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Esta revista faz parte da edição nº 2799 de 22 março de 2018 do Jornal da Marinha Grande e não pode ser vendida separadamente

MARINHA GRANDE

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

POENTE

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gabinete imagem e comunicação

março 2018

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Índia INTERCULTURALIDADE


DA ESCOLA PARA O MUNDO Editorial

A redação do P&V continua a construir a Interculturalidade, no âmbito do projeto FICA, dando voz às várias culturas que coexistem nas escolas do Agrupamento Poente e na comunidade marinhense. A comunidade indiana, em particular do estado do Punjab, é provavelmente a maior comunidade de estrangeiros no concelho. Embora não tenhamos dados estatísticos para confirmar a nossa impressão, sabemos os números exatos dos adultos que nos últimos 6 anos aprenderam a língua portuguesa na Calazans Duarte: 146 foram certificados com o nível A2 e mais uma turma com 50% de indianos está a frequentar o curso de 150 horas. Com esta edição, dedicada à Índia, damos voz aos /às jovens indianos/as que estudam nas escolas do Agrupamento, em particular na Calazans Duarte, onde maioria frequenta cursos profissionais.Com competências diferenciadas na língua portuguesa, produziram os seus singulares textos, reveladores dos sentimentos pela sua pátria e da sua forma de a recordar estando a milhares de quilómetros de distância. A Índia, esse país distante na geografia e na

cultura, foi um desafio para a equipa do P&V. Um desafio inteiramente superado, a avaliar pelos textos da Anaísa Lucena, Sabrina Gil, Manuel Ferreira, Diogo Heleno, Sofia Puglielli, Mariana Farto e Inês Duque, através dos quais elas olham, ouvem e partilham retalhos da Índia com os leitores do P&V. Anatasia Khimich assina mais uma entrevista Eu vim de longe, tendo conseguido arrancar ao discreto Gurtej Singh, algumas impressões e comparações entre Portugal e Índia. Essa Índia que eu mesma visitei há duas décadas e cujas memórias não resisti a partilhar nesta edição. Ou essa outra, evocativa da presença portuguesa, assinada pelo exprofessor da Universidade de Coimbra, José D' Encarnação, cuja colaboração acolhemos sempre com prazer e orgulho. Como órgão de informação, o P&V traz também notícias e reportagens dos acontecimentos ocorridos em fevereiro e março nas escolas do Agrupamento. Dedicamos algumas páginas à XIII Edição dos Prémios Calazans, um evento sempre digno de reportagem. Na rubrica Um Mês um Curso, damos a conhecer o Curso Profissional de Técnico de Polímeros, pela voz de alunos, professores e encarregadas de educação. Um destaque muito especial vai para a entrevista ao

Coordenador: José Nobre

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

MARINHA GRANDE

POENTE

Redação Residentes: Alice Marques, Anaísa Lucena, Anastasia Klimich, Diogo Heleno Inês Duque, José d’Encarnação, Manuel Ferreira, Mariana Farto, Sabrina Gil e Sofia Puglieeli.

Diretor Cesário Silva, que neste último ano do segundo mandato, falou abertamente do que é ser diretor, numa extensa entrevista aos alunos CEI. A Associação de Pais e Encarregados de Educação dos alunos da Calazans assina um texto oportuno sobre o tempo que (não) passamos com os nossos filhos. O PPIP (Projeto Piloto de Inovação Pedagógica) chega às páginas desta edição a partir das reuniões Focus Group de avaliação/monitorização, que o P&V cobriu. O Pinhal de Leiria, a sua história, o incêndio e a reflorestação são retomados a partir da notícia da palestra ocorrida na Calazans Duarte. Estas e outras notícias fazem a edição de março do P&V, quehttp:// pode ler em papel e também em versão digital. As férias da Páscoa estão aí. Uma excelente oportunidade para guardar os manuais escolares, substituindo-os por um jornal em que o negro e cinza e o cheiro a queimado do Pinhal se misturam com as cores vibrantes e odores intensos da Índia.

.,gic Coordenação:

março 2018

Redação: António Pescada, Gurtej Singh, Leandro Alfaiate, Jéssica Santos, ManpreetKaur, Manuela Prata, Mariana Farto, Micaela Silva, NainaSharma e RavdeepKaur. Impressão: Gráfica Diário do Minho

Tiragem: 4000 exemplares

Produção gráfica: gabineteimagem eseacd

gabinete imagem e comunicação


XIII Edição dos Prémios Calazans

BEM VINDOS À ESCOLA DO FUTURO Texto de Alice Marques e fotografias de Alice Marques e Rui Coelho Com formato diferente e muitas novidades, fezse o espetáculo dos Prémios Calazans, na noite de 16 de fevereiro. Mais de duas centenas de alunos receberam prémios de mérito pelo seu desempenho no ano letivo 2016/17: académico, desportivo, cívico, cidadania, artístico, literário e de empenho. O espetáculo, concebido e realizado pelo GIC (Gabinete de Imagem e Comunicação) e Clube de Teatro/ Companhia CalaBoca, decorreu sob a forma de programa de rádio, com locução do Ruben Alves e da Diana Fernandes, alunos do 11º ano do Curso Profissional Técnico de Multimédia. A ideia foi apresentar uma escola do futuro, que é afinal a escola Calazans Duarte no presente. Foram duas horas que passaram a correr, com homenagens, prémios e sketchs com humor e emoção. E apesar de, à saída, se ouvir, “We don´t need no education…” dos Pink Floyd, ficou claro que os jovens adoram a escola!

O ESPETÁCULO VAI COMEÇAR!

Falta uma hora para o início do espetáculo, o auditório ainda está vazio e silencioso, mas nos bastidores o nervosismo é contagiante. Os atores e atrizes que animarão a noite passaram a tarde no ensaio geral e têm agora uma hora para descansar, comer, descontrair ou… ficar mais nervosos. Ermelinda Silva, a professora que coordena a Companhia CalaBoca, está confiante: “Tudo vai correr bem. O ensaio de hoje não tem semelhança com o de ontem”. A repórter do P&V andou pelos bastidores, falou com os atores e atrizes e com as três alunas, que, não tendo experiência de palco, esta noite terão a difícil tarefa de dizer poesia em línguas

que o auditório não entende. Sofia Puglielli, a jovem venezuelana chegada à Calazans em setembro de 2017, não consegue esconder o nervosismo. É a primeira vez que participa numa atividade com público, nesta escola, e tem “pânico cénico”, disse. Quando era ainda uma menininha, cantava numa academia e “já ficava muito nervosa”. Esse nervosismo regressou, agora que está prestes a voltar ao palco. Anastasia Khimich não dá sinais de estar nervosa. Vestiu uma blusa tipicamente ucraniana e irá dizer um poema em ucraniano, sendo garantido que apenas uma ou duas pessoas da assistência perceberão o que diz.

Mas não é essa a razão da descontração. É que ela já fez teatro em alemão, nesta escola, e isso ajudou-a a vencer a timidez. Ravdeep Kaur, com o seu elegantíssimo Suit em tons de azul, não podia estar mais nervosa. É a experiência mais desafiadora a que foi sujeita, desde que chegou à Marinha Grande, há 5 anos. Também ela se fará ouvir numa língua que o público não entende. Mas elas não são as únicas a viver o nervosismo do antes do espetáculo. Ana Maria, Sofia Carreira e Rui Verdasca são estreantes na Companhia CalaBoca e é a primeira vez que enfrentarão um auditório com mais de duas centenas de pessoas. A Ana, embora já tivesse ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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pertencido ao Clube de teatro da Guilherme Stephens, diz que “aqui é outro nível”. Sofia, embora se sinta “preparada”, não esconde que está nervosa, porque “esta é uma experiência diferente”. O Rui, que brincou ao teatro na escola de Pataias, sente-se confiante e acha que vai tudo correr bem. Embora aqui o teatro “seja coisa séria”, também “é divertido”, disse ao P&V. Confiantes estão as “veteranas” Rita Marques e Catarina Brito, que vão entrar em todos os sketchs. Uma enorme responsabilidade. A avaliar pelo último ensaio, vê-se que estão preparadas. Mas um bocadinho de nervoso “faz sempre parte desta espera nos bastidores”, diz a Rita. A Rita, que tenciona continuar a fazer teatro

amador, porque prefere ser uma “amadora amante” do que uma “profissional que representa por obrigação”. Hoje será a professora da escola do futuro. A Catarina, que participará com falas, dança e canto, viverá aqui a sua primeira experiência de cantora. Uma oportunidade e um desafio. Apenas isso a deixa um pouco desconfortável. Ela sabe que, pela vida fora, enfrentará obstáculos maiores. Seguir teatro, fazer dele a sua profissão, vai dar trabalho e terá de correr riscos. Mas ela está disposta a isso. Na equipa da rádio, os alunos Ruben Alves e Diana Fernandes, do projeto Radio Calazans, são também estreantes. O ritmo do espetáculo está

nas suas mãos. Apesar de terem o texto à frente, serão as vozes da rádio. Atenção, voz e expressão são os requisitos exigidos. Sentem-se honrados por conduzir este espetáculo. Ruben considera que esta ideia do professor Zé Nobre “é muito boa”. Envolver alunos dos cursos profissionais é “dar-lhes notoriedade” que nem sempre têm”, disse ao P&V. Na régie, Laura, Ricardo e Cláudio, do curso profissional de Multimédia, Luciana, do curso de Auxiliar de Saúde e João, do curso de Polímeros, estarão atentos às luzes, som e projecção das imagens. . O professor Carlos Carvalho acompanha-os nesta primeira grande produção da equipa.

HOMENAGEM, BOLSAS E PRÉMIOS

Foram mais de duzentos os prémios entregues na noite de 16 de fevereiro. Foram chamados ao palco os melhores alunos de todos os cursos/anos e também os que se distinguiram no desporto, nos projetos artísticos, nos atos de civismo e cidadania, na escrita e no empenho. Os diretores de turma entregaram os diplomas e troféus e juntos foram fotografados para memória futura. A assinatura dos alunos, não no livro de honra, mas no quadro interativo, é já uma imagem de marca desta escola do futuro hoje. Houve também entrega de bolsas e homenagens. Foi este o momento de abertura, pelo diretor do Agrupamento Poente, Cesário Silva, que, com a sua habitual boa disposição, não deixou ninguém de fora nos

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agradecimentos. Palavras especiais foram para o elenco diretivo, “ a equipa fantástica”, como lhe chamou. Em breves palavras, referiu os principais projetos que o Agrupamento tem em curso, felicitou os alunos premiados, agradeceu aos pais, professores e funcionários, que “com dedicação, empenho e sobretudo optimismo” contribuem para o sucesso dos jovens, para fazer deles “cidadãos ativos”. Chamou depois ao palco os representantes da Associação dos Antigos Alunos, para entregarem a bolsa de mérito à Joana Isabel Florêncio e ao André Silva Pereira, alunos que concluíram o secundário em julho de 2017 e já estão no ensino superior. Este ano, esta bolsa, de 300 euros, homenageia Maria José Lobão Sanches Alves, professora nesta escola de 1951/52, [quando a escola ainda funcionava nas instalações da antiga Fábrica Escola Irmãos Stephens (FEIS), e era diretor o engenheiro

Acácio Calazans Duarte] até 1974/75. Antes de entregar o processo desta docente à sua filha, Ana Alves, também ela professora, na escola Pinhal do Rei, o diretor deu um mergulho na história do tempo da outra senhora, lendo excertos de documentos que certamente surpreenderam o auditório. Foram depois homenageadas 6 mulheres que terminaram a sua carreira no ano letivo 2016/17: as professoras Ausenda Fajardo, Fernanda Batista e Margarida Amado e as assistentes operacionais Aida Figueiredo, Graciete Moura e Adriana Costa. Apesar da ausência da maioria delas, foi o momento em que Aida Figueiredo e Graciete Moura exprimiram, emocionadas, a saudade dos tempos passados nesta escola. O primeiro toque da campainha marcou o fim deste momento mais formal... e a festa começou!


O ESPETÁCULO GIC/CALABOCA Concebido pelo Gabinete de Imagem e Comunicação, Clube de Teatro/Companhia CalaBoca e produzido pelos alunos e professores do Curso Profissional Multimédia, o espetáculo da XIII edição dos prémios Calazans teve ritmo, foi bonito, divertido e emotivo. Mostrou uma escola do futuro hoje, onde a educação do corpo convive, ao mesmo nível, com a educação da racionalidade e da sensibilidade! Em ambientes de aprendizagem onde as carteiras alinhadas foram substituídas por sofás, poufs ou o simples chão. A escola do futuro começou com uma imagem futurista do século XIX. Era assim a escola imaginada pelos ilustradores franceses Jean Marc Coti e Villemard, em 1899: uma enorme máquina “picadora”, onde o zeloso professor ia triturando livros, da qual saíam fios elétricos que se ligavam aos capacetes dos alunos. Fazia sentido dizer-se “ assim é possível meter tanta coisa na cabeça”! No cenário informal, onde cada aluno se sentou onde quis, mas onde não faltaram as mesas com

os nerds fanáticos dos computadores, o dia de escola começou com aula de educação física, com um texto e desempenho humorístico, que logo arrancou gargalhadas ao público. Mas houve mais, muito mais: uma aula de artes, na qual a Catarina Brito e a Beatriz Menino ocuparam o palco com uma dança coreografada por elas, ao som do piano tocado por Daniel Dias, e Beatriz Bernardo foi desenhando perfis; uma aula de culinária onde se cozinhou um prémio Calazans, num grande caldeirão, com ingredientes diversos, do inglês à matemática, à história e à poesia e noites bem dormidas, tudo mexido pela professora Rita; e uma evocação cantada, em sentido e sem saudade, do exame nacional! Inevitavelmente multicultural, nesta escola do futuro, tal como no presente, não faltou o laboratório de línguas, um dos momentos mais inovadores e emocionantes deste espetáculo. Três alunas oriundas de diferentes países disseram poemas nas suas línguas maternas: Ravdeep Kaur recordou a sua Índia em língua hindi, Anastasia Khimich trouxenos as sonoridades da língua ucraniana e Sofia Puglielli leu um poema de amor, em castelhano,

o único do qual foi possível perceber algumas palavras. Sofia Menino representou um poema em linguagem gestual. O objetivo foi conseguido, como se ouviu pelas vozes da rádio: “fazer o público sentir o que sentem os jovens que chegam a um país cuja língua desconhecem, ou simplesmente quando não ouvem”. Houve ainda uma aula com a convidada “muito especial” Sabrina Gil, que cantou Aleluia, e a festa terminou com um momento de voo/sonho, em que Catarina Brito esteve no papel de anjo cantor! Eram 23:00 horas quando deu o último toque (trrriiimmm), as vozes da rádio disseram “Voltamos a ver-nos …no futuro” e o auditório foi inundado pelas palavras provocadoras e a inconfundível sonoridade dos Pink Floyd , “We don't need no education… hei teachers, leave the kids alone…”, anunciando o fim do espetáculo. Mas o público mantinha-se sentado e expectante. Foi preciso o diretor falar do bolo de aniversário, que seria degustado no hall, para que, lentamente, saudosamente… fossem abandonando o auditório.


