da Lusofonia

Há mais de duas dezenas de anos a viver em Portugal, Florindo Germano Dias, Dinho, nome pelo qual os amigos o conhecem, sente-se “aportuguesado”. Da língua portuguesa de Moçambique ainda se lembra dalgumas (poucas) expressões, mas do acordo ortográfico da língua portuguesa nem ele nem a esmagadora maioria dos seus compatriotas alguma vez ouviram falar. Aos 39 anos, e depois de vários a sal tar entre as AEC e as subs tuições de professores, torna-se professor

de mul média na Calazans Duarte, onde se sente “em casa”. Nascido nos arredores de Quelimane, cidade ao lado do rio Bons Sinais, a 20 quilómetros do Oceano Índico, Florindo, filho de pai e mãe moçambicanos, tem herança gené ca vinda da Índia, através da sua avó materna. Criado sobretudo pela mãe, tal como o seu irmão gémeo, Elkin, mantem com ela uma relação marcada pelo respeito e gra dão. Foi sobretudo graças à insistência da mãe que fez duas licenciaturas relacionadas com os média:


Ciências da Informação e Mul média. “A mãe sempre nos incu u a consciência de que os estudos são a base do sucesso”, diz com convicção. “A menos que ganhes um euromilhões ou sejas um Cris ano Ronaldo”, acrescenta com humor. Por isso, depois de um curso de Computação Gráfica Tridimensional na EPAMG, que escolheu pelas saídas profissionais, podia e queria ir trabalhar. Mas a mãe não deixou. Obrigou os dois filhos a prosseguir os estudos. “Em boa hora o fez”, reconhece ele. Foi a escola como elevador social que lhe permi u, em criança, pertencer à classe média moçambicana. A mãe, sempre consciente disso, procurou para os seus meninos “uma escola melhor do que aquela que podiam ter em Moçambique”. Mais exigente e onde os professores reconhecessem o mérito e não apenas os me cais “com que os pais compravam as notas dos filhos”. Miséria e corrupção são as lembranças nega vas que lhe ocorrem quando o solicito a falar de Moçambique. “In mamente relacionadas”, na sua perspe va. Com um salário de 60 me cais, num país onde, nas cidades, “o custo de vida é equivalente ao de uma cidade portuguesa, as pessoas têm de encontrar ar manhas para sobreviver. É assim que se gera a corrupção em muitos grupos profissionais”. Mas há boas memórias que compensam este sabor amargo de “um país no qual o caminho para o desenvolvimento se faz muito lentamente”. “O forte sen mento de família, a amizade verdadeira e espontânea, o sen do de

vizinhança… tudo isso era mais autên co em Moçambique”, recorda. Em contrapar da, lembra-se de que quando chegou a Portugal, apreciou a preocupação dos professores para que os alunos aprendessem e o nível de exigência. Contudo fez-lhe “muita confusão a falta de boa educação dos miúdos, para com os professores e para com os pais. “E acho que ainda está pior agora, porque os pais não têm controlo sobre os filhos”, diz este professor moçambicano. Quando há duas décadas chegou a Portugal, com a mãe e o irmão, e foram viver em casa de uma a em Leiria, ainda sen u que era olhado com desconfiança, sobretudo quando começou a sair com miúdas. “Um negro namorar com uma branca, há 20 anos, ainda não era muito usual em Portugal. Mas isso mudou muito”, acrescenta com firmeza. Foi uma branca, Milene, que há 16 anos conquistou o seu coração negro. Estão juntos até hoje e têm um rebento, o Danny, com quase dois anos. Homem dos média, considera que a TV cabo e o acesso às dezenas, centenas, de canais que isso foi permi ndo, mudou a imagem do negro, sobretudo entre os jovens: “havia ideias muito retrógradas, que associavam o negro à impulsividade e violência, o que, durante muito tempo, foi fundamento do racismo, mas creio que hoje essa visão já não existe. Há dimensões da cultura africana que foram absorvidas pela cultura portuguesa, por exemplo na música, e isso contribuiu para ultrapassar o racismo, que ainda era uma realidade há vinte anos.”

Embora se sinta aportuguesado, Moçambique está-lhe no coração e já lá voltou 3 vezes, a úl ma em 2014, com a Milene. Ainda lhe dói a pobreza que con nua a encontrar, mas é sem preconceito e sem a tude poli camente correta que nos conta: “vamos ao mato, àquelas aldeias distantes, levamos roupa e guloseimas para as crianças. Ouço as histórias, dramá cas, e vejo a felicidade dos miúdos quando recebem um rebuçado ou uma peça de roupa. Eles têm tão pouco que qualquer coisa os deixa felizes”. Longe dele fazer uma espécie de apologia da pobreza. Mas dá como certo que “os moçambicanos não têm depressões, porque não têm ambições burguesas, basta-lhes ter para o dia a dia”. Saudades de Moçambique?! Não do clima, porque detesta calor, mas do mar quente, sim. E da matapa. Maningue!

SOBREVOANDO MARES, OCEANOS, RIOS, MONTANHAS, CIDADES… Alice Marques|Vidas da Lusofonia Cara morena, cabelo negro, penteado à mão, com gel, estatura média, magra, uma idade di cil de adivinhar, Graça Sapinho, professora de História, não passa despercebida. Chegada à Calazans Duarte há meia dúzia de meses, está como peixe na água. Mas quem é esta mulher que viajou por quase meia centena de países, de quatro con nentes, conheceu ruas de centenas de cidades, experimentou as águas calmas do Pacífico, as águas frias do Atlân co e as águas quentes do Índico, navegou em estreitos, golfos, rios e lagos, atravessou o deserto do Sara e aterrou aqui?! Das vidas trazidas a esta edição do P&V, dedicada à Lusofonia, a de Graça Sapinho é, de todas, a mais (im)provável. Nasceu em ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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Moçambique, na cidade da Beira e, com dias de vida, fez 1000 km no cesto da cegonha, até Vila de Sena, morada dos pais e irmãos. Naturais do Sabugal, para aqui nham emigrado, nos idos de 1968. O pai, Gonçalves Sapinho, hoje com 81 anos, reputado solicitador com gabinete em Leiria, e a mãe, Esmeralda, professora primária, como então se dizia, concorreram para a província ultramarina de Moçambique, que depois veio a ser chamada colónia e hoje é país independente, estado membro dos PALOP, e aí ficaram 7 anos. Ele foi administrador civil e ela professora. Graça é filha da história do colonialismo português. Viveu a sua primeira infância em Vila de Sena e Vila Pery, e é desta infância longínqua que conserva fragmentos de memórias, que aqui par lha com os leitores do P&V. Evoca-os aos solavancos, como quem percorre as picadas, de jeep, com os cipaios. Os seus olhos enchemse de brilho quando recorda a luminosidade de Vila de Sena, a natureza a perder de vista, as gazelas e os macacos, as brincadeiras na rua “com todos à mistura, moçambicanos, paquistaneses, indianos, portugueses...”. Depois, assoma-lhe à memória a vila, um hospital com maternidade, uma escola e um ringue de pa nagem mesmo ao lado, meia dúzia de mercearias, uma igreja católica, um mercado…E atravesso com ela a ponte ferroviária sobre o grande rio Zambeze, “a maior deste rio”, acentua! Ajudada pela memória do pai, descreve-me em pormenor o chapéu de safari e o de régulo, a cisterna, da qual, mesmo sendo um privilégio de administrador, Gonçalves Sapinho distribuía água a toda a população, as palhotas, as mulheres de capulana, balanceando ao ritmo do pilão moendo o grão, os seios descaídos, as crianças às costas. Graça saliva ao recordar o sabor das papaias, emociona-se com o fragmento evocado da “casa colonial” que agora gosta de comparar com a casa da fazenda de Karen em “África Minha”. Lá longe, a guerra, mas na sua memória não se ouvem ros. Com a aproximação do conflito, tornou-se prudente mudar. O pai concorreu e foi colocado em Vila Pery, e aqui se fixaram numa casa sua, essa mesma que pouco tempo depois viram ocupada pela FRELIMO. Quando deixaram África, “fizeram coisas mirabolantes para conseguir trazer algumas coisas para Portugal”, recorda Graça Sapinho e conta como desmancharam sofás para lá esconder dinheiro! “Não viemos de mãos a abanar. Compramos contentores, metemos lá coisas de valor. Até o carro conseguimos trazer”, diz Graça, fundindo a sua memória com a dos pais. Chegados a Lisboa, colaram-lhes o rótulo de retornados e o IARN ofereceu-lhes alojamento.

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Os pais recusaram. Após um escasso tempo no Sabugal, vieram para o distrito de Leiria. Viveram, de início, “numa casa sem condições” e essa, Graça já recorda com clareza. O pai foi dar aulas de francês em Mira d'Aire e a mãe na escola das Brancas. A vida recomeçou a melhorar. Compraram uma casa em Leiria, aquela em que vivem ainda hoje. Depois de montar e gerir, durante 2 anos, um self service, o pai conseguiu colocação num banco. E, aos 50 anos, foi fazer um curso de solicitador e… recomeçar outra vez! Graça, que viera de Moçambique com a 2ª classe, terminou a primária na escola das Brancas, fez o 5º e 6º ano na Batalha, o 7º nos Franciscanos, em Leiria, e do 8º ao 11º na escola da Gândara. No 12º ano, foi bolseira da Intercultura, então AFS, nos EUA, na vila de Perry, estado de Nova Iorque (há coincidências!). Génese do movimento mundial Intercultura, a AFS era um programa internacional de intercâmbio de estudantes, trazido para Leiria justamente pelos seus pais. E desde então, a sua vida e a interculturalidade tornaram-se ainda mais inseparáveis. Família de acolhimento vários anos, os Sapinho proporcionaram aos 3 filhos, “9 irmãos de longe”, e deixaram que os filhos fossem também irmãos de outros. O ano nos EUA foi alucinante. Depois de um fim de semana num Campus, com 2000 jovens do mundo inteiro, Graça foi integrada numa família, e “o coração disparou”. Teve 15 dias de adaptação, antes de iniciar a escola no 12º ano. “Eu não falava nada de Inglês, mas arranjei uma estratégia- colava post it's na parede do quarto, com todas as palavras que ia aprendendo”recorda, rindo! Em poucas semanas, já fazia parte do coro da escola, jogava ténis e soccer, pra cava ski, montava a cavalo…e par cipava em palestras! Teve ainda tempo de viajar pelo estado de Nova Iorque, ir até ao Ohio, Virgínia e Filadélfia e sen r os salpicos da água nas cataratas de Niagara. Bem posicionada e recomendada para entrar numa universidade americana, foi forçada a recusar, porque a AFS só pagavas as despesas um ano e, sem esse apoio, estudar nos EUA seria incomportável para os pais! De regresso a Portugal, andou um ano na Faculdade de Direito em Coimbra, que não foi uma fonte de amores, mudou-se para Évora onde se licenciou em História, fez estágio em Reguengos de Monsaraze, por entrega de CV, entrou para o corpo docente do Colégio Dr. Luís Pereira da Costa, de Monte Redondo, onde esteve 23 anos! Professora, diretora pedagógica 3 anos, esteve sempre, sempre envolvida em projetos vários, alguns dos quais correram o país de norte a sul! Depois de uma breve passagem pela Pinhal do Rei, chegou à Calazans Duarte,

em setembro de 2018. Aqui « há condições para crescer profissionalmente», diz com segurança, esta professora. Foram duas décadas de estabilidade, que lhe possibilitaram viajar pelo mundo, pra car Taekwondo, chegar a 2º Dan e ter uma academia sua, voltar ao hipismo aos 44 anos e saltar até cair e fraturar 2 vértebras! “5 meses de baixa e mais 6 de fisioterapia fizeram-me parar, mas a paixão con nua” - remata Graça Sapinho. E Moçambique?- pergunto-lhe à queima roupa, trazendo-a de volta ao mo vo que originou esta entrevista. -“Não voltei lá. Mas essa viagem está nos meus planos.” A ro-lhe com esta s cas da pobreza em Moçambique…. Ela sobrevoa de novo África, cruza as memórias com o conhecimento dos livros e das escassas no cias e, serenamente, avalia:-“lido mal com a pobreza de Moçambique, embora pense que os que vivem longe das cidades não a sintam tanto. Estou sempre atenta às no cias sobre África e se for sobre Moçambique quero saber tudo. O país está num impasse de que não vai sair tão cedo. E dói-me. Porque Moçambique também é a minha pátria!”


