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Esta revista faz parte da edição nº 2785 de 14 dezembro de 2017 do Jornal da Marinha Grande e não pode ser vendida separadamente

MARINHA GRANDE

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

POENTE

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gabinete imagem e comunicação

dezembro 2017

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CONSTRUIR A INTERCULTURALIDADE


A ESCOLA É A NOSSA CASA COMUM

Editorial

“Em Roma, sê romano”, diz um provérbio com mais de dois mil anos. Ele traduzia a visão hegemónica da cultura romana, imposta à força aos povos que integravam o Império. Mas passaram dois mil anos e o mundo tornou-se a “Casa Comum”. Os movimentos migratórios ao longo da história humana fizeram da terra uma “Aldeia Global”. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a ONU e as suas agências têm vindo a criar uma nova ordem mundial. Essa ordem é multicultural. Todos os países do mundo se têm transformado em cadinhos onde se vai cozinhando o caldo multicultural. Também nas escolas do Agrupamento da MG Poente, muitos jovens e adultos encontram uma casa comum. Somos reconhecidamente uma escola multicultural. Mas o multiculturalismo é apenas a coexistência, mais ou menos pacífica, de múltiplas culturas. É preciso dar passos para transformar o multiculturalismo em interculturalidade, que, à aceitação do “outro”, acrescenta a partilha recíproca. O AEMG Poente tem dado alguns passos nesse sentido, mérito já reconhecido através da atribuição do Selo Intercultural. Mas é com o projeto FICA (ler peça Projeto FICA: construir a interculturalidade) que nos propomos dar o salto. O GIC, através dos seus órgãos de comunicação, Calazans TV e P&V, tem tido um papel fundamental na construção duma Escola Intercultural e projeta, nos próximos 2 anos, consolidar esse edifício. A publicação de edições cuja temática é a interculturalidade faz-se através da abordagem da cultura dos países de origem das dezenas de alunos que aprendem nas nossas escolas, divulgando-a, colocando-a em pé de igualdade com a cultura portuguesa, ou, melhor dizendo, com a cultura europeia. É essa a missão da fabulosa equipa de alunas e alunos do P&V, que se inicia com esta edição dedicada à Venezuela e à Ucrânia. Pela primeira vez, estes jovens repórteres e colunistas

trabalharam “por encomenda”, pesquisando durante longas horas e escrevendo sobre uma multiplicidade de temas, para dar visibilidade a diversas dimensões culturais destes dois países. Como responsável pelos conteúdos do jornal, não pude deixar de me emocionar, à medida que fui lendo os seus textos. O cinema, a música, a dança, a literatura, o teatro, os movimentos de mulheres, as festividades tradicionais, a gastronomia e também a política são alguns exemplos dos assuntos sobre os quais escrevem. Por razões óbvias, esta partilha tem ainda de ser feita em língua portuguesa. Por agora. Permitam-me que preste homenagem a estes jovens repórteres, citando todos os nomes: Anastasia Khimic, Anaísa Lucena, Beatriz Bernardo, Diogo Heleno, Inês Duque, Mariana Farto, Manuel Ferreira, Sabrina Gil, Sofia Puglielli. A todas e todos o reconhecimento dos professores da equipa pelo excelente trabalho nesta edição. E deixem-me destacar de novo a Anastasia Khimich, responsável pela rubrica Eu vim de longe, e Sofia Puglielli, a mais recente colaboradora do P&V, que traz para esta edição uma reportagem sobre a crise na Venezuela, escrita com memória e tristeza. Mas o P&V faz-se também com o reconhecimento de outros “outros”, todos como nós. Assim, Alda Angelino assina mais uma peça Os Pontos & as Vírgulas da Educação Especial, e há dezenas de nomes de alunos, professores e funcionários que nesta edição prestam a merecida homenagem à professora Margarida Amado, também ela uma defensora da interculturalidade e colaboradora do P&V. Mantendo o propósito de dar a conhecer os cursos profissionais, na rubrica Um mês, um curso, trazemos aos leitores várias reportagens sobre o Curso Profissional Técnico de Restauração – Cozinha/Pastelaria. Atento à atualidade, o P&V traz- lhe ainda notícias do que se vai fazendo nos diversos ambientes pedagógicos das escolas do Agrupamento, com destaque para os Prémios

Stephens. E porque daqui a dias é Natal, deixamo-lo com água na boca com as receitas para a ceia: Bacalhau dourado em cama de grelos salteados, ao alho, batata doce e escalivada à espanhola ; Kutiá – Kутя ; Hallaca.

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dezembro 2017

Redação: AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

MARINHA GRANDE

POENTE

Alice Marques, Alda Santos, Anaísa Lucena, Anastasia Klimich, Beatriz Bernardo, Diogo Heleno, Inês Duque, Jorge Alves, José d’Encarnação, Manuel Ferreira, Mariana Farto, Sabrina Gil, Sofia Puglieeli, Tiago Almeida e Vitalina Shamrai Impressão: Gráfica Diário do Minho

Tiragem: 4200 exemplares

Produção gráfica: gabineteimagem eseacd

gabinete imagem e comunicação


PRÉMIOS STEPHENS

MÉRITO DE ALUNOS PREMIADO EM FESTA Texto e fotografias de Alice Marques

A data 29 de novembro de 2017 fica assinalada na memória de 223 alunos da escola Guilherme Stephens como a noite em que subiram ao palco para receber um prémio de mérito referente ao ano letivo 2016/17. 101 alunos receberam-no pelos seus bons resultados académicos, 115 pelas suas boas performances em diversas modalidades desportivas, 6 por se terem revelado excecionais cidadãos e apenas 1 recebeu prémio pelas suas competências artísticas. Foi uma cerimónia que se prolongou por duas horas, no pavilhão multiusos, apinhado de pais, alunos e professores, e onde estiveram também presentes a Presidente da Câmara, Cidália Ferreira, e a Vereadora da Educação, Célia Guerra, as duas ex-professoras daquela escola. O diretor do Agrupamento Poente, Cesário Silva e o sub-diretor, Mário Marques, fizeram as honras da casa, com curtos discursos de reconhecimento e agradecimento, e a Presidente da Câmara anunciou que “as obras de requalificação desta escola, já com 40 anos, vão finalmente avançar”. Um processo de decisão que, por se arrastar tanto tempo, mereceu ao diretor Cesário Silva um comentário de fino humor: “foi como escavar um túnel com uma colher de chá!” Depois a festa ficou a cargo dos jovens apresentadores, Matilde Lopes e Tomás Elias, que tiveram um desempenho sem falhas! O mesmo não se pode dizer de alguns microfones, que primaram pelos engasgamentos. Entre as entregas de prémios, feitas pelos diretores das turmas, ocuparam o palco vários alunos, para momentos musicais, instrumentais e canto. Martim, no saxofone, Vladimir, na guitarra, e Manuel, na bateria, abriram o espetáculo, que contou ainda com Afonso ao piano e Beatriz ao saxofone, Vladimir voltou ao palco com a sua guitarra, a solo, e Lara encheu o palco com canto. Nos bastidores, uma equipa de professores, liderada pelos coordenadores do estabelecimento, Manuela Ambrósio e Delfim Santos, manteve-se atenta. É preciso sair de cena para dar lugar aos pequenos artistas; mas, atrás do palco, o trabalho continua, até que as luzes se apaguem e as vozes deem lugar ao silêncio.

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PROJETO FICA: CONSTRUIR A INTERCULTURALIDADE P&V

O Projeto FICA (Facilitar a Integração, Capacitar para o Acolhimento) é uma iniciativa nacional do Programa REEI (Rede de Escolas para a Educação Intercultural), desenvolvido pelo do Alto Comissariado para as Migrações, Direção Geral de Educação e Fundação AgaKhan Portugal. O Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente é um dos que desenvolvem o projeto FICA, até final do ano letivo 2018/19, tendo obtido financiamento para as diversas atividades que visam concretizá-lo. Estão previstas, entre outras: formação para professores sobre o ensino da língua portuguesa a estrangeiros,

formação sobre interculturalidade, trabalho pedagógico de integração das questões da interculturalidade no currículo, ciclos de cinema, publicação de histórias de vida e várias edições do P&V dedicadas aos países dos quais são oriundos alunos que frequentam as escolas do Agrupamento. Esta edição do P&V é a primeira das várias que contamos editar, para cobrirmos a totalidade dos países de origem dos nossos alunos. É dedicada à Ucrânia e Venezuela. Acolhendo a Marinha Grande, há cerca de duas décadas, migrantes de diversos países, que representam já um contributo demográfico significativo, um diagnóstico exaustivo dessa

comunidade, em termos de proveniência geográfica, condições familiares, laborais e educacionais, será outra das atividades, cujo objetivo é seu envolvimento no projeto. O P&V, que continuará a ser porta-voz desta iniciativa, orgulha-se da sua equipa de alunos, com os quais conta para concretizar parte deste projeto.

CALAZANS DUARTE COMEMORA OS 100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA P&V

Albano Nunes, dirigente histórico do Partido Comunista Português (PCP), foi o convidado do colóquio promovido pelos professores de história da Calazans Duarte, que decorreu no dia 7 de novembro, data em que, de acordo com o calendário gregoriano, se assinalam os 100 anos da Revolução Socialista na Rússia, também chamada a Revolução de Outubro (no calendário russo da época, corresponde a 25 de outubro). “Sendo um acontecimento histórico de impacto indiscutível em todo o mundo, os livros de história dedicam-lhe algumas páginas, numa visão pretensamente objetiva, não ideológica. Mas não há visões neutras, só há construções discursivas sobre a história vivida”, disse Alice Marques, justificando o convite ao histórico do PCP para mostrar “uma abordagem que orgulhosamente se assume como ideológica.” Albano Nunes expôs, de forma clara e acessível, alguns factos e impactos da Revolução de Outubro, falou “dos êxitos alcançados” sem esconder as “sombras da revolução”. E fê-lo de uma forma que suscitou a participação de vários alunos, os quais, ao longo de duas horas,

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colocaram “questões tão pertinentes que cada uma daria para um seminário”, comentou. Com efeito, foram os alunos que transformaram o colóquio num debate de grande nível. São de destacar as intervenções da Emanuelle Andrade e do José Bernardo, alunos do 12º H. Este histórico do PCP trouxe, ao auditório de jovens, informações relativamente ignoradas pelos programas de história, realçando repetidamente a mensagem de que não pretendia impor uma visão isenta de controvérsia, tão pouco justificar os “erros” cometidos ao longo do processo revolucionário na Rússia/URSS, mas sim suscitar o espírito crítico, o confronto com ideias feitas. Perguntas provocatórias colocadas pelos alunos tiveram respostas serenas. As contradições e perversões do capitalismo demonstram que este sistema “vive uma crise profunda. Há, por isso, motivos para manter a esperança numa transformação histórica, para a qual os ideais da revolução de Outubro continuam a ser válidos; o socialismo faz falta à humanidade”, disse Albano Nunes.


COMO ATUAR COM DIABÉTICOS NUMA SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA? P&V Decorreu no dia 8 de novembro, no auditório da Calazans Duarte, uma sessão de esclarecimento para professores e funcionários das escolas do Agrupamento Poente sobre os cuidados a ter com crianças e jovens com diabetes. A Inês e o Rodrigo, dois jovens da Calazans Duarte que têm diabetes tipo 1, estiveram presentes nesta sessão, conduzida pela enfermeira Sofia Carneirinho Sousa, da Unidade de Cuidados na Comunidade, (UCC) do Centro de Saúde da Marinha Grande, bem como os pais da Inês, e deram uma contribuição inestimável, contando as suas rotinas. Depois de uma breve explicação sobre os dois tipos de diabetes, tipo 2 (o mais comum e que pode ser prevenido com uma alimentação correta e exercício físico) e tipo 1 (mais raro, que não pode ser prevenido e cujos portadores são insulinodependentes para toda a vida), a sessão centrou-se na exposição das rotinas diárias dos jovens com diabetes, que, respeitando-as, podem ter uma vida perfeitamente normal.

Aliás, isso mesmo foi confirmado pela Inês e pelo Rodrigo, que lidam perfeitamente com as rotinas a que a diabetes obriga. A monitorização sistemática da glicémia, várias vezes por dia (6 a 9), o cumprimento de um plano individual de saúde feito pelo médico e o saber atuados que estão por perto, em situações de hipoglicémia severa e hiperglicemia, garantem que tudo corre bem. Muito importante para professores e funcionárias foi a identificação dos sintomas de hipo ou hiperglicemia e a explicação de como atuar, ilustrada por vídeos didáticos, da American Diabetes Association, e a manipulação dos kits que acompanham sempre estes jovens. O número de diabéticos, tipo 2, tem aumentado entre os jovens nas últimas décadas, o que a comunidade científica atribui aos maus hábitos alimentares e de sedentarismo. A diabetes tipo 1 mantem-se estável, segundo o relatório de 2016 do Observatório Nacional de Diabetes. É uma das poucas doenças que o Serviço Nacional de Saúde subsidia quase a 100%. Os kits de

monitorização e a insulina são gratuitos, mas no caso do glicómetro-bomba, quem optar por ele pode ter de ficar muitos anos em lista de espera. Foi o que aconteceu coma Inês, que, segundo informação dos pais, esperou 6 anos pelo aparelho. Ao contrário de Espanha, por exemplo, onde um jovem sai da consulta em que a diabetes é diagnosticada já com tudo o que necessita.

CALAZANS HASTEIA A BANDEIRA ESCOLA SAUDAVELMENTE P&V

O bastonário da Ordem dos Psicólogos, Dr Francisco Rodrigues, esteve na escola Calazans Duarte no dia 20 de Novembro, para a cerimónia do hastear da bandeira Escola Saudavelmente, em queestiveram presentes várias alunas, professoras, psicólogas e elementos da direção

do AEMGPoente. O AEMGPoente, através da sua escola –sede, a Calazans Duarte, é uma das 100 do país que receberam esta distinção, que confirma o selo Escola Saudavelmente, entregue no dia 4 de outubro nas instalações da Ordem dos Psicólogos, organismo que criou este galardão,

como símbolo das boas práticas em saúde psicológica e sucesso educativo. Dirigindo-se ao diretor Cesário Silva e restantes presentes, o bastonário felicitou todos pela bandeira que representa “o bom trabalho que fazem diariamente na comunidade escolar.”


