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Curso: O pensamento de Bourdieu Professor: Clóvis de Barros Filho Número de aulas: 5

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DOMINANTES E DOMINADOS Pragmatismo de Maquiavel Dentro daquela reflexão sobre o campo, faltou esticar um pouquinho a ideia da ética, né? Então, é claro, que se você imaginar que num primeiro momento você tem um fulano chamado Platão, né? E que no final das contas o que é que Platão vai nos ensinar? Que, é, o certo e o errado da vida e da convivência dependem de idéias que transcendem a vida e, portanto, são ideias absolutas, quer dizer, não são relativas a nada, e, portanto, o que é justiça é justiça cinco séculos antes de Cristo, como hoje, como em Assunção no Paraguai, em Vladivostok, para burgueses e proletários, bichas e tarados, não importa, não é relativo a nada, né? Perspectiva, então, de um mundo ideal, não é? E de um mundo sensível onde os problemas aparecem. Se você imaginar que ele vai pari um discípulo, que é mais um aluno do que um discípulo, que vai propor que os problemas éticos do cotidiano, eles devem ser regidos por uma harmonia cósmica, né? Colocar-se em harmonia com um universo, você percebe que daqui pra cá, é, a referência baixou de degrau né? Por quê? Porque isso aqui, o mundo das ideias, se caracteriza por quê? Pelo fato de não depender, não é? Dos encontros materiais, né? O mundo das ideias transcende a matéria. Ora, esse cosmos grego, espécie de mundo harmônico que nos convida a que nos harmonizemos com ele, esse cosmos grego já é o mundo da matéria. Então a referência é uma referência transcendente em relação ao homem, mas imanente em relação ao mundo. Aqui é transcendente em relação ao homem e em relação ao mundo. Então, descemos um degrau. Aristóteles, digamos, nos propõe uma referência, é ética mais próxima de nós. Vento venta, maré mareia, o sapo sapeia, eu dou aula e você assisti a minha aula, e tudo em ordem, né? Já tá mais próximo de nós do que uma certa definição de justiça ser buscada, né? A ser

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buscada. Aí você tem o pensamento cristão. De certa maneira, o Deus cristão, né? Ele vai nos oferecer a referência pros problemas éticos do cotidiano, porque Deus tem uma missão pra nós; Deus nos deu talentos. Deus, então, tem, digamos, uma relação conosco e conversando com Ele podemos descobrir o que Ele quer pra nós e podemos, de certa forma, mobilizar os nossos talentos em busca do que Ele espera de nós. Então você percebeu, esse Deus aí, a gente tinha descido um degrau, a gente volta a subir um degrau, mas aí Deus mandou Seu filho, aí, de certa maneira, esse Deus mais Cristo, é, Cristo “tangibiliza” um pouco, né? Essa referência ética de que tanto precisamos. Ora, quando chega na modernidade a reflexão sobre o certo e sobre o errado vai depender mais de nós do que dependeu em outros momentos. E aqui poderíamos fazer um inventário de propostas. Comecemos por Maquiavel. E é claro, o que é que Maquiavel vai nos ensinar? A ação é boa quando você alcança o que quer. Em outras palavras, a ação é boa em função do seu efeito, né? Eu, Clóvis, o que eu quero? A glória. Isso tranquilamente. A glória é o meu fim. Fim de finalidade. – Ah, o senhor não pensa nos seus alunos? Nunca. A não ser como instrumento para a minha glória, entendeu? Porque é você que me aplaude e não há glória sem o aplauso do outro. Só isso. – Não, mas o senhor não gosta de mim, assim? Enquanto me aplaudir, eu gosto.

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– Não é possível, você não tá falando a verdade. Foda-se. Aqui é Maquiavel. Então a ação vale pelo seu efeito. Ora, o que é que define o efeito em relação à ação? Tá fora, he he. Tá fora. O efeito tá fora. O efeito não é ação. Então, quer dizer, uma coisa é a minha aula outra coisa é a tua alegria. Então, você percebeu que, de certa maneira, nós continuamos com uma referência que transcende a vida, porque depende dos efeitos eventuais, né? Então, eis aí o pragmatismo de Maquiavel: só pode viver bem quem consegue o que quer. Tá perfeito? Só pode viver bem quem consegue o que quer. Portanto aquele que quer uma coisa e não consegue não pode dizer que viveu bem, né? Eu quero a glória, a minha aula é boa se me der à glória. Age bem aquele que consegue o que quer. Claro, um profissional da política quer o poder, senão não é profissional da política. Então, o profissional da política governa bem quando aumenta o poder que tem. E você dirá: “E eu?”. Você conta como o meio. Se a tua alegria for condição pra ele aumentar o poder, então ele tentará te alegrar, senão não, porque o jogo da política é o jogo do poder. – Ah, mas e o bem comum? O bem comum não tem nenhuma relevância a não ser como meio para aumentar o poder, porque o que o profissional da política quer é o poder. É gozado como alguns de vocês me olham estranho. Não devem fazer assinatura de jornal. Assine um jornal, né? Isso vai te ajudar a dar razão a Maquiavel. Ou você não percebeu ainda que a única coisa que o profissional da política quer é o poder? Então, é claro, quando ele alcança o poder, ele agiu bem, quando ele não alcança o poder, ele agiu mal. Isso pode parecer estranho, mas é assim.

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Pragmatismo de Maquiavel: é bom quando ganha, é ruim quando perde. Ficou claro? Difícil de engolir. Proposta de Maquiavel: é bom quando ganha. Tô insistindo nisso, porque eis aí alguma coisa que ajuda a entender o que nós estamos querendo discutir. Fiiiiiii... Esse é o pragmatismo.

Utilitarismo, pragmatismo e intencionalismo Naturalmente, isso aqui, na hora que você diz: “Eu agi bem quando conquistei o que eu queria”, a pergunta é: O outro, resposta: Meio para a vitória. Isso produz um desconforto enorme, né? Como é que o outro pode ser meio, apenas meio, pra eu conseguir o que eu quero? Então, naturalmente, surge aqui o pensamento utilitarista. Quer dizer, bom, mais ou menos contemporâneo: Mill, né? Bentham... E o que eles vão dizer? A ação é boa, mas não porque eu me dei bem. Não. A ação é boa porque ela teve como efeito a felicidade do maior número. De novo, a felicidade do maior número está na ação? Não, tá fora. O critério continua transcendente, né? Olha só, mundo das ideias: cosmos, Deus, vitória de quem age e alegria do maior número, são referências externas ao agente e que serviram ao longo da história de parâmetro pra saber se você foi eticamente legal ou não. Qual é a graça disso aqui? A poesia, né? Felicidade do maior número, velho, é um negócio, uma coisa de inglês mesmo, né? Que invade a Índia com terno branco, o cara, guarda-chuva branco, né? E como é que a conduta é boa? Quando patrocinar a alegria do maior número que é a inglaterização do mundo, né, assim como a globalização é a americanização do mundo, teve uma época que a Inglaterra tinha a mesma pretensão. Então, claro está, que a felicidade do maior número definitivamente nunca ninguém descobriu do que se tratava, né? Mas continuamos com um problema, né? A ação vale pelo seu efeito, né? E aí, é claro, vai

