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Largo José Luis Champalimaud, 4A 1600-110 Lisboa | Portugal Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor 2013 Abraço | 21 Cartas de Amor Carta Afonso Cruz, Ana Bacalhau, Ana Zanatti, António Mega Ferreira, Ethel Feldman, Fernando Leal da Costa, Filipa Leal, Isabel Zambujal, Lídia Jorge, Maria da Conceição Caleiro, Maria Manuel Viana, Miguel Vale de Almeida, Patrícia Portela, Patrícia Reis, Pedro Abrunhosa, Pilar del Rio, Ricardo Adolfo, Ricardo Baptista Leite, Richard Zimler, Rui Zink, São José Almeida Ilustração Agostinho Santos, Ana Vidigal, António Jorge Gonçalves, Ceci e Flávia Lombardi, Danuta Wojciechowska, Fernanda Fragateiro, Isa Duarte Ribeiro, Julio Dolbeth, Luzia Lage, Manuela Bacelar, Mário Vitória, Mariana a Miserável, Marlene Dias e Joana Rosa, Pascal Ferreira, Patricia Portela, Pedro Vieira, Rita Roquette de Vasconcellos, Rita Sá, Ricardo Campos, Rodrigo Prazeres Saias, Tiago Albuquerque

Conceito e Design | Nuno Viegas, Ana Brito Coordenação | Ethel Feldman Impressão e Acabamento | xxx xxxx xxx Exemplares Depósito Legal xxxxxx ISBN xxx-xx-xxxx-x


prefacio Vinte e um anos de encontros e despedidas. Vinte e um anos no lugar que tomo por minha casa: ABRAÇO. Com este livro, que comemora o aniversário da ABRAÇO somos um só, em torno da mesma causa. A que num silêncio cúmplice diz AMIZADE. A todos que partiram - o meu ABRAÇO A todos que foram esquecidos - o meu ABRAÇO A todos que ainda connosco caminham - o meu ABRAÇO A todos que conheço e não conheço - o meu ABRAÇO E nesse ABRAÇO a minha CARTA DE AMOR. Margarida Martins


Carta de Amor carta | Afonso Cruz Ilustracao | Tiago Albuquerque

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A música andava a tocar-nos à volta da pele, como uma mosca, unia-nos como dedos cruzados por dentro, como veias. Nesse tempo eu tinha vinte anos ou menos, ou se calhar tinha uma eternidade, porque nessa altura não se envelhece, cresce-se. E tu eras uma espécie de chapéu que é aquilo que une a nossa cabeça ao céu. Eras um chapéu de palavras e línguas distantes, e água e vinho, tudo misturado. Os teus dedos faziam-me tropeçar nas palavras, e eu, em vez de seguir em frente com as frases, soluçava, eram sílabas estranhas que normalmente chamamos de gemidos. E havia sempre aquela música que nos unia, uma música que ninguém sabia assobiar, uma harmonia que não era possível tocar no piano. Era assim que nos abraçávamos.

Depois cresci, envelheci, tornei-me rugas. E tu também, mas continuaste a ser um chapéu, e os teus dedos continuaram a fazer tropeçar as minhas palavras. Hoje temos muitos anos, muita velhice acumulada no corpo, e, ao contrário de quando éramos novos, sabemos que vamos morrer. No entanto, isso dá-nos uma sensação de eternidade, algo que nunca tivemos antes, dá-nos uns dias a mais, porque sabemos que temos dias a menos. Continuaremos a ser uma melodia, mesmo depois de tudo se calar.

Lembro-me de nos sentarmos, juntos, ao pôr-do-sol. Tu eras um recorte nocturno, preto, eu era luz. Era desse modo que nos dividíamos e era assim que nos misturávamos.

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Carta a avo sao carta | Ana bacalhau Ilustracao | rita sa

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De vez em quando penso em ti. Não tenho muitas memórias tuas, mas tenho as fotos do meu 3 o aniversário e algumas fugazes lembranças desse dia. Lembro-me de estar a brincar sozinha em tua casa e de tu vires com os meus primos pelas mãos. Fiquei tão feliz por ter com quem partilhar aqueles brinquedos todos. Depois dessa, guardo mais duas ou três memórias contigo. Lembro-me de estar no teu quarto a ouvir as Doce a cantar o “Amanhã de manhã” e de não parar de dançar. Estava a chover muito nesse dia. Por falar em chuvadas, também me lembro do pai todo aflito a correr para tua casa por causa de umas cheias muito grandes que estavam a afectar Lisboa. Moravas numa casa no rés-do-chão que estava a ficar inundada. Fiquei um bocadinho assustada. Não percebia se estavas bem ou não. Depois, tiveram de te pôr uma placa em madeira e metal à porta, para que ficasses mais protegida de outra chuvada torrencial. A última lembrança que tenho é a da minha mãe a explicar-me que tinha de sair do meu quarto durante uns tempos, porque estavas muito doente e precisavas de ir viver connosco. Naquela altura não se falava muito de cancro e também não tinha idade ainda para perceber. Não me lembro de te ver doente. Também não me lembro do dia em que morreste. Os meus pais souberam guardar-me bem da tua morte. Gostava tanto que pudesses ter ficado um bocadinho mais por aqui. Para ter mais memórias tuas. Naquela altura, era ainda muito pequena para poder gozar bem a tua companhia. Conversar contigo, perceber quem tu eras. Assim, fico só com aquilo que o meu pai me conta e aquelas 3 ou 4 imagens. Apesar de nos termos separado tão cedo, a verdade é que me fazes uma falta enorme. É uma falta diferente da que me faz o meu avô, teu marido. Ele morreu quando era ainda bebé de colo, cedo demais para que me lembre dele. Só o conheço por aquela fotografia em que me está a pegar ao colo. Não ter nenhuma memória ajuda a mitigar as saudades que tenho dele. É estranho, não é ? Ter saudades de alguém que não conheci? Eu acho que se têm saudades de muitas coisas. 12

De coisas que conhecemos muito, de coisas que conhecemos pouco e de coisas que nunca conhecemos. São saudades diferentes. É isso que te estou a tentar explicar. As saudades que sinto de ti são as que sentimos de alguém que conhecemos apenas por uns instantes e que nos levam a imaginar como seria se nos pudéssemos ter demorado um pouco mais um com o outro. Dizem-me que somos parecidas. Olhando para as tuas fotografias, acho que sim. O cabelo, a forma da cara, os olhos. Dizem-me que gostavas muito de dançar. A família do teu lado sempre foi dada à música. Fosse dançar, cantar, tocar, havia sempre alguém com queda para as artes musicais. Se calhar, foi por isso que saí assim, com este gosto por cantar. Nunca saberei com certeza quanto de mim é teu. Um gesto, uma maneira de falar, um sorriso. Essas coisas que pedimos emprestadas aos pais, aos avós, aos tios. É como se uma parte de mim tivesse ficado para sempre por conhecer melhor. Percebes o que te estou a tentar dizer? Espero que sim. O que te quero dizer é que te amo muito, avó. Apesar de não te ver há muitos anos e apesar de não te ter conhecido muito bem. Eu acho que o amor é isso mesmo. Uma presença constante, independente do tempo e do local, que irradia calor e faz com que nos sintamos bem. Não se sabe bem como nasce, nem como se desenvolve. Pode nascer de um olhar, de uma palavra, de uma parecença ou diferença. Pode desenvolver-se até na ausência de uma das partes. O amor habita na nossa memória, mesmo depois de sair da nossa vida. Às vezes, só percebemos o quanto amamos uma pessoa até que a perdemos. Pode parecer triste. E é, em certa medida. Mas olha para esta carta, avó. O amor é a única coisa que é capaz de vencer a morte. A ligação que estabelece entre dois seres é tão vital que consegue permanecer depois de a vida de um deles se ter esgotado. Enquanto houver a minha vida, há este amor que te tenho, avó. Era só isto que te queria dizer. Beijinho grande da tua neta, Ana 13


Carta de amor carta | Ana zanatti Ilustracao | mario vitoria

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Ainda te disse: o meu destino é estar ao teu lado mas não me ouviste. Tinhas pressa de partir, de correr para o futuro, que não era o momento de falar de amor, talvez experimentar beijarmo-nos na net, abraçarmo-nos no telemóvel, que já nada é como era, que o passado mora longe, que eu tinha de me adaptar. Nem o amor, perguntei, mas sabia a resposta: que não era tempo de falar de amor, que eu tinha de acordar para a realidade, que estava em depressão, que talvez um antidepressivo. E porque não, talvez amor? As pessoas correm, fogem, fogem, vão todas a fugir e mesmo quando não fogem a correr, fogem paradas e eu que não lhes fale de amor, ocupadas que estão nas suas tarefas incessantes de concluir que dois e dois são quatro, como se a vida se resumisse a tabuadas e todos os caminhos fossem de um só sentido. Nada que as desvie do seu projecto onde o amor não cabe, como se alguma coisa onde o amor não caiba possa ser inteira. As manhãs aqui são de chumbo, meu amor, as aves sussurram inquietas e dia após dia, todos foram caindo do encantamento. A cidade adoece, contagia vilas e aldeias de corações fechados a cadeado, temendo que o frio invasor os pare de vez. Vão longe os dias em que acordávamos ao mesmo tempo para nos amarmos, sonhávamos criar filhos e não riqueza, inventávamos paraísos que não fiscais, te enchia o quarto de flores de um mercado que não financeiro. A minha fé no amor merece apenas olhares de desprezo e chacota que fazem de mim um ser lunático, alheado do mundo real mas experimenta, meu amor, experimenta levantar as saias à realidade que nos querem impor e verás quanta mentira ela tem entre as pernas. Enlouqueci, diz-me, enlouqueci? Saíste à procura de um futuro que teima em não se mostrar por cá mas o futuro, meu amor, não passa de um pensamento, só nos resta o presente e é nele que o amor se deve inscrever. Como pode este princípio elementar ter deixado de nos fazer sentido? Desisto de construir uma visão coerente do mundo. A vida ziguezagueia como um rio, é água, torrente imprevisível, ilógica, irracional, mas há-de haver um fio, uma linha transparente e sensível que a conduza e não me venham dizer que é feita de teres e haveres, de bolsas que disparam, de mais-valias e dividendos, de fundos que se afundam, de ratings e acções em queda, de dívida externa. A nossa maior dívida para com todos, para com o mundo, é de amor. Andam nuvens pousadas sobre a terra e apesar de tanto te querer,

