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Esta revista faz parte da edição nº 2699 de 17 março de 2016 do Jornal da Marinha Grande e não pode ser vendida separadamente

MARINHA GRANDE

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

POENTE

gic

gabinete imagem e comunicação

março 2016

olhar o mundo

., ponto vírgula


AFINAL, QUE BÁSICO SE ENSINA NA ESCOLA? Editorial

Mais um número do P&V chega agora às mãos dos leitores e nele se continua a contar um pouco do que acontece no Agrupamento. Ao lêlo, perceber-se-á que aqui se procura dar, às crianças e jovens que frequentam as 11 escolas que o constituem, o que se costuma chamar uma educação integral . Ouve-se às vezes dizer (e ultimamente ouviu-se muito) que a escola deve ter como prioridade instruir as crianças, ensinando-lhes o básico. É o conhecido ideal do ensinar a ler, escrever e contar (o português e a matemática, basicamente). Admitem os que assim pensam que, secundariamente, se deve também ensinar ciências, história, etc. . Mas e o resto? A capacidade crítica e reflexiva, o saber questionar, a criatividade? Isso então, dizem eles, ficará para depois, quando aquele básico estiver bem adquirido. Ora acontece que acreditamos que as coisas não são assim. Por um lado, nem as áreas de conhecimento são isoladas, estanques e separadas umas das outras, nem é aceitável a ideia de que elas se organizam hierarquicamente no todo que é o saber humano e nas formas de o aprender. Por outro lado, não se aprende, por exemplo, a resolver problemas aprendendo uma forma/fórmula de resolver determinada questão, que depois se aplica automaticamente a todos os outros do mesmo género. Para resolver problemas, não basta mecanizar uma determinada maneira de proceder. É preciso aprender a pensar, saber que há sempre vários caminhos possíveis, ter imaginação para descobrir soluções, ser criativo... Num livro recentemente publicado, Uma História da Curiosidade, o seu autor, Alberto Manguel, cita Darwin, para quem a imaginação é um instrumento de sobrevivência: “para melhor compreender o mundo e, por conseguinte, estar mais preparado para lidar com as suas rasteiras e os seus perigos, o homo sapiens desenvolveu a

capacidade de reconstruir a realidade exterior na mente e de conceber situações com que pudesse confrontar-se antes de elas realmente se lhe depararem”. Desenvolvendo o seu pensamento, Manguel critica os sistemas educativos atuais “interessados em pouco mais do que a eficácia material e o proveito financeiro” e que, por isso, “já não fomentam o pensamento em si mesmo e o livre exercício da imaginação”. Também Amos Oz, o grande escritor israelita, num pequeno ensaio intitulado Contra o fanatismo, sugere que a capacidade de imaginar pode contribuir para fazer diminuir esse mal que nos ameaça a todos. Diz ele que talvez haja na literatura “um antídoto contra o fanatismo, que é a injeção de imaginação nos leitores. Gostava de poder receitar simplesmente leiam literatura e ficarão curados do vosso fanatismo. Infelizmente, não é assim tão simples.” De qualquer modo, no século XXI, a criatividade – e a imaginação é atividade criativa essencial – é absolutamente básica: é o que dizem as mais prestigiadas organizações internacionais que se dedicam às questões da educação. Mas não só a criatividade e a imaginação: também as capacidades de se adaptar ao que é novo, de ler criticamente a realidade, de lidar com o outro, de aceitar diferenças, de intervir na comunidade, devem ser objeto básico de aprendizagem na escola de um mundo globalizado e em permanente e acelerada transformação. Porque acreditamos nisso, dedicamos uma boa parte das nossas páginas a áreas que pretendem contribuir para o desenvolvimento de atitudes de solidariedade e de intervenção cívica. Temos uma reportagem sobre os Bombeiros da Marinha Grande, que procuram recrutar jovens, em que falamos com alguns dos nosso alunos bombeiros, que podem ser exemplo para muitos outros, levando-os a imaginar-se nesse papel generoso. A questão, tão atual, dos refugiados também está presente neste número, com a história de Nidaa e Safaa, pessoas como nós, história que nos convida a imaginarmo-nos no

lugar deles. As entrevistas a antigas alunas da Calazans, Catarina Mourato e Ana Margarida Agostinho, ambas com profissões relacionadas com problemas sociais e de ajuda aos outros, procuram igualmente dar conta da importância de atitudes positivas de intervenção; e quantos dos atuais alunos não poderão imaginar um futuro semelhante? O projeto Escola Solidária, cujo nome esclarece desde logo a sua intenção de ensinar a pensar e a agir em prol dos outros, tem também lugar nas nossas páginas. O mesmo acontece com o grupo de Teatro CalaBoca, espaço privilegiado de criatividade e imaginação. A atenção crítica ao mundo fora da escola, que queremos ensinar no Agrupamento, inspira o artigo da assumida feminista Catarina Sousa sobre Camille Claudel, que vem a propósito do dia 8http:// de março, dia da mulher; a crítica de cinema assinada pelo Francisco Fernandes, que é também responsável pelo texto sobre os Óscares de 2016; as peças sobre poesia e Dada, cujo centenário se assinala este ano; e, finalmente, a recente morte de Umberto Eco levou-nos a publicar uma parte de um seu artigo sobre os professores e a internet. Mas, neste número, quisemos ainda introduzir uma novidade: ao nosso convite para que tomassem a palavra, algumas Associações de Pais, ou, num caso, o presidente de uma delas, responderam com os textos que apresentamos na rubrica A Palavra aos Pais. Porque a Escola também é deles! Fica ainda o convite à leitura da entrevista à professora Ivone Elói, que nos dá a sua visão sobre as alterações anunciadas para a avaliação do ensino básico, e às restantes notícias e reportagens sobre acontecimentos da vida do Agrupamento, desde, por exemplo, as Aulas Abertas na Calazans Duarte ao Estudar é Divertido da EB Prof. Francisco Veríssimo. Esperamos que gostem de nos ler!

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Coordenação:

agrupamento de escolas marinha grande poente

Redação: AGRUPAMENTO DE ESCOLAS

MARINHA GRANDE

POENTE

Alice Marques, Catarina Sousa, Clara Fernandes, Francisco Fernandes, Gabriela Dâmaso, Ivone Elói, Jorge Castanho, Margarida Amado, Impressão: Gráfica Diário do Minho

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Tiragem: 2000 exemplares

Produção gráfica: gabineteimagem eseacd

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ESTUDAR É DIVERTIDO EB Prof. Francisco Veríssimo

No âmbito do Estudo do Meio, durante a abordagem do tema “A minha localidade”, os alunos do 1.º Ano, da turma 2 da EB Prof. Francisco Veríssimo, pediram a colaboração dos pais e demais familiares na construção de maquetes. O resultado foi, como se pode ver, muito positivo e promotor de aprendizagens significativas. Numa altura em que é cada vez mais difícil conciliar os horários dos pais de forma a passarem algum tempo de qualidade com os filhos, este tipo de estratégias tem proporcionado alguns bons momentos de interação familiar. Por outro lado, isso também se reflete positivamente no aproveitamento escolar dos alunos.

PARCERIAS PRODUTIVAS

Primeira atuação pública dos alunos do 4º ano da EB Prof. Francisco Veríssimo

No passado dia 20 de fevereiro realizou-se mais um espetáculo do grupo de percussão Tocándar. Foi com muita alegria que vimos subir ao palco os nossos alunos (EB Prof. Francisco Veríssimo) que, conjuntamente com outras crianças, formam o embrião na nova Orquestra Infantil do Tocándar.

O espetáculo realizou-se no quadro da apresentação da PAP da aluna da EPAMG Cátia Inês, e contou ainda com a participação da escola de ballet Staccato. Foi um serão cultural bastante enriquecedor e agradável.

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MIND UP Quando comecei a ouvir esta palavra perguntei à mãe o que era. Achei muito engraçado o seu significado porque realmente aprendi muitas coisas sobre a minha mente, como tirar o melhor partido dela e da capacidade ilimitada do nosso cérebro, somos mesmo esponjinhas a absorver conhecimentos. Algumas das coisas que eu aprendi foram: - Ações automáticas e conscientes (como por exemplo, ajudar a mãe a pôr a mesa). - Verificar, através de um recipiente com água e areia, depois de agitado, como funciona o nosso cérebro a acalmar . - Fizemos um ´´ quantos queres ``. - Vimos filmes (lembro-me particularmente de um sobre os dinossauros). -Aprendi acerca da amígdala, do córtex pré-frontal, do hipocampo , a forma como estes órgãos intervêm na velocidade das nossas reações , como guardam as nossas memórias. - Fizemos jogos de memória, como por exemplo, adivinhar os instrumentos musicais ouvindo o som que reproduziam. O que eu achei de mais importante foi a aprendizagem da técnica da atenção plena. Ajuda-nos muito a concentramo-nos para aproveitar ao máximo as capacidades da nossa mente. Quando eu sei que vou ter ´´Mind Up`` fico muito entusiasmado pois sei que vou aprender coisas muito importantes. Diariamente praticamos com a professora a prática central. Ainda bem que os professores se interessam tanto por nós. Às vezes penso que se calhar, um dia, também vou ser professor para ajudar outras crianças . Henrique Morgado, 3 ano , EB Moita

O Meu Mind Up Na concentração plena do Mind Up metemos as mãos em cima da mesa, os pés assentes no chão e as costas direitas e a professora toca o sino. Depois fechamos os olhos e concentramo-nos no som do relógio, do computador ou das lâmpadas… Por fim a professora toca novamente o sino e nós abrimos os olhos e começamos a trabalhar de forma mais tranquila. Beatriz Morgado, 3º ano, EB Moita

Mind Up é um programa de concentração plena. No nosso cérebro existe o : córtex pré-frontal (o que manda); o hipocampo (o que guarda as memórias), a amígdala (que identifica o perigo e diz: luta, foge ou congela), entre outros. O cérebro é muito importante para tomarmos decisões, pensar, etc… O nosso cérebro é muito interessante! Lara Filipe, 3º ano, EB Moita

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NA CANTINA DA GUILHERME STEPHENS “A COMIDA ESTÁ MELHOR” Gabriela Dâmaso Todos os dias 500 crianças almoçam na cantina da escola Guilherme Stephens, dos quais cerca de 100 são meninos e meninas do 1º ciclo, que são os primeiro a almoçar a partir das 12 horas. Até às 13:45, as funcionárias da cantina não têm mãos a medir para preparar estas centenas de pratos. Normalmente os alunos ocupam as mesas em grandes grupos, de amigos ou colegas de turma, e conversam animadamente sobre diversos assuntos. Embora as opiniões sobre a comida da cantina sejam divergentes, uma coisa é certa: os inspetores da ASAE que fizeram uma visita no 1º período, consideraram a cozinha, as condições de higiene, tudo “Cinco Estrelas”! segundo nos disse a coordenadora Manuela Ambrósio. Analisámos a ementa de duas semanas e verificamos que esta é muito variada e inclui sempre sopa, um prato de peixe ou de carne e fruta. Apesar disso nem todos os que comem

na cantina acham que a comida é boa A repórter Gabriela Dâmaso do P&V falou com alguns alunos para saber as suas opiniões. Alguma coisa se passou no 1º período, pois os alunos entrevistados no mês de janeiro reconheceram “que a comida está mais saborosa e melhor confecionada” e isto é verdade até para o peixe e o arroz. Os pratos de carne são os preferidos dos alunos, mas há quem sugira novos pratos: canja, sopa de legumes, atum com esparguete, carne de porco à Alentejana, peixe espada com batatas cozidas. Não faltam também sugestões de bolos e doces para sobremesa, coisas que nunca se comem num almoço da cantina. Nos dias em que a comida não agrada, alguns alunos comem o lanche de casa ou vão ao bar. Nenhum disse que ia comprar uma fatia de pizza e uma bebida ao supermercado, mas

basta passar pelo mais próximo na hora de almoço para sabermos que nesse dia a refeição da cantina provavelmente foi peixe. A comida vegetariana não parece provocar grande entusiasmo aos alunos, como concluímos com a pergunta que fizemos a vários. Para além da vantagem do emagrecimento, como nos foi respondido por duas alunas, ninguém se mostrou interessado numa mudança radical da ementa. Talvez o facto de o diretor Cesário Silva ter ido comer à cantina e feito recomendações às cozinheiras sobre a melhor forma de confecionar alguns dos alimentos tenha contribuído para que a comida esteja realmente melhor. Mesmo assim, nenhum professor ali almoça. Se calhar “porque são finos”! Ou talvez por não haver “uma televisão ligada”, como nos disseram duas entrevistadas.