“MENINAS: COMAM A SOPA” P&V

Um estudo realizado por amostragem no refeitório da Calazans Duarte, no dia 23 de outubro, demonstrou que mais de 50% dos alunos não comeram sopa e mais de 60% não comeram fruta. Por outro lado, foi também verificado que houve pouco desperdício de comida. O estudo foi feito por observação direta de 100 alunos, sendo o almoço desse dia constituído por sopa de legumes, douradinhos com arroz e maçã assada ou ao natural. Realizaram a observação: Rita Alendouro, Ana Rita Santos, Bruno Rosa e Josué Gaspar, alunos da turma 10ºE, sob orientação da professora Fátima Roque, coordenadora do Projeto Eco-escolas. Esta observação teve como objetivo sensibilizar

os alunos para práticas que contribuam para a sustentabilidade, desde a alimentação à redução de consumos de água, energia, etc. O tratamento dos dados foi feito com o programa excel, uma oportunidade prática para os alunos aprenderem a usar esta ferramenta informática. A coordenadora do Eco-escolas considera por isso que, apesar de estes dados não serem os que devem ser tidos em conta num estudo sociológico com valor científico, “podem proporcionar alguma reflexão nas nossas práticas do dia a dia.” Os comportamentos observados são confirmados pela cozinheira Sónia que acrescenta “são mais raparigas que não comem sopa, mas muitas substituem pela salada”. E quanto à fruta, “é verdade que poucos alunos

comem, sobretudo se for da época. Se calhar porque essa é a fruta que comem em casa…” acrescenta ainda. Diariamente almoçam na cantina da Calazans Duarte entre 400 a 450 alunos, havendo já há algum tempo um prato vegetariano diariamente, confeccionado para uma média de 12 alunos.

MAIS UM ANO COM BANDEIRA VERDE P&V

A Bandeira Verde do projeto Eco-Escolas foi mais uma vez hasteada na Calazans Duarte. A cerimónia decorreu na tarde soalheira de 16 de Novembro e contou com a presença da Coordenadora do Projeto, profª Fátima Roque, profªs Inês Vaz e Elsa Ferreira da direção do A g r u p a m e nto, p ro f ª Fát i m a C a r va l h o, presidente do Conselho Geral, Sofia Silvestre, presidente da Associação de Estudantes, Mónica Bento, da Associação de Pais e Encarregados de Educação, António Roldão, da OIKOS, profª Lurdes Neves, que coordenou, no ano letivo 2016/17, o projeto do Cartaz EcoCódigo, e alunas do Clube Eco-Escolas.

Fátima Roque, num breve discurso, agradeceu a presença de todos e saudou em particular a direção do AEMGPoente pelo reconhecimento “dos valores ambientais como parte integrante da educação dos alunos.” Após o hastear da bandeira, com a colaboração do segurança Adolfo, a comitiva foi recebida no

PAPEL POR ALIMENTOS P&V

No mês de novembro, a Conferência de S. Vicente de Paulo recolheu, na escola Calazans Duarte, 580 quilogramas de papel usado para trocar por alimentos no Banco Alimentar Contra a Fome. Este é um projeto que a escola tem

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vindo a desenvolver nos últimos quatro anos e que já se traduziu em várias toneladas de papel trocadas por alimentos. “Funcionários, professores e alunos têm feito um magnífico trabalho neste sentido”, disse ao P&V a coordenadora do Projeto Eco-escolas, professora Fátima Roque.

Espaço Memória com um lanche servido pelos alunos do 10º ano do Curso Profissional Técnico de Restauração – Cozinha/Pastelaria.


NO NAMORO SÓ BATE O CORAÇÃO P&V

A 20 de novembro, dia em que se comemoraram os 28 anos da aprovação da Convenção sobre os Direito da Criança, na escola Calazans Duarte decorreu a Tertúlia com o tema Relações Afetivas e Violência no Namoro. Os tertulianos foram quatro, todos com vasto conhecimento do assunto, pelas funções que desempenham. Foram eles: Célia Caseiro, Técnica do Instituto Português do Desporto e Juventude; Odete Mendes, Médica de Saúde Pública e Coordenadora do Centro de Atendimento a Jovens- Janelas Verdes- de Leiria; Catarina Louro, Técnica de Apoio à Vítima na Associação Mulher Século XXI e Carlos Mota Carvalho, da Esquadra de Investigação Criminal da PSP de Leiria. O objetivo desta tertúlia foi, como disse a Dra. Odete Mendes: “alertar os jovens para os indícios de violência no namoro e dar a conhecer as organizações a que podem recorrer para denunciar situações.” Esta médica, que exerce funções no Núcleo de Leiria de Apoio a Crianças e Jovens em risco (organismo da ARS), apresentou também o programa Namorar com Fair Play, que funciona no âmbito da prevenção

da violência no namoro, com voluntários dos 18 aos 30 anos. Odete Mendes expôs uma extensa lista de exemplos de violência interpessoal, da negligência parental aos maus tratos, centrandose depois na violência no namoro, que definiu como “situação em que alguém, numa relação afetiva exerce poder e controlo sobre o outro, para conseguir o que deseja”. Num auditório de jovens, alguns diapositivos mostrados e afirmações desta técnica suscitaram burburinho e até discordâncias, sinal óbvio de que muitos jovens encaram como “naturais” situações que são indícios de relações assentes em mitos sobre o namoro. O ciúme é uma prova de amor; a violência tem tendência a terminar quando os casais passam a viver juntos; a violência no namoro não é uma questão comum, nem séria; quando se gosta de alguém deve-se fazer tudo o que ele/ela gosta; os rapazes nunca são vítimas; é melhor ter um namorado violento do que não ter nenhum; a violência no namoro é um problema privado… foram alguns desses mitos, que receberam, do auditório, o pronto desacordo ou o tímido

abanar da cabeça! Catarina Louro completou a desconstrução destes mitos ao apresentar dados estatísticos e primeiras páginas de jornais que dão conta de que há cada vez mais violência no namoro e entre jovens cada vez mais novos. Os dados entre 2014 e 2016 mostram um aumento de 60%. Outros exemplos: na violência doméstica, as denúncias mostram que 85%das vítimas são mulheres e só 15% são homens; mas no namoro, os dados apontam para 50/50. A tertúlia terminou com o investigador Carlos Mota Carvalho contando um história real, com nomes fictícios, que prendeu totalmente atenção dos jovens: Maria e António eram o par perfeito de namorados ... até ao dia (4 anos depois) em que o António agrediu a Maria… ela teve a coragem de dizer que queria terminar a relação e ele ameaçou divulgar fotos deles na intimidade sexual. Uma história verídica em que o Príncipe Encantado veio a revelar-se um sapo! Afinal, também este amor não era amor. Porque no namoro só bate o coração.

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UM MÊS UM CURSO Curso Profissional Técnico de Restauração/Cozinha e Pastelaria

HÁ 7 ANOS A FORMAR COZINHEIROS Textos e fotografias de Alice Marques

Fazendo parte da oferta formativa da Escola Calazans Duarte, ininterruptamente desde o ano 2010/11, já saíram daqui com diploma profissional de nível IV e 12º ano, 67 alunos cozinheiros pasteleiros. No ano letivo 2017/18, são 50 os alunos que o frequentam, desde o 10º ao 12º ano. A empregabilidade deste curso é bastante elevada, “variando entre os 50% e os 80%, consoante as turmas”, segundo dados que apurámos junto de um dos professores de cozinha, Tiago Almeida. O plano curricular do curso prepara os jovens não só para serem profissionais de cozinha, mas também dá competências de serviço de mesa e bar. A maioria dos jovens tem conseguido emprego em restaurantes da sua área de residência. Mas há

alunos formados na Calazans Duarte que arranjaram emprego em Lisboa e no Algarve. A possibilidade de prosseguirem estudos nesta área no ensino superior existe (como em qualquer outro curso profissional), em Escolas Superiores de Hotelaria, mas essa não tem sido a opção de muitos alunos. É impossível não notar a presença destes jovens na escola, pois eles estão sempre presentes, com os seus fatos impecavelmente brancos, servindo acepipes variados, quando há eventos na escola que requerem também a degustação de algumas iguarias. O restaurante pedagógico, última peça da cozinha pedagógica, que foi uma espécie de presente da ex-ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, quando num já longínquo mês

de agosto, visitou de surpresa a Calazans Duarte, é hoje uma importante mais-valia para o curso e para a escola. A funcionar ao almoço às terças e quintas, com reserva prévia na véspera, a confecção e o serviço de mesa é da responsabilidade dos jovens aspirantes a cozinheiros, sob a supervisão dos três formadores da área técnica: Tiago Almeida, Guilherme Silva e Maria João Lagoa, todos habilitados para serem professores dos módulos de cozinha e pastelaria. A repórter do P&V acompanhou um dia de aulas na cozinha, falou com os três professores e com muitos alunos e alunas, e mostra, nesta edição, como este curso tem contribuído para acabar com a visão de que um curso profissional é coisa menor.

A COZINHA É UMA ARTE E UMA CIÊNCIA… COM MUITA TÉCNICA Você é capaz de desossar um frango, em cru, e ele ficar inteirinho? Só com uma faca bem afiada? Em 10-15 minutos? Eu não sou! E não conhecia ninguém capaz disso, até falar com Guilherme Silva, um dos

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professores da área técnica do Curso Profissional Técnico de Restauração/Cozinha e Pastelaria. É certo que não o vi fazer esta operação, mas está prometido que verei, se houver oportunidade de “ensinar isso aos alunos”, garante-me o professor. Licenciado em Biologia e Geologia, após 14 anos a percorrer o país a ensinar

biologia, sem conseguir vinculação, Guilherme decidiu fazer um Curso Profissional de Cozinha e Pastelaria na Associação de Cozinheiros Profissionais, em Lisboa, e mudar não de profissão mas da área de ensino. Está há 2 nos a leccionar na Calazans Duarte, a escola onde também foi aluno.


Numa tarde de quarta feira, passam pela cozinha os 24 alunos do 12º ano do curso, em 2 turnos, orientados pelo professor Guilherme e pela professora Maria João. Assisti à preparação do primeiro prato do grupo do Guilherme, as entradas, e assisti à prova, mas não provei. Cada grupo apresentou uma entrada visualmente estimulante, bem empratada e totalmente criada pelos elementos de cada grupo. Explicado o prato, nos ingredientes e técnicas de confecção, seguiu-se a prova. Tal qual como vemos nos programas Master Cheff na televisão! Só não há vencedores e expulsos! Todos ficam, todos dispostos a melhorar. Hão-de ainda confeccionar o segundo e a sobremesa, que para esta quarta feira tinha apenas uma regra: ter duas texturas. Enquanto o grupo do professor Guilherme Silva prepara uma refeição em tempo marcado pelo toque da campainha escolar, o grupo da professora Maria João Lagoa está numa aula teórica, cuja primeira parte é trabalho na Prova de Aptidão Profissional (PAP). Embora o produto final só seja apresentado daqui a mais de 6 meses, é no início do 12º ano que os alunos devem apresentar o anteprojeto, que já implica uma decisão sobre o quê e como confecionar e muita pesquisa sobre a história e outros aspetos culturais do prato escolhido. O tempo destinado à PAP, que é a pedra de toque de todos os cursos profissionais, “é manifestamente escasso”, diz Maria João, pelo que aproveita parte das aulas teóricas para orientar os alunos nas pesquisas. Os alunos devem sair do curso também com conhecimentos sobre a história da alimentação, tópico que é muito caro a esta professora, que fez dois cursos profissionais na escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra e frequenta atualmente um Mestrado na Faculdade de Letras da Universidade daquela cidade, em Alimentação- Fontes, Cultura e Sociedade. A influência da aposta televisiva na motivação

dos jovens para a escolha do curso é inquestionável. Embora, como explica o professor Guilherme “aquilo tenha pouco a ver com a cozinha real”. Aqui, na cozinha pedagógica, cozinha-se para aprender a ser cozinheiro. E isso significa aprender não só técnicas de confecionar alimentos e de manuseamento de instrumentos de cozinha, mas também muita teoria sobre as propriedades dos alimentos, psicologia e gestão e controlo duma cozinha. Tiago Almeida, outro formador da área técnica do curso, considera que a gestão da cozinha é “talvez o elo mais fraco deste curso”, por razões alheias ao mesmo: é que o aprovisionamento tem de ser feito segundo regras definidas pelo ministério da educação, que evolve concursos e, portanto, escassa autonomia nas decisões dos alunos. A leccionar nesta escola há 6 anos, Tiago Almeida tem uma opinião muito sólida sobre a importância da aprendizagem da cozinha: “ela devia ser parte da formação integral de todos os cidadãos; todos devíamos ter uma formação básica sobre o valor dos alimentos e noções para gerir a cozinha da nossa casa”. Tiago Almeida é marinhense, estudou na Calazans Duarte, no ensino regular, e licenciouse Gestão de Restauração e Catering, na Escola Superior de Tecnologia do Mar, em Peniche, uma das escolas do Instituto Politécnico de Leiria (IPL). Trabalhou em hotéis, na sala de restaurante e no bar. Um dia, num desses hotéis, houve necessidade de alguém na cozinha e Tiago foi. E acabou por ter tanto interesse pela cozinha que acumulou formações, workshops, primeiro como participante, depois como formador, condição em que voltou à sua escola. Uma manhã na cozinha com este formador, entre tachos e facas, legumes, carnes, ovos e demais ingredientes que “felizmente nunca faltam”, permitiu construir uma imagem visual, sonora e

odorífica do muito que se faz neste curso. E foi também uma lição de história. Tradicionalmente trabalho feminino, a cozinha doméstica é muito diferente da cozinha profissional. O que não significa que seja um trabalho para o qual as mulheres têm mais aptidão. Os dados desmentem isso. Não só a procura destes cursos é equilibrada entre os géneros, ou mesmo maior entre os rapazes (caso do curso que iniciou este ano, em que 75% são alunos), mas também é um facto histórico “que a cozinha profissional tem sido sempre estruturada por homens”, explica Tiago Almeida. Alguns alunos e alunas que chegam a este curso trazem conhecimentos elementares que aprenderam com as mães, que praticam em geral uma “cozinha intuitiva”, diz o professor. “A cozinha profissional pressupõe conhecimentos que muitas disciplinas do curso fornecem e é por isso mais científica”. Iniciar a componente técnica do curso pela teoria ou pela prática é uma questão de opção, face ao perfil dos alunos que tem à frente. Este ano, os alunos “meteram logo as mãos na massa” e têm já um mês e meio de prática. Estão altamente motivados. Aliás, segundo este professor “a motivação tem vindo a aumentar. Todos chegam aqui por opção e começamos a entrar numa espiral, do interesse de cada um conjugado com a saída de colegas formados e a satisfação de conseguirem fazer, porque a cozinha e pastelaria são aprendizagens que se veem.” Apesar do curso ter um plano curricular obrigatório, cujos módulos da área técnica constam no Catálogo Nacional das Qualificações, há muito espaço para a criatividade. Aliás esse é o ingrediente que permite distinguir os cozinheiros: “sensibilidade para juntar ingredientes… a criatividade nasce aí, mas até lá chegar é preciso aprender. E isso é técnica”.

