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Curso: Mitologia Professor: Clóvis de Barros Filho Número de aulas: 3

Aula 2: Os mitos e as fraquezas do homem Páginas: 31

OS MITOS E AS FRAQUEZAS DO HOMEM Literatura, Poesia e Mito Ontem eu comecei dizendo que há uma certa disputa pela apropriação legítima da reflexão sobre os mitos. E eu destaquei a História, a Filosofia e as Letras. E no intervalo uma aluna ponderou que eu deveria incluir nesta disputa a Psicologia, Psicanálise, Jung e a ponderação é totalmente pertinente e certamente muitos outros aqui também poderiam reivindicar essa disputa. Eu me lembro de um professor na faculdade de Direito que estudava teoria do Direito, filosofia do Direito, e que fazia tudo através dos mitos. Ele talvez também reivindicasse a parcela jurídica do estudo dos mitos. Eu dizia também ontem que os mitos se caracterizam por uma despreocupação de autoria e, de certa maneira, essa característica dos mitos tem que ser explicada. Para os gregos o valor de beleza de qualquer coisa reside na comparação com a ordem cósmica. Em outras palavras, o belo é aquilo que pode representar o cosmo. E, portanto, tudo o que é desordenado, desarmônico, desorganizado, enfim, tudo o que não combina com o cosmo é feio. Sendo assim, a arte para os gregos é um tipo de manifestação humana de imitação do cosmo. É a representação do cosmo em miniatura, em pequenos pedaços de matéria. Representação do cosmo na pintura, na escultura, mesmo na música e assim por diante. Então é claro, que se a beleza está na comparação com uma referência cósmica, pouco importa o autor. Tá me entendo? Em outras palavras, a “desimportância” da autoria tem a ver com o tipo de paradigma de beleza.

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Quando chega a modernidade, que o homem descobre que o cosmo grego não é cósmico e que, portanto, o cosmo não pode ser a referência da beleza e que a referência da beleza passa a ser uma questão de sensibilidade de quem faz e de quem recebe né? Do artista e do seu apreciador e é nesse momento que a teoria da beleza recebe o nome de estética, porque vem do grego “aísthèsis” que quer dizer sensibilidade, ora, aí quando a beleza passa a ser uma questão de sensibilidade importa saber quem fez. Porque aí o critério passa a ser antropocêntrico. Enquanto a beleza tem um fundamento cosmocêntrico, a imitação do cosmo pode ser feita por qualquer um. E é essa a ideia, o autor é qualquer um. Acho que essa explicação eu fiquei devendo. Mais um pontinho. É muito comum a reflexão sobre os mitos em comparação com a poesia. E naturalmente, costuma-se apresentar um ponto de tangência entre os mitos e a poesia. É, os dois seriam polissêmicos e isso quer dizer o quê? Os dois poderiam ser objeto de uma infinita interpretação de sentido. Em outras palavras, o que é que o poeta quis dizer aqui? Pode ter querido dizer isso, aquilo, aqueloutro, etc. Portanto, há uma pluralidade de sentido quando se lê uma poesia, assim também é em relação aos mitos. Ora, se existe esta proximidade entre a poesia e os mitos no que diz respeito à questão da polissemia, da pluralidade de sentidos, é forçoso reconhecer que os mitos e a poesia eles se distanciam num quesito fundamental. A forma da poesia, a maneira como a poesia é apresentada ela permanece. Em outras palavras, ela é imodificável. Poesia que nos propõe Casimiro de Abreu em algum momento é a mesma que lemos hoje e será sempre a mesma né? Os alunos de Literatura Brasileira daqui duzentos anos lerão a mesma poesia. Haverá sempre uma pluralidade de sentidos mas a poesia permanecerá a mesma. Com o mito isso não acontece. Conforme pudemos dizer ontem, quem conta um mito

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participa da obra. E é isso que faz desse nosso trabalho um trabalho especial. Não se trata de prestar homenagem a uma obra já pronta, mas sim de participar da sua perenidade. De participar no sentido de sentir-se autor dada a, o viés de oralidade que caracteriza essa produção cultural do homem. É por isso que muita gente diz, e entre eles o grande Jean Pierre Vernant que é um especialista na cultura grega, que colocar um mito no papel é um contra sentido, uma espécie de blasfêmia, uma espécie de heresia e por quê? Porque os mitos são feitos para serem contados de pai pra filho, de geração em geração, entre amigos. É o tipo de produção humana feito pra ser contado verbalmente. Nesse sentido, o mito se aproxima muito da piada propriamente. Escrever uma piada, ainda que seja muito legal ler as coisas do Veríssimo e livros de piada, mas ainda assim, piada que é piada é piada contada pela boca. Mito que é mito é mito contado pela boca. É essa a perspectiva introdutória do encontro de hoje. Muito bem, conforme prometido ontem, o objeto do nosso encontro é a Teogonia de Hesíodo.

Introdução a Ética Meus amigos, aqueles que forem se dedicar, eu fiquei sabendo que muita gente foi atrás do Gilgamesh na internet, mais do que um veio me contar, acharam na Wikipédia, me parabenizaram, disseram que eu não menti, um disse: “Nossa, é mesmo como o senhor contou. ” e tal. Fico feliz com a confiança, hehehehe, você checa a fiabilidade do que eu digo na Wikipédia, que beleza. É realmente o fim dos tempos. Mas de qualquer maneira, cada um faz, desce do bonde como pode não é? Ora, eu começo dizendo que a Teogonia é um poema hermético. Ele é muito menos falante,

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ele comunica muito menos do que os que vimos ontem. O Gilgamesh do Jean Bottéro e o nosso amigo A Odisseia do Ulisses do Homero são obras deliciosas de ler. A Teogonia do Hesíodo não, não. No entanto, é absolutamente fundamental, porque a Teogonia do Hesíodo vai contar a história do surgimento do cosmo. E é claro, que sem isso a filosofia não seria pensável. A reflexão sobre a vida boa seria impossível. O cosmo é condição para entender tudo que aconteceu na história do pensamento ocidental, sobretudo. Então não tem como pular, ainda que seja para poucos. Eu costumo nas minhas aulas e palestras fazer um esclarecimento aos meus alunos. Quando eu sou apresentado nas empresas, nos congressos, as pessoas me apresentam como professor de Ética da USP, o que não é mentira. E quando as pessoas ouvem isso, professor de Ética da USP, imediatamente vem uma coisa na cabeça delas: a de que eu tenho no bolso do paletó a resposta certa da vida. Eu tenho no bolso do paletó como devemos viver, como devemos agir. O que é certo fazer, o que é errado fazer. “Professor, diz aí, o que é certo, fazer isso ou aquilo? ”. Então, a primeira coisa que eu explico é que o professor de Ética é quem mais sabe que esta resposta ele não pode dar. E por quê? Porque a Ética não é a resposta certa da vida. É a problematização da vida. A Ética é o mapeamento das possibilidades existenciais e a discussão sobre elas. A Ética é quem melhor explica a impossibilidade de certezas sobre o jeito certo de agir. Portanto, o professor de Ética é o contrário do que todo mundo acha que é. O que é que se espera do professor de Ética? Que ele seja um guru e o professor de Ética é o contrário de um guru. O que é um guru? Um guru quase sempre não fala a nossa língua. Um guru vem sempre de fora, de preferência do primeiro mundo. E se ele vem da Índia ele passou antes pelo primeiro mundo pra tomar um banho de diploma. Aí ele chega aqui falando a língua dele e o que é que ele promete? Ele promete a resposta certa da vida seja você quem for, seja o vivente quem for, não importa, a minha verdade

