ESPECIAL ESTADO DE MINAS DOMINGO, 22 DE OUTUBRO DE 2017
CICATRIZES
OITAVO ESPECIAL DO ESTADO DE MINAS EM HOMENAGEM AO ANIVERSÁRIO DA CAPITAL MOSTRA COMO O DESCASO AO LONGO DE DÉCADAS TRANSFORMOU O ARRUDAS EM UMA FERIDA NO CORAÇÃO DA CIDADE LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS
SOBRA LIXO, FALTA VIDA EDUARDO MURTA Boa parte das cidades do mundo tem um rio pra chamar de seu. Belo Horizonte já teve. O Arrudas – na verdade, um ribeirão –, foi sendo devorado palmo a palmo até se transformar definitivamente num canal em que sobram esgoto e cimento e falta vida. De curso d’água poupado das intervenções na planta da construção de Belo Horizonte (1894 a 1897), elaborada por Aarão Reis, ele foi “incorporado” ao sistema viário a partir dos anos 1920. Daí à ocupação paulatina e desordenada de suas margens e ao despejo sem controle de detritos industriais e esgoto não demorou. Já nos anos 1950, o Arrudas começava, na verdade, a se transformar na “Geni” da capital mineira. Foram-se as lavadeiras, foramse os peixes. Hoje, fica difícil acreditar que as águas cristalinas de parte de suas várias nascentes em poucos metros se fundem a um líquido turvo, como ocorre nos limites do Parque das Águas, na Região do Barreiro. Dali em diante, é só desolação. Num trecho de 47 quilômetros de extensão (30,6 deles em BH), até que haja o encon-
tro com o Rio das Velhas, o cenário evoca a morte. Mais do que isso, é uma prova da falência nas ações do poder público, descuidadas tanto nas escolhas sobre que destino dar a ele quanto na incapacidade de realmente protegê-lo ou de prevenir tragédias associadas a inundações devastadoras em cujos episódios há um único inocente: a natureza. Exemplos de recuperação ambiental mundo afora não faltam. O Tâmisa, na Inglaterra, o Sena, na França, e o Cheonggyecheon, na Coreia do Sul, são apenas alguns dos rios mortos que, por meio de escolhas acertadas e políticas de Estado, foram salvos e devolvidos a suas populações como espaço de convivência, ponto para prática de esportes e lazer. Para além de se tornar modelos, ganharam o orgulho de seus moradores e o status de cartão-postal.
DESAFIO HISTÓRICO O Arrudas, intervenção pós-intervenção, conseguiu no máximo se converter numa cicatriz aberta que desafia a capital mineira a
30,6km 9,6km extensão do Ribeirão Arrudas dentro de BH
comprimento dele em canal aberto e natural
18,2km 2,8km
total revestido e aberto do manancial em BH
extensão do canal que é revestido e fechado
caminho de seus 120 anos. O papel dos governos nesse desastre é decididamente emblemático no pior dos sentidos – desde a inofensiva Lei 67, de 1913, que previa multa a quem poluísse o ribeirão e seus afluentes, à autoelogiosa e enganosa teoria dos anos 1980, de que a canalização de trechos na área central havia “domado” suas águas. Um dos melhores resumos sobre essa tragédia está na visão do coordenador de Gestão de Águas Urbanas da Secretaria Municipal de Obras da prefeitura, Ricardo Aroeira, ao reconhecer o aniquilamento de um rio com diversidade de fauna e flora, que deu lugar a um canal de esgotamento sanitário. Em suas palavras a “uma galeria de concreto”. Há quem proponha, como o ambientalista e médico sanitarista Apolo Heringer Lisboa, saídas nada convencionais. Arrancar toda a estrutura cimentada, criar ilhas de convivência, afastar o trânsito e recompor matas ciliares. Radical? Pode ser. Mas, em sua avaliação, a única forma de devolver o ribeirão à vida e a sua gente. Para, quem sabe, chegue o dia em que a cidade possa finalmente chamá-lo de seu.