A ARTE CHINESA DE CORTAR PAPEL P&V

Teve uma enorme adesão a atividade “A arte chinesa de cortar papel” organizada pela professora de Mandarim da Calazans Duarte, Chen Chen, e pela direção do Agrupamento Poente. Prevista para uma sala de aulas, no dia 6 de fevereiro, mas aberta à participação dos interessados mediante inscrição, suscitou tamanho interesse, que foi preciso deslocá-la para o auditório, onde o “palco” foi transformado numa verdadeira oficina. 100 alunos participaram nesta iniciativa. Papéis coloridos, lápis, tesouras e atenção às formas criativas que Chen Chen ia projetando, foram a matéria prima desta atividade que entusiasmou não só alunos, mas também alguns professores. Cortar papel é basicamente a mesma coisa na China, em Portugal ou em qualquer parte do mundo. O que faz então a diferença? É que, para além da técnica, “há a criatividade das formas chinesas! Isso faz dela uma arte” explicou ao P&V a professora Chen Chen. O corte de papel é uma arte tradicional da China, relacionada com a invenção do papel há mais de dois mil anos. Como o papel era altamente precioso naqueles tempos, a arte de

cortar papel tornou-se popular, primeiro nos palácios reais e casas da nobreza como um passatempo favorito entre as senhoras da corte. A história conturbada da China no século XX quase ameaçou esta arte de desaparecer, mas desde os anos 80, o governo chinês tem-se empenhado no renascimento da cultura tradicional chinesa, entre ela esta arte. Nos museus da China esta arte é conservada com todas as caraterísticas tradicionais e pelo mundo fora tem evoluído para formas mais criativas e inovadoras. Este workshop na Calazans Duarte foi possível pelo facto de aqui se estudar Mandarim como segunda língua estrangeira. Este ano, são 20 os alunos que se iniciam nesta língua.

Teatro em Inglês no auditório da Calazans Duarte

COMPANHIA BRITÂNICA ENCANTA OS MIÚDOS P&V

O grande auditório da sede do Agrupamento Poente foi pequeno para tanto público que acorreu a ver e ouvir a companhia de teatro CleverPants, na manhã de 16 de fevereiro. Este momento de teatro em inglês é uma iniciativa do grupo de professores de inglês do 1º e 2º ciclos e acontece há meia dúzia de anos. Desta vez, a companhia, constituída por 2 atores e uma atriz, oriundos da Escócia e Inglaterra (Lawrence, Andrew eTara) trouxeram duas peças: RobinWood, para os alunos do 6º

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ano e Chocolat para os alunos do 3º e 4º ano. Os scripts são da autoria do grupo, adaptados ao programa de inglês destes níveis de escolaridade, abordando temas da cultura popular que são familiares aos miúdos. Com um inglês irrepreensível mas perfeitamente ao alcance do público, muito humor e expressividade, os atores, que desempenham diversas personagens, encantaram os miúdos interagindo com eles. Numa curta conversa com o P&V, disseram também eles estarem “encantados com este público”.

A CleverPants Theatre Company existe desde 2001 e foi fundada com o objetivo de “oferecer aos estudantes de todas as idades, uma experiência teatral interativa, 110% em inglês”, como pode ler-se na sua página da internet. Apesar da sua origem britânica, tem sede em Barcelona. Estabelecendo parcerias com os Ministérios de Educação dos países ibéricos, há vários anos que levam os seus espetáculos a muitas escolas dos dois países.


Palestra sobre o Pinhal do Rei

HISTÓRIA, PRESENTE E FUTURO Alice Marques

Promovida pelos professores de Matemática e Biologia, decorreu no dia 20 de fevereiro, no auditório da Calazans uma palestra sobre o Pinhal de Leiria. Destinada às turmas do 10º ano de Ciências e Tecnologia que estão a desenvolver um projeto interdisciplinar sobre este tema, a palestra atraiu a atenção de outros professores e do diretor do Agrupamento que, sentado no meio dos alunos foi apenas alguém muito interessado na informação. Foi uma sessão em que a voz do Engenheiro Silvicultor, Octávio Ferreira, do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, e as imagens do Pinhal e de documentos cartográficos criteriosamente escolhidos contaram 700 anos de história, com enfoque pedagógico num passado recente, deixando como mensagem forte a responsabilidade destas gerações para a

preservação dum património material e identitário que vai precisar de décadas para ser recuperado. Com clareza e didatismo, o Engº Octávio Ferreira apresentou dados desconhecidos da maioria das pessoas, relacionadas como planeamento e gestão da mata nacional: a longa história da florestação da faixa costeira, do século XIII até á 1º metade do século XX, a razão de ser do pinheiro bravo, a divisão em talhões (340), o corte das árvores para diversas finalidades, entre elas a construção naval e, ao longo do século XX,o corte anual de155 mil pinheiros e as novas sementeiras, o valor médio que esse corte representava por ano para o estado português: 1,5 a 2 milhões de euros. Não foi apenas este património, construído ao longo de 700 anos, que desapareceu em 10 horas no dia 15 de outubro. Por ora, enquanto se cortam as árvores queimadas, estas ainda

alimentam a indústria madeireira. Mas depois será preciso esperar meio século, até voltar a colher-se resina, e 70 até voltar a haver pinheiros maduros para o corte. O património imaterial, identidade marinhense, ficará nos arquivos e almejado no Museu do Floresta. E há que ter em conta os impactos climáticos desta catástrofe, ainda impossíveis de prever. Até lá, a sociedade civil mobiliza-se para replantar o pinhal ardido, talhão a talhão: empresas, autarquias e outras organizações estão a participar neste gigantesco projeto. Cabe a estas gerações que ouviram o engº Octávio não serem negligentes, porque o fogo pode resultar disso, nem fazerem da mata um depósito de lixo. As imagens de meia dúzia de colchões velhos amontoados no pinhal deviam envergonhar o país inteiro!

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UM MÊS UM CURSO Curso Profissional de Técnico de Transformação de Polímeros/Processos de Produção

Textos e fotografias de Alice Marques Mantendo uma forte ligação às indústrias locais, a escola Calazans Duarte continua a apostar em cursos da área da Mecânica. Desde o curso de fresadores, de que são testemunhas as muitas máquinas que enchem as oficinas, aos curso de CNC, quando as máquinas computorizadas começaram a substituir parte das fresadoras convencionais, a escola sempre apostou em formações profissionalizantes nesta área, procurando dar resposta às indústrias locais. Nos últimos anos, os Cursos Profissionais de Técnico de Energias Renováveis, de Planeamento Industrial e Metalomecânica e de Transformação de Polímeros atraíram umas dezenas de alunos que pretendem sobretudo terminar o 12º ano com um nível de profissionalização que lhes

permita entrar imediatamente no mercado de trabalho. Prosseguindo o objetivo de dar a conhecer os cursos profissionais, o P&V dedica a rubrica Um Mês, Um Curso desta edição ao curso profissional Técnico de Transformação de Polímeros. Ouvimos alunos, um diretor de turma e um coordenador de curso, um engenheiro responsável pelo estágio em empresa e falamos também com algumas encarregadas de educação. Para garantir a abertura do máximo de cursos profissionais, a direção da escola tem adotado a estratégia da “meia turma”, isto é, inscrever 14 alunos que se juntam a 14 de outro curso nas disciplinas da formação sociocultural e científica e não precisam de desdobramento nas práticas oficinais. Sendo também uma resposta

formativa para os alunos que não gostam muito das disciplinas mais teóricas, a área técnica destes cursos representa 1/3 do plano curricular, a que acresce a Prova de Aptidão Profissional (no 12º ano) e a formação em contexto de trabalho/ estágio, nos 3 anos do curso, para a realização do qual a escola dispõe de uma boa carteira de parceiros, onde os alunos efetivamente praticam a futura profissão. Espera-se, portanto, que as taxas de abandono dos cursos sejam mínimas. Contudo, o curso de Transformação de Polímeros contraria fortemente estas expetativas. No presente ano letivo funcionam três turmas, do 10º, 11º e 12º, num total de 29 alunos. Apenas o 10º ano não regista abandono. No 11º são apenas 9 e 6 no 12ºo que representa, até agora, uma taxa de abandono de 30%.

A PRIORIDADE É A AQUISIÇÃO DE EQUIPAMENTOS Os nove alunos do 11º N, do Curso Profissional de Técnico de Transformação de Polímeros/Processos de Produção, exprimiram a uma só voz a sua deceção: as Práticas Oficinais estão transformadas em aulas teóricas por falta de equipamentos. Por isso, mudaram até a sigla da área técnica, PO, para TO. São 10 horas semanais, muitos módulos apenas teóricos e uma avaliação de 3 em 3 semanas. Tudo isto a acrescentar ao resto das disciplinas, da área científica e sociocultural, que são importantes para o curso, mas de que nem todos gostam, como também ficou claro. À partida, escolheram este curso porque gostavam e viam futuro nele. Mas, este ano, a desilusão foi-se instalando. E contudo, ali estavam todos, na aula do professor Jorge Monteiro, em frente aos computadores, prontos para uma aula de programação. Para

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chegar à sala 1B7, é preciso atravessar uma longa galeria de fresadoras convencionais e também CNC, algumas do IEFP, que já serviram muito bem outros cursos e ainda servem este, porque o plano curricular também tem módulos de moldes e, como disse o professor Filipe Esteves, “ninguém chega às CNC sem passar pelas fresadoras convencionais”. Os oito rapazes (João Silva, Luís Fonseca, Miguel Carvalho, João Pinto, Francisco Tojeira, Fábio Pinheiro, Joaquim Crachá e André Reis) e a única rapariga (Beatriz Carvalho) dão sinais de enfado e desilusão com o rumo do curso. Foi só este ano, como fizeram questão de dizer, porque no 10º tinham o equipamento que era necessário para as práticas. E, como reforçou o Joaquim, “deve ficar claro que sabemos que esta situação não tem nada a ver com os professores, mas sim com o Ministério da Educação que autoriza abertura de cursos com muitas horas de práticas,

sem atribuir verbas para os equipamentos necessários”. Todos os alunos reconhecem que os professores tentam, dentro dos possíveis, colmatar estas falhas planeando visitas de estudo a empresas locais. Alguns alunos antecipam já o estágio do 11º ano, lá para fins de maio, o momento em que chegarem às empresas sem terem tido qualquer prática oficinal específica de um curso de Transformação de Polímeros. Outros pensam na Prova de Aptidão Profissional, que terão de fazer no 12º ano, que tem caráter teórico-prático. Beatriz Carvalho não se sente nada deslocada entre estes rapazes. “Eles tratam-me bem”, disse. No estágio do 10ºano, esteve mesmo na produção de plásticos por injeção, num ambiente também completamente masculino. Ela sentiu-se confortável, “porque já estava habituada”, mas para alguns trabalhadores “foi estranho verem ali uma rapariga”, reconhece


esta jovem. É neste clima de deceção que falam dum futuro incerto. Mas todos querem terminar o 12º ano, largar a escola e arranjar trabalho. Contudo, na turma de 12º ano, entre os 6 alunos que esperam terminar este ano, há pelo menos um que está decidido a seguir para o IPL para um curso de Engenharia de Polímeros. É Gurtej Singh, o jovem indiano, muito bem integrado e discreto, e que é, na opinião da turma, o “melhor aluno nas práticas e também muito bom na Matemática, na Física e no Inglês”, o que

o P&V confirmou no seu registo biográfico. Consciente das suas falhas e da impossibilidade de vencer o exame de Português, no qual a literatura exige muito mais do que competências linguísticas, pretende entrar através do TESP. Filipe Ronquilho ainda hesita entre seguir Engenharia de Polímeros e entrar no mundo do trabalho, logo que termine o 12º. Estes seis alunos têm uma atitude diferente em relação ao facto de não terem nas oficinas uma máquina para produzir plástico por injeção. Já fizeram um estágio em fábricas, estiveram em

diversas máquinas e correu tudo bem. Todos trabalham já nos seus projetos da PAP, para os quais, à falta de material e equipamento adequado, farão protótipos em alumínio, por sugestão do coordenador de curso, o professor Filipe Esteves. E embora lamentem não ter uma máquina de injeção, não é isso que os desmotiva ou os impede de aprender o que é fundamental para a profissão que esperam vir a ter.

“HÁ CONSTRANGIMENTOS NO CURSO QUE É PRECISO RESOLVER” Jorge Monteiro e Filipe Esteves, professores das Práticas Oficinais do Curso de Transformação de Polímeros e com funções de diretor de turma e coordenadora de curso, respetivamente do 11º e 12º ano, falaram ao P&V do que consideram ser os constrangimentos do curso e como acham que podiam ser ultrapassados. Um protocolo com empresas, que permita, por exemplo, que elas cedam/emprestem à escola máquinas que já não utilizam e uma comissão restrita dentro do Departamento de Formação Profissional que tenha a responsabilidade de coordenar a colocação dos alunos em estágio resolveriam os constrangimentos. A falta de uma máquina de injeção está a provocar grande instabilidade na turma do 11º com alguns problemas de comportamento. Jorge Monteiro deu voz aos alunos para exporem as suas queixas e esta falha foi referida por todos. As estratégias de substituição – aulas mais teóricas usando os computadores ou visitas às

empresas – são reconhecidas pelos alunos como um esforço válido, mas, nesta turma, não convencem. No 12º ano, os alunos aceitaram a falha como um facto e contornaram-no. O custo de uma máquina moderna, da ordem das dezenas ou centenas de milhares de euros, faz com que esteja fora de questão a sua aquisição; mas, na opinião dos dois professores entrevistados, deve ser possível estabelecer protocolos com empresas para cedência de máquinas que já não são utilizadas, o que até ao momento não aconteceu. Esta falha pode originar que no próximo ano “não voltemos a apresentar candidatura para este curso”, disse Filipe Esteves. Se um constrangimento de muitos milhares de euros é difícil de ultrapassar (embora, enquanto decorria a entrevista, pesquisando uns minutos, um aluno tenha encontrado uma DEMAG 120 em segunda mão, no Custo Justo, por cinco mil

euros), uma coordenação mais eficaz da bolsa de parceiros para estágio é não só possível como desejável. A sugestão é simples e pode evitar que aconteçam situações caricatas como contou o professor Jorge Monteiro: “chegar a uma empresa para acordar um estágio e dizerem-lhe já cá veio o seu colega do outro curso”. Eis a proposta sugerida pelos dois professores: “dentro do Departamento de Educação Formação, criar um grupo, uma comissão, uma equipa restrita, o nome não importa, constituída por um coordenador de cada área dos cursos, com a função de coordenar a relação com os parceiros: organizar os documentos necessários para estágio, estabelecer os contactos, ter a lista de tutores das empresas…”. Evitaria repetição de tarefas e os atropelos já referidos.