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NIDAA E SAFAA RECOMEÇAM A VIDA NA MARINHA GRANDE Alice Marques

encontrou o amor de sua vida, Nidaa, com quem se casou, 5 meses depois

Fizeram cerca de 5mil quilómetros, entre Bagdad e Lisboa. Não em linha reta, como podemos imaginar olhando o mapa, não com a euforia de quem vai passar férias noutro continente, mas enfrentando obstáculos, ansiedade e incertezas. Nidaa Hamed Neamah e Safaa Jaafar Sadeq, o casal iraquiano cuja história o P&V publica nesta edição, fazem parte do primeiro grupo de refugiados que Portugal acolheu. Chegaram à Marinha Grande no dia 17 de dezembro de 2015, cerca de um mês e meio depois de terem apanhado um voo no aeroporto de Bagdad com destino a Istambul, na Turquia. Uma história comovente, de dor, mas também de esperança, que só é possível contar graças ao trabalho de tradutor do Sheik Abbas, a quem o P&V agradece. Nidaa nasceu e viveu na capital iraquiana toda a sua vida, até decidir deixar a cidade que já foi das “Mil e Uma Noites”, destruída por mais de duas dezenas de anos de guerras. Safaa, o marido, nasceu e viveu a sua infância numa pequena cidade a cerca de 100 kms da capital, até se mudar para aqui, com 12 anos. Uma família de sete irmãos ditou-lhe a sorte: deixar a escola depois de fazer o 6º ano e ir trabalhar para ajudar a família. Bagdad foi o seu destino, onde uma tia o acolheu. Foi também aqui que

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se conhecerem. Não houve namoro (palavra que ouve com estranheza!) nem casamento arranjado. Apenas um casamento de amor, pouco tempo antes de tomarem a decisão de abandonar a sua terra para recomeçarem a vida num lugar de paz. Durante 15 anos, viveram no Iraque de Saddam Hussein, afastado do poder em 2003 na sequência da invasão pelas forças do Estados Unidos, num tempo em que o presidente Georges W. Bush moveu uma guerra para tirá-lo do poder, acusando-o de cúmplice do terrorismo que 2 anos antes tinha destruído as torres gémeas de Nova Iorque. Três anos depois de ter sido afastado e os Xiitas voltarem a ter as rédeas do poder, em 30 de Dezembro de 2006, Saddam foi executado por enforcamento, um ritual de morte a que ao mundo assistiu em direto. Safaa lembra-se bem desse tempo. Um tempo difícil, de guerra e carências, bem mais difícil do que os 7 anos da primeira guerra do golfo (19911998), pois nesse tempo “a sociedade ainda funcionava e ele pode andar na escola”. Nidaa tem as marcas do sofrimento no rosto e doem-lhe as memórias. Safaa fala por ela. Em 2004, viu a sua mãe, de religião sunita (a fação de Saddam Hussein) ser assassinada pela milícia xiita. Soldados entraram em casa, amarraram Nidaa e obrigaram-na assistir ao assassinato da

sua mãe. Anos depois, viu morrer assim os seus dois irmãos. Durante anos viveram com medo, ameaçados e perseguidos, mudando constantemente de casa. Foi esta mulher amedrontada e marcada pela dor, que Safaa encontrou e amou. A saída dos americanos em 2011 trouxe um período de relativa tranquilidade ao Iraque. Não fosse a guerra civil, as lutas constantes entre xiitas, sunitas e curdos e talvez o Iraque se tivesse tornado um país possível. O agravamento da situação com os avanços do Estado Islâmico no território iraquiano, a partir de 2014, trouxe de novo o perigo de morte a qualquer momento. “Viver no Iraque tornou-se impossível”- diz Safaa. Nidaa e Safaa casaram em setembro e pouco tempo depois tomaram a decisão de sair do Iraque. Juntaram o dinheiro que puderam, pagaram 800 dls a um traficante e, no início de novembro, numa madrugada, apanharam um voo em Bagdad rumo a Istambul. Um amigo que vivia próximo foi o refúgio destes dois iraquianos, durante quatro dias. Daqui partiram rumo à capital grega, Atenas, numa perigosa travessia de barco, que lhes custou 2800 dls. Viveram durante um mês num campo com milhares de refugiados, próximo de Atenas, “onde havia tendas e comida suficiente para todos”- recorda Safaa. Foi aí que, na hora de se registarem como refugiados de guerra, tomaram conhecimento de um país chamado Portugal que estava disponível para receber refugiados. De Portugal apenas conheciam um nome: Cristiano Ronaldo. Mas entre Alemanha, Finlândia, Suécia, Holanda, Bélgica, França, Espanha e Portugal, a sua escolha recaiu neste país. Na noite de 17 de dezembro, a chegada do primeiro grupo de refugiados ao aeroporto de Lisboa abriu os telejornais com pompa e


circunstância. Nidaa a Safaa estavam entre o grupo dos 26 que a União das Misericórdias acolheu e instalou em vários concelhos do país. Esperava-os Pedro Vigário, em representação da Santa Casa da Misericórdia da Marinha Grande. Resolvidas as formalidades, com a indispensável colaboração de um tradutor da fundação islâmica, Pedro Vigário trouxe o casal diretamente para a Marinha Grande. Uma viagem onde o cansaço dos dois, que rapidamente adormeceram, evitou o embaraço duma comunicação quase impossível. Chegados à Marinha Grande, receberam a chave duma casa entretanto preparada para o efeito. A longa viagem chegava ao fim. Os dois recordam a satisfação com que viveram esse momento. Mas, vencidos pelo cansaço, depressa dormiram.

No dia seguinte começaram uma nova vida, numa terra pacífica, onde aos poucos se vão integrando. A TVI dedicou-lhes uma reportagem, exibida no programa 8º dia no dia 17 de janeiro, acompanhando o seu dia na cidade marinhense. Uma sala de aulas na Calazans Duarte foi a última atividade do dia. Ensaiavam então as primeiras palavras em língua portuguesa. Um mês depois, e muitas horas mergulhados na língua portuguesa em sala de aulas, onde a presença de três falantes de árabe, a Aziza, a Hasnae e a Afaf, facilita a sua participação, já é possível ouvi-los dizer mais do que boa noite e até amanhã. Queriam já falar mais, dizem-nos. Até porque sabem que precisam de dominar a língua para conseguirem um trabalho aqui. O Dr. João Pereira, Provedor da Misericórdia da

Marinha Grande, não se poupa a esforços para conseguir enquadrá-los no mundo do trabalho. Apenas aguarda que a língua deixe de ser um problema. Querem ficar aqui, onde encontram tudo o que precisam. Do Iraque não restam apenas as más memórias. Safaa ainda lá tem familiares, com os quais contacta através do facebook, agora que a Misericórdia lhes instalou o prometido computador com internet. Em julho vão ser pais. O filho ou filha será português/portuguesa. E já decidiram o nome: Yussef se for menino e Mariaa se for menina. Nomes árabes, mas também portugueses: José e Maria- diz Nidaa com visível satisfação.

UM ACOLHIMENTO EXEMPLAR “O melhor acolhimento que registamos”. Foi assim que, em reunião decorrida no início de fevereiro, a coordenadora da União das Misericórdias, organismo que coordenou a integração os primeiros 26 refugiados chegados a Portugal, considerou a forma como na Marinha Grande está a ser acolhido e acompanhado o casal Nidaa e Safaa. A informação chegou-nos através do Dr. Pedro Vigário, o acompanhante do casal desde a chegada ao aeroporto de Lisboa em 17 de dezembro. Funcionário da Santa Casa da Misericórdia, a prestar serviço na delegação da Segurança Social da Marinha Grande, Pedro Vigário foi indicado pelo Provedor da Santa Casa, Dr. João Pereira, para fazer o acompanhamento de Nidaa e Safaa. O que faz “com grande satisfação e cada vez com menos dificuldade, à medida que os progressos na língua portuguesa vão tornando a comunicação possível”- disse ao P&V. Acompanhou as consultas iniciais de Nidaa no centro de saúde local, e continua a acompanhar,

agora no serviço de Ginecologia do Hospital de Leiria. Tal como acompanhou os procedimentos burocráticos legais para a inscrição na Segurança Social, a obtenção do cartão de utente do SNS ou do número de contribuinte e as ações necessárias no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). De momento, Nidaa e Safaa têm um documento temporário do SEF que lhes permite a estadia até Agosto. Já trataram do pedido de estatuto de refugiados e Pedro Vigário está seguro de que irá ter despacho favorável.

O trabalho, a seu tempo, virá. O Dr. João Pereira já fez contactos nesse sentido. Para já, a Santa Casa da Misericórdia da Marinha Grande, uma das que deu resposta positiva ao pedido da União das Misericórdias, garante ao casal a habitação, as despesas com manutenção da casa e géneros alimentícios básicos, para além dum fundo semanal de 50€. A prometida ajuda financeira da União Europeia no acolhimento dos refugiados tarda em chegar.

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AE MARINHA GRANDE POENTE PROMOVE AULAS ABERTAS Isilda Silva

conteúdos de aprendizagem. A partir destas observações, cada professor procederá a uma reflexão acerca deste contributo para o seu desenvolvimento profissional, partilhando naturalmente essa reflexão com os seus parceiros; essa partilha poderá No âmbito do seu plano plurianual de

práticas pedagógicas de ensinar e de

constituir-se como o embrião de novas

melhoria, o agrupamento de escolas

aprender.

parcerias e de novas dinâmicas disciplinares

Marinha Grande Poente está este ano letivo

Na base deste projeto está, portanto, um

e interdisciplinares, fazendo destas

a implementar pela primeira vez o projeto

novo paradigma de formação no qual os

experiências um verdadeiro laboratório para

Aula Aberta, um projeto de observação de

professores, mais do que agentes passivos

novas práticas de ensino e de

aulas interpares que visa em última

do seu desenvolvimento profissional, se

aprendizagem.

instância contribuir para a melhoria do

concebem como agentes ativos e

O potencial deste projeto não se fica por

ensino e aprendizagem dos alunos, mas

diretamente envolvidos nas decisões,

aqui; acreditamos ser possível através dele

cuja motivação reside sobretudo no seu

direção e processos acerca da sua própria

formar e partilhar redes de boas práticas e,

potencial formativo em termos de

aprendizagem profissional.

não menos importante, reforçar o clima de

desenvolvimento da profissionalidade

Baseado no paradigma reflexivo, os

abertura e colaboração entre docentes, uma

docente.

professores organizam-se em pequenos

marca que, cremos, constitui uma das

Através deste projeto pretende-se que a

grupos aleatórios (podendo combinar-se

características mais importantes do nosso

escola, vista na perspetiva de quem nela

distintas áreas profissionais e níveis

agrupamento e que é sem dúvida um

trabalha, possa ser, para além de um local

escolares diversos) e combinam entre si o

elemento fundamental para a qualidade do

de trabalho, uma unidade de formação e

calendário de observação de aulas. O que

trabalho dos 250 professores que aqui

inovação; entendida sob este prisma, a

se pretende não é, portanto, avaliar o

trabalham.

escola assume coletivamente uma função

professor observado, mas tão só observar e

qualificadora em relação aos que nela

refletir sobre as dinâmicas de aula que cada

trabalham, otimizando desta forma o

um observou, nomeadamente as

potencial formativo das situações de

interacções entre o professor e os seus

trabalho, nomeadamente no domínio da

alunos, as didáticas e os modelos

autoformação reflexiva na e sobre as

pedagógicos utilizados, ou os próprios

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ANOS DEPOIS... Alice Marques/Margarida Amado

Estiveram cá alguns anos. Como todos os jovens, aqui tiveram os seus amores e desamores por colegas e professores, acharam algumas aulas “secantes”, viveram o nervosismo dos testes e sobretudo dos exames. Deixaram a escola secundária por volta dos 18 anos e “fizeram-se à vida”. Onde estão hoje esses/essas jovens? O P&V inicia nesta edição uma série de entrevistas com ex-alunos da Calazans. Anos depois … foi saber o que fazem hoje e as memórias que guardam desta escola. Nesta edição especial em papel, damos destaque a temas sociais. Por isso fomos saber da vida e do trabalho de Catarina Mourato (diretora do CAT Girassol) e de Ana Margarida Agostinho, terapeuta ocupacional na Casa dos Marcos na Moita.

Catarina Mourato Diretora do Centro de Acolhimento Girassol

Natural da Marinha Grande, Catarina Mourato viveu quase toda a sua vida nesta cidade, exceto os 5 anos em que esteve em Lisboa a fazer o curso superior. Aqui casou e teve os dois filhos, um com 11, outro com 15, ambos a estudar em escolas do Agrupamento MGPoente. É a diretora do Centro de Acolhimento Temporário (CAT) Girassol, desde a sua fundação, em 2001. P&V - Em que anos frequentou a escola Calazans Duarte? Catarina Mourato - Deixe-me fazer as contas. Saí em 1990, entrei na Calazans no 7º ano, portanto deve ter sido em 1985. P&V - Como escolheu a área de estudos no 10º ano? A escola proporcionou-lhe orientação vocacional? CM: Lembro-me que na altura havia um psicólogo na escola, fiz testes psicotécnicos que deram vocação para a área social, Psicologia, Direito…mas a Psicologia ficou logo fora de questão porque era preciso fazer a Matemática. E também pus de parte o Direito. Os problemas sociais sempre me disseram muito. Pouco se ouvia falar de assistentes sociais, mas desde o 10º, 11º ano, eu sempre soube que queria fazer alguma

coisa nessa área. E fui fazendo, até hoje. Foi a escolha certa. P&V - A média com que acabou o 12º ano permitiu-lhe colocação na primeira escolha ou condicionou-lhe as hipóteses? CM - Eu fiz o 12º ano naquele modelo em que eram só 3 disciplinas – Filosofia, História e Inglês- e as aulas eram à noite, não havia 12º de dia. Nunca fui uma aluna brilhante, acabei com média de 14. Ah! e foi no ano em que introduziram a Prova Geral de Acesso, a famosa PGA que nós tanto contestámos. Mas preparamo-nos para ela, discutíamos e escrevíamos sobre grandes temas. Hoje vejo-a como um contributo de grande utilidade, mas na altura achava injusto! Depois fiz os exames das disciplinas que eram exigidas. Concorri para Coimbra com o exame de Filosofia, mas não me correu bem. Para o Instituto Superior de Serviço Social, em Lisboa, fiz exame de História, correu bem e entrei aí no Curso Superior de Serviço Social. P&V - Era um instituto público? CM - Não, na altura só havia este curso em institutos privados. Esse instituto já nem existe. Eu que já tinha tudo preparado para ir para Coimbra, que era o que eu queria, lá tive que ir para Lisboa.