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aparecer um fulano chamado Kant e que vai dizer o óbvio, isso aqui chama utilitarismo. – Ah, professor, Maquiavel eu enxergo bem na luta política, agora isso aqui eu não vejo muito. Vê sim. Você nunca ouvir falar em responsabilidade social das empresas? Então, o lucro tá aqui, né? Você pega um CEO, pra Maquiavel, agiu bem? Rá! Lucro, bateu a meta... Agora, e o resto? Ah, distribuiu salsicha em favela, croquete, é, deu, sei lá, catavento pra criança, operou fimose em índio... Pô, operou fimose em índio, o quê? A minha aluna é, aliás, uma aluna extraordinária, saiu da faculdade, foi minha aluna, foi minha orientanda, sério, saiu da faculdade e foi trabalhar numa empresa preocupada com a ereção masculina, consagrada com isso. E aí o primeiro projeto de responsabilidade social foi fazer operação de fimose em índio no Xingu. Aí eu perguntei: “Mas eles querem?” Ela disse: “O índio não sabe o que quer. O próprio Direito diz: o índio é relativamente incapaz, sei lá o quê. O índio não sabe o que quer”. Eu peguei e falei: “Você vai pessoalmente fazer esse trabalho?”, ela disse: “Vou”. Eu falei: “Bom, nesse caso eu já estou adquirindo o meu cocar, não é? Porque você não tem noção do naipe da responsável pela responsabilidade social. Operar fimose em índio no Xingu é muito bacana porque o índio não sabe muito bem o que ele quer, né? Agora, o que é que Kant vai dizer? A ação é boa quando? E o que Kant vai dizer é muito legal: “Você não pode dizer que uma ação é boa pelo que acontece depois”. Essa é a ideia. Você não pode dizer que uma ação é boa pelo que acontece depois, por quê? Uai, Isso é imediato. – Ela tem que ser boa pra ser feita. (aluno responde)

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Claro, companheiro. Como é seu nome? – Fábio. Fábio. Inscreva-se já no vestibular do curso de Filosofia. Como é que você pode julgar a ação pelo efeito se o efeito vem depois? Como é que você vai agir? Você percebeu? É, não tem como antecipar o efeito, razão pela qual a ação tem que depender de uma variável que não é o seu efeito. E depois, não é bem por isso que ele disse isso não, eu quis só encher a tua bola pra você ficar feliz. Mas, na verdade, quando você age e a tua ação é julgada pelo efeito, e o que acontece normalmente com os efeitos? Eles dependem de muito mais causas do que a tua ação. E você acaba pagando o pato sozinho. Não sei se você entendeu? É o que o Direito chama de 'com causas', é bem legal, he! Eu leio só de três ou quatro coisas da faculdade de Direito, eu gosto de lembrar porque senão esquecendo tudo é possível que eu, perdendo totalmente a memória eu perca a vida vivida, né? Então, eu lembro que mora é a delonga ou atraso no cumprimento da obrigação e tem com causas e funciona assim ó, né? Eu vou te dar um exemplo: Eu te dei uma aula sobre felicidade, é a mais triste das aulas. Aí o aluno já veio pra aula deprimido, certo? Aí ele ouviu o que eu falei sobre a vida e sobre a felicidade e tal e coisa. Ele saiu dali e decidiu abreviar a existência dele. Você percebeu, companheiro? Ué, teria abreviado se eu não tivesse dado a aula? Talvez não. Por outro lado, não foi a aula a única responsável por ele ter abreviado a existência. Ora, se a ação vale pelo seu efeito eu tenho que pagar o pato sozinho, aliás, todo mundo tem que pagar o pato sozinho dele ter abreviado a existência. Acho que você entendeu; não parece justo. Afinal de contas, a minha aula foi uma gota, né? Num oceano de angústia, num oceano de privação emocional, num oceano de abandono, num oceano de tristeza. A minha aula foi uma gota que permitiu a esse rapaz tomar essa sábia decisão.

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Mas eu não posso pagar o pato sozinho. Acho que ficou claro, não dá pra julgar a ação pelo seu efeito. O pragmatismo é uma falácia. Sem falar que os efeitos não param, hum. Efeito gera efeito, que gera efeito, que gera efeito, que gera efeito, que gera efeito, e, portanto, eu não tenho como aferir a ação pelos efeitos porque eu teria que arbitrariamente definir até quando... Entende o que eu tô dizendo, não? A minha ação... A ação gera efeito, né? Vamos imaginar: a aula gera alegria do aluno. O aluno chega em casa e conta pra mãe, né? Então tem o efeito dois: alegria da mãe. Efeito três: a mãe vai assistir à aula; mãe vai à aula. Até aqui tudo bem, né? Show de bola, a aula é do caralho. Só que quando a mãe vai à aula ela é contaminada pelo tédio absoluto, percebeu? Eu pergunto a você: a aula vai ser julgada pela alegria do aluno, pela alegria da mãe ouvindo o aluno, pelo fato da mãe ter ido assistir a aula, ou pelo tédio que a mesma aula determinou? Acho que você entendeu, acho que você percebeu, os efeitos não são confiáveis. Portanto, a boa ação não pode depender do efeito, tem que depender da boa vontade, da boa intenção e isso é outra coisa. Isso é intencionalismo não é pragmatismo. O que importa é o que eu quero que aconteça e não o que acontece efetivamente. O que importa é que eu tô pensando em termos de transformação do mundo. O que importa é o que eu gostaria que acontecesse e não o que acontece. Esse é o intencionalismo kantiano: o que importa é a boa vontade. Eu acho que você percebeu que eis aí uma referência que de todas essas é a mais imanente ao agente. A ação depende de uma boa vontade. Se você quer que aconteça, faça. E se não acontecer? Não é problema seu. O efeito não é referência. Eu não sei se você entendeu, mas na moral kantiana não haveria homicídio culposo, porque se eu não queria, tô dirigindo meu carro, de repente alguém entra na frente e eu mato, eu produzi o efeito, mas eu não queria matar. Como a moral é intencionalista só conta o que eu queria que

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acontecesse. E por que Kant acha que tem razão? Porque o que você quer que aconteça é a única coisa que você pode controlar completamente, né? O efeito você não controla, mas o que você quer você controla. E é isso que deve pautar a tua ação. Beleza, até aqui?

Infraestrutura, superestrutura, marxismo e classes sociais Muito bem, mas é claro que a história do pensamento não acabou aí. O século XIX chega. E o século XIX vai nos contar o quê? A referência para o certo e para o errado vai depender, né? Você tem aqui um problema, tá aqui o seu cotidiano, e qual é a referência para o certo e para o errado? E o século XIX é o século que aparece a Sociologia. E o que é que a Sociologia vai nos propor no lugar de tudo aquilo? O certo e o errado é uma decisão social. É um fato social. A ética é um fato social, né? Quando Durkheim fala sobre ética, ele fala sobre ética como fato social. É a sociedade que decide sobre o que é certo e sobre o que é errado. Muda a sociedade, muda o que é certo e o que é errado. A sociedade é a referência a partir da qual eu posso identificar se eu estou agindo bem ou agindo mal. A sociedade é instância legítima de definição do que é certo e do que é errado. Ficou claro? Então, é claro, que se numa sociedade eles extirpam o clitóris pra mulher não ter prazer, isso é uma regra social culturalmente explicável. Tá certo? Tá bom? Ora, a partir daí, como é que eu melhoro a explicação? Como é que eu melhoro a explicação do certo e do errado a partir de uma perspectiva sociológica? Em outras palavras, o que eu tenho que investigar na sociedade pra compreender melhor os processos de decantação dos valores, né? Como é que eu faço a genealogia dos valores examinando a sociedade? Como que eu faço? E a resposta que darão os sociólogos é uma resposta comum: Pra você melhorar a tua

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competência na investigação da onde veio o certo e o errado, você tem que cortar a sociedade de maneira a focar melhor aonde aquele valor surgiu; é cortando a sociedade. Por quê? Porque se você quiser saber como deve ser dada uma aula de filosofia, você não precisa perguntar pra uma pessoa que vende amendoim na rodoviária de Curitiba. Por quê? Porque ela não participa dessa definição. Se você quer saber como é que um juiz deve dar uma sentença, você não tem por que perguntá-la no Hospital Albert Einsten, pra quem faz transplante de fígado. Se você quer saber como é que um pintor deveria pintar pra ser vanguardista, você não tem que perguntar pra mim que não entendo picas de pintura. Se você quer saber qual é o valor, sei lá, de uma obra cinematográfica, não adianta nada perguntar para o Rogério Ceni, né? É, se você quer saber, portanto... Então, perceba que eu preciso encontrar na sociedade onde está o problema. Eu preciso, de certa maneira, como numa cebola, eu preciso encontrar, onde mais provavelmente está a gênese dos valores que eu estou investigando, como numa cebola. Procura me entender, né? Então, nesse sentido eu vou mais longe. Vamos imaginar que olha... Alguém faz uma tese, né? Uma tese sobre a Rede Globo. Então é aqui. Aí esta aqui o mundo, né? E esta aqui a tese. Qual o valor da tese, a tese é boa? Bom, é a sociedade que decide o valor da tese, né? Bom, e esta aqui o mundo. Aonde exatamente eu vou procurar? Não é todo mundo que gosta disso. Não é todo mundo que se interessa por isso. Não é todo mundo que participa disso. Não é todo mundo que coisa isso. Então, perceba que eu tenho que identificar o lugar onde mais provavelmente os critérios de uma boa tese são discutidos e definidos. Eu tenho que procurar. Então esse é o trabalho do investigador. É tentar encontrar no meio de um universo social gigantesco, o lugar onde mais provavelmente está a gênese do valor acadêmico de uma obra.

