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Esta revista faz parte da edição nº 2892 de 20 de fevereiro de 2020 do Jornal da Marinha Grande e não pode ser vendida separadamente

MARINHA GRANDE

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

POENTE

gic

gabinete imagem e comunicação

fevereiro 2020

.,

SER EUROPEU


“LIVROS [JORNAIS] SÃO PAPÉIS PINTADOS COM TINTA“ - Fernando Pessoa Editorial

“Livros [Jornais] são papéis pintados com nta“ – Fernando Pessoa Nesta edição do P&V pintada de nta destaca-se uma secção dedicada a um dos maiores poetas da língua portuguesa, Fernando Pessoa. Os textos produzidos por um grupo de alunos do 12º ano, sob a batuta das professoras de Português, Sofia Duarte e Isabel Brás, percorrem a obra desta incomparável figura da nossa Literatura. Do mesmo modo, e em jeito de singela homenagem, o Improptu do nosso colaborador Diogo Heleno, no seu es lo par cular, discorre acerca de duas figuras que ficaram gravadas na história do nosso Agrupamento. Figuras que têm alma, mas com pouca calma, que põem quanto são no mínimo que fazem, e que são grandes,

inteiras (parafraseando as oportunas palavras de Pessoa: “Quem tem alma não tem calma”, “Para ser grande, sê inteiro”, “Põe quanto és/ no mínimo que fazes”), marcos incontornáveis da nossa escola, que, por razões diversas, se ausentaram no presente ano le vo: Alice Marques e Manuela Pires. Do mesmo colaborador, destaque para a primeira parte de uma reportagem sobre a educação em Portugal e no espaço europeu. As habituais rubricas Gosto/Não Gosto (Adriana Simões), Chamar a Música (Débora Francisco), Pé de Dança (Inês Duque), Vim de Longe, Mãe Terra (Sofia Puglielli assina as duas) e Enquanto o Tempo não Passa (Tomás Vicente) e Os Pontos e Vírgulas da Educação Inclusiva (Alda Santos) ocupam merecido lugar nesta edição, com apontamentos diversos acerca das mais variadas temá cas. Da responsabilidade de Jorge Alves, um novo colaborador com pergaminhos reconhecidos no panorama literário, surge a

rubrica A Propósito de com (mais uma) homenagem à nossa querida Alice Marques e as suas impressões sobre um concerto do sempre inspirador rebelde Zeca Afonso. Fazemos ainda uma breve incursão pela China, pela mão de Susana Graça, no âmbito do concurso em que par cipou. Em dois breves textos exploram-se os desafios da Educação e Formação de Adultos e as a vidades levadas a cabo no âmbito do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Destacam-se ainda os dois parceiros, MatosGest e Grupo Iberomoldes, que se juntaram a nós neste projeto, dando sen do pleno à ideia de construção de parcerias a todos a níveis, que devem ser estabelecidas entre a Escola e as diferentes ins tuições da comunidade. E porque “cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito” (Fernando Pessoa), esperamos, caros leitores, que, com esta edição, conheçam um pouco mais.

Coordenador: José Nobre AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

MARINHA GRANDE

POENTE

Redação Residentes: Alda Santos, Adriana Simões, Beatriz Menino, Débora Francisco, Diogo Heleno, Inês Duque, Jorge Alves, Tomás Vicente, Sofia Puglielli e Susana Graça

Coordenação:

gic gabinete imagem e comunicação

Redação: António SantosFábio Cardeira, Joana Couto, Mariana Oliveira, Pedro Ferreira, Rui Verdasca e Sofia Duarte Impressão: Gráfica Diário do Minho

Tiragem: 4000 exemplares

Produção gráfica: gabineteimagem eseacd

., junho 2019


COMEMORAÇÃO DO DIA INTERNACIONAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA NO AGRUPAMENTO Alda Santos

No âmbito do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, que se assinalou no dia 3 e 4 de dezembro e enquadrado no Plano de A vidades do Agrupamento, o grupo de Educação Especial levou a cabo várias a vidades. No Ensino Pré-Escolar e 1º Ciclo contaram-se histórias adequadas ao tema, houve jogos e ainda a projeção de uma pequena animação. A Sala S f, da EB Guilherme Stephens, convidou o professor Jorge Alves para par lhar com duas turmas, uma de 7º e outra de 8º ano, a sua perceção do mundo, na a vidade designada “Mundo de outros olhos”. Nas sessões, os alunos, após ouvirem o relato na primeira pessoa do que é ser cego, veram a oportunidade de colocar as mais variadas questões sobre a vida e as dificuldades que um

invisual enfrenta. Assim, vendaram os olhos e fizeram percursos tendo como guia um colega e uma bengala. O ambiente foi alegre, descontraído e enriquecedor, tendo-se verificado que os alunos experienciaram e desenvolveram sen mentos de solidariedade e de par lha para com as pessoas que, no seu diaa-dia, enfrentam as mais diversas barreiras. Ainda neste estabelecimento de ensino, os alunos puderam experimentar jogos sensoriais e uma demonstração de judo (Judo4all) por parte da Equipa Paraolímpica Na Escola Secundária Eng. Acácio Calazans Duarte, grande parte das turmas teve oportunidade de visionar a animação “Cuerdas” e, no final, refle r, de forma muito breve, sobre inclusão e deficiência. Essas reflexões foram depois colocadas num mural, junto à Mediateca.

No átrio foram expostos (e vendidos) alguns dos trabalhos realizados pelos alunos do 10º e 12º anos que frequentam a área de Autonomia Pessoal e Social. A inicia va designada por “Cria vamente Diferente” permi u angariar fundos para a vidades futuras. Refira-se ainda que o Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família também par cipou nas a vidades comemora vas deste dia com a exposição de trabalhos realizados pelos alunos. Relembremos que “todo e qualquer empreendimento que visa a inclusão só terá bons resultados quando o diferente for aceite como parte integrante e indissolúvel do ser humano.”

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IMPROPTU Diogo Heleno Diz o redator, dirigindo-se a mulher de salto alto rubro, blusa de fita veludo-verde: – Talvez se tenha tornado em lugar-comum, é hoje dado adquirido, factual e axioma. Já não se estranha... – (interrompendo) Pouco se entranha, por conseguinte, que já não se tenha entranhado. – (surpreendido) Exato, isso mesmo… (retoma o tom inicial) E a repe ção aborrece não por exis r, mas por ter de exis r constantemente… – Untura para a cegueira alheia! – (surpreendidíssimo) Mas que bem!, que sub leza de comparação, senhora leitora! – Ai muito obrigada! Mas prossiga, prossiga. – Estava dizendo que a própria expressão nauseia de tanto puída… – (interrompe, de novo) Deixe-me adivinhar: Alterações Climá cas… – (novamente surpresa) Hoje impressiona-me sinceramente. – E afora hoje todos os dias, espero. – (seco) Mensalmente, direi, mas, con nuando, falava das Alterações Climá cas, (acelerando) Changement Clima que, Cambiamen clima ci, Climate change, Klimawandel… – (rápida) Izmeneniye klimata… – Também russo, senhora leitora? – (al va) Há muita coisa que ignora sobre mim. – (diver do) Ai sim!? E eu que julgava que a nossa relação era menos séria, menos de circunstância. – (disfarçadamente al va) É como disse, “mensalmente”. – (rindo) Touché! Mas olhe que sinto um pico de acidez nesse comentário. – É das medicinas que tomo, das pas lhas de ácido fólico. – Esse das hortaliças, das amêndoas, da levedura da cerveja, (brincalhão) e com tanta ainda necessita de excedente? – (rindo) Eu?, sempre seríssima! Com a minha vasquinha de cote, mais branca que a neve pura, chove em mim graça tanta, que dou graça à fermosura. – Vai fermosa mas bem segura! (riem-se ambos) – Estou a ver que não perdeu o sen do de humor desde o mês passado. – Desde há dois meses, que em janeiro não publiquei! – Ah, estou a ver, então avance, avance, que entretanto me perco na leitura. – Se o pede, é ordem. (retoma o tom sério) Estava então falando de Alterações Climá cas, uuf! e que enfado repe r esta coisa quando um mundo debita a expressão em bebedeira de urgência. E Wangarĩ Muta Maathai não foi diferente desse mundo. “Quem?”, e a pergunta surge com toda a jus ficação, querido leitor, leitora, que a fizestes. – (indignada) Não fiz pergunta nenhuma, ora que esta!, e onde diz estar essoutro leitor? – E isso é tudo curiosidade!? – É a veia jornalís ca. – A jugular, essa? – Aorta, caró da, coronária, ulnar, todas juntas, todas um. – Vejo que a obje vidade jornalís ca se perdeu pelo caminho, enumerou artérias, não veias. – Isso pensa o senhor!, a minha obje vidade é mais que jornalís ca, é matemá ca. – E isso é possível para quem troca artérias com veias e di-las o mesmo e um só? – Então não se vê logo que a matemá ca é das mais subje vas? Mas vá, não tenho pachorra para esta conversa, avance, avance que gosto da mulher que escolheu desta vez! – Então mas porquê? – Porque me perguntou. – Desculpe? – Porque a resposta não é óbvia, em muitos sen dos foi a desimportante, a mulher negra que se elevou sem prerroga vas, mas o senhor deverá saber com certeza mais que eu, avance, avance. – Bom, Maathai é uma mulher africana, reconhecida a vista polí ca, ambiental e social, agregadora de um espírito democrá co, queniana, escritora, nascida a 1 de abril de 1940 em Ihithe, estudante em Nairobi e Pi sburgh, conhecida pela fundação da GBM. – A malta já deveria conhecer a minha aversão às siglas! Mas vá, fala da Green Belt Movement, associação nãogovernamental indígena empenhada na conservação da natureza, estou certa? – (rindo) Como não poderia deixar de ser. (prosseguindo) E dela: “Casada?” Talvez. “E filhos?” Quiçá, mas nenhuma das anteriores perguntas é necessária à compreensão desta figura e revelariam dela aspetos, no mínimo, secundários, desinteressantes para a mais imaculada das publicações e para os mais superiores, lúcidos e prendados escritores que nunca votariam à crí ca alheia o seu trabalho por conter referências vagas, corriqueiras, mexericos e forrobodó que poderiam pôr em causa o bom nome deste jornal seríssimo! [– Casada sim, mas só até 1977, separação complicada, economicamente custosa, com advogados para lá e para cá, sabe como é, é só ladroagem!, dificuldades em sustentar as propinas dos filhos, oferta de emprego promissor, emigração para a Zâmbia, separação dos filhos que ficaram com o pai, mas olhe, vizinha, dizem as más-línguas que… – Ui! – Que horror, ui! ui! cruzes credo, Ave Maria gra a plena…]

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– (indignada) Mas o senhor redator achava-me capaz de perguntar por bisbilho ce? Ainda não estou senil! – Longe disso!, já fiz questão de o repe r! É dos espíritos mais salutares, mais joviais que conheci! – Ah bom! Mas estava a dizer da Maathai… – (completando) Que enfrentou corajosamente o regime déspota queniano, contribuindo para a tomada de consciência mundial da opressão polí ca, servindo de inspiração a muitos outros, palavras do Comité Norueguês que a premiou, em 2004, com o Prémio Nobel da Paz, não minhas, e aqui, querida leitora, peço que me admoeste o não colocar as bem ditas comas que nestas situações resolveriam a imprecisão da referência, é por mandriice, nada mais. – Desculpadíssimo, eu aqui a ouvi-lo tão concentrada nem notei pela diferença! (de repente, boquiaberta) Ah! E que grande esquecimento, que falta imperdoável! Onde é que já se viu tratar assim um convidado? O senhor redator não quer tomar nada? Chá, café?, uns rebuçaditos? – Agradeço a atenção, mas vou recusar desta vez. Faz isto com todos os redatores, chama-os a casa, oferece-lhes guloseimas? – Ler e dividir rebuçados fi-lo sempre a vida toda, a todos e por todos. – Todos quem? – A todos os momentos, por todos os meninos, é o meu o cio, gosto de aprender do que me é capaz de mostrar um ângulo novo de ver as coisas, estar em constante rearranjo de ideias, comer e dar de comer. Mas con nue, estava dizendo… [– Você acredita, vizinha, que a moça foi dizer ao Da Setandarde… – Da quê? – Um jornal de lá, leia aqui, «THE S-TAN-DARD»: da setandarde! – Ah bom! E o que é que a negra disse? – Ora, que a SIDA nha sido criada deliberadamente para dizimar a população africana, onde é que já se viu? – Olha que esta!, cá para mim é… cala-te boca! – Ave Maria gra a plena…] – Que depois de uma vida plena, Wangarĩ Muta Maathai acabou por falecer de um cancro nos ovários, a 25 de setembro de 2011 na capital do seu país de origem, Nairobi. [- Vê vizinha!, Deus cas g…] – (interrompe violentamente, gritando) E não é que o raio das velhas ainda estão na soleira a praguejar!? (berrando) SUAS GRANDESSÍSSIMAS ABELHUDAS! REZE, REZE QUE QUEM PECA É VOCÊ!!! (desabafo, dirigindo-se à leitora) Ufa! Era demais! – (séria, circunspecta, refle ndo) Agora achei-o frio. – Com aquelas duas? – São leitoras? – Só do que lhes convém. – Ah, compreendo, mas não era delas de quem falava há pouco, acho que foi frio na forma como terminou por falar do falecimento de Maathai. – Frio? – Breve. – Peço perdão. – E vai fazer alguma coisa para remediar isto? – Já o escrevi, já o leu. – Ainda estou aqui, ainda vejo. – Por vezes esquecemo-nos disso. – Do quê? – De que os outros estão ali e veem. – Ah sim? – Gostava de lhe agradecer imenso pelo que fez por mim, querida leitora. – Fazer de si o quê, um redator? Porque sem leitores, não há redator. – Não é isso. – Eu entendo, não precisa escrever. – Então em remate que tal: Jaz ali, no Oriente queimado, A que à vida, ciano, afastado, Pelejou. E assim de su'altura, negro não se viu: cegav'a brancura…O que acha? – Bonito epitáfio… Desça a cor na, (acelerando, energicamente) afogueiem-se os candeeiros, levante-se a plateia, ovações para este jornal e para os seus escritores! – Todo esse entusiasmo para um rótulo de cadáver. – O senhor redator, mais do que eu, sabe bem que não é assim. – Como é que pode ter tanta certeza? – Porque é o senhor que o escreveu e me escreve a mim. – Está então a dizer que para além do que escrevo, a senhora não é ninguém. – Nada disso, eu não só sou como existo. De outra forma como poderia estar a falar comigo? – Não sei, julgo que o faria tal como quando falamos a nós mesmos. – Aí está. Existo porque fala comigo e não sou o senhor. – Então tem nome pelo qual a tratar? – Claro que sim, mas “leitora” não lhe basta? – Gostava de a conhecer. – É di cil conhecer-me. – Sei que sim, mas não me importa, a senhora é também suspeita, “am[a] o Longe e a Miragem, / Am[a] os abismos, as torrentes, os desertos”, não é verdade? – (surpreendida) Para quê conhecer-me mais se já o sabe? – Porque mo disseram, agora gostava de aprendê-lo por mim. – Talvez tenha razão. O nome é um bom começo. – Apelido? – Manuela. – Primeiro nome? – Alice.