P&V - Adaptou-se bem ao ensino superior e à cidade grande? CM - Sim, adaptei-me bem. Eu era uma miúda desenrascada. Acho que só tinha ido a Lisboa em visitas de estudo e pouco mais. Lembro-me que a cidade me parecia enorme. Eu nunca tinha andado de metro nem de autocarro. Fui viver para Alcântara, num quarto. Lembro-me que era num 5º andar, longe do Instituto, que ficava no Campo dos Mártires da Pátria, eu tinha de apanhar dois transportes para lá chegar. Fui lá num domingo, aprender o caminho. Era tudo novidade mas eu estava muito feliz. Não havia ninguém da Marinha Grande no curso, mas logo arranjei colegas e, dois meses depois, com uma colega do Bombarral, arranjamos mais duas e arrendamos uma casa na Picheleira. Não era perto e também tinha de apanhar 2 autocarros, muito cedo porque as aulas começavam às 8 da manhã. P&V - Acha que a preparação que levava do ensino secundário era adequada? CM - As disciplinas que fiz no secundário, e sobretudo no 12º ano, não tinham nada a ver com o curso. O curso tinha muitas disciplinas da área social, direito, economia, psicologia e muitos, muitos trabalhos de investigação. Mas o que eu ponto & vírgula agrupamento de escolas marinha grande poente

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tinha era métodos de trabalho, que julgo que só adquiri no 12º ano. Estava bem preparada. Tinha boa bagagem em Língua Portuguesa, em História e sobretudo tinha método de estudo. P&V - Houve professores na Calazans que a marcaram? CM - Claro. Sobretudo a partir do 10º ano. A profª Margarida Font, o prof. Álvaro André, o prof. Alberto Cascalho e a prof.ª Alice Marques. P&V - Porquê esses? CM - Porque há professores que nos marcam. Pela forma como se relacionam com os alunos, pelo que nos ensinam para além das matéria das disciplinas. P&V - O curso de Serviço social era um bacharelato ou uma licenciatura? CM - O curso era uma licenciatura de 5 anos, em que os dois primeiros eram só teoria, o 3º e o 4º eram teoria e estágio e o 5º era de investigação teórica. Era um curso a tempo inteiro. Para além das pesquisas que tinham de ser feitas nas bibliotecas, tínhamos de ir às instituições, fazer entrevistas, questionários, depois tratá-los. P&V - Acha que o curso lhe deu uma boa preparação para trabalhar? CM - Sem dúvida. Não só a parte teórica, mas também o estágio. Fiz estágio na Câmara Municipal de Lisboa, num gabinete técnico ligado à reabilitação do bairro de Alfama. Estavam no início os programas de reabilitação urbana, foi uma experiência muito enriquecedora. Tive uma supervisora muito boa e o gabinete tinha uma equipa multidisciplinar, com arquitetos, antropólogos, sociólogos, historiadores. No estágio trabalhei também num projeto com uma escola de Alfama. Colaborei também com um professor na sua tese de doutoramento, a fazer questionários e tratá-los, e também fiz voluntariado no Hospital Dona Estefânia, durante dois anos. Ah, o estágio no gabinete de requalificação urbana era remunerado. Recebia 30 contos por mês. P&V - Isso era bem pago? CM - Era razoável. Eu pagava, à minha parte, 17 contos de renda de casa, mais de 50% do que recebia, mas era muito bom. P&V - E qual foi o seu trabalho de investigação no último ano? CM - Fiz uma investigação sobre a população surda, com parte teórica, mas muito centrada no levantamento dos apoios que então existiam (ou não). Também aprendi um pouco de linguagem gestual. P&V - Quando acabou o curso voltou para a Marinha Grande? Não pensou ficar em Lisboa? CM - Sinceramente não. Ao fim de 5 anos, sentia necessidade de voltar à terrinha. P&V - Foi fácil arranjar emprego? CM - Posso dizer que sim. Na altura não havia muita gente com este curso. Como disse, nem havia este curso nos institutos públicos. Então, voltei para a Marinha Grande no verão de 1995

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com o meu diploma. Já muita coisa tinha mudado no ensino secundário. Havia uma escola profissional, a EPAMG, e soube que estava a funcionar lá um curso de Animação Sociocultural que tinha algumas matérias técnicas que eu podia leccionar, por exemplo Área de Estudo da Comunidade. Fui lá entregar um Currículo à Dra Piedade Panta, que me contratou para dar aulas e supervisionar os primeiros estágios. Mas também nesse ano, no IEFP precisavam de alguém para dar formação a mulheres desempregadas de longa duração, as que ficaram sem emprego quando a Manuel Pereira Rodão fechou. E fui então dar formação na área social. P&V - Quanto tempo ficou na EPAMG? CM - Fiquei mais ou menos dois anos. Em 1997, abriu uma vaga para um Lar e Centro de Dia em Vieira de Leiria e concorri. Comecei na Direção, a meio tempo, e ainda estive algum tempo, pouco, a acumular com os dois trabalhos que tinha na Marinha. Mas era um cargo que exigia muita dedicação e por isso deixei os outros trabalhos e fiquei só no Lar, como diretora técnica…até 2001. P&V - Foi nesse ano que abriu este CAT de que é diretora? Em que contexto é que o CAT foi criado? CM - Sim, foi em 2001. Este Centro de Acolhimento Temporário foi criado no âmbito dum projeto de Luta Contra a Pobreza, cuja entidade promotora foi a Câmara Municipal, e tinha parcerias com a Segurança Social, a ADESER, que era a entidade gestora. A Marinha Grande já tinha muitas crianças sinalizadas como crianças em risco e aqui perto só havia 2 centros, em Caldas e Pombal. Foi feito o projeto para criar um CAT, apresentou-se a candidatura, foi aceite e em 30 de abril vieram as primeiras crianças. Fui convidada para assumir a direção, em Junho de 2001 e fiquei, até hoje. P&V - Mas na altura ainda não tinham estas instalações? CM - Pois não. Começamos num apartamento em frente ao cemitério, com 8 crianças, enquanto se faziam as obras aqui, durante um ano. P&V - Fale-nos do que se faz neste CAT? CM - Recebemos temporariamente crianças, dos 0 aos 12 anos, excecionalmente pode ir até aos 14, que aqui ficam até 6 meses, segundo a lei, mas na prática ficam o tempo necessário até ser definido um projeto de vida para essas crianças. P&V - Como são sinalizadas as crianças em risco? CM - Segundo a lei, qualquer cidadão ou instituição que tenha conhecimento de que uma criança está em risco, porque observou maus tratos, violência doméstica, negligência parental, abandono… pode denunciá-la pessoalmente ou por telefone, normalmente à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). P&V - É habitual os cidadãos, individualmente, fazerem essas denúncias? CM - Não. A escola é a principal sinalizadora de crianças e jovens em risco. Mas a CPCJ só pode agir com o consentimento dos pais ou de quem tem a

guarda, ou a criança, se tiver mais de 12 anos. Por isso, é preciso averiguar a veracidade da denúncia, e, sendo verdade, tenta-se primeiro um acordo de compromisso com os pais. Não havendo cumprimento destes, procura-se uma solução junto de outros familiares. A institucionalização é o último recurso. Mas as crianças podem chegar aqui com o consentimento dos pais. Noutros casos, se não houver consentimento, mas a situação for muito grave, há a ação do tribunal que decide retirar a criança à família. Em situações de extrema urgência pode até ser acolhida antes do tribunal decidir. P&V - Quantas crianças acolhe este Centro e com que idades? CM - De momento temos 14 crianças: dois bebés, um com 1 mês, outro com 6 meses, dois de 2 anos e meio, uma de 5 anos, uma de 9, três com 11, duas com 12 e três com treze. P&V - Estão no limite da capacidade das instalações? CM - Sim, mas excecionalmente, se for um bebé, podemos ir até 15. Estamos melhor agora, porque temos também o rés-do-chão. P&V - Disse há pouco que a lei define 6 meses como prazo de acolhimento, mas na prática não é o que se passa? CM - Pois não. Às vezes não é fácil definir um projeto de vida, uma solução, em seis meses. Temos aqui 2 meninos há quatro anos. P&V - Quando cheguei, só vi os bebés e os de 2 anos. Os outros, onde estão? CM - A partir dos 3 anos, como qualquer criança, estão nos infantários ou nas escolas. Só os mais pequeninos é que ficam connosco o tempo todo! P&V - Então o CAT é como uma casa com uma grande família? CM - É exatamente isso. Uma família com muitos filhos. P&V - Quem são a mãe e o pai? CM - Uma diretora, uma psicóloga, uma educadora de infância, uma cozinheira, oito auxiliares de ação educativa (por turnos), 1 auxiliar de serviço geral e uma administrativa com horário de 25% do tempo. P&V - São todas mãe! CM - Pois é. São todas mulheres mas eu, como diretora, sou uma espécie de “pai da casa”. Há situações em que tenho de representar a figura da autoridade. Mas não são os pequeninos que dão as dores de cabeça, são os familiares e alguns dos mais velhos. P&V - Como é financiado o CAT? CM - O CAT é uma IPSS, co-financiada pelos parceiros (Segurança Social, ADE-SER) a 80%. P&V - E os outros 20%? CM - São donativos de outros parceiros não institucionais, por exemplo o Hotel Cristal, o Modelo, a padaria da Martingança e muita solidariedade da população. Recebemos sempre muita roupa, brinquedos. Já lhe vou mostrar.


P&V - Como é o processo de saída das crianças do CAT? CM - Tentamos sempre um retorno à família. Se isso for viável, se houver sinais de mudança no ambiente familiar, interesse em voltar a ter a criança; podemos também rever as opções com outros familiares, interessados e idóneos. A adoção é outra possibilidade. Não havendo alternativa, a solução é mantê-las aqui. Por isso podem ficar vários anos. P&V - É um trabalho emocionalmente desgastante, mas traz compensações, certo? CM - Muitas. Ver os frutos do nosso trabalho, saber que fomos importantes no projeto de vida de alguém, receber a visita dos que por aqui

passaram, telefonemas, dizerem-nos a importância que tivemos para eles. É muito compensador. P&V - Podia ficar aqui o dia inteiro a ouvir a história dos miúdos que por aqui passaram. Mas vamos terminar onde começamos, na Calazans Duarte. Já tem um filho na Calazans, vai lá como encarregada de educação, ouve-o falar do seu dia a dia na escola. Vê muitas diferenças nesta escola? CM- Algumas. As condições físicas são melhores, a segurança também, os pais e encarregados de educação estão mais envolvidos, a escola tem projetos muito interessantes – os prémios Calazans demonstram isso.

P&V - Nada de negativo? CM - Os professores têm uma tarefa mais pesada. Exige-se muito à escola. Estão sobrecarregados de tarefas, de papéis, alguns têm dificuldade em exercer a autoridade. A presença constante dos Encarregados de educação nos anos mais avançados… isso não sei se ajuda a educar para a autonomia. P&V - A Calazans seria sempre uma escola que escolheria para os seus filhos? CM - Sem dúvida. P&V - Por afeto? CM - Por afeto e por reconhecimento da qualidade dos professores, dos projetos, de tudo.

Ana Margarida Agostinho Terapeuta Ocupacional na Casa dos Marcos, Moita do Ribatejo

Ana Margarida Agostinho nasceu e cresceu na Marinha Grande. Pertence a uma geração cerca de quinze anos mais nova do que a da Catarina Mourato, mas também ela frequentou a Calazans. Daqui saiu para tirar o seu curso de terapeuta ocupacional na escola Superior de Saúde do Alcoitão e para finalmente encontrar um trabalho de que gosta imenso na Casa dos Marcos, na Moita. P&V - Em que anos frequentou a Escola Calazans Duarte? Ana Margarida Agostinho - Frequentei a Calazans de 2003 a 2006. P&V - Como escolheu a área de estudos no 10º ano? A escola proporcionou-lhe orientação vocacional? A escolha que então fez veio a revelar-se certa? AMA - Sempre me interessei pela área da saúde, tendo pois escolhido a área Cientifico-Natural,

para que pudesse ingressar por um curso ligo à mesma. A escola não me proporcionou propriamente orientação vocacional, creio ter sido mais o meu interesse em determinadas áreas e disciplinas que me fez pesquisar e querer perceber por qual enredar. Não tenho, no entanto, qualquer dúvida que a escolha que fiz foi a mais acertada, pois o que faço preenche-me completamente, quer pessoal quer profissionalmente. P&V - A média com que acabou o 12º permitiulhe colocação na 1ª escolha ou condicionou-lhe as hipóteses? AMA - Na altura em que terminei o 12º ano, não tinha ainda decidido de forma definitiva, que curso integrar, pelo que concorri a mais que um, maioritariamente Enfermagem e Terapia Ocupacional. A média com que acabei o Secundário era uma boa média, no entanto, neste ano as médias subiram imenso, tendo pois

condicionado as hipóteses de ingresso no Ensino Superior. P&V - Onde prosseguiu os estudos? Que curso então tirou? AMA - Acabei por ingressar na Escola Superior de Saúde do Alcoitão, no curso de Terapia Ocupacional. P&V - Adaptou-se bem ao ensino superior? O que lhe custou mais? AMA - O Ensino Superior em nada se comparou ao Secundário, no sentido em que exigiu mais que bases de estudo e formas de trabalho. Para começar, fiz uma grande mudança física, como o sair de casa dos pais para experimentar, pela primeira vez, uma vida mais “autónoma”, ainda que sempre com o apoio dos pais naquilo de que precisei. Ao nível académico, claro, os conteúdos programáticos foram de uma grande exigência, quer pela quantidade de matéria, quer pela ausência de evidência científica em português. De

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uma outro prisma completamente diferente, as amizades que criei durante este meu percurso, foram, com toda a certeza, o meu pilar em todo o processo de adaptação e crescimento. P&V - Considera que a preparação que tinha era a adequada? AMA - O Ensino Secundário não consegue fornecer todas as bases necessárias para todos os cursos que existem, são demasiados e demasiado diversos. No entanto, sempre me considerei uma aluna aplicada e estudiosa, com hábitos de estudo, o que de certa forma facilitou esta transição. Não podemos esperar que a escola nos providencie tudo e nos deixe isentos de procurar cultura e conhecimentos. P&V - Quando acabou o curso, foi fácil arranjar emprego? Como foi a sua experiência neste aspeto? AMA - A Terapia Ocupacional era (e é ainda!) uma área pouco conhecida. Somos muitas vezes confundidos com outros profissionais de saúde ou desconhecem de todo o nosso papel na (re)habilitação. Durante o meu percurso na faculdade fiz um estágio curricular, durante o qual me fizeram o convite de ali realizar o meu primeiro emprego, em forma de Estágio Profissional. Após este ano, regressei à Marinha Grande, onde me deparei com a falta de ofertas de emprego na minha área e o

desconhecimento desta profissão. Após pequenos projetos em algumas clínicas e voluntariado, consegui trabalho em várias instituições, mas sempre em condições precárias (Recibos Verdes e Substituições). P&V - Atualmente trabalha onde? O que faz, concretamente? Gosta do que faz? AMA - Há cerca de 2 anos concorri a uma oferta de emprego numa Instituição situada na Moita do Ribatejo, da qual já tinha ouvido falar e na qual tive a sorte de ficar. A Casa dos Marcos é o maior projeto da Raríssimas. Imaginada por um menino raro, localiza-se na Moita. Com um modelo assistencial único e de dimensão transnacional, a Casa dos Marcos constitui uma resposta inovadora às manifestações de necessidades comunicadas por doentes portadores de patologia rara, respetivas famílias, cuidadores e amigos, através da disponibilização de um conjunto de serviços especializados, que incluem: Unidade de Lar Residencial, Unidade de Residência Autónoma, Centro de Atividades Ocupacionais, Unidade Clínica (aberta também à comunidade), Unidade de Medicina Física e Reabilitação, Centro de Recursos, Unidade de Cuidados Continuados Integrados, Unidade de Investigação. Neste momento, estou direcionada para a

área pediátrica, desenvolvendo atividades com crianças com e sem patologia rara. Como Terapeuta Ocupacional, planeio e desenvolvo atividades de acordo com as necessidades de cada uma destas crianças, tendo sempre como foco a promoção da sua autonomia, (re)habilitação motora e cognitiva e adequação de comportamentos. Gosto imenso daquilo que faço e não me vejo a desenvolver outro tipo de atividade. P&V - Que dificuldades encontra no seu dia a dia? E que compensações lhe dá o seu trabalho? AMA - É uma atividade profissional muito exaustiva do ponto de vista físico e psicológico, uma vez que se lida diariamente com crianças com comportamentos desajustados e com grandes dificuldades motoras e cognitivas. Por outro lado, os pais destas crianças depositam em nós uma grande confiança na reabilitação dos seus filhos, dando-nos a nós, Terapeutas, uma acrescida motivação em todo o processo de reabilitação destas crianças. E são estas pequenas conquistas que daqui advêm que nos dão um imenso orgulho naquilo que fazemos, e nos fazem sentir realmente importantes na vida de quem a nós acorre.