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E pra responder tudo isso, você vai encontrar a resposta do materialismo histórico. E o que é que vai nos propor Marx? Se eu quero saber o valor de qualquer coisa, o valor de qualquer coisa, eu preciso partir da premissa que as coisas aparentes do mundo que merecem o nosso valor, essas coisas são superestrutura. Elas não se explicam por elas mesmas. Então, o valor de um artigo jornalístico, o valor de uma sentença, o valor de uma obra de arte, o valor de uma tese acadêmica, o valor de qualquer coisa, não se explica por ela mesma. Por quê? Porque eu preciso de uma referência desde Platão até aqui. E qual é a referência do valor das coisas? É a infraestrutura econômica. Em outras palavras, é a economia da sociedade, o lugar privilegiado pra achar os valores das coisas do mundo. É a economia, é a produção de bens. Então, se você quer saber se o Padre Marcelo faz bem ou faz mal, o que ele faz, saiba que a resposta está na produção de bens materiais. Se você quer saber se o STJ julga bem as lides que chegam até ele, saiba que a resposta está na produção de bens materiais. Se você quer saber se o professor Clóvis dá uma boa aula, saiba que a resposta está na produção de bens materiais. Aí você olha e diz: “Não entendi porra nenhuma. O que tem a ver a produção de bens materiais a ver com o valor de tudo isso?”. E a resposta que Marx dá é simples: na hora de produzir bens materiais você tem dois grupos, a burguesia e o proletariado. A burguesia é dona dos meios de produção, o proletariado vende o trabalho pra poder participar do processo econômico, e, portanto, a relação de conflito entre burguesia e proletariado é o que explica o valor de todas as coisas. A luta de classe é o motor da história. A luta de classe é a base pra entender o valor de todas as coisas. Então, se você quer saber, claro, ele me olhou com cara de: “Não entendi a relação”. Ué, meu Deus, como que não entendeu relação entre burguesia e proletariado, né? É a burguesia e o proletariado. É a luta de classes. O espaço que ajuda a definir o certo e o errado. É a burguesia e o proletariado.

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Então existe o quê? Existe um jeito burguês de atribuir valor ao mundo, e esse jeito burguês de atribuir valor ao mundo vai de certa forma ser, é, espargido, né? Vai ser universalizado. O jeito burguês de atribuir valor ao mundo vai ser, de certa forma, estendido pras zonas não burguesas da sociedade através dos meios de difusão e de imposição dos valores burgueses, e a partir daí eles se tornarão universais como se fossem uma verdade absoluta indiscutível. Acho que você entendeu o que eu estou dizendo: o que a classe dominante diz que é bonito acaba sendo bonito graças ao Faustão, né? O que a classe dominante acaba dizendo que é um corpo belo passa a ser um corpo belo graças as Paniquetes, né? Mas a burguesia tem os espaços de consagração do que é bom e do que é ruim. A burguesia tem, portanto, o controle das instâncias sociais de divulgação e definição do que é certo, do que é errado, do que é bom, do que é ruim, do que é bonito, do que é feio e assim por diante. Portanto, se você quiser entender o que é bonito e o que é feio na sociedade, você tem que entender de que maneira a burguesia oprime o proletariado. Marx até chegarmos a Bourdieu. E o que é que Bourdieu vai dizer: “Não sei se é só isso. Não sei se é só isso”. Que gás né? Que esforço. Isso é do tempo que eu dava aula. Que esforço. O que é que Bourdieu vai dizer? Na hora que você tem um certo, um problema existencial qualquer, esta aqui o seu cotidiano, você precisa de uma referência. A referência é a sociedade porque ele é um sociólogo. Mas dizer que é a sociedade é dizer uma coisa muito grande; é quase não dizer nada. Então Bourdieu vai tentar encontrar o orbital, vai tentar encontrar o lugar mais provável de explicação dos valores das coisas. E o que é que Bourdieu vai dizer em relação a Marx? Que dividir a sociedade em burguesia e proletariado é muito útil pra entender muita coisa e completamente inútil pra entender muitas outras coisas. Não sei se você me entendeu. A divisão da sociedade em classes sociais ajuda a entender muitos valores que nós

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respeitamos, mas não ajuda em nada a entender tantos... Não ajuda em nada a entender tantos outros valores que a gente respeita também. Tá perfeito isso? Em outras palavras, Marx está para o pensamento social contemporâneo como a roda está para Lamborghini. Tá perfeito? A divisão da sociedade em classes é legal... Desculpa aí. A divisão da sociedade em classes é muito legal, mas ela não explica tudo. E eu posso, diz Bourdieu, encontrar um jeito de explicar melhor os valores que estão na sociedade pela sociedade, mas melhor do que dividir a sociedade apenas em burguesia e proletariado, por quê? Porque muito do que acontece na sociedade não se deixa explicar pela luta de classe. A luta de classe é muito bacana pra explicar muita coisa, e muito inútil pra explicar muitas outras coisas.

Valores dominantes Então perceba, o conceito de campo aparece aí. Nossa, cara, nunca você vai encontrar alguém que fizesse isso pra você. Eu não sei se você percebeu, mas eu comecei do mundo das ideias de Platão. Eu passei pro cosmos aristotélico. Eu passei pro Deus cristão. Eu passei pra vitória pragmática. Eu passei pra responsabilidade social e o bem comum. Eu passei pela vontade, pelo voluntarismo kantiano. Eu passei pela luta de classe e eu cheguei no campo. Eis aí uma referência pra entender os valores dominantes em circulação num determinado espaço. Em outras palavras, se o problema for a tese, o campo é o acadêmico. Se o problema for o filme, o campo é o do cinema. Se o problema for uma jogada do centroavante, o campo é o futebolístico. Se o problema for uma sentença do juiz, o campo é o jurídico. Se o problema for uma decisão de um empresário, o campo é o econômico. E se o problema for uma estratégia de marketing eleitoral, o campo é o político. Eu espero que você tenha entendido que Marx está para Bourdieu como a roda está para

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Lamborghini. Em outras palavras, graças ao conceito de campo eu consigo identificar o orbital mais provável, aliás, orbital mais provável é um pleonasmo, porque o conceito de orbital nasce pela probabilidade de um elétron se encontrar. O campo é o orbital dos fenômenos sociais. Quer dizer, aonde mais provavelmente eu consigo explicar as coisas. Se eu tenho valores sociais eu só conseguirei explicar a gênese desses valores sociais a partir do campo específico em que esses valores valem. Por quê? Porque fora do campo o valor acadêmico não tem valor, certo? Não sei se ta me acompanhando. Quer dizer, eu tenho o título de livre docente, é um valor, academicamente é um caminhão de valor, fora do campo acadêmico é um xis, não tem valor nenhum. Então, por que o campo é o espaço legítimo de investigação da gênese dos valores sociais? Porque é só no campo que os valores valem, fora deles, os valores, eles são difusos. Difusos e confusos. E é por isso que o campo é o instrumento sociológico legítimo pra estudar o quê? O surgimento do certo e do errado.