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vale pra qualquer um. Esse é o guru. É bacana porque não funciona, mas não importa, porque no ano que vem o guru será outro. Ou o mesmo, porque cara de pau, he, todo mundo tem. É o mesmo com outra pirueta, outra fórmula. Quem gosta de guru é gente da Administração e aí fazem grandes eventos. Para assistir um guru tem que pagar caro. Um guru que fala de graça é um guru vagabundo, é um guru de meia pataca. Guru que é bom cobra muito e tem que pagar caro. Eight ExpoManagement, aí vem o prêmio nobel tal. Aí aparece o cara, o filme atrás, microfone de coisa, eles têm todo o mesmo jeito, o mesmo perfil, a mesma empáfia, a mesma arrogância, a mesma certeza, a mesma segurança, é assim. Eu me lembro de um, recentemente ficamos na mesma coxia, no mesmo camarim, antes, ele falou antes e eu depois e eu fui lá ver. E ele terminou assim: How tall you think... Aí alguém falou: “Lá vem o cara, velho! ” É foda. ”: “This is the secret: you have to put the right person in the right place. ” Viva! E as pessoas tiram foto da transparência: “right person, right place”. Setinha e fotos, os celulares tirando foto e tal... Então, velho, é, não sei se eu... Por isso que eu serei, por isso que o meu sonho é comprar uma Kombi. É, eu nunca vou chegar a Vera Cruz, porque eu não vendo verdades eu vendo, eu vendo incertezas, eu vendo confusões. E sabe por quê? Porque os valores são complexos. Essa é a lição de Edgar Morin: os valores são complexos. Que que Edgar Morin quer dizer com isso? Ele quer dizer que se confiança é valor, desconfiança também é. Sabe, se confiança é referência pra vida, desconfiança também é referência pra vida. Eu por exemplo só cheguei aqui hoje no horário graças à desconfiança. Desconfiei do caminho um, desconfiei do caminho dois, desconfiei do caminho três. Se disciplina é valor, repouso também é valor. Se transparência é valor, sigilo também é valor. Todo o valor tem o seu contrário como o valor também. Então, a pergunta é: Qual valor vale mais?

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E pra você saber qual o valor vale mais você tem que ter alguma coisa em cima, uma referência de cima né? Você está me acompanhando. O professor dá uma prova pros alunos. Todos os alunos fazem prova. E o professor dá sete, oito, nove e tal. Como é que ele faz isso? Ele tem o gabarito, então ele compara todos com o gabarito e o gabarito é um só e resolve o problema da diversidade das provas dos alunos. Muito bem. E na hora de viver? O problema é que não há um gabarito único para a vida. São muitos os gabaritos. Então, é claro, a hora que têm muitos gabaritos você precisaria de um gabarito dos gabaritos para saber qual é o gabarito que vale mais. Ficou claro isso? O que vale mais confiar ou desconfiar? Não sei, vamos perguntar pra quem tá em cima. Por isso sempre precisamos de Deus. Deus tá no lugar de quem tá em cima né? Deus não problematiza, nisso ele é absoluto. Não existe no Deus a complexidade né? Deus, pelo contrário, Ele resolve a complexidade. E, é claro, que tudo isso eu contei porque no final das contas o cosmo desempenhou durante muito tempo esse papel. O papel de gabarito dos gabaritos. O papel de simplificador da complexidade. O papel, portanto, de GPS da vida boa. Sem o cosmo não tem como saber o que fazer. Então, se eu estou em dúvida né? Dúvida clássica: dar ou não dar? Uma dúvida clássica. É, fulano chega cheio de marra, todo apetecível e tal, paga uma coca, fala do último filme do Woody Allen e tal e demonstra interesse numa cópula furtiva. Dar ou não dar? Pois é um problema, porque a complexidade se apresenta. Se o valor for o prazer imediato? Dar, né? Se o valor for a valorização do corpo pra uma negociação futura? É melhor segurar mais um pouco. Se o valor for... E aí: “Caralho, o que que eu faço? ” Esse “caralho, o que que eu faço? ” na filosofia recebe o nome de angústia, angústia desagradável de sentir. Então, eu preciso de alguma coisa que esteja acima, o cosmo faz esse

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papel. Então, entenda, o cosmo é a grande... na verdade nós só temos na história do pensamento três grandes coisas que desempenharam esse papel de gabarito dos gabaritos, valor dos valores: o cosmo, Deus e o homem né? Rigorosamente isso. Pensamento grego, pensamento cristão e pensamento moderno. O cosmo, Deus e o homem. Então, é, essa é a ideia. Então, aqui hoje trata-se de estudar o surgimento do cosmo. Perceba a importância né? Na hora “H”, como é que, o que que eu vou fazer? Pois muito bem, o cosmo é o GPS. O cosmo é alguém. Em outras palavras, qual é a solução que mais se harmoniza com o resto? Mas isso a gente vai entender como é que surge a partir de agora. Percebeu a importância do que eu estou falando?

Caos e Ética Cósmica Então, e agora eu vou dar a cereja do chantilly da importância dessa coisa. Quando você conversa com os ecologistas, quando eu digo os ecologistas não são os que você vê na televisão, são os que escreveram as coisas que os que tão na televisão falam. Certo? É quem tá por trás da Marina Silva, pensadores tipo Hans Jonas e etc. E você vê o que os caras dizem o que é que você percebe? Que todos eles pretendem uma ressurreição de uma ética cósmica. Portanto, não se trata só de descobrir qual foi o paradigma que triunfou soberano durante oito séculos lá atrás. Não, é de alguma coisa que reivindica posição de definidor da vida boa hoje, hoje, certo? Então, daí a importância da aula de hoje, você não pode perder nunca. Se você quiser mostrar pra alguém que você ama, eu estou gravando, vou botar na internet, porque é bem legal. Então, vem comigo, tá certo? É claro, mostrar pra alguém que você ama. Tem tanta coisa que eu vejo no mundo e eu quero mostrar pra minha filha. Então é, às vezes tem, acontece isso.

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O primeiro deus da Teogonia, não vá, he, uma vez eu dei essa aula e alguém me pegou no corredor assim: “Como assim o primeiro deus, Deus é um só, o que o senhor tá falando? ” Eu falei: “Eu não tenho nada com isso, eu estou explicando a Teogonia; não tem nada a ver com as suas convicções, tá certo? É o que o cara escreveu. ” O primeiro Deus ele chamou de Caos. Não há dúvida que esta aula é do caos à ordem. Não sei se você entendeu, mas a Teogonia é paralelo da história de Ulisses, né? Do caos da Guerra de Tróia à ordem de Ítaca. É a mesma perspectiva é a mesma lógica. Primeiro deus é o Caos. Qual é a graça desse deus? Como os primeiros deuses todos eles não são representáveis por figuras humanas. Como é que era o Caos, ele tinha olho verde e tal? Não, não tem uma figura que possa representar o Caos. Mas aí você diz: “Pô! Mais aí fica difícil imaginar. ” Fica, mas como é que a gente pode te ajudar? Dizendo o que Hesíodo disse: “O Caos é indistinto. ” O que que ele queria dizer com isso? É que no Caos nada é distinguível. Sabe, sabe qual é a imagem? Escuro e com fumaça assim. Já vi, já... Tem boate que é assim né? Você não distingue nada, é muito útil pra quem tem capital estético acanhado, você vai naquele lugar assim e tal, ninguém tá vendo exatamente qual é a tua, é um lugar indistinto né? É, escuro e indistinto. Depois o Caos, é Hesíodo que fala, o Caos não tem fim e nem fundo. O que isso quer dizer? Imagine-se em queda livre. No Caos não tem onde pegar, não tem onde se apoiar, não tem onde pisar. O Caos não tem, entendeu? Se você tivesse no Caos você estaria no escuro em queda livre com direito a fumacinha. Sem lugar para segurar, sem conseguir distinguir nada. Gostou? Tá beleza? Então perceba que esse Caos não tem a ver com o inferno cristão. O inferno cristão é muito melhor do que o Caos, porque tem fogo, mas você tá pisando na brasa. Ali não, você só cai. Tá perfeito? É ruim demais. Eu não consigo deixar de fazer a comparação com a queda do voo da Air