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é aqui que quero ficar. Pacientemente à espera, como quem espera num hospital, que essa dívida comece a ser paga. Aqui, onde os escravos que mandam no reino nos entopem de promessas de cera. Não creio que sejam gente de grandes sentimentos, são mais de pensar que de sentir, gente que nunca soube que a prosperidade sem paz no coração é geradora de caos e que a paz podre é filha de corações que dissimulam. Gente estranha sem fome de livros, nem de música, nem de teatro, nem de poesia, que decreta nos seus discursos aritméticos, que não há espaço para estados de alma nem países imaginários. Roubam-nos o sono e o sonho, cegos de números, de abstracções e cálculos virtuais. É por isso que permaneço. Em silêncio mas vigilante, a voar por dentro, a aguentar firme até que o tempo, esta nossa invenção cada vez mais enlouquecida e desenfreada, arranque todas as máscaras e nos deixe no osso se for preciso. Mas no osso com coração, quente e palpitante e não com um osso no lugar do coração que se entretém com as suas mentiras, a espalhar uma nebulosa desordem emocional no seio de todas as famílias. Já não somos fortes o suficiente para viver sem desculpas ou ter coragem das nossas convicções, carregamos um passado recente que não ilumina o futuro, carregamos um morto. Tudo corre à minha volta menos a dor, essa, quando instalada, é preguiçosa, nunca tem pressa de partir. Tu, pelo contrário, sejas tu já quem fores, meu amor, saíste sem olhar para trás, não te censuro. Como tu, perdi o tecto e o emprego e talvez tenha perdido também o fio ténue que me ligava à realidade jornalística, contabilística, estatística que horror, mas ganhei a rua e o céu, o céu sim, esse mesmo de que já quase todos desistiram. Escuto a voz da cidade que me faz confidências, as águas ainda não estão secas, diz ela, esperam-se acontecimentos e há medo no ar, medo de mudança, essa coisa temível para tantos, onde desaguam todos os medos. Não temas, meu amor, quem sabe amar nada tem a temer. Teme antes a vida em ponto morto, teme que continuem a tratar os teus sentimentos como lixo ou insistam em perturbar a intimidade dos campos de trigo com autoestradas, teme que um dia nada mais te reste no bolso que um cartão com o nome do teu país, a tua fotografia, o teu nome, um cartão de plástico, o único a dar-te a ilusão da cidadania que já não podes usar. Ana Zanatti

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Carta de boas idas carta | Antonio mega ferreira Ilustracao | fernanda fragateiro

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Querida M., Partes, portanto. Ou talvez não, a bem dizer nunca chegaste a chegar. Soube a notícia sem surpresa, assim, depressa, num rápido telefonema com que L., vitoriosa, me anunciou a tua decisão. Fico com pena que não tenhas arranjado tempo, ou coragem, para mo dizeres directamente. Mas, de qualquer forma, isso não tem importância. Eu tinha sonhado que ias partir e que te escrevia uma carta. Escrevo a carta para, ao menos uma vez na vida, fazer com que a realidade coincida com o sonho. Há uma coisa que não compreendo: o que é que te fez dar-me a ilusão de que vinhas ter comigo, que querias ficar, que querias começar de novo junto de mim? Não me lembro de to ter pedido, nem de ter posto em prática estratégias para que te decidisses a vir – o que não quer dizer que não as tenha remoído durante muito tempo, antes mesmo de tu me anunciares a tua decisão, antes mesmo de eu ter tentado insinuá-la no teu espírito. Mas não há decisões inocentes, nem omissões desinteressadas. Tu sabia-lo, eu sabia, antes de ti, que tudo são astúcias de casualidades procuradas, de aproximações que se desejam permanentes. E agora, com a frieza absurda que a dor de te ver partir me dá, consigo compreender que houve sinais de que a tua vinda era apenas um ritual de passagem, uma forma de te abalançares a escapar das teias que te prendiam à cidade onde tinhas nascido, ao bairro onde foste criada, ao meio que te viu crescer, aos afetos em que te deixaste enredar. Um dia, estávamos ao fim da tarde naquela casa de chá onde gostavas de me levar, disseste (creio que pela primeira vez) que tinhas curiosidade em conhecer a minha cidade, e eu devia ter suspeitado da palavra, porque a curiosidade é um impulso, não uma vocação. A curiosidade satisfaz-se, e, depois de saciada, acomoda-se à ideia feita que a revelação nos oferece. Somos prisioneiros dela como de uma coisa que desejámos intensamente, mas que, uma vez obtida, deixa de nos interessar. Não se constroem relações duradouras com base numa curiosidade, mas eu estava demasiado dependente do que tu me dizias, da forma como o dizias, para poder situar com precisão os motivos que te levavam a sugerir um desejo com 20

a discreta elegância de uma aspiração que nada tinha de vital. Mais tarde, quando vieste e começaste a desfazer a mala de viagem, mostraste-me os três primeiros volumes do romance de Proust. E eu, que procurava em cada um dos teus gestos a marca de uma comunhão que até te conhecer procurara evitar, vi nisso o sinal de uma vontade de permanecer, de durar na minha companhia. Devia ter pensado que três volumes de Proust são apenas uma parte da história, uma parte do livro, uma parte do tempo que ele se entreteve a inventar. Por isso, não me teria sido difícil adivinhar que trazias contigo a bagagem suficiente para uma temporada, não para uma vida inteira. Às vezes, sentia-te fora de mim, fora do lugar e da circunstância. Desculpava-me, desculpando-te, porque, pensava, nunca ninguém é inteiramente de ninguém e, no decurso de duas vidas que escolheram seguir um caminho em comum, há uma infinidade de momentos como esse, em que o que há de mais íntimo em nós pede uma outra dimensão, feita de esquecimento e de indiferença em relação ao que temos. Conformei-me a esses teus silêncios alheados e procurei até respeitá-los para lá do razoável, porque, pensava, esse era o refúgio da tua personalidade, o escape para o teu desenraizamento, aqui, numa cidade que até há poucas semanas te fora absolutamente estranha. Talvez devesse ter pensado que, quando se ama alguém verdadeiramente, todas as cidades se tornam semelhantes, cada uma delas é apenas um fundo que muda de cena para cena, mas que não compromete nem o fio da narrativa nem o motivo que a conduz: a tentativa de ver tudo com os olhos dos dois amantes como se tudo fosse apenas uma coisa, apenas o cenário em que se desenrola o absorvente enredo da paixão. Para ter a certeza de que esta carta não vai parar a mãos e olhos que não a pudessem compreender, não vou sequer enviá-la. É a minha pequena vingança, a de pensar que, apesar de tudo, apenas eu a sonhei como carta, como escrita de uma realidade que não estou disposta a partilhar contigo. Desejo-te, naturalmente, muitas felicidades, mas sei bem que, dentro de mim, apenas espero que não sejas capaz de vivê-las, mesmo que elas surjam no teu caminho. Parabéns à L., que vai receber-te de volta. 21


Carta de amor carta | ethel feldman Ilustracao | ceci e Flavia lombardi

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Querido Gad,

Perguntei se estariam certos do teu paradeiro. Responderam que sim. Fica a promessa de que me bastará que a leias. A

Ontem, o mar galgou a estrada levantando todas as pedras

nossa cumplicidade sempre foi silenciosa.

da calçada.

Hoje, dei conta do pó que mora em cada móvel da minha

Se a natureza do homem fosse a de uma criança, libertava

casa. Das migalhas de pão que ficaram esquecidas no prato, do

todas as palmeiras do asfalto. Os pés largariam os sapatos e

lamento silencioso do meu coração agora tão solitário.

o coração pediria perdão pela prisão.

Acordei cansada da demora que se fez continuada,

O mar galgou a estrada e tu visitaste-me sorrindo lembrando

preguiçosa, invasora do tempo presente. Levantei cada perna

as nossas aventuras na areia. O corpo quase todo enterrado

pesada, esquecida que um dia correram ligeiras. Olhei para

restando somente a cabeça. Sorrindo, cantarolavas:

o espelho e vi a vida em busca da paz derradeira. O passado

- Que venha a chuva e nos molhe por fora. Que venha o sol

ganhando o presente, engolindo o tempo, inventando

e nos aqueça por dentro...

outro segundo.

Se eu ameaçasse chorar gargalhavas e gritavas:

Eram seis da manhã quando o mar resgatou a nossa praia,

- Que venha o sol e a chuva enquanto padeço...

Gad.

Dizias que eles eram como um poema, sem medo dos intervalos

Se o tempo fosse outro, sorririas. Com uma pedra em cada

sombrios.

mão rezarias uma oração. A mesma que aprendemos quando

Na noite da tua partida o céu ficou carregado de estrelas

nascemos, um no outro. Preguiçosa, porque a reza se pede

e eu tive a certeza que ias feliz. Um abraço apertado selou o

lenta quando amamos.

nosso desejo de vida. Não houve promessas de novo encontro,

- Olha esta pedra, Gad!

nem mágoas na despedida.

Em cada pedaço de terra liberta, nasce uma palmeira. Semente

Os anos foram passando. O silêncio casou com o meu

de uma nova existência.

cansaço, mudou de cor e virou regaço.

Levanto do chão as pedras que o mar esqueceu. Por nós,

Agora que a vida se aproxima do fim, o mar ganha coragem

neste compasso que agora danço.

e levanta o asfalto da estrada.

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Os teus pais deram-me o teu endereço, avisaram que nunca

Beijo

respondeste a uma única carta.

Cleo 25


Carta de ... carta | FERNANDO LEAL DA COSTA Ilustracao | MArlene dias E JOANA ROSA

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Para Ti. Não sei como, nem se serei capaz. Mas vou tentar. Tenho de te dizer que m És para mim. És todas as mulheres que tive e as que deseje i. És todas as que nun conquistar. És todas ca poderei e tudo. És síntese. És o que sou, porque me fizeste ser. És criaçã o. Logo que te vi, não te ter beijado foi o meu maior pecado. És a outra hélice do meu DNA. Enrolada em mim. Enrolados. Fundid roupa. Sem barreiras os. Sem que nos separem. Abr aça dos . Energeticamente liga Mergulhados, um no dos. outro. És o meio do me u corpo que se ergue És a minha outra ide por ti. ntidade. És eu, reflect ido nos teus olhos. És íris. o brilho da