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O CURSO PROFISSIONAL DE COZINHA E PASTELARIA VISTO PELOS ALUNOS

Andreia Pinto, Ricardo Pato e Raquel Neves começaram há pouco mais de 2 meses a meter a mão na massa. São alunos do 10º ano do Curso Profissional de Cozinha e Pastelaria e hoje preparam uma lasanha. Os três vieram de outras

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escolas: o Ricardo, da Pinhal do Rei, a Andreia, da Bordalo Pinheiro e a Raquel, de muito mais longe, do Reino Unido. Gostam mesmo deste curso. Ricardo até sonha ter “um negócio próprio”. Mas isso é mais tarde! Chegou aqui com “umas luzes” de cozinha, que aprendeu observando a mãe. “Mas aqui é muito diferente da cozinha de casa”, corrige a Andreia. A Raquel, se tivesse continuado no Reino Unido, onde viveu 6 anos, também iria fazer um curso de cozinha, até porque gosta muito de alguns pratos ingleses. Enquanto o grupo da lasanha se debate com a carne ainda congelada, Francisco, Fábio e Rafael estão à volta da panela da sopa. “É uma sopa de legumes, hoje para a turma toda”, explica o Francisco, enquanto manuseia, já com alguma destreza, a faca de cortar legumes. Os três vieram também de outras escolas (Pataias, Pinhal do Rei e Maceira) e foi por vontade própria que escolheram este curso. Foi bom ter “entrado logo na prática”, disseram ao P&V. Não que as teóricas os assustem: “fazem-se bem, porque a motivação é muita”, acrescentaram. Os finalistas “são dedicados, mas a sua mente por vezes dispersa-se”, diz o professor Guilherme. Mas já têm outra autonomia, como pudemos comprovar no turno da tarde. Rodrigo Laranjo já tem umas ideias para a Prova de Aptidão Profissional (PAP), “qualquer coisa que envolva queijos”, e começou a investigar a história deste alimento. Nuno Santos veio dum curso vocacional, mas escolheu o Profissional de Cozinha com toda a convicção. Porque “gosta mesmo”, reforçou. Gosta de todas as vertentes do curso e, embora prefira a cozinha, sente-se preparado para “fazer sala e bar”.

Diana Ferreira também veio de um curso vocacional básico e está satisfeita com o que tem aprendido aqui. “O curso é óptimo, gosto de tudo, mas prefiro a pastelaria porque … também gosto mais de comer doces”, disse ao P&V. Também já está a trabalhar no anteprojeto da PAP, qualquer coisa com frutos vermelhos, por isso está fazer pesquisa sobre a história e cultura da gastronomia com estes ingredientes. Catarina Sousa veio do 9º ano do ensino regular e foi com alguma orientação da família que escolheu este curso profissional. Gosta do curso e espera ser cozinheira profissional, se arranjar trabalho. Se não, tem “um plano B”, que é fazer outro curso. Ao contrário da Diana, que garante que “está a investir tudo no plano A”. As aprendizagens sobre cozinha mudaram muito a forma de ver este trabalho considerado doméstico. Catarina, que “cozinhava desde pequenina” e aprendeu com a mãe, quer agora mostrar-lhe que sabe outras coisas e ensinarlhas. Mas “não é fácil”, porque “as mães fazem valer a sua competência, que vem da experiência”. E acrescenta “a maior parte está mais preocupada em pôr comida na mesa do que prepará-la com técnica”. Diana também enfrenta a autoridade da experiência da mãe: “por exemplo, ela tem a sua maneira de cortar os tomates e que ninguém lhe diga que se faz de outra maneira”. O empratamento é parte da arte da cozinha. Porque os olhos também comem. Elas sabem disso: “no empratamento podemos pôr toda a nossa criatividade, os professores dão-nos algumas orientações mas em geral deixam ao nosso critério”, remata a Catarina.


O SABER FAZER NA COZINHA

“Ela é muito desenrascada e sabe fazer as coisas”. É assim que a responsável pela cozinha da Cooppovo se refere a Alexandra Ferreira, uma das alunas que fez o Curso Profissional de Técnico de Restauração/Cozinha e Pastelaria na Calazans Duarte e que, após ter feito o estágio final, ficou a trabalhar no restaurante da Cooperativa do Povo. Há mais de um ano que ali trabalha e, segundo Paula Catarina Carreira, a responsável pela cozinha, “nota-se que já reage muito bem ao trabalho sob pressão, o que no início não acontecia”. Seja na cozinha, onde é ajudante, seja ao balcão, Alexandra “faz as coisas bem”. Mesmo que, segundo a própria, a cozinha não seja bem a sua vocação, pois “até preferia ter feito um curso de artes”, esta jovem de 19 anos, reconhece que muito do que aprendeu no Curso Profissional é útil mesmo quando se está como ajudante de cozinha: “ a preparação dos ingredientes para a confecção tem a sua técnica e isso eu aprendi no curso”. “Não sei se virei a ser uma cozinheira profissional, mas para já é aqui que quero continuar. É um trabalho duro. Apesar disso, eu

estou bem aqui e quero fazer bem o meu trabalho”, diz a Alexandra. José Craveiro terminou o mesmo curso em julho de 2016. Não fez estágio no restaurante Dona Taverna, mas veio trabalhar para aqui, depois de ter visto em anúncio que “precisavam de um cozinheiro”. Ficou logo. “E ainda bem porque era isto que eu queria fazer”, disse ao P&V. Sobre o que aprendeu no curso, reconhece utilidade nalgumas coisas, mas outras, diz ele, “só se fazem fora do país”. A cozinha é o seu espaço de trabalho, mas também dá sugestões para ementas e até já foi às mesas “receber cumprimentos como cozinheiro”. Gosta especialmente de cozinhar carnes. Na sua Prova de Aptidão Profissional (PAP) confecionou um prato com carne de vaca. As sobremesas e o peixe não são a sua praia! Cozinheiro formado, passou a cozinhar diferente também em casa, quando a folga lhe permite. E segundo nos disse, “a mãe aceita bem as inovações que ele leva para a cozinha”. Fernanda Ferreira, responsável pela cozinha do Dona Taverna, vê no José um jovem com

potencialidades, mas que “ainda tem muito que aprender”. Dona Fernanda, como lhe chamam, trabalhou muitos anos em França, num restaurante em Versalhes, da cadeia Flaunches e fez muitas formações profissionais. De regresso a Portugal, teve um restaurante com o seu nome, na Marinha Grande, durante quinze anos. Esse foi o tempo em que, para além da confecção de refeições, desenvolveu as competências de gestão de uma cozinha de restaurante, área em que, para já “está fora de questão atribuir algumas responsabilidades ao José”. Quanto ao trabalho de cozinheiro propriamente dito, Dona Fernanda destaca apenas que “é no tachão” que ele mostra mais dificuldades. Tachão é cozinhar em grandes quantidades, esclarece-me. À conversa com a repórter, longe dos olhares e ouvidos do Zé, ela faz questão de deixar-lhe recados: “ ele tem de estar mais próximo de mim, quando faço coisas que ele não sabe; eu estou aqui para o formar. Mas um dia quero reformar-me. Por isso, Zé, tens de ser tu a puxar por ti”.

CUISINE À PORTUGUESA É francesa a base da cozinha que se ensina no Curso Profissional Técnico de Restauração/Cozinha e Pastelaria. O Catálogo Nacional de Qualificações, que define a matriz técnica do curso, atesta-o. Um dos raros casos em que a cultura francesa vence a americana no processo de globalização. Os Crepes Suzette vencem o Big Mac! Mas nem por isso os aspirantes a chef na cozinha pedagógica da Calazans Duarte aprendem cuisine gourmet ou nouvelle cuisine. Não só porque “não podemos comprar trufas brancas, que chegam a custar 1000 (sim, mil!) euros o quilo”, mas também porque Tiago Almeida é um fã incondicional da boa cozinha portuguesa. Sobre cozinha gourmet,

que por sinal até “já está passar de moda”, diz este professor, “os alunos ficam com umas luzes, mas cozinhar gourmet é proibitivo!” Durante a entrevista ao P&V, um grupo de alunos do 10º ano esmerou-se na preparação de uma lasanha, desde a massa fresca à carne do recheio. Cozinha internacional com certeza, mas afinal… a nossa pátria é o Cozido à Portuguesa!

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Desporto escolar

CORTA MATO DO AEMG POENTE 2017-18 P&V

“Há sempre uma vitória em cada corrida” Decorreu no dia 29 de novembro, no Parque dos Mártires do Colonialismo, mais uma prova de corta-mato dos alunos e alunas das escolas do Agrupamento Marinha Grande Poente e com a participação especial do Pátio da Inês, uma iniciativa do Desporto Escolar, organizada pelos professores de Educação Física. Participaram 900 jovens, do 4º ao 12º ano. Também a “caminhada dos avós” fez parte do programa. Esta edição teve como objetivo especial sensibilizar os jovens para a necessidade de replantar o Pinhal de Leiria, cujo fogo do dia 15 de outubro de 2017, recordamos, destruiu cerca de 80% da área florestal que é a identidade do concelho. Como habitualmente, esta iniciativa contou

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coma presença de um atleta consagrado, desta vez o maratonista Luís Novo, que apadrinhou o evento. Tendo iniciado a carreira de atleta no clube da sua terra natal, Oliveira do Bairro, Luís Novo venceu várias provas quando foi estudante universitário, nos anos 90 e foi 1º em duas maratonas: a de Paris, em 1998, e a de Viena, em 2001. Atualmente com 47 anos, Luís Novo deixou aos jovens atletas que participaram neste corta mato uma mensagem inspiradora: “podemos não vencer sempre, mas há sempre uma vitória em cada corrida em que participamos”. Os 6 primeiros de cada categoria foram apurados para a fase distrital. São eles: Infantis AFeminina: Ana Mata, Maria Santo, Laura Simão, Inês Gomes, Beatriz Ferreira e Vitalina Shamrai. Masculina: André Figueiredo, Afonso Craceiro, Francisco Santos, Manuel Piteira, Rajwinder

Singh e Rafael Matos. Infantis B –Feminina: Maria João Lagoinha, Mara Sanches, Maria João Ascenso, Cátia Olaio, Mara Passagem e Maria Passagem. Masculina: Tiago Trindade, Hugo Santos, Hugo Domingues, Miguel Marques, Tiago Piteira e Tomás Alexandre. Iniciados- Feminina: Beatriz Amado, Joana Bento, Mariana Campos, Inês Miranda, Carolina Santos e Camila Rafael; Masculina: Duarte Salvador, João Gonçalves, Tomás Domingues, João Martim, André Frias e David Relvas. Juvenis- Feminina: Joana Rocha, Ana Costa, Inês Aleixo, Catarina Brito e Luana Martinho; Masculina – Ramiro Palma, Pedro Gaiolas, João Pinto, Ricardo Ribeiro Tiago Nunes, Ricardo Marques e André Silva. E ainda, da equipa Estrelas: Leonor Teixeira, Ruben Duarte, Maria Cordeiro e Pedro Castro.


Margarida Amado À conversa com Margarida Amado “ A escola tem um poder enorme” Alice Marques

Margarida Amado terminou oficialmente a sua carreira de professora em setembro de 2017, após 44 anos ao serviço do sistema educativo. E ainda que este terminus oficial signifique que deixamos de a ver na sala de professores, nos corredores e nas salas de aula, há marcas dela que por aqui ficaram e certamente ficarão. Mesmo que ela desvalorize a sua influência na vida de colegas e alunos, afirmando simplesmente que deixa à escola “o mesmo que muitos outros professores, lembranças boas ou más, conforme as circunstâncias”. E acrescente, com sentido de humor, “e os papéis do processo, na secretaria, a atafulhar o arquivo”. No P&V sentimos a sua falta. Das suas sugestões, da sua escrita, da sua inteligência, da sua cultura, do seu pragmatismo, do seu realismo. Do seu trabalho! Esta conversa não é uma cerimónia do adeus. É apenas a forma de a equipa do P&V lhe dizer: fazes-nos falta. No seu currículo académico consta uma licenciatura em Filologia Românica na Universidade de Lisboa. No profissional, muitas escolas. Em Lisboa: Filipa de Lencastre, D. Leonor, D. Dinis, Portela, Olivais e Patrício Prazeres; em Leiria- Domingues Sequeira; na Marinha Grande- onde começou, em 1972/73, ainda a escola tinha o nome do tempo da outra

senhora: Escola Industrial e Comercial da Marinha Grande, para onde voltou em 1984, já esta se chamava Escola Secundária da Marinha Grande, até ser batizada com o nome atual, Escola Secundária Engenheiro Acácio Calazans Duarte. Nas três décadas que aqui viveu, porque “a escola é emanação da vida e não um acrescento à vida” como sempre defendeu, Margarida Amado foi professora e desempenhou todos os cargos que um/uma professor/a pode ocupar, aqui enunciados sem sequência histórica: diretora de turma, delegada de grupo, coordenadora pedagógica de grupo, coordenadora de departamento, delegada à profissionalização, presidente do conselho diretivo e, por inerência, do conselho pedagógico, responsável pela biblioteca e presidente do conselho geral. Numa conversa informal, pedi à Margarida que falasse de quatro tópicos: o mais importante da sua formação ao longo da carreira de professora; os projetos mais significativos da escola nos quais esteve diretamente envolvida; o que acha que deixa à escola; como imagina a escola (sistema de ensino) daqui a 20 anos. O Movimento da Escola Moderna surge imediatamente. Conheceu o MEM numa das escolas de Lisboa, há 37 anos, através de Ivone Niza, e embora tenha deixado de ser “militante