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France, tá certo? Você sobe, passa do Rio Grande do Norte, toda vez que eu pego o avião nessa direção e passa ali eu acho que treme mais do que o normal. É incrível, ele né? Ele vai ali e tal... “Nós vamos morrer, velho! ” A maioria já tá dormindo, gente completamente alienada, né? E eu ali: “Caralho, essa merda vai cair! ” E o fato de morrer não me preocupa, mas os minutos que antecedem, isso deve ser um horror. Quatro minutos de queda livre. Isso é o caos. Claro, o Caos é muito pior, porque na queda livre do avião tem o avião, as pessoas gritando, uma certa solidariedade na desgraça. No Caos você não enxerga ninguém, não vê ninguém, não coisa nada. Entendeu o Caos? É bem bacana. Esse é o Caos. No começo era o Caos. Quer dizer, se você quiser atualizar um pouquinho, era como era antes do Big Bang, né? Era como era antes das coisas serem. O Caos é uma espécie de nada. É um, é um horror, velho. E o Caos é deus, tá certo. Esse é o primeiro deus, o Caos. Pois do Caos surge Gaia. E Gaia é em grande medida o contrário do Caos. Gaia é a Terra, né? E qual é a graça disso? É que Gaia é um lugar pra você pisar. Gaia é um lugar de sustentação. É gozado, porque a palavra sustentação aparece em algumas traduções. E é muito interessante porque é um lugar que sustenta tudo o que é. Se Gaia não existisse nada seria. Só o Caos né? No Caos nada poderia ser. Gaia é condição do ser. É um lugar para pisar; é um lugar pra se agarrar; é um lugar de estabilidade, não é? Entende que nós estamos falando do valor da sustentabilidade hoje né? E o que é sustentabilidade né? Vem de sustentar etc. E de certa maneira, a ideia de sustentabilidade hoje tem a ver com durabilidade, com continuar sendo, não é? E, portanto, para continuar sendo é preciso criar condições do ser ser. E para criar condições do ser ser, Gaia foi a primeira dessa condição né? É o momento em que você tem aonde pisar. Isto é Gaia, o segundo deus. É bem bacana né?

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Então nós temos dois deuses: é, Caos e Gaia né? Caos, queda livre, Gaia é o chão. Caos, poderíamos dizer que Gaia é quando o Caos acaba, né? É o fim da queda livre. É aonde você se esborracha. É Gaia, propriamente, né? Se Caos, se Caos é indistinto, Gaia é distinto. Se Caos é noturno e lúgubre, Gaia prevê a luz, a possibilidade de luz. Então, digamos, uma proposta de interpretação de Caos e Gaia como sendo contrários.

Gaya e o Caos Essa proposta não chega ao fim por quê? Porque Gaia encerra em si mesma uma reminiscência do Caos. Não sei se me entendeu. Gaia surge do Caos e como tudo que surge de alguma coisa guarda em si uma herança genética. Tá perfeito? Dá para perceber, não? Né? É, eu mesmo, muito embora com aparência divina, eu sou mortal. É uma informação que eu queria dar a vocês. Eu nasci de pai e mãe e por mais que olhando, é difícil encontrar algum ponto de tangência, ele existe, né? Eu carrego aqui uma herança da minha origem. E Gaia carrega uma herança da origem caótica nos seus grotões, nos seus grotões. E um exemplo dessa herança caótica em Gaia é o terceiro deus Tártaro. Tártaro é a profundeza. Na Teogonia de Hesíodo, nove dias leva uma bigorna. Fala em bigorna? Não fala, fala numa outra porra que eu não sei bem o que é, mas uma bigorna tá ótimo pra você. Uma bigorna leva nove dias para cair do céu até a Terra e leva nove dias pra cair da Terra até Tártaro. Só pra você ter uma ideia o que é longe, velho. Entendeu? Júlio Verne, em Viagem ao Centro da Terra, ele se remete a Tártaro. É bacana, é lá embaixo. E aí, é claro, Tártaro é a reminiscência do Caos em Gaia. Ora, o quarto deus que aparece na Teogonia é Urano. Urano é Netuno para os latinistas. E Urano vai nascer de Gaia. Claro, não tem outro jeito. É de Gaia que agora tudo vai surgir. Urano vai

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nascer de Gaia e Urano é, portanto, filho de Gaia, se quiser assim. Só que qual é a graça de Urano? Urano tem o mesmo tamanho de Gaia e o que caracteriza esse negócio que surgiu de Gaia é que ele se encontra repousado em Gaia. Como ele tem o mesmo tamanho de Gaia, isto quer dizer que não há um milímetro de Gaia que não esteja coberto por Urano. É como “edredom” na sua cama. Aonde tem cama tem edredom. Então, é claro, que imediatamente paira na tua cabeça... Sabe? Na matemática nós diríamos, conjuntos, lembra que nós estudamos na matemática, né? Conjuntos equivalentes, aonde tem um tem o outro, são correspondentes. E imediatamente surge pra você a ideia de asfixia. Você já imaginou a cada centímetro de você alguma coisa em cima? É insuportável. Esse tal de Urano, muito embora seja filho de Gaia, cobria Gaia em todos os seus sentidos. Sexo mesmo. E o tal do Urano gostava da coisa, porque não dava pra Gaia refresco. Nesse ponto levamos vantagem, uma bimbadinha, levanta, faz outra coisa, dependendo da idade, o mês que vem volta. Urano comia Gaia ininterruptamente. Eu não sei nem imaginar, mas deve ser um negócio... Então, é claro que Urano e Gaia tinham filhos, mas Urano não dava brecha pra Gaia parir seus filhos, de tal maneira que os filhos de Gaia permaneciam dentro de Gaia. E Urano não queria deixar os filhos sair por quê? Porque ele supunha que algum filho podia fazer a pele dele, e tirar dele a primazia do universo. Urano, na verdade, é a primeira grande figura masculina de controle do universo, de reinado sobre o universo etc. e tal, ele não queria perder aquela boquinha e tá ali imaginando, se ele não pudesse mais comer Gaia o que que ele ia fazer da vida. E Gaia teve filhos. Titãs, primeiro. Doze, seis machos e seis fêmeas. Doze Titãs. Depois três Ciclopes e depois três Hecatônquirus.

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Uma palavrinha sobre cada um desses. Titãs: são os primeiros deuses com figura humana que aparecem na Teogonia. Entendeu? Perceba, até os Titãs, todos os deuses não eram representáveis por figuras humanas. No final das contas, a Teogonia, nascimento dos deuses, era uma Cosmogonia, nascimento do mundo. Então, os deuses não eram representáveis por figuras humanas, mas aí apareceram os deuses com cara humana, os Titãs. E eles eram deuses da terra, surgidos da terra e criados dentro da terra. De força descomunal, de beleza descomunal, de truculência descomunal. Deuses guerreiros. Incrível, velho. Os titãs. Sonífera Ilha. Os Titãs. Seis e seis, doze. Os Ciclopes. Os ciclopes tinham um olho só, mas era a visão que os caracterizava. E os Ciclopes vão entrar pra história do surgimento do cosmos, porque os Ciclopes eram responsáveis pelos raios e pelos trovões. E finalmente os Hecatônquirus. O nome quer dizer cem braço e cem braço não é com S é com C. Cinquenta cabeças cada um. Cinquenta bocas cada um. Cem braços. Sacou o naipe da figura. Muito bem, tudo isso fazia a indigestão de Gaia. “O que que você tem aí dentro? ” Perguntava Urano à Gaia. “Eu tenho doze Titãs, três Ciclopes e três Hecatônquirus. ” E aí o tal do Urano: “Eu não vou sair de cima nem fodendo, velho, porque se esses bichos saírem daí de dentro eu estou fodido.” E aí então Gaia desesperada para conhecer seus filhos, meio que diz a cada um deles: “Como é que é? Alguém pode me ajudar a tirar esse cara de cima? ”. E é aí que surge a figura de Cronos. Cronos é o mais jovem dos Titãs. E desde a mitologia o filho mais jovem é sempre o mais interessante. Eu falo porque como eu sou o único eu sou também o mais jovem. Cronos disse pra mãe: “Eu vou quebrar seu galho. ” Fabrica uma espécie de espada mesmo, meio curva, o que não era difícil, porque estando dentro da terra ele tinha todos, tudo o que ele