ALICE: A ARTE DE VIVER AS UTOPIAS Jorge Alves

Muitas pessoas deixam passar a vida por si como se ela não lhes pertencesse, como se não pudessem agir para delinear o rumo do seu des no, esperando apenas, pacífica e passivamente, que o futuro lhe caia aos pés, desejando conseguir a felicidade e a realização pessoal de forma gratuita ou como o prémio de qualquer concurso só acessível aos clientes mais fiéis da sorte e da fortuna. No entanto, as pessoas que se dis nguem e que deixam uma marca indelével naqueles que compar lham o seu espaço vital, por serem fazedoras de caminhos, construtoras de abrigos de amizade, de lares de beleza, de casas de fraterna cumplicidade, essas são joias raras que devemos preservar e relembrar, por serem as que nos ajudam a moldar o espírito nos valores mais grandiosos da humanidade. Uma dessas pessoas, que nos marca pelo seu exemplo, pela sua lealdade, pela sua inques onável generosidade, é a Professora Alice Marques, que adotou esta nossa cidade da Marinha Grande como sua terra e que, desde há muitos anos, tem entregue a sua vida, o seu tempo, a sua saúde para engrandecer o nome da Escola Secundária Calazans Duarte, fazendo desta escola e desta terra um imenso espaço de compreensão, aceitação e integração do outro, sempre movida pelas grandes causas, com a sensibilidade de quem faz das artes o seu viver quo diano. Quem não se lembra daquela jovem a va que se fez notar por tantas inicia vas culturais que “mexeram” com esta terra, na ocasião, tão votada ao marasmo é à descrença das con nuas crises dos anos oitenta do século passado? Quem não se lembra das polémicas, dos ar gos que nos faziam discu r e pensar, que ela fez publicar no “Correio da Marinha Grande”? Mais recentemente, quem não recorda o empenho que ela demonstrou para que a nossa terra e a nossa escola fossem um exemplo de tolerância, de hospitalidade, de fraternidade entre os povos, quando ajudou a receber e a integrar os primeiros refugiados iraquianos que o nosso país recebeu, ou ainda mais recentemente, quando orgulhosamente cobriu as árvores do

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nosso recinto escolar com as cores de todas as nações, valorizando, ao mesmo tempo, o labor eterno das mulheres, aquelas que, carregando metade do céu sobre os seus ombros, suportam um esforço e um sofrimento inques onavelmente muito maiores, com pouco ou nenhum reconhecimento por parte da nossa sociedade dominava por aqueles que se autodenominam “o sexo forte”? Isto, para não ser exaus vo e ter que citar muitas outras inicia vas que tanto marcaram pela sua beleza e sensibilidade. Destas grandes causas se tem feito a vida desta mulher guerreira, desta mulher que tanto se dá aos outros e nada pede em troca, desta mulher capaz de iluminar as estradas do mundo com as cores de todas as artes com quem não nos cansamos de aprender o espanto e a sedução. É também com ela que, ao longo destes já longos anos de convivência e de cúmplices trocas de experiências, temos avançado pelos caminhos das utopias, em que quase só ela acredita, mas que teimosamente con nua a abraçar, com o seu espírito de ar sta rebelde e inconformado, ensinando-nos quo dianamente as cores e as formas da beleza do mundo, da beleza construída por quem faz da vida o lar universal da igualdade, da fraternidade e da liberdade, como os grandes heróis das gloriosas

batalhas que inflamam mais profundamente os momentos das grandes transformações da nossa sociedade: da libertação do escravos, da igualdade entre povos, da queda dos déspotas ranos, da dignificação de todos (homens e mulheres), num mundo sem opressão. É com esta professora, ar sta, mentora de vontades, exemplo de vida, que queremos con nuar a aprender, ao longo de muitos futuros anos, que queremos con nuar a ver as belezas da vida e da criação ar s ca que engrandecem e enriquecem a nossa existência: os únicos e verdadeiros valores que dão sen do ao viver do Homem. Por isso a chamamos a este jornal, ao qual tanto alimentou, fazendo dele uma referência de qualidade, de empenho, de par cipação a va de muitos e muitos dos nossos alunos e de muitos professores que lhe estão eternamente gratos, sedentos da sua lúcida sabedoria e também da força das suas ideias. É sempre junto a nós que te queremos, nossa amiga e mestra, Alice!


DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO DE ADULTOS (DEFA) – METAS E DESAFIOS Sofia Duarte| coordenadora do DEFA e do Centro Qualifica A pluralidade de públicos que frequenta hoje a escola, conjugada com o aumento da escolaridade obrigatória para os 18 anos, traz desafios importantes para este agrupamento, cuja resposta, entre outras, tem sido a aposta na diversidade de modalidades de formação. O tecido económico e empresarial da Marinha Grande tem conseguido, mesmo no contexto da crise iniciada no país em 2010, ser gerador de emprego. Este aspeto tem do impacto na comunidade escolar do agrupamento, que é cada vez mais mul cultural, havendo um número crescente e significa vo de alunos e formandos adultos estrangeiros, originários de vinte e seis países, destacando-se a Índia, o Paquistão, países da ex União Sovié ca e o Brasil. Apesar desta conjuntura favorável no concelho, ainda assim há um número significa vo de adultos que não concluiu o ensino obrigatório, alguns deles em risco ou mesmo em situação de exclusão social, de jovens adultos com o 12º ano incompleto (alguns destes não estão em emprego, em educação ou em formação, designados – jovens NEET – Not in Educa on, Employment or Training) e de um conjunto significa vo de estrangeiros que procuram a cer ficação da proficiência linguís ca no país de acolhimento como mecanismo de integração social. Assim, não só numa perspe va da aprendizagem ao longo da vida, mas também como um instrumento de valorização pessoal e profissional e de integração social, a educação e formação de adultos protagonizada por este agrupamento tem do como respostas para as necessidades de formação, qualificação e cer ficação da população adulta, através do

Departamento de Educação e Formação de Adultos e do Centro Qualifica que emana daquele, processos de RVCC, cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA), pologias A, B e C, com cer ficação escolar e/ou com dupla cer ficação, cursos de Português para Falantes de Outras Línguas (PFOL) e formações modulares, ao abrigo de parcerias com en dades formadoras externas. A Educação e Formação de Adultos tem do, nesta escola, e desde 2014 no agrupamento, um papel preponderante na oferta de qualificação e cer ficação dos adultos, sendo uma referência no aumento das habilitações escolares e das qualificações da população adulta em cuja comunidade se insere. Reportando-nos apenas a estes úl mos anos, sinalizo a criação do Centro de Reconhecimento / CNO em 2006, que se manteve em funcionamento até 2013. Depois, a criação, desde 2009, do Departamento de Educação e Formação de Adultos, que passou a integrar a oferta forma va e os processos de reconhecimento. Mais recentemente, em 2017, foi aprovado o Centro Qualifica, que se mantém em funcionamento. A grande mais-valia da criação deste departamento é a resposta integrada que é dada aos adultos que se inscrevem através do Centro Qualifica. Assim, através de uma equipa técnicopedagógica, na sua grande maioria com larga experiência na EFA, cons tuída por uma só coordenadora para o departamento e para o centro qualifica, por duas técnicas de orientação, reconhecimento e validação de competências, e por 22 formadores com funções em processos de RVCC, cursos EFA e cursos PFOL, os adultos têm à sua disposição uma ampla oferta, a saber: - Processos de RVCC de nível básico e de nível secundários, apoiados por formação

complementar interna e externa, esta úl ma ao abrigo de protocolos estabelecidos com en dades formadoras; - Programa de Orientação e Capacitação para adultos com baixa escolaridade e poucas competências evidenciadas; - cursos EFA, pologias A, B e C, de cer ficação escolar e de dupla cer ficação (Maquinação e Programação CNC e Administra vo/a); - cursos PFOL, pologias A1+A2 e B1+B2; - formações modulares de nível 4, quer nos cursos de dupla cer ficação promovidos pelo agrupamento, quer ao abrigo de protocolos. Apesar do grande número de candidatos inscritos e da mul plicidade da oferta, o DEFA depara-se com novos desafios, desde que o Centro Qualifica entrou em funcionamento, em 2017. A verdade é que, embora haja uma mul plicidade de respostas, há uma crescente dificuldade (acompanhada no resto do país) de os candidatos concluírem os seus processos de cer ficação, fundamentalmente a nível do reconhecimento de competências. Este facto leva a que a equipa do Centro Qualifica con nue a envidar esforços no sen do de se adaptar a esta nova realidade, através de uma maior flexibilização do processo, acompanhada, simultaneamente, de estratégias de proximidade e de acompanhamento do candidato. É com esta noção que a equipa do DEFA e do Centro Qualifica se confronta permanentemente e se desafia, adaptando-se a novos perfis de candidatos, que os profissionais que trabalham para a educação de adultos neste agrupamento con nuam a empenhar-se no serviço de aprofundamento da aprendizagem ao longo da vida, junto dos cidadãos da comunidade educa va em que se integram.

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MOVIMENTO 14-20 A LER Lemos com Sen do(s) António Santos

Com o intuito de fomentar a leitura junto dos alunos com idades entre os 14 e os 20 anos, o PNL lançou o projeto Movimento 14-20 a Ler, promovendo a leitura e a escrita em contextos não formais: ar culando a leitura e a escrita com outras expressões e linguagens; estabelecendo parcerias com en dades diversas; acolhendo modos de ler que integrem ambientes, recursos e formas de comunicação próprios da cultura remix. Foi no âmbito do Movimento 14-20 a Ler, que a Escola Sec. Eng.º Acácio Calazans Duarte (ESEACD) elaborou o projeto Lemos com Sen do(s), que viria a ser um dos 6 apoiados a nível nacional. Com este projeto a Mediateca, enquanto seu promotor, pretende trazer a leitura para outra dimensão, associando-a aos diferentes sen dos do corpo humano: visão, olfato, paladar, audição e tato. Sendo a ESEACD uma ins tuição com alunos de variadíssimas valências que nem sempre são potenciadas, na interação entre si, com a adesão ao projeto Movimento 14-20 a Ler, acreditamos que se irá criar a dinâmica que permi rá a elevação para um novo patamar, não se limitando ao envolvimento dos alunos do ensino geral, grupo onde habitualmente há mais leitores, mas procurando envolver, aproveitando o seu enorme potencial, os alunos do ensino

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profissional, bem como algumas importantes ins tuições da comunidade. Com o projeto Lemos com Sen do(s) pretendemos colocar os alunos da ESEACD, não apenas a ler, mas a dar um sen do à leitura, através da música, da representação, das redes sociais e da imagem. Queremos os alunos a tatear e “saborear” os livros, pois só assim poderão ser promotores da mensagem em torno da leitura, que deverá estar presente no dia-a-dia da escola. A dinâmica da escola na implementação de diversos projetos no seu seio, fruto do enorme empenho do seu corpo docente, por um lado, e a dinâmica cultural existente na Marinha Grande serão fatores crí cos de sucesso para este projeto, pelo que contamos com o envolvimento do Sport Operário Marinhense, da Associação Tocándar, da Rádio Clube Marinhense (RCM) e da Biblioteca Municipal. Outro parceiro decisivo no sucesso do projeto e provavelmente o mais valioso, são os alunos, os quais desde o início da sua conceção es veram presentes e se mostraram profundamente empenhados no seu sucesso. Com o projeto Lemos com Sen do(s) teremos a leitura e a escrita a aparecer em diversos formatos, como seja: a produção de um flashmob de promoção da leitura; a elaboração de poadcasts sobre leituras, para transmissão

na Rádio Calazans; a produção de um áudiolivro, com banda sonora; a representação de excertos de livros através de dioramas; a realização de tertúlias em torno dos livros; a confeção de uma refeição com ementa inspirada num livro e/ou autor; a drama zação de textos; a gravação e transmissão de declamações na RCM; a realização de diversos concursos, não apenas de escrita, mas também em torno do uso da ilustração e da imagem vídeo, entre muitas outras a vidades. Lemos com Sen do(s) é um projeto para 3 anos e que acreditamos irá revolucionar a ideia de leitura da população escolar da ESEACD.