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FOTOS: LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS
PUREZA COBERTA DE ESGOTO COM 43 AFLUENTES, O ARRUDAS TEM TRECHO DE ÁGUA CRISTALINA E PRÓPRIA PARA CONSUMO EM NASCENTE NO BARREIRO. AGRESSÕES AO MANANCIAL, PORÉM, COMEÇAM DO OUTRO LADO DA RUA FRANCELLE MARZANO Quem vê um ribeirão assim tão sujo não imagina que uma água cristalina pode brotar a poucos metros dali. É desse jeito que o Arrudas nasce em Belo Horizonte, com água apropriada para consumo humano, com oxigenação 9, numa escala de 1 a 10, no Barreiro. No entanto, em toda a sua extensão, o que se vê é algo parecido com um verdadeiro esgoto a céu aberto. O Ribeirão Arrudas nasce em BH, passa por alguns bairros de Contagem, percorre a área central da capital e deságua no Rio das Velhas, em Sabará. Sua bacia é composta por diversos córregos: Jatobá, Barreiro, Bonsucesso, Cercadinho, Piteiras, Leitão, Acaba Mundo, Serra e Taquaril, Navio-Baleia, Santa Terezinha, Ferrugem, Tijuco e Pastinho. É aí que ainda resta alguma esperança. Alguns desses córregos ainda têm as suas nascentes preservadas, parte do seu leito com água limpa e vegetação natural, como o Clemente e o Capão da Posse. No Parque Municipal Roberto Burle Marx, mais conhecido como Parque das Águas, na Região do Barreiro, existem várias nascentes do Clemente, que forma o Arrudas. Lá dentro elas são preservadas, por conta do trabalho dos Guardiões das Nascentes. “A gente faz o máximo que pode. Existe uma área aqui onde fizemos um bosque e plantamos mais de 300 mudas de árvores para que a umidade volte e a água possa aflorar de novo”, conta Josiane Aparecida de Jesus, gerente do Parque Municipal Roberto Burle Marx, em referência a uma das inúmeras nascentes localizadas dentro da área verde. Ela conta que há alguns passos dali está também a principal nascente do Clemente, que jorra uma água límpida e passa por toda a extensão do parque. No entanto, é só caminhar alguns metros portão afora do parque que a poluição já começa a fazer parte e ser característica do manancial que um dia já teve vida. A 500 metros da saída, a água já começa a ser
poluída por lixo e esgoto residencial, o que se estende ao longo do percurso do Ribeirão Arrudas, que acumula também esgotos industriais.
FARTURA DAS ÁGUAS No século passado, nos anos 1940, o Arrudas tinha água em abundância, vegetação ao longo de todo o seu leito e pescadores e lavadeiras, que com a ajuda dele garantiam o seu ganhapão. “Se eu contar, ninguém acredita, mas eu já bebi água desse ribeirão. Já pesquei muito aqui. Pegava traíra, bagre. Era muito peixe. Hoje é só lixo, ninguém cuida”, conta saudoso o morador do Barreiro Vanderley da Silva Costa. Nos anos 1950, a poluição começou a ficar evidente. Com o crescimento da cidade, o Ribeirão Arrudas foi abandonado. Primeiro pelas lavadeiras, depois pelos pescadores e também pelas autoridades. “Quando uma lavadeira sai do rio, é porque ele não está mais limpo. Se aquela água não é mais suficiente para lavar as roupas, se não limpa mais, é o maior sinal de que ele está poluído. Foi assim que aconteceu com o Arrudas. Nos anos 1950, não se viam mais lavadeiras no ribeirão”, comenta Antônio Leite Radicchi, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e integrante do Projeto Manuelzão, que busca a revitalização da Bacia do Rio das Velhas, onde o Ribeirão Arrudas deságua. O professor esclarece que não existe uma data clara sobre quando o Arrudas deixou de ser um manancial e passou a ser um canal de esgoto. “Infelizmente, ele deixou de ser um rio e passou a ser resíduo. Ironicamente, BH não pensou em preservar suas águas e foi crescendo e canalizando tudo. A cidade sepultou seus rios sem necessidade”, lamenta Radicchi, que cita ainda como exemplo a cidade de São João delRei, no Campo das Vertentes, que preserva o Córrego do Lenheiro, no Centro da cidade.