És principio, porque és desejo, a motivação. És fim, porque nenhum a outra me pode pro vocar um êxtase que final. pareça tão És irreversível, és o que és afinal. És a galáxia mais dis tante. És um buraco, negro, que me suga, onde me que ro enfiar para não ma És micróbio que me inf is voltar. ectou, bionte que me ocu pou, se instalou. Vives És controlo, és possuid em mim. ora da “minha” alma que te adora. “Minha” tua. Dei-te tudo em por que é noites de paixão. Mesm o naquelas em que, soz com o teu corpo debaix inh o, son hei o do meu. E naquelas que vivemos, fingimos, trazidos pela ocasião. em corpos Queria-te. Queria Ti an tes de te conhecer. És vida. És aquela com quem queria morrer. És certeza, uma afirm ação. És todas as reg ras que quero violar. És libertação, revolução estrondosa. És o grito que dou, qua ndo o prazer me pro voca epilepsia. És a inu que quero encher-te. ndação com És a convulsão com que me entrego. És a água do meu ban ho. O liquido que escorr e, o fluido que não con És incerteza que me sigo agarrar. escapa. És os livros que tenho na cabeceira. Na no cérebro. És tudo o cabeça, que li e o que ainda nã o te escrevi. És chá e café. És manhã e fim de tarde. És as horas dos dias. És os em que estás ausente momentos e nunca deixas de est ar presente. És tempo. És gaivotas num parape ito. Longe do mar, em terra, prontas para par tir. 28

es que és sempre. nto é indiferente. Sab me mo O . vir es a pod e Podes ir menta os nervos. És És açúcar que me ali ho. pon com me que er faz bat És matéria de tenta. És o choque me a. És osso que me sus orm enf me que a dur gor mais do que emoção. o cerebral. És muito o coração. És comoçã mpanhas. És metade uridão em que me aco esc a e a rd aco me És o clarão que do que posso deixar. és o meu alimento. És a fome que como, unguento. És minha dor e meu química e calor. ista. És invenção. És ento. És eterna e transform o, mas nunca aborrecim . Poderás ser sofriment nte sta con o e. açã fum orm És transf o cheiro do per a música que trauteio, , oiço que es voz as És alucinação. És rostos que observo. És a face que vejo nos ero por não tocar-te. ste. És o meu desesp na tor me que em a És a loucur ilho. És a sinfonia percuto, cordas que ded que no pia ro, sop de És instrumento tra que acompanho. que componho, a orques cio, as que me ensinaste que provei, as que pronun As o. fal que s gua lín És todas as ao meu falo. endi. És de quem falo, e as que ainda não apr branco. És a cor do preto e ei. o. Não és o que imagin És a minha imaginaçã ginado. Aconteceste! is do que poderia ser ima não podia pedir. És ma que por , que por ejas i est ped Não te nada sem que , não posso imaginar ste za oni col me que Mas agora, s que presente. toca, a pele de carícia ito. És o real que me hab o nã que em ção És a fic visto. o encontrei. ei. És o que ainda nã vertigem, És o que sempre procur vidade. És o enjoo da m me suspende sem gra que És io. vaz no voo És um alegria, após descarga icidade. És o torpor de fel a nou tor se que da rotação em ca de grande intensidade. És aquilo para que nun o que não consigo dizer. És is. ma ito mu e o ist És tudo ras que não sei. Mas não preciso de out não deixas inventaram palavras. se, por tudo o que me que ainda não te dis o pel e o, ist o tud Por dizer-te, és o meu .... AMOR. 29


Carta de amor carta | Filipa LEAL Ilustracao | ricardo campos

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Vem à Quinta-feira. É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris for muito caro – sei que isto não está fácil – podemos ir a Guimarães assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar. Vem à Quinta-feira. A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego, e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare de acabar tão depressa. Vem à Quinta-feira. Mas não venhas nesta, vem na próxima. Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso profissional – sabes que isto não está fácil – e talvez nos dê hipótese de irmos a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo para arranjar o cabelo, para arranjar o coração, para elaborar a lista do que me falta fazer contigo. Vem à Quinta-feira e não te demores. Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista (sabes como gosto de pensar em tudo ao mesmo tempo) e afinal o que me falta fazer contigo não é caro: - viajar de auto-caravana,

Vem à Quinta-feira. Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes. Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras, eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona. Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana. Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro. Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor – ou, pelo menos, é o que diz o Youtube. Temos ainda tanto para fazer. Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa Quinta. FILIPA LEAL / Inédito

- dançar na Estrada Nacional, - ver-te chorar. Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente. 32

me», do VII úsica e Vasilha icer). ce «Poesia, M de social da Un a performan da ra bili eg sa int on sp or Am de re O Quadro do ivo (programa iat Cr io ór rat bo Super Bock La

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Carta ao peter pan carta | isabel zambujal Ilustracao | danuta WOJCIECHOWSKA

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Meu adorado Peter Pan, Enchi-me de coragem para te contar um segredo. Desde que te conheci, ainda usava os joelhos esfolados e dentes de leite, vivo com a esperança que apareças na janela do meu quarto. Bem sei que só costumas visitar crianças, mas apesar de eu ser adulta, já com A grande, há uma parte de mim que luta para nunca crescer. Por isso, ainda me sinto acompanhada por fadinhas invisíveis e lembro-me bem das tuas palavras: “Todas as vezes que dizemos que não acreditamos em fadas, há uma que morre”. Pela minha parte, estão todas vivas e cheias de saúde. Calculo que andes muito atarefado (até imagino a pobre Sininho com olheiras!), mas sonho ver-te um dia a sobrevoar Lisboa. Ia buscar-te a um dos miradouros da cidade e, com sorte, talvez conseguisse tirar uns dias para me levares à Terra do Nunca. Aqui, na minha terra de sempre, há muitos que também não cresceram, embora tenham bigode, usem gravata e participem em reuniões de condomínio. Comportam-se como crianças embirrentas, passando o tempo a brincar com a felicidade dos outros. É verdade, Peter Pan, e são mais poderosos do que o Capitão Gancho. Eu sei que achas que se pensarmos em coisas boas, elas fazem-nos voar, mas nesta terra é difícil. Andamos zangados e cheios de medo, só se fala em crise, troika, impostos, pobreza, corrupção, injustiça e ódio. Quando disseste à Wendy: “Ódio é uma palavra forte, não achas?”, ela respondeu-te à altura: “Amor também e as pessoas falam como se não significasse nada.” Vens? Fico à tua espera. Não demores, nunca é tempo demais. Um beijo com pozinhos de perlimpimpim, Isabel (a que sonhou assinar Pan) 36

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Carta de amor de ruben para jessica carta | lidia jorge Ilustracao | luzia lage

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JÉSSICA

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Vem sentar-te comigo, Jéssica, à beira do rio. Fitemos o seu curso, e aprendamos

em que arde a carne, e nela a alma adormece todas as suas ânsias. Façamos

com os antigos que a vida passa, só que nós não a deixaremos passar

amor à luz do dia, Jéssica, para que todos os transeuntes que estiverem

tranquilos, fazendo versos e deixando as flores murcharem no regaço, como

munidos de um espelho eletrónico retenham no quadrângulo o nosso amor,

eles, sossegadamente.

se assim o desejarem. Se tudo corre para nada, Jéssica, como eles nos

Não, Jéssica, nós não somos as crianças que eles quiseram ser toda a vida,

ensinaram, e o demonstram, dia a dia, pela prática, pelas contas públicas

ou pelo menos disseram, em versos que tivemos de decorar para sermos alguém

e pela poesia, então a única forma de quebrar a nossa corrida para a não

entre os demais, que assim foram entre nascer e morrer, e nunca de assim

eternidade consiste em prolongar o melhor instante da nossa vida, gravando-o

ser se cansaram. Mas nós, não, Jéssica, nós não seremos crianças, porque

para que não se

desfaça em nada, uma vez passado. A nossa

nunca fomos crianças, e mesmo se alguma vez tivemos a tentação de o ser,

eternidade de um instante, minha amiga. Passe quem passar, beija-me e

por ser bom ser infantil e sujar os dedos na resina, logo nos proibiram de

abraça-me, Jéssica, querida.

o sermos e soubemos que não o tínhamos sido nunca, nem o seríamos jamais

Assim, eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti, porque tu não passarás

se quiséssemos ter viatura própria e casa com piscina. Por isso, enlacemos

além de mim, e eu não passarei além de ti, nesta exposição universal do

as mãos com força, e esmaguemos as flores entre elas, e abraçados diante

instante público de amor nas nossas vidas. Outros que não creiam em nada

do rio não sejamos nós dois nem crianças, nem adultos, nem homens maduros

e o apregoem

em seus tremendos carros pretos, nem velhas raposas cheias de cãs e de

nós, e isso ninguém nos poderá retirar, por mais que se escrevam leis e salmos.

dinheiro, não queiramos ser nada de semelhante, absolutamente nada nem

Vamos, Jéssica, coloca a tua cabeça no meu peito e pendura o teu braço

ninguém que se lhes pareça, para sermos apenas

esquerdo do meu pescoço. Caminhemos enlaçados de tal modo que os velhos

amantes que se amam à

como quem vende fruta numa praça, que nós acreditamos em

luz do sol, estendidos sobre um banco de jardim.

nos chamem de enroscados, e os invejosos da nossa crença em nós mesmos

Crianças? Não, Jéssica, crianças não seremos nunca. Pagãos tristes com

reclamem pela ordem da polícia e nos apalpem contra a parede, pensando

flores no regaço não seremos nunca. Imitadores de deuses distantes, a

que temos escondido nos sovacos as riquezas de Sabá. Deixá-los farejar as

viverem serenos no Olimpo distante, não seremos nunca. Nós preferimos

nossas amorosas vidas que sempre depararão com o inalcançável. Tudo isso

pertencer à relé do mundo, comer carne vermelha e patinhar nos charcos,

importa pouco, Jéssica, amiga. Desde que sabemos que não há longe nem há

longe das ideias coroadas de rosas e perfumes. Somos só gente, nada mais

fado, ficámos a saber também que estamos sós no mundo e essa grandeza

que gente. Sabemos, desde os cinco anos de idade, que a pessoa de hoje

veste-nos

amanhã é ossos. Gente de hoje, é amanhã poeira. E entre uma coisa e outra

disserem, escrevam o que escreverem, os presentes, os futuros, os passados.

como um manto de brocado. Façam o que quiserem, digam o que

nem a sombra vaga que eles imaginaram a caminho de um lugar de sombras,

Possuirmo-nos um ao outro

ao lado de um barqueiro sombrio , nem essa sombra existe. Nada existe que

é a maior conquista da nossa espécie desarmada. A nossa única conquista.

não sejamos nós levantados no tempo, cuidando do nosso desejo como um

Podem difundi-la e gravá-la, Jéssica, mãos, corpo, cabelos, roupas enlaçadas,

filho.

diante de toda a gente, sem medo que um deus cheio de memória nos olhe e

Por isso, Jéssica, alvoroçadamente, ruidosamente, brutalmente se

e termo-nos reconhecido no meio da multidão

for preciso, mostremos a quem passa como nos beijamos, e nos abraçamos, e

nos esqueça.

fazemos carícias, amor visível diante de toda a gente, e alguém que passe

Nós, Jéssica, amanhã, no cafezinho ao lado.

com uma máquina de filmar que nos grave nesse instante único de fúria,

Rúben.