PERANTE A EUROPA, DE SÚPLICA A Educação em Portugal e na Europa Diogo Heleno

Parte 1: A Íris “Pode dizer-me, por favor, qual o caminho que eu devo tomar? – disse Alice. – Isso depende muito do lugar para onde quer ir. – disse o Gato. – Não me importa – disse Alice. – Se assim é, então qualquer caminho serve. – disse o Gato.” (Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas) Antevê-se uma agitação violenta. Ameaça-se chuva. Doem-me os joelhos. Dia 15 de janeiro de 2020 tulava o jornal Expresso “Professores de Inglês a dar aulas de Português e os de História a dar Geografia: falta de docentes leva Ministério a medidas urgentes”. No Público, lêse que “Em Lisboa [se] recorre a professores sem habilitação profissional para a docência” ou que o “Orçamento da educação cresce muito pouco”. Mas os primeiros indicadores de que há algum problema, não são notas informa vas, comunicações da Direção-Geral da Administração Escolar, conferências de imprensa do Ministro da Educação… são aquela dor de meniscos. Já se sabe: Vulcerant omnes, ul ma necat; Todas ferem, a úl ma mata. E no nosso caso, vivemos ficando à espera de que nos quebrem as bias. Não se deve ler nisto nenhum drama smo reverente, muito menos um cenário préApocalíp co. Aliás, as perspe vas são promissoras. Quem no princípio do século XXI par cipava ou seguia debates sobre educação viu, entre 1996 e 1998, as primeiras reações aos resultados do primeiro TIMSS (Trends in Interna onal Mathema cs and Science), realizado em 1995, ou mesmo os resultados do primeiro PISA (Program for Interna onal Student Assessment), publicados em 2001. E nestes, era verdadeiramente las moso um Portugal sempre em fim de tabela, “a dois países do pior colocado a Matemá ca nas avaliações TIMSS e, no PISA de 2000, apenas com quatro países pior colocados a Matemá ca, cinco a Literacia e três a Ciências”.

(Dante Alighieri, Purgatório – Divina Comédia) E a subida veio de enxurrada, em precipício: Exames no final do ano terminal da escolaridade obrigatória em 2004 a Português e Matemá ca, realizados a par r de 2006. Sistema de avaliação externa de melhoria e creditação dos manuais escolares em 2007. Em 2010 primeiros passos para estabelecer Metas Curriculares,

concre zadas em 2012. Iniciaram-se Provas Finais, no 6.º e 4.º ano de escolaridade. “Maior rigor nos programas e na avaliação, de aperfeiçoamento dos materiais de estudo”, pelas palavras de Nuno Crato. Entretanto novas provas no 8.º ano e 5.º ano, foram-se as de 4.º e 6.º, etc., etc., etc.

II. “Catão de Ú ca pergunta aos dois Poetas qual é o mo vo da sua jornada. Ele os instrui, antes de iniciar a subida do monte.”

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III. “Aquela terra de suavidade / Que na ilha extrema do sul [norte] se olvida…” (Fernando Pessoa) Hoje, Portugal está acima da média da OCDE no PISA, mas ainda longe da realidade perfeita, dos modelos que operam moderna e exemplarmente. E essa parece não ter um nome mas vários. Ele é Suécia, ele é Noruega, Dinamarcas, Finlândias... A prova da eficácia dos modelos educacionais dos Escandinavos refletese na sociedade nórdica, na economia, nas suas finanças, cultura, qualidade de vida. Apesar de tudo, a forma como os alunos Europeus (eis as Ilhas Afortunadas) vêm a educação nos seus países de origem poderá revelar detalhes, no mínimo, insuspeitos para o mais comum dos observadores mediterrâneos. Atente-se, portanto, no seguinte: Em ques onário subme do a 140 alunos, entre os 16 e os 18 anos de idade, de 24 nacionalidades europeias, absolutamente nenhum considerou conhecer o sistema educa vo português de nenhuma forma (até aqui, o esperado). O mesmo cenário se repete quando se ques ona alguma vez terem pensado estudar em Portugal (idem). No entanto, cerca de 50% da amostra considera abandonar o próprio país para prosseguir estudos, consideram, grosso modo, a educação no seu país claramente deficiente (Balcãs, an ga Jugoslávia, Chipre, Itália e Espanha), com necessidade de restruturação

(Bélgica, Países Baixos, França) ou, simplesmente, um assunto di cil de sinte zar (Alemanha, Escandinávia, Países Bál cos e Europa Central), considerando que assistem a uma sociedade que classificaria a sua educação, em média, em 3,5 valores (de um total de 10). Jan Livens, belga, acaba por resumir a opinião de todo o universo estudado quando refere que “na educação [belga] é projetada uma adultez injus ficável, que [a] torna voltada de costas para os interesses dos estudantes”. Quanto à equidade de oportunidades, as opiniões são claramente divergentes, com uma dis nção de dois grandes grupos de alunos: os que atribuem uma classificação que ronda os 2 valores de um total de 10 (Europa de Sul, Países Baixos, Países Bál cos); e os que fazem essa avaliação próxima dos 9 (Alguns países do Centro e Sul da Europa, Escandinávia). Por fim, a distância ao modelo ideal de educação parece ser unânime: exatamente a meio da escala (5 de 10 valores), para pra camente toda a amostra. Camille Bigourie, de nacionalidade francesa, acaba por defender que o Ideal deveria ser “baseado nas especificidades culturais de cada país, cul vando uma educação própria, iden tária, abordando vertentes pessoais, culturais e universais”. E, neste ponto, aonde os palmares de sonho sueco? E as perfeitas áleas holandesas, belgas, alemãs?... Toda a recolha de dados realizou-se por inquérito escrito eletrónico entre os dias 17 de

dezembro de 2019 e 19 de janeiro de 2020. Conclusão? São rosas, senhor, são rosas, e que alvas, mas não vades olvidar que atrás daquelas corolas ei-los os espinhos, os acúleos, que sempre os há.

IV. “Ilha próxima e remota, / Que nos ouvidos persiste, / Para a vista não existe” (Mensagem, Fernando Pessoa) Observemos a íris, ali me da entre a negra pupila e a leitosa escleró ca, é fácil de iden ficar. Tem cor… Os puristas dirão que Portugal não foi, não é exemplo no que respeita a educação, e terão toda a razão. Empenhou-se, sim, no virar de século. Atualmente a gestão de recursos humanos e o envelhecimento da classe docente anteveem um futuro incerto e o debate con nua, mas parece que a cópia gratuita dos modelos dos povos setentrionais não é a melhor solução. A verdade é outra, e outra a pessoa. A cor é castanha, não a queiram anil ou celeste. Mudança, precisa-se. Mime smos não.

Epílogo Afinal, há 160 000 000 de joelhos europeus que, em uníssono, doem. Quem os olha daqui, ainda tem os olhos castanhos. Segue-se o cristalino, e com ele o foco, o restrito…


AVENTURAS PELA CHINA Concurso na China Susana Graça

O concurso, que tem sido descrito nas úl mas edições do jornal, nha várias etapas, sendo que a que vou abordar é a primeira. Houve cerca de 120 estudantes a par cipar nesta compe ção e apenas 30 passaram para a segunda fase. Fomos acolhidos por uma escola, para onde nos deslocamos 3 dias seguidos. No dia 22 de outubro realizamos um teste de 50 perguntas de escolha múl pla. Na verdade, exis a um site que nha 300 perguntas que poderiam surgir, sendo que dessas apareceram apenas 30. As restantes eram perguntas completamente aleatórias. A fase seguinte seria a do discurso, que se realizou no dia 23, incluindo perguntas dos jurados. Dois dias antes desta fase, fizeram uma lista das 10 perguntas que poderiam ser escolhidas por parte dos mesmos, o que acabou por não dar tempo a ninguém para as estudar. O discurso só podia durar 2 minutos e o meu nha

quase 3 e, no dia anterior, ve de reformular o discurso e tentar memorizar as perguntas. Felizmente, correu tudo bem e acabei por me diver r imenso. A úl ma fase foi a das atuações. Certo é que exis a uma enormidade de opções para esta prova de talentos. Qualquer atuação era válida desde que es vesse relacionada com a cultura chinesa, por exemplo: cantar ou tocar instrumentos tradicionais, fazer teatro/ópera, kongfu, dançar, entre outros. Eu fui bailarina durante 10 anos, por isso decidi que este úl mo era o talento ideal para mim. Neste dia foram publicadas as classificações e quem eram os 30 alunos que passariam à segunda etapa. Eu não consegui passar, mas os que avançaram eram, de facto, merecedores. Honestamente, a melhor parte do concurso inteiro foi a convivência. Não havia ninguém triste por não ter passado, pois exis a um grande apoio entre todos os concorrentes. Vários par cipantes já eram fluentes na língua,

mas também estavam lá alunos que não nham mandarim sequer há meio ano. Por muito que exis sse discrepância rela vamente ao tempo de ensino, certo é que toda a entreajuda entre par cipantes só tornou a experiência melhor. Os alunos da escola eram extremamente acolhedores, estando sempre dispostos a intervir no que fosse necessário e nham sempre uma palavra amiga. Antes de ir para a China, o ins tuto pediu para levarmos algo tradicional do nosso país e eu decidi levar imenso chocolate para par lhar com toda a gente e, para retribuir, os alunos davam-me imensas prendas. A fase seguinte seria a eliminação de 15 dos 30 concorrentes restantes. Quem não conseguiu passar ficou a passear pela cidade e a visitar diversos locais de entretenimento. Embora não tenha experienciado o que restava do concurso, pelo menos consegui ir a locais maravilhosos que descreverei na próxima edição do jornal.

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PÉ DE DANÇA Inês Duque

“POLÍMATA”

Hoje em dia é bastante comum as pessoas possuírem mais do que uma profissão ou hobbie. Um ó mo exemplo disso é Vítor Gonçalo Palminha Fonseca, mais conhecido por Cifrão ou até mesmo por Zé Milho. De facto, sente-se realizado nas áreas de artes, como a música e canto, a dança e a representação. Desde a sua infância que demonstrava curiosidade e entusiasmo nestas vertentes, pelo que se dedicava imenso a elas. Ao entrar no mundo da dança aos 16 anos e admi r “não ter jeito nenhum para aquilo”, revelou que a persistência e a força de vontade abrem asas. Aos 19 anos, entra no Conservatório D. Dinis (criado em 199192) e aí começa a sua jornada musical, através do piano, do canto e da teoria musical. Atualmente, com apenas 40 anos, Cifrão é um dos jovens mais visionários e empreendedores do programa de dança nacional. Assim, deixa de ser um mero bailarino de Street Dance e é agora uma das maiores referências de dança de Portugal, sendo que já foi jurado e diretor ar s co de programas de televisão, tais como “A

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Tua Cara Não Me É Estranha”, “Dança com as Estrelas” e “Let´s Dance”, embaixador do Rock in Rio Lisboa e, ainda, coreógrafo das novelas da TVI desde 2006. Em 2015, começa um projeto chamado “Online Dance Company”, o qual tem o intuito de juntar os melhores bailarinos portugueses, sendo que estes têm a oportunidade de mostrar e de dar a conhecer o seu talento por esse mundo fora. Todos os trabalhos (em formato de vídeo) realizados pelos bailarinos são avaliados online pelo público e, ainda, por um painel de jurados com méritos reconhecidos no mundo da dança. Mais recentemente, em 2018, Cifrão, em conjunto com o Holmes Place (conjunto português de ginásios), abre uma rede de escolas de dança por Portugal – Cifrão Dance School. Localizada em Algés, Alvalade, Arrábida, Braga, Coimbra e Tejo, nesta escola de dança pode-se aprender desde o ballet até kizomba e salsa. Na parte musical da sua vida, Cifrão foi um membro da banda D´ZRT, juntamente com Angélico Vieira, Paulo Vintém e Edmundo Vieira. Esta banda vem de braço dado com a fase de

representação de Cifrão. Na época dos “Morangos com Açúcar” (2004-2012), o ator teve uma grande adesão a esta série, pois aparece na 2ª (2004-2005), 3ª (2005-2006), 7ª (2009-2010) e 8ª (2010-2011) séries e, ainda, no filme (2012). Também fez várias novelas como, por exemplo “Doce Fugi va” (2006-2007) e “Doida por ” (2012-2013). Teve, ainda, uma carreira como dobrador de animações, tais como: “Chicken Li le” (2006), “As Crónicas de Nárnia” (2008), “As Crónicas de Nárnia 2” (2009), “Upsss! Lá Se Foi a Arca” (2015) - fazendo o papel de Obeysey. Na sua fase teatral, par cipou em duas peças de teatro: “No calor da hora” (2002) – produção Open Space – e “Inferno” (2003). “Tenho o sonho de deixar a dança melhor do que a encontrei quando cheguei.” – diz Zé Milho. Assim, revela um ideal a a ngir, isto é, fazer deste mundo um sí o melhor para gerações futuras, o que não deve ser feito só a nível cultural, mas também a nível polí co e económico.