“A INDÚSTRIA PRECISA DE TÉCNICOS DE INJEÇÃO ” Ramiro Pinto, engenheiro de Polímeros, é o tutor dos alunos que estagiam na Vipex. Tendo ele mesmo feito um curso técnico profissional no ensino secundário, valoriza esta via formativa, pois sabe que “haverá sempre jovens que preferem um ensino mais prático”. Na Vipex, tem acompanhado estágios de alunos do secundário e também da licenciatura em Polímeros, do IPL. Reconhece que mesmo não trazendo muito conhecimento da parte prática, trazem bases para aprender rapidamente. Faleilhe da insatisfação dos alunos por não terem uma máquina de injeção na escola, e da sugestão de protocolizar com empresas a cedência de algumas, já fora de uso. Foi categórico: “isso é possível; acontecia, por exemplo na escola profissional de Pombal, e penso que falando com a administração da

Vipex, se poderá chegar a um acordo”. Nos dois últimos anos, acompanhou 2 alunos do curso profissional de polímeros, o Vishavjeet Singh (que entretanto abandonou o curso) e o João Gameiro. Organizou o estágio para cada ano, de acordo com as competências que os alunos deviam já ter adquirido e propondo atividades a partir dos objetivos que constam no protocolo. Envolveu-os na manutenção dos moldes, montagem, desmontagem e verificação dos erros e, no 2º ano, para além de os colocar nas máquinas de injecção, propôs-lhes o desafio de reorganizar o layout a partir do croqui existente. Foi também categórico relativamente à importância deste curso: “ a indústria dos plásticos precisa muito de técnicos de injeção; temos técnicos já com alguma idade, precisamos de gente nova. Temos estado a formar internamente esses técnicos, sempre que

chegam novos equipamentos, mas será mais fácil formar jovens que já tragam formação na área, pois trazem muitos conceitos interiorizados e revelam capacidade de aprendizagem. A escola deve continuar a apostar no curso de Polímeros, e acordar com empresas a cedência de máquinas, para resolver em parte essa questão das aulas práticas”. A pedido da repórter, o Engº Ramiro Pinto deixou as seguintes sugestões: para os professores, “ a teoria é importante, mas os cursos profissionais devem estar virados para a prática”; para os alunos: “devem estar gratos quando são acompanhados por técnicos que têm muitos anos de experiência; alguns, já com muita idade, gostam de ensinar os jovens; não tenham a presunção de que no fim do estágio já estão ao nível destes técnicos. São necessário alguns anos para formar um bom técnico, há que ter paciência no desenvolvimento profissional”.

ENCARREGADAS DE EDUCAÇÃO ATENTAS A comunicação entre o Diretor de Turma do 11º N, Jorge Monteiro, e os/as Encarregados/as de Educação (EE) não podia ser melhor. Quem o diz são as três encarregadas de educação entrevistadas pelo P&V. “Cinco estrelas, impecável, excecional”, são as palavras que usam para o definir. Carla Pereira, tutora e EE da Beatriz Carvalho, diz que todos os testes psicotécnicos que ela fez revelaram “um perfil diferente da maioria das meninas. Ela é pragmática, gosta das tecnologias, por isso esta oferta formativa é mais adequada para ela”. A potencial empregabilidade deste curso também pesou na

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hora de decidir. E, apesar de este ano estar a ser “mais teórico”, a Beatriz continua a “transmitir entusiasmo e a gostar do curso”, disse Carla Pereira ao P&V. Anabela Silva, mãe e EE do João Pinto, acompanha com alguma preocupação o percurso escolar do filho. Os módulos em atraso, que podem comprometer o estágio no final do ano, levam mãe e filho a ponderar a hipótese de mudar para o curso de CNC, que entretanto abrirá. Contudo a decisão será dele, porque já tem 18 anos. Como encarregada de educação, ela apenas gostaria que ele terminasse um curso. Carla Silva, mãe e EE do João Silva, é motorista numa empresa de moldes há 13 anos. Mas

passou pela bancada, durante três meses, e adorou: “trabalhar o aço é lindo”, disse. Hesita em afirmar que o João está no curso certo. Na sua opinião, ele até “gosta mais do aço do que do plástico” e o contacto com os moldes no primeiro estágio confirmam a sua impressão. Por isso, se ele decidir mudar para CNC, ela apoiará esta decisão. Porque, embora saiba que nos plásticos precisam de técnicos, sabe que os moldes também continuam a precisar. Ela gostaria de o ver “na bancada”, que diz ser a “área mais forte dos moldes” e “onde se ganha mais dinheiro”. Mas a decisão é dele. Também ela só deseja que ele termine um curso e se integre no mercado de trabalho.


ENTREVISTA AO DIRETOR DO AGRUPAMENTO DE ESCOLAS MARINHA GRANDE POENTE António Pescada, Jéssica Santos, Leandro Alfaiate, Mariana Cardoso, Micaela Silva

“Isto De Ser Diretor Nem É Assim Tão Difícil: É Mais Um Estado De Espírito” Em geral, os alunos, nos seus afazeres do dia a dia, não conhecem verdadeiramente aqueles com quem partilham o mesmo espaço e que têm um papel fundamental para fazer viver este “mundo imenso” que é o nosso agrupamento de escolas. Foi com esta curiosidade acesa que nós - o António Pescada, a Jéssica Santos, o Leandro Alfaiate e a

Mariana Cardoso do 12ºE e ainda a Micaela Silva do 11º E, alunos abrangidos pelo Decreto-lei nº3/2008, 7 de janeiro, com currículo específico individual - nos propusemos o desafio de entrevistar o Diretor do Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente, Dr. Cesário Silva, não só p a ra o c o n h e c e r m o s m e l h o r p e s s o a l e

profissionalmente, mas também para sabermos mais acerca do cargo que exerce e do funcionamento do Agrupamento. A concretização deste nosso projeto decorreu nas aulas de Português, tendo contado com a colaboração do professor Jorge Alves e da Professora de Educação Especial, Manuela Prata.

No dia da realização da entrevista, foi a Jéssica que agradeceu toda a disponibilidade que o Diretor demonstrou, ao receber-nos no seu gabinete de trabalho, pondo-nos à vontade, com a sua extrema simpatia, o que aliviou logo a tensão e o nervosismo que sentíamos. A Mariana começou a entrevista com as questões mais pessoais, às quais o Diretor respondeu: Diretor - Tenho 54 anos e nasci em Vila Real de Santo António, que é uma das cidades que está geminada com a Marinha Grande. Sou casado e tenho duas filhas: uma filha com 26 anos e uma filha com 23. Vim para a Marinha Grande para ser professor em 1988 e passei a viver aqui um ano depois. Vim e fiquei. Gostei muito da Marinha Grande. A Marinha Grande tem uma caraterística muito engraçada: acolhe as pessoas muito bem; e, portanto, eu senti-me acolhido, senti-me bem, senti que gostava mesmo de trabalhar aqui: o ambiente era muito bom, tínhamos um grupo excelente de professores… e, então, acabei por ficar aqui. Mariana - Onde é que estudou, e que curso tirou? Diretor - Como nasci em Vila Real de Santo António, fiz até ao ensino secundário em Vila Real de Santo António, depois vim estudar para

Coimbra onde estive a fazer Engenharia Mecânica. Mais tarde (a gente nunca para de estudar), continuei a estudar e fui fazer um mestrado em Lisboa, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, que agora se chama. Instituto da Educação. Fiz mestrado em Ciências da Educação e depois ainda continuei a estudar, mas tenho neste momento o processo parado. Portanto, ao longo da nossa vida, aquilo que nós temos de perceber é que ao longo da nossa vida é sempre importante continuar sobretudo a aprender, e a aprender coisas que preencham a nossa curiosidade, o nosso interesse por novas coisas que nos permitam ter melhor trabalho. A aprendizagem é muito importante ao longo da nossa vida… Nunca podemos desistir e, sobretudo, também nunca podemos pensar que quando atingimos um nível de escolaridade já podemos ir embora, não é verdade? E depois vêm outros desafios e perdemos essas oportunidades. Mariana - É professor de que disciplinas? Em que ano e escola começou a trabalhar? Diretor – Então, eu vou revelar-vos um segredo. Há muitos anos atrás, antes de eu vir estudar para Coimbra, estávamos no ano de 1982… em 1982 eu estava a fazer o 12º e, portanto, nessa altura, ainda havia uma necessidade muito

grande de professores e isso fazia com que em muitas circunstâncias, e principalmente no Algarve, que estávamos afastados dos grandes centros, às vezes não houvesse oportunidade de ter sempre professores disponíveis. Então a primeira vez que dei aulas (por isso é que eu vos estou a fazer uma revelação), tinha 18 anos e dei aulas de Educação Visual no 2º ciclo onde estive a fazer uma substituição de uma professora que estava em licença de maternidade. Mais tarde, quando ingressei na carreira, lecionei matemática durante 3 anos e só depois cheguei ao meu grupo, que é o grupo da mecânica, porque a minha formação inicial é Engenharia Mecânica. O Leandro passou às questões relacionadas com a sua função de Diretor e com o funcionamento e atividades do agrupamento, começando por perguntar em que ano se tinha candidatado a Diretor do Agrupamento. Diretor – Já tinha desempenhado funções no Conselho Diretivo entre 1990 e 1995. Depois estive a fazer outras coisas, estive a desempenhar outras funções na Escola. A exercer funções como Diretor, nesta “figura nova”, foi só em 2009. Leandro - Quais as razões e as motivações da sua candidatura? ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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Diretor – Nós temos sempre duas razões principais que são aquelas que a mim, pessoalmente, me levam a ir a estes processos. Em primeiro lugar, é pensar que podemos contribuir para que algo de novo aconteça (isto até parece a letra de uma música…). Para além disso, os professores têm que responder sempre a desafios novos: criar condições para que os alunos possam aprender de forma diferente, discutir novas maneiras de nos organizarmos, estar abertos e recetivos para desenvolver novos projetos… e esta Escola e este Agrupamento vivem muito com muitos projetos. Foram estas as motivações que me fizeram avançar com a candidatura - por um lado, contribuir para a melhoria e, por outro lado, perceber que é possível fazermos diferente. Leandro - Que projetos tinha para o Agrupamento? Diretor – Olha, Leandro, naquela altura ainda não éramos Agrupamento. Estávamos em 2009 e nós só passámos a ser Agrupamento em 2013, portanto, digamos que, naquela primeira fase, éramos uma só uma Escola Secundária com 3º Ciclo, com turmas a partir do 7º ano. O Agrupamento não era esta figura que temos atualmente e as expetativas que nós tínhamos eram muito as de apostar numa formação e numa forma de trabalho que fizesse com que os alunos saíssem da escola com melhores competências, para que fosse possível arranjarem emprego mais facilmente ou irem para o Ensino Superior com melhores condições. Leandro - O cargo de Diretor é muito difícil? Diretor – Os cargos de Diretor são como qualquer cargo. Todos os cargos têm aspectos difíceis e menos difíceis. Atenção, não vamos

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pensar que o Cargo de Diretor é o cargo mais complicado, não. O cargo de diretor, o cargo de professor, o cargo de diretor de turma, o cargo de coordenador de departamento… todos temos funções nesta estrutura que é uma estrutura muito grande, agora desde que é Agrupamento. Leandro – O exercício deste cargo impede-o de fazer outras coisas de que gosta? Diretor – Se me limita? Limita… limita um bocadinho fazer outras coisas, ainda que possa afirmar que muito do que faço diariamente me dá grande prazer. Havia uma atividade que deixei de praticar com muita pena minha cantava num coro, no Orfeão de Leiria… atividade que apreciava muito porque, por um lado, estava com muitas pessoas com outras experiências e, por outro lado, estava numa estrutura na qual eu não mandava nada, mas era mandado por outros. E isso é bom, porque quando se tem estes cargos de decisão, ter momentos em que somos orientados por outros constitui um importante processo de aprendizagem. Com muita pena minha, ao fim de dois, três anos de coralista no Orfeão de Leiria, tive que abandonar. Foi uma opção. Na vida, todos temos que tomar estas opções, e não têm que deixar mágoas, antes pelo contrário, porque, em muitas circunstâncias, quando estou aqui fora de horas, também estou a fazer coisas que me dão muito gosto e muito prazer. Leandro - No dia a dia, quais são as situações mais difíceis de gerir? Diretor – As situações mais difíceis de gerir normalmente têm a ver com conflitos – conflitos entre alunos. Sabes, quando há um problema, as

pessoas acham sempre que a razão está toda do seu lado, e nós temos que os ouvir para os ajudar, para que eles percebam que, geralmente, há sempre razões de parte a parte. E, sem dúvida, esse papel de árbitro é sempre um bocado complicado. De resto, as situações do dia a dia têm muitas vezes a ver com aspetos burocráticos, coisas normais da gestão corrente. António - Gostaria de partilhar connosco qual foi a situação mais difícil que teve que resolver ao longo destes anos? Diretor – No dia a dia, há muitas situações que nos provocam algumas dificuldades e nos causam alguma tristeza. É difícil eleger uma só situação. Mas quando há professores ou funcionários que nos ajudam imenso com o seu trabalho e de quem nós precisamos e que são obrigados a deixar-nos, isso custa-nos bastante, mas nós temos que respeitar a lei, porque as leis, por muito que isso nos doa, são para ser respeitadas. Outra situação que nos deixa muita tristeza é quando vemos que temos alunos que, por necessidades familiares, porque têm que ajudar no sustento da família, porque têm os pais desempregados e têm que procurar forma de os auxiliar, ou por outras razões, têm que abandonar a escola, mesmo quando até tinham capacidades de concluir com sucesso o seu percurso escolar. Outras situações também bastante difíceis sucedem quando vemos que, apesar de todo o esforço que fazemos no nosso dia a dia, em conjunto com todos aqueles que aqui colaboram (professores, funcionários, alunos e encarregados de educação incluídos), no sentido de termos uma escola melhor, não somos devidamente compreendidos pela comunidade e somos apontados por vezes por