SÓ NO PAPEL
Josiane, gerente do Parque Burle Marx, destaca ação de voluntários na preservação
● Elaborada por Aarão Reis, a planta da construção de Belo Horizonte preservava o Ribeirão Arrudas. O engenheiro e urbanista desenvolveu o projeto da capital, que ganhou status de uma cidade moderna e planejada, com propostas inspiradas em Paris e Washington, entre os anos de 1894 e 1897. Muita coisa não saiu como planejado, inclusive o Arrudas. No desenho, o ribeirão cortaria o Parque Municipal, cujo tamanho hoje é menos de um quarto do que foi traçado pelo engenheiro. A principal área verde da cidade começaria na Afonso Pena e terminaria no Bairro Floresta. ● Em 1913, o então prefeito de Belo Horizonte Olyntho Deodato dos Reis Meirelles sancionou a Lei 67, que proibia a poluição do Arrudas e dos afluentes e multava os infratores. No entanto, a boa intenção não saiu do papel e o descaso crescente levou à degradação e à morte inevitável do ribeirão. Em 1993, a lei, considerada caduca, foi revogada pela Câmara Municipal, diante de legislação mais específica.
Morador do Barreiro, Vanderley se lembra de ter pescado e até bebido água do Arrudas
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UM PASSADO PRESENTE
INUNDAÇÕES AO LONGO DO ARRUDAS ACOMPANHAM A TRAJETÓRIA DA URBANIZAÇÃO DA CIDADE DESDE OS ANOS 1920. PARA ESPECIALISTAS, CORRIGIR DESCASOS HISTÓRICOS É UMA TAREFA QUASE IMPOSSÍVEL MARCO ANTONIO MARTINS/ARQUIVO EM
ROGER DIAS Inundações constantes, desabamentos, mortes e uma série de moradores desalojados. A relação de BH com o Ribeirão Arrudas historicamente é de constantes enchentes, desde o Córrego do Ferrugem, em Contagem, até as avenidas Tereza Cristina e Andradas, na capital. O fenômeno, causado principalmente pela canalização do local para construção de vias e pela ocupação urbana desordenada, é difícil de ser solucionado nos próximos anos, segundo especialistas. Desde a construção da capital, mais de 200 enchentes deixaram cicatrizes na relação de BH com o ribeirão. As primeiras inundações registradas ocorreram ainda nos anos 1920, época que marcou o início das obras de canalização do manancial sob o asfalto para a passagem de ruas e avenidas. As obras de conclusão das canalizações até Sabará, na região metropolitana, se encerraram há pelo menos 20 anos, mas os problemas parecem não ter fim. Os transtornos para as famílias que moram nas regiões mais afetadas ocorrem anualmente, principalmente nos períodos de chuva. Quem vive às margens da Avenida Tereza Cristina conhece bem as dificuldades com o problema das enchentes. O motorista Bruno Caboclo, de 27 anos, já perdeu, duas vezes, móveis e carro para as águas do Ribeirão Arrudas. Ele é um dos moradores que aguardam a indenização da PBH para deixar a área de risco e construir sua casa em local mais seguro. “Desde quando era novo, ouvia que a prefeitura iria nos indenizar. Mas até hoje não resolveram nada. Aí tiram pessoas que não têm necessidade de sair e não tem perigo de água invadir e nos deixam aqui. Nós perdemos tudo. Eles tiraram várias pessoas do lado da nossa casa, mas o local acabou sendo invadido. E nós, que queremos sair, somos mantidos no mesmo lugar”, lamenta.