A RARÍSSIMAS – Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras – foi fundada, por um grupo de pais, em abril de 2002, com a missão de apoiar doentes, famílias e amigos que convivem de perto com as doenças raras. Tornar a Raríssimas e os meninos raros reconhecidos pela comunidade científica e pelo público em geral foi, desde logo, um dos objetivos traçados pela associação. Portugal deve à Raríssimas o fato de hoje se falar em doenças raras. Segundo a associação Raríssimas, “tradicionalmente, julga-se que o que é raro, raramente acontece. Porém, em Portugal existem cerca de 800 mil portadores de doenças raras e várias centenas de doentes por diagnosticar. Foi contra o desconhecimento que, desde sempre, lutámos e, para isso, criámos os slogans Doenças raras existem, não se conforme; informe-se! e Doenças raras existem, ajude-nos a diagnosticá-las que, ao longo de um ano, foram lidos em todos os hospitais e centros de saúde do País. Este esforço em informar e sensibilizar sobre as doenças raras foi um processo longo e trabalhoso mas que viria a dar os seus frutos. Em 2008, a então Ministra da Saúde, Dra. Ana Jorge, viria a aprovar o Plano Nacional para as Doenças Raras, onde se traçavam uma série de metas a cumprir em prol da saúde dos doentes raros.”

A associação Raríssimas (http://www.rarissimas.pt) tem sede em Lisboa e delegações no Norte (Maia), Viseu, Algarve, Pico (Açores) e Madeira, e a Casa dos Marcos (Moita).

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SEMPRE QUE O TEATRO ACONTECE...

Integrar o Clube de Teatro: - dá-nos confiança e maturidade;

Fazer Teatro permite-nos: - ser quem não somos e enfrentar medos, libertando-nos desses medos; - sair do nosso círculo de conforto, vencendo as inseguranças; - dar asas à imaginação e voar; - deixarmos para trás quem somos e relativizar os nossos problemas; - ter mais segurança nas decisões que tomamos; - fazer pensar e mostrar questões para refletir.

- torna-nos mais comunicativos; - distrai-nos e acalma-nos; - faz com que nos sintamos livres; - permite-nos ter liberdade de expressão, movimento e ritmo; - no início parecia obrigação e agora é um prazer; - é como pertencer a uma família;

Fazer Teatro torna-nos melhores pessoas, aumenta o nosso gosto pela leitura e pelo conhecimento, dá-nos a conhecer causas, compromete-nos com a divulgação dessas causas e, por isso, a função social que o Teatro desempenha é insubstituível! Sempre que o Teatro acontece, levamos à cena a representação da Vida: o quotidiano, a infância, as histórias, o amor, a guerra e a paz! VIVA O TEATRO!

Profª Mª José Ladeiro

- Partilhamos universos: escrita, leitura, o espaço de cada um de nós, o espaço do outro. - Criamos sentimentos e emoções e vivemos esses e outros sentimentos e emoções. - Agimos com intenção! - Assistimos à Vida a pulsar diante dos nossos olhos! - Aprendemos! E não nos cansamos! - A coragem aumenta, invadindo o nosso círculo de conforto!

Profª Ermelinda Silva

Texto colectivo – Companhia de Teatro CalaBoca

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PRÉMIOS CALAZANS NO PALCO E NOS BASTIDORES Alice Marques

Nem o mau tempo nem a transmissão direta do clássico Benfica – Porto impediram alunos, pais, encarregados de educação, professores e muitos convidados, de marcarem presença na 10ª edição dos Prémios Calazans, na noite de 12 de fevereiro. O auditório estava à pinha, como vem sendo hábito. Entre premiados e artistas, foram chamados ao palco 177 alunos da Calazans Duarte, para receber os prémios de mérito pelo seu desempenho no ano letivo 2014/15 ou, no caso dos artistas, para atuarem e receberem os merecidos aplausos. A cerimónia contou com a presença de representantes das instituições locais, da DGEsT

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e da Associação dos Antigos Alunos (AAA). Houve até quem viesse da Covilhã, da Universidade da Beira Interior, para fazer entrega duma tese de doutoramento ao diretor Cesário Silva, a doutora Ângela Prestes, também ela antiga aluna da escola industrial e comercial, que hoje conhecemos por Secundária Calazans Duarte, sede do Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente. Pelo quarto ano consecutivo, a AAA entregou uma bolsa de mérito, no valor de 300 euros, a duas alunas que no presente ano letivo entraram na universidade: Mariana Nicolina Teodósio (a frequentar Engenharia Eletrónica no IST – Lisboa) e Inês Lameiras, a frequentar o ISCTE-

Lisboa). À semelhança dos anos anteriores, esta bolsa tem o nome de um antigo professor da escola. Este ano o homenageado foi o Engº Eugénio Lage, professor das áreas de Eletricidade, Desenho e Tecnologias, que aqui leccionou entre 1956 e 1973. O anfitrião da cerimónia foi o diretor do Agrupamento, professor Cesário Silva, que, falando em nome do coletivo direção, e depois dos agradecimentos a todos os que contribuem para o sucesso da escola e dos alunos, eles próprios, pais, professores e funcionários, destacou alguns projetos “que são marca do Agrupamento”, como a aprendizagem do Mandarim, o GIC, o Diretor Júnior, entre outros. O ponto alto do seu discurso, bastante informal, foram as palavras que, conforme o próprio referiu, “nunca é demais repetir”: “podem tirarnos tudo, mas há algo que não conseguirão: o conhecimento, a formação, os valores que adquirimos”. Em nome dos alunos premiados falou a Ana Rita Aparício, atualmente a frequentar o curso de Medicina na Universidade de Coimbra, com um discurso inspirador e pautado por algum humor. “Quem pensa que para ganhar prémios basta ficar sentado à espera, que não dá trabalho, de certeza nunca ganhou nenhum” – disse Ana Rita. E acrescentou: “Ter boas notas deve ser uma prioridade, mas não a única, se não corremos o risco de ver a vida passar-nos ao lado. Saibam definir as prioridades e geri-las, e vão ver que há tempo para tudo”.


ARTISTAS EM PALCO Mas porque os Prémios Calazans não são apenas o momento de premiar o trabalho e o mérito mas também uma festa, foram muitos e variados os intervalos musicais e outros que animaram o auditório. A Orquestra Juvenil da Marinha Grande, convidada especial nesta noite, animou vários momentos com o seu inconfundível som dos metais. Sabrina Gil encheu o auditório cantando Skyfall e Catarina Brito encheu o placo com dança; Inês Pequicho emocionou com os versos de Amália, Oh Gente da minha Terra, cantando à capela o refrão; Beatriz Oliveira brindou os presentes com danças sevilhanas, Marta Ferreira a Beatriz Bernardino executaram uma coreografia de dança clássica e Rodrigo Nobre arrancou, da guitarra acústica, sons melodiosos de um prelúdio. Rafael Pereira, com a sua guitarra elétrica, fez-se representar num vídeo que o próprio editou. A surpresa da noite foi, sem dúvida, o momento de teatro. Filipa Ferreira, do Clube de Teatro da Calazans, apresentou uma versão hilariante do Concurso Diretor Júnior, com texto e cenografia da professora Ermelinda Silva e dela própria. A Joana Duarte e o André Ramos estiveram no seu melhor, como condutores da cerimónia, mesmo quando a tecnologia não esteve à altura, apesar do trabalho incansável do Wilson Francisco na régie e do professor Zé Nobre, nos bastidores.

NOS BASTIDORES Nos bastidores, o espetáculo é outro. A repórter do P&V passou parte da noite no escuro, onde, entre os flashes das máquinas fotográficas e as lanternas dos telemóveis, arranjou forma de escrever um draft da reportagem, como agora é moda dizer-se. Quase uma hora antes de se acenderem as luzes da ribalta, já apresentadores e artistas percorriam nervosamente o corredor dos bastidores. Há que aquecer a voz, os músculos, rever vezes sem conta o momento da entrada em cena, apesar do cuidado inexcedível de Zé Nobre e Ermelinda Silva, que verificam, a todo o minuto, o guião colado na parede. Quando as luzes do palco se acendem e alguma coisa aí acontece, todos espreitam pelas frestas dos bastidores. Cada artista que entra no palco é encorajado com os votos que fazem parte da gíria (muita m----) e a reentrada nos bastidores é saudada com abraços e elogios. O tempo de espera, a tensão emocional antes da entrada em cena e a descarga que se segue à atuação fazem fome. Nunca uma simples sandes de fiambre e queijo e uma garrafinha de água souberam como verdadeiras iguarias! Mas ainda houve espaço no

estômago para uma fatia de bolo, servido no hall, pelo diretor em pessoa, quando o espetáculo terminou. Porque não há aniversário sem bolo! E afinal são 10 anos de Prémios Calazans.

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MÚSICA E POESIA DOMINAM A III EDIÇÃO DO CAFÉ COM LIVROS Alice Marques

Os sons das guitarras e das vozes fizeram estremecer os mundos paralelos das páginas dos livros que se preparavam para o repouso do fim de semana. Alguns saltaram para as mesas e abriramse à leitura de um público pouco habitual na mediateca. Quem veio para participar trouxe voz, guitarras e talento. Quem veio para ouvir, trouxe expetativas. E não sairá defraudado. Um convidado especial, Manuel Freire, partilhou os palcos com uma dúzia de jovens. Com uma expressividade insuperável e um sentido de humor que o público em geral desconhece nele, disse poemas que mostraram, intencionalmente, facetas “menos conhecidas de alguns poetas”. As palavras de José Fanha, João de Deus, LuizManuel e António Gedeão acordaram, nalgum público, memórias antigas e, nos mais jovens, certamente algum gosto pela poesia. Porque é potencialmente impossível não amar a poesia quando ela é dita assim. Do melhor da poesia portuguesa trouxe-nos também o professor Fernando Jorge, aposentado há uns anos, revelando outra faceta. E Maria João Fernandes, da geração mães, disse, do heterónimo de Pessoa, Álvaro de Campos, muito a propósito: “A melhor maneira de viajar é sentir”.

20 16

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Como se adivinhava, os jovens alunos Rushedup, Jorge Castanho Júnior e Irina Oliveira trouxeram outras sonoridades e outra língua, mas nem por isso houve choque de gerações. Filipa Ferreira dramatizou com humor o sonho de vir a ser Diretora Júnior da escola, André Poças, do projeto Toastmasters da Marinha Grande, improvisou uma comunicação sobre o bem que faz ler e a Mariana Gameiro executou, no piano digital, peças de compositores estrangeiros na linguagem universal da música. Já o café tinha arrefecido quando Sabrina Gil veio “Chamar a música”. E a música veio: a de Domenico Scarlatti, para acompanhar as palavras de Saramago no Memorial do Convento, ditas por Carolina Cintra e Miguel Martins e, depois de muitas histórias contadas por Manuel Freire sobre o professor Rómulo de Carvalho/ poeta António Gedeão, a Pedra Filosofal cantada e “mal tocada”, segundo o próprio, fechou a edição. Duas horas depois das boas vindas, faz-se silêncio, as luzes apagam-se, os livros fecham-se e voltam ao sossego do fim de semana. Três dezenas de pessoas regressam a casa, seu mundo de todos os dias, levando consigo a memória ainda fresca duma noite em que o café soube a música e poesia.


O QUE QUERES SER QUANDO FORES GRANDE? Ana Rosa, Bárbara Resende, João Pedro Guedes e Juliana Matias

Alguns alunos de Psicologia do 12.º G estão a desenvolver um estudo que envolve os alunos do 4.º ano do agrupamento e que visa perceber as vocações que estão na base da construção do seu projecto de vida. A s r e s p o s t a s o b t i d a s fo ra m b a s t a n t e diversificadas; conforme podemos constatar, as vocações profissionais mais referidas foram a veterinária, a medicina e a futebol. Quando organizados por áreas de estudo ou áreas profissionais, os resultados obtidos são igualmente surpreendentes, uma vez que as áreas das ciências da vida e da saúde estão em pé de igualdade com as artes, com 28 alunos cada, seguidas de perto pelo desporto, com 24 alunos. De sublinhar ainda que apenas 5 dos alunos refere preferir uma área ligada às engenharias. Depois de analisadas as justificações, constatámos uma associação direta quer à

situação familiar, quer à situação em que o país se encontra, prova de que os mais novos também se apercebem, à sua maneira, das dificuldades por que estamos a passar. Isto foi possível apurar pois muitas crianças justificaram a escolha da sua profissão pelo facto de saberem que é uma profissão bem remunerada e explicam que não querem que falte comida na mesa, ou simplesmente dizem que querem poder contribuir para as despesas em casa.

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OLIMPÍADAS DA QUÍMICA E DA FÍSICA DIOGO BENTO E JOANA FLORÊNCIO PASSARAM À FASE REGIONAL

Decorreu em fevereiro a primeira fase das Olimpíadas da Química (17) e da Física (24). Na Escola Calazans Duarte houve apenas participação de alunos de nível secundário. Nas provas de Química+, dois grupos de três alunos realizaram a prova teórica: um do 11.ºB: (Maria Francisca Boaventura, Maria João Domingues e Maria Santos Silva) e um do 11º D (Diogo Bento, Henrique Gil e Joana Florência), sendo este último o grupo selecionado para representar a escola na fase regional, no dia 5 de março no Instituto Superior Técnico (Lisboa) Nas provas de Física, individuais, participaram 4 alunos no escalão B: Ricardo Soares, Diogo Bento, Joana Florêncio e Tiago Silva. Os três últimos passaram à fase regional que terá lugar em FCTUC (universidade de Coimbra) no dia 16

de abril. Para o professor Rogério Nogueira, que se envolve na organização destas competições desde que elas começaram, são vários os motivos que explicam uma participação tão escassa: “as provas decorrem fora do tempo de aulas e alguns mostram indisponibilidade. Sendo uma atividade que envolve seleção, em função dos desempenhos, também se verifica retraimento em vários alunos”. Por outro lado, segundo este professor, “As etapas seguintes são normalmente difíceis, irão competir com bons alunos de outras escolas e o grau de exigência é elevado”. Contudo, reconhece que “ para os alunos que representam a escola é sempre uma experiência enriquecedora”.