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NO, AMOR PER ME NON HA! NO, QUEL COR CHIUSO E A ME, Parecias ainda querer dizer. carta | MARIA DA CONCEICAO CALEIRO Ilustracao | PASCAL ferreira

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À Alexandra, nesse dia de banco. Que acontecer, e que tu estivesses Nunca pensei que pudesse ainda os outros dias para um muit e os, outr os muit a havi do trabalhasses naquele hospital quan eu estava internada ali, dois ou três dias à espera, que clínico estar de banco. Saberias a brecha da urgência, na máquina no fim-de-semana, num ntei-me a meio da até fazer o exame, até entrar Leva . do calhasse. E zás! Aproveitava aria bastava para a qualquer hora portanto, quan grit a ue porq sado escu a pé, o que seri or. terr noite, na primeira noite, pé ante Um e. film O ing. edeava o sono. Shin abafar sempre a escuridão, torp z folheando numa revista ia-lu méd à vas esta , sala Na Era eu o caso? Eras A tortura do sono no cárcere. ndo guarda a algum caso por vir. qualquer, para ali a monte, tu, faze ajustar contas? Não dormíamos, ninguém deixava. de tu, ali. Fogo cruzado? À espera sse gostado de ti, pelo , não era verdade que nunca tive Sentei-me, contigo à frente. Não . ever escr te contrário. Vou juntar as peças para adeus. e Uma longa carta do que foi um brev havíamos de amar tanto s ainda e não sabíamos que nos Éramos tão jovens. Adolescente e configurar do avesso o amor. Findo era o liceu. se a maré estava cheia, vínhamos da praia, conferíamos Da minha praia. Ali Tínhamos o tempo todo. Íamos e cas. aven das o vind o verb por nós, os que demorava barc avencávamos, verbo inventado nos sim Mas s. dizia parecia estar, mesmo, mas eu nunca estava ali, onde . mar tu até tinhas ciúmes do a ver. Não seria bem assim, mas Éramos tão jovens. para a rua. Directamente. to, na minha cama, lá na cave. Porta Dormiste lá em casa, lá no meu quar erta, as tábuas eram e-ab r, creio. A janela estava entr ro da trepadeira, Era verão, estava calor, muito calo chei O ava. salt eu nça cria em largas, brisa arejava de a de madeira, tinha grades mas eram se nso inte do asia inebriante, dem estrada pela orqu bafo nocturno do jasmim entrava, ro, chei do o. Aquela entrada e saída sem importância era feição. Respirávamos rindo fund que o lo, aqui tudo os ávam anot iração. E a nessas minúcias a brisa, dirigia a nossa própria resp a qualquer defesa. Atenção post e acontecia, o que de nós não tinh que dávamos voz. Cada vez mais. Mais os. Muito vagarosos, mas nítidos. sul da casa, a que a Subitamente, pareciam-nos pass ada fach da o long ao is, a. Ou depo do? uma caleira perto, macerando a princípio a relv edra emp de eita ria ainda uma linha estr bem. Não me tão m maresia mais enferrujava, have assi ro o excesso. Disso não me lemb sim. Por desfastio , a meio, linha de água para escoar meio a sim; , rego um a havi é possível; lembro da casa? Será? Não, não outro. Sem perder a o, ora um pé, ora logo de seguida r ao elástico ou ao até se fazia treino de equilíbri joga o com nar-se caía fora. Tão inútil linha. O primeiro a desproporcio não. já Eu não. Eu um? mata. Com ringue claro. Ainda tens á que trouxe o medo comigo? Reconhecê-lo-ia se o. Ser tamanha ansiedade. Recordo o timbre do som, lent tenho mais presente é a demora, amos. E se esse fosse agora, mesmo acolá. O que podí ar a janela, nem as tábuas. Não as portadas. E e os No momento não queríamos fech vidr os sse urra emp lado de fora gem para a cora nem alguém estendesse o braço e pelo lha nava a hum mão rompesse? Nen se minha mãe nos visse? E se uma medo, sei que espaçámos a respiração o mais possível o cravar. Sei que sentimos medo, muit o se não quiséssemos nem saber que éramos nós a Com r. ouvi se isso nem sustida para o laço. Corpo a corpo era banal, apertámos ainda mais estar ali. Abraçámo-nos, até aí A pretexto do calor? . toda e eiro a roupa, quase quas Num ápice, de olhos bem ajustado Tínhamos tirado prim te. lmen Tota e. eu-s anec desv o som a e decidida fechei A cobrir-nos só o lençol. Depois cam na me lheiajoe m uê, mas foi assi ei a estender-me bem fechados, nunca saberei porq volt a aind ho, pulsando fundo como mac a janela com as trancas. Suada, o criança, como feto. Com o. peit no mão a ro, omb no ça à tua beira. Escondi-me. A cabe s a outra. Tornou-se aliviada aquela tensão, passámo Ficámos assim. Posteriormente, java. A mão desceu, a late nele que corpo. Ardente. Do , a minha mão, esta sensível a presença, presença do ados os dedos, os olhos de novo fech sentiu o mamilo, gar minha mão desceu e abrindo bem pole O ? nada e foss não 44 se . Como guiada por ti, abarcou todo o seio

brincou com ele, tinha medrado e eu desejei-o. Pus-me a desfrutar dele, tu sorr iste, tu querias, tu que rias mais , tu reclamei baixinho e debrucei-me sobre o teu corpo e duvidei e aqui sabias mais, eu comecei a sugá-lo a sugá-lo, e era lo agita-se e eu bom. A carne ou o sentimento? e arranhaste-me e eu agarrei-me Tu arrastaste-te aos teus cabelos. Não levei a mão boca e a boca essa foi longe. Se mais longe. Só a não fio a fio a meada. Para te responde tivesse gostado muito de ti não desataria agora r, por escrito. Uns dias antes, na tua casa já tính amo A tua irmã insuportável podia quer s entrado numa cegarrega, fechadas no quarto. er entrar, vi numa folha isolada, queria ler, escrevias poemas, até um poema que eu aprendias música, ouvi-te tocar da vizinha algumas vezes, do piano da D. Laurinda que já deve ter morrido a esta hora vês? Até devias falar francês, os teus pais vinham do Congo belg , lembro-me bem, a, sabe alguns poemas? Aquele, nesse dia, eu tinha encontrado descaído da s que guardei tu não querias... encobri-o, fech secretária mas ei os braços, os braços apertado s, cruz força, corpo inteiro aconchegado à frente, como um ninho que guar ando-os com encheste-me de cócegas, tantas da a folha, tu e eu sem poder mais abri mão, fiqu ei fingi amuar mas as carícias trep aram mais, foram muitas. Duvidos sem ele. Amuei, as. A certa altura estancámos, percebo que tínhamo s estado à beira, longe de mais zona já proibida. A resvalar. Mas , ou perto. Numa isso foi antes daquela noite inte ira. Também quis aprender, a minha mãe continuar. Arranjei uma desculpa comprou um piano. Comecei, mas não valia a pena , uma mentira. Seria de alguém que precisou de o deixar num sítio. Passei a teclar o Czerny. À sucapa, como se foss e um crime. Passei a imitar-te e a mentir. Serias tu a tocar às vezes, na cave, no quar minha mãe tinha comprado para to, no piano que a mim. No fim de Setembro, tínhamos ido a Lisboa, ao cinema, ao Qua rteto, lembras-te? Apanhámos o comboio das duas , o penúltimo, parava em todas. Vínhamos as duas de mãos dadas até casa. Felizes? Sim . No futuro como vai ser? Pergunte i. Tu não entendias o que entã o Por que não há-de ser como agor a? Eu sabia que não. Mas não dizia eu queria dizer. , só sabia que não. Porém amava-te, era a ti a ti que eu amava. Muito. Serias tu a matriz do amor, sem pre, o primeiro termo de compara senti por ti a medida do resto. ção. Seria o que Só que o corpo leva a melhor. O corpo é o resto que resiste. O corpo arrebata. Gos tei a seguir de vários, e houve um e mais um. E eu ia sabendo que não, que ainda não. E eu diferindo, e eu deslocando a parada. O carro alado muito à frente dos bois prag máticos. Tinhas as pernas arqueadas, as coxa s gordas, os joelhos mal feitos num franzino. Quantas vezes sofri por rosto delicado e causa delas?! Como se fossem minh judiasse. E eram tuas. É ridículo as, e se alguém eu sei. Assim, como com-paixão pelas que fazem os concorrentes na tv. Chamemos-lhe antes solidarie figuras tristes dragão na décima segunda casa dade, cabeça do , o meu destino. A minha demênci mesmo pathos, dissolver-me nele a, compartilhar o . Depois arredar pé, furiosamente . Um dia acorda-se. E a raiva, imoderada rompe com tudo. Às golfadas. Voilá! A tua pulsão, de posse. O cerco, infernal. A minha rejeição intempestiva. Mais tarde, uma vez, já longe, ele sentou-se numa cadeira. Part iu-se, era evidente era o mais gordo, lia-se no silêncio comprometido da plateia. E eu que por outra mesa nesse jantar sole estava repartida ne, fiquei com os olhos fechados , lágrimas a querer rolar. Era evidente, era disform e, o mais gordo. E eu que toda a vida andei nas dietas. No corpo ideal, no amor ideal. Na ideia. Se bem que não tivesse as Mas não digas que nunca gostei pernas tortas. de ti. Todavia tenho planetas fort a do sexo. E a da morte. es na oitava casa, L’amour fou. Ma, Che cos’è l’amore? Daqui para a frente, isto em voz off: Senhor! Livra-me do medo e das expectativas, mas não digas que nunca gostei de ti. Não me faças nunca mais volt ar ao meu passado! Que agora por escrito, desmemo 45 riando, invento.


carta de amor carta | MARIA manuel viana Ilustracao | isa DUARTE ribeiro

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Antes de começar a escrever-te esta carta (a primeira carta que te escrevo, percebo agora, tantos anos depois, e isso dói-me hoje como nunca me doeu, como se a inexistência de cartas trocadas entre os dois fosse uma falha grava da minha parte, como se eu, que vivo de palavras escritas, tivesse faltado a um qualquer encontro contigo, obrigando-te a ficar sozinho, durante horas, à minha espera), hesitei muito, muito tempo, por não saber como tratar-te. Porque eu nunca te tratei por tu, tu sabes e eu sei, mas a 3ª pessoa verbal é incómoda por escrito, soa mal, fica a dúvida se estamos a falar para um destinatário concreto ou se nos referimos a uma outra pessoa, e parece-me hoje que essa 3ª pessoa se interporia entre eu e tu, por ser uma convenção social que não tem correspondência na gramática, a gramática que tu me ensinaste, pacientemente, quando eu era ainda criança, e que me aborrecia tanto, lembras-te?, e à qual agora regresso tantas vezes, à procura da correcção formal em que tu tanto insistias, num tempo em que eu considerava revolucionário romper todas as regras e todas as normas, e tu ouvias-me sem me responderes que eu estava a dizer os disparates próprios de todas as gerações que se afirmam na oposição à anterior. Hesitava ainda por muitas outras razões, tu sabes, porque me parecia insuficiente tudo o que pudesse escrever agora, tão poucas as palavras existentes para dizer o que é total, íntegro, absoluto. A estas duas dúvidas iniciais respondeste-me tu, como sempre respondeste a tudo o que te perguntei, e nem foi preciso um esforço muito grande de memória para te ouvir explicar-me que o tu é muitas vezes só um artifício literário, uma convenção poética, que a Garrett, por exemplo, nunca lhe ocorreria tratar por tu a Viscondessa da Luz, e no entanto fê-lo, num dos mais belos poemas de todos os tempos, nesses versos que tantas vezes repetimos em voz alta e que ainda hoje me deslumbram e comovem tanto:

Vai-te, oh!, vai-te, longe, embora, Que sou eu capaz agora De te amar - Ai! se eu te amasse! 48

Também me esclareceste quanto à questão da linguagem, tu que nunca soubeste que essa seria uma das minhas obsessões, a urgência que sinto na invenção duma língua transitória, diferente e diversa para cada momento da nossa vida, com palavras para dizer o desamor, o inominável, a infelicidade, o horror, que esqueceríamos depois, e revejo-te, sério e pausado, contando-me um sonho partilhado por muitos homens, o do esperanto como língua universal, neutra e sem fronteiras, uma mátria linguística para os povos do mundo inteiro. Tenho, no quarto, uma fotografia tua, eu que não gosto de retratos porque me fazem sentir ainda mais as ausências, e olho muitas vezes essa foto, pequenina, tirada certamente para o teu primeiro BI e, no teu rosto de menino de dez anos, sério e composto, tento encontrar o meu próprio rosto, eu que sempre afirmei ser parecida contigo, intimidada pela evidente beleza das mulheres da família, em que nunca me revi e que sempre me assustou. Ao lado da cama, na pilha de livros que vou substituindo ao ritmo das leituras, há um que permanece, ano após ano: um livro de contos de J.Supervielle. Contudo, é sempre ao primeiro conto que regresso, porque A menina do alto mar foi uma das primeiríssimas histórias que me contaste, sem precisares do texto que sabias de cor. Não poderia explicar-te o quanto ainda me comove a história dessa menina de doze anos que vivia no fundo do oceano (o mesmo que nos viu nascer, a ti e a mim), numa rua líquida, e que ia todos os dias à escola com uma pasta onde levava os cadernos, uma gramática, uma aritmética, uma história e uma geografia. Diremos as coisas à medida que as formos vendo e sabendo. E o que tiver de continuar obscuro sê-lo-á (…), lias, na tua voz tão pura, e só muitos anos depois, demasiados, eu entenderia que aquela menina, com os seus eternos doze anos, era eu, pai, e é por isso que te escrevo esta carta, para que saibas que também eu terei sempre doze anos, toda a vida terei doze anos, eternamente doze, e que um dia irei ter contigo a esse fundo do mar habitado por estrelas cadentes e peixes voadores, e passearemos os dois de mão dada na rua flutuante dessa cidade líquida, reaprendendo a gramática e a história e a geografia durante a noite do mundo, graves e felizes como convém a um pai e a uma filha. 49


amor ao proximo carta | miguel vale de almeida Ilustracao | mariana a miseravel

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“Querido próximo, não te amo. Também não te odeio. E, no entanto, não me és indiferente. Temos obviamente um problema lógico a resolver. Vou tentar fazê-lo. O problema começa logo na designação. Quando me ensinaram que deveria amar o próximo percebi que se referiam a pessoas distantes. Tu não eras nem o familiar, nem o amigo, nem o amante. Eras alguém distante ainda que visível, a pessoa que passa na rua, a que vive no andar de baixo, a empregada, um colega de escola entrevisto apenas nos intervalos. Deviam ter-me dito “ama o distante como a ti mesmo” e a coisa logo teria feito mais sentido. Portanto: começámos mal. Não te amo porque não te conheço. Mesmo que te veja, mesmo que os nossos braços rocem no metro, mesmo que te cheire (às vezes não há como evitá-lo). És um qualquer, uma qualquer, e um qualquer próximo é o mesmo que outro próximo e todos os próximos se aproximam na sua distância. Não te amo porque não posso amar abstrações e não quero ser como aquelas pessoas que amam a humanidade ou o povo ou a nação mas não amam ninguém em concreto. Às vezes até estão dispostas a fazer mal às pessoas concretas em nome das Pessoas abstratas. Mas não te odeio, lá está. Não posso odiar o que não conheço. Posso não gostar do cheiro do teu perfume no autocarro e posso até sentir aversão ao teu teatro de cigana romena no chão em frente à pastelaria, mas isso não me faz odiar-te. A não ser que fosse como aquelas pessoas que odeiam, em pacote, os pretos, as mulheres, as bichas, os brasileiros – e odeiam-nos tanto mais quanto eles deixam de ser distantes e se aproximam. Perigosamente próximos. (Felizmente nunca me ensinaram, junto com o “ama o teu próximo” um “odeia o teu distante”. E daí não sei.) E no entanto, como dizia, não me és indiferente. Eu vejo-te, eu oiço-te, eu cheiro-te, às vezes até te sinto. Outra vez: na rua, no metro, no prédio, mas também nas notícias, sobretudo as más, tu apareces-me como coisa concreta, ou pelo menos eu vejo-te como coisa concreta, e não como abstração. E há ali um momento em que há uma parte de mim que vai até ti, ou uma parte de ti que vem até mim, e tudo muda – acho até que há nome 52

para isso, compaixão, empatia, sei lá. Não me és indiferente. Percebo que andas ao mesmo que eu. É claro que, se as coisas estiverem a correr bem, isto é, se as notícias não forem muito más, se eu vir mais sorrisos no metro, se os cheiros forem mais suaves, se não me bateres muito à porta, aí eu sinto que qualquer coisa anda bem no mundo dos próximos – ou dos distantes, já nem sei. Mas depois vem a tal de crise e tu tornas-te real demais. A tal de crise que não é crise coisa nenhuma mas uma espécie de revolução feita por pessoas para quem o próximo é uma abstração, o próximo é um distante, o próximo é uma realidade chata que estraga as teorias e não deixa o mundo ser como aquelas pessoas desejam. É então que a gente percebe que quando vivemos em comunidade redistribuímos consoante a nossa riqueza para que os próximos – ou os distantes? – possam viver como gente digna de ser amada. É então que a gente percebe que a tal de crise – ou a tal de revolução – é feita por quem acha que tu és um chato, um aproveita, que andas à boleia dos outros, que és preguiçoso, que és um falhado. E tiram-te tudo: tudo o que nos aproximaria, tudo o que nos tornaria menos distantes. E ao tirarem-te tudo tiram-me a mim tudo também. Querido próximo, tu não és a filha que eu amo incondicionalmente. Tu não és o melhor amigo de longa data que trato como irmão. Tu não és o homem que amei ou amo e que me amou ou ama. Não precisas de gostar de mim ou da vida que levo, nem eu preciso de gostar de ti ou da vida que levas. Mas é precisamente por isso que és maravilhoso: és o próximo potencial e a prova viva de que só amo a minha filha porque algum próximo também ama a sua, que só tenho um amigo que é irmão porque alguém tem um amigo que é irmão, que só amo alguém porque alguém ama alguém também. Querido próximo, somos como aquelas coisas, os rizomas: lá muito longe, na outra ponta do campo, pareces um indivíduo, por comparação comigo, que indivíduo pareço nesta ponta de cá. Mas por baixo estamos unidos, na mesma raiz.”

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N. da A. - A oxitocina é considerada a hormona do amor (ou do abraco). Um processo quimico que É libertado durante um orgasmo, durante o trabalho de parto, ou ainda durante uma simples conversa ou um olhar mais cumplice entre dois amigos (ou mesmo estranhos). Acacio Nobre (1869-1974), homem de referencia do século XIX – para quem foi um fardo viver o século XX –, construtor de brinquedos e puzzles geométricos, e conhecedor dos movimentos mais obscuros e alternativos das ciencias e das artes da sua época, foi um homem que a ditadura silenciou e eliminou de (quase) todos os registos da Historia. Acacio Nobre foi ainda um conhecido praticante de todas as formas de “oxitocinagem”, desafIando todos os tabus sexuais da sua época, mesmo entre os circulos mais radicais e experimentalistas da paixao e seus derivados, introduzindo na vida moral portuguesa conceitos alternativos de relacoes humanas que ainda hoje sao pouco mencionados. carta | patricia portela Ilustracao | patricia portela

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las. todas as partícu contraditória de ão co: aç bli a, gr pú íci te tr sin em Pa de is a Querid os os do loroso de esso lento e do as mente aparecíam oc tr ra pr ou ra io os um m ác é va Ac or icá o at O am em casa, pr outras. Eu e 5 os as am s áv da fic to o e , iss As do prazer a merda! Por lava, eu só dizi sal. o Acácio não fa ra comunicar. vida de um ca tras ciências pa ando inteiro na qu vi-me obrigada o io rp linguagens e ou ár co en do nt ce cia eu ân m rt po do im o a e me aproxim a, pois já me Só o sexo med na ordem cert a e agora que os vid gã a ór s da eu to m o s manjares ou o muitos do Usei espartilh ficultando-me os para recolocar di , ão m aç va er da op an a e um a fazer tão subidos qu 6 osições várias de e. da jóia que causavam indisp ao final da tard ler de utilizadoras a s ar iso nt rr se so e m m co tografias s contactámos. simples acto de ima vez que no a colecção de fo últ um a o i nh Fo Te . . 74 me a Portugal para Lisboa em Venha visitarsse a regressar ando esteve em da qu aju u o lve vo e qu de ra Acácio me e apenas pa vê-lo. Pediu-m . Nem cheguei a da não realizado ucos sonhos ain volução. re po s contra a a do r o çã ssa um pa sta , r ife ião ve uma man dou de av ra an pa e o qu iat z ed ve im a Foi a primeir e dirigiu-se de egou a Lisboa stículos. Segundo sei, ch Chiado. Nos te ingiu Acácio no mês at o um id a rd et pe po o E. PID tal como um Belém, um tir a, em íac a rd av ca sse m pa ge Enquanto me hospital, de para o a certidão do Morreu, segund o coração? do Carmo. xeram porque nos pára s do to antes no Largo os m m familiar) 7trou re or esentes (nenhu trícia, não m pr Pa comer m e, a va , -m ta es ga te di e lat Mas chá masala conhecidos qu r be 20 be os a s l, do ra io foi sem que aram-se to No seu fune homem que Acác o branco, e sent de an laç gr o um , o ro nd liv ra todos um a escrever, celeb com manteiga e ”. bolachas Maria sido outra coisa . do poderia ter “Tu : ninguém soubesse fio itá ep o e escreveu Fui eu quem lh