uma única e ínfima coisa. Nós, ao longo de um dia inteiro, vemos que acontecem milhares de coisas boas na escola, mas à noite, por algo menos bom que tenha sucedido, é isso que nos fica a martelar, é por esse pequeno pormenor que somos julgados e que nos apontam o dedo. E o que nos custa é ver que, apesar de todo o esforço que todos nós fazemos, para que o agrupamento seja melhor, para vos dar melhores condições, para que todos saiam daqui felizes, isso não seja compreendido por muitas pessoas que desconhecem todo o trabalho que aqui se faz. António - E qual foi a situação que lhe deu mais satisfação? Diretor - A que mais gostei… são muitas. Nós temos muitos projetos... Desde logo, a agregação, pelo grande desafio com que fomos confrontados; antes de sermos um agrupamento, éramos uma escola secundária que tinha meninos desde o 7º ano. Assim, nós só poderíamos acompanhar-vos a partir dos 12/13 anos e a grande maioria dos alunos só entrava no 10º ano. Agora já vos podemos acompanhar logo a partir da pré-primária e do 1º ciclo, o que nos permite seguir-vos e ajudarvos de forma mais constante. Em conclusão: temos mais escolas, temos mais trabalho, mas isto permite-nos chegar ao nosso objetivo, que é fazer melhor e diferente. Uma situação que nos enche de orgulho é quando vemos que um grande número de alunos nossos entram para o ensino superior e que, posteriormente, nos vêm agradecer pela forma como trabalhámos com eles, havendo muitos que nos dizem que nos seus cursos e nas suas faculdades, os alunos vindos da Calazans são tidos como dos mais bem preparados e com possibilidades de terem os maiores sucessos. Outras vezes, o que me dá também uma enorme satisfação é quando encontro colegas vossos, ex-alunos da escola e

que foram também meus alunos, que estão bem integrados no mundo do trabalho, com os seus empregos, alguns já com formação superior, e que nos dizem que esse seu sucesso se deve muito ao que aqui aprenderam, ao trabalho que aqui fizeram e à forma como saíram daqui mais bem preparados para enfrentarem esse mundo. Outras vezes ainda, encontro professores que nos deixaram e que nos dizem: “Nós, lá no agrupamento, trabalhávamos tanto, mas era tão bom!” E de uma coisa podem ter a certeza: as pessoas, nesta escola, trabalham muito e muito bem! António - Desde que é Diretor, o que mudou na sua vida? Diretor - Não tenho férias. É verdade... Agora o ritmo de trabalho é muito diferente, as coisas foram mudando a pouco e pouco e, agora, o tempo que tenho para mim é muito menor, mas faço outras coisas de que gosto: enfrento todos os dias novos desafios, tenho de me deslocar muito mais… ainda há dias fui ao Porto, amanhã tenho de ir a Coimbra e na segunda-feira tenho de voltar a Coimbra. Uma coisa boa: não tenho rotinas, tenho uma agenda muito aberta e diversificada, e há sempre tarefas novas e diferentes a desenvolver. António - Já concretizou alguns dos projetos que tinha quando se candidatou? Diretor - Em primeiro lugar, o processo da agregação - esse foi um dos momentos que nos trouxe grande satisfação pelo desafio que é passar de uma escola secundária para um grupo muito maior e diversificado de escolas. Além disso, com este processo, temos vindo a concretizar grandes melhorias em muitas escolas, com várias a ser objeto de intervenção. Outro aspecto que também me satisfez bastante foi a diversificação de cursos que pudemos apresentar (tivemos, por exemplo, a experiência do Ensino Vocacional), para além do aumento

do seu número. Por último, devo salientar o facto de termos vindo a diminuir o número de alunos retidos. Jéssica - Tem novos projetos para o Agrupamento? Pode partilhá-los connosco? Diretor - Nesta altura, estou numa situação difícil para falar em novos projetos. Como certamente sabem, neste processo, o cargo de diretor tem a duração apenas de quatro anos, e eu estou no final do meu mandato. Até ao final deste ano letivo, tem que haver uma nova eleição, portanto, não estou muito à vontade para falar de novos projetos. No entanto, há uma dinâmica já em curso que me permite dizer, independentemente de quem seja o diretor, que há condições para concretizar alguns projetos já em marcha: em primeiro lugar, a intervenção na escola Guilherme Stephens. Por outro lado, seria bom que se fizesse um centro escolar na Várzea (a Marinha Grande é dos poucos concelhos que não tem um centro escolar). Com isso, conseguiríamos melhorar as condições para todos, os meninos já não precisavam de acabar o 1º ciclo na Guilherme, como agora acontece, por falta de salas. Poderíamos também começar a trabalhar logo com os meninos do pré-escolar, pois teríamos mais salas, mais espaços para trabalhar de forma mais individualizada, teríamos um refeitório melhor, um pavilhão gimnodesportivo coberto, mais gabinetes, etc. Para além disso, penso que continuaremos a promover e a desenvolver novos projetos para diversificar cada vez mais a oferta educativa do Agrupamento. Mas há um outro projeto, que vou partilhar convosco: na última segunda-feira, estivemos a hastear a bandeira das “Escolas Segura Mente”. Esteve cá o Sr. Bastonário da Ordem dos Psicólogos, e, se o que falámos se concretizar, vamos promover um estudo para sabermos das necessidades de docentes e funcionários para, futuramente, podermos criar

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melhores condições para que todos se sintam melhor. Poderá passar pela criação de espaços para as pessoas poderem relaxar e descansar, para aliviar o stress das grandes exigências do trabalho. Gostaria mesmo que, no futuro, as pessoas se sentissem mais felizes nesta escola e no seu trabalho. Jéssica - O que gostaria de fazer quando deixar de ser Diretor? Diretor - Ser professor. Eu, desde os 18 anos, sempre fui professor. Ser diretor é um momento, num determinado contexto. Eu, como diretor, poderia não dar aulas, mas eu gosto desta partilha e, por isso, tento nunca deixar de dar aulas. Este ano, estou com os meninos do 5º ano, na Guilherme Stephens, num projeto das Oficinas. Jéssica - E o que gostaria de fazer quando se reformasse? Diretor - Professor reformado. Quando me reformar, quero continuar a fazer o que sempre fiz até hoje: partilhar experiências e saberes. É isso que eu quero, continuar a ser professor. A Micaela continuou a entrevista com algumas perguntas rápidas de cariz pessoal. Ficámos a saber que: Diretor- Cor preferida é o azul, apesar de ser do Benfica. Animal preferido, o cão. Prato favorito é o Cozido à portuguesa. Gosto de música portuguesa, de alguma fusão, gosto que haja uma mistura entre o que é tradicional, o fado, por exemplo, e alguma modernidade. O livro que mais de ler gostei de ler, que já li duas ou três vezes e que por vezes ainda revisito, já que tenho lá umas páginas marcadas para as voltar a ler, foi “Cem anos de solidão”, marcou-me

imenso. A viagem que mais gostei foi aquela que ainda não fiz. Ainda estou à procura para poder fazer aquela viagem que será a viagem da minha vida. Nos tempos livres gosto de ler é o que faço quando tenho algum tempo livre, em casa, no sofá, leio e ouço música. Isso é o que me dá mais prazer. Jéssica – Fazendo agora umas perguntas sobre nós... ter-nos aqui constitui um desafio para si e para a Escola? Diretor – Claro! Qualquer aluno constitui um grande desafio para mim e para a escola, e eu vou explicar porquê. A escola tem que preparar todos os alunos, e vocês não são exceção, para serem melhores cidadãos, para que saiam daqui com a sua “mochila do conhecimento” bem cheia, com melhores ensinamentos, melhores competências, com melhores valores, para estarem bem preparados para enfrentarem os desafios com que se irão deparar no futuro. E não pensem que são só vocês quem aprende neste processo; tirem o cavalinho da chuva! Nós também aprendemos! Aprendemos muito convosco.. O que estão aqui a fazer agora, esta entrevista, traduz isso mesmo e enche-me de orgulho. Jéssica. O que pensa da resposta que temos do currículo? Diretor – Penso que o currículo poderia ser ainda menos rígido, mais aberto, apesar de o vosso, na vossa modalidade de ensino, já o ser bastante. Vocês, aqui na escola, aprendem muito, nas disciplinas que têm, nas atividades em que participam, nos estágios que fazem, e adquirem muitas competências. E estou certo de que, com as competências aqui adquiridas,

vocês poderão ser, no futuro, cidadãos de pleno direito, nos vossos empregos, perfeitamente integrados e com muitas ferramentas para conseguirem avançar na vida. Mariana – Gostaria de lhe agradecer o facto de nos ter dado esta entrevista, de nos ter tido aqui, ter-nos dispensado algum do seu tempo. Gostámos muito de o conhecer melhor... e desejamos-lhe uma longa carreira. E, já agora, se nos quiser fazer alguma pergunta ou terminar com uma observação final… Diretor – Quero! Em primeiro lugar quero-vos agradecer por esta entrevista. Podem crer que, apesar de serem só dez da manhã, já ganhei o dia. Acreditem que não me vou esquecer de que vieram aqui falar comigo, fazer-me estas perguntas que me desafiaram a pensar, a falar de mim, que é coisa que não faço muitas vezes. Para além disso, vocês fizeram-me pensar em muitas coisas e, podem crer de que não me vou esquecer que estive aqui, com cinco alunos e dois professores, e que me obrigaram a pensar em muitas coisas, o que representou para mim um grande desafio e foi um grande prazer… bem! E puderam ver que isto de ser diretor nem é assim tão difícil: é mais um estado de espírito. Ficam a saber que, na maioria das vezes, os alunos vão ao gabinete do Diretor por coisas boas: para falar, para dizerem coisas boas que aconteceram, mais do que por razões negativas. O Diretor não serve só para vos dar na cabeça!

ALUNOS, ENCARREGADOS DE EDUCAÇÃO E PROFESSORES AVALIAM O PROJETO P&V

Focus Group. Assim se chama a estratégia de monitorização/avaliação do projeto PPIP, cuja primeira sessão decorreu nos dias 22 e 26 de fevereiro. Numa das salas, 8 alunos do 5º ano (um de cada turma) sentaram-se à volta duma mesa e durante 90 minutos responderam a perguntas elaboradas pela comissão que monitoriza o PPIP, sobre esta inovação pedagógica de que são pioneiros. Na sala ao lado, 7 mães e 1 pai, encarregados de educação de alunos das turmas de 5º ano, responderam

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igualmente a perguntas equivalentes. No dia 26 decorreu o Focus Group com os professores. Ao contrário do entusiasmo dos alunos e da recetividade dos encarregados de educação, os professores mostraram resistências várias. Salvo raríssima exceção, da professora Rosa Oliveira. Houve momentos em que dificilmente se acreditaria que estavam a falar da mesma coisa! O envolvimento de alunos e encarregados de educação neste projeto é seguramente uma das suas maiores virtualidades. E porque as suas opiniões contam, é de esperar que algumas dificuldades relatadas sejam rapidamente ultrapassadas. A satisfação e interesse dos alunos relativamente às formas de trabalhar é quase unânime,

embora possa haver, por parte de um ou outro aluno, desagrado com a turma, ou com o grupo de que num determinado momento faz parte. As oficinas de projeto têm a preferência de todos, quer pelo interesse dos temas tratados, quer pelas atividades que realizam, e que são, em boa parte, definidas pelo grupo. As visitas ao exterior, as pesquisas, a preparação de apresentações com suporte electrónico e até mostrá-las aos encarregados de educação entusiasmam os alunos. Tudo é “muito melhor do que as aulas em que o professor só fala”. Bruna, que trabalhou no projeto “De olho no Pinhal”, explicitou assim o entusiasmo de trabalhar num projeto destes: “Nunca pensei


que num projeto se pudesse sair da escola e fazer um projeto com tanta dimensão”. O projeto sobre a água, “A água que nos move” mereceu comentário muito pertinente da Maria e da Vanessa: “ aprendemos várias maneiras de poupar água”. Com o projeto de filosofia, “Quem sou eu”, “as pessoas aprendem mais umas com as outras e a ouvir os outros”, disse a Matilde. A forma como são avaliados também foi alvo de perguntas e teve por parte dos alunos uma resposta unânime. Todos estão esclarecidos do quê e do como são avaliados, do que conta e quanto conta para a “nota” final. Do lado dos encarregados de educação a receptividade às inovações é geral. Em casa, os miúdos contam, com entusiasmo, o que estão a fazer, são os porta-vozes diários deste projeto. Algumas queixas de comportamentos desadequados de alguns alunos são uma nota dissonante. A organização em semestres tem vantagens que todos reconhecem, sobretudo “por não haver dois momentos de testes por período”, embora o facto de o momento de avaliação formal do 1º, ter sido logo a seguir às férias do Natal, tenha dado lugar a discordâncias. “Os miúdos sentem-se pressionados nas férias”, “é violento acabar as

férias e começar logo com testes” conflituou com “isso é irrelevante porque esses momentos estão previamente definidos e isso até ajuda a desenvolver nos miúdos a auto-organização e autodisciplina”. Apenas os TPC foram alvo de severas críticas na avaliação feita pelos encarregados de educação. Mas, como percebemos pelas respostas, isso não se verifica em todas as turmas. Autoconfiança, autonomia, responsabilidade, criatividade, desenvolvimento de uma visão nova e partilha são algumas dos efeitos formativos que os EE reconhecem como mais valias do PPIP. A clareza da perceção quanto à forma como são avaliados é também unânime entre os EE. E ainda que a avaliação qualitativa seja reconhecida como “a mais adequada”, há sempre uma voz em defesa da superioridade da avaliação quantitativa. Falta de espaços adequados, dos “ditos ambientes de aprendizagem ”falta de recursos”, tempo da oficina de projeto “roubado” às disciplinas, impossibilidade de cumprir planificações e programas, provas de aferição no final do ano, as quais, “em bom rigor, avaliam o trabalho do professor”, como disse o professor Agostinho, foram alguns obstáculos encontrados

pelos professores. Em geral, a maioria deles não assinalou diferenças nas suas práticas pedagógicas e alguns resistiram mesmo a ver no PPIP qualquer inovação digna de registo, a não ser a semestralidade do ano letivo, que, aliás, levanta também muitas reservas. De notar que todos os professores envolvidos neste projeto piloto “foram consultados e aceitaram fazer parte dele”, como garantiu ao P&V a professora Isilda Silva. No que respeita à avaliação, a posição dos professores que se pronunciaram, é de “não compreenderem o peso que a avaliação no projeto acrescenta à avaliação de cada disciplina”. Alguns professores levantaram também a questão: “como é que se calcula a nota final de cada disciplina?”. Apenas num ponto todos estão de acordo: para que o trabalho colaborativo se faça e este PPIP contribua para o crescimento profissional dos professores é preciso tempo: para organizar melhor, para trabalhar melhor a interdisciplinaridade, para afinar os instrumentos…. E esse tempo deve estar previsto nos horários dos professores.