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precisava. Veio aqui na região de Minas Gerais pegou o que ele precisava e tal e preparou um negócio fino. Urano enrijeceu e penetrou Gaia e Cronos, munido daquela espada, segura o membro de Urano com a mão esquerda, e desde então essa mão esquerda vai se chamar de sinistra, pega a espada com a direita e plá! Corta bem no talo o membro de Urano. E aquilo pof! Devia ser alguma coisa de tamanho significativo e Cronos joga no mar. Urano, claro, sente aquilo que normalmente se sente quando isso acontece. Não me pergunte, porque felizmente nada disso me aconteceu. E Urano com a dor que sente saí de cima de Gaia e saí de cima com tudo e vai parar aonde ele está até hoje: no céu. Urano é o céu. O céu nem sempre esteve aonde está. Eu sempre desconfiei disso. O céu já esteve aqui fodendo a Terra, mais aí cortaram o pinto dele fora e ele foi parar lá em cima. Hoje o céu é o reduto de todos aqueles que não trepam mais. Mas antes de partir Urano disse: “Eu deixo aqui uma herança da qual vocês vão se arrepender. ” E Urano sabia o que estava dizendo. Do sangue escorrido da blasfêmia contra o pai surgem as deusas da vingança. Mas também do esperma do pênis ainda latejante surge Afrodite.

Teogonia de Hésido Eu queria propor a você uma comparação. Eu imagino que todos aqui já tenham ido ao motel. E imagino que no motel já tenham tido a curiosidade de entrar numa banheira. Imagino que já tenham tido a curiosidade de fazer atividades dentro da banheira. E imagino que já tenham percebido que quando o sêmen saí na água da banheira ele adquire uma consistência diferente da que ele tinha fora. E aquilo gruda no pelo, é uma desgraça. Tem que fugir dali, é uma coisa horrível. Bom, se isso acontece com você que é uma figura insignificante, você imagina o pinto do céu.

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Pois muito bem, o encontro do esperma de Urano com o oceano deu Afrodite. Aquilo que você vê na banheira é uma micro Afrodite. Às vezes tem até que cortar depois de tanto que aquilo impregna na região pilosa. Afrodite, nunca mais você vai esquecer disso quando você for ao motel. Vamos fazer Afrodites em miniatura? Não é? Pois é, Urano foi pra cima e quando Urano saí de cima o que acontece, né? Não é difícil imaginar, né? Você tinha uma coisa assim, de repente zuf! E o que acontece aqui? É nesse momento que surge o espaço. De certa maneira, esse é o primeiro passo para o surgimento do cosmos, né? É, surgimento do espaço. O lugar aonde a vida poderá acontecer, em cima de Gaia, entre Gaia e Urano né? Tá aqui. E com o espaço surge o tempo, por quê? Porque agora nós poderemos assistir com o surgimento da vida o surgimento das gerações. De certa forma, o passar das gerações, que é o primeiro traço de toda a temporalidade, a sequência das gerações. Tudo isso porque Cronos, tirou, livrou a mãe do pai. Muito mais edipiano do que o complexo de Édipo é a história da amputação do pai pelo filho na Teogonia de Hesíodo. Eu queria chamar a tua atenção para esse detalhe importantíssimo. No momento em que Cronos libera Gaia ele libera também os Titãs, que passam a dominar o mundo, e o grande líder é Cronos. Porém, Cronos sabia das potencialidades dos irmãos não Titãs. Os Ciclopes e os Hecatônquirus. E o que fez Cronos? Manteve trancafiados no Tártaro os seis outros irmãos, três Ciclopes e três Hecatônquirus. Então, surgiram para o tempo e para o espaço e para as gerações, surgiram quem? Os Titãs e isso é um detalhe fundamental. São os Titãs que deixarão a sua herança. São os Titãs que povoarão Gaia. São os Titãs que, de certa forma, perenizarão uma certa espécie propriamente. Por quê? Porque os Ciclopes e os Hecatônquirus esses continuam nos grotões de Gaia, esses continuam em íntima associação com aquilo que é de reminiscência caótica em Gaia, o Tártaro, o

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tártaro. Muito bem. Então você tem um momento da Teogonia que é o momento em que os Titãs controlam o universo. E é claro, a hegemonia de Cronos nesse momento é total. Cronos é um tirano cruel. Casou-se com uma irmã. Não tem jeito, não tem mais ninguém, o incesto é obrigatório. E Cronos casa-se com Réia e começa a ter filhos. Ora, o que pensa Cronos? Se eu capei o meu pai, o que será que os meus filhos poderão fazer comigo? Então Cronos decide engolir os filhos tão logo atinjam o tamanho do seu joelho. Essa a descrição de Hesíodo. Então nasceu o primeiro filho de Cronos e Réia, nasceu o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto. Aí Réia deixou de gostar. Tem sempre uma hora que as mulheres se rebelam, por mais que Cronos seja Cronos. Se Réia articulou com Gaia para ludibriar Cronos, imaginem o que podem fazer com você. E o que é que Réia arma com Gaia? Esconder o sexto filho. E pra que Cronos não desse conta, no lugar do sexto filho botaram pedra. Cronos, que não devia ser um fino gourmet, comeu pedra no lugar do filho e se deu por satisfeito. E esse filho foi educado e criado por uma cabra nos grotões de Gaia. Esse filho é o sexto de Cronos e Réia: Zeus. E o pequeno Zeus vai se alimentando... Há uma série de detalhes curiosíssimos, as artimanhas pra que o choro de Zeus não fosse percebido por Cronos, é muito mais rico do que eu posso relatar aqui. A cabra Amalte, Amalteia em português, a cabra alimenta Zeus com uma comida que saí do seu chifre. Comida chamada ambrosia. É, bem legal a ambrosia do Rio Grande do Sul. Os mineiros fazem ambrosia também, mas é outro doce. Foda-se, aqui o que importa é a ambrosia que sai do chifre de Amalteia que é o que alimenta Zeus e Zeus passa à ambrosia. Devia ter tudo, uma espécie de polivitamínico, Centrum.

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E Zeus rapidamente, percebem, vai se tornar o mais lindo, o mais forte, o mais fodido, o mais espetacular de todos os deuses. Começa a ficar impossível manter Zeus dentro daquela caverna, né? Tem a história da pele da cabra que vai virar é... Tudo tem ramificações aqui, a gente podia um dia fazer um ano de conversa sobre mitos, é uma delícia. E o fato é que chega uma hora que alguém explica pra Zeus porque que ele tá ali: “É o seguinte o teu pai é foda, velho, e ele teria te comido se não tivéssemos escondido. O teu pai comeu todos os teus irmãos. Os teus tios fazem o exército com o teu pai. Tão lá os doze Titãs lá fora. Vamos dizer onze, porque a mãe não ia cuidar, tal. A coisa tá feia. Tudo bem que você tá fazendo ginástica, uma espécie de Anderson Silva das cavernas e tal, mas a coisa lá fora é feia. Você que sabe. ” Aí Zeus falou: “Não eu aqui não aguento mais vou ter que encarar. ” E Zeus, então, aparece, anuncia, diz o que aconteceu e resolve encarar o pai e os tios.