CHAMAR A MÚSICA Débora Francisco

ASHLEY POR TRÁS DE HALSEY A maior parte do público nunca iden ficaria o nome Ashley Frangipane como importante. No entanto, o anagrama que esta u liza como nome ar s co é para muitos, se não todos, um nome comum na rádio- Halsey. Vulgarmente destacada por colaborações como “Closer”, com The Chainsmokers, e “Him&I”, com G-Eazy, é necessário destacar esta incrível mulher pelos seus trabalhos a solo e pela sua par cipação em causas sociais. Com alguma precisão, podemos localizar o começo desta carreira em meados de 2014, através do lançamento da EP “Room 93”. Esta compilação composta por cinco músicas ia não só apaixonar um público pelo som excêntrico de “Ghost”, como também definir o es lo do que seria o primeiro álbum completo da cantoracompositora. Denominado “Badlands”, o álbum foi publicado em agosto de 2015. Tendo também uma versão alargada com 16 músicas no total, as letras iam entre metáforas e provas simples do que esta mulher sofrera não só no que toca à sua vida amorosa, mas também por causa da sua bipolaridade medicamente diagnos cada, entre outros problemas do foro psicológico. Faixas como “New Americana” e “Colors” lançaram Halsey a nível mundial,

abrindo a sua primeira digressão. Embora fosse uma ó ma obra, o primeiro álbum não era facilmente digerido por um público geral. Sem pudores quaisquer, Halsey retratara as suas dores, inspirando jovens adultos e adolescentes que se conseguiam relacionar com as emoções que a sua voz carregava. Para renovar o seu es lo, mesmo con nuando com as raízes que caracteriza como alterna vas, esta regressou em junho de 2017 com 16 novas faixas, agrupadas no álbum “Hopeless Fountain Kingdom”. A história descrita pelas letras das músicas conta um drama baseado na peça shakespeariana “Romeu e Julieta”, criando não só uma ligação com o álbum anterior, mas também com a bissexualidade da cantora. Um dos exemplos mais concretos é a colaboração “Strangers” com a cantora Lauren Jauregui, também ela bissexual. Após este álbum, descrição do final de uma relação tóxica, a ar sta renovou-se novamente. Foi então em janeiro de 2020 que Halsey mostrou uma parte mais pessoal de si e das suas visões acerca do mundo ao público, a par r da tão esperada obra “Manic”. Na verdade, o single de abertura “Without Me” foi o primeiro da cantora a tornar-se número um como ar sta principal na tabela Billboard Hot 100. Por mais que seja dos três álbuns que mais músicas tem com a qualificação de explícitas, é claro numa

rápida análise das letras que podemos observar o amadurecimento de uma mulher que tenta sempre obter o melhor para si mesma e para o seu bem-estar. Para além da força musical que esta mulher apresenta, a sua presença nota-se igualmente através de discursos em defesa de mulheres ví mas de violência domés ca e de discriminação na indústria. Falamos numa mulher que aguentou um concerto inteiro a sangrar após um aborto espontâneo, admi ndo emocionada sen r-se culpada por ter esforçado demasiado o seu corpo numa época tão frágil e importante. Falamos não só de uma Halsey, mas também da pequena Ashley que tem um grande orgulho em ser filha de um casal birracial mas que sempre luta contra os comentários rudes que lhe são dirigidos por passar por caucasiana. Concluindo, penso que não é somente expressão da minha opinião quando afirmo que nos devemos manter atentos a este fenómeno de ar sta. Para quem não tem medo de enfrentar as realidades deste planeta, os vídeos musicais da Halsey e o seu poema, recitado na conferência Glamour Women of the Year 2018, são mais do que a escolha acertada para passar uma tarde pra camente celes al.


MÃE TERRA Sofia Puglielli

PRIMEIRO A AMAZÓNIA, DEPOIS A AUSTRÁLIA: PARA ONDE CAMINHAMOS?

O homem ainda não recebeu suficientes chamadas de atenção. Esta rubrica é um meio de consciencialização e após um começo de ano verdadeiramente assustador, é preciso fazer algumas contas. Em primeiro lugar, é preciso ter noção das perdas florestais que o planeta tem sofrido. Só desde 2016, segundo dados do The World Counts, uma média de 28 milhões de hectares foram cortados a cada ano, isto é, o equivalente a um campo de futebol perdido a cada segundo. Ainda devemos ter em vista os fogos florestais não incluídos nesses dados, de entre eles deve-se realçar a perda florestal de 7 milhões de hectares que a selva amazónica sofreu no ano passado e os mais de 5,9 milhões

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de hectares que a Austrália perdeu à custa dos fogos este ano. A Amazónia não é o único pulmão do mundo, entre as outras grandes florestas do nosso planeta também se encontram a floresta do Congo em Africa, a floresta Daintree na Austrália e a floresta da Taiga, que se estende por todo o hemisfério norte. Mas a realidade é que todas estas florestas são cada vez mais ameaçadas pelos fogos florestais e pela desflorestação, seja esta para a ocupação das terras com indústrias ou para a agricultura. Estes pulmões verdes representam o equilíbrio do planeta, neles se encontra uma rica diversidade de fauna e flora e a eles se deve a maior parte da cobertura

vegetal e hídrica mundial. Tendo em conta que a Daintree Rainforest na Austrália, mais especificamente no estado de Queensland, representa uma das mais e an gas e vastas fontes de biodiversidade do nosso planeta, cabe realçar como, só entre 2015 e 2016 esta floresta tropical perdeu 4 mil hectares de vegetação e, ainda sendo uma área húmida e fria, viu-se também afetada pelos fogos em Dezembro, não com a mesma magnitude dos estados de Nova Gales do Sul e Vitoria. A destruição destas importantes florestas tropicais representa 20% do aumento dos níveis de gases de efeito estufa sendo que, desde o ano 2000, a perda de cobertura arbórea adicionou 98,7 GT as emissões globais de dióxido de carbono. Mas, para além da consciencialização da importância destas florestas, é necessário ter noção das causas que originam desastres como estes. Os fogos na Austrália foram originados por causas aparentemente naturais, isto quer dizer, a junção das mais elevadas temperaturas nunca registadas com um forte período de seca, trovadas secas e elevadas correntes de vento foram as causas de semelhante evento. Mas enquanto as temperaturas variam mais dras camente, os desastres naturais ocorrem com mais frequência e o número de espécies em ex nção aumenta, as pessoas, incluídos os líderes polí cos, consideram este fenómeno um acontecimento sem qualquer relevância.


ENQUANTO O TEMPO NÃO PASSA Tomás Vicente

O FENÓMENO - “THE WITCHER” “The Witcher” é claramente uma das histórias que mais se fez ouvir nos úl mos tempos. No entanto, esta história apareceu há muito, mas já há muito tempo, muito devagar, calmamente, ao seu tempo. Começou com uns livros, depois os jogos e finalmente, explodiu ao seu potencial máximo (até agora) e não mostra sinais de acabar por aqui. Em 1993, o polaco Andrzej Sapkowski lançou o seu primeiro livro da saga de fantasia “Wiedźmin” (pronunciado “Viedjmin”), ou em português, “Saga The Witcher”, com o nome “O Úl mo Desejo”. Mesmo assim, este livro foi o segundo livro da saga a ser publicado, sendo o livro dois publicado um ano mais cedo. Nestes dois livros relatam-se os contos em que se baseia toda a história do bruxo Geralt de Rivia, estabelece-se o passado, para poder desabrochar o futuro. O oitavo livro da saga, “Tempo de Tempestade”, já foi lançado em 2013 e há promessas de que este não será o úl mo. Em 2007 ocorreu a primeira explosão de

pesquisas na internet por “The Witcher”, altura em que o primeiro jogo foi lançado pela Atari e CD Projekt, para o computador. Neste jogo podemos vivenciar todas as batalhas travadas por Geralt de Rivia contra monstros e algumas injus ças humanas. Quatro anos depois foi lançada a sequela deste RPG, para o computador e xbox 360, replicando o impacto do primeiro. Porém quando o terceiro jogo saiu, em 2015, as pesquisas ultrapassaram a soma das pesquisas quando os dois primeiros jogos foram lançados. Desta vez, para playsta on 4, xbox one, microso windows e nintendo switch, o mapa deste jogo é enorme, comparado aos restantes jogos, assim como a qualidade dos gráficos e da trilha sonora. Mesmo antes de 2019 acabar, em dezembro, a Ne lix lançou a versão em série da já famosa saga, projetando a popularidade da saga até às estrelas, batendo todos os recordes que antes nha estabelecido. Em apenas 8 episódios de uma hora, Tomasz Bagiński e Alik Sakharov,

diretores responsáveis pela série, conseguiram mostrar-nos os fundamentos em quais toda a saga se baseia. Henry Cavill consegue representar o papel do misterioso e complexo bruxo Geralt de Rivia graciosamente e com brio. São notáveis os efeitos especiais, na criação de todos os seres mí cos, assim como a trilha sonora que nos transmitem todas as sensações que ocupam a mente e a alma das personagens. Agora, só podemos esperar pela segunda temporada, já anunciada pela Ne lix que irá sair e, infelizmente, ainda sem data. Nesta segunda temporada é-nos prome da mais ação e com uma narra va mais simples e direta, já que a usada na primeira temporada gerou confusão, devido às diferentes linhas temporais serem narradas sem uma transição marcada. Fora a série, não nos podemos esquecer que é nos livros que se encontra o fundamento deste incrível universo, que ainda está a ser escrito.

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EU VIM DE LONGE Sofia Puglielli

“[EM PORTUGAL] AS PESSOAS SÃO QUENTES E SIMPÁTICAS.” Para esta nova edição do P&V foi entrevistada a aluna de intercâmbio Danka Maslovaric de 17 anos, que frequenta o 12º C na Escola Secundária Acácio Calazans Duarte. Danka veio da Sérvia há quatro meses para aprender a língua e ganhar experiência que lhe abrisse portas no seu futuro. Proveniente duma vila chamada Boljevac, longe da capital Belgrado, Danka cresceu e viveu lá toda a sua vida, mas agora, sendo a primeira da sua cidade em realizar este projeto de intercâmbio, vai passar quase um ano em Portugal com a sua nova família e con nuar os seus estudos deste lado do con nente europeu. O foco desta entrevista tem origem nos contrastes académicos e sociais dos âmbitos escolares de Portugal e Servia aos olhos desta nova aluna. “Desde o primeiro dia as pessoas têm sido muito amáveis”, não houve um momento durante toda a entrevista em que não se realçasse o calor da sociedade portuguesa, “Lembro-me da primeira vez que ve de fazer uma apresentação oral em Português, estava a tremer e a cometer muitos erros, mas eles estavam a apoiar-me. No final deram-me uma salva de palmas, sen -me tão bem depois disso”. Danka afirma como é fácil socializar em Portugal pois as pessoas são mais “quentes e simpá cas”. Durante a sua estadia em Portugal, Danka estuda Ciências e Tecnologias, mas em Servia afirma exis rem muitas mais opções no Ensino Secundário sendo que, quando volte, vai con nuar os seus estudos no curso que ela descreve como “Humanidades e Ciências juntos”. Ques onada sobre o maior grau de dificuldade em Portugal ou na Sérvia respondeu: “Na Sérvia, a escola é mais fácil e mais di cil ao mesmo tempo” explica como no seu primeiro mês em Portugal esteve no 11º ano, ficando das 8:30 até as 17.00 horas na escola. “Na Sérvia não temos aulas à tarde, passamos menos tempo na escola ainda que o currículo tenha 15 disciplinas”. Enquanto nós temos metade das disciplinas e as estudamos com rigor, na Sérvia,

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“explica Danka”, estudam-se várias disciplinas de uma forma mais geral.” Acaba por ser confuso, pois é demasiado conteúdo”. Outra coisa que ainda surpreendeu a jovem foi a relação alunosprofessores na escola. Na Sérvia é comum que os professores desrespeitem os alunos e viceversa; em Portugal os professores ajudam os alunos”. Danka comentou ainda como uma das primeiras coisas que lhe fez impressão com a sua chegada foi a maneira como as jovens se vestem para virem à escola: “Na Sérvia não podes ir à escola com os ombros à mostra ou de saia. Também não podes ves r leggings pois, aparentemente, estás a mostrar demasiado”. Para além do ambiente escolar, abordaram-se as suas expecta vas com a sua chegada a Portugal. “Para ser sincera, esperava estar de bikini agora” expõe um pouco desapontada, “Na Sérvia é muito mais frio, e sabia que cá havia praia, no entanto, este tempo só me deixa doente.” Por outro lado, deixando de lado o tempo que, no seu entender, seria “Sunny sunny all the me”, Danka acreditava que em dois meses já teria dominado mais ou menos o Português. “As pessoas à minha volta diziam-me que podia aprender-se uma língua passando dois meses naquele país, mas eu já estou cá há quatro e ainda tenho muitas dificuldades”. A seu ver, Sérvia e Portugal não são demasiado diferentes, porém, ainda realça como “Os portugueses adoram dar beijinhos”. Esta foi uma das poucas coisas que lhe fizeram impressão, para além de, segundo ela, os portugueses falarem muito rápido e alto. Explica “é confuso porque as pessoas mal me conhecem e chegam até mim a dar-me dois beijinhos como se me conhecessem de toda a vida.” Por úl mo é de destacar que, para alguém que chegou sem expecta vas, Portugal tem sido uma experiência inesquecível, “Sem dúvida alguma vou voltar”. Danka acabou por caracterizar Portugal como cálido, amigável, livre, o modo como a sua família de acolhimento a ajuda e apoia em tudo, fazem com que esta experiência seja ainda mais incrível.