Jardim de Infância/Escola Básica da Fonte Santa

UM PROJETO INOVADOR, COM CERTEZA! P&V

Nem a chuva nem mas obras no edifício alteraram as rotinas do Jardim de Infância/Escola Básica da Fonte Santa. Até a presença da repórter do P&V e a reunião da equipa de monitorização/avaliação do PPIP, que aqui realizou mais um FocusGroup, no dia 1 de março, passaram quase despercebidas. Na sala do Jardim de Infância, as atividades planeadas para o dia decorreram normalmente e foi preciso esperar pelo intervalo da manhã para ouvir a educadora Aida Mira. Militante do Movimento da Escola Moderna há três décadas, esta educadora não precisou de introduzir

grandes alterações nas suas práticas pedagógicas. Já eram práticas habituais o trabalho por áreas, a organização em grupos heterogéneos de idades, a participação das crianças na definição das atividades quotidianas. “O PPIP trouxe sobretudo a articulação com o 1º ciclo: um dia por semana trabalhamos em articulação, a educação literária, alternando na semana seguinte com as experiências de ciências” explica Aida Mira. A receptividade dos pais ao PPIP foi total. Prova disso foi o aumento do número de crianças (21, mais 3 que ano anterior) e a maior adesão e envolvimento nas atividades. Na sala do 1º ciclo, professoras e alunos

organizam o mobiliário e o material didáctico. Esta foi a primeira a ter as obras concluídas. “Sala nova”, comentei com uns miúdos; e fui prontamente corrigida: “não é nova, só tem um teto novo e foi pintada.” Geraldina, uma das professoras que o diretor Cesário Silva deslocou para esta escola, partilha com Paula Botas a turma de 34 alunos do 1º ao 4º ano. Habituadas a trabalhar em projetos, também elas rapidamente interiorizaram as alterações. A abordagem transversal do currículo é uma das práticas. Hoje, por exemplo, dia 1 de março, “a manhã começou ainda na sala exterior, com o trabalho oral sobre o nome dos meses, os dias de cada mês, os números pares e ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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ímpares, as estações do ano e provérbios da língua relacionados com março. Assim que terminarmos de montar a sala, prosseguirá por grupos/ anos”, explicou a professora Geraldina. Fernando Emídio desenvolve aqui um projeto da Matemática numa comunidade de aprendizagem, integrada no projeto Includ-ed, sobre o qual já apresentou uma comunicação em Lisboa, na Associação dos Professores de Matemática. Projetos que transbordam para lá da escola são uma aposta da Fonte Santa. As docentes elaboraram, concorreram e ganharam um projeto de construção de um Banco de Sementes Comunitário, que será apoiado

financeiramente pela Fundação Ilídio Pinho. “É um trabalho mais produtivo, os miúdos adquirem um conhecimento mais abrangente, transversal, não compartimentado, e sem dúvida que eles se tornam mais reflexivos, mais críticos, mais responsáveis, mais autónomos e desenvolvem mais a linguagem”, defende a professora Geraldina. “E o programa é dado na mesma”, acrescenta. Tudo isto “dá muito mais trabalho do que ter a nossa turminha”, confessa. Mas “ver os resultados, a evolução dos miúdos e ter o retorno através dos pais dá-nos confiança de que estamos a fazer um bom trabalho”, conclui. A linguagem foi o que mais chamou a atenção da

repórter do P&V na sessão do Focus Group. Oito crianças, do 1º ao 4º ano, respondiam a perguntas sobre os tópicos em monitorização: os conteúdos, as formas de se organizarem, a avaliação. Sobre este, em intervenções sempre precedidas do braço no ar, ouvi, de meninos e meninas dos 7 aos 10 anos: “Tudo o que fazemos é avaliado” (Tiago, 3º ano); “Somos avaliados no dia a dia e nós também nos avaliamos. Falo sobre as minhas dúvidas, se consegui fazer o que tinha planeado e faço uma reflexão sobre o que estou a aprender” (Ana Laura, 3º ano); “somos avaliados pelas fichas, pelo trabalho do dia a dia, o comportamento, as questões de aula” (Luz, 2º ano).

PRECISAMOS DE TEMPO DE QUALIDADE COM OS NOSSOS FILHOS Associação de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos da ESEACD Os pais têm, cada vez mais, de ser eles a fazer os trabalhos de casa, e não falamos em colaborar nos TPC's das várias disciplinas, esse é outro tema… As crianças e jovens necessitam do nosso trabalho diário, da nossa presença ativa para lhes transmitirmos o que a Escola não tem tempo e que, na realidade, não lhe compete. Este empenho em cumprir o nosso dever converte-se em confiança, que os encoraja a espiolhar o mundo que os rodeia de uma forma mais tranquila e tenaz, ganhando autoconhecimento e responsabilidade. Partilhamos da mesma sensação de que cada vez temos menos tempo. E os nossos filhos, esses, são confrontados com uma grande carga horária e um menu de atividades, desde que se levantam até voltarem para a cama, que pouco lhes sobra para vivenciar e aprender o que lhes será exigido no futuro. E depois temos aquele agridoce das novas tecnologias, um rival acérrimo com “apps”, “instas”, “youtubers”que deitam por terra todas as nossas intenções de levar a bom porto uma relação já por si atribulada, não estejamos nós a falar de adolescentes. Porém, temos de ser nós, pais, familiares, professores…a contrariar estas tendências já tão incrustadas que até o melhor desengordurante

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tem dificuldade em arrancar. É imperativo arranjar artimanhas, desenvolver mecanismos, estratégias, acordos, que mudem comportamentos já tão cristalizados e metódicos. E, obviamente, que falamos de parte a parte. Sim, também nós, pais, adultos, temos a nossa quota parte, também nós temos os nossos afazeres quotidianos que nos impedem de fomentar com eles uma atitude mais proativa capacitando-os de ferramentas, destreza, determinação para alcançarem um futuro onde se sintam realizados e felizes. Cientes destas barreiras há que passar à prática e, como em todos os começos, vamos sentir alguma resistência, mas desistir, nunca! Hoje, só durante meia-hora, guardam-se os telemóveis, dobra-se a roupa amanhã, desliga-se o programa sobre futebol…e vamos aprender a fazer molho Béchamel! Amanhã, aprendemos um pouco de componentes mecânicos e na sexta-feira, falas-me dos teus youtubers e mostras-me um vídeo, ok? É esta atitude que tem de ser tomada lá por casa. Isto ajuda-os a prepararem-se para um mercado de trabalho em constante mudança. É primordial que eles saibam ser autónomos, cooperantes, que se envolvam na sociedade, que sejam curiosos, que saibam promover estratégias que os oriente e facilite no planeamento do seu dia a dia. É muito


importante que haja diálogo, eles têm de perceber que os ouvimos e que, também nós, já sentimos medos e angústias similares e que estamos aqui, não para os julgar, mas para prepará-los a enfrentar os desafios de forma autónoma e com confiança. Para que tudo isto resulte são necessárias toneladas de paciência, de perseverança,

serenidade e apesar de tudo, muita tolerância. Evidente, que não há receitas para a felicidade e autorrealização, no entanto, todos sabemos, que um jovem bem estruturado a todos os níveis, onde as competências pessoais e sociais estão bem vinculadas saberá reagir mais facilmente em situações hostis e, dessa forma, a expressão de “arcar com as consequências dos próprios

comportamentos” estará, cada vez mais distante, porque se tornou num individuo responsável que está bem consigo próprio e com os que o rodeiam e, consequentemente, muito melhor preparado para o seu percurso profissional.

TERTÚLIA LITERÁRIA - “HORA DO CONTO”

Escola Básica da Moita

No passado dia 23 de fevereiro, pelas 21.00, decorreu uma tertúlia literária intitulada “Hora do Conto”, na escola Básica da Moita. Esta sessão foi dinamizada pela Associação de Pais com a colaboração dos docentes e assistentes operacionais da escola. As educadoras Teresa Vieira e Aida Mira e o

professor Cesário Silva foram convidados, e contaram três divertidas histórias que nos encantaram. Os alunos do pré- escolar cantaram a canção “A Gaivota” e os alunos do primeiro ciclo declamaram provérbios. A aluna, Sara Sousa, do 3º ano fez uma entrevista ao seu avô Diamantino sobre os seus tempos de aluno, de como era a sua escola e as suas professoras. Foram momentos de divertimento e partilha, que agradaram a todos. A escola recebeu livros

para a biblioteca, oferecidos pelos presentes na sessão e retribuiu com uma pequena lembrança, marcadores de livros, feitos com material reciclado. No final todos se deliciaram com um pequeno lanche oferecido pela Associação de Pais.

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A ÍNDIA NA MINHA MEMÓRIA Alice Marques

A Índia fez parte do meu imaginário durante décadas. Desde o tempo em que ter uma túnica de linho indiano era uma ambição de monta para uma jovem com aspirações a hippie. Tive a minha túnica de linho indiano aos 19 anos, importada via Inglaterra, através de um jornal de música chamado Melody Maker (extinto em 2000). Era às riscas azuis e brancas, apertava à frente com pequeníssimos botões forrados e tinha mangas à boca de sino. Eu ainda não sabia, mas já era a Índia a fabricar a moda para o ocidente. As imagens das roupas coloridas dos hippies americanos alimentaram o meu imaginário sobre esse mundo longínquo do qual eu ignorava quase tudo e o que sabia era efabulado por uma história portuguesa mal contada, que eu repetia como professora. D. Manuel I, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque eram personagens desta visão patriótica da história do século XVI, quando, diziam os livros, Portugal teve um Império Português do Oriente! Mais de vinte anos depois, comprei uma passagem para a Índia. Foi no Natal de 1996. Apanhei um Jumbo, no aeroporto de Lisboa, na noite de Natal, com um grupo de turistas como eu, quase todos professores de história. Cerca de 12 horas depois, e com uma curta escala em Frankfurt, o 747 da TAP aterrava em Nova Deli. Senti então o cheiro da Índia, naquela tarde quente de final de dezembro. Um autocarro transportou-nos ao hotel, onde chegamos demasiado cansados para começar a ver a Índia. Teríamos 15 dias para isso, com um roteiro escrupulosamente traçado pelos donos da agência Mil Andanças, que, por serem professores de história, nele incluíram muito da Índia que a maioria dos turistas não via, nem queria ver. Visitei Jaipur, Udaipur, Agra, Deli e Bombaim, em 15 alucinantes dias em que apenas o estado das estradas contribuía para abrandar o ritmo das viagens. Tinha estudado previamente o roteiro, por um livro da Lonely Planet e por isso, quando chegava aos locais a visitar, quase os reconhecia, de tal forma tinham vivido no meu imaginário. O guia, Surrender, falava um castelhano com sotaque e tinha o ar sexy que mais tarde reconheci em muitos homens indianos. O Palácio dos Ventos, em Jaipur, o Forte

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Vermelho e o Taj Mahal, em Agra, a Estação Vitória e a baía de Juhu, em Bombaim, o grande Hotel Imperial em Deli, o templo-caverna hindu, vandalizado pelos zelosos cristãos na Ilha de Elefanta ainda conservam na minha memória a nitidez com que os vi, apesar de terem passado duas décadas. O mesmo brilho que recordo das movimentadas ruas destas cidades, as mulheres com os seus saris, suits e kurta, os dhoti e os turbantes dos homens, numa incomparável profusão de cores. Mas recordo também as vacas na estrada, os bairros miseráveis de Bombaim com esgotos a céu aberto, as crianças que nos abordavam pedindo uma esferográfica ou um sabonete. Esta Índia não fizera parte do meu imaginário, mas colou-se-me à pele e ainda hoje me dói na memória. Como qualquer turista, nesta viagem, não conheci verdadeiramente nenhuma/a indiano/a, a não ser na aparência. Mas, ao contrário da maioria, não integrei, no meu discurso, os lugares comuns “os indianos são assim, as indianas são assado”. Não há pessoas mais inteligentes do que os turistas! Basta porem o pé em Badajoz para logo começarem a falar dos espanhóis como se os conhecessem desde sempre. Imaginem-nos depois de passarem 15 dias na Índia! Em 2008, o filme de DannBoyle, Slumdog

Millionaire, (Quem quer ser milionário) trouxe-me uma Índia com algumas diferenças, mas ainda demasiado semelhante à Índia da minha memória. A Índia viria até mim poucos anos depois do filme, sob a forma de homens e mulheres reais, que três noites por semana se sentavam na sala de aulas para aprender a língua portuguesa. Essa Índia que homenageamos nesta edição do P&V, homens e mulheres que vieram em busca de uma vida melhor, cinco séculos depois de nós lá termos ido em busca da pimenta, canela e marfim! Sempre que os/as olho, eles distinguindo-se apenas pela barba e cabelo negro, que já não escondem debaixo do turbante, elas trajando ainda a Índia das mil cores, regresso à Índia de há vinte anos. Com a Rupinder e a Ravdeep, a quem tenho acompanhado no difícil percurso de aprender a língua portuguesa, revisito continuamente a Índia. A Índia de contrastes chocantes, de valores morais e religiosos que persistem, de património arquitetónico incomparável, dos imensos campos de açafrão florido. Essa Índia, que elas, apesar de mergulhadas numa cultura de jeans rasgados, se orgulham em manter nos dias festivos, saindo à rua com os seus suits coloridos. Essa incrível Índia!


RETALHOS LUSOS EM PANO DA ÍNDIA José d'Encarnação

Uma das mais curiosas sensações que tive ao chegar a Londres e ao ver quantos comigo se cruzavam foi a variedade dos vistosos panos que as indianas envergavam. E aquela pintinha na testa, sinal da casta a que a sua portadora pertencia, tinha o condão de nos fazer sonhar com um tempo antigo, em que também por lá Portugal deixou raízes. O senhor que, de rosa vermelha em punho, nos aborda ao jantar no restaurante, «qué flô?», representará, porém, outra face da mesma medalha. Falei da Índia a um condiscípulo meu goês. E contou-me:

‒ Eu vim para Portugal em 1957; o meu pai foi o 1º português a ser expulso da Índia, nessa altura de Bombaim, por ser estrangeiro, português. Desde 1949 que a União Indiana queria expulsar tudo o que fosse civilização ocidental, depois da expulsão dos Ingleses, que possibilitou a independência da União Indiana, ou seja, nessa altura, a união da Índia com o Paquistão, o actual Bangladesh, o Tibete, o Butão e o Sri Lanka. Infelizmente, Goa não se soube impor. O meu pai bem quis e Salazar retorquia-lhe: «F., eu sei que Goa está apta a ter autonomia, mas dar-lha seria abrir um precedente!». Assim, ficámos à mercê dos indianos. E os goeses foram engolidos. Hoje, a cultura goesa em Goa não existe. Foi uma invasão e a destruição da cultura dos goeses. Os académicos, "vendidos" aos partidos, não falam sobre esta realidade. Estava a ouvi-lo e lembrava-me de Sousa Lara me ter contado que, quando lá foi, integrando, como Secretário de Estado da Cultura, a comitiva de Mário Soares, um senhor de idade o convidou a ir a casa dele e mostrou-lhe, escondidos numa arca, os livros antigos, aqueles por onde nós estudámos mna Instrução Primária:

‒ Guardo-os aqui ciosamente, sabe. E é por eles que eu ensino a língua portuguesa aos que a querem aprender! Sousa Lara acabaria por mandar enviar-lhe muitos mais livros para ele poder continuar a sua nobre missão de manter acesa a chama da portugalidade nessa longínqua paragem. E recordei as imagens que Maria Júlia Fernandes fez em Baçaim, no Convento dos Agostinhos em ruínas: o chão da nave principal da igreja era um mar ininterrupto de lápides funerárias, com os nomes de portugueses ilustres e brasões de famílias nobres e tudo isso iria, daí a pouco, ficar debaixo de sólida camada de cimento… Também esses são retalhos lusos em manto indiano. E quando, a 10 de Dezembro de 2017, no âmbito da série «Um poema na vila», iniciativa de Ana de Freitas, se ouviram, no Auditório José Labaredas do Museu Municipal de Coruche, «Contares e Cantares de Goa», pelo Grupo Ekvat da Casa de Goa, voltámos a ter consciência disso: urge fazer reluzir esses retalhos no manto indiano. Raízes escondidas que poderão frutificar!