Bourdieu x Habermas Eu queria passar um paralelo antes de fechar esse ponto com Habermas. Habermas é muito legal. Eu sinto que Habermas é um irmão pra mim. Hum. Porque quando Bourdieu morreu, ele que assinou o artigo na mesma página. Eu fiquei muito feliz. Habermas é um pensador de envergadura mundial e eu sou completamente desconhecido. Mas Habermas diz coisas que vale muito a pena você considerar aqui, porque são pensadores contemporâneos Habermas e Bourdieu. E o que é que os distingui? Habermas tem conceito e o conceito de Habermas é o conceito, o principal conceito de Habermas é o conceito de espaço público. Ora, espaço público ou alguns traduzem por esfera pública. Ora, o que é o espaço público? Presta atenção aqui, porque se não aprender isso comigo eu vejo poucas chances pra você.

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É, o espaço público é um espaço abstrato como o campo. O espaço público é a possibilidade e a necessidade que os agentes sociais têm de interagir, de se apresentar e de defender seus pontos de vista, o que quer dizer defender os seus valores em aliança com outros e em contradição com terceiros. Segundo Habermas, o espaço público democrático é a condição de emancipação da sociedade, isto é, é a condição para que o homem consiga trazer pra si as rédeas da sociedade no sentido de uma definição de pra onde queremos ir. O espaço público, portanto, é um espaço em que todos, através da exposição de si mesmo, através da aparição pública, através, digamos, da apresentação de si, nós conhecemos as diferenças que temos em relação aos outros, e de certa maneira isso nos ajuda a nos conhecer melhor. O espaço público, portanto, é um espaço aonde decantará o melhor argumento, decantará o melhor valor, decantará o melhor ponto de vista, decantará, digamos, a melhor ideia para aquele mundo e pra aquele espaço, né? Pra, a, digamos, o melhor caminho a ser trilhado por aquele coletivo. O espaço público é um espaço de enfrentamento com vistas a um pacto, com vistas a um consenso, né? Em função de uma, de uma deliberação coletiva sobre pra onde queremos ir. Espaço público. Então, aí você olha pra mim e diz: “Qual a diferença entre o espaço público habermasiano e o campo de Bourdieu? A diferença é enorme. E por quê? Procura me entender. Bourdieu é um cientista social. Bourdieu, portanto, estuda a sociedade como ela é. Bourdieu, portanto, não tem a menor preocupação de dizer pra onde queremos ir, pra onde temos que ir. Bourdieu nunca foi filósofo.

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Então quando, quando Bourdieu propõe o conceito de campo, ele propõe uma noção pra estudar a sociedade como ela é. Ora, o campo é um espaço de luta, de enfrentamento e esse espaço de enfrentamento é um espaço de dominação. E, portanto, quando Habermas fala que todos vão apresentar os seus argumentos e daí todos vão, vão decidir qual é o melhor argumento, e todos vão assinar embaixo o melhor argumento, e todos vão estar de acordo com o melhor argumento, e vão todos estar felizes com o melhor argumento, ora, Bourdieu só pode olhar e dizer: “Mas aonde cargas d'água você viu isso acontecer?”. Sabe quando existe consenso? É quando você tem um na frente, o outro atrás e um tubo de gel, né? Esse é o consenso. É o caracu, né? É o consenso caracu: eu domino e você é dominado. Eu ganho e você perde. Eu mando e você obedece. Eu ganho e você perde. Eu tenho ponto de vista que prepondera e o seu não prepondera. E isso aí, quer chamar de consenso chama, mas o campo é um espaço de dominação, de poder, um manda e o outro obedece, entendeu? Ora, vamos todos dar as mãos e encontrar o melhor caminho, nossa, velho, só falta um violino pra acompanhar, tá certo? né? Então Habermas, é curiosamente um pensador humanista que quer um... Ele é muito bem intencionado, certamente ele é muito melhor pessoa do que Bourdieu pra conversar. Ele deve ser um vovô fantástico pros netos dele: “Vamos todos sentar, todo mundo fala, todo mundo expõe o seu ponto de vista e aí todos vamos entrar num acordo de qual é a melhor maneira de conviver”. Porra, velho, legal. E agora que tal a do português, né? É, por quê? Porque no mundo da vida, no mundo da sociedade, o que acontece é que os valores decorrem de um processo de dominação e de imposição do interesse de uns sobre o interesse de outro. Tá perfeito? Então veja só, Habermas e Bourdieu, né? Podíamos botar, aqui, luta de classe, campo e espaço público, né? Como referência pra ética. Ética do espaço público, ética da discussão, ética da

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comunicação, ética do discurso, são palavras equivalentes pra teoria moral habermasiana. Então, o que Habermas vai nos propor? O espaço público é o espaço legítimo de deliberação coletiva sobre os valores legítimos, os melhores argumentos e pontos de vista com vistas a uma humanidade melhor. O que dirá Bourdieu? O campo é um espaço em que uns mandam, outros obedecem, uns fodem e outros são fodidos, uns preponderam e outros sucumbem e assim por diante. E você dirá: “Qual dos dois, será, explica melhor as coisas como elas são? E qual dos dois, será, é mais útil pra que a humanidade seja melhor? Porque, percebe, cada um na verdade quer uma coisa. Habermas, no final das contas, o que ele quer é que as pessoas possam participar mais do debate o que ele considera fundamental pra democracia. Que as pessoas tenham condições de participar e decidir coletivamente. Porque mesmo quando teu argumento não prepondera, você tem que aceitar que o argumento contrário é superior ao seu e aí você se convence. O espaço público é um espaço de convencimento, fundamentalmente, enquanto que o campo é um espaço truculento de dominação. Até aqui a primeira metade, na segunda metade a gente continua. Bom intervalo. Dez minutos, porque Bourdieu não aceita um segundo de atraso.

Estratégias do campo Quando você pertence a um campo e você joga o jogo, muita coisa que você faz é visando os troféus do campo. E quando eu digo visando eu quero dizer: você articula meios e fins. A isso chamamos estratégia. Ações que passam pela sua cabeça, e que têm como consequência imaginada uma aproximação dos troféus. E quem diz uma aproximação dos troféus diz ganho de capital específico do campo.

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Você se lembra de uma semana atrás: todo o campo tem um capital específico, espécie de recurso que só vale naquele campo pra obtenção daquele troféu. Falamos de campo acadêmico, campo político. O capital acadêmico e o capital político são mesmo incomparáveis. Daí tanta irritação quando um profissional da política pretende invadir a academia, mesmo quando ela é a Academia Brasileira de Letras. Se ele escreve bem ou se ele escreve mal, vai se lá saber o que isso quer dizer. Mas o fato é que os capitais eles são de uma dramática especificidade, porque eles só valem mesmo no orbital que lhe corresponde. A estratégia é isso, a articulação de meios, a disponibilização de capitais para a aproximação progressiva do troféu. Se você preferir, a estratégia é a acumulação de capital para a acumulação de capital. A estratégia é você mobilizar energia para conseguir mais recursos. A estratégia é a organização dos próprios recursos com vistas a dispor de mais recursos. Vontade de potência, dirá Nietzsche. Alegria que busca alegria, tesão que busca o tesão, potência que busca a potência, potência que quer mais potência, e quando tudo isso é consciente e orquestrado pela consciência recebe o nome de estratégia. – Mas poderia também ter o nome de manipulação, de corrupção, né? (aluna fala) É, não, aqui, sim, é claro, mas eu me refiro só a você verificar quais são as tuas condições. Vamos imaginar que eu queira ter mais prestígio acadêmico e eu vejo onde eu estou, eu vejo quais são os meus pontos fortes e eu desenvolvo um plano de ações pra alcançar o que eu quero alcançar; estratégia. Então, os campos são espaços em que os agentes sociais articulam meios e recursos para obter troféus específicos e são conscientes disso. Então todo o campo social é um espaço de estratégias. Mas algumas não são aceitáveis e é exatamente isso, a especificidade do campo também se dá na interdição. É o campo espaço legítimo de definição da estratégia inaceitável. Aqui