GOSTO …. NÃO GOSTO Adriana Silva Simões

As escadas que nos levam ao mundo das Artes … Só acessível a quem não u lize uma cadeira de rodas ….

Gosto da cor, da disposição e da limpeza. Não gosto da falta de cuidado de quem u liza e destrói …

Em fase de reabilitação ou de esquecimento?

Temos um Arquivo Municipal e nas traseiras temos … mais um cenário de abandono que parece perpetuar-se na cidade.

TALVEZ D'ACORDO Jorge Carreira Alves Todos os acordos trazem consigo, na sua essência, uma ideia de harmonia, de entendimento, de aceitação e consenso. Terá isso acontecido com o tão calorosa e apaixonadamente deba do novo acordo ortográfico da língua portuguesa? Para que todos nos entendamos neste nosso tão rico património que é “a nossa Pátria” da cultura e dos afetos, é forçoso, sem dúvida, estabelecer regras, normas e leis que nos balizem, mantendo, contudo, a riqueza da nossa diversidade, já que “esta Pátria”, nascida num remoto canto da Ibéria, também se vem gerando, renovando e reformulando, igualmente, noutros con nentes e em outras la tudes, o que a faz ser, hoje em dia, património mundial, de muitos povos e de muitas gentes. Na eterna e apaixonada discussão provocada pela implementação do novo acordo ortográfico da língua portuguesa, cujo processo de gestação já remonta há mais de trinta anos, porquanto, os primeiros projetos datam de 1986, devernos-emos perguntar se, após tão atribulado percurso, os principais obje vos jus fica vos da sua adoção estarão a ser realmente concre zados? Vejamos: a valorização da língua portuguesa nas

instâncias internacionais, como língua oficial ou língua de trabalho está a ser conseguida? O interesse manifestado por falantes de outras línguas no uso e aprendizagem do nosso idioma tem vindo a ser aumentado? A difusão da cultura, nomeadamente da literatura, de língua portuguesa tem sofrido algum incremento nos países fora da área da CPLP? Os falantes da nossa língua demonstram ter-lhe um maior respeito e sabem u lizá-la de forma mais correta, reconhecendo as vantagens da sua aprendizagem? Estas são questões cuja resposta parece di cil, já que, tanto para os defensores como para os detratores deste acordo, a paixão que colocam nos seus argumentos ultrapassa muitas vezes as linhas do bom senso, não havendo uma reflexão ponderada e verdadeiramente fundamentada que esclareça quem queira lucidamente adotar uma posição séria, ou dar uma opinião sólida sobre o assunto. Até hoje, todos os acordos que se tentaram implementar sobre esta questão sofreram sempre de grande contestação, nunca sendo verdadeiramente e inteiramente adotados por todos. Logo em 1911, quando Portugal procedeu a uma reformulação radical das suas normas ortográficas, o Brasil mostrou enorme resistência, sucedendo algo semelhante em

posteriores tenta vas, nos anos trinta e quarenta, com uma posterior reformulação por volta de 1970. O que sucedeu com este acordo foi que, através de um processo polí co, apesar de fundamentado em estudos e valorosos trabalhos de insignes especialistas, os falantes da nossa língua sen ram-no e sentem-no como uma imposição mal explicada de regras absurdas; isto porque a “norma” rígida e imposi va sobrepôs-se autoritária à flexibilidade e cria vidade do “uso” do dia-a-dia, parecendo que, uma “lei” padronizadora, a pretexto de uma igualdade que não existe, veio castrar a riqueza que há, em sermos, no contexto de uma mesma língua, diversos, cria vos e inovadores. Terá sido assim tão vantajoso implementar-se um acordo que, apenas, veio alterar pouco mais de 1% dos vocábulos que u lizamos, con nuando a ter tantas exceções e ambiguidades? Se, já todos reconhecemos que a nossa língua é um património mundial com três normas (a europeia, a brasileira e a galega), podendo ainda ter mais, com a evolução esperada das variantes africanas, porque não se apostar a fundo nesta verdadeira riqueza que é este encontro mul cultural de uma língua diversa que a todos nos une?

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“…AQUI NÃO TEM UBER!” Sofia Puglielli|Eu vim de longe (Entrevista cole va)

Nesta edição do Ponto & Vírgula, o protagonismo é dado aos países lusófonos, pelo que, desta vez, foram entrevistados três alunos brasileiros da nossa escola. João Pedro, de Curi ba, Paraná, Hendrick Anastácio do interior de S. Paulo e Manuela Marques, do Rio de Janeiro, deram-nos a conhecer como eram os seus es los de vida no Brasil e em que contrastavam com o es lo de vida em Portugal. Os três jovens concordaram que há um grande contraste entre ambas as sociedades: “acho que o maior contraste para a maioria dos que vieram de cidades grandes, como é o nosso caso, é vir para uma cidade menor” assegurou João, que há um ano mora na Marinha Grande. “A primeira vez que acordei aqui ouvi galinhas! E não tem Uber!”, disse Hendrick, com desgosto. Sem dúvida, vir de uma cidade de 20 milhões para uma de 35 mil foi uma mudança totalmente drás ca para os jovens, que confessaram ter sido “terrível e complicado”.“Demorei uns três meses para me adaptar ao sotaque, as vossas expressões e…ainda me perco um pouco…”.

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Tal como o rapaz de São Paulo, todos es veram de acordo que o mais complicado foram os contrastes ao nível da língua. Manuela também ressaltou a saudade da comida do seu país natal, já que “há muitas coisas que cá não há”. O clima, a paisagem e as pessoas foram as suas respostas quando se lhes perguntou do que mais gostavam de Portugal. Nem todos concordaram, pois há quem não se habitue ao clima ou quem ache complicado socializar em Portugal. Hendrick e Manuela concordaram que as pessoas cá “são muito duras” e que é “muito di cil falar com elas… há uma falta de comunicação”. Por outro lado, João comentou que nha uma opinião diferente: “para mim, é muito mais fácil conviver do que noutros lugares”. O rapaz que já viveu dois anos em Itália comenta que “para mim as pessoas são um ponto a favor” pois na sua região, segundo ele, “são muito fechados e na Itália também. Portugal é mais quen nho”. “… Mudei muito, virei de uma pessoa extrover da para alguém introver da, sempre que me tentava aproximar de alguém as pessoas ficavam fechadas, mas com o tempo passou”. Hendrick concordou

com Manuela: “no início foi muito di cil”. Mas João confessa que teve a bênção de calhar numa turma muito boa, ainda que também tenha sen do “diferença no tratamento de algumas pessoas”. Assim, todos concordaram em que sempre há alguma exclusão social que dificulta um bocado a adaptação. Inclusive sentem diferenças no tratamento de alguns professores, “às vezes até rebaixam um pouco as minhas notas” reclama João. Esta exclusão está presente muitas vezes no dia a dia deles, por exemplo na hora de ser atendidos em algum comércio: “algumas pessoas tratam-nos como se fôssemos burros, às vezes explicam ou tratam-nos como se fôssemos crianças; falam pausadamente e mais alto. Ofende um pouco”. Outro contraste são, obviamente, as amizades. Todos confessaram que sen am muitas saudades dos seus amigos e familiares… maioritariamente os amigos. “No Brasil nha amigos de há 10 anos, o que para os meus poucos 18 anos de vida é algo! São amigos de toda a vida, não se podem comparar a estas amizades de um ano”, disse João. Para Manuela, que veio pela


situação de desemprego dos pais no Brasil, também não foi fácil criar amizades no início…, “mas logo acabei por fazer amizades muito boas; claro, aquelas amizades da infância não se comparam, sempre serão especiais”. Conclui-se que “não dá para comparar” nas palavras do Hendrick, que veio por decisão dos pais, já que a qualidade de vida e o futuro do filho seriam melhores em Portugal. Num país onde qualquer grande cidade é maior em população do que Portugal inteiro, a segurança também varia: “sempre fomos ensinados a ter precaução quando andávamos na rua” comenta João. Manuela também confessou ter ficado surpreendida pela gente andar com o telefone na rua, quando eles são ensinados desde pequenos a guardar o celular. “A minha casa aqui não tem muros, no Brasil a minha residência nha um de três metros!”, foram palavras do João. Ao nível da escolaridade, segundo os jovens do Brasil, em Portugal a escola é muito fácil, as disciplinas são diferentes: “depois do nono ano também muda, mas não da mesma maneira” explica Manuela do 11 H.“Não podemos seguir o que quisermos, somos obrigados a estudar tudo, desde matemá ca até história, acho que esse é um dos pontos posi vos da escolaridade portuguesa”. Concordando com a aluna de Humanidades, João, de Artes, diz que este direito à decisão ajuda a tornar a escola muito mais fácil “já que pode rar aquelas disciplinas que são mais complicadas”. Em relação aos professores “é rela vo”: há professores bons e ruins em todos os lugares. “Os horários são um espetáculo!” Nas palavras do João,“são mais flexíveis pois só nhamos aulas de manhã, na Itália também era parecido. Além disso o sistema de avaliação é muito mais pesado no Brasil, os testes são maiores e englobam mais conteúdo”. Às vezes nham a oportunidade de repe r no final de cada período, caso não lhes vesse corrido bem na primeira, mas isto também variava de escola para escola. Por úl mo, ao nível da economia, os brasileiros mostraram-se espantados com a economia portuguesa: “o poder de compra aliado ao salário é o ponto mais baixo de Portugal… é quase criminoso e absurdo” comenta João. E acrescenta: “na Itália ganha-se talvez o dobro ou triplo daqui e os preços do mercado são muito mais baratos, o que se traduz em maior poder de compra; o português está con nuamente em dívida, mas possui uma boa qualidade de vida.”