A PROPÓSITO DE… Jorge Alves

O ÚLTIMO CONCERTO DE JOSÉ AFONSO NO COLISEU DOS RECREIOS DE LISBOA No mês em que se passam trinta e três anos da morte de José Afonso, sem dúvida o maior cantor da música popular portuguesa, gostaria aqui de relembrar o úl mo espetáculo a que assis , que veio a ser o derradeiro concerto dado por este fabuloso ar sta – o espetáculo realizado no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 1983. Apesar de estar ao corrente do adiantado estado de debilidade sica a que a doença o havia levado, fui para aquela sala de espetáculos com a sensação de ir para mais um momento de celebração da liberdade, tal como havia desde havia anos, desde que, ainda em encontros clandes nos, o houvera encontrado. E, tal como eu, todo o público que lotava aquela enorme sala ansiava por este encontro de cumplicidade e amizade que nos transportaria às gloriosas épocas das lutas estudan s, ou ao fulgor inocente das quentes lutas do pós 25 de abril. Ali, eu relembrei o primeiro encontro, numa pequena e escusa sala do Técnico, com Fanhais, Freire e outros, recons tuí o primeiro “Canto Livre”, num pá o do Liceu D. Pedro V, com o Zé Mário e outros cantores de intervenção, revivi uma fabulosa festa na Aula Magna da Universidade de Lisboa, com Júlio Pereira e Janita; em suma: todos os concertos e encontros que ve o privilégio de assis r com quem, de uma forma tão indelével, marcou o rumo de nossas vidas. E, através do desfiar das suas músicas, que a todos nós pertenciam, nesta grande sala de Lisboa, revivemos os seus tempos de Coimbra, as suas inspirações africanas, a vivência das grandes lutas proletárias… enfim, cin lou em nós a esperançosa luz das utopias, daquela “cidade sem muros nem ameias”, com “gente igual por dentro, gente igual por fora”. E, no ponto culminante desta celebração libertária, todas as nossas vozes ecoaram uníssonas na fraterna canção que abriu as portas de abril: “Grândola, vila morena”. E, como assinatura indelével do nosso compromisso com o cantor das nossas utopias, compar lhámos cumplicemente o voto eterno de nunca deixar de lutar por aquilo que

realmente vale a pena combater: a liberdade – com o grito repe do de: 25 de abril, sempre! Rápida e avassaladoramente, a doença tornou mais débil o corpo do ar sta que veio a falecer no dia 23 de fevereiro de 1987, mas que, com a sua arte, a sua coragem, a sua coerência e as suas humanistas ideias, con nua vivo entre nós, inspirando-nos com o seu exemplo.

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OS PONTOS E VÍRGULAS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

Alda Santos

A DISLEXIA NÃO É UMA DOENÇA, É SIM UM JEITO DE SER E DE APRENDER.

A dislexia é uma perturbação do neuro desenvolvimento que ocorre numa percentagem significa va de casos – cerca de 10% da população, segundo foi definido pelo DSM 5, em 2014. A dislexia não é uma doença, é sim um jeito de ser e de aprender que reflete a expressão individual de uma mente que aprende de maneira diferente. Revela-se em idade escolar, quer logo na fase da iniciação à leitura e escrita, quer em anos seguintes, manifestando-se como uma Perturbação Específica de Aprendizagem, porque os desempenhos do aluno se caraterizam por um défice na precisão e na fluência da leitura ou por um défice na expressão escrita, podendo, numa percentagem menor de casos, associar-se ainda a défice na matemá ca. A dislexia tem vindo a ser objeto de estudo para muitos cien stas, sendo descrita como uma “condição inesperada e inexplicável que ocorre numa criança de inteligência média ou superior, caracterizada por um atraso significa vo em uma ou mais áreas de aprendizagem” (Mark Selikowitz, 1999). Estamos a falar de alunos com inteligência normal, órgãos sensoriais intactos, liberdade emocional, mo vação, incen vo e podem ter do um ensino adequado. Hoje, sabe-se que estas manifestações têm uma génese neurológica que interferem com competências instrumentais, facilitadoras da aprendizagem, da leitura e da escrita. Nestes casos, as competências apresentam-se ineficientes, incompletamente desenvolvidas e lentas, cons tuindo um pré-requisito em relação ao ato de ler símbolos gráficos e foné cos a serem reconhecidos, associados, integrados, combinados e interpretados a uma velocidade cada vez maior. O professor/educador poderá e

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deverá ser o primeiro a suspeitar que a criança pode ser disléxica, porque pode comparar o trabalho e o comportamento da criança com o dos seus colegas. Deve, em tempo ú l, indicá-lo para uma avaliação diagnós co a ser efetuada por especialistas, organizados em equipa mul disciplinar. O aluno disléxico é geralmente triste, deprimido, angus ado, devido ao fracasso, apesar dos esforços para superar as suas dificuldades. Esta frustração, originada por anos de esforço sem êxito, e de comparação com os demais alunos, pode dar origem a sen mentos de inferioridade e de baixa autoes ma. E tendem a exibir um quadro mais ou menos pico, com variações de caso para caso. Podem, a certa altura do seu percurso, revelar reduzida mo vação e empenho pelas a vidades que impliquem a mobilização de competências de leitura e escrita, o que vai aumentar as dificuldades escolares; ou recusar situações e a vidades que exijam ler em voz alta, pelo medo de se expor; ou apresentar sintomatologia ansiosa (sobretudo em trabalhos para avaliação); refle r um sen mento de insegurança e vergonha em resultado de sucessiva e generalizada falta de êxito, apesar dos esforços. A base legal de atuação nas escolas para que haja educação inclusiva é o Dec. Lei n.º 54/2018 onde são previstas as medidas – universais e sele vas – que cada Escola, através da sua Equipa Mul disciplinar de Apoio à Educação Inclusiva (EMAEI), pode decidir aplicar a alunos disléxicos. Todavia verifica-se uma grande divergência de critérios de aplicação dessas medidas e, mesmo quando se decide pela aplicação de algumas medidas, não se atende verdadeiramente à necessidade de apoio psicopedagógico dado atempadamente e por especialistas. Assim em sala de aula, haver um envolvimento pedagógico diferenciado (previsto como medidas universais) consubstanciado em apoio e incen vo no quo diano das tarefas escolares, colocação privilegiada na sala de aula, trabalho coopera vo, condições de avaliação adaptadas (por exemplo: privilegiar a oralidade, testes com formato de letra e espaçamento próprios, com

menor número de questões ou dispor de mais tempo para a realização, com perguntas claras e diretas, com apoio, sempre que necessário, na compreensão dos enunciados, os erros e faltas não penalizarem os alunos, usar textos curtos, facultar a consulta de tabuadas, fórmulas, efetuar a avaliação em espaço diferenciado, etc). Para além da sala de aula, quando se trate de dislexia moderada ou severa: ser promovido e disponibilizado apoio psicopedagógico, dado em pequenos grupos ou individualmente, por especialistas (consoante o caso: por professores especializados, psicólogos, terapeutas, psicomotricistas, etc.); e, quando necessário, ter apoio pedagógico para reforço de conteúdos disciplinares, dados pelos respe vos docentes. Há um outro aspeto a providenciar: cuidar de habilitar o aluno com competências de estudo e, enquanto as não adquirir, atender e cuidar para que o seu estudo pessoal seja orientado e apoiado (na escola e ou na família), com recurso a súmulas, resumos, treino de perguntas- po e com base em mapas conceptuais para ar culação de conhecimentos. A escola muitas vezes erra no inves mento que faz, porque sempre que disponibiliza certo po de apoios, mas não, concomitantemente, os previstos no n.º 2 - i), tais alunos não progridem adequadamente por não se “atacar a causa, mas apenas o efeito”. Para uma intervenção eficaz, os docentes necessitam de formação específica. À família, orientada pela escola, cabe rodear estas crianças e jovens de uma a tude compreensiva, apoiante, inves ndo com seu filho em a vidades que desenvolvam as competências escolares em falta e, a par, apostando em realizações extraescolares (despor vas, ar s cas ou outras em que revelem habilidade), sabendo que o que importa é conduzi-los para a aceitação das suas caraterís cas, procurando alcançar a melhor realização possível, em tudo, na sua vida.


PROFUTURO Beatriz Menino

LEITURA E TECNOLOGIA, A DUPLA PERFEITA «O saber não ocupa lugar" é um conhecido provérbio português que nos remete para a importância de sermos detentores dos mais vastos e diversos conhecimentos, pois esta é a condição essencial (para que estejamos preparados) "ProFuturo". É, por isso, inevitável falar de leitura, já que as competências de comunicação (ler, escrever, ouvir e falar) são uma porta aberta para o sucesso naquela que temos vindo a denominar de Era Digital. Não há dúvida de que os hábitos de leitura, principalmente das gerações mais novas, mudaram. No entanto, há que salientar que o que mudou não foi o interesse pelo conhecimento, mas o interesse pela leitura formal que os livros impressos oferecem, podendo e devendo encarar-se a tecnologia, quando usada sob orientação, como um meio de incen vo à leitura, à escrita e ao aperfeiçoamento de competências de comunicação. Um estudo americano da Metapress mostrou que os materiais de leitura digital, presentes nas salas de aula dos países em desenvolvimento, estão a ajudar na

transmissão de informações para as crianças de uma forma lúdica e asser va; e também que os e-books têm sido cada vez mais usados para ensinar crianças (com dificuldades de leitura, transtornos de aprendizagem e/ou dislexia) a ler. No que toca à escrita, os so wares de processamento de texto, que permitem não só a composição como também a edição e a revisão, bem como a possibilidade de incorporar, por exemplo, vídeos, fotos, gráficos e/ou animações, em ar gos publicados na rede, tornam o ato de escrever algo mais simples e mais apela vo. Tendo em conta o referido anteriormente, considera-se que a criação/adoção de novos mecanismos e ferramentas de apoio à leitura por parte das escolas, espaços de ensino e de fomento à inovação, irá contribuir para a formação de alunos mais instruídos culturalmente e, provavelmente, com maior rendimento escolar. No entanto, tal como defende o inves gador Pedro Xavier Mendonça, é necessário u lizar a tecnologia como conteúdo e instrumento ú l e não como "pozinho mágico". Este mesmo inves gador alerta-nos ainda para a necessidade de

dis nguir "aprender a usar a tecnologia de modo a preparar os jovens para um mundo tecnológico" e "usar a tecnologia para aprender todas as matérias porque, supostamente, assim é melhor". Ao longo do tempo, muitos têm sido os esforços realizados no sen do de ajustar a educação às gerações que, nascidas rodeadas de tecnologia, já não se deixam ca var pelas longas exposições orais ou apontamentos no quadro. Pedro Xavier Mendonça aponta como grande problema e obje vo a alcançar o "saber como ultrapassar um ensino transmissivo-enciclopédico, pouco a vo e assimétrico", referindo que a tecnologia poderá ajudar no ultrapassar desta barreira, "mas ela deve ser apenas um suporte, não o centro da questão". Em suma, é de extrema relevância para a construção de um mundo melhor que a tecnologia e a literatura (e até mesmo a educação e a escola) mantenham uma relação estreita, não se invalidando uma à outra, mas, sim, complementando-se.

GOSTO...NÃO GOSTO Adriana Simões

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Foto 1 – É bom ter transportes que nos levem onde queremos ir. Seria igualmente bom cuidar das valências que apoiam esses transportes. Foto 2 – Os jardins são excelentes locais para relaxar, descansar, apreciar a natureza e, pelos vistos, para despejar lixo. Haja mais cuidado na sua manutenção. Foto 3 – O Centro de Saúde está mais bonito. De cara lavada e com muito asseio. Resta apenas assegurar o estacionamento mais cuidado das viaturas.