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não. No nosso jogo você isso não pode fazer. Às vezes uma estratégia equivalente em outro campo passa fácil, mas no campo em questão é entendido como indigno, canalha ou até mesmo ilegal. Então perceba que é o campo social o espaço em que você encontra a definição das estratégias legítimas, que dizer, autorizadas, entendidas como nobres e aceitáveis e as estratégias inaceitáveis, né? E, claro, toda vez que alguém adota uma estratégia entendida pelo campo como inaceitável, pagará as consequências que o próprio campo prevê para esse tipo de heresia. E, portanto, entenda que comportamentos equivalentes serão ofensas muito mais graves dependendo do campo que você tiver. Se você tiver no campo empresarial, você olhar o cara do lado e você fizer igualzinho, se bobear você é até aplaudido, se der certo esta tudo bem. Se você tiver no campo acadêmico e você copiar o que o outro fez, isso dá um “chabu” considerável. O comportamento é muito parecido, mas dependendo do campo que você adota, as consequências sociais de índole ética são muito específicas. Ainda é mais grave no campo artístico. Se você pegar uma tela de alguém e copiar e quiser se apropriar da obra de arte do outro, isso é ainda mais inaceitável do que no campo da produção científica. Percebeu, copiar pode ser louvável, aceitável, condenável, inaceitável e completamente reprovável, dependendo do lugar aonde você tiver. Presta atenção no que eu tô falando. – Eu tô prestando. (aluna responde) Então vamos imaginar que um ponta esquerda qualquer resolva imitar as pedaladas do

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Robinho e a coisa dá certo e ele faz um gol. Ele será ovacionado pelo estádio inteiro. A pedalada do Robinho é uma obra de arte, mas no campo futebolístico a imitação não tem nenhuma consequência ética de transgressão. Mas se for uma tela de, de pintura ou uma obra de música erudita, não há nenhum problema. Se for música popular já é mais tolerável, tudo depende de quem imita, porque quando é o Rod Stewart que copia o Jorge Bem, he, seria pior se fosse o contrário. Eu espero então que você entenda, não sei se eu me fiz entender, mas aquele 'teteteretete teteteterete, tetetete', não é? É o exemplo de plágio clássico espetacular assim, sem nenhuma sombra de dúvida, mas é claro, como o artista mais legítimo copia o artista menos legítimo, ele de certa forma chancela com a sua legitimidade a cópia. Acho que você entendeu, o certo e o errado depende demais das condições específicas do campo. Estratégia é quando você age sabendo o que quer. Estratégia, estratégia é o maquiavelismo aplicado aos campos. Estratégia é você articular meios pra alcançar os fins. É a parte pragmática do campo. Mas aonde que Bourdieu supera Maquiavel? Porque Bourdieu está pra Maquiavel como Alan Borguini está pra outra roda. É que Bourdieu dirá que a ação social não tem na estratégia a sua dimensão mais importante.

Habitus Ouça-me, se você quer entender o comportamento de alguém na sociedade saiba: a parte consciente e estratégica da sua ação não é o mais importante, o mais significativo, o mais relevante e o mais digno de ser estudado. E por quê? Porque o nosso comportamento, o nosso comportamento em sociedade ele é, e eu diria, a influência dos campos sociais sobre o nosso comportamento é muito mais significativa naquilo que não percebemos, não articulamos, não passa pela nossa consciência e não se traduz em estratégia.

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Nossa! A influência da sociedade sobre o nosso comportamento tem a sua parte mais sofisticada, requintada e fina naquilo que não nos damos conta. E, portanto, querer reduzir a importância do pertencimento ao campo às estratégias que usamos pra alcançar o que queremos alcançar é ignorar o filé mignon na nossa vida social. É ignorar o filé mignon da influência decisiva da sociedade sobre o nosso comportamento que se dá para além da nossa consciência, para além da nossa estratégia, para além da nossa, do nosso dar conta de. – Posso falar uma coisa? (aluno pergunta) – Pois não. – É, então Bourdieu tá falando que, vou falar a maior bobagem também... – Não é, é isso aí, né? – Que então a responsabilidade da estratégia não é de quem fez a estratégia, mas sim da sociedade ou do campo que levou ele a fazer, a tomar aquela ação. – É... – O político, ele faz uma estratégia, a gente tem uma noção errada dessa estratégia dele, mas ele não é culpado disso, porque ele esta no meio político, o meio político é assim que é porque todo político faz assim, e aonde ele testa é assim que se faz, então ele meramente é um... – É... – Dança conforme a música. (outro aluno fala) – Ele é o resultado daquele meio que ele está, então ele não é, aquela estratégia não é só, não é dele, culpa só dele ou... – É...

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– Só dele, mas é... – É... – É de responsabilidade do campo. – É, é, é. É, Bourdieu não se interessa muito por responsabilidades. Ele não é um filósofo moral nem um jurista. Mas essa é uma inferência muito boa que você fez. Se você conversasse com ele, muito provavelmente era isso mesmo que ele ia te dizer. Você não falou bobagem nenhuma. Afinal de contas, a ação social do indivíduo ela se dá em função de variáveis materiais, he, que são, digamos, cientificamente explicáveis e que fazem com que quanto mais fina for a tua grade de análise e de identificação das causas, mais você vai reduzindo o, digamos, o campo de manobra e de liberdade pra agir diferentemente, e portanto, mais acanhada vai ficando a responsabilidade de quem age. Tá perfeito isso? Eu disse o que você falou com outras palavras. Mas é claro, claro que não era aí que eu queria chegar. O que eu queria chegar é no sentido de dizer que se a estratégia é socialmente explicável, o que mais importa da vida em sociedade não é estratégico e não é estratégico porque não é consciente. E, portanto, o que Bourdieu teria a dizer a Maquiavel? Bourdieu teria a dizer a Maquiavel o seguinte: “Muito simpático, você resume a sua ética a uma questão estratégica: conseguiu o que queria, agiu bem, não conseguiu o que queria, agiu mal. Mas você limita a vida social à consciência da vida social, e o filé mignon da vida social se dá sem consciência da gênese social da vida”. Eu tô fazendo toda essa preleção pra chegar no conceito de habitus, que é o outro grande conceito de Bourdieu. Habitus. E o que é o habitus? Pois o habitus é, o habitus é um conjunto de disposições para

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agir socialmente explicáveis, socialmente construídas e que não passam pela consciência de quem age. É quando você respeita as regras sociais sem precisar pensar em respeitar as regras sociais. É quando você age de acordo sem precisar pensar pra agir de acordo. É quando você age de forma conveniente sem precisar ser estratégico pra ser conveniente. É quando você age de forma a não destoar sem precisar pensar pra não destoar, dando até a impressão que você tem mesmo sangue azul, quando na verdade você só teve uma socialização azul. E socialização azul quer dizer convivência azul. Quer dizer, pertencimento ao universo sociais azuis, nobres, legítimos, de gente rica. E você que conviveu nesse espaço, de tanto vê e de tanto imitar quem faz o que faz, acaba fazendo sem perceber, dando a impressão que é mesmo uma questão de estirpe. Ilusão naturalista pra lembrar do nosso primeiro encontro: “Nossa! Logo se vê que é filho de um Almeida Prado”. Logo se vê mesmo, porque de tanto conviver com os Almeida Prado acabou virando um. No lugar de sangue azul, convivência azul. “Habitus” que te faz agir sem precisar pensar. Claro que eu tô enfatizando aqui um “habitus” de classe. É o mais irritante. É nóis, velho! E quando você vê os Gaviões chegando no Pacaembu, e você vê como eles interagem, você percebe que nenhum deles precisa pensar estrategicamente pra ser um verdadeiro Gavião da Fiel. É nóis, mano! Isso é saber prático incorporado. É nóis, velho! Não tem liberdade deliberativa. Não tem consciência moral. Não tem escolha. Tem o quê? Tem uma atualização de saberes práticos incorporados ao longo de uma trajetória. É isso. É “habitus” de Gavião, que na ignorância dos Gaviões se converte em sangue de Gavião, porque a gente sempre gosta de “biologizar” aquilo que a gente não sabe da onde vem. E o que a gente não sabe da onde vem, costuma vim da sociedade que a gente frequenta, dos espaços abstratos em que a gente mais convive. Grande explicação. Professor ficaria contente de mim, por traduzir de maneira infinitamente mais simples as pataquadas que ele dizia como: esquemas de classificação do mundo social incorporadas ao longo de uma trajetória dentro de um espaço abstrato, que permite uma ação