ativa”, continua a pagar as quotas e a acompanhar os trabalhos do Movimento, através da revista. “O MEM trouxe-me o que desde o início procurava: um olhar diferente sobre a escola, centrado nos alunos, nas suas aprendizagens”, explica. A militância no MEM permitiu-lhe “aplicar ideias que conhecia teoricamente e sabia serem uma alternativa a uma escola muito antiga”, acrescenta. Quase quatro décadas depois, reconhece que algumas pequenas mudanças na concetualização e na prática pedagógica, que se vão observando nas escolas, são também herança do MEM. Esta “escola antiga”, sublinha, “tem um enorme poder e é difícil lutar contra ele. Nos últimos anos houve um regresso à escola antiga e também eu fui vencida por ela, quando aceitei trabalhar para os exames”, acrescenta, vencida mas não convencida. Continua a ver a avaliação nas nossas escolas como a dimensão “mais perversa”. “Como se sem ela os alunos não aprendessem”, comenta com ironia. Mas aprenderiam. “Aprendem”, assegura. E a prova disso é que “no pré-escolar não há este tipo de avaliação e os miúdos aprendem” exemplifica. Interrompo-a para falar da escolarização do préescolar, já prevista na lei. “Pois claro! Como não haveria de querer escolarizar-se o pré-escolar?!” ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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Mais uma prova do “poder institucional da escola”, conclui. Poder reforçado com a pretensão da “escolarização de toda a cultura”, outra caraterística que aponta à escola. Contra o poder desta “escola antiga”, Margarida Amado reconhece que “as coisas vão sempre mudando um pouco”, apesar da capacidade da instituição de neutralizar a pretensão de mudanças profundas. Interrompo-a de novo para lhe falar do PPIP como projeto de mudança. Hesita em falar de confiança, mas tem “esperança” que mais algumas pequenas coisas mudem. Suspendo por breves minutos a minha própria confiança e volto com uma pergunta: o que mudou profundamente nestas quatro décadas? A resposta não me surpreende. “Profundamente? Não acho grandes diferenças desde que comecei até agora.” E acrescenta: “os alunos mudaram mais do que os professores”. Dos projetos em que se envolveu nesta escola, Margarida Amado destaca os intercâmbios com escolas de outros países da Europa e a transformação da biblioteca em mediateca. Os intercâmbios, “pelo que significam, não só para os alunos, mas também para os professores, e a mediateca como inevitável adaptação da escola à

evolução tecnológica”. Aproveito para a questionar sobre um tempo em que o discurso apocalíptico a tecnologia tornará a escola obsoleta esteve na ordem do dia. “A tecnologia não substitui a escola, a tecnologia não é uma instituição, embora traga mudanças às instituições”, diz, com tranquilidade. Por isso, os mais significativos projetos em que se envolveu foram os “pequenos projetos, do trabalho com os alunos, do trabalho dos alunos”, remata. Margarida Amado, que foi para colegas e alunos, um modelo de professora, “um paradigma” como expressou a professora Lucília Cardoso, recusa esses epítetos. Sem falsa modéstia: “Sempre encarei o trabalho de professor como partilha do conhecimento, sempre defendi que saber é melhor do que ser ignorante…, embora a inteligência e o conhecimento não tenham impedido alguns aleijões morais. Basta lembrar o nazismo, Hitler…” “Apesar disso, continuo a acreditar que é preciso diminuir a ignorância, partilhar o património do saber, da cultura, e ser professor contribui para isso”. E acrescenta: “mas eu sou apenas uma, dos milhares de professores que em Portugal, depois dos anos 70, contribuíram para o aumento da

"Obrigada, professora!” São centenas, milhares, os alunos e as alunas que aprenderam a amar a língua e a literatura portuguesa com a professora Margarida. Nenhuma homenagem ao seu trabalho faria sentido se não ouvíssemos também aqueles que foram e são a razão de ser professora. Pedimos a duas dezenas de alunos, escolhidos aleatoriamente, que nos fizessem chegar uma frase, um parágrafo sobre ela. Os testemunhos são inequívocos. Ela foi “a melhor professora”. A humanidade, a preocupação com os alunos, o esforço e a paciência para que todos aprendessem são ideias comuns a todos os textos. Mas não só. Também a paixão com que dava as aulas e a sua enorme cultura, que fazem dela não apenas professora da língua portuguesa mas também da vida, atravessam os textos e deixam qualquer leitor emocionado. Aqui deixamos alguns desses testemunhos, rematados com beijinhos, desenhos de corações e saudades! “Atenciosa, compreensiva e meiga, foi uma das mais cultas mulheres que conheci, um exemplo de quem se esforçou até às últimas na sua profissão, e que nos transmitiu o que melhor tinha para dar.” (Sara Silva)

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escolarização dos portugueses. Claro que a consciência disso foi importante para mim”. Sobre a escola daqui a 20 anos (tomo este número como uma referência estatística da demografia, a esperança média de vida), Margarida mantem-se igual a si mesma: “não imagino… desconfio que há-de ter algumas diferenças … profundamente… acho que não. Mas nunca me dediquei a construir esses cenários”. Foram 44 anos. De escola. De vida. Em que apenas lhe faltou “algum tempo para ler”. Mas Margarida não é dada a queixas. Também não sente falta da escola. Tem passado os dias mergulhada na história familiar, a folhear e organizar os milhares de livros e outros documentos preciosos que enchem estantes e gavetas da casa onde nasceu. É nela que termina a nossa conversa, entre discos de vinil e CD’s, partituras, livros sobre música e compositores e alguns instrumentos musicais. - Uma casa museu, Margarida. Devias transformar esta casa numa casa museu - digolhe convencida da utilidade da minha sugestão. - Um museu de livros, Alice?! Para quem?

Alunos da Margarida Amado

“Esta professora foi sem dúvida uma das melhores professoras que eu tive durante o meu tempo de escola até ao 12º ano. Procurava sempre arranjar explicações de maneiras diferentes e dava tudo de si para ajudar os alunos com dúvidas ou dificuldades.” (André Lopes) “Uma professora incrível, amável, respeitosa, que me ajudou bastante. Aprendi muito com ela não só da língua portuguesa mas de quase tudo. Aprendi a lutar pelos meus sonhos e a acreditar mais em mim.” (Olivith Jorge) “Ela era a melhor professora do 10ºano. Explicava tudo muito bem. Não passava à frente até a gente perceber tudo.” (Ravdeep Kaur) “(…) uma professora excelente, muito boa profissional. Dava aulas com paixão, eu sentia essa paixão vinda da professora. Obrigada por fazer do português uma língua única.” (Andreia) “Se a saudade matasse estávamos todos mortos pois a professora Margarida foi uma professora que nos marcou imenso pela positiva.” (Vânia Costa) “Obrigada professora por ser a pessoa que é, pois sem si teria sido impossível muita coisa.” (Mariana Salvado)

“A professora Margarida, para além de ser uma excelente professora, é uma ótima pessoa! Não deixa ninguém ficar para trás, e tenta sempre que sejamos melhores a todos os níveis, mas em especial em português! “ (Jéssica Pedro) A professora Margarida Amado é provavelmente uma das pessoas com mais conhecimentos e cultura que conheci até hoje. Não se preocupava apenas que a matéria estivesse dada, mas sim que os alunos a compreendessem; "inovadora" pois realizei muitas atividades nas aulas diferentes do habitual, por exemplo debates sobre temas da atualidade. (André Figueiredo) “Uma pessoa espetacular, uma professora atenta. (…) Um exemplo da sua profissão.” (Sandrina Neto) “(…) após ter umas aulas com a professora percebi que nós portugueses deveríamos era dar-nos por sortudos por possuirmos uma língua tão exemplar e tão magnífica.(…) vou ter saudades daquelas explicações, da sua sabedoria e acima de tudo vou ter saudades da professora exemplar e claro um grande exemplo de mulher. Portanto desejo que aproveite bem a vida e tenha um futuro radioso. (David Carlos)


MARGARIDA À LA MINUTE

Um retrato quase impossível! Feito da teimosia da fotógrafa contra a resistência da modelo ATRIZ

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PALAVRAS PARA TI, MARGARIDA Há professores que passam pela escola sem deixar rasto e há “professores/as que nunca esquecem”. A Margarida Amado é uma destas. Não só porque a maior parte da sua vida profissional foi passada nesta escola, mas também porque esteve nela com dedicação, determinação, disponibilidade e muitos outros substantivos que poderíamos usar para caracterizar a sua forma de estar. Colegas que trabalharam com ela juntam-se à equipa do P&V nesta edição de dezembro, em que lhe dedicamos algumas páginas. Dos mais de trinta anos de trabalho como colega da professora Margarida Amado, recordo sobretudo a dedicação e serena determinação com que abraçou a profissão e enfrentou os desafios de que a mesma é feita. Por isso mesmo continua a ser uma mais-valia para a Escola Calazans Duarte, para aqueles com quem trabalhou e para os que tiveram o privilégio de a ter como professora. O seu contributo far-se-á sentir durante muito tempo, pela solidez da formação que proporcionou aos seus alunos e pela disponibilidade e afabilidade com que sempre acolheu os que lhe solicitaram colaboração. Expresso o meu agradecimento pelo que me permitiu aprender ao longo destes anos. (Alberto Cascalho) No início dos anos 90, durante as Jornadas Culturais, na nossa Biblioteca (hoje sala de professores, a do café!) um grupo de alunos da Margarida disse poesia escrita e musicada por eles. Coisas feitas nas aulas. E na Oficina de Escrita, disciplina de oferta da escola, proposta e organizada por ela, os alunos escreviam e nós líamos. De que outra maneira aprender? Sem fazer!? dizia-nos. Recentemente, as paredes dos

corredores da escola encheram-se de prosa, dos alunos. Fui lendo e digerindo, falam das suas histórias, emoções, dramas e … dos avós, quem diria? Tantas coisas que pudemos saber acerca dos jovens que vemos todos os dias. Apesar de sermos raparigas da mesma idade, dava por mim a pensar: quando for grande quero ser como ela. É uma inspiração. E uma companheira, que nos empresta livros. Com o último, A Gorda, de Isabela Figueiredo, chorei e ri, culpei-me e redimi-me. Tão bom, quando me sinto a ficar mais indiferente. Obrigada. (Manuela Pires) Que dizer sobre a colega e amiga Margarida? Sentir-se-á constrangida com elogios, embora merecidos, e dirá «Ainda não morri!» e «Não sou Camões!». Assim, para disfarçar o indisfarçável, que também não se deve, começo por lembrar o que ganhei com a Margarida, a sorte que tive por ter encontrado a pessoa com quem aprendi muito, a colega que fazia questão de dar, de partilhar, de criar, de inovar, de entusiasmar e de desassossegar, no bom sentido, e, não menos importante, a amiga, por isso, a minha admiração e gratidão. Cedo, vi nela o brilho das pessoas diferentes, de pessoas de/com sabedoria e de/com grande humanismo, que não deixam ninguém indiferente. Hoje, lamento que não esteja ainda aqui, mas estou certa de que saberá ganhar com o que “perde”, depois de tantos anos de trabalho, de entrega a esta escola. Para concluir esta singela homenagem à Margarida, ocorre-me uma frase de SaintExupéry «A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar». (Ana Paula Santos) Dei comigo a pensar: “Sou mesmo cretina! Impus aos colegas um limite de palavras sobre a

Margarida, alegadamente por razões editoriais, e agora eu mesma não sei como hei-de respeitar esta imposição.” Já escrevi 3 textos diferentes, com títulos enganadores (Três coisas que eu aprendi com a Margarida/ Três coisas que eu invejo na Margarida/ Três coisas da Margarida que fazem a diferença). Veio-me este número três como limite auto-imposto, já que eu, como muitos sabem, não sou mulher de poucas palavras! E pus-me a escrever. Mas, quando dei por mim, cada texto já tinha duas páginas e que remédio tive se não “guardá-los na gaveta”. Quem sabe, talvez possa publicá-los num livro de memórias! Vou escrever agora o que me vier à cabeça e esperar que “não me chumbem” o texto, se ultrapassar o limite de palavras. A Margarida levou-me para o Movimento da Escola Moderna e isso fez de mim uma professora. A Margarida ensinou-me a ler Saramago, com a História do Cerco de Lisboa, e fez de mim uma leitora compulsiva de literatura portuguesa. A Margarida tem o discurso mais lúcido que tive oportunidade de ouvir e ler sobre o acordo ortográfico. O seu texto, que publicamos numa edição de 2017 do P&V, é tão supremamente melhor do que os dos detratores do acordo todos juntos, que o enviei ao Pacheco Pereira e até hoje estou à espera que ele o contradiga! A Margarida tem uma serenidade tal, que lhe disse centenas de vezes “tenho cá uma inveja de ti”! A Margarida, que me retribuía sempre com a sua inveja do meu “deslumbramento”, é o espírito mais esclarecido que conheci no debate de ideias. Nunca consegui, em qualquer polémica, sustentar uma ideia contrária à dela. Sair vencida desses debates foi um dos motores do meu progresso intelectual. Fazes-me falta, Margarida! (Alice Marques)

TODOS A APRECIAM “A ÚLTIMA EDIÇÃO” P&V

caraterística: “atenciosa”. A Dina Ferreira não regateia as palavras: “amiga de toda a gente, pessoa que sabe o que faz; toda a gente gosta dela, nunca ouvi ninguém apontar-lhe defeitos”. Regina Estreito reformou-se há vários anos mas fez questão colaborar nesta “sondagem”: “passei por várias direções, mas a professora Margarida foi a mais humana. Também trabalhei com ela na passagem da biblioteca a mediateca, foi um trabalho maravilhoso. Nós duas ainda não trabalhávamos muito bem com os computadores e ela tinha toda a paciência do mundo. É uma pessoa excecional.”