Sofia Couto Duarte

VIAGEM PELAS PESSOAS DE PESSOA: DA MÁSCARA ORTÓNIMA ÀS DEAMBULAÇÕES HETERÓNIMAS

A propósito do estudo de Fernando Pessoa em Português (12º ano), foi lançado um desafio aos alunos: o de escreverem um texto para uma edição do P&V acerca da sua experiência de leitura de Pessoa, sob o tema "Viagem pelas pessoas de Pessoa: da máscara ortónima às deambulações heterónimas". Um grupo de alunos das professoras Sofia Duarte e Isabel Brás, durante a sua pausa de Natal, decidiu imergir nas pessoas de Pessoa, produzindo textos que refletiram as suas impressões literárias acerca deste(s) génio(s) da literatura nacional. O resultado foi um conjunto de textos: todos eles distintos entre si, no estilo, no género, nas dimensões, nos focos. Como denominador comum, a vontade destes alunos de materializarem em palavras escritas o impacto da fragmentação de um ser que deambulou entre o si-próprio-fingido (ou não) e o ser-em-outros, em múltiplos de si.


A pré-terra do Mestre: o ortónimo Como a muitos jovens que, interessados por se iniciarem na poesia pessoana, principiam em qualquer poema, é comum relegar-se o ortónimo para os lados e ler primeiro a heteronímia. Ora, tal também a mim me aconteceu, quando, num alfarrabista, me deparei com um pequeno livro de Alberto Caeiro: o Guardador de Rebanhos. Sabia, porém, que para ler Caeiro (embora já tivesse tido a sensação de espreitar nessas páginas antimetafísicas) deveria aventurar-me pelo poeta que tudo forma: o gigante Fernando Pessoa, por outras palavras, embora injustas, o ortónimo. Suponho que, para um leigo na matéria pessoana, poderá ser difícil saber por onde começar, mas como um bom lusitano, de peito ilustre e barão assinalado, vi-me com Mensagem nas mãos. Algo que fascinou a minha mente adolescente, que tão rebelde é em tudo que é a crítica, foi a chamada pelo Quinto Império, esse sebastianismo que criticava o paradigma da altura do que era ser português, que desvanecido estava. E, hoje, continuamos certamente imersos nesse nevoeiro. Eis a atualidade da poesia de Pessoa que, já não no domínio de Mensagem, nos seus poemas, fundou a metalinguagem, a nostalgia e o pensar que tanto custa. Conceitos que, sendo tão presentes em nós, intelectualizam toda a lírica, especialmente na incipiência do Modernismo português, observando desde já uma polivalência que é apanágio pessoano. O ortónimo deixa, assim, a base para os heterónimos surgirem. O Mestre da inconsciência terrestre: Alberto Caeiro Olhando para esquerda, depois para a direita e, finalmente, para trás, o que resta é a frente e nela vemos, dourando-se na luminosidade exacerbada do Sol, O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos. Como já referido, foi O Guardador de Rebanhos que primeiro foi lido. Esses quarenta nove poemas deslumbraram uma mente. Uma mente que, entretanto, como Sísifo, teve de se esforçar para resolver o grande paradoxo que lhe surgiu. Ora, «(Pensar é estar doente dos olhos)» e «Para mim pensar nisso é fechar os olhos/E não pensar». Pois quê? Estaria Caeiro a pregar o fim da filosofia, da metafísica, do pensamento, matérias tão apaixonantes? Ou seria isso apenas uma outra filosofia, prostrada perante a beleza do mundo e da natureza? Paradoxalmente, ler os poemas do Mestre era belo. E eu, jovem com

um olho na filosofia e outro na literatura, corri atrás dessa beleza simples, concreta, mas difícil. Perceber Caeiro foi de extrema relevância, pois atenuava, em tantos momentos, a dor onerosa do pensamento, olhando para a inconsciência, como se para o Sol olhássemos, cegando lucidamente. Sei, no entanto, que «a realidade não precisa de mim» e que «a minha morte não tem importância nenhuma». Uns diriam morbidez, eu diria beleza. E, desta forma, na minha grande incapacidade para me conformar no meu paradoxo metafísico/antimetafísico que Caeiro me trouxe, fujo, de vez em quando, e vou lendo esses poemas do Mestre. Tal é o poder de Caeiro, tal é a sua inconsciência. A (não)-morte de Ricardo Reis Vem, Lídia, escrever comigo. Espera, não escrevas. Vê-me escrever. Em tão simples exortações, tão facilmente se explica a poesia de Reis. Mas que achar desta? Se em Caeiro já havia um paradoxo, em Reis o paradoxismo exponencia-se, de tal forma que só um oxímoro o poderia representar. Como assim? Ninguém refutará a beleza de ler uma ode de Ricardo Reis, ninguém dirá que as filosofias estoicoepicuristas, tão bem amalgamadas nos poemas, não são de louvar, consumindo-nos para imitá-lo nessa simplicidade vital, ninguém professará a tentativa de anular a morte, pelo menos na mente; mas, para isso, não podemos agir. Eis o problema. Um repto que me lançou numa reflexão intensa, em que, por um lado, sabia que a felicidade viria na mera contemplação e, por outro, teria que abdicar da ação, tão necessária na mente de um jovem que luta constantemente para provar as suas ambições e os seus desígnios futuros. Pois: aqueles com os olhos fitos no futuro «veem o que não pode verse». Façamos, então, uso do carpe diem e, mais importante, na frase que na ode horaciana vem a seguir: quam minimum credula postero (confia o menos possível no dia de amanhã). Ricardo Reis, nas minhas elucubrações, irei contigo até ao fim, até que a morte nos separe para sempre. Por enquanto, não pensemos nela… A vitalidade do sonho: Álvaro de Campos «Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?», perguntaria Álvaro de Campos, em Poema Em Linha Recta. Este primeiro poema que me veio parar aos olhos, disse aquilo que, de certa forma, todos já sentimos. Essa necessidade de procurar a autovitimização, que nos leva à tão malograda misantropia. E todos somos, em certa medida, misantropos, aquando do nosso próprio egoísmo inevitável que se

RUI VERDASCA manifesta em todas as nossas ações. No entanto, Campos diz algo ainda mais relevante, em Tabacaria, o segundo grande poema que se estreou no castanho do meu olhar – a dicotomia entre ser tudo e ser nada. Novamente, Campos acerta em cheio numa outra reflexão que se extrapola em todos nós, quer consciente, quer inconscientemente. Como não poderia deixar de precisar a final noção que faz de Campos, não obstante caoticamente, brilhante, temos a própria causa da sua misantropia, que, presente em tantos poemas, teve a sua aparição em Lisboa Revisited (1923): «Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?», pergunta Campos. Assim, a poesia do engenheiro é uma poesia anti-máquina, uma poesia que, na realidade do presente que é entediante, busca refúgio no sonho. E vejamos nós que o sonho é aquilo que, fechados os olhos, se nos vem, discretamente, humanizando-nos e, por isso, expondo o que é real: a vida. Campos é aquele que alerta, na luz intermitente da sociedade, a futilidade do que é ser humano. Campos é um sábio, mas sente-se falhado. Eis que, hoje, a sapiência é, vejamos nós, uma outra falha. Concluamos. A terra, a morte e a vida: eis a quintessência pessoana. Será, no entanto, estritamente pessoana? Teríamos que ser assaz limitativos para não compreender a globalidade do eu pessoano e das suas pessoas, todo o seu crescendo, culminante em picos artisticamente salivantes, belos e caóticos, contemplando, assim, a paisagem que nos desliga a luz da ação, que, porém, é sub-reptícia em nós. Nós, que somos pessoas, somos Pessoa e, por conseguinte, somos a Ação dele e daquilo que, no seu coração de madeira, nos legou, dizem uns, em trinta mil papéis, papelitos, folhas, que representam, nada mais nada menos, trinta mil emoções, todas humanas, todas possíveis, todas nossas. Já dizia Saramago que o «caos é uma ordem por decifrar». Com Pessoa, perceberemos o nosso próprio caos e, com isso, a ordem pessoana que vive em nós, sempre…

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DÉBORA FRANCISCO Por vezes, Fernando Pessoa aparenta mais ser uma localidade do que propriamente um autor. Seja por loucura ou golpe de génio – penso mesmo que haja algum tipo de superioridade neste controlo descontrolado de personalidades – a existência de Pessoa em Bernardo Soares, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e em todos os outros pedaços de Pessoa que aos estudantes são desconhecidos não deixa de ser extraordinariamente impressionante. Talvez se o país fosse outro, estaríamos hoje a chamar Sir a esta mente magnífica, ou mesmo o seu plural, tanto por literalmente como figurativamente valer por muitos; mas estamos aqui, nesta praia lusitana, e cabe-nos a nós mais jovens cultivar e fomentar a admiração por quem não teve medo de abrir a boca em papel. Mergulhemos então, juntamente com todos os riscos e correções em notebooks pessoanos. Na verdade, talvez começar por ortónimo seja um pequeno erro, perde-se a surpresa de observar que, no fundo, todos os caminhos realmente dão a Roma. Mas como evitar a tentação de iniciar em algo que verdadeiramente cheira a “início”? Recordo, por esta razão, as aulas em que decompusemos “Autopsicografia” e “Isto” com imenso carinho e espanto. Como alguém que nutre um imenso amor pela escrita, consigo reconhecer o desafio e a audácia que admitir o distanciamento por autossalvação requer. O ser humano é complexo, dividido em várias camadas, das quais nunca ninguém acaba por conhecer tudo – nem mesmo nós próprios. No final, todas as temáticas escrutinadas por Pessoa ortónimo acabam por nos levar a uma gigante viagem pela dor, a dificuldade de autodefinição, crises existenciais, a desconexão em relação a uma vida incerta e é exatamente nisso em que encontro a beleza de tais textos. Continuando esta viagem, avançarei para Alberto Caeiro. É tão difícil para mim entender

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se me relaciono com este mestre, embora o admire imenso. Os detalhes da Natureza partilhados a partir da observação e das metáforas básicas que pretendem aparentar esconder-se… Uma das melhores decisões que qualquer escritor pode tomar. Quando o sujeito poético de “Eu nunca guardei rebanhos” afirma “Mas eu fico triste como um pôr de sol”, como podemos considerar tal verso ingénuo? As voltas e revoltas que perfuram a dor existencial e tentam chegar mais longe na alma humana são perfeitamente representadas na luta entre a aspiração a uma vida inconsciente baseada na observação e no desejo de ir mais além, justificando sem qualquer dúvida o porquê de Caeiro ser mestre de todos os heterónimos e até de Pessoa em si. De seguida, e avançando na ordem pela qual estudei as várias pessoas deste autor, chegamos à paragem Ricardo Reis. Acho que não consigo evitar exprimir o quão hilariante a leitura de “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio” foi para mim. Seguindo as palavras presentes na obra “O Ano da Morte de Ricardo Reis” de José Saramago: “[…] você lá sabe que mulher seria a Lídia das suas odes, admitindo que exista tal fenómeno, essa impossível soma de passividade, silêncio sábio e puro espírito, […]”. No entanto, curiosa pelas características clássicas como sou, a estruturação dos poemas mostra-se extremamente admirável para mim. Obviamente, qualquer tipo de poesia requer treino e até alguma disciplina, mas nada se compara ao controlo da rima e da métrica. Para além disso, a referência a elementos mitológicos, como na composição “Mestre, são plácidas”, fascina-me profundamente. Com a viagem a aproximar-se do final, mais passageiros se despedem no destino Álvaro de Campos. Se me permitem, eu serei parte deles, desses viajantes que encontram o local desejado e lá ficam – as composições da fase intimista de Campos que pude ler até ao momento em que escrevo esta carta têm todo o meu coração, corpo e alma. Admito que a fase futurista se junta à Lídia de Reis na minha lista de detalhes hilariantes vividos na poesia pessoana, mas a loucura deste heterónimo é simplesmente genial. Na sua época decadentista, antes de conhecer o mestre Caeiro, o enunciador lírico de “Opiário” dá-nos das mais arrasadoras declarações que um artista pode fazer: “[…] Parece impossível / Que mesmo ao ter talento

eu mal o sinta!”. A dor arrebatadora que induz a loucura contradizendo o facto de as drogas, salvação da loucura, a ampliarem… Todos os detalhes explosivos dão-nos uma excelente visão daquilo que provavelmente seria o extremo de Pessoa. Por fim, esta última paragem é mais um desejo do que uma história. Não sou perfeita, mas sou uma leitora entusiasta, e espero conseguir aventurar-me sozinha pela poesia inglesa, com todos os seus heterónimos próprios, e pela obra de Bernardo Soares “Livro do Desassossego”. Penso que no fundo irei encontrar mais deambulações, tanto exteriores como interiores, mas não considero que isso seja cansativo ou repetitivo. A beleza intrínseca do que a sociedade considera cliché é que, ao final do dia, todos acabamos por cair na tentação de o adorar. Atenção, nada em Fernando Pessoa e nas suas pequenas grandes pessoas é cliché, mas sim humano: que melhor objeto para a humanidade estudar que aquilo que é humano? Assim, após todas as visitas que descrevi, saio deste espaço pessoano e caio no planeta Terra, com valor adicional ao que fui anteriormente. Gostaria de pensar que, se Fernando Pessoa estivesse algures entre nós neste preciso momento, ele pegaria em algo como a carta aos leitores presente no final da obra “Milk and Honey” de Rupi Kaur e citaria, com o inglês ainda corrente nas suas veias: “You made it to the end. With my heart in your hands. Thank you. For arriving here safely” (tradução literal: Chegaste ao Fim. Com o meu coração nas tuas mãos. Obrigada. Por chegares em segurança.). Assim, com tanto mais deste lendário autor por estudar, me despeço com o pedido para que o valor daquilo que o nosso país tem de Grande, Grande mesmo com letra maiúscula, nunca se perca.