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SOU UM RAPAZ NORMAL, COM 21 ANOS ◌ਂ ਮ ਇੱਕੀ ਸਾਲ ਦਾ ਇੱਕ ਆਮ ਲੜਕਾ ਹਾ (Transcrição fonética:Mai ikki saal da ik aam ladka ha) Gurtej Singh

0 meu nome é Gurtej Singh e sou indiano, do estado do Punjab. Estou em Portugal há 5 anos e já voltei à Índia duas vezes. A primeira escola onde andei foi a Pinhal do Rei, onde já andavam outros alunos indianos. No primeiro dia de escola fiquei sentado ao lado de uma rapariga portuguesa que falava inglês e me explicou muitas coisas. Também foi ela que me apresentou aos colegas indianos que depois se tornaram meus amigos e ainda são. Fui para curso de Ciências e Tecnologias mas como não sabia língua portuguesa era muito difícil e não consegui passar de ano. Um ano e meio depois, vim para a escola Calazans Duarte para o Curso de Polímeros e já estou no décimo

segundo ano. Há dois anos voltei pela primeira vez à Índia, à minha cidade, Jalandhar, e à minha aldeia, Meda. Fui de avião até Nova Deli, capital da Índia, depois de carro até Jalandhar que fica mais ou menos a 300 quilómetros de capital. Eram as férias de verão e ia ficar lá três meses. Gostei muito de lá voltar, estar com os meus amigos de infância, os meus tios e minhas avós. Todos me perguntavam o que estava fazer em Portugal, se gostava, como era o inverno e o verão. Passei as férias com amigos e familiares e joguei muito o kabaddi. O kabaddi é um jogo característico do Punjab, é jogado no campo redondo dividido ao

meio. Em cada lado do campo há uma equipa com 7 ou 8 ou mais jogadores. O objetivo deste jogo é luta corpo a corpo entre os homens de cada equipa (para perceber melhor o jogo consulta o site kabaddi365.com) Este ano voltei à Índia por altura do natal e estive lá um mês. Fui a um casamento de um primo. Continuei a sentir-me indiano e muito bem com os amigos indianos porque apesar de viver em Portugal há 5 anos e ter cá também muitos amigos, indianos e portugueses, a Índia continua a ser o meu país e Meda a aldeia onde nasci, onde estão as minhas raízes e as minhas memórias de infância. Agora vou explicar duas coisas que despertam curiosidade aqui na escola: Porque é que todos têm no nome Singh (rapazes) e Kaur (raparigas)? Estas palavras têm a ver com a nossa religião, o sikhismo. Singh á atribuído a todos os homens e Kaur a todas as mulheres. Isso não tem nada a ver com ser da mesma família, como algumas pessoas pensam. O uso de uma pulseira chamada kara. Essa pulseira também está relacionada com a minha religião. É um símbolo. Como a cruz que muitas pessoas cristãs usam no fio pendurado ao pescoço.

LUGARES MÁGICOS RozyKaur

O Rajastão é, entre os 28 estados indianos, o que mais me fascina. Situa-se no noroeste da Índia, é o estado com maior área, sendo grande parte deserto. A capital é Jaipur, a Cidade Cor-de-Rosa, com cerca de três milhões de habitantes.A palavra “Rajastão” significa “terra dos reis”, dos famosos marajás (maharajas), cada um com o seu reino – até à chegada dos ingleses! O Rajastão é um grande destino turístico, é muito rico em História e cultura. Há cidades antigas, com palácios e fortes fantásticos, danças, festivais, bazares cheios de cor e cheiro… Um passeio no Deserto do Thar, de camelo ou de jipe, é também uma experiência a não perder.


TUDO ISTO É ÍNDIA RavdeepKaur

Quando cheguei a Portugal, no dia 29 de novembro de 2012, com 14 anos, senti-me perdida. Era uma tarde com sol. Viajei com a minha mãe, Lakhwinder, e o meu irmão Gurtej, para nos juntarmos ao meu pai, Darbara, que já morava em Portugal há 4 anos. Ele estava à nossa espera no aeroporto de Lisboa. Ficamos 15 dias em Lisboa e não tenho boas recordações deles. Depois viemos para a Marinha Grande, onde o meu pai trabalhava e morava. A recordação mais forte que tenho desse tempo é do dia 14 de janeiro de 2013, a minha primeira aula, na escola Pinhal do Rei. Era uma aula de História. Cheguei meia hora atrasada, tenho ainda imagem da professora que me recebeu com um beijo de boas vindas, falou comigo em português e depois, vendo que eu não estava a perceber nada, falou em inglês. Lembro-me também da turma e do que senti: estava num ambiente estranho com dezenas de olhos fixados em mim e pensei “ onde é que eu estou? O que é isto? Quero fugir daqui.” Lembrando-me disso 5 anos depois, rio-me, mas na altura só tive vontade de chorar. Há uns meses encontrei o primeiro caderno com palavras em português e fartei-me de rir porque nada daquilo fazia sentido. Ao longo destes anos fui percebendo o que os jovens portugueses pensam sobre a India. Alguns viram o filme Slumdog Milionaire (Quem Quer Ser Milionário) e foi a partir dele que fizeram uma imagem da Índia: pobreza, miséria, perdição. Sim, a Índia tem isto, mas a India não é só isto. A Índia é um território imenso que ocupa uma grande parte do continente asiático, tem 1.2 mil milhões de seres humanos e é a maior democracia do mundo. Mas também é corrupção política (e Portugal não?). A Índia também é o país do mundo onde todos os anos mais jovens se tornam doutores. É o país onde se faz mais filmes: Bollywood produz mais filmes do que Hollywood. Os portugueses acham que na Índia tudo se come com caril, mas cada região tem os seus pratos típicos e nem todos levam caril. Na Índia a maioria de população é vegetariana por isso os problemas de saúde do mundo dito desenvolvido lá não existem: obesidade, colesterol, … O jogo mais popular da India é o Cricket (herança dos tempos em que foi uma colónia inglesa) e já ganhou várias vezes o campeonato mundial. Uma das maravilhas do mundo, a primeira na lista, fica na Índia, na cidade de Agra, estado de

Uttar Pradesh: Taj Mahal. No meu estado, Punjab, existe o Golden Temple, da religião sikh, revestido a ouro. Na Índia, a festa do casamento dura uma semana. Em dezembro de 2017, fui à India ao casamento do meu primo; a festa começou no dia 22 e terminou no dia 30, dia do casamento. Nos livros de história de Portugal, vem escrito que o D.Manuel, que reinava quando Vasco da Gama chegou à Índia (1497) se tornou rei de Portugal e da Índia. Que Índia? Eram apenas algumas cidades na costa. Os ingleses, sim, dominaram toda a Índia e Paquistão que era parte de Índia (de meados do século XIX até 1947), e chamavam-lhe “a jóia da coroa”. A Índia tornou-se um estado independente, e separado do Paquistão, em 1947. Os europeus associam a independência ao nome de Gandhi, pois o cinema do ocidente considera-o um herói. Dedicou-lhe um filme, Gandhi, no ano 1982, que foi nomeado para os óscares em onze categorias, e ganhou oito, incluindo o Melhor Filme. Mas na Índia podem contar-se outras histórias de Gandhi.

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O CASAMENTO NA ÍNDIA NainaSharma

O casamento na Índia é muito diferente do mundo ocidental. Celebra-se de acordo com a nossa religião e casta.O casamento indiano é uma cerimónia marcada por cores, fartura e tradições. É considerado uma união sagrada, para toda a vida. O casamento indiano pode durar uma semana. Antes do casamento, são realizados muitos rituais, na casa dos noivos. Um dia antes, pintam-se a mão e os pés da noiva e das amigas ou familiares, com desenhos de henna - é o Mendhi. Acredita-se que a henna aumenta a beleza da noiva. O último ritual, antes do dia do casamento, é o Haldi. Durante esta cerimónia, aplica-se uma pasta de curcuma, farinha de grão-de-bico, sândalo e água de rosas, nas mãos, pés e rosto dos noivos. Pensa-se que a cor amarela da pasta dá boa sorte aos noivos. No casamento indiano, o noivo vai até à casa da

noiva para se casar. A chegada da família do noivo inicia o ritual da cerimónia conhecida como Barat, onde se dão as boas-vindas à família e amigos do noivo. Faz-se uma marca de kum-kum (pó) vermelho na testa de todos, uma tradição que se chama milni – simboliza a paz e aceitação das duas famílias. Durante a cerimónia, os noivos têm de dar sete passos ao redor do fogo sagrado (fogueira). Ao mesmo tempo fazem sete votos, por ordem: força, prosperidade, sabedoria, descendência, saúde e amizade. Neste momento, o Estado reconhece o casamento. Neste dia, o noivo põe, no pescoço da noiva, um fio, o mangalsutra. Isto significa que ela, agora, é a sua esposa. Após a festa do casamento, a noiva deve deixar a casa dos pais para viver com o seu esposo- a este procedimento chama-sevidaai.

SABORES DA ÍNDIA Manpreet Kaur

Kheer - O arroz-doce à indiana! “A cozinha indiana usa toda a paleta de sabores: picante, azedo, doce e quente, tudo ao mesmo tempo, tornando-se algo que quer saltar do prato”. Na Índia há muitas especiarias e ervas aromáticas. Por isso, a comida indiana é muito temperada. Usam-se misturas de especiarias, como o garam masal. O sabor e o cheiro são fortes e geralmente picantes. As especiarias indianas mais usadas são: açafrão, canela, cardamomo, coentros, cominhos, cravinho, curcuma, erva-doce, gengibre, hortelã e pimentas . Também se tempera a comida com alho, gengibre, coco e vários tipos de chilis. Os pães indianos são achatados – os mais comuns são roti, chapati e naan. O thali é muito popular - um prato grande com tigelas pequenas onde pomos caris e chutneys de legumes e verduras, lentilhas, iogurte, molhos, por exemplo. Serve-se com arroz e os pães tradicionais. A Índia é o país com o maior número de vegetarianos no mundo. Mas nem todas as pessoas são vegetarianas, depende da religião e da região. A vaca é sagrada na religião hindu. Geralmente, não se come vaca nem porco, seria pecado. As pessoas comem carne de frango e de cabra. Na minha família, só comemos frango e ovos. A bebida preferida dos indianos é o chá. Bebe-se com leite e açúcar e, às vezes, com especiarias.

O kheer é uma sobremesa muito popular, mas as receitas variam, de acordo com as regiões. Pode ser servido morno ou frio – é delicioso de qualquer modo!

Ingredientes Serve: 4 2 chávenas (480 ml) de leite de coco 2 chávenas (480 ml) de leite gordo 3 colheres (sopa) de açúcar 1/2 chávena (90 g) de arroz basmati 1/4 chávena (40 g) de uvas passas 1/2 colher (chá) de cardamomo em pó 1/2 colher (chá) de água de rosas (opcional) 1/4 chávena (30 g) de amêndoas laminadas, torradas 1/4 chávena (30 g) de pistácios picados Preparação Junte o leite de coco, o leite gordo e o açúcar num tacho, mexa e leve ao lume. Quando ferver, acrescente o arroz. Cozinhe o arroz em lume brando, durante cerca de 20 minutos, ou até que fique cremoso e macio, mexendo de vez em quando. Junte as uvas passas, o cardamomo e a água de rosas. Cozinhe o arroz por mais alguns minutos. Coloque o arroz em taças de sobremesa e enfeite com as amêndoas e os pistácios. É de comer e chorar por mais!


EU VIM DE LONGE... Gurtej Singh A viver em Portugal há 5 anos, Gurtej Singh, 21 anos, natural da Índia, encontra-se a estudar no 12 ano, no curso profissional de Técnico de Transformação de Polímeros, na escola secundária Calazans Duarte. É o entrevistado nesta edição do P&V, que dedicamos à Índia.

Anastasia Khimich: Porque escolheste esse curso? Gurtej Singh: Porque o meu amigo Vishaajeet estava neste curso e ele disse-me que era um bom curso. AK: Tens saudades do teu país? GS: Sim, tenho, mas já lá fui duas vezes, desde que vim para Portugal. AK: Tens família lá? GS: Sim, tenho lá tios e primos e também amigos. AK: Porque vieste para a Marinha Grande? GS: Porque o meu pai já trabalhava aqui numa fábrica e quis trazer a família para cá. AK: Qual foi a maior dificuldade que enfrentaste na escola? GS: A língua! AK: Como tens conseguido ultrapassar essa dificuldade? GS: Os meus amigos de aulas costumam explicar-me as coisas e os professores também ajudam muito. AK: Tens amigos na turma? GS: Sim! AK: E na escola? GS: Também. AK: Achas que os colegas te discriminam por seres estrangeiro? GS: Não. AK: As raparigas e os rapazes portugueses são diferentes dos do teu país? Em quê?

GS: São iguais. Os rapazes são mais parecidos e as raparigas não sei, porque não me dou muito com elas. AK: E os professores? GS: Sim, são diferentes. São muito amigos aqui em Portugal, podemos falar de qualquer coisa com eles. Na Índia não é assim, lá não se fala à frente dos professores e eles também não falam connosco como os daqui. AK: É normal rapazes indianos não conviverem tanto com as raparigas na Índia? GS: Sim, é normal. AK: Fora da escola, como ocupas o teu tempo? GS: Costumo ir ao ginásio. No fim-de-semana, vou para a loja do meu pai, no centro comercial, e jogo futebol com os meus amigos. AK: Quais são as maiores diferenças entre a terra onde nasceste e a Marinha Grande? GS: A minha cidade na Índia é muito maior. Chama-se Jalandhar. Em termos de clima, no verão é sempre mais quente e no inverno mais frio do que aqui em Portugal. Também aqui, por ter uma religião diferente, tenho de me deslocar com os meus pais a Lisboa para ir às cerimónias da minha religião. Mas não vamos sempre. No princípio era difícil encontrar ingredientes iguais aos da Índia para fazer a nossa comida, foi por isso que abrimos uma loja, onde vendemos todas as especiarias indianas. AK: Pretendes continuar os estudos numa universidade portuguesa ou pensas ir trabalhar quando terminares o secundário?