Pa ris, 1916 Querida Alva, Recebi com tristeza a notícia da morte de ma is um poeta modern ist Todos os meus am igo a. s se suicida m, vivem cla ndestina mente, mu identidade, são presos da m de , ou simplesmente de saparecem sem que se atreva a falar sob ninguém re eles. Se não posso esc rever a alg uém, en verdadeira mente soz tão estou inho. Peço-lhe que leia as mi nhas ca rtas, já nã o por amor, nem por por interesse, mas po saudade, nem r compa ixão. Não pre cisa de retribuir. Como prova da sua leit ura, devolva as ca rta s, abertas, na Brasileir que as leu. a e sa berei Não precisa de ac res centar às mi nhas pa lav ras uma ún ica de volta Basta-me ouvir de si . que sou ouvido. Sempre seu, Acácio Nobre

ão 1 , 12 de A mesterd

Dezem bro

de 1968

2 ndo. nos e deste mu te r a is de 50 a nte p a r e m z á fa h , o a u ã e lv n c r ofere a corre Querida A tempo é escolhe ia q ue me eito, presa por u m bem, na jó r a r te e r lv e d ir sa r Escolh ho devo e , no bolso ra as pas ca r ta ven re com igo as horas mas pa go das décadas, m p m Com esta e s o r id n z e lo v a o tr a ra o , a e q ue ten h Ser v iu ela não p o mas q u . to de si. ão record e dos de relóg io de muitas q ue já n ssível esq uecimen te das pa lav ras n o pli fiie ia p compa n h pratica r o meu im o ca rác ter insu fic lente efeito da sim do. e n a c u re x m e m b o, so igo o ção do ajuda ra e, indecis eber q ue só cons odern iza m m ie a u d g a n v rc pe Prolo , pro 3 , sem me a Geometr ia desen hos tu reza através da Na cação da 4 ) (...

Atenciosamente, Alva

Quando conheci Alva fiquei deslumbrada. Ela era linda de morrer, esguia, sedutora, mas sofria da doença de Tourett e praguejava constantemente! Acácio sofria de afasia, uma desordem da linguagem provocada pelo uso excessivo de opiáceos e potentes narcóticos, de que abusava para combater as dores crónicas que sentia, resultantes de uma lesão cerebral provocada por um ataque cardíaco durante a sua breve estadia nas trincheiras da primeira guerra mundial. Acácio sofria ainda de criatividade excessiva no uso de neologismos pessoais, de repetição insistente das mesmas frases; de impossibilidade de falar espontaneamente; tudo sintomas habituais. Era também frequente falar através de palíndromos - palavras e números que se podem ler da mesma maneira nos dois sentidos - como radar, osso, ovo, ou mesmo frases como – O lobo ama o bolo, o galo ama o lago, o céu sueco, a droga da gorda, ou a torre da derrota. Acácio, preferia sempre a escrita à conversa. E sempre o beijo à palavra.

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1 De acordo com os registos da PIDE, Acácio nem sempre foi Acácio. Também se chamou Fritz, Eduard Said, Antero Q., Naussibaum e Eduard Bey. O nome de Acácio Nobre surge entre 1890 e 1945, período em que foge de Portugal, é preso em Espanha, desaparece no sul da Alemanha, é dado como morto em Baku, e como reencontrado na Bélgica, é visto em Paris e preso a sete chaves em Amesterdão num asilo onde se reencontrou e conviveu com a irmã de Van Gogh.

Foi esta a última carta que Acácio Nobre deixou na mesa da cozinha de Alva. Alva tenta recordar-se da última vez que o viu enquanto lê a carta mas não se recorda. Não faz ideia. Dentro do envelope encontra-se a jóia. Devolvida.

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Espólio AN/18 – apontamentos soltos de Acácio (manuscritos) “As palavras são insuficientes, só o desenho as pode completar.” Diário de Acácio, 1915 “O desenho é insuficiente, só as palavras o podem completar.” Diário de Acácio, 1925

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Carta inacabada em que Acácio comparava a sua teoria da necessidade do estudo da Geometria para o progresso do país com a sua relação amorosa e complexa com Alva, sobre a qual pouco se sabe. 4

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Alva ofereceu a Acácio o famoso “pronunciador de prazeres femininos” em ouro que dominou os mexericos e conversas do mulherio francês nos circuitos surrealistas da época. Alva ofereceu-me o pronunciador em 1988 pouco antes da sua morte. Depois de pedir um estudo pormenorizado a um perito forense, descobri que a jóia, afinal, nunca fora usada.

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Chá acaciano feito com especiarias indianas e leite de cabra. Com os anos, e o hábito, todos os cafés de Paris e, mais tarde, de Lisboa, mantinham guardado a sete chaves, e numa vitrina própria por baixo do balcão, um serviço de chá para uso exclusivo de Acácio Nobre. Era uma honra servir tal cliente e dizia-se que quem partilhasse com ele este chá garantia uma noite mais vertiginosa do que com qualquer copo de absinto.

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CARTA DE AMOR carta | PATRICIA REIS Ilustracao | PEDRO VIEIRA

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Para M. Em jeito de carta, em forma de amor Meu querido Agora que ainda aqui estás ao meu lado, a dormir, deixa-me dizer que nunca te disse tudo. Tudo é muito, sabes? Não, não sabes. Tens treze anos e, com toda a alegria que ainda consegue sobreviver à tristeza própria da adolescência, tu ris e dizes que sabes sempre o suficiente. De certa forma és um sobrevivente. Como eu. Não precisamos de encher os silêncios e podemos ficar apenas assim. A dormir. A ver filmes. No computador. Temos essa facilidade, a economia emocional de quem não está em guerra. Quando a pergunta surgiu pela primeira vez foi há muito tempo. Nesse dia, eu tinha gritado por ti, pedido para ires para dentro da banheira e tu apareceste de fato de banho, de óculos de mergulhador e barbatanas. Estou pronto. E estavas. Na banheira, com animais de borracha e um balde que servia os propósitos de lavar o cabelo sem que a água se atrevesse a ir para a tua cara, veio a dita pergunta Mãe, o que é o amor? E eu ri-me, sem palavras, com o cheiro a morango do shampoo e outras coisas na cabeça. Não me recordo com exactidão, não recordo as palavras reunidas. Talvez te tenha dito que o amor era um menino vestido de mergulhador e uma mãe encharcada de água e feliz por estar assim. O amor incondicional das mães. De algumas mães. O amor sem qualquer possibilidade de medida. Isso lembro-me de repetir ao longo dos anos. Sempre a mesma conversa, não é verdade? O amor não se mede. Agora, a história é outra. Estás um rapaz. O teu corpo começa a ter pêlos. Largas o cheiro próprio dos rapazes. Eu desvalorizo, que não faz mal, e coloco spray nos teus ténis sempre que não estás a ver. Não faz efeito, pouco importa, és tu a crescer. Portanto, a questão do amor não está no cheiro artificial do morango e eu não posso vacilar. Tento explicar que é um sentimento e que podes chorar à vontade. Que, por vezes, 60

o coração se transforma num vidrinho, partido e esmigalhado. Recupera com o tempo. Depois, quando já mais calmo, me dizes que não sabes se terás jeito no sexo, sinto o meu coração do tamanho de uma ervilha e adianto-me Nem penses nisso. O sexo não será para já e quando for será bom, será amor. Mas o amor dói. E, enrolado nas roupas da minha cama, como se fosses mais pequeno e não um miúdo com um desgosto amoroso, acrescentas que o sexo mata e é perigoso Quando fazemos amor com alguém, fazemos amor com todas as pessoas com quem essa pessoa dormiu, sabias? O sexo pode matar, percebes? Eu percebo. Tanta sabedoria em plena adolescência. Vem de onde? Do mundo, é evidente. O mundo inteiro que tu tens na mão, nos sonhos que sonhas em separado. O mundo é teu, sabes? Eu entendo, cada vez menos, os centímetros que piso. Sei cada vez menos. O mundo é composto de um conjunto assustador de coisas, mas sobre isso falaremos mais tarde. É o tempo que o mundo traz e o tempo corre veloz, tão veloz. Tens ideia de como tudo é diferente quando se ama como eu te amo? Um dia terás. Um dia serás pai, farás de mim avó e talvez o teu filho, ou filha, apareça com óculos de mergulhador para entrar numa banheira cheia de espuma. As perguntas sobre o amor serão as mesmas? Provavelmente. E sobre o sexo e o corpo também, não penses que te irás safar a essa parte. Educar também é isso. Temos um corpo. Deveríamos ter aulas de dança. Já estou imaginar a tua cara, de enjoo, de rapaz. Dançar? Ó, mãe... Um dia, como estás a descobrir o teu corpo, irás ter um outro corpo colado ao teu e aprenderás que o amor também se dança ao som de uma qualquer música. O amor embala-nos. Embala-nos pela vida, posso garantir-te. Agora que dormes e eu escrevo estas palavras, há tanto ainda por explicar e tanto por viver. O que aqui te deixo, em jeito de carta embrulhado em palavras é apenas, uma vez mais, amor. Dorme bem, meu querido. 61


CARTA DE AMOR carta | Pedro abrunhosa Ilustracao | agostinho santos

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Não há liberdade como estar entre os teus braços apertado, nem o arco prende a crina às cordas duma viola com tal arremesso. Trazes-me a paz na incontidão dos teus lábios e inquietas-me no sossego nu do teu colo. A tua ausência é uma lonjura que dói de tanto

te ter presente, enquanto a tua presença é sempre longe de tão perto te querer. um do outro. Discordo. Dizem que somos a luz mbra mútua que mais Somos muito mais a so rq ue nin gu ém é tã o nin gu ém po de ve r, po inado quanto o beijo reverberantemente ilum ijo que damos marginal nocturno do chão, o be s fa z um e pe nu mb ra e se lva ge m e qu e no

apenas. o dizer-te o que jamais Agora que me lês, quer a ou canção porventura lerás em romance, poem na limpidez da música, escrito: Que te sinto

que me atravessas como uma prece a alma, que te escuto no silêncio que deixas ao partir e que nenhum pássaro voa tão livre nem tão alto quanto as palavras que calamos porque nos temos. Amor é uma cruzada que travo ao teu lado contra guerreiros de treva e por isso a luta me não custa mas custaria o fardo de não ter que a lutar. Sou pequeno ao teu lado porque me engrandeces tanto que me apequenas o que te queria dar.