CHAMAR A MÚSICA Leonor Neto UMA VIAGEM PELOS SONS DO BRASIL...

No Brasil, tal como em muitos outros países, a música assumiu e con nua a assumir um importante papel enquanto mecanismo de exposição e difusão da essência, cultura e história brasileiras. A música brasileira é um espelho da alma do povo que a canta. Refle ndo as caracterís cas da própria cultura, a música brasileira é uma fusão que se iniciou na altura dos descobrimentos, cons tuída por elementos europeus, indígenas e africanos que chegaram ao Brasil levados pelos portugueses e

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pelos escravos. A par r do século XVIII, com a crescente influência dos ritmos africanos, a música popular começou a adquirir uma sonoridade marcadamente brasileira. Ao longo do século XX, com o início da globalização e dos media, surgem então géneros musicais caracteris camente brasileiros e os primeiros grandes nomes da música brasileira. São de destacar a bossa nova, o samba, a música sertaneja, o forró e o baião. Ao longo do século XX, são de destacar diversos nomes inevitáveis quando o tema é a música e cultura brasileiras. Chico Buarque, caracterizado pela sua música e letras vincadamente revolucionarias e de contestação ao regime. Tom Jobim e Vinicius de Moraes, pioneiros no género musical bossa nova. Elis Regina que se afirmou devido à sua musicalidade, letras poderosas e a sua presença em palco, inovando, quando comparada com outras cantoras da época. Caetano Veloso, um ícone até à atualidade na música brasileira, pelo carácter poé co das suas letras e Maria Bethânia, a sua irmã com a qual cantou diversas vezes.

De entre os ar stas da atualidade, Gabriel o Pensador, conhecido pela sua música de intervenção e por ser pioneiro numa versão brasileira do rap de influência norte-americana, e Seu Jorge, com o seu es lo musical pioneiro que se enquadra entre soul, pop e a música popular brasileira, têm ganho cada vez mais popularidade um pouco por todo o mundo. O samba, considerado uma das principais manifestações da cultura negra brasileira, tem ganho visibilidade associado ao tão apreciado Carnaval brasileiro vindo a assumir-se mais tarde enquanto es lo de dança. Atualmente, o funk brasileiro é um dos géneros musicais oriundos do Brasil que se encontra em ascensão, tal como grande parte dos ritmos brasileiros, aparecendo associado à dança. Em Portugal, a música brasileira é amplamente apreciada. A alegria do português do Brasil, a sua doçura contagiante, cons tui-se como um complemento à saudade e à melancolia do fado.


CHAMAR A MÚSICA Débora Francisco SONS DE ÁFRICA

ÁFRICA

Normalmente associada à prá ca religiosa e aos seus rituais, a música tradicional africana diversifica-se consoante a região, dada a vas dão deste con nente. Esta diver da música é altamente rítmica, embora não necessariamente de uma forma harmoniosa visto que o seu obje vo é representar a vida e não agradar audi vamente, contrastando com a cultura ocidental. Esta é maioritariamente transmi da oralmente, altamente improvisada e cons tuída por uma natureza de chamada-eresposta em que os sons e instrumentos formam uma espécie de diálogo. Géneros mais atuais que derivam desta tradição africana são: zouk, conga, samba, salsa, entre outros. No entanto, tal como em todas as nações e culturas, a música distribui-se sob várias categorias. Uma destas é a de afro-pop, termo

u lizado para mencionar a música tradicional contemporânea. Esta não tem propriamente um som específico, ou seja, é apenas um termo designatório e não um es lo musical. Um dos seus ar stas de destaque é Mohombi, nome ar s co de Mohombi Nzasi Moupondo. Este nasceu a 28 de agosto de 1986 e iniciou a sua carreira num grupo em 2004 e mais tarde iniciou a vidades a solo. O seu úl mo single designa-se “Claro que sí”, uma colaboração de toques viciantes e modernos. As suas canções vão de influências africanas a ba das la nas e ainda sons mais eletrónicos, populares na indústria atual. Adicionalmente, existem ainda categorias bastante populares e influenciadoras do público português, como o kizomba e kuduru. Quanto à estrutura musical, o kizomba é normalmente marcado por uma ba da forte, dada por um tambor grave, acompanhado por uma melodia

dada por um prato de choque. Por outro lado, o kuduru surgiu nos finais dos anos 80, primeiro como uma dança e então evoluindo para género musical em que se misturam elementos eletrónicos com o folclore tradicional. As suas letras elevadamente humorizadas, são caraterizadas pela sua simplicidade. Ar stas notáveis destas duas classificações musicais são os Buraka Som Sistema, Anselmo Ralph e C4 Pedro. Em suma, por mais variadas e dis ntas que sejam as ba das africanas, haverá sempre um aspeto comum a uni-las: a sua vivacidade, aquele gosto de vida que qualquer pessoa conseguirá sen r através das notas e verificar a par r das letras. Esta mistura da língua portuguesa com línguas próprias da nação em questão cria histórias de vida e ajuda a libertar os males da alma humana.

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DE OLHOS NO ÉCRAN Tomás Vicente OS GRANDES TEATROS LUSÓFONOS Sendo eu um homem do teatro, proponho-vos hoje que rem os olhos do ecrã e olhem para os palcos. Apresento-vos alguns dos teatros nacionais de países lusófonos: o Teatro Nacional D. Maria II, cá em Portugal, o Teatro Nacional Cláudio Santoro, no Brasil, o Cine-Teatro Nacional, em Angola. Comecemos por falar no Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII): foi inaugurado, em Lisboa, no dia 13 de abril de 1846, durante as comemorações do 27.º aniversário da rainha Maria II (1819-1853), passando, por isso, a exibir o seu nome na designação oficial. Na inauguração, foi apresentado o drama histórico em cinco atos, O Magriço e os Doze de Inglaterra, original de Jacinto Aguiar de Loureiro. Mas a história deste teatro começa dez anos antes. Entre 1836, data da criação legal do teatro, e 1846, data da sua inauguração, o local escolhido para instalar o defini vo Teatro Nacional foram os escombros do palácio dos Estaus, an ga sede da Inquisição e que, também em 1836, nha sido destruído por um incêndio. A escolha de

um arquiteto italiano, Fortunato Lodi, para projetar e executar o Teatro Nacional não foi isenta de crí cas e só em 1842, Almeida Garre , encarregado de edificar um Teatro Nacional, consegue dar início às obras. Em 2012, o teatro foi reclassificado como monumento nacional. A reclassificação, aprovada em Conselho de Ministros, a 24 de maio, foi publicada em Diário da República no dia 10 de julho de 2012. No outro lado do Atlân co temos o Teatro Nacional Cláudio Santoro (TNCS), localizado em Brasília, capital administra va do Brasil. Foi concebido pelo arquiteto Óscar Niemeyer, com projeto estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo. A construção teve início no dia 30 de julho de 1960 e foi inaugurado no dia 21 de abril de 1981. Chamado inicialmente de “Teatro Nacional de Brasília”, a par r de 1989 passou a chamar-se oficialmente “Teatro Nacional Claudio Santoro”, em homenagem ao maestro e compositor que fundou a orquestra do Teatro em 1979 e a dirigiu até à sua morte em 1989. Possui estrutura com forma de pirâmide

Cine Teatro Nacional de Luanda (Angola)

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irregular. No seu interior, destacam-se as salas Mar ns Pena, Villa-Lobos e Alberto Nepomuceno, onde se realizam, ao longo de todo o ano, numerosos atos e representações culturais. Entre os grandes nomes da música, da dança e do teatro que se apresentaram no Teatro Nacional Claudio Santoro, destacam-se Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Dulcina de Moraes, Glauce Rocha, Ziembinski, Márcia Haydé, Márika Gidali e o balet Stagium, Grupo Corpo, João Gilberto, Caetano Veloso, Maria Bethânia e pra camente todos os principais nomes da música popular brasileira. Em Angola, foi no dia 1 de janeiro de 1932 que a primeira sala de cinema e de teatro do CineTeatro Nacional, em Luanda, abriu as portas, numa rua que até essa altura era tranquila e enlameada. Na estreia deste palco, todos os lugares da plateia se encontravam ocupados e, com enorme expeta va, a Companhia Hortense Luz atuou. Foi com a recente gerência da Associação Cultural Chá de Caxinde, que este Cine-Teatro, muito querido pelos caluandas (naturais de Luanda), reviveu e se ampliou.

Teatro Nacional D. Maria II - Lisboa

Teatro Nacional Cláudio Santoro - Brasil ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente


M...DEDiogo MULHERES Heleno É MAIS QUE SUMO, MAIS QUE CASCA Escrevo em moldes extraordinários, deve ler-se, não conforme o que é frequente, porque apesar da pesquisa resiliente, o caminho para chegar aonde me propus revelou-se, acima de tudo, impérvio, intransitável, como que excessivamente íngreme para nele me poder arriscar. No fundo, depois de muito molhar os cantos das páginas dos livros que li, não deixei de encontrar referências vagas, discretas, pouco significantes das biografias de mulheres da Guiné-Bissau, de São Tomé e Príncipe, de Angola ou Moçambique, as quais me ajudariam a melhor compor este ar go que, afinal, procura trazer a lume as mesmas biografias que, quase em vão, procurei, mas que ainda assim consegui agrupar em número suficiente para apresentar um texto que, a par da apresentação de uma figura da África lusófona ainda se anuncia nos meandros dos brasileirismos. Divida-se então a esfera terrestre como gomo de laranja ou limão, par ndo em duas metades o mesmo fruto, ficando o Brasil de um lado, Angola doutro. Pega-se num deles, e ler-se-á o nome de Bertha Lutz e, pegando no outro de seguida, para se respeitar a ordem com que primeiro nomeei a América e depois a África,fala-se de Irene Cohen. Bertha Maria Júlia Lutz nasceu a 2 de agosto de 1894, no Rio, destacando-se como a vista feminina, polí ca e bióloga. Em 1918 estudava em Sorbonne, especializando-se na Faculdade de Ciências Naturais da Universidade de Paris, onde esteve pela primeira vez em contacto com o movimento feminista inglês. Após anos dedicada ao Departamento de Botânica do Museu Nacional, cargo que a tornou a segunda mulher brasileira a fazer parte do serviço público do país, formou-se em Direito, no Rio de Janeiro, e a par r de 1922, tendo já anteriormente feito parte da Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, ajudou a fundar a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, cuja principal bandeira reivindicava o voto feminino, a ngido com sucesso anos depois. Apesar de todas as associações criadas, de proteção da mulher e de reivindicação dos seus direitos, Bertha acabou por se destacar quando, enquanto integrante da delegação do Brasil à Conferência de São Francisco, em meados do século XX, cujo intuito seria redigir a Carta das Nações Unidas, se empenhou de forma soberba