GS: Penso concorrer a um TeSP no IPL e depois continuar lá e tirar um Curso de Engenharia de Polímeros. AK: Pretendes ficar em Portugal e arranjar aqui a tua própria família? GS: Sim, quero estudar e trabalhar cá. AK: Mas pensas formar família com uma portuguesa ou com uma indiana? GS: Ainda não sei! AK: Tens namorada? GS: Não. AK: Também frequentaste a Escola Pinhal do Rei, gostaste dessa escola? GS: Sim, gostei, tinha lá amigos indianos. AK: Estás a frequentar um curso profissional e já fizeste estágios. Em que empresa? Adaptaste-te bem ao trabalho na empresa? GS: Fiz estágio na empresa Bourbon. Sim, gostei do trabalho e foi fácil. AK: Costumo ver-te por aí sempre acompanhado de rapazes, mas nunca de raparigas. É porque o teu curso não tem raparigas ou porque não te adaptas à mentalidade das raparigas? GS: As duas coisas. AK: Pensas ir trabalhar na área dos plásticos aqui na Marinha Grande, depois de terminares o curso? GS: Sim, mas só depois de fazer um curso de Engenharia de Polímeros.

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CHAMAR A MÚSICA Música da Índia

A Índia, país habitado por mais de 1,2 mil milhões de pessoas, é um verdadeiro aglomerado de culturas, tradições e etnias, o que resulta numa enorme diversidade musical. A música, neste país, tem uma origem socioreligiosa, que ainda hoje se faz sentir, assim como uma estreita ligação com a dança. Um dos géneros musicais típicos deste país da Ásia Meridional é a música clássica indiana. Dividindo-se em dois subgéneros, Carnatie Hindustani, difere drasticamente da música clássica ocidental, não só pelas construções rítmicas e melódicas orientais, como também pelos instrumentos utilizados, dos quais faz parte a cítara. Outro género musical relevante é o folk, ou seja, a música popular indiana. Dividindo- se num quase infindável conjunto de subgéneros, que variam conforme a região, está ligada à famosa dança tradicional indiana,

recorrendo a múltiplos instrumentos tradicionais do país, como o Nagaras(percussão). Existe, também, a mais recente música pop indiana, que cresceu, em grande parte, graças à indústria cinematográfica, o famoso “Bollywood”, cujas bandas sonoras fazem quase 75% das vendas musicais do país. Este género, que tem vindo a tornar-se cada vez mais popular, é representado por cantores como Alisha Chinai ou Daler Mehndi. Para além dos principais tipos de música indianos, existem ainda outros, como o Rock, que têm vindo a crescer e apresentam, de forma original e inovadora, uma mistura de influências ocidentais e tradicionais. A Índia possui diversos artistas de destaque, como Ravi Shankar, tocador de cítara e verdadeiro inovador do panorama musical nacional e até internacional, tendo chegado a tocar com os Beatles. O legado do país também

se estende aos instrumentos tradicionais, nomeadamente os de cordas e de percussão, que são diversos, como o Chande ou o Ektara. A Índia é, portanto, um país culturalmente rico, com uma musicalidade muito típica, original e reconhecível. Ao manter, fielmente, os traços tradicionais, mas adicionando também novas influências, o país consegue inovar sem perder a sua identidade, o que o torna num lugar absolutamente fascinante e sempre interessante.

Alisha Chinai: Uma Rainha do Indipop

Sujata Chinai, de nome artístico Alisha Chinai, 52 anos, é uma prestigiada cantora de pop indiano, o Indipop, e de músicas para filmes de Bollywood. Tendo uma carreira consolidada com vários hits, nomeadamente o impactante “Made in India”, esta é uma artista que consegue misturar influências internacionais com a música típica do seu país, de forma inovadora e bemsucedida. Tendo iniciado a sua carreira em 1985, os primeiros trabalhos de Alisha foram fortemente influenciados pelas sonoridades ocidentais vigentes naquela década. Não é ao acaso que a

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chamam de “Madonna Indiana”: a artista revela, de facto, nas suas músicas, uma grande inspiração na artista norte-americana, de tal forma que, apesar das divergências culturais e linguísticas, são inegáveis as semelhanças que ambas possuem. Alisha apresenta uma música arrojada e moderna, adequada a pistas de dança, ao adicionar elementos sintéticos e eletrónicos ocidentais a esta, sendo, deste modo, uma verdadeira inovadora da sua época. Ouvir a discografia da cantora é uma experiência definitivamente diferente, que nos transporta para um universo onde as barreiras linguísticas e culturais são facilmente quebradas. Cantando em hindu, mas adicionando palavras ou frases em inglês nas suas músicas, cujo título chega a ser, bastantes vezes, nesta língua, Alisha atribui à sua arte um carácter mais universal e acessível a ouvintes estrangeiros. As letras, por vezes com forte teor sensual, falam maioritariamente de amor, como a conhecida “Made In India”, que expressa a vontade de encontrar um amante que seja, também, do seu país de origem. A voz de Alisha é suave, simples e agradável. Possuindo um alcance modesto, a cantora não arrisca muito na performance vocal, o que não é, de facto, necessário, pois o seu reportório não o exige, mas pode, ainda assim, deixar um pouco a

desejar. A sua voz feminina, apesar das referidas limitações, é, claro, um bom contributo para enriquecer as suas canções. Alisha Chinai é, portanto, um verdadeiro ícone do Indipop, tendo quebrado barreiras no que diz respeito à separação entre a música ocidental e a oriental. Os seus êxitos, pertencentes ora à sua discografia original, ora às bandas sonoras de Bollywood, consolidaram a sua carreira, que já tem mais de 30 anos. Com ousadia e inovação, cantou e encantou a Índia. Recomenda-se a todos os ouvintes de música que gostem de sair da zona de conforto e ouvir a maravilhosa música que o resto do mundo tem para oferecer. Podem chamar a música ouvindo esta artista no Youtube ou no Spotify.


PÉ DE DANÇA “Indianiza-te”-I

Nesta edição vou voltar à temática das danças caraterístcas de um país. O porquê liga-se ao facto de a nossa escola possuir uma grande multiculturalidade. Visto que numa edição anterior, falei dos tipos de dança na Ucrânia e Venezuela, agora é a vez da India, país a que dedicamos esta edição do P&V. A cultura indiana possui cerca de 8 grandes estilos de dança. Um deles intitula-se “BharataNatyam”, sendo este o mais antigo. Nasceu e desenvolveu-se no estado de Tamil Nadu, nas margens do rio Kaveri. Vinculou-se ao culto de Shiva, através das chamadas devadasi, bailarinas do templo. Estas bailarinas eram responsáveis pela oferenda diária das danças rituais (componente primordial do culto hinduísta). Caracteriza-se por usar o diafragma como ponto vital da movimentação corporal. As bailarinas estão sentadas no chão, de pernas cruzadas e aprendem a inspirar e expirar ritmicamente. As forças de estender e retrair agem simultaneamente, ou seja, todas as partes do corpo são alongadas como se resistissem a uma pressão que, então, as obrigaria a dobrarem-se e vice-versa. Esta é a condição básica para prosseguirem um treino, do qual faz parte a orientação alimentar e a de carácter (personalidade). Até hoje a Índia conseguiu manter intactas as suas tradições de dança e, de acordo com elas, o sábio Bharata, considerado o criador da arte teatral indiana, teria recebido do próprio deus Shiva, os segredos da arte divina, a qual deve ser capaz de permitir o acesso aos quatro “Purusarthas”, objetivos da pesquisa humana, a saber: Dharma: evolução sobre o plano ético e espiritual; Artha: a vida social e cívica e a aquisição de bens terrestres para uma finalidade

válida; Kama: o amor entre um homem e uma mulher e os prazeres sensoriais; Moksha: a libertação do desejo que distrai o homem do seu verdadeiro ser. O poético objetivo de Shiva é o de proporcionar a passagem do irreal para o real e da obscuridade para a luz. O Bharata Natyam, que é dançado sem máscaras, consiste em cinco danças: I. Alaripu (abertura) – dança lenta; II. Jethiswaram – dança expressiva; III. Sabdam – dança interpretativa; IV. Varnan – dança amorosa; V. Thillana – dança sobre ragas, melodias do norte do país. Segundo a bailarina Rukmini Devi, “Bharathanatyam é uma arte viva a qual ainda pode ser apresentada de acordo com o Natya Shastra de Bharatha, ainda que a essência do Shastra não seja limitar a dança por regras e regulamentos. Há sempre uma interpretação errónea de que tradição ou ensinamentos

tradicionais são estreitos e não criativos. Se o lugar da tradição é entendido apropriadamente, o exato oposto será achado como verdadeiro... Bharathanatyam é um método de aprendizado espiritual para fins humanos. Portanto não é esperado que reflita a vida moderna...”. Este tipo de dança segue o estilo clássico carnático e os tipos de instrumentos que são utilizados para acompanhar a parte vocal são: a flauta ou o violino, a veena, a ambura. Para acompanhar a percussão do ritmo dos pés utiliza-se o mrdungam e o nattuvangan. Em suma, este estilo de dança permaneceu intacto durante aproximadamente seis mil anos e a sua riqueza de movimentos tradicionais, o seu encanto estético e a sua variedade de expressões foram conservadas até os dias de hoje.

que tem como foco o movimento preciso das mãos e a batida do tambor dhol,um único instrumento de cordas chamado iktar Ektara, o tumbi e o chimta. Considerando que a dança bhangra (e sua batida de acompanhamento dhol) fazem parte do género de música popular Punjabi, a música bhangra em si é um género que foi criado no início dos anos 80 por bandas no Reino Unido,

que raramente ou nunca utilizam instrumentos tradicionais Punjabi diferentes do dholki (semelhante ao dhol). No Reino Unido existem grandes comunidades de indianos. O Bhangra é utilizado no que hoje chamamos “Bollywood”. Este utiliza duas vertentes: a indiana clássica e a indiana tradicional. Este tipo de dança transmite uma grande alegria e euforia, e também traz inúmeros benefícios,

“Indianiza-te”- II Outro tipo de dança também bastante famoso é o “Bhangra”. O Bhangra é uma forma de música e dança originária do Punjab, região da Índia e Paquistão, que surgiu como uma forma de celebrar o início do festival de Vaisakhi, tradicional do Punjab. Os movimentos específicos refletem a maneira como os moradores cuidam da sua terra. Baseia-se numa batida dhol (cantando bhangra)

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tais como condicionamento físico, perda de calorias e fortalecimento muscular, relaxamento e alivia o stress. As partes do corpo mais trabalhadas são as pernas, os braços, os glúteos, o abdómen, as costas e o peitoral. Os exercícios ajudam a melhorar o equilíbrio, a memória motora e a autoconfiança. “Cada região da Índia possui ritmos e músicas diferentes. As músicas mais populares são de filmes de Bollywood”. As músicas mais populares Bhangra são de filmes famosos na Índia, como “Kajra re”, do filme Bunty aur Babli;“Beedi Jalaile”,do filme Omkara; “Salaam”, do filme Umarao Jaan. Nas danças como Bhangra e Bollywood, usam-se roupas tradicionais como Langhas ou Saris para as mulheres e Kurta Pyjama para os homens. “Cada região da Índia possui ritmos e músicas

diferentes”. Vamos conhecer alguns desses estilos diferentes. Estilo Clássico Bharathanatyam (escrevemos no texto I); Kuchipudi - Estilo de dança clássica do estado de Andra Pradesh, no sul da Índia.Num dos seus itens, a bailarina dança sobre um prato de latão com um pote de latão, com água em cima da cabeça, enquanto executa a dança com grande destreza. Utiliza uma técnica em que existe um trabalho rítmico de pés muito rápido e bastante elaborado. Mohinyiattam -Originário do estado de Kerala, no sul da Índia. Os seus movimentos lembram as ondas do mar arábico e o movimento dos coqueiros de Kerala, conferindo extrema graciosidade, fluidez e delicadeza à dança. A graciosidade dos movimentos é complementada pelo austero sari branco com a borda dourada,

vestimenta típica de Kerala. Bhangra Dance - Dança folclórica do estado de Punjab, no norte da Índia. Consiste em vários movimentos das mãos, dos pés e dos ombros de acordo com a batida da música. Estilo moderno Bollywood Dance - é conhecido como Bollywood, pois é uma mistura de estilo clássico de dança indiana e passos modernos como jazz e hip-hop. É um estilo moderno e as músicas são tiradas dos filmes indianos. Concluindo, na Índia existe uma grande variedade de estilos de dança, diferentes de região para região. Dentro dessas regiões existem tradições diferentes que se refletem quer na dança quer na música. Assim, podemos dizer que a Índia tem uma cultura enorme que devemos admirar e respeitar.

HOJE FAZ ANOS Festividades de março

Saudações, caros leitores! Estamos a chegar à época de mais uma das tradições mais pertinentes para todos os cristãos, a qual todos nós festejamos nem que seja em virtude do folar que se mendiga ao padrinho e à madrinha, e quando nos calha dinheiro a partir de uma certa idade pulamos de felicidade, ou pelos ovos e amêndoas ou, ainda melhor, os folares da páscoa, os ditos bolos com um ou mais ovos no seu centro. É a Páscoa sim, a que me estou a referir. Mas, será que já nos interrompemos para pensar se nos outros países a Páscoa se celebra da mesma maneira? Hoje, trago-vos um texto sobre sobre as festividades na Índia sensivelmente por este tempo. Portanto, todos

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os anos faz anos, e assim mantenho justificado o título desta rubrica. Maioritariamente todos os cidadãos da Índia seguem severamente a religião hindu, e um dos seus principais padrões é a predestinação das meninas assim que nascem, “escrita” das linhas da sua palma da mão. Além disto, outra norma é que predominantemente são vegetarianos, pois acreditam que os animais não devem sofrer para prazeres humanos. Em virtude disso, a época da páscoa é celebrada de uma forma bastante diferente: em vez de se sentarem à mesa a comer um fabuloso cabrito assado, como em Portugal, celebra-se o festival Holi, não só para rememorar o nascimento do deus Krishna, mas também da chegada da primavera, um período em que as ruas se enchem de cor e grande animação, inclusivamente com música e dança.

Segundo o costume, o dono da casa recebe os seus convidados colorindo as suas testas com pó colorido. Assim como, nas ruas multicolores, todas as pessoas, sejam elas de casta superior ou inferior celebram, atirando as cores para todos e recebendo também de outros, sem diferenciação. Toda esta exacerbação de pós coloridos no ar traz a esta época um ambiente especial na Índia. Uma perceção diferente do mês de março, que para nós é a preparação da Páscoa, que este ano se dá no primeiro dia de abril, pura coincidência, pois este ano que calha no Dia das Mentiras, e para a outra a cultura desenrola-se com muita animação e com rituais bastante diferentes dos nossos.