TEMOR CONSTANTE Segundo Bruno, ele e outros vizinhos do Arrudas temem as consequências de qualquer chuva. “É sofrimento o tempo inteiro. O complicado é que não há mais esse ou aquele mês em que ficamos prejudicados. Antigamente, era um mês certo. Hoje, qualquer chuva causa prejuízo. O pessoal vai fechando o córrego mais embaixo e a água acaba evadindo para outro lugar”, afirma. Apesar de conviver com problemas trazidos pelas enchentes, ele admite que descarta lixo no ribeirão próximo de sua casa: “Somos prejudicados, mas não temos outra opção. Se passasse um caminhão de coleta por aqui ou se tivéssemos uma lixeira, ninguém jogaria no rio. Agora, você vai sair com cinco ou seis sacos de lixo e vai colocá-los onde?” A Prefeitura de Belo Horizonte trabalha com ações preventivas para contornar as dificuldades. Um dos pontos mais críticos, as intervenções no Córrego do Ferrugem, são de responsabilidade do governo estadual, que planeja a construção de três bacias de detenção para desvio das águas de chuva. Na Bacia do Calafate, com volume de acumulação próximo de 600 mil metros cúbicos (m³), o custo previsto para as obras é de R$ 370 milhões. Com a conclusão do projeto, a prefeitura espera reduzir os riscos de inundação na principal calha do Arrudas. Segundo o gerente de Gestão de Águas Urbanas da Secretaria Municipal de Obras da PBH, Ricardo Aroeira, é praticamente impossível a descanalização do Arrudas, visto que há necessidades mais imediatas. “Tecnicamente, existe solução para tudo. Não poderia ser lógico eleger como prioridade a descanalização do Ribeirão Arrudas quando se tem gente morando em condição de risco em vilas e favelas, com saneamento básico inadequado, quando há investimentos necessários na saúde, educação e segurança pública. Nem a longo prazo, seria uma solução viável”. Para o técnico, o Arrudas deixou de ser um córrego à medida que sua canalização avançava. “Hoje, é uma
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MARCAS DE DESTRUIÇÃO
Nos anos 1970, as inundações ao longo do Ribeirão Arrudas se agravaram, com impacto em vários trechos importantes do Centro (acima e à esquerda). Uma grande enchente em 1983 deixou um rastro de muito prejuízo na cidade, como a destruição de ponte no cruzamento da Contorno com a Andradas, o rompimento de dutos de canalização e a inundação do terminal rodoviário de BH (D).
galeria de concreto, um ambiente impróprio para vida, fauna aquática, desenvolvimento de flora.
CANAL DE ÁGUAS Essa canalização se iniciou no século 20 e foram feitas alterações em sequência. Deixou de ser um ribeirão, virou um canal de águas fluviais, próprias de contribuição de nascentes, e infelizmente a contribuição do esgoto sanitário, que está presente nos dias de hoje em proporção maior”, comenta . Para o professor do Departamento de Energia Hidráulica da UFMG Márcio Baptista, a solução radical seria deixar a água
correr sem obstáculos. Mas, para isso, seria necessário abrir mão das grandes avenidas e moradias e destruição do asfalto, sobretudo em lugares nobres da capital. “As condições topográficas de Belo Horizonte e as condições de uso do solo em que vivemos dificultam a isenção completa de problemas de inundação. Temos de entender que os rios têm seu espaço natural e tendem a voltar a ocupar o espaço. O espaço hoje está ocupado pela cidade e há um conflito com o rio em busca desses espaços. Se houver uma decisão de retorno das condições naturais, podemos ter um resgaste do espaço físico. É difícil, tendo em vista o projeto adotado. A situação é ideal, mas utópica.”
COMBATE AO PREJUÍZO CONFIRA ALGUMAS AÇÕES DA PBH PARA TENTAR MINIMIZAR OS EFEITOS DAS ENCHENTES ● Intervenções no Córrego Bonsucesso (concluídas) ● Retomada das obras no Córrego Túnel/Camarões (Bairro Tirol) ● Licitação de obras dos córregos Olaria e Jatobá ● Licitação para o Reservatório do Bairro das Indústrias, com capacidade de armazenar
até 120 mil m³
● Viabilização de R$ 370 milhões junto ao governo federal para a execução de obras na
Bacia do Calafate, (projeto executivo concluído)
● Captação de recursos para finalizar os projetos executivos dos córregos Barreiro e
Cercadinho
● Intervenções no Córrego Ferrugem, em Contagem, iniciadas pelo governo estadual,
para construção de três bacias de contenção
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ENTREVISTA/APOLO HERINGER LISBOA
“A VIDA DO ARRUDAS É RECUPERÁVEL”
AMBIENTALISTA E IDEALIZADOR DO PROJETO MANUELZÃO DEFENDE QUE O RIBEIRÃO “SEJA DEVOLVIDO À CIDADE” E DESTACA EXEMPLOS DE SUCESSO NA RECUPERAÇÃO DE MANANCIAIS URBANOS NO MUNDO LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS
EDUARDO MURTA O Arrudas tem salvação. Mas a saída não é convencional. Passa pela desconstrução do modelo que transformou o ribeirão numa “caixa de concreto”. Idealizador do Projeto Manuelzão, dedicado à recuperação da Bacia do Rio das Velhas, o ambientalista Apolo Heringer Lisboa propõe que o Arrudas “seja devolvido à cidade”. Significaria, em sua ótica – que soa visionária ao poder público –, desmantelar a canalização, recompor matas ciliares, tirar o trânsito das vias laterais e criar áreas de convivência às margens do curso das águas. “A vida do Arrudas é recuperável, mas retirando todos os obstáculos”, defende. O Arrudas tem salvação? Tem, mas na transformação dele num outro rio. Ele foi muito impactado. Você pode ter um novo Arrudas à medida que mude completamente o que foi feito. E é muito bom para a qualidade de vida da cidade. Temos o exemplo da Coreia do Sul, em Seul, onde desmantelaram toda a canalização do rio no Centro, viadutos, pontes, e mudaram completamente a concepção. E passou a ser um local em que o povo, durante o dia, sai do trabalho e vai para a beira do rio conviver. Tem árvores. E o trânsito passou a atravessar o rio por meio de pontes. A concepção anterior era ter a via rodoviária beira-rio, o que é uma visão errada. Numa perspectiva otimista, quanto tempo levaria e quanto custaria?