na luta pela inclusão de menções sobre a igualdade de género no corpo do mesmo texto. Lutz acabou por morrer na sua cidade natal a 16 de setembro de 1976, aos 82 anos de idade, sendo, posteriormente, muitas vezes homenageada pela luta pela emancipação feminina e pelo seu importante papel na descrição de espécies autóctones da fauna brasileira, daí a nomeação da espécie Aplastodiscuslutzorum em alusão ao seu sobrenome. Pouse-se agora a metade de fruta e veja-se a outra com seriedade. Isto porque, a par r daqui, a informação é extraordinariamente mais escassa. De facto, largando o primeiro gomo cárpico e pegando no que se alaga no Atlân co mais a oriente, vemos nele relatos pobres de guerreiras e militantes, carcomidos pelo tempo, decompostos pelas excremen cias mentalidades que decidiram propagar a ervadaninha, o joio em vez do trigo. Irene Cohen é uma das poucas sobreviventes, conhecida como guerrilheira, destemida senhora que, ao lado de Lucrécia Paím, Engrácia Santos ou Teresa Afonso cons tuiu a tétrade das heroínas que par ciparam no processo de luta de libertação nacional e conquista da independência de Angola. Passados anos, ainda são conhecidas como fonte de orgulho nacional e de inspiração para muitas mulheres angolanas, daí o monumento edificado em sua homenagem, num largo agora conhecido como Largo das Heroínas, que hoje cons tui um local de atração que se tornou rapidamente num dos postais da cidade de Luanda. Finalmente, há que refle r nesta esfera de laranjeira, pois é mais que sumo, mais que casca, para pensar o porquê desta falta de informação. Afinal, a sociedade está a mudar, e esperemos que seja para melhor e para deixar de pôr na penumbra todas estas mulheres.

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PÉ DE DANÇA Inês Duque “CAPOEIRADA VS KIZOMBADA”

Nesta edição irei abordar a dança em dois subtemas, sendo um deles sobre um po de dança proveniente do nosso país “irmão” (Brasil) e o outro tendo a ver com a influência africana nas danças portuguesas de hoje. Dança brasileira O primeiro po de dança que iremos conhecer é denominado por Capoeira. Trata-se de uma mistura de várias vertentes: arte marcial, desporto, cultura popular, dança e música. Acredita-se que a capoeira foi inventada por escravos africanos, os quais executavam golpes e movimentos ágeis e complexos. Primariamente u lizavam chutes e rasteiras, ou também cabeçadas, joelhadas, cotoveladas e acrobacias em solo ou aéreas. O que dis nguia os capoeiristas das outras artes marciais era a musicalidade. Pra cantes desta arte aprendem tanto a lutar e jogar, como a tocar os instrumentos e a cantar. Para fãs de jogos, existe um jogo, designado “Tekken”, no qual estão presentes duas personagens que apresentam habilidades de combate a par r da capoeira, sendo estas, Eddy Gordo e Chris e Monteiro. Considera-se, ainda, que a capoeira surgiu em finais do século XVI no Quilombo dos Palmares, situado na Capitania de Pernambuco. Em 2008, a Roda de Capoeira foi considerada

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como um bem cultural e, em 2014, foi-lhe concedido o tulo de “Património Cultural Imaterial da Humanidade” por parte da UNESCO. Influência africana na dança portuguesa Em primeiro lugar, é necessário contextualizar esta influência. A sua origem encontra-se na altura da colonização de Angola, sendo que a relação entre colonizador português e colonizado africano se caracterizou também por uma forte interligação. Hoje em dia ainda é possível encontrar diversas marcas de interculturalidade, por exemplo, na dança. De Angola, provém um es lo que revela ser extremamente lindo, sensual e contagiante, podendo, eventualmente, ser explosivo. Designa-se por Kizomba e, para muitos dos bailarinos la nos, é uma lufada de ar fresco que traz algo novo e excitante. Permite ao par interpretar a música que estão a dançar podendo tornar-se uma dança extremamente próxima com movimentos lentos e sensuais, requerendo grande habilidade de condução e cumplicidade entre homem e mulher, ou uma dança mais aberta com passos mais rápidos, trabalho de pés e truques. Em Portugal existem várias academias de dança especializadas em ensinar este ritmo aos europeus. Essa dança celebra a felicidade e a confraternização e, exibindo movimentos suaves

e rítmicos, é cantada em crioulo e português. Conclui-se que tanto a Capoeira como o Kizomba, embora com origens e caracterís cas dis ntas, se unem por coexis rem no mesmo campo de arte e, deste modo, apoderam-se tanto da nossa atenção como da admiração, formando, como acontece com a língua portuguesa, uma espécie de “CPRAB” (Comunidade dos países de ritmos afrobrasileiros).


MÃE TERRA Sofia Puglielli ASMA DA AMAZÓNIA É quase “cultura geral” o conhecimento da con nua desflorestação da Amazónia, um problema de caráter grave que teve começo na década de 70 e que, desde então, não tem deixado de piorar. Mas quanto sabemos da gravidade da situação? A Amazónia estende-se por 7,4 milhões km², através do Brasil, Colômbia, Peru, Equador, Venezuela, Guiana e Suriname. Desse grupo de nações que se nutrem diretamente desta grande fonte de biodiversidade e oxigénio, o Brasil possui 60 %. Nela moram perto de 34 milhões de pessoas – incluindo 385 comunidades indígenas – e milhares de espécies de flora e fauna. Isto faz dela a maior floresta tropical do mundo. De acordo com a Greenpeace, a desflorestação da Amazónia alcançava 1% do seu total nos anos 80; hoje essa percentagem aumentou para 18 %. Especialistas avisam que se estes níveis alcançarem entre os 20% e os 25%, o ecossistema começará a entrar em colapso de maneira irreversível. Além disso, alguns inves gadores preveem que é possível que desapareça 30% em 15 anos se o ritmo atual prosseguir da mesma maneira. A maioria das regiões mais afetadas localizam-se no sudeste

da bacia. Mas, quais são as ameaças da grande selva Amazónica? Quais são as razões do con nuo desflorestamento desta grande fonte de oxigénio do planeta? Por um lado, a agricultura abrange grande parte dos terrenos agora desmatados, os mesmos estão agora ocupados por cul vos de soja. O gado, maioritariamente bovino, também predomina na distribuição da nova selva; assim, a maior parte da produção de dióxido de carbono do Brasil provém da desflorestação e da u lização destas áreas para a pecuária. Pelo outro lado, a industrialização também desempenha um papel importante, como é comum não só na floresta amazónica, mas também no mundo inteiro. As árvores milenárias dão lugar a indústrias poluentes tanto a nível atmosférico como sonoro e hídrico. Não podemos deixar de lado a exploração de recursos do subsolo: o petróleo, o carvão, o gás e outros minérios, cuja extração não só tem por consequência a desflorestação e destruição da paisagem, mas também a poluição dos recursos hídricos (superficiais e subterrâneos), a erosão do solo, a evasão forçada dos animais silvestres e a poluição sonora. Há, também, outra grande ameaça: os projetos hidroelétricos, a u lização das correntes dos rios da bacia amazónica para criação de energia

elétrica, poderiam tornar-se num risco para muitas espécies, como os botos e outros 3.500 pos de peixes. Para 2016, nham sido planeadas 150 barragenshidroelétricas, das quais só a construção de 12 delas equivaleria a 1 milhão de hectares de desmatamento. Atualmente o Brasil tem 790 barragens, 300 delas em alto risco, pelo mau estado de conservação. Cabe realçar: muitas vezes este desflorestamento é realizado através da queima das matas, que acaba por piorar a situação, não só destruindo a atmosfera, se não também criando mais estragos no que se refere ao ecossistema. Toda esta destruição tem por resultado o aquecimento global, a perda da biodiversidade, a ex nção de etnias indígenas e de, consequentemente, o legado cultural. Pouco a pouco, a maior selva tropical do mundo está sendo destroçada pelo humano consumidor, quem, por consequência, em algumas décadas só terá os restos do que algum dia foi o grande pulmão do mundo.

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TEXTOS E AFINS João Pedro A.Thomaszeck “BRASIL, UM CELEIRO DE GRANDES AUTORES” Sem sombra de dúvidas, a literatura brasileira é um enorme expoente na literatura lusófona mundial. A contribuição cultural dos escritores brasileiros, tanto clássicos quanto contemporâneos, é geralmente subes mada por crí cos e leitores estrangeiros. Internacionalmente, o mais renomado é Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Suas obras, como 'Dom Casmurro' e 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', são leitura obrigatória para os amantes de literatura e para os alunos do sistema educacional tupiniquim. Já Paulo Coelho leva o tulo de escritor de língua portuguesa mais vendido do planeta, vendendo mais de 190 milhões de cópias e tendo do sua principal obra, 'O Alquimista', traduzida em mais de 80 idiomas. Devido às proporções con nentais do Brasil, há um número enorme de grandes escritores espalhados pelos mais diversos estados. Vindos do sul, temos Erico Veríssimo e seu filho Luís Fernando, ambos român cos de inques onável notoriedade. Minas Gerais, São Paulo e o Rio de Janeiro também são celeiros de grandes autores; nomes como Guimarães Rosa, escritor de leitura di cil e inventor de palavras, Vinícius de Moraes, com seus versos imortalizados na canção 'Garota de Ipanema', e Carlos Drummond de Andrade, que em sua obra retrata, genialmente, as mazelas da vida na alvorada do séc. XX, vêm desses estados. O Nordeste também presenteia a literatura nacional com ilustres escritores, tais como o baiano Jorge Amado, com clássicos como 'Dona Flor e Seus Dois Maridos' e 'Tieta do Agreste' , e o paraibano Ariano Suassuna, que viu sua obraprima 'O Auto da Compadecida' virar uns dos melhores filmes brasileiros de sempre. Uma autora que merece imenso reconhecimento, apesar de ter nascido na Ucrânia e ido para o Brasil aos 2 anos, é Clarice Lispector, amplamente estudada nas escolas e muito difundida entre os leitores, principalmente entre os jovens. Mesmo sendo estrangeira de nascimento, ao longo de seu trabalho, a escritora sempre priorizou reforçar a sua “brasilidade”, valorizando veementemente a iden dade cultural brasileira. Sua obra'Laços de Família' foi reproduzida magistralmente pela

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Rede Globo em forma de telenovela e, graças a isso,hoje faz parte do imaginário de grande parte dos brasileiros. Infelizmente, devido à globalização, a maioria das pessoas não dá a devida importância a obras escritas na nossa língua, dando quase sempre prioridade ao que vem de fora.

É dever de todos nós ajudar a difundir os incríveis escritores lusófonos e a manter vivo o nosso legado cultural em prol da preservação e valorização da nossa literatura.