Pessoa é uma con nua peleja contra a lucidez. Aquela cáus ca, entenda-se. Aquela que verdadeiramente o atormenta, que o chaga numa voragem precipitante, tempestuosa, que o fus ga (e isto inspira mesmo comiseração) sob vagas que o ameaçam engolir. E há uma ironia amarga nisto: na procura da repulsa da razão, o autor termina por se subordinar à mesma razão, numa a tude de indagação mental pelos seus labirintos personalís cos, buscando neles soluções, remendos à sua pessoa desconsertada. E dessa procura: surgem múl plos. E, novamente, a promíscua torrente de Pessoas fracionados. Caudalosa, é de frisar. E dessa descrição tormentosa: a impossibilidade da secura, da consonância. E, novamente, o alimentar de uma heteronímia como tenta va de emenda. E dessa criação experimental: a impossibilidade de se arquitetar um corpo de Reis sem uma mão de Caeiro, ou ambas, ou mais. E, novamente, a evasão para uma infância perdida ou para uma «ilha extrema do sul [que] se olvida». E dessa miragem sem re nas: a emergência da dece vidade do presente, a perceção da efemeridade de uma vida dilacerada pela frustração. A dor do exercício do pensamento é, por conseguinte, tema recorrente, senão central, da poesia pessoana, porque o momento de ni dez (se é que a palavra faz sen do quando me refiro à omnipresença) ameaça matar, como se não houvesse mais irmandade das coisas. Mas, de facto, se no início é apresentado ao leitor um autor-andrajo, lacerado em muitos, que deseja a inocência de uma criança que come chocolates, que afirma não exis r «mais meta sica no mundo senão chocolates» ou que «as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria», logo tudo se dissipa, a lâmina de papel de prata repen namente deixa de ser de prata para na verdade ser de estanho, e numa ver gem tudo é deitado ao chão, como a vida. E tudo isto perturba, porque este «escravo cardíaco das estrelas» será sempre, simultaneamente, o que «lev[a] o dia a fumar, a beber coisas, drogas americanas que entontecem», o que convida «Neera, sob a estólida fé das [suas] mãos», aquele para o qual «a solidão desola[…] [e] a companhia oprime[…]» e o que exorta a que «deixemos as análises, metáforas, símiles» a favor da ni dez de uma visão equiparável a «um girassol», «nascid[a] a cada momento para a eterna novidade do Mundo». E mais do que aquilo, observa-se em Fernando Pessoa alguém que se atordoa, com comoção elétrica, pela simples capacidade de indefinição pessoal e fragmentariedade. Là-bas, je ne sais où, claro está. Porque será sempre lá não sei onde que se encontrará a plenitude, lá não sei onde a unidade, lá não sei onde a ventura próspera. Deste modo, Pessoa encerra em si os

DIOGO ROSA impedimentos e sucessos de toda a Natureza Humana, «mais humanidades do que Cristo», uma «terra inteira, mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido» e na minha ó ca isso é belo e isso é maior. E, por Deus!, quanto isto é verdade na minha, na nossa, na vida de todos! Porque o mundo, e as esferas, e tudo o mais que são meras interpretações de um sistema sensorial congénito, orgânico, pouco dado a matemá cas e a leis universais, mas a um u litarismo animal, delusor, obje vamente falando: irreal. Sim! a nossa realidade é irreal em todas as suas formas. A cromá ca, a fonia, a mecânica são três vezes lacunares, três vezes erróneas. E como é que no centro de um tão grande cataclismo não poderíamos deixar de nos ques onarmos sobre nós mesmos, e demais sobre o restante universo? Ques onamo-nos diariamente, e dessa interrogação surgirão sempre novos Eus: a animalidade putrefatória de Campos, a anuência a uma realidade indiscu vel de Caeiro, e novamente de Campos a perda irrecuperável, a procura da elevação espiritual e imperturbável de Reis, a inadaptação do sujeito à realidade de Soares, o raciocínio que inevitavelmente aflora em Caeiro, a convulsão de Campos, o éter de Reis, e daqui em diante as infinitas combinações das ocorrências da trindade (sacra ssima, diga-se de passagem) Caeiro-Reis-Campos nas suas também infinitas cambiantes. A experiência do Autor é mul plice, um constante e subje vo perpassar de ma zes diversos, um autên co «jardim onde há flores no ar, sem hastes», que a cada segunda leitura, a cada revisitação, traz a novidade da cor, dos olores, do olhar de diferente ângulo dirigido que encontrará naquelas corolas razão diferente para apreciar. Não só a poesia, mas cada vivência. E é esta sua capacidade que mais me agita: a de nos apresentar pessoas em Pessoa, a de nos dizer o que poucos souberam dizer nos termos em que soube dizer, de impressionar, de perturbar e de tudo isto fazer derramar tremenda luz.

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FÁBIO CARDEIRA Neste texto, a pedido da minha professora Sofia Couto Duarte, vou tentar ajudar-vos a entender melhor o ortónimo Fernando Pessoa e o universo por ele criado. Fernando Pessoa… se me pedissem para o descrever em uma palavra seria “complexo”, apesar de à primeira vista os seus heterónimos nos parecerem personagens normais, como as que estamos constantemente a ver em toda a história. No entanto, em seus poemas não nos é contada uma história. Então por que Fernando Pessoa os criou? Para entendermos melhor o mo vo, temos de conhecer a história do ortónimo, pois foi através desta história que surgiu em Pessoa a necessidade de se fragmentar nos seus heterónimos. Ainda muito jovem, Pessoa perdera seu pai e seu irmão mais novo e ainda teve de ir morar para África do Sul com sua mãe, que posteriormente casou e teve outros filhos. Não se adaptando ao novo país e à nova família, decidiu regressar a Portugal. Devido a toda esta solidão, mergulhou ainda mais na sua escrita e no seu pensamento, que aumentou e tornou-se em dor de pensar e juntou-se à dor da perda, tornando-se estes sen mentos o maior transtorno da sua vida. E foi principalmente devido a estes dois sen mentos que o ortónimo criou vários heterónimos, que são autores fic cios que possuem iden dade e formas de escritas próprias, não se assemelhando ao seu criador. Na minha conceção, cada heterónimo serviu para Pessoa refle r, através da escrita, formas de combater as suas dores principais: a de pensar e a de perda. No universo de heterónimos criados, os que mais se destacam são: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, sendo cada um deles um bocado do que Fernando Pessoa estava a sen r no momento de sua vida. Alberto Caeiro adota uma filosofia de apenas sen r com os seus sen dos, recusando assim o pensamento, pois este considera o mesmo que o ortónimo, que o pensamento é uma doença. Caeiro é o mestre de Reis, de Campos e até mesmo do próprio

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Fernando Pessoa, que vê através desta filosofia uma fuga ao pensamento, tendo o “desejo” de se tornar inconsciente. Agora vocês perguntamme o porquê das aspas e eu vos respondo que é porque o próprio ortónimo refle a muito como seria se ele se tornasse inconsciente. No entanto, chegava sempre à mesma conclusão: de que se se tornasse inconsciente já não conseguiria reconhecer-se. No entanto, Caeiro não consegue sustentar esta filosofia, pois o pensamento é uma coisa inata e mesmo uma personagem fic cia não consegue libertar-se desta bênção ou maldição. O segundo heterónimo mencionado, Ricardo Reis, foi uma tenta va de ser a solução para o problema da dor da perda. Para isso o heterónimo seguia vários modelos e filosofias de vida diferentes, como por exemplo, o epicurismo, que consiste em viver a vida apenas com prazeres moderados, para nunca se apegar demasiado a algo ou alguém; na ataraxia, que se traduz pela ausência de preocupações, e no carpe diem, que recomenda aproveitar cada momento da vida como se do úl mo se tratasse. Todos estes modos de viver combinavam no ideal de que, quando a morte chegar, como não nos apegamos a nada do mundo mortal, não vamos sen r a dor da perda. Por fim, vem Álvaro de Campos, que, na minha opinião, é o mais importante, porque assume três dos mais importantes papéis: o de permi r o heterónimo conseguir exprimir o que pensava e que não podia dizer em público; o papel de crí co da sociedade daquela época; e, por úl mo, mas não menos importante, o de refle r sobre o seu passado mais depressivamente, pois este heterónimo é contemporâneo de uma fase desistente de Pessoa (por isso em alguns de seus poemas ele liberta toda a angús a do seu passado sofrido, afirmando muitas vezes que a única época em que fora feliz foi a de infância). Também começa a revelar traços de loucura, pois foi uma maneira que o ortónimo, através deste heterónimo, achou para se livrar do sofrimento, mesmo sendo “tachado” como louco ou indelicado. Com isto tudo, Álvaro de Campos é o ortónimo mais próximo de Fernando Pessoa, pois este reflete tudo o que Pessoa pensava naquela época. Depois de lerem tudo isto entendem o porquê da escolha da minha parte da palavra “complexo”, devido a, mesmo com todo este conhecimento, ainda não conseguir afirmar quem é Fernando Pessoa, apenas consigo afirmar que ele é a união de todos seus heterônimos, sendo cada um deles uma parte de si, uma parte do que o ortónimo sen a naquela época. Espero que tenham gostado e que vos tenha ajudado para quando

estudarem, ou a entenderem melhor se já estudaram, qual é a complexidade de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos.


Querido Fernando Pessoa, meu mestre, Hoje escrevo-lhe, não em forma de poema como os seus outros "eus" lhe costumam escrever, mas sim em forma de prosa. Mas vamos diretos ao assunto. Admito que, antes de o conhecer e aos seus outros, o considerava apenas mais um nome no meio dos outros milhares de escritores que há por aí. Mas afinal o que o tornou único? Ou sou eu apenas que considero isso devido ao facto de ser o meu mestre? A esta pergunta não lhe conseguirei responder, pois não o consigo ver com outros olhos pelo mo vo de não possuir um "véu da ignorância". Sendo assim, será sempre o meu espantoso e incrível criador. Porém, vendo a

“Eu escrevo para salvar a alma”, uma frase de Fernando Pessoa que realmente resume o que interpretei deste escritor em toda a minha curta, e não demasiado profunda, experiência de leitura. De todos os autores com que ve o prazer de contactar, nenhum me pareceu tão dependente da sua escrita ou que a sua escrita fosse, ou aparentasse ser, tão próxima de todas as suas viagens mentais como observo em Fernando Pessoa, que, por tanto descrever alguns dos seus problemas e dilemas psíquicos, e por tanto deambular pelo mundo da heteronímia e das personalidades, parece ter uma única ferramenta não só para se expressar, mas também para se tentar aproximar de uma espécie de resolução, aceitação e compreensão

forma de como os outros escritores trabalham, considero que estes apenas escrevem o que o mundo quer e precisa de ouvir; ao contrário de si, você, meu mestre, escreve o que sente e as suas magníficas filosofias de vida através de nós, seus heterónimos. Acabo esta carta a agradecer as caracterís cas que me foram concedidas: fiquei com a paixão, deslumbramento e admiração pela Natureza como Caeiro; desfruto da vida tal e qual como Ricardo Reis, apenas apreciando os pequenos prazeres da vida; Possuo também uma pequena parte da loucura de Álvaro Campos; E ainda disponho de imensas caracterís cas de outros heterónimos que não posso mencionar, pois com bastante pena não foram estudados pelos alunos do 12º ano.

das suas perturbações interiores: a escrita. Pessoa é, realmente, uma criatura no 2º grau, talvez em toda a sua vida jogou à heteronímia, pensou em ser outro e foi assombrado pela incapacidade de se definir e sinto que, em certo nível, todos nós nos podemos iden ficar com algum desses sen mentos, uma vez que, tal como Fernando Pessoa, nascemos inseridos numa comunidade, com um corpo e até com um nome que não é nosso, apenas definido por fatores biológicos, sociais e até pela sorte, e escolhido por outros, para nós. Assim, apesar de ser fácil olhar para a obra de Pessoa e nos distanciarmos das experiências e ó cas deste por parecerem ser tão nega vas e até depressivas e próximas a alguns distúrbios psiquiátricos que observamos atualmente, após uma reflexão, não só sobre a escrita, mas também sobre nós próprios, é quase inevitável

MARIANA OLIVEIRA Assim, termino, agraciando o meu mestre pelo facto de me ter criado e concluindo que cada um de nós somos um bocado de cada um dos vários "eus" de si, Fernando Pessoa.

JOANA COUTO iden ficarmo-nos com a impossibilidade de a ngir a certeza acerca do que somos, sendo assim, tal como Fernando Pessoa, seres fragmentados numa série de comportamentos e opiniões diferentes.