MENÇÃO HONROSA

Os prémios do concurso escolar "Alterações Climáticas" foram entregues esta quarta-feira, numa cerimónia que decorreu na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Na sessão, estiverem presentes: Fernanda Ribeiro, diretora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto; Eulália Alexandre, subdiretora-geral da Direção-Geral da Educação; Eduardo Santos,

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diretor do Departamento de Alterações Climáticas da APA e Gestor do Programa AdaPT; Inês Cardoso, subdiretora do Jornal de Notícias; José Azevedo, coordenador do Clima@EduMedia; e António Guerner, investigador do Clima@EduMedia. Para além das distinções principais, a Escola Secundária Dr. João Manuel da Costa Delgado e a Escola Secundária Eng.º Acácio Calazans

Duarte foram distinguidas com uma menção honrosa pelos trabalhos submetidos nas categorias B e C do concurso, respetivamente. A Escola Secundária Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves recebeu o prémio MediaLab do JN, pela qualidade do seu dossier mediático.


ENTREVISTA A IVONE ELÓI

ALTERAÇÕES NO MODELO DE AVALIAÇÃO DO DO ENSINO BÁSICO P&V

Ivone Elói fez toda a sua carreira de professora (24 anos) na escola Guilherme Stephens, ensinando Português e, nalguns anos, também Francês, como é o caso atual. É Coordenadora Pedagógica da disciplina de Português no 2º Ciclo do EB, Diretora de Turma e faz parte do Conselho Geral do Agrupamento. Para esta professora, a “escola é quase a segunda casa”. “Eu respiro a escola”- disse ao P&V.

1.O que acha das medidas legislativas relativamente ao fim dos exames dos 4º e 6ºanos? Na minha perspetiva, continuamos a viver, no setor da educação, de (in) experiências, reformas das reformas, cujos resultados raramente são avaliados, simplesmente, porque “urge” mudar. A mudança pode ser necessária, mas não deve ter uma calendarização “política”, deve decorrer da reflexão profunda acerca das medidas e da consequente avaliação. Ora, na minha opinião, somos nós, professores, os mais habilitados e apetrechados de vivências in loco para contribuirmos para essa reflexão, daí a importância de sermos ouvidos e de não funcionarmos apenas como aplicadores de “novidades”. Sublinho que, ao ritmo a que ocorrem as mudanças, nem os professores têm tempo de se apropriar delas e, quando finalmente o conseguem, outras alterações acabam de chegar às escolas… Posso afirmar, com base na minha experiência de 24 anos a lecionar Português a turmas de 6ºano, que a introdução das provas finais não correspondeu a uma melhoria efetiva das aprendizagens, constituiu, sim, um fator de stress para alunos, professores e encarregados de educação, absorvendo quase todos os recursos das escolas para estas duas disciplinas (Português e Matemática), com uma importância indiscutível no percurso de qualquer aluno, mas desvalorizando de forma preocupante as restantes áreas do currículo. Nesta linha, estou convicta de que, no que diz respeito às provas de 4º ano, a situação se repete. Considero também que as provas finais escritas

eram redutoras. A oralidade, tão “apregoada” em novos programas, metas curriculares e, agora, ou melhor, por agora, programa e metas curriculares de português, não era considerada. Refiro ainda que a discrepância entre os conteúdos das provas e o trabalho realizado ao longo do ano gerava muitas vezes um sentimento de frustração nos alunos e nos professores. Tendo em conta que a prova constitui apenas um momento pontual de avaliação, defendo um investimento num processo em que alunos com ritmos diferenciados vão ultrapassando dificuldades, progredindo e consolidando as suas aprendizagens. Não creio que a eliminação das provas promova o facilitismo e a falta de exigência, pelo contrário, o trabalho realizado ao longo do ano (que envolve todos os domínios) passa de uma ponderação de 70 para 100%. Em suma, julgo que estas medidas são coerentes, mas contesto o facto de terem surgido já no decurso do ano letivo, uma vez que todos os intervenientes no processo educativo devem ter conhecimento prévio das regras. 2.Considera que as provas de aferição nos 2º, 5º e 8º anos são uma medida tendente a resolver as dificuldades dos alunos? Penso que faz sentido a aplicação de provas de aferição em anos iniciais ou intermédios de ciclo, de modo a permitir a implementação atempada de medidas ao longo do percurso, evitando a “transição de dificuldades” para um novo ciclo. Considero que as provas de aferição são, de facto, um instrumento importante na verificação das aprendizagens, embora a experiência nos

alerte também para a necessidade de criar nos alunos uma cultura de responsabilização pela construção dos respetivos percursos, de modo a que as encarem com seriedade e empenho, permitindo uma recolha de dados fiáveis que contribuam efetivamente para uma reflexão e um plano de melhoria, se necessário, ou melhor, quase sempre necessário. Julgo que a aplicação das provas logo no 2º ano é extremamente importante, pois quanto mais precoce for a deteção das dificuldades, mais rapidamente serão implementadas medidas de apoio e mais provável será a sua eficácia. Esta medida também privilegia claramente o processo, fazendo jus às palavras do poeta “ O caminho faz-se caminhando”. Concordo com a calendarização das provas de aferição, uma vez que, ao contrário das finais, entretanto eliminadas, se realizam na última semana de aulas ou, no caso do 8º ano, após a última semana, não havendo interrupções durante o 3º período e permitindo a lecionação efetiva de todos os conteúdos até ao final do ano, como me parece lógico. O alargamento das provas às outras áreas do currículo é coerente, evita o “estreitamento” curricular e contribui para uma valorização da diversidade de conhecimentos essencial para a formação do aluno. 3. E o que pensa relativamente às alterações anunciadas para o 9º ano? Quanto ao 9ºano, tratando-se do culminar da preparação para o secundário, julgo que a realização das provas se justifica, mas deverá abranger também outras áreas do currículo.

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ESCOLA SOLIDÁRIA Um Projeto de Todos para Todos Clara Fernandes

O Projeto Escola Solidária visa o apoio das famílias do Agrupamento em parceria com outras instituições e com o voluntariado de vários elementos da comunidade educativa A professora Alexandra Varela, que coordena o projeto e leciona EMRC, explica como tudo começou: -Bem, a própria disciplina de EMRC promove e valoriza iniciativas de cariz social e procura desenvolver nos seus alunos comportamentos assertivos, solidários e humanitários. Tudo começou no ano letivo 2011/2012 porque já existia uma parceria com o ATLAS e a coordenadora procurou articular comigo no sentido de o ATLAS começar a apoiar o Agrupamento. O ATLAS é o parceiro de sempre – entrega mensalmente 11 cabazes a famílias carenciadas. Os beneficiários são sinalizados pelos diretores de turma ou professores titulares. Algumas sinalizações são enviadas para o ATLAS, para que as necessidades sejam satisfeitas, dentro das possibilidades da organização; outras são apenas para material escolar ou roupa e por isso conseguimos satisfazer esses pedidos com o

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Profª Alexandra Varela

material da Loja Solidária, oriundo das campanhas de angariação de bens diversos. A Loja é recheada com a grande participação da comunidade que se envolve e é muito participativa. Fico muito feliz quando vejo que os Encarregados de Educação são generosos e sensíveis aos pedidos.Na Loja , a organização cabe aos alunos do ensino secundário inscritos em EMRC.A maioria dos beneficiários não são estrangeiros, é mesmo a população local. Agora temos parcerias com outros projetos também que funcionam muito bem.O projeto Mindup coopera com a Escola Solidária realizando atividades que promovem a partilha e desenvolvem o sentimento de interajuda.. P&V – E que outras atividades desenvolvem ? AV – Realizamos diversas atividades: a campanha “Desperdício zero” em parceria com o GIC – o que resultou na diminuição do desperdício de refeições adquiridas e não consumidas; o Mercado Solidário cujo produto reverte para pagamento de medicamentos e consultas médicas aos alunos mais carenciados AV- P&V -E , dia a dia, como se gere isto tudo? AV - No concreto a comunicação, é fundamental.

Se a comunicação não é de proximidade não se conseguem os objetivos do projeto. No dia a dia é estar atento, ver com os olhos, com o coração. Muitas coisas se passam na vida dos nossos alunos que não são ditas mas que as suas expressões e o seu olhar revelam. É preciso estar atento e acolher, é preciso ser justo nas apreciações que fazemos e na análise das situações, e por esse motivo os diretores de turma devem estar envolvidos, assim como a comunidade educativa. Este projeto é uma rede, rede solidária, de afetos, de esperança e de trabalho, porque há sempre muito trabalho para fazer na loja e na organização de atividades. Este ano, a equipa alargou, por isso o projeto conta com mais elementos que são muito importantes. O projeto conta, também, com muitos alunos voluntários que me enchem de orgulho pela sua entrega e participação : “de todos para todos”, é fabuloso sentir a gratidão que nasce da partilha!


VAMOS CONHECER O GAAF!

Clara Fernandes

Susana Jacinto e Milena Lopes apresentam-no. O Gaaf (Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família) constitui uma resposta de apoio sócio educativo existente no agrupamento de escolas, e tem um procedimento estruturado, com o objetivo de agilizar o processo de intervenção e definir se a cada sinalização estamos perante uma situação de perigo ou risco, pois existem procedimentos diferenciados para cada uma destas. Assim, e sempre que um professor, um funcionário, um pai ou um familiar, e até mesmo, um aluno, tenha conhecimento de situações, que coloquem em risco a sua vida, ou a de outrem, essa deve ser comunicada à Equipa GAAF. Estas situações estão tipificadas como: problemáticas de natureza individual (abandono escolar; absentismo escolar; problemas de comportamento ; desinteresse escolar; dificuldades de integração; comportamentos aditivos; mau trato psicológico; mau trato físico; doença); e problemáticas de natureza familiar (família disfuncional - negligência; problemas económicos; conflitos Familiares; práticas desviantes; comportamentos aditivos; divórcio; doença; luto).

A sinalização pode ser oficializada através do preenchimento de um impresso próprio, contudo o pedido de ajuda inicial pode ser feito através do atendimento no GAAF da Escola Básica Guilherme Stephens ou da Escola Sec. Engº Acácio Calazans Duarte. Feita a sinalização, começa a intervenção que passa por um processo de articulação com vários intervenientes , dentro da comunidade escolar e dentro da comunidade educativa, como é o caso por exemplo, da CPCJ – Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, do CLDS – Contrato Local de Desenvolvimento Social, do CAFAP – Centro de Atendimento Familiar e Aconselhamento Parental, da Segurança Social, do Centro de Saúde, da Polícia da Escola Segura, entre muitos outros. Milena Lopes afirma que a equipa tem promovido atividades de ocupação saudável dos tempos livres dos alunos acompanhados pelo Gabinete, nos períodos de férias. Para isso, vão sendo feitas iniciativas de angariação de fundos. A última foi a Noite de Fados que a Associação de Pais gentilmente organizou e à qual o GAAF muito agradece. Para além disso são aceites, naturalmente, donativos de roupas, calçado,

material escolar, bem como trabalho voluntário na organização de atividades ou eventos com os alunos. Toda a ajuda é bem-vinda! Susana Jacinto partilhou ainda uma reflexão pessoal , dizendo ter aprendido que muitas vezes, estes meninos e meninas precisam de um refúgio, de um porto seguro, precisam de ser escutados, entendidos e respeitados nos seus desafios diários, precisam de alguém que acredite neles, que os motive a sonhar, e que lhes transmita confiança; claro que a equipa tem a noção de que, para alguns, isto é muito simples de alcançar, para outros, é uma autêntico turbilhão. Assim, compete a todos aqueles que os rodeiam responder a estes desafios, contudo, tal facto só é possível quando Acreditamos na Mudança e quando nos envolvemos na Transformação! Ficamos com a mensagem…e voltaremos ao GAAF !

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Formação “ Mind-Up com a Formadora Joana Sampaio de Carvalho

ESTAR NO “AQUI E AGORA” PARA APRENDER A SER Clara Fernandes

P&V - Como surgiu esta formação – inovadora e “estranha” para alguns - neste Agrupamento? JC -Esta formação surgiu há cerca de 5 anos atrás quando estava a iniciar o meu estudo de doutoramento em Piscologia da Educação (Universidade de Lisboa e Universidade de Coimbra). Através de uma rede online sobre mindfulness na educação, contactei com o professor Fernando Emídio que na altura se interessou em levar a formação a um pequeno grupo de professores (9/10). Nos anos seguintes, o Fernando deu seguimento à implementação do programa nas turmas do 1º ciclo e, no final do passado ano letivo, voltou a contactar-me para desenvolver mais um curso de formação para um grupo de cerca de 30 professores (maioritariamente do 1º ciclo). E aqui estamos. P&V -A Direção do Agrupamento foi recetiva a estas novas metodologias? JC -A Direção do Agrupamento recebeu-me de braços aberto e facilitou todo o apoio logístico necessário. O seu interesse e vontade na integração das abordagens mindfulness em contexto educacional demonstra que a Direção está empenhada na promoção do

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desenvolvimento integral das crianças e jovens ao nível emocional e académico. E, ainda, que está empenhada em “cuidar” do bem-estar dos Professores! ( Sorrisos...) P&V –Como decorreu a formação? O que aprenderam os formandos? JC –Os professores aprenderam estratégias para regular as suas emoções, a estarem mais conscientes dos seus comportamentos em sala de aula, e a aceitarem-se tal como são. Para além disto, aprenderam estratégias para ensinarem aos alunos como treinar a mente para estar mais consciente e atenta ao que acontece, estratégias para regularem as suas emoções, para compreenderem as emoções dos outros e para agirem com delicadeza e bondade para com os outros.Os professores começaram a aplicar o programa MindUp com os seus alunos e alguns relataram que ao fim de 6/7 sessões (metade do programa) sentiram as suas turmas “mais calmas”. Durante a oficina de formação, os professores tiveram ainda a oportunidade de planear atividades para as suas escolas (fora das suas salas de aula) de forma a contribuir para promoção do bem-estar de todos os elementos da comunidade educativa.

P&V -Um balanço da formação? JC- Deixo aqui 3 testemunhos da” árvore da gratidão” que construímos em conjunto no final da formação: “Oportunidade de reflexão sobre mim e sobre as minhas práticas”; “Sinto-me grata por ter oportunidade de aprender a repensar as minhas práticas pedagógicas”; “Grata pelas experiências que me ajudaram a estar cada vez mais consciente no “aqui” e no “agora” e a aproveitar cada momento como uma bênção.”; “Aprendi a conhecer-me melhor. Descobri coisas de que nunca me tinha apercebido”. P&V-Para terminar, pedimos uma mensagem que quisesse deixar à comunidade educativa. JC - Dalai Lama diz-nos “Tenho esperança que venha o tempo em que poderemos dar por garantido que as crianças aprenderão, como parte do currículo, a necessidade e importância dos valores internos: amor, compaixão e perdão.” Hoje ainda não podemos dar por garantido isto, mas o caminho neste sentido já se iniciou aqui na Marinha Grande e cabe a cada um nós, em colaboração com outros, continuar a construir este caminho, porque, como diz Aristóteles. “educar a mente sem educar o coração, não é educação”.