TEXTOS E AFINS João Pedro A.Thomaszeck UM CARNAVAL GELADO Como é senso comum, o Carnaval do Brasil é a maior festa popular do mundo. As comemorações em lugares como o Rio de Janeiro, São Paulo e o Nordeste são conhecidas mundialmente e atraem todos os anos milhares de turistas e foliões que “caem na bagunça” no infame feriado de fevereiro/março. Entretanto, engana-se aquele que pensa que o estereó po carnavalesco é unânime em todo o território brasileiro. Em Curi ba, a terra natal deste que vos escreve, o Carnaval assume um caráter totalmente dis nto. Curi ba, a capital do estado do Paraná, no Sul do Brasil, e A Cidade Mais Sustentável do Mundo, segundo a organização sueca Globe Award, leva a alcunha de A Rússia Brasileira devido ao seu clima frio e pessoas gélidas, tendo seu povo, inclusive, taxado como arrogante por nossos demais compatriotas. Portanto, era de se esperar que o nosso

Carnaval fosse ligeiramente diferente e menos caliente. Contudo, hei de discordar de certos “elogios” ao nosso respeito. Não somos frios nem arrogantes. Na verdade, os curi banos diferem dos demais brasileiros por terem um senso crí co e cultural mais apurado. Não é à toa que a cidade funciona como uma espécie de “termómetro qualita vo” para muitas obras ar s cas, como peças teatrais, livros, concertos e filmes, que estreiam primeiro na capital paranaense e, dependendo da nossa rece vidade, são lançados no restante do país. O curi bano não é muito adepto do modelo tradicional do Carnaval Brasileiro, dando preferência ao Psycho Carnival, a festa onde o Samba fica de lado e o Rock impera. A mais importante fes vidade é, indubitavelmente, a já tradicional Zombie Walk, passeata importada do Canadá, onde milhares de pessoas saem às ruas

traves das de mortos-vivos e personagens de filmes de terror, e que, no ano passado, recebeu cobertura dos media nacionais e reuniu mais de 25 mil pessoas, que replicaram na cidade um verdadeiro cenário digno da série The Walking Dead, caminhando exibindo caprichadas maquilhagens e fantasias realistas que aterrorizariam os mais sensíveis, e tudo isso debaixo de uma chuva torrencial. Também acontecem outros inúmeros eventos menores, porém nenhum de tanto público ou relevância. Sumariamente, pode-se dizer que o Fes val da Carne na capital mais fria do Brasil rompe com a tradição e apresenta um modelo totalmente diferenciado de Festa, adequando-se à par cularidade do seu povo e contrapondo-se a toda a vulgaridade e obscenidade, tão comum nas fes vidades carnavalescas ao redor do país.

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TEXTOS E AFINS Leonor Neto PRIMEIRA VEZ

Por vezes, dou por mim a pensar na importância da primeira experiência, de cada vez que par mos para o desconhecido e nos deixamos contagiar por todas as primeiras sensações, de tal modo, que ficam gravadas na nossa memória para sempre. Hoje volto aos tempos da minha infância, à primeira vez que li, ao meu primeiro livro. Recebi-o no dia dos meus 6 anos. Para meu próprio espanto, em vez de uma qualquer outra coisa, a minha avó decidiu dar-me um livro. Embora só fosse aprender a ler nesse mesmo ano, dentro daquele papel de embrulho estava “O meu Pé de Laranja Lima” de José Mauro de Vasconcelos. Recordo-me de folhear o livro e de me aperceber que o escritor era brasileiro e que, muito provavelmente, o livro estaria repleto de termos que ainda não conhecia. “É um livro para lermos juntas” lembro-me de ouvir a minha avó dizer. Assim foi. Ao longo de uns meses, esperei ansiosamente que a minha

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avó acabasse de jantar para que finalmente nos pudéssemos dedicar à nossa leitura. Íamos para o meu quarto e, rapidamente, o doce do português da América e a amarga história de Zezé, a personagem principal do livro, tomavam conta daquele quarto, num momento só nosso. Lembro-me de interromper a leitura e perguntar o significado de palavras ou expressões, da paciência da minha avó a explicá-las mesmo que a interrompesse inúmeras vezes, de achar piada à forma como “aquele português” soava engraçado e de nos rirmos quando repe a o que a minha avó acabava de ler com sotaque brasileiro... Lembro-me de pedir para tentar ler e desis r logo a seguir, eu lia devagar e ansiava por estar completamente envolvida naquela história, quase como se saísse daquele quarto e viajasse para o pobre bairro social no Brasil onde vivia Zezé. E viajei...sen revolta pela forma como os adultos tratavam Zezé e por todas as injus ças a que ele estava sujeito, tristeza pelas dificuldades que a sua família

passava, ri das traquinices que ele ia fazendo, chorei com cada perda na vida daquela criança e admirava, acima de tudo, o seu amor incondicional pelo irmão mais novo. Hoje, já sem a mesma inocência de criança, vejo ni damente a beleza daquilo que li e me marcou até hoje. Reconheço a beleza e a doçura das palavras usadas para retratar o lado obscuro da infância, a solidão e incompreensão de uma personagem com a qual con nuo a ter empa a e a universalidade dos sen mentos que transcendem todo o po de barreiras, nomeadamente, o próprio idioma ou variante do mesmo. Felizmente, hoje em dia, fazem parte da minha lista de leituras muitas mais viagens em português para outros cantos do mundo. Independentemente da variante, a literatura portuguesa é a forma como as palavras chegam ao nosso coração na sua mais pura essência, sem termos de pensar muito nelas. Porque as sen mos.


PROFUTURO Beatriz Menino | David Carreira UM FUTURO COM LUSOFONIA Tal como temos vindo a abordar nesta crónica em edições anteriores, o mundo está a atravessar uma fase de grandes mudanças. Atrevemo-nos mesmo a dizer que estamos, nomeadamente, no limiar da revolução tecnológica. Nesta edição especial, em formato de papel, abordaremos esta temá ca no âmbito dos países lusófonos, países falantes da língua portuguesa. São eles Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor-Leste, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e a an ga colónia Macau (hoje parte da China). Estes países, apesar de terem a língua portuguesa como ponte, apresentam inúmeras diferenças a nível social, económico, polí co, educacional, etc. Verificamos, desde logo, estas diferenças em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): Portugal apresenta, por um lado, um Índice de Desenvolvimento Humano muito elevado (0,847), acompanhado por Macau com IDH igualmente bastante elevado (0,909); segue-se o Brasil, com IDH considerado elevado (0,759), sucedendo-se Cabo Verde e Timor-Leste com índices médios (0,654 e 0,625, respe vamente); seguem-se depois os restantes países africanos falantes de língua portuguesa, destacando-se Moçambique, com IDH de 0,437 (baixo), pelos piores mo vos. Estes valores espelham as condições a que os habitantes de cada um destes países têm acesso (a nível de saúde, educação, água potável, condições de trabalho...) Efe vamente, segundo o relatório “Índice de Escravatura Global 2016” da fundação australiana Walk Free, onde são analisados sete dos nove países lusófonos (São Tomé e Príncipe e Macau não foram reportados), Angola surge como o país lusófono com o maior número de “escravos modernos” (ocupando a 43.ª posição numa tabela onde constam 167 países e nas quais as primeiras posições são ocupadas pelos países com maior percentagem de “escravos modernos”). Segue-se Guiné-Bissau, Moçambique e Cabo Verde, surgindo nas posições 46.ª, 66.ª e 85.ª, respe vamente. Aparece depois, na 127.ª posição, Timor-Leste, seguido de Portugal e Brasil, em 130.º e 147.º, respe vamente. Os resultados basearam-se em cinco critérios de ação governamental: “apoio a sobreviventes”, “jus ça criminal”, “coordenação e responsabilidade”, “risco de escravatura moderna” e “Governo e negócios”. Numa outra análise, de zero (o melhor resultado possível) a 100 (pior) pontos, é averiguada a vulnerabilidade à “escravatura moderna”, tendo em conta “proteções polí ca e civil”, “direitos

sociais, de saúde e económicos”, “segurança pessoal” e “refugiados e conflitos”. Neste estudo, Portugal surge, desta vez, como melhor classificado entre os países falantes da língua portuguesa (19,27 pontos), seguindo-se Brasil (33,77), Cabo Verde (36,34), Timor-Leste (39,13), Angola (44,21), Moçambique (44,65) e Guiné-Bissau (48,82). No entanto, apesar de tão diferentes graus de desenvolvimento, estes países, com uma língua em comum - o Português -, unem-se muitas vezes em projetos económicos, sociais, educacionais que devem ser mo vo de orgulho da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A educação, acreditamos nós, é a base de um futuro promissor e, efe vamente, Universidades de sete países lusófonos (Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e TimorLeste) juntaram-se na primeira associação de educação à distância, procurando “promover a língua portuguesa como língua de conhecimento e ultrapassar as barreiras ao acesso ao ensino”, tal como afirma o reitor Paulo Dias. Segundo o mesmo, este processo vai funcionar também como “meio de pressão” para acelerar a digitalização dos países lusófonos com falta de cobertura tecnológica. Por outro lado, na área da medicina, também vários projetos têm avançado, incluindo a

telemedicina que, entre estes países, teria como obje vo o acesso a tecnologias desenvolvidas nestes territórios e promover a troca de informações entre profissionais da saúde. Ainda assim, não são apenas estes países que beneficiam com a “par lha” do Português, também esta língua ganha e muito, sendo o desenvolvimento económico de países da CPLP o principal responsável pelo grande aumento da influência da língua portuguesa. O português é o quarto (ou quinto, conforme as fontes) idioma mais falado no mundo e o que regista elevado crescimento na Internet, o que, por sua vez, facilita as trocas comerciais, a procura de trabalho, o inves mento direto e a circulação de pessoas, como é referido num estudo promovido e financiado pelo Camões – Ins tuto da Cooperação e da Língua. Conclui-se, assim, que se perspe va um “futuro com lusofonia”, na qual a língua portuguesa con nuará a crescer, tal como, esperemos nós, os países falantes desta mesma língua. Aquele que é o nosso idioma é merecedor de todo o nosso carinho e respeito pelo importante papel que desempenha na sociedade atual, aproximando países com caraterís cas bastantes diferentes, abrindo portas ao mercado de trabalho e, em certa medida, à Revolução Tecnológica. ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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JORNALISTA CONVIDADO José d'Encarnação E O BRASIL AQUI TÃO PERTO!...