Por isso, Amor meu, nunca te sintas presa no meu Abraço porque ele é fruto da vontade indómita de fazer de ti o que tu és. Para sempre e Teu. Pedro

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CARTA DE AMOR carta | Pilar del rio Ilustracao | ana vidigal

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Lisboa, dezembro de 2012 Querido amigo, doce amigo cujo nome não conheço, embora vivas na minha sensibilidade há anos porque soubeste dar consolo a quem pensaste que dele precisava, tanto tempo depois. Como poderia esquecer a tua história, se é a do amor mais belo? Quando a tua carta me chegou, sem assinatura, porque o nome não acrescentava nada, soube, nesse momento soube, que acabavam de unir-se vontades e perante essa evidência o tempo se desmoronava: a força de um carinho capaz de juntar seres humanos que devotamente se entregam, convivem e avançam, estava ante os meus olhos, num simples papel escrito à mão com tinta que não se apaga, apesar das viagens e das ansiedades que dissipam recordações e até promessas. Era quase Natal. Nesse tempo não terias muitos anos, talvez fosses um adolescente sensível, ou então eras já um homem maduro que percebeu que as palavras escritas precisam de um espelho que lhes devolva o seu melhor eu. E tornaste-te espelho porque leste uma crónica antiga de um escritor português que também era expressão de sentimentos que nos humanizam. O escritor, um homem alto e sério que infundia temor a algumas pessoas que da vida só conhecem a superfície, e que tinha de esconder por trás de grandes óculos uns olhos que demasiadas vezes se humedeciam de emoção, contou na tal crónica, lá pelos anos 70, a história de um menino que tinha pintado a neve de preto. “Mas a neve não é preta”, disse a professora, seguramente mulher de muitas regras e pouca poesia. “No ano em que a minha mãe morreu foi”, respondeu o menino e sentou-se porque não era preciso acrescentar nada mais. Então o escritor, quando soube que isso tinha acontecido numa aldeia portuguesa, assumiu a tarefa e descreveu a história com a intensidade com que se exprimem os melhores, primeiro num jornal e depois num livro que anda por aí, de tradução em tradução, recordando aos leitores a matéria de que somos feitos, os seres humanos e os sonhos. Seguindo a mesma lógica, sessenta, setenta anos depois, tu também escreveste uma carta de amor ao menino a quem a mãe tinha morrido e pintou a neve preta, para consolá-lo, e outra ao escritor que te fez chegar a história maravilhosa, agradecendo-lhe que a contasse assim, mas por alguma razão dirigiste-a a mim, talvez porque intuíste cumplicidades entre nós, ambos leitores com memória e coração. 68

Respondo-te hoje porque o lugar e o tempo o reclamam, faço-o com palavras apressadas, não tão belas como as do menino do princípio do século, nem como as tuas, que eram de consolo, nem como as do escritor alto e magro, que roçavam sempre o inefável de tão delicadas e fortes, mas escrevo-te com a certeza de que a emoção não se desvaneceu e que ainda que tu e eu sejamos os únicos que restamos para poder contá-lo, aquele instante não deve perder-se mas sim crescer, como a simpatia num mundo ou como o menino que, supomos, cresceu, se fez homem e viveu a sua vida talvez sem saber que foi personagem de um escritor principal. Querido e desconhecido amigo, se esta carta te chegar não respondas: há amores que devem estar no ar, não precisam de outro contacto além da certeza da sua existência para ser e para justificar-se. Nós andamos por aqui, ainda andamos por aqui, sabemos que sentimos com a intensidade dos descobridores, que amamos como se fôssemos pioneiros, que estamos disponíveis para todos os encontros embora nunca nos vejamos. Não é necessário, insisto, que me procures, basta saber que florescemos, que nos emocionamos diante da neve preta pintada por um menino cuja mãe morreu, feito épico contado anos depois por um escritor alto e magro que agora nos tutela a partir de uma oliveira, símbolo da sabedoria. Podemos, querido amigo, fazer juntos, onde quer que ambos estejamos, algo maior do que todas as grandezas: não desistirmos de nós. Porque hoje o menino, a mãe e o escritor habitam em nós, que temos idade de sonhos e energia para expressá-los. E nenhum pudor absurdo que nos iniba de nos apresentarmos como amantes, pessoas que caminham juntas sem medo de precipícios, carícias e cartas de amor. Aqui vão, querido amigo, as letras que te devia. Contêm um profundo e generoso afeto porque abarcam várias sensibilidades, muitos anos e o carinho de quem sente com corpo e alma, se é que não são a mesma coisa. De quem ama, em definitivo, porque sabe que se não o fizesse morreria e seria o fim da história. Um abraço e as minhas mãos: deixo-te as minhas mãos para que as acaricies e as beijes: de alguma maneira guardam neve preta, aquela de então e a pessoal neve preta de agora. Pilar del Río (Pilar del Río é jornalista) 69


CARTA DE AMOR carta | ricardo adolfo Ilustracao | rodrigo PRAZERES saias

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a dúvida see não viva um qu a ar P o. Amor, da minha um an s 8760 horas ns! Faz hoje re bé ho ra el pa m s to as ui M ram rdade é escrito que fo felicidade. A ve o ha ix an de m ta ui ir aq nt , quer ível se tecido, a ter-me acon que fosse poss ss ei po ns o pe os ca ilh un vida. N go tão marav acredito que al que ainda não stido preto orar. O teu ve ao teu lado. ch os en de m da to lin ui m smaiado tavas Podia ter de utos atrás, es o. in m os ilh 00 av 56 ar 52 m ra Há das, era o para trás e costas decota pérolas virad e d r ar la rn co justinho, de to o a d ar lhe fica. P raste. O deta costas magní de a, jo os ve di quando te vi ra te e tavas e cada vez qu . De frente es qu te la an be br o um tã sl s de ntinua ais perfeito, co tudo ainda m morado doa-me ter de esterno. er P no r o. do ad a m to um o sinto ríamos ter imeiro. Se nã cisão que pode vez, tu viste pr a um do s ta ai Foi a melhor de M es ino. os viver neste r o nosso dest l, já poderíam na tanto a aceita io pensar oc em to tudo para com tardamen ar re nt te eu o m et o m e ro foss tempo. P ade há muito o. ilegal de felicid çámos em vã ín a s, ca d a que desperdi s ei áv p a lá ci o e m ru er o is a m ia n ó m ri os dias ce ea ade de criar e rf e it a . D e sd A tua capacid r. o ri te n a o A fe st a fo i p e cantados. o qu ixou todos en memorável d de is e a a m o nc d n nu u o g se mo ter ou com eríamos mes qu e quecíveis brilh es qu in os s to am en so mom muitos, er das. O discur ados não eram das nossas vi te e an rt qu E se os convid po do im mun ais lado no dia m para o resto do o st ju in É ali ao nosso o. blicad s devia ser pu dos padrinho imples, al muito bem. S morram i. as ve vr te la es pa s, s ia la rimón aque dá-lo. , mestre de ce . Vou recomen is so ce do fá ar C as or tir O senh s nem men nos fez uma sem lamechice cara, radioso, a dá a nc esperançoso, nu bro e em Dezem E até o sol, qu conheço mas como te sa. e, ro rt lo so ca ta sa ui re m ive a surp emos a por ti. Inclus ul , diria que tiv rg se ví es a ub tim so úl o Se nã eado até à e foi tudo plan e da chuva. tão bem sei qu e pareciam s nossos pais do ia nc rê tão perfeitas qu pa s, m ha co in nd de do lta re fa imas pre dentro las para sem lido as tuas lágr ágo eg en rr r ca te ria ria dos Que Que , uma a uma. ente a imagem m ão m na à er et as ar ad eg da desenh o vou carr a r, e a e st a la o. Assim com o r, o te u o lh m a e d s do meu coraçã o d liv ia d iz e r S im , a te u lá b io s a

que me deste com as costas da mão. Se mo rresse naquele movim morreria feliz. Confe ento sso que fiquei apree nsivo quando vi o ma chegar. Por momento rte lo s pensei que querias abrir-me a têmpora dir martelada. Mas quando eit a à vi, logo a seguir, as có pias das nossas alian em vidro dourado, pe ças rcebi que mais uma ve z tinhas pensado tud perfeição. Juntos elevá o na mos o martelo e juntos destruímos a nossa un legal. Naquele instante, ião também eu me desfiz em mil pedaços de pu ale gr ia. Co m um a pa ra nc ad inh a de am or tud o ac ab ou . As lág rim misturadas com as pa as , lmas e os gritos da au diência, abraçaram-no primeiro beijo. so Seguimos para a festa, animada pelo filme qu e mandaste fazer com piores momentos das os nossas vidas. Alguns sã o tão maus que só dã vontade de rir. Como o é que duas pessoas adultas podem torturardurante tanto tempo de se livre e espontânea vo ntade? Se houvesse polícia matrimonial, há uma muito que teríamos sid o encarcerados numa ce minúscula, escura e fed la orenta, perdida para lá da civilização. A ideia partirmos os copos, os de pratos, as terrinas, as jarras e as jarrinhas qu tínhamos em casa foi e de mestre. Atirar objec tos de porcelana contr paredes tem de ser a a as melhor catarse domésti ca. Devíamos partir a mais vezes. loiça De ma dr ug ad a, qu an do te de ixe i em ca sa , no me u ca rro pin tad “Divorciados de Fresc o o”, nunca pensei subir , muito menos imagine o teu vestido decotado i qu e nas costas se abrisse na s minhas mãos. Amám nas escadas, no hall, o-nos na sala, na cozinha e no quarto, amámo-nos varanda, e só não caím na os do terraço porque não tínhamos a certeza que pudéssemos conti de nuar a amar-nos no cé u. Desde essa santificada noite que sabemos que não vamos celebrar bo de prata e que não vamo das s viver felizes para semp re, mas enquanto vivermos escusamos de ser mise ráveis na nossa felicid ade institucionalizada Faz hoje um ano que no . s divorciámos. E todos os meus poros te quere O senhor Cardoso dis m. se muito bem: O casa mento não é coisa qu faça a quem se ama. e se Ricardo Adolfo Tóquio, 14 de Dezemb ro de 2012

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CARTA DE AMOR carta | ricardo baptista leite Ilustracao | manuela bacelar

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Amor da minha vida, Co m eç o po r te di ze r qu e sa be s be m o qu an to pr ez o a privacidade daquele re canto só nosso… meu e te u. Um espaço onde o silêncio apenas é interrompido pelo som das velas que, ao iluminar o teu rosto , revelam o sorriso. Um sorriso que me tranquiliza e apaixona, acelerando o batimento deste coração rendido.

Mas por hoje, escrevo-te assim, à vista de todos. Não porque o amor deva ser divulga do. Não. Escrevo-te em público, por uma só vez, para que as pessoas possam voltar a ac reditar que o verdadeiro amor exist e. Depois deste ato, voltare mos a ser só nós, neste am or tão puro e tão raro. Ele existe porque nós ex istimos. Ou, como tu di rias, porque as no ssa s al m as se re en co nt ra ra m , de sp er ta nd o de no vo um sentimento que não é de hoje. É um amor infinito, sem início e sem fim, que perdurará para todo o sempre. Amo-te sem nenhuma razão. Amo-te por toda s as razões do mundo. Amo-te porque sim. Sonhei voar e tu ajudas te-me a abrir as asas… Voamos ladoa-lado, conscientes de qu e somos companheiros de uma vida. És tu meu amor. És tu. Tu és a minha inspiraçã o, a minha vontade e o meu querer. És o ar que me faz resp irar.