Variam os adjetivos. Mas todos traduzem apreço pela professora Margarida Amado. Ainda estão na Calazans Duarte várias funcionárias e um funcionário que a conheceram na direção da escola. Adolfo Gomes, “o senhor Adolfo”, é o mais antigo e expressa assim a sua opinião sobre ela: “Impecável, do melhor que há”. Maria José Lopes, “ a Maria José” conhece-a desde que ela foi presidente do Conselho Executivo e define-a assim: “calma, responsável, empenhada”. “Uma pessoa excecional, muito paciente, muito dedicada”, são os adjetivos da Teresa Silva, da mediateca. Célia Estreito aponta outra

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Certo dia, ao conhecer uma mulher chamada Adelaide, Calisto descobriu que nunca havia amado de verdade. Mas Adelaide não quis se relacionar com um homem casado. Logo depois, ele conhece a jovem viúva do general Ponce de Leão. A moça, uma brasileira, era loira, tinha cerca de trinta anos e foi atrás de Calisto para conseguir uma


MARGARIDA E A ESCOLA DAS UTOPIAS Jorge Carreira Alves Já lhe estou a ouvir a réplica incisiva e arguta, quando ler estes textos que lhe são dedicados e que demonstram a gratidão de toda uma escola por estes muito mais de trinta anos de vivências partilhadas: “Até parece que já morri, para me estarem a fazer estas homenagens!” Foi com este espírito rebelde, inconformista e desafiador que conheci Margarida, regressada a esta escola, quando se exigiam urgentes mudanças, para que esta instituição marinhense se retirasse do marasmo em que se encontrava, que a fazia assemelhar-se a uma escola do antigo regime, tal a formalidade e antiguidade dos modos em que vivia. Assim, o eleger-se um Conselho Diretivo presidido por esta colega foi sinónimo de grande esperança e abertura, para que se criasse uma nova forma de entender a Escola, mais participativa, mais democrática e mais

verdadeira. No entanto, não foi só no seu cargo diretivo que Margarida deixou a sua marca de espírito livre e inovador: também como delegada de grupo, como orientadora pedagógica, como simples colega que partilhava e discutia as suas ideias, demonstrou o quanto a Escola poderia ser diferente: mais alegre, mais criativa e mais desafiante. Lembra-me, a título de exemplo, uma atividade que dinamizou com outros colegas mais novos do grupo de Português, em que se desafiava todo o corpo docente da escola a tomar consciência de que todos os professores, independentemente da área que lecionem, são professores de Português, devendo-se preocupar com a correção dos enunciados escritos dos seus alunos. Neste âmbito, ao longo de um ano letivo, todos os colegas da escola foram convidados a participar em diferentes iniciativas, o que animou bastante esse já longínquo ano letivo de finais de 80. Recordo

também as experiências inovadoras que as sessões do Movimento de Escola Moderna, “MEM” nos proporcionaram, tendo sido Margarida uma das suas principais animadoras. Por fim, não queria deixar esquecida uma atividade que nos levou à Universidade de Coimbra em que Margarida e Isabel Rocha demonstraram como o Português, mais propriamente a literatura portuguesa, se pode relacionar com a matemática. Se há marcas que Margarida deixou nesta escola e se há ensinamentos que não poderemos perder são este espírito de abertura, esta criatividade e a certeza de que a Escola é algo que não pode cair num marasmo castrador e obscurantista, pois, só assim conseguirá prosseguir no seu caminho de formar melhores cidadãos, com valores mais humanistas e com a abertura de espírito que permita uma perfeita integração e aceitação de todos.

AS MINHAS MEMÓRIAS DO NATAL NA UCRÂNIA Anastasia Khimich

Bem, aqui estou eu aescrever um texto sobre as minhas memórias do Natal na Ucrânia. Vivi na capital histórica do meu país, em KamianetsPodilskyi. Uma cidade muito magnífica que no inverno fica coberta de neve. Enquanto escrevo isto, deambulo no passado, recordando-me de coisas que vivi e senti quando era criança. O Natal sempre teve aquela magia, aquele brilho especial de quando eu era pequena e tinha a família toda reunida em volta da mesa, enquanto lá fora a neve ia cobrindo tudo com um manto branco. Sempre foi a minha altura favorita do ano. Escrevo isto, porque relembro-me das coisas que vivi, vi e senti. O mais fascinante daquele tempo é poder recordar-me como felizes éramos nessa época, das piadas contadas à mesa, de ver os meus bisavós a brilharem de alegria, da minha mãe e dos meus tios, na cozinha, a ajudarem a minha bisavó a preparar o jantar, de estar sentada no colo do meu bisavô e ouvir aquelas fantásticas histórias que ele me contava, de ir andar de esqui com a minha vizinha e chegar a casa muito animada. Lembro-me de mim, uma

menina magra, loira, de olhos azuis que andava a correr pela casa, cheia de euforia, aguardando a noite chegar. Lembro-me de todas estas simples atividades que trazem uma profunda felicidade. É tão bom passar o Natal com a família toda reunida à volta de uma mesa redonda num jantar tão encantador. Poder viver esse momento no qual as emoções reinavam e que ficaram e ficarão guardadas na minha memória. E como é bom evocá-las, agora, que sou uma jovem de 17 anos. É tão bom ser criança e ser feliz. Essa inocência é tão bela! Tão bela como o Natal na minha terra. A terra onde nasci, cresci e vivi. A terra onde aprendi a ser quem sou. Onde me tornei uma adolescente com muitos objetivos para alcançar, cheia de vontade de conhecer o mundo exterior, conhecer culturas diferentes, expandir o meu conhecimento. Sobretudo, crescer como pessoa, para, futuramente, tornar-me numa mulher forte e independente, com os seus princípios. Nunca esquecerei esses momentos fantásticos que experienciei com a minha família. E hoje sou o reflexo das experiências vividas.

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RECEITAS DE NATAL

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Receita do Natal na Ucrânia: Kutiá – Kутя

Hallaca

ingredientes: • Trigo (descascado) - 150 g • Papoila - 50 g • Açúcar - 50 g • Nozes (picadas) - 80 g • Mel - 50 g • Uva-passa- 50 g

Um dos pratos mais reconhecidos e elaborados que é apresentado na culinária venezuelana é sem dúvida a hallaca. Este é o mais tradicional dos pratos de Natal na Venezuela. Tem origem em África, na época da colonização. Com o passardos anos, as caraterísticas das diferentes gastronomias - africana, espanhola e nativa venezuelana, misturaram-se criando pratos como a hallaca. Consiste em uma massa feita de farinha de milho temperada com caldo de galinha, recheada com um guisado de carne, porco e/ ou frango. Também são adicionadas azeitonas, passas, alcaparras, paprika e cebolas. São envoltas, em forma rectangular, em folhas de bananeira, para finalmente serem amarradas com pavio e fervidas em água. Tendo um processo muito complexo e elaborado, as hallacas não são só um prato muito tradicional no meu país, são também um símbolo de união. Em dezembro costumam fazer-sereuniões familiares nas quais a família prepara as famosas e deliciosas hallacas para o jantar de Natal. Outro dos pratos típicos, sendo mais um acompanhamento, é o Pão de fiambre. Data do início do século XX, sendo um prato típico da Venezuela e também faz parte da gastronomia do Natal do país. É um pão com recheio de fiambre, bacon, passas, azeitonas verdes e, em geral, com pimentos vermelhos. Estes pratos são acompanhados pelo Ponche de crema, uma bebida alcoólica feita à base de açúcar, álcool etílico, ovos e leite. Tem um caráter um pouco doce e para os pequenos existem versões sem álcool. Sendo um país sul-americano, encontramos uma variedade enorme na gastronomia venezuelana, cheia de sabores exóticos, inigualáveis. Sofia Puglieeli

Preparação: • Lave bem o trigo • Despeje em água fria e cozinhe até estar pronto, em lume baixo Enquanto o trigo é cozido prepare outros ingredientes: • Ferva a chaleira. • Lave a papoila com água fria • De seguida, já lavadas as sementes de papoila, ponha-as dentro de um prato fundo com água fervente durante meia hora;depois escorra a água. • Uva-passa- ponha dentro de água fervente durante5 minutos, depois escorra a água. • Corte as nozes. •Agite as sementes de papoila com açúcar em um liquidificador para fazer suco de papoila. • Misture todos os ingredientes, adicione mel, açúcar, nozes e papoila ao seu gosto. • Misture bem e adicione água fervida • Misture novamente e o prato está pronto. Tão doce como as autoras: InnaKrzheminska e AnastasiaKhimich

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Bacalhau dourado em cama de grelos salteados, ao alho,batata doce e escalivada à espanhola. Ingredientes: 4 batatas doce 2 cebolas 1 pimento vermelho 2 dentes de alho 4 postas de bacalhau 500g grelos Manteiga q.b Vinagreq.b Salsa q.b Pimenta q.b Azeite q.b Preparação 1- cozer o bacalhau em água 2- cortar as batatas em rodelas e fritá-las 3- cozer os grelos 4- bringir os grelos 5- cortar as cebolas e os pimentos em rodelas e tiras finas. Confecção Depois de cozer o bacalhau coloque-o numa frigideira bem quente com um pouco de azeite e alho com a pele virada para baixo até ficar dourada. Acrescente os grelos à preparação, até ficarem com o gosto do azeite e dos alhos, e retirar. Na mesma frigideira colocar um fio de azeite e alho com a cebola e o pimento até ficar translúcido finalizando com um pouco de vinagre e manteiga a gosto. Montar o prato como sugere a imagem e finalizar com salsa. Bom apetite! Tiago Almeida


QUEM SOU EU? Vitalina Shamrai

Quem sou eu? Vitalina Shamrai, 10 anos, ucraniana, em Portugal desde abril de 2015. Recordo-me … … de que vivia numa casa grande e andei no infantário... … de que tinha um cão e um gato… … de brincadeiras com as minhas amigas em que nos ríamos muito…à frente da minha casa, fazíamos desfiles com roupas das mães e até “parti” os sapatos da minha mãe…as pessoas que passavam na estrada, viam-nos…era muito divertido… … da minha mãe ensinar música no infantário (canto e piano) e trabalhar numa loja… … de, depois das aulas, a minha mãe me ir buscar de carro e de me levar para a loja onde eu fazia os trabalhos de casa… … de no primeiro e no segundo ano, no início das aulas,termos que vestir roupas iguais… as raparigas usavam blusa e saia preta, collants

brancos e enfeites brancos no cabelo…os rapazes vestiam camisa, calças e sapatos pretos… … de que tinha Trabalhos Manuais, Língua Ucraniana, Matemática, Inglês, História, Educação Física e uma disciplina parecida com Estudo do Meio… Todas as disciplinas eram dadas pela mesma professora… …do frio, da neve…de cair na neve, de andar de trenó… a minha mãe empurrava-me… … do meu prato preferido-carne com massa… …de vir para o 3ºano, em abril de 2015…para a escola de Picassinos… de só saber dizer “Olá!” e “Ciao”…Não sabia mais nada… …de ficar assustada, porque a escola tinha gradeamento e na Ucrânia, não… … de ser muito bem recebida… Agora, vivo em Portugal e estou muito feliz!!!!!! … Adoro cantar, dançar, saltitar!!!!... …Ah! E adoro desenhar!!!!!!

PILHA OU LANTERNA? Um apontamento sobre a interculturalidade José d’Encarnação ‒ Olá! Queria uma pilha! ‒ Uma pilha ou uma lanterna? – retorquiu a minha vizinha chinesa, que há bastante tempo se encontra em Portugal. Claro: dei-lhe os parabéns e agradeci a lição; de facto, eu queria era uma lanterna. De regresso a casa, pensei como tinha sido agradável essa correcção, pelo que significava, de facto: a integração plena, ou quase, de alguém que vem do Extremo Oriente e que não hesita em aprofundar os seus conhecimentos linguísticos, para melhor se sentir no ambiente que a recebeu. Foi no passado dia 15 de Novembro que o Agrupamento de Escolas a cujo Conselho Geral pertenço fez a cerimónia de distribuição dos prémios para os melhores alunos e dos diplomas de mérito. Comentei, a dado momento, para um dos professores:

‒ Que nome estranho! ‒ É russa, está cá há três anos e é uma das melhores alunas, trabalha imenso! E os nomes ‘estranhos’ foram-se sucedendo na sessão, sempre muito aplaudidos pelos companheiros, a denunciar um relacionamento invejável. Dois dos meus netos frequentam, este ano, uma escola dos arredores de Londres. Logo na segunda semana, a professora pediu ao Marco que ensinasse aos colegas (na escola há-os de 40 nacionalidades e professores de 17!...) como se dizia em português isto e aquilo, objectos em uso na sala de aula. E ainda não tinha passado um mês de actividades escolares e já se programava o dia internacional, em que cada família preparava um prato típico do seu país e o disponibilizava à comunidade escolar, em total confraternização. Fui docente na Universidade Lusófona e tive

ocasião de preparar com um colega, a 20-012012, o Seminário «Ambiente e Património… Ao Encontro de Culturas». E foi mui agradável de ver estudantes das mais diversas origens partilharem costumes, gastronomia e até o património paisagístico da sua terra. Fez-me lembrar os anos em que estive como coordenador do Programa ERASMUS / SOCRATES, onde a comunhão de culturas e de línguas constituía elo primordial. No contacto com o Outro, acabamos por nos enriquecer, no sentir pleno de que a Cultura se faz da amálgama de muitas culturas, cuja identidade, não obstante, se mantém – qual manta de retalhos, onde cada pedacinho de pano, com o seu colorido e o seu desenho, contribui para a real beleza do conjunto!


EU VIM DE LONGE... “Não descarto a ideia de estudar e trabalhar em Portugal”

Sofia Alexandra Puglielli Cristóvão, 15 anos, natural de Lecheria, estado de Anzoategui (Venezuela), frequenta, desde o ano letivo 2017/2018,o curso Línguas e Humanidades na escola secundária Calazans Duarte. É a entrevistada desta edição do P&V, que dedicamos à Venezuela e à Ucrânia.