Quando chamo um técnico para resolver um problema com a televisão ou a ligação à Internet, bate-me à porta, normalmente, um brasileiro; ve duas funcionárias vindas do Brasil. Para eles, a pergunta é sempre a mesma da minha parte: – Donde é? – Do Brasil. – Isso eu sei, pela pronúncia; mas donde? Lá me especificam se de Vitória do Espírito Santo, de Minas, de Curi ba… E acaba-se sempre por trocar impressões sobre o que visitei, o quanto me seduzem a paisagem e as gentes. A 17 de Fevereiro, no programa «Vozes da Lusofonia» da Antena 1, a cantora negra

Rio Grande do Sul é o território das colónias: a Alemã, a Francesa… ves gios da intensa imigração no decorrer da II Grande Guerra. Povo hospitaleiro ali, é mescla das mais diferentes nacionalidades, algo de que já me apercebera ao verificar a origem dos mais variados apelidos que os brasileiros mantêm. Pelotas, a capital, será a mais portuguesa das cidades brasileiras, pelas suas tradições lusas, nomeadamente a doçaria, que é a nossa! Afinal, também Portugal ali tão perto! Gente brava, habituada a tratar do gado, os

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brasileira Bia Ferreira descreveu as suas impressões, ao desembarcar agora, pela primeira vez em Portugal: – Eu estou noutro país e percebo tudo o que leio!... Maravilha! Decerto, essa a impressão também do português que chega ao Brasil, nesta altura já mais familiarizado com as diferenças de terminologia, porque quo dianamente as ouve. Da primeira ida ao Brasil, em 1989, recorto dois aspectos: – Ao jantar, sobrou bastante comida; e logo o dono do restaurante se apressou a propor-nos que levássemos o resto numa «quen nha». Hoje, é prá ca corrente em muitos restaurantes, designadamente aqueles onde costumamos ir; nessa altura, era novidade. – Ficámos alojados num apartamento da

gaúchos, mas de uma docilidade extrema no trato. A indispensável cuia do chá-mate ou do chimarrão passa de um para o outro, sem cerimónias... Uma mul culturalidade que não despreza, porém, as mais an gas raízes. Numa das noites do congresso sobre precisamente a An guidade Oriental e a An guidade Clássica, o jantar foi de acepipes à maneira do Médio Oriente, com o tradicional lava-mãos de água perfumada antes de ir para a mesa.

Siqueira Campos, uma das perpendiculares à Avenida Atlân ca, em Copacabana, no Rio. Depressa nos integrámos na vizinhança, de mútuo cumprimento diário. E era um gosto passear no calçadão, gente de todas as idades, no maior dos à-vontades, em exercício ou descontraidamente, parando aqui ou além para se refrescar com uma água de coco… Como se para tudo houvesse o maior tempo… Numa das outras idas, o des no final foi Pelotas, no Rio Grande do Sul, junto ao Uruguai. A terra do charque, carne seca ao sol, nas fazendas chamadas, por isso, charqueadas. De uma, a Charqueada São João, agora adaptada a receber visitas, verdadeiro museu na grande casa senhorial, trouxe fotografia, como a legenda mandava.


BRASIL: MÚSICA E DANÇA Alice Marques

Integrado no projeto “Abraçar'Artes” –Interculturalidade”, o Orfeão de Leiria, uma das ins tuições que faz parte da Rede de Escolas para a Educação Intercultura (REEI) levou a cabo, no dia 18 de janeiro, um espetáculo musical e de dança, designado “Brasil: A paixão pela música – influências e iden dade”. A Igreja da Misericórdia, magnificamente restaurada, um dos espaços do CDIL (Centro de Diálogo Intercultural de Leiria), foi palco para uma hora e meia de música e dança, por alunos e professores daquele conservatório de artes. Mas não só! Foi também auditório para uma aula de história, não só da música, mas também da polí ca e da cultura brasileiras. Os organizadores deste Concerto com História, entre eles, Ana do Vale, Mariana Baltazar e Mário Teixeira, ofereceram ao público uma

viagem musical e dançante pela história do Brasil, com critério muito adequado na escolha do reportório, que incluiu desde canções de música erudita de Heitor Villa- Lobo às canções mundialmente reconhecidas de Tom Jobim, como “Desafinado” e “Garota de Ipanema”. A Orquestra de Guitarras do Orfeão, o coro infan l (que integra alunos da escola Guilherme Stephens), diferentes classes de dança, o Combo Jazz e a Raquel Krezinger protagonizaram este espetáculo. Este foi apenas um, dos diversos que integram o projeto Abraçar'Artes - Interculturalidade, que assim divulga e valoriza o património cultural das comunidades de países terceiros residentes em Leiria. Também a dança e a música da Ucrânia, da Rússia, do Chile e de alguns países africanos es veram em palco noutros espetáculos, através dos alunos e professores do Orfeão.


UM MÊS, UMA ECO-ESCOLA Alice Marques

“A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NÃO É VISTA COMO UMA PRIORIDADE” Fá ma Roque, professora de expressões plás cas, é Coordenadora do projeto Eco-escola da Calazans Duarte, desde o ano le vo 2012/2013. Em entrevista ao P&V, faz um balanço do trabalho destes anos, dos progressos na educação ambiental e confessa-se…frustrada. Este ano, o Clube do Ambiente, que implementa o projeto, é cons tuído pela coordenadora, mais um professor do mesmo grupo e três de geografia. Alunos são cada vez menos. Este ano inscreveram-se apenas dois! Por sinal são também membros do Clube Europeu, cujo horário de reuniões coincide. O tempo é o pior inimigo dos projetos das escolas! Cada semana só tem uma quarta feira à tarde! “A educação ambiental está longe de ser uma prioridade. Apesar dos avanços que os programas da Associação da Bandeira Azul da Europa (ABAE) têm trazido às escolas, como o projeto eco-escolas e a atribuição da bandeira verde, a verdade é que as mudanças de comportamentos em prol da defesa do ambiente estão longe do desejável”, diz Fá ma Roque. Com duas horas para coordenar o projeto, atribuídas na componente não le va, acumulando com diretora de curso e diretora de turma, Fá ma Roque faz o que é possível, mas

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tem “clara consciência de que é preciso fazer diferente, fazer melhor”. Apesar da educação ambiental ser este ano um dos temas da Educação para a Cidadania, os alunos não demonstram qualquer mo vação para o aprofundar: pura e simplesmente não o escolhem. As questões do ambiente também são parte dos conteúdos dalgumas disciplinas curriculares, “mas é muito complicado trabalhar em ar culação interdisciplinar”, diz-nos a Coordenadora. Algumas a vidades propostas no âmbito do projeto eco-escola são mal recebidas pelos colegas, que a acusam até, de “lhes roubar aulas”. Focadas no cumprimento dos programas, nos testes, nas fichas, nas notas, na preparação para os exames, alunos e professores pouco se envolvem em projetos que não sejam centrados nos conteúdos das disciplinas. Fá ma Roque, também ela professora, “compreende os colegas” e desiste de dar murros em ponta de faca. Por isso, propor a vidades para o 3º período … “está fora de questão”. O ambiente pode até ser conteúdo disciplinar, ser avaliado em testes, mas são apenas avaliados conhecimentos. Fá ma concorda que “ninguém parece dispor de instrumentos eficazes para avaliar a alteração de

comportamentos que a educação ambiental devia provocar”. E contudo… a simples observação empírica, informal, do bar, após os intervalos, e dos caixotes de lixo, demonstra cabalmente que nem sequer o obje vo mais básico de educação ambiental- a separação dos lixos - está a ser conseguido! Apesar disso, a bandeira verde tem sido atribuída todos os anos, e as auditorias da ABAE, feitas de 4 em quatro anos, “muito didác cas e nada penalizadoras”, como reconhece a coordenadora do Eco-escola, con nuam a encorajar as prá cas mas não sugerem qualquer alteração radical. Este ano, o programa Parlamento Jovem trouxe as questões ambientais para o centro do debate. Parece ser um sinal de que há mais sensibilidade na Europa para tornar esta questão prioritária na formação das novas gerações. É esta a convicção de Fá ma Roque, que, apesar da “frustração por con nuar a ver muitas coisas que não queria” mantém a determinação de prosseguir com a polí ca escolar RAE (Resíduos, Água e Energia) e organizar a vidades para cada novo tema. Consciente de que o que pode fazer é muito pouco face ao gigan smo das necessidades, a sua maior vantagem é manterse aberta a sugestões e à colaboração de todos.


“RESÍDUOS, ÁGUA E ENERGIA… TEMOS DE FAZER MAIS E MELHOR”

Separação dos resíduos para reciclagem, poupança de água e energia são os três eixos da educação ambiental do projetoeco- escola, aos quais se junta anualmente outro tema obrigatório e outros em que as escolas queiram e consigam par cipar. Este ano, o Mar é o tema obrigatório. Um tema sobre o qual há milhares de teses de doutoramentos, a maioria das quais, seguramente, começou a germinar na cabeça dos jovens a par r de a vidades realizadas na escola básica ou secundária. Consciente disso, a coordenadora do eco- escola da Calazans Duarte, profª Fá ma Roque, proporcionou este ano um dia na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, em Peniche, aos alunos do 12º ano das turmas de Ciências e Tecnologias. Ao longo dos anos, têm sido desenvolvidas várias a vidades para concre zar as três vertentes de educação ambiental definidas pela ABAE para as escolas. Nem todas têm o mesmo nível de sucesso. É preciso fazer mais e melhor. Apesar dos disposi vos existentes em

abundância na Calazans Duarte- ecopontos de diferentes cores para os resíduos mais comuns – azul para o papel, amarelo para os plás cos, castanho para os biodegradáveis e verdes para o vidro- basta uma passagem pelo bar depois dos intervalos ou levantar as tampas dos ecopontos ao fim do dia, para nos ques onarmos com indignação sobre os efeitos da educação ambiental que é suposto terem feito parte do currículo desde o 1º ano de escolaridade! Segundo Fá ma Roque, a separação dos resíduos é a vertente mais acompanhada e, sem negar que é óbvio, ela reconhece que tem havido alguns progressos: “ tem aumentado a quan dade de papel recolhido, acho que as pessoas estão mais sensibilizadas, em todos os setores da escola; o projeto Papel por Alimentos, em parceira com a conferência de S. Vicente de Paulo, também terá contribuído para isso. Temos também, há muitos anos, a recolha dos pequenos domés cos e equipamentos eletrónicos no Eletrão, com algum sucesso embora se verifique que papeis, garrafas, guardanapos … muitas vezes são aqui colocados, -a recolha de pilhas… e os nteiros das impressoras. Este úl mo, sendo gerido por nós, que vendemos a uma empresa de Lisboa, garante-nos um pequeno fundo que, este ano, por exemplo, deu para pagar metade das despesas de deslocação para recebermos a bandeira verde”. Quanto à gestão da água, cujo obje vo é reduzir a fatura, o sucesso tarda em chegar. Não que

seja responsabilidade de quem coordena o projeto, mas porque é impossível ter um controlo sobre isso, nomeadamente torneiras, autoclismos, ou setores como o bar, a can na e a cozinha pedagógica. “Limitamo-nos a monitorizar o consumo e a comunicá-lo no relatório anual para a ABAE, e verificamos que não há diminuição significa va”, conclui a coordenadora. E que dizer da energia? Uma pequeníssima diminuição do consumo que mal se nota. É verdade que depende de muitas variáveis, a maior das quais muito di ceis de controlar! Ainda assim, Fá ma Roque está o mista: a colocação da e queta “desligue a luz…” junto dos interruptores parece ter algum efeito. Ela garante que “há cada vez mais professores que apagam as luzes quando saem das salas, já não tenho de andar sempre eu a apagar luzes, mas há um exagero no consumo energé co com o ar condicionado!” Fá ma Roque sabe que é preciso outra dinâmica na educação ambiental. “É preciso tempo para refle r sobre o sucesso e o fracasso das medidas. É preciso que os alunos se envolvam nestas a vidades e valorizar os que se envolvem.” E parece-lhe excelente a sugestão de Alexandra Varela na Reunião de Projetos: A vidades de educação ambiental devem ser um item obrigatório nos programas das candidaturas à liderança da Associação de Estudantes.