PALAVRA AOS PAIS

COMPROMISSO Jorge Castanho Presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Secundária Eng.º Calazans Duarte

O compromisso não tem horário marcado. Quando o assumimos, devemos estar conscientes das nossas responsabilidades em relação a ele, seja ele de que tipo for. Todos temos compromissos, uns mais do que outros, mas não estou a falar de financeiros, esses são de outro tipo que não são para falar aqui. Os compromissos de que falo são os compromissos connosco, com a nossa família, com a nossa vida, com as pessoas, com o trabalho, com o estudo, com os nossos animais domésticos, etc... O cumprimento dos horários é um compromisso que uma grande parte da nossa sociedade não consegue cumprir, quer sejam as pessoas, quer sejam as instituições. Chegar atrasado/a é uma situação normal e constante para muitas pessoas. Nas instituições, também não estamos melhor. Quantas vezes vos aconteceu ter uma marcação para uma consulta, por exemplo, e na hora marcada não acontece nada a não ser ter de esperar, esperar…? É preciso que as pessoas vejam o cumprimento dos horários de entrada ou de início de algo tal como veem os de saída ou de fim. Os pais têm o compromisso de cuidar, educar e proporcionar um desenvolvimento saudável dos seus filhos. Devem levá-los para a escola e também dar-lhes o acesso à cultura e ao desporto. Será que os filhos não têm também compromissos? É claro que têm. Se os pais lhes proporcionam os meios, os filhos têm o compromisso de os usarem e tirarem o maior proveito possível. Para tal devem estudar e esforçar-se por aprender tudo o que lhes é ensinado. Este é o compromisso dos filhos enquanto alunos, pois enquanto

andam a estudar nada mais fazem, portanto este é o seu principal compromisso. É isto que se espera de todos os filhos e alunos. Falando em estudar, a escola também tem compromissos. A escola deve proporcionar um bom ambiente de estudo e trabalho para alunos e professores. Os professores comprometeram-se a ensinar os alunos, mas para isso precisam de ter um ambiente agradável e produtivo, o que nem sempre é fácil, pela falha do compromisso de alguns alunos. Muitas vezes, para conseguirmos cumprir os nossos compromissos, sejam eles de que tipo forem, estamos dependentes dos outros. Neste caso, passamos a ter compromissos mútuos que só são possíveis se ambas as partes estiverem comprometidas na realização do mesmo, por exemplo, numa sala de aula ou em trabalhos de equipa. Este tipo é mais complicado, pois ambos têm de estar em sintonia. Normalmente, como humanos que somos, achamos que deve ser sempre o outro a cumprir primeiro para depois fazermos nós a nossa parte. Porque não damos

nós o primeiro passo e assim mostramos boa vontade no cumprimento dos objectivos mútuos? Não custa assim tanto, mas para isso é preciso haver humildade. Este é um dos segredos do compromisso, a humildade. Enquanto acharmos que deve ser sempre o outro a cumprir primeiro, é porque não temos humildade para dar o primeiro passo. Assim ficamos num círculo vicioso de onde nunca mais saímos. Vamos todos dar um passo no sentido do cumprimento dos nossos compromissos e assim ajudamos os outros a cumprirem os deles. Passo a passo, vamos mudar a nossa forma de agir e assim podemos mudar a nossa casa, a nossa escola, a nossa cidade, o nosso país e, quem sabe, talvez mudar o mundo para melhor! Vale a pena tentar!

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ASSOCIAÇÃO DE PAIS? PORQUÊ E PARA QUÊ? A.P.E.B.A – Associação Pais Escola Básica Amieirinha

Esta é a pergunta que assola as nossas mentes quando deixamos o conforto das nossas casas para rumar em direcção à escola para planear, discutir, analisar, e até mesmo inventar a forma de como podemos dotar da melhor forma o espaço físico em prol de um crescimento físicointelectual e emocional dos nossos filhos, crianças hoje, adultos amanhã. É com base nestes princípios que ao longo desde vários anos temos vindo a melhorar as condições tanto do exterior como do interior da nossa escola. Desde a colocação de toldos, pintura do interior, aquisição de material de apoio ao estudo, como obras literárias, mas também proporcionando momentos de lazer às nossas crianças com a compra de brinquedos para a hora do intervalo, entre outas.

Neste sentido, apelamos aos pais e educadores que se unam a nós para que, juntamente com o corpo docente, possamos agir de forma a colmatar as necessidades, que muitas vezes são da responsabilidade do poder local e central. Assim, toda a comunidade escolar se sentirá mais motivada para transmitir os quatro saberes necessários à boa formação destas crianças, preparando-as para um futuro de incertezas: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a conviver; aprender a ser. É então que encontramos dentro de nós, Associação, resposta à pergunta inicial. Não podemos ficar à espera que as coisas aconteçam. É importante que alguém decida fazer alguma coisa, há que arregaçar as mangas

e pôr as mãos à obra, abrindo a mente para uma realidade que provavelmente não terá passado pela mente da maioria de nós. Ao lutar pelos nossos filhos, estamos a contribuir para um futuro melhor para toda a humanidade. E é por isso que inventamos e promovemos eventos, na perspetiva de dotar as salas de aula de melhores condições para uma melhor aprendizagem. Convidamos todos a visitar a nossa página no facebook, para nos conhecerem melhor e se juntarem a nós na procura diária de um coração confortado. https://www.facebook.com/EscolaB%C3%A1sica-Amieirinha363943557133599/?fref=ts

"TODAS AS GRANDES PERSONAGENS COMEÇARAM POR SER CRIANÇAS, MAS POUCAS SE RECORDAM DISSO" Associação de Pais da Escola Básica da Moita A Associação de Pais da Escola Básica da Moita procura defender os interesses morais, culturais e físicos das crianças. Na mira tem sempre como objetivo principal melhorar as condições para o seu desenvolvimento e bem estar. Nessa medida, e para que possa angariar fundos, dinamiza atividades com o intuito de obter verbas que permitam dar resposta às necessidades prementes e possibilitem, ao longo do ano, tornar economicamente viáveis as celebrações com as crianças (Festa de Natal/Festa de encerramento do ano letivo/Ofertas do dia do bolinho/Dia da criança/entre outras). Entendemos que a escola, enquanto espaço institucionalizado, deve ser vista sob a ótica de uma organização sócio-cultural, no qual interagem professores, alunos e famílias com um

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objetivo comum: o sucesso educativo. Na Escola Básica da Moita, a maior dificuldade são as condições físicas/espaço; assim, a Associação de Pais desta escola tem na sua lista de prioridades a reabilitação do recinto escolar: - Requalificação dos espaços, através da construção de dois telheiros para abrigar as crianças no intervalo e na passagem do edifício até à saída. - Reparação da alpendurada que dá acesso às salas de aula. - Pavimentação do local onde as crianças jogam futebol/brincam. - Verificação do sistema de drenagem de águas pluviais. O nosso principal foco: as crianças… cientes de que o que se faz agora com elas é o que elas farão depois com a sociedade. Não conseguimos

Antoine de Saint-Exupéry

tudo o que desejaríamos para que as condições sejam as melhores. Mas tentamos, e esperamos que, pelo menos, acolham o exemplo…


Existem por aí muitos príncipes e princesas obesas? S.R: Infelizmente sim… Os estudos mais recentes indicam que em cada três príncipes (ou princesas), um é obeso. E estes números são preocupantes, sobretudo se pensarmos em todos os riscos que surgem associados à obesidade e que afetarão certamente a qualidade de vida destes príncipes e princesas. O que é que os reis e rainhas deste país podem fazer? É uma condição genética ou tem a ver com hábitos alimentares incorretos? S.R: Pelo que se sabe atualmente, raramente a causa da obesidade é genética (só em cerca de 3% dos casos). Prende-se sobretudo com os estilos de vida: alimentação e atividade física, sobretudo. Numa tentativa de dar aos seus filhos tudo aquilo que não tiveram enquanto crianças, ou para compensar o pouco tempo que passam juntos, os pais acabam por comprar alimentos processados hipercalóricos, ricos em sal, gordura e açúcar, que pouco ou nada contribuem para a verdadeira nutrição das crianças. As crianças, que são muito mais suscetíveis ao marketing e publicidade, optam naturalmente por alimentos em embalagens de cores garridas. Sobretudo se vierem acompanhadas de brinquedos. E por terem um paladar menos desenvolvido que o de um adulto, rejeitam frequentemente alimentos com sabor amargo (onde se enquadram quase todos os vegetais, por exemplo). Os reis e rainhas devem acima de tudo dar o exemplo, já que as crianças tendem a imitar os seus adultos de referência, e adotar estilos de vida saudáveis (fazer uma alimentação

equilibrada e diversificada, beber água, praticar atividade física...). O que fazer quando as crianças recusam outros alimentos mais saudáveis e fazem birras? S.R: Sem forçar nem obrigar de forma violenta, deve oferecer-se repetidamente a uma criança o alimento que recusou, explicando a importância do seu consumo e dando o exemplo, consumindo-o também. Aos poucos, a criança vai percebendo que deve comê-lo e acaba por se habituar ao novo paladar ou textura. A solução poderá passar por apresentar o mesmo alimento confecionado de uma forma diferente, por exemplo. Pode no entanto acontecer que a criança não goste mesmo de um determinado alimento, e aí pode ser negociada a sua substituição por um análogo. Fala-se que as crianças que são obesas quando chegarem à adolescência deixam de o ser, e há como que um desvalorizar da situação. É verdade que isso acontece? Que problemas de saúde acarreta a obesidade para as crianças e jovens? S.R: Pode acontecer que nalguns casos, o rápido crescimento observado na adolescência mascare ou disfarce uma obesidade. Mas ninguém deixa de ser obeso se não alterar os seus estilos de vida. A obesidade infantil é um forte preditor da obesidade na idade adulta. Para além disso, contribui para o aumento do risco de hipertensão arterial, dislipidémia, diabetes e doença cardiovascular, doenças características dos adultos, mas que surgem cada vez mais nos mais jovens. Convém relembrar que estas são

doenças crónicas. É um legado que nenhum rei ou rainha quer deixar aos seus pequenos príncipes. O que temos que fazer para combater este problema? S.R: Continuar a passar a mensagem de que a obesidade infantil é uma doença. Que afeta as crianças física e psicologicamente. Mas que tem tratamento, sendo o envolvimento de toda a família uma condição essencial para o sucesso. Aumentar o conhecimento da população sobre os riscos da doença e sobre as formas de prevenção e tratamento faz com que cada indivíduo possa, de forma consciente, tomar decisões válidas sobre o seu estilo de vida. Esta capacitação transforma qualquer pessoa num "guerreiro", capaz de se envolver no combate a esta epidemia. Creio que o principal "erro" que se está a cometer (um pouco por todo o mundo) é a fraca aposta na prevenção. Os cuidados de saúde primários e o papel da própria comunidade continuam a não ser devidamente valorizados, havendo uma clara aposta no tratamento depois da doença se manifestar. Uma inversão destas políticas traduzir-se-ia na poupança de muito dinheiro e, acima de tudo, de muitas vidas. Talvez um dia, quem sabe... Enquanto nutricionista, quero acreditar que a divulgação de materiais como este livro pode contribuir para o aumento do conhecimento sobre esta doença e assim ajudar na prevenção.


BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS PRECISAM-SE Alice Marques

No ano de 2015, os Bombeiros Voluntários da Marinha Grande prestaram cerca de 11 mil serviços, uma média que ronda os 30 diários, percorrendo 406 mil quilómetros de estrada. Reconhecidos por apagar fogos, o que no concelho representa uma percentagem mínima de serviço (5 a 10%, conforme a época do ano), eles são contudo quase invisíveis naquela que é a sua ação mais nobre e humanitária: o transporte de doentes. O Ponto & Vírgula junta-se à campanha da Associação dos Bombeiros Voluntários da Marinha Grande, dando visibilidade ao seu trabalho mais desconhecido, que acompanhou durante 24 horas. Faltam poucos minutos para as 8 da manhã. A cidade já fervilha de vida e, no quartel dos bombeiros, onde um piquete de doze homens e mulheres assegurou o serviço noturno, vai começar um novo turno. Renato Gonçalves, tripulante de ambulância, faz o primeiro serviço do dia: recolher doentes e deixálos na Polidiagnóstico para os tratamentos de fisioterapia. No Pilado, primeira paragem deste roteiro matinal, dona Celeste Mendes espera a c h e ga d a d a a m b u l â n c i a , s i l e n c i o s a e

pontualíssima. Partiu uma perna vai para seis meses e recupera lentamente da operação, com tratamentos de fisioterapia. As suas palavras de reconhecimento vão em primeiro lugar para o Renato, “uma pessoa espetacular” que representa da melhor maneira um serviço de que ela continua a precisar. No Rego da Garcia aguarda o senhor Olívio Santos, cuja maleita não o impede de entrar na ambulância pelo seu próprio pé. Na Tojeira de Picassinos, apanhamos o senhor Dionísio Alves; mas até que o grupo fique completo, ainda há algum caminho a percorrer e Renato tem disponibilidade para responder às perguntas da repórter. Tornou-se bombeiro voluntário com 28 anos e faz este transporte há sete. Reconhece que o transporte de doentes ditos não urgentes é porventura o trabalho mais ignorado dos bombeiros, exceto por aqueles que beneficiam dele. Fala do voluntariado nos bombeiros como algo que está em extinção, porque “este não é voluntariado qualquer. Entramos como voluntários e podemos trabalhar também como funcionários assalariados, mas estamos vinculados ao compromisso que assumimos desde

o primeiro dia: fazer 4 noites por mês (das 20:00 às 8:00) e integrar a brigada de fim de semana mais ou menos duas vezes por mês”. Assalariado ou em voluntariado, Renato faz este serviço com um enorme sentido de humanidade. Conhece as histórias dos doentes que transporta, “a maioria vítimas de quedas ou de AVC's”, as suas solidões e as suas dores, e para alguns ele é a primeira voz que eles ouvem pela manhã. Uma paragem dentro da cidade para acolher o senhor Horácio Frederico, vítima de 13 AVC's, interrompe a conversa. É preciso empurrar a cadeira de rodas e instalá-la com segurança na ambulância. À medida que vão ocupando os seus lugares, vão pondo a conversa em dia. Falam do tempo frio, da chuva, dos estragos, das suas melhoras que tardam, às vezes de conhecidos que já se foram. Seguimos para a Moita, onde o senhor Joaquim Marcelino, também vítima de um AVC, já espera apoiado em muletas. O último doente é apanhado na Ordem, e à hora prevista, chegamos à Polidiagnóstico, onde, com os cuidados que cada um exige, Renato encaminha todos para os tratamentos.