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regida por uma orquestra sem maestro, e uma inconsciência sem não sei quê, com oito ou dez linhas sem nenhum ponto final. Aqui é possível fazer mais simples: esquemas de classificação do mundo, disposição pra agir que faz com que você aja sem precisar pensar. Eu sou um professor com “habitus” de professor. Eu sou professor cem por cento do tempo. Eu sou professor com professorado incorporado; eu não preciso de ser estratégico. Eu não preciso ser estratégico porque eu tenho a docência na veia e a veia aqui não é a veia dos cromossomos, he, de uma herança de pais que nunca entraram nos bancos escolares. A veia aqui é a veia curtida no campo acadêmico. É um espaço aonde muito provavelmente eu me encontro; aonde muito provavelmente eu me relacione e aonde muito provavelmente a sociedade age sobre mim definindo o meu comportamento. Pra você entender o meu comportamento não adianta nada ir pra Manchuria e nem ir conviver com os traficantes de carro no Paraguai, que eu nunca convivi com eles. Pra você entender o meu comportamento, nada melhor do que frequentar o campo acadêmico. Eu convivo com os acadêmicos o tempo inteiro e isto faz de mim um acadêmico, não porque nasci assim, mas me converti num, socializando, interagindo, convivendo, e, portanto, vendo e me exibindo, gerando e construindo expectativas. Participando, vendo os outros fazer. Fazendo pra ser visto pelos outros. E assim, nesse espaço específico de convivência, que talvez você, porque pertence a outro campo conhece menos, é nesse espaço que eu aprendi a viver como eu vivo, a agir como eu ajo, dando aula o tempo inteiro; falando desse jeito o tempo inteiro ou então não falando nada. “Habitus” de professor que dispensa qualquer estratégia, dispensa qualquer cálculo, dispensa qualquer maquinação. E eu posso sair daqui e ir jantar. Eu estou exausto. Eu não vou maquinar nada, mas eu vou continuar agindo como um professor, a sociedade me fez assim. “Habitus”, disposição pra agir socialmente incorporada e que dispensa completa estratégia e consciência da própria ação. Acho que ficou claro o que é habitus.

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Habitus e o campo social Então, é claro, que dirá Bourdieu: “Habitus é um jeito de agir sem estratégia. Habitus é um jeito de agir sem consciência. Habitus é um jeito de agir sovado no campo, e, portanto, haverá tantos habitus quantos forem os campos que você considerar”. Meu Deus, a minha trajetória me permitiu conviver com vários e a pertinência do conceito é espetacular. A minha vida começou no campo jurídico. E você tem que aceitar que o campo jurídico é um espaço socializador fantástico de um habitus, um jeito de ser, um jeito de pensar, um jeito de se vestir, um jeito de se posicionar, um jeito de olhar o mundo, um jeito de tudo, um jeito de tudo. Você olha pro cara, ele fala dois minutos, você diz: “É um advogado”. Ele tem tudo de um advogado. Não nasceu assim, foi produzido assim como um espaço de socialização no campo; vítima do campo. Perdoai, é vítima do campo jurídico, não sabe o que diz. É vítima de um jeito dogmático de olhar o mundo, condição de sobrevivência do campo jurídico. Perdoai, é preciso ser indulgente com os que tiveram socializações perversas. É brincadeira. É só um jeito de manifestar o meu ressentimento de não ter dado certo nesse campo tão nobre. Mas cheguei a me dar bem, né? Prestei concurso, fui trabalhar em Brasília, escrevia leis no Senado. Saí do zero pro dez. Fiz doutorado em Direito na universidade de Paris. Puta merda, é do caralho, velho. Eu tenho cartas na manga, que poderiam com um pouquinho de burilamento, né? E um pouquinho de militância, e um pouquinho mais de churrasco em São Bernardo, eu viro ministro do Supremo, sem problema. Rola isso, é que não é a minha praia, não jogo mais esse jogo, não pertenço a esse campo. Mas que existe um jeito jurídico de ser, é claro que existe e isso não é coisa de cromossomo, isso é coisa de cromossomo socializado. É coisa de corpo que incorporou regras e você não precisa pensar pra ser jurista, porque se pensar não suporta, hehehe.

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Muito bem. Eu também fiz jornalismo. Nossa! O campo jornalístico é outro papo. Menos estruturado que o jurídico, claro, mas muito legal de estudar também. É muito engraçado porque a estruturação do campo jornalístico não tem muito a ver com o reconhecimento externo ao campo, como todo campo, é um espaço relativamente autônomo. Então, o jornalista de televisão, por exemplo, eis aí um eixo estruturante do campo jornalístico, televisão e imprensa; o jornalista de televisão é mais conhecido do grande público. Então William Bonner é, né? No entanto, dentro do campo jornalístico a televisão é menos nobre. O Clóvis Rossi é muito mais jornalista do que William Bonner, pra quem é jornalista, pra quem não é, pode sair na rua, Clóvis Rossi é um desconhecido, William Bonner todo mundo conhece, mas o reconhecimento fora do campo não tem muito a ver com o reconhecimento dentro do campo. A televisão carrega um estigma de vulgarização, que claro, contamina o capital jornalístico que busca uma certa pureza, uma certa autonomia. Clóvis Rossi é uma grife. Clóvis Rossi é para o jornalismo o que a Marilena Chaui é pro campo acadêmico. É um caminhão de capital. É um monstro de capital. Élio Gaspari, pra não ficar com um jornal só. Élio Gaspari... etc. Então, é claro, é claro que o habitus jornalístico acaba se traduzindo num jeito jornalístico de ser. E se você bota um advogado e um jornalista lado a lado não é possível que você não veja a pertinência. Mas não é que eles nasceram pra ser alguma coisa, tornaram-se ao longo de uma socialização. E a perspectiva de jogar o jogo jornalístico sem pensar foi objeto da minha investigação científica durante anos. Escrevi um artigo, um artigo, escrevi um livro, um livro, ganhador até de prêmio fora da academia, tipo Jabuti. E o livro é a coisa mais embaçada que eu já escrevi, chama O Habitus na Comunicação. O Habitus na Comunicação, editora Paulus. Não é pra comprar não. Nossa! Isso é um chute. Não leia, mas saiba que existe. Eu escrevi em coautoria com outro professor que agora é professor aqui também, o Luís

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Mauro. O Habitus na Comunicação é o estudo do pertencimento ao campo jornalístico, e todo o jeito jornalístico de ser que dispensa completa estratégia, consciência e cálculo. E eu poderia dar alguns exemplos de habitus jornalístico pra você entender a pertinência do conceito de Bourdieu. Pra fazer essa pesquisa eu entrevistei muita gente. E pra você entender o habitus não é questionário, sabe? Ótimo, bom, regular ou péssimo, você tem que deixar o cara falar, até porque você só vai identificar o que é inconsciente nas entrelinhas, né? Depois de três horas de conversa, porque nas três primeiras horas ele esta armado pra se proteger. E assim eu consegui frases espetaculares. Uma é do Clóvis Rossi mesmo. Cinco horas de entrevista no Frevinho da Alameda Santos. E aí ele me disse: “Clóvis, quando eu tô de férias e eu vejo uma coisa acontecer, eu não posso me impedir de enxergar a notícia no jornal com o título e com a foto”. Eu vou repetir: “eu não posso me impedir de enxergar a notícia no jornal com o título e com a foto. Eu tô de férias, eu não tô fazendo jornal. Eu sei como ela vai sair, eu não preciso pensar, eu não posso me impedir, a coisa vem em mim.” Habitus jornalístico, dispensa cálculo, dispensa estratégia, já sei o que tem que fazer, já sei como tem que fazer, fiz isso a vida inteira, não preciso pensar pra fazer. Milton Neves, Milton Neves trabalhou na rádio Jovem Pan a vida inteira, ficava o dia inteiro falando. De repente ele foi pra Band fazer o Su... o, o, não sei se era Super Técnico ou era, sei lá, alguma porra assim. E aí então ele tem uma frase que é fantástica, ele diz assim: “É, na Jovem Pan eu fazia de olho fechado, de repente eu fui pra televisão e aí eu perdi completamente o chão”. Quando você mudou o universo você teve que começar a pensar, aquilo que antes você não precisava pensar. Não sei se você percebeu, o habitus é quando você faz sem pensar. Na hora que você troca um pouco e desloca um pouco o inédito, te obriga a pensar e você se torna lento, paquidérmico, porque toda vez que você tem que pensar você perde contundência, he.