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O oceano e os seus recursos

ALUNOS DA CALAZANS VISITAM ESTTM EM PENICHE Fá ma Roque |Um mês uma eco-escola

Promovido pela coordenadora do Programa EcoEscola da Escola Secundária Engº Acácio Calazans Duarte, no âmbito da sensibilização dos alunos para um maior conhecimento dos mares e do seu potencial, decorreu no dia 6 de fevereiro uma visita de estudo à Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, Peniche, ao Ocean Open Day 2019. Par ciparam 30 alunos das turmas do 12º ano, turmas A, B, C e D, do Curso de Ciências e Tecnologias, acompanhados por 3 professores. Do programa das a vidades aí desenvolvidas destacam-se, para além da visualização do vídeo “Ao ritmo das marés”, a par cipação em várias a vidades laboratoriais: - Intolerância à lactose? Biotecnologia e o mar - Enzimas em algas vermelhas - Extratos de algas marinhas - Eletroforese de DNA, RNA e proteínas Este evento permi u também aos alunos e professores conhecer as instalações da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (faz parte do IPL) que se localiza na costa de Peniche, com vista para as Berlengas e que foi possível apreciar graças a um excelente dia de sol. De louvar a simpa a e o profissionalismo de todos os professores que nos acolheram, incluindo a coordenadora Teresa Mouga, bem como o civismo e postura de todos os alunos que par ciparam.

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OS PONTOS E VÍRGULAS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA Alda Angelina Pereira dos Santos

“AUKHI AA PORTUGUESE” (“O PORTUGUÊS É DIFÍCIL”)

O mundo em que vivemos é cada vez mais complexo e mul cultural como resultado da migração que já se tornou um fenómeno global. Nas úl mas décadas, as pessoas da África, Ásia e América La na, bem como de países do Leste Europeu, espalharam-se por toda a Europa Ocidental. Portugal (que foi um país de emigrantes) tem registado nos úl mos anos fluxos crescentes de imigração, primeiro dos PALOP mas, nos úl mos anos, de origem diversa. Nas escolas, a pressão de integração dos filhos destes novos imigrantes reflete-se na gestão quo diana, até porque as crianças e jovens são inseridos em turmas adequadas à sua faixa etária e às habilitações adquiridas no país natal, mas nem sempre estas se encontram em correspondência com os perfis de saída dos alunos cuja língua materna é o Português e que sempre frequentaram o ensino em Portugal. Numa edição dedicada à Lusofonia apresentamos um jovem, Karandeep Singh, proveniente da Índia que, numa breve entrevista, na qual esteve também presente a professora de Educação Especial, Teresa Madeira, nos dá conta das suas maiores dificuldades, dos seus sonhos, do processo de adaptação a uma língua bem diferente daquelas com que cresceu (hindi e punjabi). Karandeep chegou a Portugal em 2014 e, "fui muito bem recebido pelos colegas da escola”. A sua simpa a e boa disposição ca vam qualquer um, mas as dificuldades foram aumentando. A comunicação num inglês pouco fluente, associadas problemas de memorização, atenção/concentração e raciocínio lógicoabstrato levaram à sua referenciação e consequente avaliação por parte dos serviços de psicologia e orientação do agrupamento e pelo grupo de Educação Especial. Ficou abrangido pelo revogado decreto-lei 3/2008 e conseguiu ficar aprovado no 9ºano. Presentemente frequenta o 1º ano do Curso Profissional de Cozinha e Pastelaria e, nas suas palavras, “gosto de cozinhar tudo” [na componente prá ca apresenta um excelente desempenho]. No âmbito do novo enquadramento legisla vo (decreto-lei 54/2018 de 18 de julho que estabelece o novo regime jurídico para a Educação Inclusiva) beneficia de apoio da docente de Educação Especial (em sede de

Centro de Apoio à Aprendizagem) que aponta como principais barreiras à aprendizagem “a preguiça, a pouca disponibilidade para a aprendizagem e pouco inves mento no treino da língua”. Ques onado acerca das razões da vinda para Portugal Karandeep começa por referir que o pai veio primeiro “para trabalhar com máquinas” e só depois veio a família, cons tuída pela mãe e três irmãs (a mais nova, de três anos, já nasceu em Portugal), a mais velha (terminou o Curso Profissional de Auxiliar Protésico e está desempregada) e a do meio está prestes a terminar o mesmo curso no nosso agrupamento. Sobre as tradições indianas ou outros aspetos da cultura do seu país, o jovem refere que “a mãe não come carne nem ovos, por causa da religião, mas nós comemos de tudo”. Quanto aos passatempos parece estar bem “aculturado”:“gosto de jogar no telemóvel e tenho muitos amigos portugueses”. Quanto à escola assinala como principais diferenças a distribuição da carga horária: “Na Índia nhamos todas as disciplinas, todos os dias. Aqui num dia temos Matemá ca, Português e Educação Física, no outro já temos Inglês, Cozinha e Área de Integração. Agora já estou habituado, mas no princípio foi um pouco di cil” O que con nua a ser muito di cil é aprender português. Apesar de frequentar aulas de Português Língua não Materna, Karandeep aponta a dificuldade em “fazer frases completas ou ler um texto”. Para ultrapassar este obstáculo, o novo enquadramento legisla vo prevê que a docente de Educação Especial acompanhe o aluno na realização de testes ou durante as aulas (coadjuvação). O jovem reconhece que “a ajuda da professora Teresa é boa. Diz-me o que não percebo”. Salienta ainda que se em casa todos falassem português seria melhor, mas as línguas que prevalecem são as do país de origem. Ques onado acerca de um possível regresso, após a conclusão dos estudos, Karandeep é veemente na resposta “Não! Gosto de estar aqui. Tenho amigos. Gosto da cozinha, da escola e da cidade.”Ao longo desta conversa verificamos quão di cil pode ser o processo de mudança: mudança de país, mudança de costumes e tradições, mudança de língua, mas “a mudança é a lei da vida. Aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão, com certeza, perder o futuro”(John Kennedy). As mudanças são fundamentais para inclusão, mas exigem esforço de todos, possibilitando que a

escola possa ser vista como um ambiente de construção de conhecimento. Para isso, a educação deverá ter um caráter amplo e complexo, favorecendo a construção ao longo da vida, e todo aluno, independente das dificuldades, poderá beneficiar-se dos programas educacionais, desde que sejam dadas as oportunidades adequadas para o desenvolvimento das suas potencialidades.

Prof.ª Teresa Madeira e Karandeep Singh

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OS PAIS DOS PEQUENOS Carla Panta UMA QUESTÃO DE LÍNGUAS… O português é a nossa língua materna! A terceira língua europeia mais falada no mundo. Ter um bom domínio da língua materna é indispensável para o sucesso de cada indivíduo. São muitos os fatores que influenciam o desenvolvimento da linguagem infan l. A interação com os adultos próximos, sobretudo o pai e a mãe, é fundamental. E é na própria interlocução que a linguagem se estrutura enquanto língua. Por isso, é essencial a criança falar, sobretudo em família, nos mais diversos momentos...(como no da refeição, por exemplo!). O exercício da fala implica não só a estruturação da língua em vários planos como contribui para o desenvolvimento mental das crianças. Em idade pré-escolar, a fala deve con nuar a ser exercitada para que a linguagem infan l evolua normalmente e se transforme num verdadeiro instrumento de comunicação, conforme o desenvolvimento de cada criança. É importante que as famílias/encarregados de educação sigam as orientações e os conselhos dos educadores de infância quando estes iden ficam problemas no domínio da linguagem. E, ainda, que evitem ao máximo que os equipamentos tecnológicos (telemóvel, tablet, computador...) assumam a comunicação com os filhos e impeçam o desejável e natural aperfeiçoamento da linguagem. Pais: já pensaram no valioso e imprescindível papel que têm neste assunto? Não permitam que ecrãs e outras distrações o subs tuam ou menorizem! Hoje em dia, os vossos filhos crescem contactando com outras línguas maternas. No contexto da tão desejável educação inclusiva, é

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bom que as crianças manifestem desejo de falar e de comunicar na respe va língua materna, mas com perceção da existência de outras línguas no mundo que as rodeia. E as crianças estão curiosa e naturalmente disponíveis para as incluir! Tenho um grupo maravilhoso de crianças. Apesar de maioritariamente de nacionalidade portuguesa, há uma de ascendência espanhola e três de origem indiana: uma que acompanha o grupo há dois anos e duas que o integraram apenas este ano le vo. Estas duas crianças não dominavam a língua portuguesa, nem as suas famílias, pelo que tem sido a língua inglesa a grande aliada na integração de ambas na vida da escola. As línguas espanhola, inglesa e indiana juntaramse, assim, à língua portuguesa que reinava na nossa sala. O grupo ampliou a Área de Conhecimento do Mundo, para além de cada um poder testemunhar, diariamente, o poder que as palavras podem ter nas interações sociais. Num destes dias, numa reflexão alargada sobre questões de língua, pude registar valiosos contributos da sua sabedoria de crianças: “Eu gosto muito de falar das coisas e falo português; falar inglês é o falar de um planeta dos indianos” “Falar é o que faz a garganta. É o trabalho dela. Falar português é falar na nossa língua porque foi assim que nós nascemos. Os indianos falam indiano porque foi assim que eles nasceram.” “Isto são linguagens. São idiomas de países. Eu gosto muito da língua espanhola.” “É diferente. Falar inglês é dizer “good morning”, falar português é dizer “bom dia” mas em indiano não sei”.

E con nuei a insis r: mas como é que se aprende uma língua? Como é que vocês aprenderam a falar português ou os vossos amigos a falar espanhol ou indiano? “Porque em Portugal, nós ouvimos falar português e quando es vermos em Espanha, falamos na língua deles. Mas eles é que falam e nós imitamos. É assim que aprendemos” “A mim foi o meu mano que dizia para eu dizer e eu dizia o resto e o mano ensinou-me mas ele aprendeu porque já nha nascido primeiro. Foi o meu pai que o ensinou.” “A mim foi a mana, ela dizia primeiro e eu nha de dizer o que ela dizia.” “Foi a minha mãe e o meu pai que me ensinaram. Eles diziam as palavras e escreviam num papel e eu fui dizendo.” “Eu aprendi a dizer pai e mãe e depois outras palavras, mas foram os meus manos que me ensinaram a falar.” “A minha mana também me ensinou mas nós às vezes discu mos a falar inglês.” “O meu mano aprendeu primeiro a dizer papá. A mãe foi ensinando e depois ensinou mais sons e ensinou o som da letra M e ele aprendeu a dizer mamã. E agora diz papá, mamã, pau, nana...” E outras conversas surgiram, mo vando-os a iden ficar países no globo e a conhecê-los melhor. Será que pode nascer aqui uma semente para a o princípio da Tolerância entre povos?! Pais: estão preparados para educar para a diferença? Sim, talvez o primeiro passo seja a língua! A nossa e a do(s) outro(s)!