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PEDRO FERREIRA

Fernando Pessoa ... Um poeta próximo e genuíno Quem é Fernando Pessoa? Homem composto de tantas pessoas numa só. Todas dis ntas, portadoras de um mesmo criador. Olhem para este fingidor. Reparem bem na sua máscara... ela é feita de todas as suas vivências, boas e más, agradáveis e desagradáveis... nada falta: a "Teoria do fingimento", a "Dor de pensar", o "Sonho e realidade", a "Nostalgia da infância"... Poderá qualquer poeta enquadrar-se nestes temas? Óbvio que não. Estaremos sempre aquém de descobrir a singularidade deste português, que de português tem tudo! Homem virtuoso da descendência de Camões! Incomparável, trovador lusitano que, apesar da sua dura infância, se fez ao mar! Tão jovem perdera o pai, um pouco mais e sumira seu irmão. Oh morte, porque nos fazes sofrer? Para muitos isto seria o suficiente para dar a desculpa de não poder ser ninguém na vida. Mas o nosso Fernando é português camoniano: de espírito forte não se deixa afundar com a embarcação enquanto atravessa o Cabo das Tormentas e procura incessantemente a misteriosa Ilha dos Amores. Como seria a Ilha dos Amores de Ortónimo? Podemos imaginar uma terra de sonho que não precisa de ser fingida, terra sem dor, sem pranto, sem choro e ausente de pensamento, onde o imaginário é real e nenhuma mente é mais madura do que a de uma criança. Se não é esta Ilha de Fernando, que ele venha de lá de onde habita e conte como ela é! Pobre coitado, homem injus çado que, por carregar sangue português, viu seu sonho arrancado. Como se atreveram? Ingleses sem sabedoria! Esse homem a quem desprezaram por ser português é hoje ensinado nas escolas! Ele que dominava a vossa língua, muito melhor que muitos de vós, foi deitado fora e com ele todo o seu mérito estudan l. Mas é aqui que nasce a esperança do povo lusitano e

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que Lisboa recebe o filho que há muito lhe fora rado. Eis o retorno de Fernando Pessoa à sua pátria mãe e com ele tantos outros que estavam para surgir! Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e, posteriormente, Bernardo Soares, isto só para citar os mais conhecidos. Estes não foram os primeiros a nascer, contudo são estes os mais portugueses, os que nos interessam. Alberto Caeiro, o mestre, o camponês, o poeta da natureza, o pagão. Como estudante era pouco qualificado, mas com uma mente dotada de doutoramento. Poeta do não pensamento, do muito sen r. A verdade, segundo ele, é aquilo que sen mos e isto não envolve raciocínio. A natureza é a sua casa. Ricardo Reis, o helenista, o filósofo, o moderado, o médico, o monárquico. Elevado em formação, aconselha à prá ca de uma vida moderada e sem emoções fortes, para que na morte não haja dor, mas somente aceitação do fim. Álvaro de Campos, o modernista, o futurista, o frustrado, o nostálgico, o exaltador. Um olhar sobre a sua infância como uma época feliz e amorosa, em que o sofrimento não habitava o seu coração. Exalta a modernidade e todo o progresso, desejando fundir-se com as máquinas industriais e saborear o prazer de ser uma. Bernardo Soares, igual a Pessoa, menos o raciocínio e a afe vidade, o autor do "Livro do Desassossego". Dramá cas reflexões humanas elaborou, numa escrita inviável, inú l e imperfeita, à beira do tédio, do trágico e da indiferença esté ca. Com efeito, estes quatro e todos os outros, a que não me referi, revelam-nos Fernando Pessoa. É por meio deles que descobrimos as mais variadas facetas que podem exis r dentro de um homem. Pessoas como um todo, membros de uma só alma. O que tenho eu a dizer? O que aprender com ele? Ora bem, não será fácil. Pessoa em si era um personagem bem complexo. Uma descrição perfeita, só mesmo uma feita por ele mesmo. Alma portuguesa da cabeça aos pés, escreveu sobre o mundo que o rodeava e sobre o seu mundo interior. O que pensar disto? Sejamos como Fernando. A sociedade, sua contemporânea, rejeitou-o. Essa é uma verdade. Porém, muito maior é o seu pres gio que ainda não parou de crescer. A morte não o deteve, porque o seu legado é eterno. O seu legado foi simplesmente exprimir em letras as suas pessoas. E nós? O que vamos fazer com os nossos pensamentos? A par lha é a chave. Pessoa ajudou-me a perceber que por mais que disfarcemos ou que nos façamos passar por alguém que não somos, a nossa

carta, após a vida, apenas será lida se es ver assinada com o nosso nome. Daí que Fernando tenha escrito em nome de tantos sobre todas as coisas... mas no fim o nome recordado é o dele. Pessoa era solitário, agora é internacional. É preciso ser-se corajoso para se expor a um mundo que o procurava humilhar após as falhas tenta vas de ser compreendido. E nós? Somos da mesma natureza de Fernando Pessoa! Deveríamos ser sinceros connosco, o nosso testemunho pode valer tanto quanto o de Pessoa! Cada humano é fenomenal! Qual a razão de Pessoa se ter destacado? Par lhou-se por completo a todos fazendo o que mais amava: escrever. Ele hoje não é conhecido por ter sido tradutor ou correspondente comercial... nada disso! Ele é conhecido por ser Fernando Pessoa, o seu nome carrega um significado próprio! Como? Pessoa nunca se esforçou para ser alguém, mas sempre foi quem era em todas as suas personagens (mesmo que estas não fossem ele). Além disto... que referir mais? Nem todas as suas ideias são as mais aceites por todos. Poucos concordam em viver moderadamente como Ricardo Reis. Raros os que desejariam ser atropelados por comboios como Álvaro de Campos. Todavia, muitos desejariam um contacto profundo com a natureza como Alberto Caeiro. E muitos se iden ficam como alguém de reflexão profunda tal como Bernardo Soares. Agora falemos numa só temá ca de Ortónimo, "Sonho e realidade", sen da deveras por todos. Quem não deseja viver os seus sonhos num mundo real? O que nós sen mos quanto a isso? O mesmo que Ortónimo: duas realidades intocáveis. Ainda que as opiniões da veracidade deste sen mento variem, o sen mento é sen do por todos. Qual é a conclusão de tudo isto? Que a vida e obra de Fernando Pessoa poderão ser uma fonte de inspiração para todos nós. Há forma de descobrir melhor Fernando Pessoa? Sim! Lendo as suas obras. O que acontecerá lendo as suas proezas? Acabaremos por nos iden ficar com algo e veremos como estamos mais unidos como humanidade do que aquilo que hoje vislumbramos. Que cada um viva sendo tudo em todos, para que todos possam ser tudo. "Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também."- Fernando Pessoa


"Rimas para Pessoa e suas pessoas" Escrevo este texto com o pretexto da entrega demorada, porém não atrasada. Nestas rimas, irei mencionar “vários” que são como raios, pois, cheios de sen mento e no momento, fizeram a história que fica para a memória de quem estuda estas ilustres pessoas que par ram de Pessoa. São três e, um de cada vez, irei mencionar, exaltar e abusar na rima enquanto falo dos próprios e notórios, os verdadeiros grandiosos que de só um se trata, os vitoriosos! Primeiramente, vem aquele que deveras sente, que diz dizerem que mente e finje, mas não, o mesmo apenas sente. É Pessoa, aquele que pela dor do pensar se demonstrou, ao acordar o mais preguiçoso leitor, para que este fosse admirar o pensar do poeta que é um fingidor. Fala da dor que possuí, finge-a e o leitor perceciona a dor fingida, aquela conseguida apenas porque o poeta a permite descobrir, pois o leitor não sente a verdadeira dor que o que rima, apenas uma mágoa prima... Para con nuar, deverei mencionar que o homem de que falo sofria de pensar. Queria se encontrar num estado utópico, podendo ser outra pessoa, enquanto man nha o seu ser, o seu ferver! Aquilo que lhe dava vontade para escrever, o desanuviar pleno do saber pela escrita rescrita em versos curtos, longos, os ia compondo para que ficasse a seu gosto, mas que nunca lhe bastasse! Este era o seu querer! A ignorância, a inocência, a ausência de pensamento elaborado e es pulado na permanência do mesmo para que pudesse con nuar a exis r… Tanto que em úl mo caso pergunta "Quem me lava o coração?", como que a pedir para não sen r dor. Que volte a ser ingénuo e inocente de modo a que o indecente saia do docente. Para mais um desagrado, uma tenta va de escape, por um lado a procura da suavidade num sonho onde a "vida é jovem e o amor sorri". Por outro a constante auto perceção de que este mutante se conhece e não esquece que é impossível tal felicidade e estado pleno da alma. A própria monotonia deste "eu" não lhe iria permi r crer em algo tão volá l como este acreditar, visto que esse mesmo sonho medonho é contemplado como a terra, que, "à luz da lua (…) se desvirtua". Con nuando e acabando o rugido a este homem que foi mais que sen do e relido, menciono a sua infância em que o mesmo se acha na ignorância. É nostálgico o passado desta pessoa que não teve um passado alegre, mas que o quer(ia) relembrar como tal, algo quase

campestre. É a ideia com que fico depois de um poema lido, escrito no delírio de numa tenta va de achar a felicidade que lhe parecesse ter sido roubada… E, se de facto o foi, não teria sido só ele que ajudou no "crime", mas também pelo menos mais três outros que, com mbre, os enunciarei e apresentarei. Sem mais atrasos e para que se cumpram prazos, falarei agora daquele que diz que a sua alma é como um pastor, no entanto, rebanhos… Nunca os guardou! É Alberto Caeiro, o mestre dos outros, o melhor exemplo que contemplo e a melhor utopia em Pessoa. Mas diz-se como tal, sobre versos longos quase prosados, parecem-me pensados… É uma pessoa que diz que não pensa. Mas para escrever é preciso pensar, sinto que me está a enganar! Quer buscar as sensações sem as deturpações feitas pelo pensamento irreverente que só sabe que mente. Por isso diz que " a [sua] tristeza é sossego", que, por causa do apego à solidão, sofre-lhe o coração. É vísivel que este homem, concebido por outro, imaginado, pensado e sen do por outro, se vê torto, pois contradiz-se no seu agir e escrever. Pois a escrita não é descrita, mas sim refle da. Chamar-lhe-ia men roso, trapaceiro e sonhador de mau hábito. No entanto, não posso dizer que também não o fui, estar-me-ia a insultar e a difamar-me por causa de uma pessoa inventada por outra pessoa que, se disto tomasse parte, estaria a rir à gargalhada. Bem, prossigo para o próximo, aquele que é a contenção mais bem concebida de Pessoa, o cer nho, o direi nho que aparenta não ter nada que lhe doa. É Ricardo Reis que anuncio e alegro felicitar por se ter man do tão honesto, tão virtuoso, honroso e talentoso! A pessoa que soube estar, ser e sonhar, nunca em demasia e sempre com cortesia. Médico de profissão, fez disso a sua carreira que, sob outras influências, decidiu escrever para tentar perceber como melhor poderia ser. O mesmo levava consigo a ideia que, "Para aprendermos", era preciso "Calma também". Foi aquele que soube aceitar a morte sem resis r, sem ser forte. Deixou-se ir e, eventualmente, foi! Buscou "o mínimo de dor ou gozo" e, prazeroso, foi com pouco. Tinha como seu mestre o que de sensações vivia, porém, foi mais bem conceptuado, talvez por ter sido ensinado que deveria ser disciplinado para que não sofresse pelo passado… Mais poderia dizer, a maneira como escreve, a forma como enaltece a morte e a forma de

PEDRO PINHEIRO morrer que toma como certa, disso adquire a coragem que faz com que nada tema. O úl mo dos três, Álvaro de Campos, o desenfreado gritante ambulante, aquele que diz o que quer e tem a dizer, ou que simplesmente grita "Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!". É o mais perverso, sem limites, se limites exis am no vocabulário deste homem! Gritava e pensava que o que sabia lhe bastava, que os pensamentos alheios de nada lhe interessava. Não os queria para nada, não pedia a ciência, a medicina, a matemá ca ou outras. Também não queria ser condicionado e aprisionado pelos caprichos de conhecidos que queriam que este es vesse casado, que fosse comum, normal e igual. Que não se destacasse, que fosse banal! Mas este o negou! Acreditou que não era assim que queria ser! Queria antes mostrar-se oposto às várias coisas que aconteciam no seu dia a dia. Queria ser louco por direito, sem julgamento, sem obrigação indevida causada pela inveja conhecida de alguém que não é tão livre como este doido varrido! Justamente, recorda a infância, os bons tempos em que nada lhe era pedido. Não era julgado, não se sen a ferido e maltratado, incompreendido e destravado. Era bom e de simples tom. Porém, isto não era o bastante… Pois o próprio sabia que não poderia ceder às vontades dos outros seres. Queria, portanto, morrer ele mesmo, sem correntes que o prendenssem a um mundo doente. Acho que me fico por aqui. Mencionei já algumas coisas que dão para se ter uma ideia daquilo que passei este ano a ler e a compreender. Escolhi fazer desta maneira, pois achei desafiante e empolgante. Consigo-me iden ficar com todos um pouco e espero ter um pouco de todos. Estes são os "eus" de Fernando Pessoa, todos pertencentes a esta boa pessoa, porém, ao mesmo tempo, independentes em si. Pois partem de um, mas fora desse um não são nenhum, são todos um.

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