Depende da maneira de pagar para fazer. Juscelino fez Brasília em quatro anos. E Belo Horizonte foi também construída em quatro anos. Mas você tem de ter uma prioridade, até mesmo porque uma obra dessa, que muda paradigma, tem de ser feita com arrojo, entusiasmo e mobilização da sociedade. Essa perspectiva pressupõe desfazer muito do que acabou de ser feito, com a cobertura do bulevar na região da Praça da Estação, da rodoviária, do Parque Municipal.. Você teria de renaturalizar, dentro do possível. É necessário integrar o Arrudas à vida em Belo Horizonte. Às margens você pode ter atividades em esportes, bicicletas, caminhada. Restabelecer as matas ciliares, ligar todos os bairros por meio de seus afluentes. E o bulevar é um perigo. Um dia vai provocar uma tragédia. A força do Arrudas cheio é monumental. Se uma placa rompe, numa fração de segundos pode pegar de surpresa a população toda que está ali dentro dos carros. Não teria salvação. Por sua ótica, os gestores públicos fizeram tudo ao contrário... Eles agiram por falta de conhecimento amigável com o meio ambiente. A ideia era o homem dominar a natureza. Você não vence a natureza. Você tem de trabalhar harmonicamente com ela, aproveitando a energia dela. E vai ficar mais barato, porque todo ano você gasta milhões para consertar os problemas das enchentes.
O que Seul, Londres e Paris têm a nos ensinar ao recuperar seus rios? São exemplos importantes, mas não precisamos copiar país nenhum. Poderíamos copiar a própria natureza. A natureza não tem rio canalizado, cria as matas ciliares. O rio faz curvas, diminui a velocidade das águas. Você não pode ocupar a margem construindo prédios. Aquela área é do rio. Você pode construir equipamentos urbanos para que a população possa curtir aquilo o ano inteiro. Mas vai exigir a retirada do esgoto e do lixo do rio. Você tem hoje uma rede de captação em torno de 70% do esgoto. A rede não é o bastante ou, além disso, o problema da falta de atenção aos afluentes compromete o Arrudas? Você não pode misturar água da chuva e a água das nascentes com esgoto. O que tem de correr no rio é água das nascentes e da chuva. Temos como fazer isso diminuindo a possibilidade de grandes enchentes, inundações. Um exemplo é a Barragem Santa Lúcia, que virou área de convivência social. Belo Horizonte tem muitas áreas em que poderia fazer parques ciliares com multifunção: mobilidade, lazer e prevenção de inundação. É purismo ou otimismo pensar que o Arrudas ainda pode ter peixe? Um rio com fundo de cimento, bloco de cimento e cheio de esgoto não pode ter peixe. Mas o peixe reaparece. Vem às vezes na pena de um pássaro. E você pode ajudar nesse processo natural. Ele
“TERIA DE RENATURALIZAR, DENTRO DO POSSÍVEL. É NECESSÁRIO INTEGRAR O ARRUDAS ÀVIDA EM BH. ÀS MARGENSVOCÊ PODETER ATIVIDADES EM ESPORTES, BICICLETAS, CAMINHADA” ■ Apolo Heringer é um ribeirão morto porque mataram a calha. Mas a vida existe no Rio das Velhas. E a vida do Arrudas é recuperável, mas retirando todos os obstáculos. Imagino um rio 100% sem esgoto, que possa ter peixe, se desmantelarmos essas canalizações. Que geração veria um novo ribeirão? Se começar agora, nossa geração ainda vai ver. Mas precisamos de um plano ousado. De um prefeito, um governador com capacidade de sonhar. Cada dia estão canalizando mais córregos. Isso aumenta enchentes. É um dinheiro que sempre vai ser gasto. Está na hora de inverter o racio-