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o sonho. A realidade que supera te… Loucamente! Serenamen ! te en am id rd pe te oEu am bes. nca Amo-te... e assim… tu sa -te seria perder-me. Nu er rd Pe ti. m se a vid a Não imagino deixes de me amar. rtaleza. sso amor será a nossa fo no o s, de da ul fic di as e Perant mpestades. o Porto de abrigo entre te me sentes. Ama-me com e Qu . lês e m e Qu . aí s Eu sei que está io. s, sem medo e sem rece eu te amo. Sem barreira No final seremos felizes. também. Eu acredito. Acredita tu Um beijo, Do teu eterno amor, Ricardo

Ricardo Baptista Leite Médico de Ciências Médicas (UNL) Assistente Convidado da Faculdade ca Deputado à Assembleia da Repúbli

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o lugar mais obvio traducao | jose lima carta | richard zimler Ilustracao | julio dolbhet

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Mal chegámos à igreja de S. Gregory, a minha mãe disse-me que devia ir ver o meu irmão no caixão para que ficasse com a certeza de que ele estava morto. Sentou-me num banco da igreja e contoume que durante anos depois do irmão dela ter morrido subitamente, aconteciam-lhe coisas que a deixavam baralhada. «Às vezes via o Alan na rua, na praia, no Central Park, no metro... Era horrível. Depois, quando corria para ele, percebia que era apenas alguém parecido com ele». E acrescentava, com aspereza: «Às vezes nem isso. Todo aquele sofrimento, todos aqueles fantasmas, só por nunca ter visto o meu irmão morto». – Mas eu não quero ver o Harold dentro do caixão – disse eu – As pessoas não são todas iguais. Tu sentias essa necessidade, eu não. – Mas tens de o ver! – disse ela em tom ameaçador – Já te disse que tens de o ver. – Não. Já me basta ter vindo ao funeral. – O funeral não é nada – escarneceu – É só o princípio! – Não o vou ver. E não se fala mais nisso! Mas a urna estava aberta e o nariz dele sobressaía como o bico de um pássaro. Disse para mim próprio que o que quer que ali estivesse não havia de se parecer com o Harold. Mas parecia. A não ser a textura; a cara parecia cera polvilhada com um pó fino. O funeral realizou-se a 17 de Maio de 1987. Desde essa data, nunca confundi ninguém na rua com o Harold. Nem tão-pouco me apareceram fantasmas. Em vez de ficar contente, como a minha mãe pensava que estava, sempre me senti desapontado com isso. Mas numa coisa ela tinha razão: o funeral era só o princípio. Sempre que a ia visitar, ficava horas sentado no quarto que em miúdo tinha partilhado com o meu irmão. Às vezes, deitava-me de costas e ficava a olhar para o tecto e a pensar no que é que teria corrido mal. 80

Como é que alguém de trinta anos apenas apanha uma doença fatal e acaba num cemitério nos arredores de Nova Iorque? Nestas minhas idas a casa, passava tempo a visitar os sítios por onde o meu irmão costumava andar. Olhava sempre à volta de mim, como que à espera de o ver. – É melhor assim, podes crer – assegurou a minha mãe uma vez, uns dois anos depois do funeral – Por isso deixa de te andares a torturar à espera. – Às vezes não consigo lembrar-me de como ele era – repliquei. Ao reparar no olhar céptico dela, acrescentei: – Não consigo. A sério. A sua imagem desapareceu. – Tens fotografias – observou ela. Deixei o silêncio acumular-se entre nós, pois ambos sabíamos que eu estava a falar de uma imagem interior, que de certa forma se tinha dissipado. Pegou-me nas mãos. «É assustador ficar face a face com um morto» disse ela. – Está bem, mas um pequeno relance que fosse era bom. Passaram mais seis anos. Há precisamente uma semana, acabei o meu segundo romance. Não é verdadeiramente sobre o Harold, mas dá para se ler nas entrelinhas... A noite passada, levantei-me para ir à casa de banho às três da madrugada. Acendi a luz. E ali estava ele a fitar-me do espelho por cima do lavatório. «Harold», disse eu, como se saudá-lo fosse a coisa mais natural do mundo. A seguir comecei a ficar assustado; lembrei-me de que ele tinha morrido. Mas ali o tinha: o rosto magro, os olhos escuros penetrantes, o cabelo encaracolado. Fitámo-nos mutuamente durante um longo momento; eu com todas as minhas buscas, e ele todo esse tempo ali escondido no lugar mais óbvio. 81


minha vida carta | rui zink Ilustracao | antonio jorge GONCALVES

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O amor é uma casa onde me sin to bem Eu sei, enganei-te muitas vezes Mas tu também me enganaste algumas Eu mais, eu sei, eu sei, eu sei O que posso dizer, sou apenas um homem Tu tens mais responsabilidade s, és a vida inteira Certo, nem sempre te soube amar E sim, eu sei, ninguém me ma ndou ser homem O amor é uma casa em constr ução Mas ao mesmo tempo também não o é Magoou-te, eu sei, quando les te aquele mail Mas ninguém te mandou esprei tar as minhas coisas E a mim também magoou o que disseste (Na noite mesma em que enterr ei o meu pai) “Acho que estou apaixonada por outro” Sim, não te faças de parva, foi isto que disseste Achas normal? Apenas to per doo porque, destarte Me deste incauta um passe voc ê está livre da prisão Até ao resto dos meus dias, até ao resto dos nossos dias (Já sei, tu discordas, tens out ra versão da história, tens sempre) Achas que não teve a importânc ia que eu lhe dou

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E além disso estavas bêbeda e eu estava a dormir, Quem me garante até que, na volta, o não sonhei? Opiniães, já se sabe, sempre mais que as mães Tudo é breve bruma, até tu és breve bruma O meu amor por ti, dizes, também é breve bruma Discordo: intermitente sim, mas não breve Já te tentei muitas vezes eliminar do meu sistema Não consegui (é verdade que também não tentei muito) Eu sei, tu és a primeira a culpar-me E a amar-me Ar-me, ar-me, ar-me A dizer-me as verdades e as mentiras, a dar-me tudo E tu sempre me deste tudo, eu sei, eu sei E sei também que, desta nossa forma estranha Posso contar contigo Sim Até ao fim do nosso encontro fortuito Tu continuarás porque, embora não fiel, és persistente A dar-me tudo Rui Zink

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carta de amor carta | sao jose almeida Ilustracao | Rita Roquette de Vasconcellos

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Fazes-me falta (aos que não estão aqui, alguns por causa da Sida) Quero fazer travessas e travessas de arroz doce para ti. E pudim de laranja. Sempre pudim de laranja. E frascos e frascos de doce de abóbora com nozes e de compota de ananás. Quero que andemos junto ao mar e olhemos o mar em silêncio. E que contemos as ondas atentamente, para confirmarmos mais uma vez e mais outra que a sétima é sempre maior. Quero mergulhar nas ondas contigo e pensar que te vais transformar em sereia e desaparecer no mar. Quero dar-te a mão e ficar, assim. Sem mais nada. Sem palavras. Só a sentir-te na tua mão, quando já não são precisas palavras, embora elas estejam todas por dizer. Quero olhar os teus olhos. Vê-los sorrir - o riso dos olhos é essencial. Quero nos teus olhos descobrir as cores. Vê-las todas e cada uma. E através dos teus olhos ver-te a ti e ao mundo. Sabes como tudo fica e está dito num olhar? Como os olhos atraem, aconchegam e rejeitam, sabes, não sabes? Quero ouvir-te cantar, tipo passe-vite, todas as músicas de que gostas e de que eu gosto em ti e ouvir-te tocar todos os instrumentos que nunca consegui tocar mas que toco através de ti e que me preenchem em acordes e tons de que nunca vou saber o nome, mas que quero voltar a sentir. 88

E voltar a tentar aprender a acompanhar-te nos martelinhos. E ouvir-te dizer todos os poemas que vais fazer para mim e ainda não sabes que vais. E sentir em mim cada palavra tua. Quero ver o teu sorriso tranquilo e ouvir a tua gargalhada e rir-me contigo sem saber de quê. Apenas ter mais um monumental ataque de riso, de fazer chorar de tanto rir. Um daqueles que não param. Quero voltar a conversar contigo. E voltar a conversar de novo. E discutir contigo. E apanhar fúrias contigo. E ataques de irritação por tua causa. E discordar de ti. E sentir o prazer da tua inteligência e da tua argumentação quando discordo dela – ou sobretudo quando discordo dela. Quero-te aqui, de novo e pela primeira vez. Quero-te aqui onde nunca estiveste. Fazes-me falta. Damn you! Onde estás? Onde foste? Por que foste? Por que tomaste os comprimidos? (Disseram que te tinhas enganado na dose, dizem quase sempre isso). E tu, por que não te quiseste tratar? Por que tinhas que ter tão pouco medo e deixar-me aqui com o medo todo em mim? A tremer por dentro, como as flores. A tua memória em mim é o meu desejo de ti. Sempre. Estás aqui comigo e, ao mesmo tempo, fazes-me toda a falta. São José Almeida, sócia n. 14 da Abraço

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indice

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Carta:

Ilustração:

07 | Afonso Cruz | Tiago Albuquerque 11 | Ana Bacalhau | Rita Sá 15 | Ana Zanatti | Mário Vitória 19 | António Mega Ferreira | Fernanda Fragateiro 23 | Ethel Feldman | Ceci e Flávia Lombardi 27 | Fernando Leal da Costa | Marlene Dias e Joana Rosa 31 | Filipa Leal | Ricardo Campos 35 |

Isabel Zambujal | Danuta Wojciechowska

39 |

Lídia Jorge | Luzia Lage

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Maria da Conceição Caleiro | Pascal Ferreira

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Maria Manuel Viana | Isa Duarte Ribeiro

51 | Miguel Vale de Almeida | Mariana, a Miserável 55 | 59 |

Patrícia Portela | Patrícia Portela

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Pedro Abrunhosa | Agostinho Santos

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Pilar del Rio | Ana Vidigal

Patrícia Reis | Pedro Vieira

71 | Ricardo Adolfo | Rodrigo Prazeres Saias 75 |

Ricardo Baptista Leite | Manuela Barcelar

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Richard Zimler | Júlio Dolbhet

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Rui Zink | António Jorge Gonçalves

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São José Almeida | Rita Roquette de Vasconcellos


21 Cartas de Amor