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“Chamado à central” A central de comunicações é o lugar a partir do qual todo o serviço é distribuído. Desde as 8 horas, Ângela Rosário divide-se entre o atendimento pessoal e o telefónico, e chamando à central os bombeiros para os serviços de emergência. Ficará até à hora de almoço e voltará para o turno da noite. Profissionalmente, Ângela é operadora de telecomunicações e como bombeira voluntária é socorrista, o que significa, nos dias do compromisso, sair também como segunda tripulante nas ambulâncias. Veio para os bombeiros com 18 anos e tem outros tantos a trabalhar aqui. Contra a vontade do pai, que queria que ela seguisse Psicologia ou Jornalismo, deixou a escola quando terminou o 12º ano. “Um erro que”, garante-nos “não vai deixar o seu filho, de 14 anos, fazer”. Ele há-se prosseguir estudos na Universidade. Uma chamada telefónica para marcar transporte para uma consulta obriga a repórter a procurar conversa com outros bombeiros. Entretanto, Susana Duarte e André Granja, acabados de entrar na central, falam da sessão no auditório da Calazans Duarte. Cinco turmas do 12º ano no Auditório, algumas perguntas, mas apenas uma inscrição, de um jovem que deverá integrar a próxima recruta. Pedro Silva, bombeiro voluntário há 10 anos, depois de ter sido militar em Tancos, disponibilizase para apresentar a frota desta corporação. Tal como todos os bombeiros, trata pelas siglas todos os veículos (ABTD, ABTM, VCOT, VETA, VUCI, VFCI… e muitos outros) enquanto vai fazendo a

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visita guiada e explicando as caraterísticas e finalidades a que se destinam. Uma passagem pelo espaço apertado onde repousam algumas peças de museu é pretexto para ele explicar que “aqueles pequenos carros de bombeiros eram puxados por bombeiros, não por animais”. De volta à central, informo-me sobre o pessoal da corporação: são 81 bombeiros, 29 mulheres e 52 homens, distribuídos pelo quadro de comando, quadro ativo e estagiários e cadetes. Cruzo-me com Hermínio Fortes. Natural da Figueira da Foz, onde se tornou bombeiro voluntário aos 13 anos, é soldador de profissão e bombeiro voluntário de paixão. Veio para a Marinha Grande há 30 anos e está nesta corporação há 20. Como soldador, viaja em trabalho por todo o mundo, mas na Marinha Grande a sua casa é o quartel dos bombeiros. Às vezes dorme aqui a noite em que volta dum trabalho, mesmo antes de ir a casa. De regresso ao quartel após um intervalo para o almoço, registo o serviço da tarde. Um incêndio urbano exige uma saída de emergência dum VUCI. Foi alguém que se esqueceu duma panela ao lume, um vizinho viu o fumo e telefonou para os bombeiros, mas à chegada destes, e também do carro da PSP, já a dona de casa tinha dado pelo perigo e retirara a panela que arrefecia na varanda. Transporte de doentes para o Hospital de Leiria – uma doença súbita e uma queda- fazem sair mais duas ambulâncias, uma delas, a do INEM gerida pelos bombeiros, sempre a primeira a ser usada nas emergências. Ficará retida no Santo André

cerca de duas horas, até os serviços hospitalares libertarem a maca, o que, dizem “é cada vez mais comum”. Até às 22 horas, pode dizer-se que foi um dia calmo. Há um último trabalho de rotina, no qual volto a acompanhar o bombeiro Renato Gonçalves: apanhar os doentes do último turno da hemodiálise, nos Parceiros, e deixá-los em casa. Quem desconhecesse o tipo de clínica de que se trata, poderia pensar que aconteceu por perto um grave acidente. Mais de uma dezena de ambulâncias alinham-se no estacionamento e o hall está literalmente cheio de bombeiros. Este serviço há muito que é assegurado por eles, que durante muito tempo o partilharam com táxis, mas há três anos que é sua tarefa quase exclusiva. Instalados nos seus lugares na ambulância, estão de regresso a casa a senhora Iria, o senhor Gil, o senhor Farias e o senhor Puidival. Conversam animadamente sobre “o peso que hoje as máquinas lhes tiraram”, as dietas recomendadas que cumprem ou não. O senhor Joaquim Puidival, a fazer diálise há 20 anos, conta a sua história. Dado como curado de um problema cancerígeno, já na diálise, teve oportunidade de fazer um transplante renal. Contudo, o médico avisou-o de que o tratamento pós transplante poderia trazer de volta o cancro. Não hesitou um minuto e comunicou: “Nada de transplante, vou fazer diálise até ao fim da minha vida”. Vinte anos depois, a diabetes destruiu-lhe a retina, cegandoo. Renato é os seus olhos quando o deixa dentro de casa às 23 horas.


Fotos: André Granja

“Isto não é Chicago Fire” Todos os bombeiros que falaram à reportagem do P&V são fãs da série Chicago Fire e de todos os filmes sobre bombeiros. Mas todos reconhecem as diferenças entre ficção e realidade e sabem que Marinha Grande não é Chicago. Nos EUA, diz Pedro Silva, “os bombeiros são altamente considerados, especializam-se num tipo de serviço, são grandes profissionais”. Mas ele gosta é de trabalhar nas ambulâncias. João Mesquita, aluno do curso profissional Auxiliar de Saúde na Calazans Duarte, é estagiário na corporação. Admite que “séries americanas sobre bombeiros são o que mais contribui para associar os bombeiros aos fogos e ignorar todos os outros serviços”. A valorização da profissão nos EUA não tem comparação com Portugal, diz este jovem bombeiro: “aqui somos bombeiros por razões

humanitárias, por isso muitos jovens não veem incentivo nenhum para ser bombeiro; até alguns direitos que os bombeiros tinham, por exemplo a isenção das taxas moderadoras, foram retirados”. A direção da Associação dos BVMG e o comando da corporação têm perfeita consciência de tudo isto e essa é a razão por que estão a levar a cabo a campanha para recrutar bombeiros. Mas são muitos mais os problemas que enfrentam, como o P&V soube na reunião de direção da associação com o comandante Vítor Graça, decorrida madrugada dentro. “Tudo se reclama aos bombeiros, mas há um grande desconhecimento do que é o seu trabalho e há muita indiferença da população e das empresas relativamente às suas dificuldades” é a queixa geral. Esta indiferença pode ser ilustrada pela participação nas assembleias gerais da associação: de 4000 mil sócios, a última assembleia geral contou com a

presença de 4. De momento, confirma o comandante, “os bombeiros só funcionam graças ao apoio do Presidente da Câmara, pois é ele que decide o subsídio a atribuir”. A missão dos bombeiros inclui ainda serviços diversos prestados às associações, às escolas, gratuitamente, que representam uns milhares de euros na despesa anual. A quota anual de 15 euros por sócio (7,50 para os reformados) é uma receita bem vinda mas pouco significativa. Aumentá-la é também um objetivo da campanha. Daí a iniciativa, prevista na lei, de, na declaração de IRS, assinalar uma % para ser entregue a uma IPSS em vez de ser entregue ao estado. No caso, basta registar o nº contribuinte da ABVMG (501 137 106) e 0,5% será entregue a esta Associação. Qualquer cidadão pode fazê-lo e isso pode fazer toda a diferença.

Os novos recrutas Recrutar mais 30 bombeiros é objetivo do Comando e da AHBVMG. Mas a reunião de receção destes potenciais recrutas demonstra que não será tarefa fácil. De quase duas dezenas de inscritos, compareceram apenas cinco. O Comandante Vítor Graça, o 2º comandante, Mário Silva, e o adjunto de Comando António Peralta recebem-nos na sala de formação instalada na torre. Querem conhecê-los, perceber as suas motivações, saber ao que estão dispostos para cumprir os compromissos que assumirão se vierem a ser bombeiros. São jovens, estes candidatos. Estudantes na escola Calazans dois deles, o João Pedro Leal e o Bernardo Martins. Todos declaram trazer como motivação o exemplo de familiar e a vontade generosa de fazer alguma coisa pelos outros. Carla Pedro, cujo irmão é bombeiro, há muito que “quer fazer voluntariado” e veio “contagiada pela paixão com que o irmão se dedica ao trabalho nos bombeiros”. Bernardo Martins andou na Escola de Infantes três anos e perguntava insistentemente “porque é que não cresço mais depressa para ir para a recruta”. Tem agora 17 anos e é uma das mais promissoras

apostas destes novos recrutas. João Pedro Leal debateu-se, tempos atrás, com a resistência da mãe, que acha que “ser bombeiro é um trabalho muito arriscado”; mas a mãe cedeu e ele voltou, disposto a levar adiante a sua vontade de ser bombeiro. Hugo Batista já por cá passou, mas não resistiu às exigências da formação inicial (250 horas, duas noites por semana, durante meia dúzia de meses). Mas quando “ alguém da família precisou dos bombeiros” teve um rebate de consciência e agora “vem para ficar”. “Mas primeiro está a escola”, não se cansa de repetir o comandante. Testa a sua resistência dando-lhes a conhecer as regras, a exigência absoluta de assumir o compromisso e cumpri-lo. Porque, como reforça o 2º comandante, um dos formadores destes recrutas, “cá dentro não somos voluntários”. Com uma adesão de potenciais recrutas longe das expetativas, o comando investe na Escola de Infantes, 25 jovens, entre os 6 e os 16 anos que aqui começam a adquirir conhecimentos básicos e a formar o caráter. Para se tornarem bons voluntários e chegarem, alguns, a bons profissionais, em suma serem bombeiros.

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UMA VISITA A OUTRA DIMENSÃO João Faria

Volta. As pessoas, a andar. O relógio, a passar. Atrás. O fim, a aproximar. A luz, a acabar. Tempo. Destino final. Doloroso, e fatal. Mas. Passado, frio. Preso, por um fio. Volta. Atrás.

POESIA, NOVIDADE, MARGINALIDADE, LIBERDADE Margarida Amado

Negreiros (também pintor), Mário de Sá- Dessa novidade, marginalidade e liberdade Carneiro, os que se destacam como ficam extatos do poema Manucure – No início do século XX europeu, marcado pela responsáveis por esta revolução. Apoteose (1915) de Mário de Sá Carneiro: catástrofe da primeira guerra mundial, surge uma série de movimentos artísticos, a que chamamos vanguarda, alguns deles depois continuados. Há quem diga que é possível apontar três parâmetros para caracterizar a ideia de vanguarda: a novidade, a marginalidade e a liberdade. Ezra Pound, o grande poeta americano e figura maior do movimento modernista, resumiu tudo numa frase: Make it new. Evidentemente, a novidade e a liberdade não podiam restringir-se a um único movimento. Falamos assim de futurismo, expressionismo, cubismo, ultraísmo, dadaísmo, surrealismo, purismo, construtivismo, neoplasticismo, abstrativismo, babelismo, zenitismo, simultaneísmo, suprematismo, primitivismo, panlirismo... Em Portugal, a primeira grande manifestação literária modernista foi a revista ORPHEU, surgida em 1915. Também nela é possível encontrar vátios “ismos”, do paúlismo ao interseccionismo e ao simultaneísmo, do futurismo ao sensacionismo e outros. São poetas como Fernando Pessoa, Almada

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11º E - Artes Visuais smo com a te criado o Dadaí en lm ia ic of é 16 o Ball, Em 19 Voltaire, por Hug t re ba Ca do ão apresentaç ue. na cidade de Zuriq ada, esta ndida e detest ee pr m co in a oc numa Na ép a transformar-se io ve te ar tian Vanguarda s movimentos ncia para muito rê fe re te an rt po im lo XX. ire… artísticos do sécu ra do Cabaret Volta tu er ab da is po Cem anos de s Artes de 11º ria da Cultura e da tó is H de la au . Estes a um desafio dadaísta um ra pa ço pa es o ndo a ano foi ístas, feitos segu da da as em po são alguns Tzara. receita de Tristan


8 DE MARÇO – SOU FEMINISTA Catarina Sousa

Camille Claudel

No dia 8 de Março celebra-se o Dia Internacional da Mulher e esta data é apenas assinalada devido à morte de 130 operárias num incêndio dentro da fábrica onde trabalhavam, que decidiram manifestar-se contra as condições de trabalho a que eram expostas. Apesar de se ter tornado um dia aproveitado para o comércio de produtos de beleza (perfumes, roupa, vernizes, lingerie), não quer dizer que não lhe possa ser atribuído o seu verdadeiro significado. Eu considero-me feminista e quero continuar esta luta por direitos iguais e reconhecimento como um ser humano igual e digno destes direitos. As feministas dos anos 70 descobriram uma imensidão de mulheres que ajudaram a produzir e a divulgar a cultura e têm-se esforçado imenso para lhes dar a visibilidade que tanto merecem. Uma destas mulheres que foi descoberta é