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Não é à toa que Nietzsche sempre disse que precisa ser demonstrado não tem mesmo muita importância. O que é forte e contundente não é pensado. É o grande estilo. O jogador de tênis, quando ele é bom ele joga por habitus. Se ele tiver que pensar onde ele vai mandar a bola o seu golpe é truncado pra que aquilo seja fluído. E aí você joga com uma campeã de juniores, 11 anos, tem um braço tamanho de um, de um palito japonês e ela dá uma bola espetacular e você que é trinta vezes mais forte não consegue mandar com aquela força. Por quê? Porque, porque o que precisa ser demonstrado não tem muita força. Porque quando você tem que pensar pra agir você é previsível, paquidérmico, lento, inoperante e estúpido. – E professor, por que o senhor dá aula do jeito que dá? He. Porque como McEnroe de esquerda eu não penso um único segundo enquanto estou dando aula. Algo pensa em mim. Não sou eu que penso, porque se eu tiver que pensar é capaz de eu ficar imobilizado pelo cenário, pela opressão. É porque eu não tenho que fazer nada, eu na verdade o que faço é contemplar-me a mim mesmo e às vezes digo coisas que me surpreendem muitíssimo, sou incapaz de reproduzir depois e fico envergonhado de tanto palavrão que falo. Mas não sou eu, algo pensa em mim, que dispensa completamente qualquer estratégia, porque se eu fosse ser estratégico eu não diria quase nada do que eu digo, eu não faria quase nada do que eu faço. É porque habitus é assim, eu dou aula por habitus, eu chego aqui e começo a falar e, é claro, que não sou eu que tô falando. É o meu inconsciente que vai se manifestando no meu discurso e o máximo que eu faço é contemplar, porque se eu tiver que parar pra pensar no que eu vou dizer, eu me torno ridículo, grotesco, patético, lento, inoperante, ineficaz, covarde, amedrontado. Se eu parar pra pensar que no ExpoManagement, haverá seis mil pessoas me vendo neste ano outra vez e que são presidentes de empresa, doutores de empresa, diretores de empresa ou que sejam porra nenhuma que pagaram seis paus pra estar ali, de algum lugar tiraram aquilo, são no mínimo herdeiros importantes. Se eu parar pra pensar que tem três mil, quatro mil, cinco mil

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ou seis mil ali pra me ouvir e o que eu tenho pra dizer são essas poesias filosóficas, se eu parar pra pensar eu travo, eu não digo nada. É claro, felizmente não sou eu que digo é a minha socialização que fala por mim. Não sou responsável pelo que falo, é o mundo que eu vivi que se manifesta em mim. Síntese passiva. Uma espécie da minha trajetória que se manifesta num instante, instante privilegiado em que todo o meu passado se faz presente e ali eu me apresento sem precisar pensar, se tiver que pensar não sou eu, definitivamente não sou eu. Eu me tornaria ridículo se eu fosse pensar: “Nossa, essas pessoas tão todas aqui e elas todas vão me ouvir. Será que é pertinente o que eu tenho pra dizer?” Se eu fizer essa pergunta eu volto pra casa, eu não digo mais nada. É porque eu nunca faço nada disso é que eu chego e digo as coisas que digo, depois até, depois até me surpreendo, quase sempre me surpreendo com esse que fala por mim. Sociedade feita a corpo. Habitus social.

Personalidade, pensamento e liberdade É claro que é difícil pra você. É difícil pra você porque a vida inteira você foi instruído a dar preferência e primazia às coisas que passam pela sua cabeça. A acreditar que as coisas que tão na sua consciência são mais importante, e que você vale por aquilo que você pensa, articula e define estrategicamente. É muito difícil pra você aceitar a ideia que o mais importante não é a ostrinha da consciência, mas o oceano daquilo que não passa pela sua cabeça, mas se manifesta em você o tempo inteiro. Eu costumo dar um exemplo. Esse exemplo eu dou sempre, muitos de vocês já devem ter visto, mas se voltam sempre é porque querem repetir. É minha vítima preferida. Lembra que eu falei que o campo é um espaço de distâncias sociais, e que as distâncias sociais podem se materializar em distâncias físicas, e as distâncias físicas autorizadas elas decorrem dos papéis sociais, e esses papéis sociais é que são, de certa forma, definidores da distância física que eu tenho que ocupar pra conversar com você? Pois é, você acha que eu pensei em tudo isso

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na hora de conversar com ela? Não precisa. Habitus que faz com que eu fique a um metro, ela é aluna eu sou professor, um metro de distância. Mas não funciona assim. Eu fico do lado dela e: “Escuta, o seu estatuto é de aluna o meu é de professor, a distância autorizada é um metro, um metro é um passo, podemos conversar”. Não funciona assim, respeitamos sem pensar. Percebeu? Você que se acha senhor de si mesmo, seja um pouco mais humilde, admita que você não controla nada do seu comportamento, que o teu inconsciente faz de você gato e sapato e com isso vai se “desculpabilizar” um pouco das cagadas que ao longo da vida você fez. Não sei se você é tão responsável quanto a tua formação cristã faz você acreditar que é. E assim eu posso me aproximar dela e ela vai ruborescendo, perceba? Isto é habitus sobre o corpo. Olha, perceba como ela vai ficar roxa. Por quê? Ela sabe que ela não pode tá aí. E, portanto, há aqui uma heresia, ela quer ir pra trás, mas na verdade como ela sabe que ela tem que ficar aí, então, ela tá vencendo o quê? Aquilo que normalmente ela faria que é recuar, recuar, recuar, para preservar o metro que garante a distância regulamentar entre um professor e um aluno. Mas não, ela ficou aí, ela ruboresce, ela ruboresce, por quê? Porque a sociedade se faz corpo. Acredite nisso. As células do teu corpo não são células de natureza, são células de sociedade. A sociedade age não é só sobre o que você pensa, tipo equação do segundo grau, sabe, b2 – 4ac, isso você aprendeu na sociedade e você aceita... Não fique aqui, senão, senão eu me sinto só. Então, a sociedade age sobre você não é só nas coisas que passam pela tua cabeça, isso você aceita bem que foi a tia Guiomar que te ensinou a resolver uma equação do segundo grau, mas é gozado, você não aceita bem o que sente em função das experiências anteriores. Você não aceita bem que o corpo que se alegra, e o corpo que se entristece, não é um corpo virgem, mas é um corpo que passou por uma trajetória imensa de experiências e que, portanto, tende a se alegrar com e tende a se entristecer com em função do que já experimentou, do que já viveu.