Guerra dos Titãs Qual é o primeiro passo que Zeus dá? Ele oferece a Cronos um “vomíforo”. E Cronos tem que vomitar quem? Seus irmãos. Então agora fica claro, né? A primeira geração dos deuses, os Titãs, e a segunda geração dos deuses, os irmãos de Zeus. Por enquanto tá doze a seis, tá certo? Então, esse foi o primeiro passo. Aí Zeus explica pros irmãos: “Malandro, você ficou até aqui no bucho do nosso pai, mas o nosso pai é escroto, nós vamos ter que encarar esses caras. ” E a guerra começa assim. Essa é a grande guerra. Essa é a Primeira Guerra Mundial. A primeira guerra dos deuses, a primeira contra a segunda geração. Titãs versus Olimpianos. Olimpianos porque depois vão passar a se reunir no Olimpo. Titãs versus Olimpianos. Cronos versus Zeus, né? Saturno versus Júpiter, se você quiser. O caralho, velho, né? E é muito legal porque é descrito, esses caras não brigam assim, né? Não, é um joga uma montanha no outro.

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“Toma aqui o morro da Urca” Pó! “Toma o Pão de Açúcar. ” E pó! E tal. E aí a guerra é assim, uma zona, eles arrebentam com tudo e como deus não morre a guerra também não acaba, tá certo? Mas a coisa estava, por mais que Zeus fosse do caralho, a coisa estava envergando errado. E aí alguém tem a ideia de libertar figuras que estavam apagadas aí. Lembra quem são? Os Ciclopes e os Hecatônquirus. Haha! Zeus desce até o Tártaro e diz: “Escuta, vocês tão gostando daqui? ” Os caras tão lá babando, velho. “Então, quem deixou vocês aqui foi aquele viado lá. Eu não vou dizer nada, mas foi eles que trancaram vocês aqui. E ainda disseram que vocês são meia dúzia de boiolas, não são de nada; uns puta de uns cuzão, entendeu? E que viu a mãe de vocês na zona. ” Eu sei que é narrado o momento que os Hecatônquirus aparecem, os Ciclopes é, dão a Zeus o raio e o trovão. E os Hecatônquirus aparecem. A hora que os Hecatônquirus aparecem eles aparecem gritando. É bem bacana, porque são cento e cinquenta bocas, e eles começam a gritar e os Titãs não suportam o grito. Mas eles ainda não enxergam nada, claro, os Hecatônquirus, eles são representantes das profundezas da Terra, reminiscências do Caos, eles são indistintos. Então, os... imagina, deve ser um negócio espetacular. Você tá brigando, de repente, cento e cinquenta vozes gritando na tua orelha e você não enxerga nada. E de repente vai sumindo, a nuvem daquela coisa que veio de baixo e aparece aqueles três negócio, velho. E aí Zeus falou: “Ó! Foi eles ó, não vou dizer nada. ” Nossa! Não durou três minutos a parada. Os Hecatônquirus pegam cada braço com uma força descomunal e cada um pega, são cento e cinquenta montanhas que eles jogam em cima dos Titãs e imobilizam os Titãs sumariamente que são devolvidos ao Tártaro aonde estão até hoje. Pode acreditar, todos os mitos gregos são tentativas das forças do Caos de uma vingança da

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guerra do deuses da vitória de Zeus. Todos, todos os mitos são isso, né? Quer dizer, as forças do Caos tentando encontrar uma forma de reverter à hegemonia de Zeus e a hegemonia do jeito Zeus de governar. Bom, a segunda geração deu um pau na primeira geração. E Zeus virou o sucessor de Cronos. Mas qual é a graça da história? A graça da história é que Zeus teve várias mulheres. Na verdade, ele teve três mulheres e uma, e uma centena de amantes. Ele gostava de ter amantes humanas. As deusas são mais bonitas mas são deusas. Não sabem fazer gostoso. Hehe. É praticamente isso que é dito né? É, as humanas têm muito mais charme, mais ginga: “Velho, o que você prefere comer: Afrodite ou Gabriela, né?” Hehe. Depois a deusa pode desaparecer no meio do coito e tal, um negócio ruim. O Zeus tinha preferência por humanas, né? Eu imagino Zeus muito parecido com uma espécie de um coronel do Nordeste, sabe assim, o cabra assim, né: “Massageie meu pé. ” Figura, também, né? Zeus encarou os Titãs, depois ele tinha direito a um momento de tranquilidade. Mas Zeus teve duas outras mulheres além da terceira que ficou meio que a oficial, Hera, né? Juno. As duas primeiras foram Têmis e Métis. Métis é a astúcia e Têmis a justiça. E qual foi a graça dessa história? Ele comeu as duas, não só maritalmente como gastronomicamente. Zeus engoliu a justiça e a astúcia. E de certa maneira, incorporou as duas. Então Zeus tinha a justiça, a inteligência e a força, o tripé do surgimento do cosmo, né? Zeus, raio e trovão, os Hecatônquirus, muito agradecidos a ele, show de bola. E Zeus, então, vai começar o seu governo. E qual é a diferença do jeito Zeus de governar pro jeito Cronos de governar? Cronos mandava sozinho. Zeus, que tinha engolido a justiça e a astúcia, distribuiu o mundo. Não esqueça mais disso.

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Zeus, Deus e os valores Zeus dividiu o mundo entre os seus correligionários. Zeus deu um pedaço pra cada um com autonomia. Em alemão “urteilen”. É, “teilen” é dividir né? “Ur” de origem, é interessante porque esse verbo ficou o verbo julgar, né? Julgar. Quer dizer, o que faz um juiz? Um juiz restabelece a ordem quando a ordem é perturbada. E qual é a ordem? É a divisão original proposta por Zeus. Então, começou pelo primeiro escalão: “Netuno! Você vai ficar com o céu, já tá aí em cima mesmo, não venha perturbar, pra cá você não desce mais. ”. Então graças a Zeus, Netuno nunca mais desceu. Você deve ter percebido isso. Você nunca encontrou o céu na esquina, ele continua no céu. “Poseidon! Show de bola, malandro, valeu. Você vai ficar com os mares, com as águas. ”. “Gaia! Você fica com a Terra, já é mesmo sua. Todo mundo vai ter que te louvar, todo mundo vai ter que te defender, todo mundo vai ter...” . E assim, distribuiu o primeiro escalão, depois segundo escalão, terceiro escalão, quarto escalão de tal maneira que tudo que é teve a sua parte. Tudo que é teve o seu quinhão. Ninguém ficou sem nada. Com justiça, com astúcia, de maneira a que não pudessem mais se queixar depois. Ficou claro isso? Essa divisão né? Então, e o vento? Venta, daqui pra cá. E a maré? Mareia, daqui pra cá. E o sapo? Sapeia, daqui pra cá. E a girafa? Coisa, vai comer as coisas lá em cima. O céu apareceu, corpo, pescoço, lá em cima pá. E a cobra? Parara, aquela porra, parara. E você? Parara, ali, ali. E você? Lá, lá né? É, e apareceu lá umas figuras de olhinho puxado, rapaz, pequena: “Você vai ficar naquela ilha, naquela porra lá. Não enche o saco. Cuidado com a bomba. ”. “Você lá né? Coisa e tal. “Americano comedor de hambúrguer, você lá e tal, né?” E assim, ele distribuiu: “Não enche meu saco! Vamos dividir, vamos coisar. ”