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Camille Claudel, escultora francesa do movimento impressionista. Camille Claudel nasceu a 8 de Dezembro de 1864 em Aisne e desde pequena que fazia pequenas esculturas de ossos, animais e de pessoas da família com uma semelhança e fidelidade ao mundo real que sempre emocionou o seu pai, que lhe foi providenciando todos os meios possíveis para que Camille pudesse desenvolver essas capacidades e ir mais longe do que lhe era imposto. A mãe, pelo contrário, não via este talento com bons olhos e descrevia-o apenas como um capricho da filha; apesar disso, Camille queria tornar-se numa escultora reconhecida. Em 1881, aos 17 anos, Camille sai de casa para viver e estudar em Paris. Após entrar na Academia Colarossi, conhece Auguste Rodin que tinha na altura 41 anos. Nesse ano foram produzidas as primeiras esculturas que conhecemos dela. Quatro anos depois, em 1885, Rodin aceitou Camille no seu ateliê como sua aprendiza e colaboradora. Colaborou com Rodin na “Porta do Inferno” e no monumento “Os burgueses de Calais”, as obras mais importantes do escultor. Deixou a sua família pelo amor à escultura e continuou a trabalhar vários anos com Rodin até que se acabam por envolver numa paixão ardente. Mas não era fácil e Camille Claudel deparou-se com dois grandes problemas: depois de prometer várias vezes que iria ficar consigo, Rodin recusouse a deixar a mulher e o filho para assumir o relacionamento e ficar definitivamente com Camille; e a sociedade da época não aceitava o talento de Camille e muita gente afirmava que as suas obras eram meras cópias do trabalho de Rodin ou que era apenas Camille a tentar roubar a fama de Rodin. Para tentar resolver a situação, a jovem escultora deixa de se relacionar com o seu amado visto que, apesar de ela se ter entregado de corpo e alma a este homem, ele ainda mantinha relações com Rose (a sua mulher) e não a defendia contra os rumores da época. Camille entrou então numa grave depressão. Para a historiadora Monique Laurent, ex-diretora do Museu Rodin, “Rodin tinha medo de Camille. A sua inteligência e talento faziam dela uma artista que poderia ultrapassá-lo. Era Camille a encarregada de esculpir pés e,

principalmente, mãos. E era através das mãos que Rodin definia a emoção dos personagens”. Para além destes problemas graves, Camille não se conseguiu recuperar do facto de “A Idade Madura” (a sua obra mais ligada a si) ter sido recusada pela Exposição Universal de 1900, apesar de ter sido encomendada para essa mesma exposição. Em 1913, Camille Claudel foi diagnosticada como louca e paranóica e acabou internada num manicómio. Nunca mais voltou a esculpir e permaneceu nesse local durante 30 anos, até morrer, em 1943, aos 79 anos de idade. Camille Claudel era uma excelente e temida escultora que viu tudo que conquistou por mérito próprio arrancado dos seus braços e foi condenada apenas pelo facto de ser uma escultora mulher. Mesmo após o esforço das investigadoras feministas, até no livro de História e Cultura das Artes, Camille está por detrás do “magnífico” Rodin! Se a minha professora de HCA não me falasse deste caso, de Camille apenas ficava o nome pois ela está descrita como apenas “colaboradora da oficina de Rodin”, o que acho vergonhoso no século XXI. A luta pela igualdade de género ainda não acabou e está muito longe disso. Tomo aqui então essa responsabilidade de continuar o legado de todas as mulheres que sofreram pelo simples facto de serem mulheres. Podem dizer tudo o que quiserem, argumentar o que quiserem, mas este mundo é injusto e metade da espécie humana ainda vive sobre o domínio da outra metade. Já está na altura de haver mudanças e quero ser eu uma das pessoas a fazê-las.

Camille Claudel-La Edad Madura1889-Museo de Orsay


UMBERTO ECO: OS PROFESSORES, A INTERNET E AS VOZES DE BURRO Margarida Amado

A INTERNET E AS VOZES DE BURRO Morreu no passado dia 19 de fevereiro Umberto Eco, um vulto maior da cultura europeia. Nascido em Itália, em 1932, distinguiu-se como escritor, filósofo, semiólogo, linguista... Ensinou em várias universidades na Europa e nos Estados Unidos. Entre as suas obras literárias mais conhecidas conta-se O Nome da Rosa, romance que deu origem ao filme com o mesmo nome, visto por milhões de espetadores. O P&V, jornal escolar, publica hoje, como forma de homenagem ao ensaísta, algumas linhas do artigo Para que serve um professor?, publicado na imprensa, onde escrevia regularmente: Na avalanche de artigos sobre bullying e indisciplina na escola, li um episódio que, dentro da esfera da violência, não definiria rigorosamente como de impertinência máxima… Mas é certamente uma impertinência significativa. Contava que um aluno, para provocar um professor, lhe disse: “Desculpe, mas na época da internet, o senhor, serve para quê?” De facto o aluno dizia uma meia-verdade, que aliás os próprios professores dizem há pelo menos vinte anos e que é que a escola deve dar formação mas sobretudo transmitir noções, desde as tabuadas, na primária, a capital de Madagascar, nos ciclos seguintes, e a Guerra dos Trinta Anos, no ensino secundário. Com o aparecimento, já não digo da internet, mas da televisão e inclusivé da rádio, grande parte dessas noções começaram a ser absorvidas pelas crianças na esfera da vida extraescolar. (…)

Então, para que servem os professores? Afirmei que o tal aluno disse uma meia-verdade, porque antes de tudo um professor, além de informar, deve formar. O que faz que uma aula seja uma boa aula não é que se transmitam dados e dados, mas sim que se estabeleça um diálogo constante, uma troca de opiniões, uma discussão sobre o que se aprende na escola e o que vem de fora. É certo que o que acontece no Iraque é dito pela televisão, mas a razão por que é sempre ali que muito acontece, desde a época da civilização mesopotâmica, e não na Groenlândia, é algo que só a escola pode dizer. (…) Os meio de comunicação de massa informam sobre muitas coisas e também transmitem valores, mas a escola tem que saber discutir a maneira como as transmitem, e avaliar o tom e a força da argumentação do que aparece nos jornais, revistas e televisão. (…) Mas o tal aluno não estava a dizer ao professor que já não precisava dele porque agora existe a rádio e a televisão para lhe dizer onde fica Tombuctu ou o que se discute sobre a fusão nuclear(…) O estudante estava a dizer-lhe que hoje existe a internet, a Grande Mãe de todas as enciclopédias, onde se pode encontrar a Síria, a fusão fria, a Guerra dos Trinta Anos e a discussão infinita sobre o mais elevado dos números ímpares. Estava a dizer-lhe que a informação que a internet põe ao seu dispor é imensamente mais ampla e até mais profunda do que aquela de que dispõe o professor. E omitia um ponto

importante: que a Internet diz “quase tudo”, exceto como procurar, filtrar, selecionar, aceitar ou recusar toda essa informação. Armazenar nova informação, quando se tem boa memória, é algo que toda a gente é capaz de fazer. Mas decidir o que vale a pena recordar e o que não vale a pena, é uma arte subtil. Esta é a diferença entre os que frequentaram a escola regularmente (memo que mal) e os autodidatas (mesmo que sejam geniais). O problema dramático é que às vezes nem sequer o professor sabe ensinar a arte da seleção, pelo menos não para todas as áreas do saber. Mas, pelo menos, sabe que deveria sabêlo, e se não sabe dar instruções precisas sobre como selecionar, pelo menos pode oferecer-se como exemplo, mostrando alguém que se esforça por comparar e julgar sempre tudo aquilo que a internet põe à sua disposição. E também pode mostrar quotidianamente a intenção de reorganizar sistematicamente o que a internet lhe transmite por ordem alfabética, dizendo que existem Tamerlão e monocotiledóneas, mas que não há relação sistemática entre estas duas noções. Só a escola pode oferecer o sentido dessa relação, e, se não sabe como, terá que se arranjar para o fazer. Se não for assim, os três Is de internet, inglês e instrução continuarão a ser somente a primeira parte das vozes de burro que não chegam ao céu.

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EX MACHINA (2015) Francisco Fernandes

Ex Machina é um filme britânico de ficçãocientífica, realizado por Alex Garland e protagonizado por Domhnall Gleeson, Oscar Isaac e Alicia Vikander, estreado em 2015. “Se criaste uma máquina consciente, não se trata

da história dos Homens. Trata-se da história dos Deuses”, responde o protagonista Caleb (Domhnall Gleeson) ao enigmático Nathan (Oscar Isaac), quando este lhe disse que, caso a sua experiência funcionasse, estaria a presenciar o maior evento da história da humanidade. É este o propósito de Ex Machina: um multimilionário, e r e m i t a e g é n i o d a p r o g ra m a ç ã o d e computadores, Nathan, convida um tímido jovem, dotado também de grande habilidade tecnológica, Caleb, para ser parte de um teste inovador, dado que Nathan criara um robot de inteligência artificial, apelidado de Ava, com corpo, raciocínio e capacidades cognitivas, e deseja que Caleb aplique o teste de Turing, que testa a capacidade de uma máquina de se comportar como um ser humano. Embora Ex Machina tenha como base um material muito teórico, a tecnologia inerente à história não sobrecarrega, em momento algum, os diálogos ou o entendimento do que está a acontecer. É um dos principais méritos de Alex Garland, experiente argumentista — há uma construção paciente de um clímax à volta das interações dos personagens, ora a interação humana, entre Nathan e Caleb, ora a interação de homem com máquina, entre Caleb e Ava. O facto de o círculo de personagens ser tão reduzido, até porque não parece haver tempo para perder com histórias paralelas, só beneficia o desenvolvimento dos personagens. O triângulo torto das relações entre as três principais figuras parece distorcer-se progressivamente com o avanço dos dias; não há uma compreensão exata sobre o que Nathan pretende, sobre o que Caleb vai fazer ou sobre o que Ava realmente é. Essa

nebulosidade é importantíssima para o embate no espetador das ações de qualquer um deles e o fio da história, notoriamente preocupado com a direção meticulosa dos diálogos, é sempre conduzido de forma sensata e abstémia, sem cair na mesmice ou na vulgaridade que as ficçõescientíficas cada vez mais admiram. Ex Machina tem ainda o mérito de compreender a sua própria filosofia. Não é só um filme sobre tecnologia; é um filme sobre humanidade. O contraste persistente entre a tecnologia e a natureza, entre a trivialidade no discurso humano e a formalidade de Ava, entre a claustrofobia do cinza e a liberdade do verde, entre o prestígio da criação e descontrolo do criado, destacam-se como o principal objeto de observação na película. Há de facto virtude na capacidade técnica da realização, da fotografia — o filme é enquadrado constantemente em planos americanos ou médios, sempre simétricos — e dos efeitos visuais, mas é só a transposição do brilhantismo do argumento para o ecrã, auxiliado ainda por uma magnífica banda sonora, que sabe sempre quando se deve deslizar pela quietude do momento ou agitá-la com aspereza no som. Pegando num assunto que nos é tão familiar, a tecnologia, o filme cumpre perfeitamente a sua missão e com excelência, através da exploração da humanidade dos personagens e da cultivação da dúvida no espectador. É perspicaz, perturbador e tem uma genuinidade poética. Chama-nos a atenção por parecer interessante e termina a deixar-nos perplexos e a aproveitar o ápice do momento da melhor forma, num silêncio perfeito.

88ª EDIÇÃO DOS ÓSCARES DA ACADEMIA Francisco Fernandes

Ocorreu na madrugada de segunda-feira, dia 29 de fevereiro, a 88ª edição dos Óscares, prémio entregue anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, nos Estados Unidos. O evento teve lugar no Teatro Dolby, em Los Angeles, contou com a apresentação do humorista norteamericano Chris Rock e foi transmitido em

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Portugal pela SIC. Foi uma noite repartida, em Los Angeles. Por entre todo o charme dourado, a multidão de caras conhecidas e centenas de vestidos minuciosamente analisados, ninguém pôde declarar-se um verdadeiro vencedor, como aconteceu no passado ano, quando Birdman levou tanto a estatueta de melhor filme como a de melhor realizador. Este ano, no entanto, os dois prémios foram divididos. Para a Academia, o

melhor filme do ano foi O Caso Spotlight, escolha que surpreendeu a comunidade cinéfila, pela reserva do filme no panorama das premiações internacionais. O filme levou ainda a distinção de melhor argumento original, para a sua história verídica da investigação de um grupo de jornalistas sobre abusos sexuais que ocorreram numa igreja em Boston. O prémio de melhor realizador foi entregue de novo a Alejandro González Iñárritu, por O


Renascido, que carimba a sua passagem pela indústria de Hollywood como uma das mais prestigiosas – anteriormente, só dois cineastas haviam ganhado o galardão em dois anos seguidos, John Ford e Joseph L. Mankiewicz, há mais de cinquenta anos atrás. E embora a edição deste ano tenha sido dividida, houve um vencedor numérico. O filme de ação Mad Max: Fury Road, que marcou o regresso de George Miller às longas-metragens, levou 6 galardões, todos relativamente a categorias técnicas – melhor cenografia, melhor edição de imagem, melhor edição de som, melhor mistura de som, melhor guarda-roupa e melhor caraterização, deixando para trás a esperança, por parte de vários fãs, de um reconhecimento maior. Leonardo DiCaprio, na sua quinta nomeação para os Óscares, fez-se acompanhar, por fim, da estatueta de ouro. O norte-americano levou a melhor sobre Tom Hanks, Bryan Cranston, Eddie Redmayne (vencedor da edição anterior) e Michael Fassbender, atingindo o incontestável ápice da sua carreira, enquanto ator, por O Renascido, e enquanto ativista ambiental. Brie Larson venceu o prémio de melhor atriz, por Quarto, enquanto Alicia Vikander (A Rapariga Dinamarquesa) e Mark Rylance (A Ponte dos Espiões) venceram nas categorias de melhor atriz secundária e melhor ator secundário, respetivamente.

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Prestigiado também foi Emmanuel Lubezki, que venceu, pela terceira vez consecutiva, a estatueta de melhor cinematografia, também por O Renascido. O prémio de melhor argumento adaptado foi entregue, por sua vez, a A Queda de Wall Street. Já os melhores efeitos visuais do ano foram, para a Academia, os de ExMachina, que só se conseguiu distinguir nesta categoria. Já a de melhor filme de animação foi para Divertida-mente, da Walt Disney. Amy, que conta a história de Amy Winehouse, foi considerado o melhor documentário do ano. Filho de Saul, filme polaco, dominou os concorrentes e trouxe para Europa o prémio de melhor filme estrangeiro. The Hateful Eight, o novo filme de Quentin Tarantino, venceu somente a categoria de melhor banda sonora, com alguma contestação por parte dos incansáveis fãs do realizador. A melhor curta-metragem foi para Stutterer, de Benjamin Cleary e Serena Artmitage, enquanto A Girl in the River: The Price of Forgiveness levou a estatueta de melhor documentário de curta-metragem. A América do Sul também teve o seu prémio, com Historia de un oso, do Chile, a vencer na categoria de melhor curta-metragem de animação. Por fim, a música não foi esquecida: Sam Smith ergueu o galardão dourado por Writing's on the Wall, como melhor canção original, do filme 007 Spectre. Foi uma noite atribulada, como todas as

noites de Óscares. Por debaixo de uma grande indignação por parte de vários jornais e revistas, relativamente à ausência de nomeados negros nesta edição, coube a Chris Rock, enquanto apresentador (e afro-americano), rebater as críticas e condenar o boicote que havia sido feito. Mesmo tendo em conta toda este debate, com dois lados a embateremse de forma intransigente, a 88ª edição dos prémios da Academia decorreu muito bem, e, mesmo debaixo de críticas ardentes, cumpriu, com notoriedade, o seu objectivo principal, incontestável e de sempre: celebrar a sétima arte.


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P&v março16  

Revista P&V março de 2016

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