AnastasiaKhimich: Quando é que chegaste a Portugal? Sofia Alexandra: 11 de Janeiro de 2017. AK: Não foste logo para a escola? SA: Eu estive a estudar no último ano escolar (9º) na minha escola anterior, pela internet. AK: Porque vieste para a Marinha Grande? SA: Porque já tenho família cá, os meus avós. A minha avó materna é daqui e tenho aqui os meus tios e primos. AK: Porque escolheste o curso de Línguas e Humanidades? SA: Porque gosto das línguas e sinto-me mais a gosto com estas áreas. AK: Tens saudades do teu país? SA: Sim, é diferente de Portugal. AK: Já voltaste à tua terra desde que estás em Portugal? SA: Ainda não fui, mas tenho planeado em ir. AK: Tens família lá? SA: Sim, tenho uma parte da família paterna, uns tios e umas primas. AK: Falas tão bem português… os teus pais são os dois Venezuelanos ou não? SA: Não, a minha mãe nasceu em Portugal, mas no tempo da ditadura teve de emigrar. Por isso, só viveu em Portugal durante 10 anos e depois foi com os meus avós para a Venezuela. AK: É por isso que falas tão bem português? SA: Na verdade, na Venezuela, a minha mãe, às vezes, falava comigo e eu até percebia, só que não era assim muito para falar. Quando vim para cá tive de ser mais puxada, por sobrevivência. E acho que é fácil, porque é muito parecido com o espanhol. AK: Qual foi a maior dificuldade que enfrentaste na escola? SA: É diferente no nível de estudo, diferente nível académico. Acho que em Portugal é mais exigente. AK: Como tens conseguido ultrapassar essa dificuldade? SA: Estou a esforçar-me mais, a estudar mais, a prestar mais atenção nas aulas e estudar com

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mais antecipação. AK: Há alguma disciplina que seja mais difícil para ti? SA: Português é muito mais difícil. Mas não é pela língua, é pela gramática e os temas que são estudados. Por exemplo, agora estamos a estudar poesia trovadoresca. AK: Tens amigos na turma? SA: Sim, a minha turma é muito amigável. Damo-nos muito bem! AK: E na escola? SA: Também. AK: Quantos alunos tem a tua turma? SA: Acho que… 30. É muito grande! AK: São maiores as turmas aqui ou na Venezuela? SA: É quase igual. Às vezes, são maiores lá. AK: Achas que os colegas te discriminam por seres estrangeira? SA: Não, na verdade, sinto-me bem! AK: As raparigas e os rapazes portugueses são diferentes dos do teu país? Em quê? SA: Têm algumas semelhanças. Mas lá são mais ativos. Têm aquele ar latino, que é diferente. AK: E os professores? SA: Também são parecidos com os de cá. Mas os de lá talvez não sejam tão dedicados ao

trabalho como os daqui. AK: Fora da escola, como ocupas o teu tempo? SA: Às vezes costumo estudar, para tentar nivelar o meu estudo. Também gosto de pintar e gosto muito de tirar fotografias. AK: Quais são as maiores diferenças entre a terra onde nasceste e a Marinha Grande? SA: O clima. A temperatura é muito diferente. Na Venezuela não há estações. Lá o clima é seco ou chuva. A temperatura mais baixa pode ser 16° graus e a mais quente 40° graus. Lá não há tantos pinhais, é mais praia, pelo menos no meu estado. AK: Quantos habitantes tem a tua cidade? SA: Acho que tem mais de 60 mil habitantes. É maior do que a Marinha Grande. AK: Pretendes continuar os estudos numa universidade portuguesa ou pensas ir trabalhar quando terminares o secundário? SA: Não sei, porque agora a situação no meu país de origem está muito complicada, está numa ditadura mais ao menos como a da Cuba. Por isso, depende de como tudo evoluir. Aqui os estudos são muito melhores, tenho de pensar no futuro. Não descarto a ideia de estudar e trabalhar em Portugal, acho que até é muito possível. Mas tenho uma meta que é conhecer o


mundo. Gostava de estudar num país estrangeiro, que eu não conheça e aprender outra língua. Por exemplo, gostava de estudar nos EUA ou na Inglaterra, mas ainda não sei. AK: A crise na Venezuela já se sente nos supermercados? SA: Muito! Já há gente a morrer de fome. Têm de tirar a comida do lixo. A Venezuela é um país agrícola, mas tem um problema de administração. Por isso, não está a plantar nada. A comida que chega ao país vem do Brasil e é de mais baixa qualidade. E chega a preços muito altos, é por esse motivo que a maioria da população não pode comprar. Os salários mínimos não dão para sobreviver. Há muito desemprego. AK: Quanto é que é o salário mínimo? SA: Agora não sei, porque tem estado a mudar. AK: É verdade que há falta de medicamentos? SA: Sim, há muita gente a morrer por causa disso. Não há antibióticos nem quimioterapia, porque esta é impossível de pagar. É muito deficiente e com custos muito elevados. Na verdade, tive de vir para Portugal, também, por causa desses assuntos médicos. AK: Achas que as pessoas se sentem inseguras? SA: Sim, não é como cá. Há muita insegurança. As pessoas não saem à rua depois das 20h. Não há recolher obrigatório, mas torna-se inseguro, não só na capital, mas quase em todo o lado.

AK: Conhecias portugueses que viviam na tua terra? SA: Sim, mas não da minha idade. Sobretudo, amigos da minha mãe. A maioria é da Madeira e dos Açores. AK: Essas pessoas… sabes se algumas já regressaram a Portugal? SA: Não sei, mas sei que há muita gente a voltar. A minha mãe falou-me de dois amigos dela que voltaram para a Madeira. AK: Também andaste nas manifestações contra o presidente? SA: Não, ainda sou nova. Houve muitas manifestações e até mortos e é por isso que a minha mãe não me deixava ir. É muito arriscado fazer isso! AK: Como é que se celebra Natal na tua terra? SA: Bem, com muita comida típica. Na Venezuela há muita variedade de pratos do Natal. Há uma espécie de massa que se chama “Hallaca”, é feita com farinha de milho. É um prato muito tradicional! Também se faz a árvore de natal. AK: Qual é o santo mais importante na Venezuela? SA: A Virgem Maria e tem uma história muito bonita. Venezuela é um país com muita costa e muita praia, por isso pesca-se muito. Existe uma história de um grupo de pescadores que ficaram perdidos e esta Virgem apareceu a tentar guiálos até à costa para poderem voltar para a casa.

Foi considerado um milagre, portanto agora é a virgem mais venerada. AK: A história da Venezuela que tu já estudaste, também incluía a chegada dos espanhóis? SA: Tudo. Estuda-se muito,mas sobretudo a independência. AK: Simão Bolivar é herói na tua terra? SA: Sim, agora com a ditadura é o nosso exemplo. A gente usa muito a imagem dele. É um libertador! No geral, é uma personagem muito importante! AK: Do que tu te apercebias na Venezuela, o descontentamento contra o governo do Nicolas Maduro era geral ou ainda havia pessoas que o apoiavam? SA: O governo do Maduro, o partido que se chama PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) é um partido comunista e só tem 15 anos na Venezuela. Na minha opinião, Maduro foi eleito porque ainda havia muita gente que acreditava naquele partido. Mas agora acho que só 10% da população acredita naquilo, não é suficiente para que ele volte a ganhar as eleições. Nós achávamos que Chávez era mau, mas Maduro não tem nada a ver, é muito pior! AK: Pretendes ficar em Portugal e arranjar aqui a tua própria família? SA: Não sei, ainda não consigo pensar nesse futuro.

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CHAMAR A MÚSICA Venezuela e Ucrânia, países musicalmente ricos

Karina, uma voz da Venezuela

Cynthia Karina Moreno Elías, de nome artístico Karina, 49 anos, é uma cantora e compositora venezuelana de pop latino. O seu primeiro disco, “Amor a Millón”, lançado em 1985, valeu-lhe um começo de carreira em grande, tendo chegado ao top 10 das tabelas de vendas no seu país. Foi, no entanto, com o segundo álbum, “Sin máscara”, dois anos mais tarde, que alcançou o sucesso internacionalmente, tornando-se artista

Embora a chamada música anglo-saxónica esteja atualmente presente no mundo inteiro, os países mantêm as suas músicas tradicionais, de raízes diversas, consoante a sua história. Venezuela e Ucrânia, que celebramos nesta edição do P&V, são dois países cuja riqueza musical inclui essa diversidade, como damos conta neste texto. A Venezuela, sendo um país tropical, possui, como os seus vizinhos, uma cultura musical associada ao seu clima. O estilo mais característico deste país é o Joropo. Este, assemelhando-se à valsa, possui um ritmo dançante, e é representada por artistas como Juan Vicente Torrealba e Ignacio Figueredo. A conhecida canção "Alma Llanera", que é considerada o hino nacional não oficial do país, é um joropo. Na Venezuela, são também típicos a salsa, o folk e o merengue. No entanto, o país abrange uma diversidade musical que vai muito

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consolidada no México, país este que viria a ser um dos mais importantes na carreira da cantora. Em 1989, com “Desde mi sueño”, deu um importante passo como artista, ao estrear-se como compositora num álbum que teve, também, muito sucesso. Venceu inúmeros prémios pela sua música na Venezuela, tendo ingressado, também, na carreira de atriz, participando em novelas e em musicais. Após mais alguns discos e várias pausas na carreira, em 2016, Karina voltou à música, lançando o seu mais recente álbum, intitulado “Tequila Y Rosas”. O ponto forte de Karina são, sobretudo, as famosas baladas pop latinas, e a cantora, ciente disso, apostou, de novo, neste tipo de canções para o novo trabalho. “Tequila Y Rosas” é um álbum coeso, composto por 12 faixas (uma delas um remix), de musicalidade muito diferente daquela que predomina, de momento, em Portugal, mas agradável de ouvir. O amor é o tema predominante do disco, abordado com muita paixão e intensidade, sendo que o idioma

cantado (espanhol) ressalta, ainda mais, todas as emoções. O single principal do álbum, “Por Quê Será”, é uma balada potente e bela que fica facilmente no ouvido, cuja letra é como um desabafo de todas as angústias que o amor provoca. A voz de Karina é, indubitavelmente, de uma potência surpreendente. A cantora possui um timbre escuro, encorpado, que agrada nas notas baixas e brilha ao máximo nos agudos. O seu alcance vocal é relativamente grande, comparando-se ao de cantoras de destaque norte-americanas. Karina consegue, também, sustentar notas muito eficazmente, caraterística esta muito importante no tipo de música que interpreta. Concluindo, Karina é uma cantora latina consagrada em vários países, nomeadamente na Venezuela e México, cujo último álbum mantém o nível dos seus trabalhos anteriores, possuindo uma voz potente e adequada às belas baladas de pop latino que canta de forma irrepreensível.

além dos ritmos quentes dos trópicos. Outros géneros musicais, vindos de fora, têm sido implementados no país, como o pop/rock (Ricardo Montaner, Kiara, Karina) e a música eletrónica. Existem, ainda, notáveis músicos e compositores clássicos venezuelanos, como o compositor Reynaldo Hahn e a prestigiada pianista Teresa Carreño. Alguns instrumentos característicos do país são a bandola e a maraca, de forte expressão na música típica. A Venezuela é, portanto, um país com musicalidade muito característica, ainda que tenha aberto portas para outros tipos de música, que se consolidaram no país.

peculiar de cantar, denominada “Білийголос” (voz branca), e instrumentos como o alaúde e o timbale. A cultura musical clássica ucraniana é, também, muito rica, destacando-se compositores como Kyrylo Stetsenko e Mykola Leontovych. Por fim, tem-se a música pop, que, influenciada pelos países ocidentais, é muito vasta. As cantoras pop ucranianas Tina Karol e Nataliia Mohylevska são algumas das representantes desde estilo musical no país. A Ucrânia possui, também, grande destaque no Festival da Eurovisão, no qual participou 14 vezes, tendo ganhado duas: em 2004, com a canção “Wild Dances”, interpretada por Ruslana, que combinava elementos folk ucranianos com pop e em 2016 com "1944", cantada por Jamala. Deste modo, conclui-se que a música ucraniana tem as vertentes tradicionais, clássicas e contemporâneas igualmente desenvolvidas, sendo, portanto, um país musicalmente rico.

A Ucrânia possui uma cultura musical incrivelmente variada, que é resultado da influência dos muitos grupos étnicos que passaram pelo país ao longo da sua história. Como tal, o país possui um grande legado de música tradicional/folk, com uma forma muito


PÉ DE DANÇA Venezuela e Ucrânia, países dançantes

Nesta edição irei mudar um bocado o conceito, pois irei escrever algo mais exclusivo, não tão abrangente. Diz-se que o mundo da dança é um país de maravilhas. Tal coisa pode dizer-se da Ucrânia pois lá se encontra uma quantidade inimaginável de bailarinos e de estilos. Por exemplo, na Ucrânia encontram-se grandes bailarinos de renome, ou seja, bailarinos que se destacam imenso no ramo da dança, como por exemplo, nas práticas de dança clássica. É o caso de Natalia Mikhailovna Dudinskaya, bailarina ucraniana de dança clássica. Nasceu a 21 de Agosto de 1912, em Kharkiv. Da sua vida profissional, vou destacar alguns momentos: Em 1931, matriculou-se na escola Kirov Ballet, sendo treinada por Agrippina Vanagova. Dançou como protagonista em todos os clássicos do Kirov Theatre, incluindo o bailado“Cinderella”. Mais tarde, dançou como protagonista na “Flames of Paris” e “Taras Bulba” de Boris Asafyevs. Foi mais conhecida em “Bayadere”, “Don Quixote” e “Laurencia”. Muitas vezes, fazia parceria com o famoso Vakhtang Chabukiani e, no final da sua carreia,

Na escola Calazans Duarte existem alunos de uma variedade de nacionalidades e nesta edição iremos falar nalgumas delas. Como esta coluna trata de dança, irei dar-vos a conhecer um pouco sobre danças destes países. Vamos começar pela Ucrânia. Neste país existem vários estilos de dança: Um dos mais tradicionais é o “Hopak”, proveniente da palavra “Hopati”, que significa “saltar”. Trata-se de uma dança para homens, visto que contém muitos saltos e acrobacias. A Ucrânia também é conhecida por ter um corpo de baile bem formado e bastante completo, com pas de deux e cenas em que todos os bailarinos estão presentes no palco; Este país já ganhou grandes prémios, tais como:

com Rudolf Nureyev, de 21 anos. Participou, também, em 1964, nos filmes do seu marido, Konstantin Sergeyev, fazendo o papel de Carabosse em “Sleeping Beauty”. Mas esta bailarina teve também vida pessoal, por sinal bastante atribulada. Em 1961, devido a estar frágil de saúde, teve de desistir da sua carreira de bailarina. Após a sua reforma, passou a ser a amante do Kirov Ballet e uma das mais famosas professoras do Instituto de Vaganova. Após a deserção (fuga) de Nureyev para o Ocidente, em 1961, Natalia e o seu marido foram submetidos a reprimendas pelas autoridades soviéticas, perdendo, assim, as posições da sua empresa após a deserção de Natalia Makarova, em 1970. Mesmo assim, Dudinskaya continuou a ensinar e a formar bailarinos, de que se destacam Anastasia Volochkoya e Ulyana Lopatkina. Natalia Dudinskaya ajudou o seu marido a organizar as suas produções de clássicos russos para fora da Rússia, aparecendo, nas décadas de 1980 e 1990, no Boston Ballet para trabalhar em “Giselle”, “Swan Lake”, “La Bayadere” e “La Corsaire”. Após 90 anos de uma vida plena de emoções, melodia e movimento, Natalia Dudinskaya faleceu a 29 de Janeiro de 2003, deixando para trás a sua história e as suas vivenças.