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Então, quer dizer, claro, essa divisão original é muito semelhante ao que um governante faz quando é eleito. Não tenha dúvida. “Quem são os meus amigos? ” “Então eu vou aquela coisa, blablabla.” O cara perturba a ordem, tem que sair: “Ó, você é um babaca. O caralho. Tem que botar outro. Tem que botar alguém do PTB, e tal e coisa. Blablabla. ” Fazer o quê? Então é isso. “Meus amigos, quem foi que me ajudou na campanha? ” “PMDB. ” “Então, blablabla, PMDB. Nós vamos deixar a Caixa Econômica Federal, vice-presidente, não sei o quê. Tá bom assim? ” “Não, queria a presidência do Banco do Brasil. ” “Não vai dar porque, não sei o quê, blablabla. Vê se não me enche o saco! ” Entendeu como é que é? Então, Zeus e Dilma, né? Quer dizer, é a mesma coisa. Essa é a divisão original. E você não tem como entender o cosmo sem entender que essa divisão original foi proposta por Zeus. E Zeus é Zeus, velho. Quer dizer o quê? Quer dizer que essa divisão é justa e, portanto, quem quer sair do seu lugar atenta contra o cosmos. Atentando contra o cosmos, atenta contra Zeus. E atentando contra Zeus, atenta contra a justiça. Portanto, tem que ser recolocado no seu lugar. Por isso é fundamental, não é por acaso que no Direito romano, o Direito começa, o Direito romano só tem uma frase: Dar a cada um o que é seu. E é seu por quê? Porque Zeus distribuiu assim. Então, perceba, que você não, quer dizer. Alguém virá pra você e diz: “Oh, oh! Vê se se manca e não avança pra cá.” E o cara dirá: “Por quê, né? Por quê? ”. Se não tem essa história em cima cada um faz o que quer. Caos. Porque tem essa história, o homem entende que houve uma divisão e que existe uma espécie de ordem no mundo que é anterior a ele. Quando você nasce já tem, não é você que faz a ordem, a ordem já existia, é o que hoje nós chamamos de transcendência. O cosmos é uma forma de organização do mundo que transcende a vontade deste ou daquele homem. Ficou claro? Show

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de bola? É impressionante a clareza da minha exposição. Se você não entendeu isso aqui, você não é do ramo, não tem importância. Zeus, sabe, tem serviço funerário, tem técnico de televisão, tem... Cada é um, não sei o quê. Não tem como não entender. Você tá entendendo? Então, quer dizer, quando os ecologistas falam: “Olha, tem que ser assim. ” É porque eles partem de um gabarito dos gabaritos de índole transcendente, que é uma espécie de ordem natural das coisas à moda de Zeus. E aí você chega pro cara e fala: “Oh! Quem falou? ” Tá certo? Típica pergunta de todo mundo que tem vem com argumento de transcendência. “Teve Zeus” E você fala: “Ah é? ” Tá certo? Mas é que você não entende. Então, a gente tem que viver né? Vou voltar aqui. A gente tem que viver e a gente tem que conviver. Aí você fala: “Ah, os valores são complexos. ” Então, o que acontece na convivência? Não dá pra cada um respeitar um valor. E se os valores são complexos a pergunta é: “que valores nós vamos respeitar para conviver?” Não sei se vocês estão me entendendo. Que a gente pode respeitar a disciplina, pode respeitar o prazer, pode respeitar o respeito. Então nós vamos escolher. Então, perceba, mas nós vamos escolher como? Nós vamos escolher como? Então, a primeira resposta é: “nós vamos escolher aqueles que têm a ver com a ordem cósmica implantada por Zeus.” Depois no lugar de Zeus entrou Deus. E quando Zeus e Deus não deram mais conta o homem teve que começar a escolher valores sem Zeus e sem Deus. E aí surge a ética como nós entendemos nos dias de hoje, direitos humanos. Quer dizer, nós mesmos vamos escolher entre nós sem nenhuma transcendência na liberdade e tal. Essa é um pouco a história de como as coisas chegaram até hoje. Mas não tem como entender Platão, Aristóteles e o caralho sem entender a Teogonia de Hesíodo, por quê?

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Porque quando Aristóteles na Ética a Nicômaco fala de lugar natural, lugar natural é assim: o Poseidon o mar, Gaia a Terra, o outro não sei quê. Sim, mas esses são os deuses? Sim, mas ele veio descendo, descendo, descendo, descendo, descendo, descendo a ponto de você também ter o seu lugar. O meu é Serra Negra né? Ou se você preferir até uma sala de aula, né? Sala de aula. Meu lugar é ali. Ora, qual é a graça desse tipo de proposta? Toda vez que você quiser espirrar fora do seu lugar natural, você comete hybris. E hybris o que é? Agora você entendeu, hybris é o grande pecado antes do cristianismo, que é o desrespeito à ordem cósmica proposta por Zeus. Tá perfeito? Pois muito bem. O Zeus, os deuses, então, saíram da guerra dos deuses, Caos, e foram convidados a participar de uma espécie de Suécia que é o cosmo. Ou Suíça. Eu estive agora pra uma reunião do pessoal da Unesco em Saint Moritz e passeei ali pela Suíça. E me deu mesmo a impressão de que quando Zeus botou ordem na casa ele começou por ali. Não é por acaso que aquele pessoal faz relógio, porque o relógio é muito inspirador do jeito dele ser. O que é muito irritante é o lago. Foda-se qual o lago, vale para todos. Mas eu andei de pedalinho no lago de Zurique, chama-se “Zurique Zee” que é o mar de Zurique. E como é que os caras fazem para ter um lago verde, porque Zurique é uma cidade grande, como é que você vê peixe, pedra? Eu comecei a zoar porquê... Eu estava comendo às margens do lago e com a minha mesa no... né? Aí eu vi uns cisnes. Aí eu peguei um pedaço de pão, hehehe, quando a garçonete virava de costas eu zum! Jogava. E começou a vim cisnes, veio o primeiro, aí vieram cinco, depois quinze e não sei quê. De repente apareceu um representante das forças da ordem dizendo: “O que o senhor está fazendo? ” E eu falei: “Alimentando os cisnes. ” Aí ele falou: “É, mas o senhor está atentando contra a ordem cósmica proposta por Zeus. Eles já são alimentados pelo...” haha, eu falei: “Vai se foder, seu bosta. ” Não ia entender mesmo, né?

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Claro que você pode, por exemplo, sair de Zurique e terminar em Imperatriz, interior do Maranhão. E aí você entende: o Caos nunca desaparecerá. Os Titãs continuam cutucando lá embaixo. E essa tensão entre o Caos e o cosmo que caracteriza a história da nossa existência, não é?

Epimeteu e Prometeu O pessoal me perguntou dos Ciclopes e dos Hecatônquirus. Os Ciclopes são: Brontes, Estéropes e Argeus. E os Hecatônquirus são os famosos três né: Coto, Briareu e Giges. Coto, Briareu e Giges. Bom, vamos ao que interessa. É, do caos à ordem. Zeus botou ordem na casa e o que é que acontece? Justamente nada. Deleuze faz uma grande reflexão sobre o acontecimento. Em francês “événement”. E justamente quando alguém pergunta o que aconteceu? O que é que você tende a contar quando alguém pergunta o que aconteceu? Quando alguém pergunta o que aconteceu, alguém pergunta sobre alguma coisa anormal. Tanto que quando nada de anormal aconteceu, quando alguém pergunta o que aconteceu, o que é que você responde? Nada. Ora, no universo cósmico de Zeus, nada acontece. O vento venta, a maré mareia, o sapo sapeia, girafa “girafeia”. No universo cósmico de Zeus não há propriamente vida. Não há vida porque só há deuses e deuses não vivem propriamente. São eternos. A palavra vida é sempre contaminada de finitude. Vida é coisa que acaba e a existência dos deuses não acaba. Então, é claro, que num lugar onde tudo está em ordem e nada acaba, ainda não se tem muito claro a ideia de temporalidade, de começo, meio e fim; de passado, presente e futuro. E é nesse momento que a gente assiste ao surgimento de um conceito filosófico fundamental pra nós, que é o conceito de tédio, “ennui”. O cosmo de Zeus tem seus méritos. Em relação à guerra, nossa, o cosmo é justo, é belo, é