M... DE MULHERES Indira Gandhi, uma líder poderosa numa sociedade patriarcal

Ao falar na Índia vem-nos à cabeça a comida bastante condimentada, o som cativante das cítaras ou os mercados lotados cortados de toldos coloridos onde se vendem os mais distintos produtos. Na verdade, este país é a terceira maior potência a nível mundial (apenas abaixo da China e dos EUA) e possui a 2.º maior população a nível global. País vibrante da Ásia Meridional, cortado pelo Indo e pelo Ganges, que se curvam em meandros e se desfazem em deltas estuarinos, foi aqui que nasceu, a 19 de novembro de 1917, Indira Priyadarshini Gandhi ( इं िदरा ि यदशनी गां धी) , na cidade marginal de Allahabad. Indira foi uma brilhante estratega, política e pensadora do século XX. De facto, como mulher, e ocupando a mais alta posição de um governo de um país cuja sociedade é centrada no patriarcado, esperava-se que Indira fosse uma líder de pouca relevância. No entanto, as suas ações políticas provaram o oposto. O pai de Indira – Nehru - foi um dos líderes que lutou pela independência da Índia do Reino Unido e o primeiro primeiro-ministro indiano; e o seu avô - Motilal Nehru – foi um dos pioneiros dos movimentos independentistas, e teve uma relação próxima com Mohandas (“Mahatma”) Gandhi. O Congresso Nacional Indiano tomou poder quando o seu pai se tornou primeiro-ministro em 1947, e Gandhi tornou-se um membro do seu comité em 1955. Alguns anos mais tarde, Indira foi eleita para presidir ao partido e tornou-se membro da Câmara Superior do Parlamento Indiano, no mesmo ano em que Lal

Bahadur Shastri (primeiro-ministro que sucedeu a seu pai) a nomeou ministra da informação e transmissão no seu governo. Devido à morte súbita de Shastri, em Janeiro de 1966, Gandhi foi nomeada líder do Congresso num compromisso que aproximou a direita e a esquerda indianas, tornando-se, assim, primeira-ministra da Índia. No entanto, a sua liderança passou por um contínuo desafio frente às elites da direita. Na verdade, as tensões acumularam-se dentro do partido, o que, em remate, levou à sua expulsão em 1969. Em resposta, Indira, em conjunto com uma maioria de membros do seu antigo partido, formou um novo partido. Em 1971, o novo Congresso criado por Indira obteve uma vitória estrondosa frente a uma união de partidos adversários. Gandhi apoiou fortemente o Paquistão Oriental (atualmente Bangladesh) nos seus conflitos secessionistas com o Paquistão no final desse ano e foi a primeira líder do governo a reconhecer o novo país. Depois de três mandatos consecutivos, a oposição pública ao governo de Indira foi veemente e generalizada. E após ter terminado este período de forte oposição, os rivais políticos do partido de Gandhi empenharam-se na retirada do mesmo do poder, o que conduziu a uma forte derrota nas eleições de 1977. Mais tarde, Gandhi voltou ao poder em 1980. Durante a década de 80, Indira enfrentou ameaças à integridade política da Índia, sendo que vários estados indianos procuraram uma maior autonomia do governo central. Em 1982, um grande número de sikhs (seguidores do

Sikhismo: religião monoteísta fundada nos finais do século XV) ocuparam e fortificaram o complexo Harmandir Sahib (Templo de Ouro), em Amritsar, o santuário mais sagrado dos sikhs. As tensões entre governo e os sikhs escalaram, até que em junho de 1984 Gandhi ordenou que o exército indiano atacasse e expulsasse os separatistas do complexo. Cinco meses mais tarde, Gandhi foi morta no seu jardim, em Nova Deli, por dois dos seus guardacostas em vingança pelo ataque em Amritsar. Os seus dois filhos, Sanjay e Rajiv, envolveram-se igualmente na política. Sanjay Gandhi morreu num acidente aéreo (possivelmente projetado para acontecer) em junho de 1980. Rajiv Gandhi entrou para a política em fevereiro de 1981 e tornou-se primeiro-ministro por ocasião da morte da mãe, e em maio de 1991, ele próprio teve fim semelhante, assassinado por militantes estrangeiros do LTTE.


LUZES, CÂMARA... AÇÃO Bollywood

O cinema da índia é um universo completamente à parte daquele a que estamos habituados aqui no "Ocidente", onde a maioria dos filmes a que assistimos são de Hollywood. A indústria cinematográfica mais conhecida da Índia até tem um nome bem parecido com Hollywood, denomina-se de Bollywood. Nela são produzidos cerca de 2000 filmes por ano. A indústria é essencialmente suportada pelo vasto público que a consome, sendo um dos países que mais vende bilhetes de cinema, e, por conseguinte, um dos que vende bilhetes mais baratos. No entanto, não se pode denominar toda a indústria cinematográfica da Índia por Bollywood. A Índia é um país extenso onde são faladas mais de 1500 línguas e dialetos. Assim sendo, só as línguas mais faladas é que são usadas pelas grandes indústrias cinematográficas da Índia; estas são o hindi, tamil, telugu, bengali, marathi, kannada e o

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malayam. Os filmes indianos são categorizados a partir da língua em que são lançados. Porém, existem alguns filmes que tendo tido sucesso numa língua, acabaram por vir a ser dobrados ou mesmo a ter direito a novas versões noutra língua. Bollywood é a indústria de cinema de língua hindi, sendo esta a maior e a que tem mais impacto, em termos de lucro e popularidade a nível nacional e internacional. É, por isto, que facilmente é confundida e generalizada a todo o cinema indiano. Os filmes de Bollywood geralmente incluem muitas cenas de música e dança. As danças são heranças de estilos clássicos e tradicionais indianos e geralmente são protagonizadas por muitos figurantes e atores; denota-se uma aposta muito grande em todo o vestuário e cor das mesmas. A música, por sua vez, é focada nos sentimentos e emoções, que variam do amor à tragédia, do triunfo à celebração, enriquecendo assim os diversos momentos do filme. Estes costumam ter a duração de duas a três

horas e têm como principais géneros o romance, a comédia, a ação e o suspense. Podemos, por isto, dizer que a aposta artística e cultural de um filme de Bollywood acaba por determinar o sucesso comercial do mesmo. Qual será então a razão pela qual o cinema indiano não chega às nossas salas? Não existe uma resposta concreta a esta pergunta. Mas na verdade este cinema é construído sobre os alicerces desta cultura, o que faz com que não seja tão moldado aos nossos interesses, hábitos e valores culturais, estando nós muito mais habituados a consumir as longas-metragens americanas, que acabam por ilustrar mais a nossa forma de ver o mundo. Em suma, é esta incompreensão e distanciamento cultural que constrói a barreira entre as duas indústrias cinematográficas, fazendo com que o cinema indiano não chegue ao Ocidente, assim como, torne bem difícil um filme americano chegar às salas indianas.


“LION - A LONGA ESTRADA PARA CASA”

Baseado numa incrível história verídica, “Lion” é um filme que explora a vida de um dos muitos rapazes que se perdem na Índia, não se afastando da realidade dos nossos dias. Em “Lion”, seguimos um rapaz indiano de cinco anos, Saroo, que se perde do irmão mais velho e, por engano, embarca num comboio que percorre 1500 quilómetros, levando-o até às ruas de Calcutá. Perdido e sem saber como regressar a casa, sobrevive a diversos perigos e acaba por ser adotado por um casal australiano. Passados 25 anos, parte numa viagem para descobrir a sua família biológica. Garth Davis é quem nos entrega esta que é a sua primeira longa-metragem, metendo o seu toque bastante estético e elegante no filme. Não caindo nos mesmos clichés, dá-nos um filme seguro, com um estilo atual. Este, juntamente com o argumentista Luke Davis, que adaptou o filme a partir da autobiografia de Bierley, fez questão de abordar temas que, para nós, no mundo ocidental, são bastante desconhecidos, como a extrema pobreza que o povo indiano vive, o elevadíssimo número de crianças desaparecidas, entre outras realidades. Outro dos grandes trunfos deste filme é a sua magnífica fotografia, dirigida por Greig Fraser, que capta de forma surpreendente as grandes paisagens, tanto da Índia como da Austrália, com as suas cores, os seus tons quentes e secos e, principalmente, a luz, que é tão característica destes dois países e torna a experiência de visionamento bem mais arrebatadora. A banda sonora, trabalhada por DustinO'Halloran, é igualmente cativante e fascinante, permitindo envolver-nos facilmente na narrativa emocional que decorre ao longo da película. O elenco também não desilude: aliás, é

surpreende até a interpretação do pequeno Sunny Pawar, que mais se destaca, tendo uma presença inigualável no ecrã com inocência e carisma, que o tornam único. Já Dev Patel e Nicole Kidman também conseguem dar o seu melhor nas suas prestações, entregando-se ao máximo nos seus papéis, que são dos melhores. Tudo isto torna este filme merecedor de estatuetas douradas, tendo sido nomeado para 6 categorias na edição dos Óscares do ano passado, incluindo as categorias de Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Argumento Adaptado. Apesar de não ter saído vencedor em nenhuma destas categorias, este filme merece ser visto e conhecido. Em síntese, “Lion – a Longa Estrada Para Casa” é um filme que toca num dos temas mais problemáticos da sociedade indiana dos últimos tempos, mostrando-nos o quão ignorantemente afastados estamos das cruéis realidades lá passadas e, por isso, abre-nos os olhos e faz-nos pensar acerca de alguns pormenores da nossa vida privilegiada, que tomamos por garantida. Consegue ser, ao mesmo tempo, um filme de esperança e determinação de um homem que procura o seu passado e a sua identidade perdida.


TEXTOS E AFINS O Deus das Pequenas Coisas

Suzanna Arundhati Roy, nascida em 1961, na Índia, é a autora do cativante livro “O Deus das Pequenas Coisas”, publicado em 1997 e detentor do Booker Prize de 1998. Vivendo na cidade natal da autora, Kerala, os gémeos biovulares Rahel e Estha são os grandes protagonistas deste fascinante romance, possuidor do poder de agarrar o leitor e fazê-lo viajar até à Índia, enquanto vai conhecendo estes gémeos e a sua história familiar. Esta família, constituída pelos gémeos, pela sua mãe Ammu, o seu tio Chacko, a sua avó Mammachi e a sua tia-avó Baby Kochamma (e, posteriormente, pela prima, filha de Chacko, Sophie Mol e pela sua mãe Margarett), é detentora de um certo poder económico, contrariamente à maioria indiana, que vive miserável e impotentemente. Pode-se claramente distinguir, ao longo de toda a história, uma crítica mordaz e cheia de simbologia à Índia e aos seus costumes

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preconceituosos e antiquados, desde a violência doméstica que Mammachi sofria do marido, ao facto da riqueza da família pertencer exclusivamente ao filho homem, Chacko, ou à adoração por Sophie Mol, a criança loira de tez clara. Desde o início, os gémeos, em especial Rahel, temem que a sua mãe goste menos deles com a presença da prima, visto esta ser “limpa, branca e educada”, a menina perfeita, uma das razões porque Estha, após ter sido vítima de pedofilia (prática muito comum na Índia) pelo homem Laranjada Limonada, ter permanecido em silêncio, mesmo tendo o incidente traumatizado o jovem, que acabou por emudecer. Este livro transmite, numa escrita cuidada e inteligente, a ideia de que a felicidade reside nas Pequenas Coisas. Ammu, tocável, e Velutha, um empregado da família, intocável, amado por Ammu de noite e pelos gémeos de dia, foram alvo de ódio e intolerância por se terem amado na margem de um rio, ato que iria custar a vida

ao Paravá preto e pobre, assassinado pela polícia de forma injusta, cruel e sem qualquer direito a defesa, ação hedionda descrita ao pormenor de uma forma bastante visual pela autora, fazendo o leitor desprezar a corrupção e abuso de poder das autoridades policiais, motivados pelo preconceito. Concluindo, esta obra, mesmo que as constantes mudanças temporais e espaciais da ação possam tornar a leitura mais complicada, está muitíssimo bem conseguida, transportando o leitor ocidental para uma realidade completamente diferente da sua vida habitual, abrindo horizontes e perspetivas e dando a conhecer um pouco da bela e podre Índia.


SÉCULO XXI Um horizonte difuso para a Índia

Imagine não poder estar ou sair de casa sem uma máscara, devido ao facto do ar estar muito poluído! Imagine não conseguir ver o fim da rua onde mora, já que uma enorme e espessa camada de gases poluentes cobre a sua cidade! O governo pede aos cidadãos para não saírem de casa porque a situação é extremamente preocupante e prejudicial para a saúde e tu e a tua família ficam em casa, perguntando-se quando esse modo de vida sujo vai acabar. Bem, esse pode ser um dia normal em algumas cidades da Índia, entre elas a capital. A Índia possui 13 das 20 cidades mais poluídas do mundo, lista em que Nova Deli, Patna, Gwalior e Raipur ocupam os quatro primeiros lugares. O fumo dos combustíveis de automóveis, as poeiras das construções e o fumo das enormes fileiras de cultivos queimados combinam-se para formar uma camada de poluição atmosférica que se torna ainda mais densa no inverno, com a chegada do ar frio. Ao longo dos anos, o governo indiano assegurou que seriam tomadas medidas para resolver o problema, mas a situação só foi agravada, deixando a população cada vez mais afetada. O nível de poluição do capital (Nova Deli) excede 700 microgramas pelo metro cúbico, o que é 70 vezes maior que o nível que a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera segura para os seres humanos. Essas partículas tóxicas têm grande parte da sua origem no alto número de veículos e indústrias que estão na cidade. A grande nuvem cinza e escura representa o pior evento de contaminação nas últimas décadas em todo o mundo, deixando mais de 25 milhões de habitantes vulneráveis a doenças respiratórias, como pneumonia ou cancro de pulmão. A situação atingiu o ponto em que, em 2015, 2.5 milhões de mortes foram associadas a esse problema. Sem dúvida, este é um problema que deixa o futuro da população indiana incerto, uma situação complicada e séria. O problema atmosférico na Índia é um aviso, mas este não é o único país com níveis de poluição que excedem os limites seguros para a saúde; países como a China e o México estão em situações semelhantes, mas não tão radicais. Se não tomarmos consciência dos resultados das nossas

ações, o colorido país asiático será só o começo de um problema de poluição que poderá deixar resultados terríveis em todo o planeta. Devemos

abrir os olhos. Ainda temos tempo de evitar esse tipo de tragédia.

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Revista P&V de março de 2018

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