“Estrela de Ouro” (1960); “Dança Folclórica premiada no festival de Londres (1936), entre outros; Têm grandes companhias, quer de ballet, quer de danças tradicionais. Por exemplo: Kiev Ballet (fundada em 1937) e Virsky (fundada em 1867); Aqui encontramos também bastantes bailarinos de renome, ou seja, bastante famosos, tais como: Vaslav Nijinshy, Jan Vaña, Stanislav Olshanshy, entre outros. E o que há na dança na Venezuela? Como dança tradicional há o “Joropo”, que tem elementos semelhantes ao flamengo e tem raízes em ritmos europeus. Nesta dança está emitida a alma do povo do campo, representando assim as suas tradições, costumes

e quotidiano, de uma forma alegre e festiva. Lá existe também uma dança bastante popular, o merengue, dançada ao som de instrumentos tais como: saxofones, acordeões, trompetes e teclados, entre outros. A Venezuela também possui algumas escolas de dança, por exemplo “Danças Sol De Venezuela". Também encontramos alguns bailarinos famosos: Carlos Arraíz, Sheryl Rubio, Dominika Van Santen, entre muitos outros. Embora cada país apresente algumas semelhanças no que toca a “títulos” (dança, gastronomia, desporto, etc), cada um deles tem a sua maneira de o mostrar às pessoas/comunidade de outras nacionalidades e diferentes culturas.

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M... DE MULHERES Na história da humanidade sempre houve mulheres notáveis que ficaram esquecidas. A primeira tarefa para se alcançar a igualdade de género é darlhes visibilidade. Aqui ficam breves referências a algumas dessas mulheres, da Venezuela e da Ucrânia.

VENEZUELA

UCRÂNIA Governantes: Santa Olga, princesa de Kiev (nascimento – c. 889, Pskov, Rússia; falecimento – 11 de julho de 969, Kiev): primeira governante cristã do estado de Kiev Rus. Anne de Kyiv (nascimento – dados insuficientes, Kiev; falecimento – 05/09/1075, França): importante governante conhecida por ter oferecido um livro do Novo Testamento, escrito na antiga língua eslava de Kiev Rus, em cirílico, usado pelos reis franceses em juramentos até 1793.

Vanguardistas na luta pelos direitos femininos: Algeria Laya Mercedes Lopez (nascimento- 10/07/ 1926; falecimento –27/11/1997) Ativista dos direitos das mulheres, Argelia Laya foi a primeira mulher a falar abertamente do direito de uma mulher ter filhos fora do casamento. Por toda a Venezuela existem programas e políticas relacionadas com o seu nome. Protagonistas na arte: Teresa de La Parra (nascimento - 05/10/1889, Paris; falecimento – 23/04/1936 (46 anos), Madrid): conhecida por obras como Ifigenia e Memoria de Mama Blanca. María Teresa Carreño García (nascimento – 22/12/1853, Caracas; falecimento – 12/06/1917, Nova Iorque): notável compositora, pianista e cantora, conhecida como La Leona del Piano.

Protagonistas na arte: Marusia Churai (nascimento – 1625, Poltava; falecimento – 1653, Poltava): lendária cantora e poetisa ucraniana. Maria Adasovka (nascimento – 04/08/1854, Zankiv; falecimento – 04/10/1934 (74 anos), Kiev): proeminente atriz de teatro. Olha Kobylianska (nascimento – 27/11/1863, Roménia; falecimento – 21/03/1942, Ucrânia): notável escritora e membro ativo do movimento feminista. Solomiya Krushelnyska (nascimento – 23/09/1872, Biliavyntsi, Ucrânia; falecimento – 16/11/1952 (80 anos), Lviv, Ucrânia): notável cantora lírica do século XX.

Heroínas da independência: Luisa Cáceres Díaz de Arismendi (nascimento – 25/09/1799, Caracas; falecimento – 02/06/1866 (66 anos), Caracas): notável libertadora da regra espanhola. Josefa Camejo (nascimento – 18/05/1791, Paraguaná; falecimento – dados desconhecidos): considerada heroína nacional, tendo-se juntado à luta pela independência com 19 anos. Concepción Mariño (nascimento – 1790, Nueva Esparta; falecimento – 1854, Sucre): uma das principais lutadoras pela independência venezuelana. Juana Ramirez (nascimento – 12/01/1790, Caracas; falecimento – 1856, Monagas): lutou pela independência juntamente com grandes nomes de revolucionários; conhecida como La Avanzadora.

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Nadia Savchenko

Algeria Laya Mercedes Lopez

Heroínas da nação: Nadia Savchenko (nascimento – 11/05/1981 (36 anos), Kiev): pilota militar ucraniana membro da força multinacional do Iraque (2004), deputada e membro da delegação parlamentar da Ucrânia para a Assembleia Parlamentar do Conselho da União Europeia.


M... DE MULHERES A história é injusta

Sempre que se fala de História vêm à memória os templos coríntios da Antiguidade, as lendas fabulosas, os impérios ultramarinos, a glosa trovadoresca, as viagens náuticas, as guerras químicas ou as revoluções liberais, e esse extraordinário livro enciclopédico a que chamamos de História é encimado por graves nomes de heróis de guerra, príncipes da Igreja, capitães de frotas ditas invencíveis, fúlgidos artistas. E mesmo notando a tão larga lombada da História, muitos nomes ficam omissos nas entrelinhas, facto espantoso visto que muitos destes suprimidos e esquecidos nomes têm maior relevância e mais meritórios são de importância – e por isso, afirmo eu que «a História é injusta». E não é só por isto, analisando bem o objeto: se a guerra é injusta e parte da História é guerra, então parte da História é injusta – o argumento é sólido. E não querendo discutir Filosofia, a verdade das

premissas é irrefutável, inegável. Por isto, decido eu escrever para levantar a sem-razão e eclipse destes tão importantes personagens. Nascida a 23 de setembro de 1872, no principado da Galícia, na época localizado em território do Império Austro-Húngaro, na atual Ucrânia (Україна, em ucraniano), Solomiya foi uma cantora de ópera soprano, considerada uma das maiores vozes do teatro lírico do século XX. Solomiya nasceu na vila de Biliavyntsi numa família nobre. Vivia com o seu pai, Ambrosiy, com a sua mãe, Teodora Maria, com as suas cinco irmãs, Olga, Osypa, Hanna, Emilia e Maria, e dois irmãos, Antin e Volodymyr. As suas primeiras audições aconteceram em Ternopil, em 1883, onde se encontrava pela primeira vez em contacto com intelectuais seus contemporâneos. Em 1891, ingressou no conservatório de Lviv, onde estudaria sob tutela de Valery Wysocki. A sua carreira profissional começou em 1893, com apresentações adicionais no conservatório onde estudava, e a

partir daí receberam-na os grandes palcos de Odessa, Varsóvia, São Petersburgo, Paris, Nápoles, Alexandria e Roma. Em agosto de 1939, após a morte de seu marido, Solomiya retornou a casa em Lviv, cidade que se tornara uma importante fortaleza militar. De forma trágica, permaneceria presa nesta cidade durante o resto da vida, quando apenas algumas semanas após a sua chegada, entravam em conflito a Alemanha Nazi e a União Soviética para invadir a Polónia e dividir o seu território. Krushelnytska morreu a 16 de novembro de 1952 (com 80 anos) e posteriormente foi enterrada na cidade que a aprisionou durante 13 anos, Lviv. Brilhante cantora, Solomiya viveu uma vida fruto de uma carreira notável e deixou impressa a sua também notável marca na história da Ucrânia, tornando pelo menos de uma cor mais clara a negra mácula escura deste capítulo de uma História injusta.


LUZES, CÂMARA... AÇÃO Ucrânia e Venezuela: o cinema que resiste a Hollywood internacional. Venezuela e Ucrânia: dois países separados por milhares de quilómetros e um oceano, em hemisférios diferentes. Distintos e com culturas diferentes, sendo que a 7ªarte não foge a isso. Infelizmente, o cinema nacional não é muito relevante nestes países.Existe, claro, mas acaba por ter, à mesma,muita influência de Hollywood. Os filmes nacionais representam apenas 3% a 4% daqueles que passam nas salas, revelando-se uma pequena minoria em relação a filmes estrangeiros. Situação esta bastante semelhante ao que se passa em Portugal e com os filmes portugueses, que, infelizmente, também são poucos. Como é óbvio, a cultura americana consegue sobrepor-se a outras através da globalização das várias artes no mundo, como a música, a dança, a televisão e, claro, o cinema. Apesar disso, a cultura de um país não se extingue pura e simplesmente: existe, mas no seio da nação e na identidade das pessoas originárias desse local. Portanto, o cinema na Ucrânia e na Venezuela vive e permanece nesse meio modesto, apesar de alguns filmes conseguirem participar em muitos festivais de cinema por todo o mundo e ficarem, por isso, reconhecidos internacionalmente. Assim sendo, destacam-se,também,várias personalidades destas nacionalidades que conseguem fazer furor e deixar marca no cinema

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Da Ucrânia destacam-se, do sexo feminino: Milla Jovovich, famosa atriz conhecida por participar em filmes como “O Quinto Elemento”, de Luc Besson (pelo qual foi nomeada para alguns prémios) e ser a protagonista da saga “Resident Evil”, baseada na franquia de videojogos de ficção cientifica (que, por sinal, já vai na sua sexta longa-metragem), eOlga Kurylenko, que iniciou a carreira com sucessos como “Hitman – Agente 47” (2007) e, no ano seguinte, na franquia “007” no filme “Quantum of Solace”, tendo participado, mais tarde,em filmes como “O Esquecido (2013)” ou “A promessa de uma vida” (2014), tendo,neste momento, muitos projetos em agenda. Além destas, temos o famoso ator (falecido) Jack Palance, que foi nomeado três vezes para Óscar de ator secundário e ganhou apenas à terceira nomeação, com o filme “City Slickers” (1991). Teve uma carreira recheada de grandes sucessos, tendo falecido aos 87 anos, em 2006. Contamos, também, com inúmeros realizadores ucranianos já falecidos que conseguiram deixar impacto no cinema internacional, como Roger Vadim (1928-2000), Yuri Iiyenko (1936-2010) e Aleksandr Dovjenko (1894-1956). Da Venezuela, temos Édgar Ramírez, ator que já participou em grandes produções de Hollywood, como Zero Dark Thirty (2012), Joy (2015), remake de Point Break (2015) e o filme inspirado no grande bestseller “A rapariga no comboio”

(2016). No entanto, foi pela mini-série “Carlos” (2010) que o ator foi nomeado para vários prémios, ganhando alguns como o César Award para melhor ator revelação. Em relação a realizadores, tem-se Lorenzo Vigas, que como seu primeiro filme,“Desde allá” (2015),conseguiu acumular inúmeras nomeações e ser premiado por algumas, como o Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Cinema de Veneza. Outro nome revelante é Mariana Rondón, que conseguiu, também, ser premiada pelo seu último filme “Pelo Malo” (2013), no festival de cinema de Sán Sebastian, ganhando a Concha de Oro. Assim, o cinema nestes dois países, embora seja limitado e pouco reconhecido, é único, original e inigualável, como todas as culturas o são. Cada um tem a sua individualidade, existindo a iniciativa, nestes povos, de assitir a filmes protagonizados e feitos pelos seus. Porém, existem certas produções e indivíduos desta bela indústria que conseguem ser reconhecidos internacionalmente pelo seu extradinário trabalho, não sendo preciso ser americano para fazer bom cinema. Link da imagem: https://www.theodysseyonline.com/international-films


LUZES, CÂMARA... AÇÃO Libertador, um herói real no cinema

Ultimamente, os heróis têm sido muito destacados no grande ecrã e também fora dele:nas séries de televisão e nos videojogos.Heróis ficionários, com poderes ousados, mas também heróis reais, pessoas que simplemente fizeram algo de grandioso e audaz. O cinema tem, por isso, trazido grandes histórias com notáveis protagonistas do passado, procurando inspirar as pessoas para o futuro sendo que, no filme venezuelano “Libertador” (The Libertator), se vê esta ideia bem presente. Simón Bolívar foi um grande herói venezuelano, que combateu contra o imperialismo espanhol instaurado na América do Sul, lutando pela indepêndencia das várias colónias e províncias ocupadas por Espanha,

ficando conhecido como “O libertador”. Deste modo, é considerado uma das figuras históricas mais importantes da América Latina, sendo, por isso, merecedor de um filme biográfico. Lançado em 2014, com uma produção conjunta entre Venezuela e Espanha, “Libertador”é um filme majestoso e arrebatador, assegurando, com uma certa subtileza, aquilo que era expetável. Uma história admirável, que, não sendo desenvolvida nos manuais escolares, é pouco conhecida deste lado do oceano atlântico. Só por isto, já vale a pena ver esta longa-metragem, com o intuito de se saber um pouco mais da história da América do Sul, raramente representada em filmes de Hollywood. Por outro lado, este filme dirigido por Alberto Arvelo consegue também ter uma bela e espantosa fotografia, mostrando magníficas paisagens e cenários naturais inimagináveis, que

dão um toque especial ao filme. Possui, também, uma banda sonora arrebatadora que encaixa perfeitamente nas cenas cinematográficas. Já para não falar da grande prestação de Edgar Ramírez,que, por conduzir grande parte do filme, entrega-se a cem por cento à personagem de Bólivar, intrepertando-a de forma espantosa. Em suma, “Libertador”é um filme que consegue surpeender pela positiva, através da história desconhecida em que se baseia e pelo esforço e técnica demonstrados.

Link da imagem: https://pixenario.com/resena-libertador-mas-grandepelicula-cine-venezolano/

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TEXTOS E AFINS Literatura venezuelana | AnnaAkhmátova

Como na maioria das colónias, a Espanha, país colonizador, teve uma grande influência na literatura venezuelana, uma vez que primeiros documentos escritos pelos conquistadores espanhóis datam a sua origem. De entre os autores venezuelanos, destacam-se Manuel Romero García, Miguel Otero Silva, ArturoUslarPietri, Andrés Eloy Blanco, Juan Vicente González, Andrés Belloe Rómulo Gallegos. Juan Vicente González é considerado o primeiro escritor romântico venezuelano no século XIX, inspirado no romantismo francês. Foi também um historiador e as suas biografias sobre personagens ilustres da história da Venezuela têm um grande destaque, evocando os princípios da independência do seu país numa prosa apaixonada.