cínio. Belo Horizonte é uma cidade dirigida por pessoas muito atrasadas. Temos de sonhar com reestruturação urbanística. Arquitetos e engenheiros ambientais poderiam ajudar. Ponham numa prancheta mostrando: está assim, pode ficar assim. E isso vai para votação urbana. Mas além de inteligência e vontade política, onde buscar recursos? À medida que você consegue o recurso inicial, no Banco Mundial, Ministério das Cidades, depois você vai economizar só de não ter de fazer obra todo ano para canalizar rio e córrego, que só engorda empreiteira e não resolve o problema. Na Alemanha,
em regiões como a Baviera, e na Suíça, a descanalização é política de estado. Nesse ponto não há uma queda de braço entre os puristas e os pragmáticos? A natureza tem uma sabedoria, porque ela surgiu superando todas as dificuldades. Não é à toa que o rio passa aqui, não é à toa que há árvore na beira do rio, não é à toa que tem peixe no rio e que a água é limpa. Não é ser purista. Quem está fora do mundo e faz um absurdo é quem canaliza rio e córrego para ganhar dinheiro. Você vai cortando a cidade, isolando tudo. O rio une as pessoas.
SOLUÇÕES INTERNACIONAIS JUNG YEON-JE/AFP – 12/9/05
JUSTIN TALLIS/AFP – 29/3/17
LUDOVIC MARIN/AFP – 28/6/17
Rio Cheonggyecheon
Rio Tâmisa
Rio Sena
COREIA DO SUL
INGLATERRA
FRANÇA
● O que era uma zona urbana degradada se tornou espaço com área verde ao longo de oito quilômetros das margens do Rio Cheonggyecheon, em Seul, na Coreia do Sul. A prefeitura local investiu US$ 380 milhões a partir de 2003. Os estudos começaram em 1999. Após várias consultas à população, foi implementado um projeto de despoluição, recuperação ambiental (o curso d’água recebeu peixes e vegetação) e urbanística que implicou a demolição de um viaduto que cobria o canal.
● Com quase 350 quilômetros de extensão, as águas do Tâmisa passaram a ser consideradas não potáveis no início do século 17. No meio do século 19, os ingleses passaram a adotar sistema de coleta de esgoto, mas sem conseguir minimizar os efeitos poluidores. Só nos anos 1950 a administração de Londres adotaria medidas de revitalização que resultariam em efeitos significativos, incluindo a instalação de duas estações de tratamento de esgoto e, permanentemente, a retirada de toneladas de lixo do leito. Em 1970, os peixes voltaram. Hoje somam 125 tipos.
LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS
CONFIRA NO EM.COM.BR Cicatrizes, a oitava das 12 partes da série de reportagens multimídias do especial BH120 do Estado de Minas traz conteúdo exclusivo de vídeos, entrevistas, fotografias e infografias. No site você poderá conferir ainda as datas de divulgação dos próximos temas.
● No início da década de 1960, a França iniciou a recuperação do Rio Sena (de 776 quilômetros). A degradação era resultado de descargas industriais e esgoto doméstico ao longo de gerações e gerações. A partir da construção de estações de tratamento de esgoto (cujo total passa de 2 mil), imposição de multas a poluidores e incentivo a agricultores que cumprissem normas ambientais foi iniciada a recuperação. A estimativa é de que existam 30 espécies de peixes no Sena revitalizado.
REPORTAGENS: Francelle Marzano Eduardo Murta Renan Damasceno Roger Dias
EDIÇÃO DE TEXTOS: Rafael Alves
REVISÃO: Ademar Fulgêncio
PROJETO GRÁFICO: Júlio Moreira
FOTOS: Leandro Couri Arquivo EM
ARTES: Quinho e Janey Costa
COORD. MULTIMÍDIA: Fred Bottrel, Rafael Alves e Renan Damasceno DIRETOR DE REDAÇÃO: Carlos Marcelo Carvalho
EDIÇÃO ANTERIOR Memórias, a 7ª das 12 partes da série em homenagem a BH, publicada em 8/10, está disponível no site Em.com.br/BH120