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E é claro, se eu passo noventa e nove por cento do meu tempo convivendo com professores, é claro, pois é o jeito professoral de ser que me faz sentir alegrias e tristezas. O campo acadêmico é um espaço altamente propício pra entender porque eu me alegro com o que eu me alegro, porque eu me entristeço com o que eu me entristeço. Numa das aulas mais pra frente a gente vai falar do que Bourdieu chama de libido social, em outras palavras, é o tesão socialmente explicado. Por que eu tenho motivação e fico feliz com algumas coisas e outras me entristecem? Por que eu nasci em Ribeirão Preto? Não, porque a minha trajetória foi moldando o meu corpo de maneira a determinar em mim tendência à alegria com certas experiências e tristeza com outras experiências. Mas como você não tem condição de resgatar na tua consciência todas as causas sociais, todas as experiências sociais que determinam o teu corpo social, você tende a achar que isso vem do nada. E quando você diz que isso vem do nada, pra não dizer que vem do nada que é meio chato, você diz que é a sua liberdade, é o seu jeito de ser, você sempre foi assim: “Nasci assim, sou descolado, hehe”. “Esse é o meu jeito de ser”, publicidade da Grendene: “Esse é o meu jeito de ser”. Por quê? Como eu não tenho a mais puta ideia de porque eu ajo como eu ajo, é claro, eu digo que eu sou assim: “Nossa, você gostou do meu jeito?”. É bem mais legal pra seduzir do que dizer: “Eu sou o resultado de uma trajetória social inscrita num determinado campo, e, portanto, se eu falo palavrão em sala de aula é porque eu sou meio subversivo, entendeu? É, nossa até, impressionante, cara, né? Quer dizer, é, bom. Eu tenho... senta lá. No campo tem dominantes e dominados. O dominante está perto do troféu... Não, presta atenção agora. O dominante está perto do troféu o dominado está longe do troféu, né? Em outras palavras, pra Bourdieu as pessoas não se equivalem. Tá perfeito? Pra Habermas, que é um cristão tardio, todos vamos nos dar as mãos, vamos para o espaço público e deliberar coletivamente, todo mundo tem dez minutos pra falar, entendeu? E vamos concluir pra onde nós vamos.

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Você pode dar dez minutos pra todo mundo falar, deixa todo mundo falar, quem manda decide, quem... hehe: “Escuta, no lugar de falar vê se cala a boca, eu não quero te ouvir” né? Coisa e tal. Então, o que não tem força nem vai, entendeu? Porque ele já sabe que ele não apita. Eu espero que você tenha entendido que o campo não é um espaço democrático. O campo não é um espaço homogêneo. O campo não é um espaço cristão. O campo não é um espaço de igualdades. O campo é um espaço de diferenças e de dominação. Tá perfeito? Tá bom? – Tá ótimo. (aluna responde)

Dominados, dominantes e subversivos Então, você sabe muito bem, aliás, não importa o campo, né? Não importa o campo. Campo da música popular brasileira. Então tem o Chico Buarque e tem o Falcão, né? É, então, é claro, você sabe muito bem que posição cada um ocupa, não precisa fazer força, né? As pessoas não são, elas não têm o mesmo capital naquilo que elas fazem. Muito bem. Então eu pergunto a você... Não precisa responder, eu mesmo vou responder. O que faz um dominante num campo? Sim, ele domina. E domina pra quê? O que pode pretender um dominante dentro do campo? – Troféu. (aluno responde) Sim, mas ele já tem um troféu. – Manutenção. (aluno responde) Isso. Quem falou? Eh, não, esse não vale. Ele falou manutenção e eu poderia falar conservação, porque aí te ajuda a lembrar de conservador. É claro, um dominante é sempre conservador. Hum, mesmo quando o professor da

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USP chega a Presidência da República e diz: “Tudo o que eu falo e escrevi vocês esqueçam, agora eu sou Presidente da República, agora eu sou um conservador. O que eu quero? Conservar o poder que eu tenho”. Isso é óbvio. E eu pergunto, e quem não é dominante é o quê? É dominado. E o que pode pretender um dominado? Conservar as coisas como elas estão? Então o que ele quer? Qual é o contrário de conservar? É mudar... – Subverter. (aluno responde) Isso, subverter. O dominado é subversivo, o dominante é conservador. O dominante quer que o mundo acabe em barranco, do jeito que estar é o melhor jeito possível. E o dominado? É um fodido, ele tem que subverter. Portanto eu pergunto a você: “Um conservador, que tipo de estratégia adota?” Estratégia de conservação. E um subversivo, adota que tipo de estratégia? Estratégia de subversão. É muito engraçado porque normalmente as pessoas confundem direita com conservador e esquerda com subversivo, sem entender que é só botar esquerda no poder e a direita na oposição e o conservador vira subversivo, e o subversivo vira conservador. Gostou Cid? Percebeu a lucidez? Aplaudam o professor Bourdieu, eu sou só mídia. Você percebeu? – Professor, o senhor dá aula de maneira estranha e um pouco subversiva. Claro, né? Por quê? Porque ainda não cheguei no troféu. E aí você dirá: “Mas os subversivos são muito mais numerosos”. São. “Mas então se eles são muito mais numerosos a sociedade devia ser uma zona”. Mas é que o dominante ele pode ser pouco, mas ele é o dominante, você entendeu? Então ele segura a onda. Então, como é que é a sociedade? Um monte de subversivo e dois ou três conservadores. E os dois ou três conservadores amarram os subversivos. E aí você dirá: “E aí o que tende a acontecer?”. Sabe, como por exemplo, quando eu prestei

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mestrado, né? E aí eu olhava e eu tinha que estudar os livros dos dominantes do campo, quer coisa mais absurda? Você vai fazer prova, tem a lista dos, da bibliografia, e a professora chega e diz: “Presta atenção na hora de fazer a prova, a bibliografia é a da lista, se você citar outros autores eu nem leio”. Eu pergunto: a bibliografia da lista quem é? Quem é o autor do livro da lista? É o dominante. É o dominante. É o dominante. Aliás, é a professora que tá ali. É ela mesma. O livro é o meu. E você vai dizer: “Isso é uma questão de poder?”, lógico, velho. A bibliografia é o maior instrumento de poder do campo acadêmico, por quê? Porque se você tem que fazer prova em cima do meu livro o meu livro eu devo saber mais do que você, então é claro, eu mantenho uma posição de superioridade em relação a você controlando a bibliografia. Se você me aparece com uma porra de um livro que você leu dez vezes e eu nunca li, eu tô fodido; você subverte e eu não vou deixar você subverter, então eu defino a bibliografia, é como eu disser. Se você quiser “coisar” eu te ponho pra fora, porque aqui quem manda sou eu. Entendeu? E aí você poderia dizer: “Ah, eu que tô prestando mestrado agora, quando eu for dominante eu vou mudar tudo”. Não é? Foi o que aconteceu. Eu fiz mestrado, eu fiz doutorado, eu fiz não sei quê, eu escrevi livros, eu comecei a ganhar capital, eu comecei a aparecer, eu comecei a sair da condição de subversivo, assumi a condição de dominante, eu comecei até, até a ter o meu livro na lista da, do mestrado da USP, entendeu? E aí então, o que acontece agora? Rá! Eu me tornei um dominante. Imagina que eu... Eu montei um curso de pós-graduação. Imagina que eu participei do comitê que define quanto valem as revistas acadêmicas. Imagina, eu trabalhei na CAPS e no CNPq. Imagina, agora eu sou um dominante. E agora sendo um dominante eu me tornei o quê? Um conservador. E agora, você que vai

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fazer mestrado, vai ter que lê a porra do meu livro, porque eu sou pior do que a mulher que controlou a minha prova. E eu que era subversivo, revolucionário, legal e do caralho, agora me tornei um asqueroso, breque de mão puxado, defensor das minhas próprias linhas, nojento, medíocre, sabe por quê? Porque agora eu sou um dominante, não tenho porque mudar. Agora eu quero mais do mesmo. Agora eu quero prestígio. Agora eu quero aplauso. Agora que eu já me fodi a vida inteira, entendeu? Eu quero pôr no rabo daqueles que querem entrar no campo. Tá perfeito? Gostou? Se não gostou vai jogar outro jogo, porque esse jogo aqui quem manda agora sou eu. Você curtiu e eu me tornei um conservador, um reacionário, um homem de direita, um escrotinho, por quê? Porque agora eu controle o troféu do jogo que eu disputo. Você gostou? Você tá entendendo que Bourdieu é bem legal. E se Bourdieu é bem le... e se você não achou que Bourdieu é legal é que você tem uma ingenuidade na veia que mais duas ou três aulas serão suficientes pra eliminar completamente. Enquanto isso, desfrutem a semana, muito obrigado e até a próxima segunda.

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