DEFENDER O PLURILINGUISMO Alice Marques|Erasmus+

De 27 de janeiro a 2 de fevereiro, o programa ERASMUS + trouxe à Calazans Duarte 24 alunos e 6 professores de países da União Europeia (Espanha, Itália e Alemanha) que aqui con nuaram a desenvolver, com os professores e alunos portugueses, o projeto TSOLCH (Tracing and Shaping Our Linguis c Cutural Heritage). Para além das visitas à Marinha Grande, S. Pedro de Moel e Coimbra, professores e alunos mal veram tempo para respirar, para poderem cumprir a agenda da semana, que terminou na noite de 1 de fevereiro com a apresentação do espetáculo “Sounds of Europe” no grande auditório da Calazans Duarte. A diversidade linguís ca, a língua como expressão da cultura e a procura duma herança cultural comum foram o tema do trabalho de projeto que resultou no espetáculo final, que

pode ser visto ou revisto em: h ps://youtu.be/vozm9Op5wcc (part 1)e h ps://youtu.be/eQE8nylhNME (part 2) O P&V juntou-se ao intercâmbio, acompanhando algumas a vidades, divulgandoas e dando voz aos professores e alunos envolvidos. Usar o Inglês “como língua de comunicação” não representa qualquer contradição com os obje vos deste projeto, “nem tão pouco pretende ser um combate à supremacia da língua inglesa”, foram as respostas ao desafio colocado pelo P&V, e serviram de mote à entrevista com os professores. Este projeto tem como “obje vo aprender as línguas dos vários países”, explicitou, em várias línguas, a coordenadora local do projeto, professora Cármen Santarém. Para isso, todos os alunos envolvidos têm feito cursos online. Também Beate Vollmer, da Alemanha e Jose Manuel Oltra, de Espanha, defenderam a importância do plurilinguismo. “Cada língua é importante e quanto melhor a conhecermos, melhor é a comunicação”, afirmou Jose Manuel. Beate resumiu magistralmente o obje vo do projeto ao acrescentar que a “compreensão da cultura depende do conhecimento da língua”.

A impressão causada pela escola anfitriã não podia ser melhor: “moderna, muito bem equipada” foram os adje vos de Robin Adams, da Alemanha. Mas o que verdadeiramente o impressionou foi a existência de um diretor júnior e o orçamento par cipa vo, que considerou “exemplos de democracia”. Rosaria Fasanelli estava encantada com os espaços despor vos, os laboratórios, as oficinas dos cursos profissionais e a mediateca. “Muito espaço à disposição dos alunos, para além da sala de aulas, o que permite um dia escolar intenso”, elogiou a colega de escola, Gabriela Pastore. O restaurante pedagógico mereceu um aplauso especial de todos, não só o design do espaço, mas também a comida e o preço. Aliás, a comida portuguesa, que experimentaram também noutros restaurantes, foi considerada “excelente e barata”. A única nota nega va foi para a dimensão da escola. “Parece-me demasiado grande. As relações são mais di ceis numa escola grande; há, certamente, nesta escola, muitos alunos e professores que não se conhecem”, notou o professor de Madrid.

PRÉMIO ERASMUS+

O projeto "Being a European: Find your way to the future - School, Job and Life in Europe”, que decorreu entre 1 de Setembro 2016 e 30 de Setembro 2018,foi dis nguido com o selo de qualidade Erasmus+ e foi escolhido como

Success Story 2018. Os parceiros foram Alemanha, Portugal, Países Baixos, Suécia e Grécia. A 20 de maio, em Bona, contando com a presença do presidente da Conferência

Permanente dos Ministros da Educação, Ministro de Estado Professor Lorz, serão dis nguidos os melhores projetos, contando com o nosso. ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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INTERNATIONAL ON PORTUGAL Cármen Santarém | Erasmus+

O projetoTSOLCH - Tracing and shaping our linguis c cultural heritage for sustainable plurilinguism, intercultural dialogue and ac ve ci zenship, no âmbito do programa Erasmus+, deixou o seu traço durante a mobilidade a Portugal, entre 27 de janeiro e 2 de fevereiro.

Mi semana fue fantás ca, conocí a muchas personas de otros países y culturas diferentes, hice muchos amigos. Aprendí cosas de su cultura como palabras y platos diferentes, monumentos y otras cosas famosas. Me encantó la experiencia en Marinha Grande y quiero repe r. Sobre los portugueses, creo que son sociales y muy felices. Aprendí algunas palabras como Obrigada = agradecida, Boa Tarde = buenas tardes Lucía Castro Cid, Espanha Este intercambio ha sido una gran experiencia para mi. Los portugueses son encantadores y acogedores, me enseñaron can dad de lugares que me encantaron y también me enseñaron algunas palabras como obrigada, boa tarde, tenho fome...Y me sorprendió el hecho que en los úl mos días podía fácilmente comprender la mayoría de las palabras aunque me encantaría aprender más. ¡Recomiendo este proyecto a todo el mundo! Ana María Díaz Cortés, Espanha Ho imparato alcune parole in portoghese, per esempio: Bom dia, Boa noite, Olá, Obrigada, Como estás? Adeus.

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Mi piace un sacco il cibo portoghese, per esempio, il bacalhau, la carne e i dolci pici. Trovo la scuola fantas ca ... E' enorme! Gli studen sono sempre puntuali. Ho imparato a conoscere un'altra cultura, diversa ma al tempo stesso vicina. Voglio tornarci! Ludovica Ferrari, Itália Della mia se mana in Portogallo mi è piaciuta sopra u o l'ospitalità. I portoghesi sono diverten e rilassa . Abbiamo fa o diverse escursioni in pos diversi. Mi è piaciuta molto Coimbra. Ho imparato molte cose della loro cultura e anche molte parole come boa tarde. Ho assaggiato mol dolci come il pastel de nata. E' stata un'esperiena magnifica! Susanna Tricomi, Itália Ich habe viele Dinge über Unabhängigkeit gelernt, was es bedeutet in einer fremden Familie zu sein, in einem fremden Zuhause und besonders mit einem Austauschpartner den du nicht kennst. Es war schwierig sich einzufinden und diesen neuen Leuten zu zeigen, wer ich bin. Du lernst auch, dass du offen und zuversichtlich sein musst, um tolle Erfahrungen und Erinnerungen zu erleben. Außerdem habe ich auch herausgefunden, dass nicht jeder gleich denkt wie du. Jeder hat eine besondere Persönlichkeit, es ist deine Aufgabe das zu akzep eren und zu schätzen, denn jeder ist ganz besonders auf seine eigene Art und Weise. Und das habe ich während meiner Zeit in Marinha Grande gelernt! Aurelia Tens, Alemanha

Einige Dinge liebte ich von der Woche in Portugal: Die überaus hervorragenden Nach sche, die ich jemals in einer Schule gegessen habe. Leidenscha liche Schüler, die uns willkommen hießen und dafür sorgten, dass wir uns zu Hause fühlten. Lebha e Geschichtslek onen täglich nach dem Abendessen von unseren Gasteltern. Eine überwäl gende Nacht, die ich mit Freunden verbrachte, die ich gerade erst wenige Stunden kannte. Mia Wang, Alemanha Adorei esta semana porque ve a oportunidade de conhecer pessoas novas de diferentes nacionalidades e de estabelecer grandes laços de amizade com as mesmas. Além disso, tomei conhecimento de diferentes culturas e conclui que apesar das diferenças somos todos humanos e iguais. Joana Félix, Portugal Esta semana foi uma das melhores experiências da minha vida! Foi a primeira vez que par cipei num projeto assim e posso dizer que superou as expecta vas. Conheci pessoas incríveis e com quem me iden fiquei, mesmo sendo de outro país. A par lha de culturas proporcionada pelo projeto foi muito enriquecedora, aprendi coisas que levo para a vida. Bianca Gomes, Portugal


DAR SANGUE PARA SALVAR

“Deem. Não custa nada” P&V

Pelo 15º ano consecu vo, a professora Clara Oliveira dinamizou, na Calazans Duarte, a campanha Dar Sangue Para Salvar. A campanha começou na manhã do dia 7 de março, com uma sessão de esclarecimento e sensibilização para alunos do 12º ano, e terminou no dia 12, com a recolha de sangue. Este ano, foram 37 os dadores de sangue, 30 dos quais pela primeira vez, num total de 50 inscritos. Registaram-se 28 pessoas para potenciais dadores de medula óssea, tendo sido considerados aptos, apenas 21. Números que, para Clara Oliveira “ficam sempre aquém das expeta vas”, mas que para o Presidente da Associação dos Dadores de Sangue da Marinha Grande, (ADSMG) Aníbal Curto, “são sa sfatórios”, registando que “este ano a mensagem da sessão de sensibilização passou para os pais dos alunos.” Assim, a forma como decorreu a sessão de sensibilização deve ser considerada, em grande parte, responsável pelo sucesso dos números alcançados. Vários elementos do painel dinamizador, consideraram o auditório “muito par cipa vo e interessado”, como se percebeu pelas dúvidas colocadas pelos jovens, que foram totalmente esclarecidas. O entusiasmo contagiante de Clara Oliveira, que nesta sessão contou a história de Jéssica, a menina que, há 15 anos, a mo vou a iniciar estas campanhas, e a clareza da lição sobre sangue, medula, processos técnico-cien ficos de recolha, condições para ser dador e números da compa bilidade, dada por Rui Fernandes, professor de Biologia e há muito parceiro desta inicia va, lançaram ao auditório as questões para reflexão. Mas foram os testemunhos de Manuela Ribeiro, sobrevivente de um transplante de medula, Norberto Santos, dador de sangue e de medula óssea, e Teresa Nóbrega, mãe de um ex –aluno da Calazans, que não sobreviveu, porque após tratamentos muito agressivos já não pode levar transplante, que, com testemunhos emocionados, trouxeram, ao auditório, a dimensão de humanidade do gesto solidário de dar sangue. O apelo de Aníbal Curto para a doação de sangue “porque todos os dias são necessários nos hospitais portugueses mais de mil transfusões de sangue”, bem como apelos gravados de figuras mediá cas, (Jorge Mourato, Carla Andrino, Pedro Perna e Carlos Mar ns) reforçaram a sensibilidade do auditório. Todos estes preciosos contributos foram, seguramente, responsáveis pelos números a ngidos este ano na recolha de sangue.

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REDE DE ESCOLAS PARA A EDUCAÇÃO INTERCULTURAL

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Revista P&V Março 2019  

Revista P&V Março 2019 - Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente

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