Andrés Bello foium humanista, poeta, filósofo e educador, editor do jornal Gazeta de Caracas, o primeiro a ser impresso na Venezuela, sendo uma grande influência do neoclassicismo hispânico. Foi o principal redator do Código Civil do Chile, uma das mais importantes obras jurídicas da América latina no seu tempo. Desde 1948 é entregue o prémio nacional de literatura da Venezuela, pela fundação Casa delArtista e desde 1967, é entregue o Prémio Internacional de Novela Rómulo Gallegos, criado com o intuito de promover a literatura em castelhano. Entre as obras premiadas, encontram-se “La casa verde”, de Mario Vargas Llosa (Peru), “Cienaños de soledad” e “Terra nostra”, de Carlos Fuentes (México). A literatura venezuelana é deveras interessante, na medida em que retrata uma realidade a que

Anna Akhmátova, com o nome de Anna Gorenko, nasceu em Odessa, na Ucrânia, dia 23 de junho de 1889. A sua paixão pela poesia sempre esteve presente, o que não agradava ao progenitor masculino, o que obrigou a escritora a adotar o pseudónimo Anna Akhmátova (apelido da bisavó materna).Ingressou na escola de Direito em Kiev e, três anos depois, casou-se com Nikolai Gumliev, também poeta. Em 1912, o primeiro livro de Anna foi publicado e, posteriormente, o casal tornou-se líder do Acmeísmo – movimento literário russo que defendia o verso cuidadosamente construído. Anos mais tarde, começou a fazer crítica literária e tradução e entrou no Sindicato de Escritores. Contudo, a 2ª Guerra Mundial fez com que fosse banida do Sindicato e sua poesia proibida. Morreu em 1966, em Leninegrado. De entre as suas obras destacam-se inúmeros poemas, de entre os quais constam Requiem, um poema reflexivo sobre o sofrimento da população face ao terror do estalinismo. Esta belíssima obra consiste num conjunto de dez pequenos poemas e uma introdução em prosa. Esta introdução retrata a espera de Anna, durante meses a fio, à porta da prisão de

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os cidadãos da Europa não estão habituados. Porém, toda a literatura tem o seu esplendor e o seu caráter único, não sendo a venezuelana um caso à parte. É importante ter-se um conhecimento abrangente do mundo, e a literatura é uma das melhores formas de o fazer.

Leninegrado, juntamente com muitas outras mulheres, com o intuito de poder ver os seus entes queridos do sexo masculino, presos pela polícia secreta russa. Já o primeiro poema é uma reflexão da prisão de seu terceiro marido, Nikolay Punin e os restantes nove representam a agonia de uma mãe cujo filho, Lev Gumilev, foi preso pela polícia secreta (1938) com apenas vinte e seis anos. Akhmátova universaliza a sua dor, comum a milhões de russos, falando tanto na primeira como na terceira pessoa. Contudo, devido aos tempos ditatoriais em que se vivia na altura da escrita deste poema, o mesmo só foi publicado em 1963, vinte e três anos após ter sido concebido, só vindo a ser conhecido na União Soviética posteriormente ao seu fim, em 1987. Assim sendo, esta brilhante escritora, apesar de toda a opressão que sofreu no regime de Estaline, continuou a escrever, sendo, atualmente, considerada uma uma das melhores e mais importantes poetisas do século XX. Esta ilustre figura histórica é um excelente exemplo de força e determinação, tendo sempre perseguido os seus sonhos, mesmo com todas as adversidades que a vida lhe reservou.


SÉCULO XXI Venezuela, um país lutando pela liberdade!

Venezuela! Um país rico em diferentes aspetos como o turismo, a agricultura, o petróleo e a biodiversidade; um pais cujo potencial tem sido perdido pela má administração de um governo que, com o passar de 18 anos, se tem convertido numa ditadura onde o povo morre de fome nas ruas ao mesmo tempo que os políticos vivem os luxos de um estilo de vida perfeito. Atualmente o país esta a sofrer uma crise: económica, social e política, encontrando-se em bancarrota. A moeda tem um valor cada vez mais baixo, os preços são cada vez mais altos e os salários são cada vez mais pequenos. Há de tomar-se em conta o facto de não haver comida, por o país não estar a produzir e os produtos importados são impagáveis. Produtos indispensáveis como o sabonete ou o papel higiénico, alimentos como a farinha ou o leite, são escassos ou a preços inacessíveis para a maioria dos habitantes. O povo venezuelano precisa de fazer horas de fila uma vez por semana à espera para comprar produtos que raramente chegam aos supermercados e que, quando chegam, possuem muita má qualidade e preços muito altos.

Os medicamentos e os materiais médicos são cada vez mais escassos e custosos. Os laboratórios produzem cada vez menos e os produtos importados são inacessíveis para a maioria do povo. Além disso, a Venezuela é atualmente considerada capital do crime, a insegurança temse apoderado das ruas, fazendo do país um dos mais perigosos, violentos e inseguros a nível internacional. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), “em 2015 tinham saído da Venezuela 606.281 pessoas”-(CNN).A taxa de emigração do país não deixa de aumentar. Os venezuelanos abandonam o seu lugar à procura de um melhor estilo de vida, emigrando, a maioria para países vizinhos, como Colômbia ou Panamá. Um país antigamente formado, na sua maior parte, por imigrantes é atualmente um dos países americanos com maior taxa de emigração. As manifestações feitas pelo povo são respondidas de maneira agressiva por parte do estado, levando à morte pessoas inocentes que só se manifestavam reclamando pelos seus direitos como cidadãos de uma democracia. Jovens lutando pelo seu futuro, um futuro no

seu país onde possam viver sem medo de não ter que comer no dia seguinte, um futuro onde os medicamentos estejam ao seu alcance, jovens que lutam por um pais seguro. Pessoas que lutam por uma Venezuela livre! Atualmente as manifestações têm-se acalmado; o estado tem aplicado força e leis que proíbem estes atos de “rebeldia”;no entanto, é só uma questão de tempo para que o povo não suporte mais. Dia a dia morre gente no meu país, seja de fome, seja lutando pelos seus direitos, seja pela falta de medicamentos e tratamentos ou assassinados nas ruas, por um telemóvel ou um relógio. É triste pensar no facto de que um país tão rico e com tanto potencial como a Venezuela esteja nesta condição. Os venezuelanos não perderam a fé de que, através da luta,a Venezuela voltará a ser um país próspero, como já foi no passado.Não se perde a esperança de que isto ficará gravado na nossa história como algo que representou a força de uma população unida pelo amor à sua terra.

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HOJE FAZ ANOS Será o natal sempre a 25 de dezembro?

Nesta edição escrevo sobre tradições da época natalícia na Venezuela e na Ucrânia, pois é bastante interessante apreciar as diferenças culturais. Natal é uma época festejada no mundo inteiro e, como é óbvio, a Venezuela, um país católico, não fica de fora. Neste país, é celebrada ao som de Aguinaldos, uma música tradicional geralmente cantada em frente à árvore de Natal, e nas “Missas do Aguinaldos”, rituais litúrgicos que se comemoram do dia 16 até ao dia 24 de dezembro. E, tal como em Portugal o Natal é acompanhado com o típico Bacalhau com Couves, na Venezuela o que enche o estômago é a tradicional Hallaca, para os portugueses vista como uma espécie de crepe enrolado, ou pastel que tem como componentes a massa, embrulhada em folha de bananeira recheada com um guisado, que de pessoa para pessoa

pode modificar os seus ingredientes apesar de a sua base ser a carne e temperos diversos, como vinagre, alho, cebolas e tomates. Agora a parte melhor: os doces. O mais conhecido e típico de Natal é a torta preta, uma espécie de bolo rei, pelo que percebi, pois leva bastantes frutos secos na massa, ainda que não tenha muito a ver, pois essa é a sua única coisa em comum, visto que o resto não tem quaisquer semelhanças com o bolo típico português. Também uma tradição um pouco bizarra é que é costume as pessoas, possivelmente as mais jovens, irem de patins para a missa do “galo”. A Ucrânia, onde predomina a religião cristã ortodoxa, é mais um dos países que soleniza o nascimento de Jesus Cristo, tal como a Venezuela e Portugal, mas com a diferença de ser no dia 7 de janeiro, depois da passagem de ano, conhecido por natal ortodoxo, regulado

pelo antigo calendário cristão, que avança 13 dias em relação ao novo, chamado gregoriano. A família junta-se na noite do dia 6 para passar a ceia em comunhão, com as suas tradições, para a qual são cozinhados 12 pratos para simbolizar os 12 apóstolos, sendo o mais conhecido o Borstch que é uma sopa de beterraba, legumes, cogumelos, e só começam a comer quando for visível a primeira estrela no céu. Porém a troca de prendas, por que todas as crianças anseiam, é dia 6 de dezembro, dia de São Nicolau, que no ocidental foi substituído pelo Pai Natal que coloca as prendas no dia 25 de dezembro. Posso concluir que, para escrever este artigo, descobri tradições muito interessantes sobre os natais dos outros países, e que apesar de gostar das tradições portuguesas adoraria provar estas iguarias natalícias, pois o aspeto abre o apetite a qualquer um.

BOCA DE CENA Teatro da Resistência na Venezuela

Atualmente, com a crise que a Venezuela está a enfrentar, os seus cidadãos focam-se maioritariamente nas manifestações, deixando aspetos como a arte e a cultura de parte, embora as atividades artísticas também estejam a tratar este assunto. Mas esta ordem de prioridades traz baixa autoestima aos atores. Começa a questionar-se o propósito da arte e do teatro, e isso "revolta" as equipas que fazem acontecer a magia no palco.

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A crise política, social e económica na Venezuela trouxe ao de cima um movimento por parte das companhias de teatro venezuelanas. Na internet, a "revolta" apresenta-se sob a hashtag#TeatroDeLaResistencia (Teatro da Resistência). Este movimento tem como fundamento o teatro que se recusa a morrer, que resiste, apesar de todas as adversidades. Atualmente, os cidadãos continuam a achar o teatro inútil, mas apesar de todos os problemas que enfrenta, esta arte continuará a erguer-se

nos palcos. Muitos acham que a "resistência" não se faz nos palcos, mas sim nas ruas. Isto corrói os artistas e o espaço cénico, mas, com este movimento, os atores ganham um novo alento. Aliás, a grande motivação é quando o público fica a pensar na apresentação da peça. Quando a mensagem é passada, mesmo que só para uma pessoa, há uma recompensa, uma vitória.


SANTOS

OS PONTOS E AS VÍRGULAS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL Ser professora de Educação Especial

São normalmente duas as frases que oiço quando digo a minha profissão. “- Professora de Educação Especial? O que fazes exatamente?” “- Ah, isso é um grande desafio! Tens de trabalhar com casos complicados …” Existe efetivamente quem ainda não compreenda exatamente o que faz um professor de Educação Especial. Esta é uma atitude resultante da multiplicidade de papéis que os professores nesta área têm assumido dependendo das instituições/escolas onde estão inseridos; da sua base de formação e, em última instância, do perfil de cada um. Há, no entanto, como em todas as profissões, uma definição de funções comuns. Para corresponderem a todas estas preocupações e funções, são muitas vezes referidas como características essenciais à condição de professor de Educação Especial, ser: - flexível, para atender às diferentes solicitações; - otimista para desenvolver uma visão global positiva junto de professores e outros atores da comunidade educativa; - comunicativo, uma vez que se torna, muitas vezes, a ponte entre várias estruturas; - equilibrado emocionalmente, para assumir o seu papel e transmitir confiança aos outros para que estes também assumam o seu papel na inclusão; - persistente na busca de estratégias, capazes de ajudar os outros na ultrapassagem de obstáculos; - articulador e integrador, porque deve partilhar

NÓS

não só responsabilidades como tomadas de decisão; - empenhado para não se conformar com medidas ou tomadas de posição que servem para muitos, mas podem não servir para exceções. É o professor de Educação Especial que pode ajudar os professores do conselho de turma com ferramentas e estratégias que permitem ajudar o aluno no seu percurso. É o aliado para discutir, planear e orientar a intervenção mais adequada. Tem também um papel fundamental para explicitar à comunidade escolar não só o enquadramento legal, mas a filosofia subjacente nas necessidades educativas especiais para que todos os intervenientes usem uma linguagem universal e uma postura congruente. “Rigor” é uma palavra fundamental. Fundamental para definir, também, o que não é Educação Especial. Não é um espaço para explicações, não é uma sala de apoio às disciplinas, não é um professor de apoio sócioeducativo e não é o “médico de família” do Ministério da Educação que transpõe para um papel, em modo de medida educativa, as indicações do relatório médico do aluno. Cada alínea de cada medida educativa tem de ser pensada, repensada, especificada e nunca, nunca generalizada ou massificada. Os alunos não são rótulos. São nomes, vidas e personalidades diferentes que, para progredirem no seu percurso, têm de ser respeitados. Deste modo, a relação pedagógica com cada discente é, também ela, específica e única. É necessário atender às particularidades de cada um dos

PODEMOS

alunos, tratando-os como individualidades, respeitando a sua afetividade, os seus valores e as suas limitações. A construção de um clima de abertura propício à valorização, não só da vertente intelectual, mas também da vertente afetiva e ainda a criação de situações que lhes permitam desenvolver atitudes e hábitos positivos de relação e cooperação, contribuindo assim para o crescimento da sua maturidade cívica e sócioafetiva. Os pressupostos para a relação pedagógica estabelecida com os alunos devem ser a confiança e o respeito mútuos. Assim, é importante atender às suas dificuldades e anseios, mostrar disponibilidade para as suas solicitações, dentro e fora da sala de aula. De igual modo, integrar e valorizar as intervenções de cada aluno, criando situações que permitam desenvolver a segurança e a autoestima. O “reforço positivo” (sobretudo com alunos mais inseguros) permite detetar as necessidades, os interesses e as aptidões de cada um deles, com o objetivo de os conhecer, compreender e ajudar. A diversificação de estratégias, a estimulação da participação dos alunos, a criação de um clima de descontração responsável e disciplinado permitem o cumprimento dos objetivos de aprendizagem e o desenvolvimento de competências específicas. São estes os pressupostos que orientam a intervenção das professoras do Grupo de Educação Especial do Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente.

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Revista P&V Dezembro 2017

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