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harmonioso, é bom. Percebeu? Estética, ética e espiritualidade. Mas nada acontece. E quando nada acontece há uma certa náusea. E os deuses foram se queixar com Zeus: “Porra, malandro, até que a guerra era bem legal, velho. Porque agora nada acontece, puta saco. Nem joguinho às quartas-feiras né? Não tem Avenida Brasil, não tem, não tem nada.” E é nesse momento, a partir do tédio dos deuses, que surgirão os mortais. Então, por que os deuses permitiram o surgimento dos mortais? Para entretê-los. Para que algo pudesse acontecer. Tá perfeito? Porque o acontecimento romperia o tédio. E é claro que quando você pensa em mortais, você pensa em plantas, animais e homem. Mas na reflexão cósmica, plantas e animais não fazem parte desta origem. Não são propriamente mortais. Primeiro, porque não sabem que vão morrer, são só finitos. E segundo, porque com plantas e animais não há ruptura da ordem cósmica, tudo continuaria no mesmo tédio. Portanto, para que houvesse o fim do tédio, seria preciso que houvesse a possibilidade da ruptura da ordem cósmica. Essa é a ideia. E a possibilidade da ruptura da ordem cósmica só pode acontecer num tipo de criatura: aquela que decide sobre como vai viver. Porque aí poderá viver em harmonia, de certa forma, oferecendo mais tédio aos deuses ou viver em desarmonia dando aos deuses algum espetáculo, alguma anomalia que os entretivesse. Por isso, foram convocados dois filhos de Titãs: Epimeteu e Prometeu. Não sei se você entende, mas são alinhados de última hora. Filhos de Titãs que perceberam que a coisa ia pro vinagre e resolveram mudar de lado. E quando você muda de lado na última hora o prestígio é sempre acanhado. Epimeteu e Prometeu estavam na periferia do campo divino. Aí chamaram os dois irmãos. Epimeteu é um desastre. Epimeteu é aquele que fala sem pensar. Conhece criança e algumas

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crianças que ficam grandes. Fala sem pensar e depois se arrepende. Faz sem pensar. Um pouco lerdo, um pouco atrapalhado. Prometeu ao contrário, astuto. Tem sempre um golpe antecipado. Sempre antecipa as jogadas. A ideia de Prometeu é bem essa, a ideia do jogador de xadrez. Aquele que tá sempre: Se isso acontecer, então é isso. Se isso acontecer, então é aquilo. E se isso acontecer é aqueloutro. E se isso, isso, acontecer então, aqueloutro, aqueloutro, aqueloutro. E se isso acontecer, no final das contas... Esse é o Prometeu. O Epimeteu, não. É um pouco sempre atrasado, ele pensa depois que aconteceu. E aí então na hora de distribuir tarefas Epimeteu ficou com os animais e Prometeu com o homem. E é muito interessante observar que Epimeteu fez o que, o melhor que podia ter feito. Distribuiu entre os animais atributos que lhes permitissem a todos se virar. A preocupação era quase que matemática mesmo. Há uma série de variáveis que Epimeteu levou em consideração. Força, velocidade, capacidade de digestão, tipo de coisa que vai comer, mandíbula, é, proteção contra o frio, habitat. O problema todo é que Epimeteu distribuiu tudo e se esqueceu do irmão. E Prometeu se viu na obrigação de fazer o homem sem nenhum dos atributos que Epimeteu já havia entregue aos animais. Essa história você encontra no diálogo Protágoras contada por Platão.

Homem x Animal Prometeu se vê num mato sem cachorro. Os deuses ansiosos para conhecer os novos produtos do cosmo. Epimeteu com toda a sua vitrine preparada pro dia do lançamento e Prometeu sem ter o que fazer. E o homem seria a grande vedete. Prometeu, então, rouba o fogo e a astúcia. Pra isso invade o palácio de Atena, uma confusão.

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Comete uma série de heresias, mas dá ao homem condições de se virar. Mais ou menos assim: Já que você vai ser pobre de recursos naturais, pelo menos eu te dou discernimento para se virar dependendo do lugar aonde você estiver. E, é claro, é claro que esta iniciativa de Prometeu não foi bem vista pelos deuses. Os deuses não gostaram por quê? Porque entenderam que esta distribuição colocava os homens em condição muito próxima da deles. É paradoxal porque é justamente esta condição que poderia permitir aos deuses resolver o problema que tinha dado origem a tudo. Esse paradoxo é muito bem apresentado por Sartre no O Ser e o Nada: Eu não gosto que você seja como você é, porém, sendo como você é você resolve o meu problema original, o tédio. Às vezes acontece entre casais. De vez em quando casamos com gente surpreendente que nos surpreende negativamente às vezes, mas temos que admitir que monotonia não há. Tem gente que põe fogo na casa, tem gente que né? Então, claro. Prometeu vai ser castigado. Prometeu vai ser castigado e vai ser castigado de forma curiosa. Vai ser amarrado num rochedo. Aves virão comer seu fígado e como deus não morre é o tipo de regeneração eterna. Depois o filho de Zeus quebra o galho. Zeus não queria desautorizar o filho, mas tinha jurado que não libertaria Prometeu. Então criou um esquema digno de Brasília. He! Criou o anel, porque com o anel você amarra num rochedo, que é uma pedrinha na frente do anel, e aí eu não volto atrás na minha decisão. Ha ha. Bem fraca essa hein? Mas essa história é uma história que tem consequências filosóficas intermináveis. E eu vou gastar o tempo que me resta apenas para mostrar pra você. A primeira consequência filosófica da história de Prometeu você encontra já em Platão que vai dizer que o homem é constituído de duas partes: corpo e alma.

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A alma, antes de tudo, pensa e a vida boa é aquela decidida pela alma, pela razão, jamais pelo corpo e seus desejos. O homem é livre para escolher a sua vida mesmo sendo desejante, porque o homem pode através da alma deliberar na contramão do seu corpo. Sabe por quê? Porque Epimeteu fez a cagada que fez, deu tudo para os animais. O corpo do homem é um corpo fraco. O homem foi compensado pela astúcia, então a astúcia é a parte superior da alma e a vida boa é quando o homem se interessa por ela e deixa que ela decida a sua vida. Não é pra todo mundo. Para conseguir ter a vida governada pela astúcia, pela razão, pela parte superior da alma é preciso quase que ser um escolhido. A grande maioria viverá mal. Quando você consagra a vida ao desenvolvimento da alma, você cria as condições para uma vida boa. Uma senhora no intervalo disse: “Larguei a ginástica para vir assistir a sua aula. ” É uma troca que seria aplaudida aqui, afinal de contas o corpo muito faz quando não atrapalha. Um pouco de ginástica é bom pra que ele não atrapalhe. A alma é o filé mignon da vida e você só entende isso por causa de Prometeu e por causa do tédio dos deuses. Caberá a alma, quer dizer a razão, quer dizer a astúcia, permitir ao homem encontrar o seu lugar natural, sabe por quê? Quando Epimeteu deu todos os atributos dos animais aos animais já colocou os animais no seu lugar natural, fora dali eles não sobrevivem. Como o homem é zerado de acessórios naturais, uma espécie de Chevette S, é a astúcia que tem que fazer o papel que a natureza não pode fazer. Entendeu, malandro? A tartaruga não erra, por quê? Porque com aquela porra que ela tem em cima ou ela vive no lugar certo ou ela não vive. O coelho não erra, sabe por quê? Se ele viver errado ele já trepou o suficiente para deixar mais quinhentos no lugar dele. O sapo não erra, ninguém erra, agora você que não tem natureza... O GPS da natureza tem que ser substituído pelo GPS da razão.

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Na mesma linha de perspectiva: Rousseau. O gato nasce gato, por quê? Porque Epimeteu lhe deu atributos de gato. E qual é a graça do gato? Já nasce sabendo viver como gato. Então gato vive uma vida de gato. Gato não erra. O gato não, não extrapola a sua condição de gato por quê? Porque não tem condição pra isso. O gato é regido pelo seu extinto e o seu extinto já o coloca na ordem cósmica. Gato não come alpiste, não tá programado pra isso. Do mesmo jeito que pombo não come filé. Um pombo que comer filé comete hybris, quebra a ordem cósmica e pombo não faz isso. E nós? Pois é, Epimeteu fez o que fez e nós não temos natureza. Nossa natureza é insuficiente. Resta-nos ir além da natureza, transcender, possibilidade que nos deu Prometeu. O homem inventa, cria, improvisa, inova, empreende... Inovação, jargão corporativo, homenagem a Prometeu. Gato não inova, mas você inova. Inovação. Fazer diferente. Condição de sobrevivência. Se a situação é nova a solução é nova. Gato não tem esse problema. O gato já tem no seu extinto todas as soluções pra uma vida de gato. E se alguma situação nova aparecer que não é condizente com a vida de gato o gato morre e acabou. Agora você que não é gato inventa, cria, improvisa, inova, empreende e tudo isso é herança de Prometeu. Tudo isso é herança de Epimeteu. Você é o resultado da cagada de Epimeteu com a coragem de Prometeu e do tédio dos deuses, uma espécie de bobo da corte. Você é muito menos do que um gato. Você é um gato torto. Você é um gato errado. Você é um erro. Um erro estranho. Um erro que nasceu para fazer graça para deuses entediados.

Sartre e o Mito de Prometeu Mas não há dúvida que é em Sartre que o mito de Prometeu ganha toda a sua atualidade. Porque Sartre na obra O Existencialismo é um Humanismo vai deixar claro que no caso do homem a existência precede a essência.

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E é aqui que você tem que me entender. O gato primeiro é gato, essência de gato. Depois vive como gato, existência de gato. No caso do gato, a essência do gato determina a vida do gato, primeiro ele é depois ele vive de acordo. Primeiro ele é depois ele existe. Primeiro a essência depois a existência. Primeiro Epimeteu depois a vida. O homem é o contrário, ele não tem essência antes da vida, por isso, primeiro ele vive e depois se ele quiser ele descobre quem ele é. Mas ele é em função daquilo que ele fez. Em função das escolhas que fez. Em função do tipo de uso da astúcia de Prometeu que ele deu pra sua vida. O homem é a liberdade para escolher o seu caminho. O homem é o nada. Por isso o Ser e o Nada. O ser é o gato o nada é você. Quando você nasce não sendo nada, por que nada? Chevette S, cagada de Epimeteu, sem atributos. Você é o nada, então não sendo nada tem trezentos e sessenta graus de alternativas. E quando você vai contar pra alguém no bar quem você é, você não diz: “Eu sou um espaço de mitoses e meioses. ” Você não diz: “Eu sou intestino que peristalta. ” Você não diz: “Eu tenho pelo cobre. ” Né? A pessoa quer saber quem você é, você diz: “Ah, eu sou um neurônio que sinapseia. ” Você tá entendendo a pertinência do que eu estou falando? Por quê? Porque a tua natureza não te define. Pro gato sim: siamês, pelo curto, um coiso, pa pa. E você? Você não, mas a tua natureza não te define. O que é que te define? O que é que te define? O que é que você diz para as pessoas quando você tem que dizer quem você é? Eu digo: “Eu sou professor. ” Isto quer dizer: eu escolhi ser professor. Isto quer dizer: eu fui livre para escolher ser professor. E entre muitas possibilidades escolhi essa, então eu sou a minha escolha; eu sou a minha vida; eu sou o caminho que eu escolhi percorrer. Primeiro eu vivo depois eu te conto quem eu sou. Depois eu te conto quem eu fui. A existência precede a essência. A vida vem antes da definição, por quê? Porque Epimeteu não nos deu definição, tirou-nos a possibilidade de uma natureza e nos fez primeiro viver, ter que viver do nada, a partir do nada. É o

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que chamamos de liberdade. Se fôssemos gato teríamos que viver como gato, não há liberdade para gato. Se fôssemos pombo teríamos que viver como pombo. Mas como não somos nada não temos que nada. Mulheres viram homens, homens viram mulheres. Gordos lipoaspiram, magros siliconeiam. Cabeludos raspam, carecas implantam. Branquelas bronzeiam, bronzeados esbranquiçam quando dançam e cantam bem. Faz o que quiser, estica, encolhe, bomba peniana. Peitos pequenos, mililitros, mililitros, mililitros, mililitros. Mulher azeitona, mulher manga, mulher melancia, mulher caminhão, mulher jamanta, mulher montanha, mulher everest. Mulher... “Não, eu quero mais cento e oitenta litros em cada peito. ” O que eu quiser. E por quê? Porque Epimeteu não, né? Gato não põe implante, mas você põe, porque você faz o que quiser. E você vai dizer: “É bem legal! ” É legal o caralho, isso é, he, legal... Já viu alguma coisa de legal nisso? De legal não há nada o que há é pura angústia de não saber para onde ir. O homem tem a chance de através da astúcia conseguir recuperar a cagada de Epimeteu e encontrar o seu lugar natural: Ulisses em Ítaca, Clóvis na sala de aula, César Cielo nos cinquenta, não é nos cem é nos cinquenta. É isso. Eu espero que você tenha entendido a atualidade do mito. Eu espero que você tenha entendido, e eu poderia ficar aqui falando horas sobre as consequências filosóficas desta ideia fundamental da história das alegorias míticas. A fabricação dos mortais por Epimeteu e por Prometeu explica a nossa especificidade. A nossa especificidade é ser nada de princípio. E quem é o professor Clóvis? É a aula que ele dá. A coisa poderia funcionar assim: Aqui está o professor Clóvis que é e depois ele dá a aula de acordo com o que ele é. Não funciona assim. Primeiro o professor Clóvis dá a aula e aí dando aula ele vai descobrindo quem ele é. Porque antes da escolha não há nada. Quer saber? A isso chamamos emancipação. Até porque não tendo natureza humana

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Aula 2: Os mitos e as fraquezas do homem Páginas: 31

também não tem natureza feminina sabia? Um tipo mulher nasceu para. Isso é tirania, mulher não nasceu para nada. Epimeteu garante. Mulher nasceu pra ser livre e escolher, fazer da sua vida o que bem entender: lutar boxe, ser bombeiro, pilotar fórmula um, trepar com outra mulher, trepar com o semáforo, fazer o que quiser. O resto de cuidar de filho e não sei... Isso é o resultado de uma dominação. Também não tem natureza de negro, natureza de judeu, natureza de japonês, natureza não sei quê. Não há natureza de nada. Somos todos igualmente livres de princípio para fazer da nossa vida o que bem nos aprouver. São trezentos e sessenta graus de alternativas. São infinitas as possibilidades. A escolha é nossa. Os valores são complexos. Uma chance de diminuir a complexidade e a angústia é acreditar no cosmo e no cosmo existe um lugar para nós aonde a nossa natureza entra em harmonia com a natureza no ar. É essa a vida boa na primeira grande perspectiva ética da história ocidental: a ética cósmica. Amanhã, no final desses nossos encontros, vamos apresentar alguns mitos que possam dar conta desse duelo cosmos caos e vamos começar na primeira parte por uma linda história do Rei Midas que certamente vai vos encantar quando relatada por mim, claro. Até amanhã se Deus quiser!

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Filosofia dos mitos, aula 2 os mitos e as fraquezas do homem  
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