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Curso: Mitologia Professor: Clóvis de Barros Filho Número de aulas: 3

Aula 1: Primeiras Reflexões sobre a vida Páginas: 32

PRIMEIRAS REFLEXÕES SOBRE A VIDA

A Epopeia de Gilgamesh O objeto desses encontros não é exatamente passar em revista os mitos gregos ou de outros lugares. O objeto desses encontros é mostrar, servindo-nos de exemplos, que muitas das ideias filosóficas do pensamento clássico já estavam presentes nos relatos míticos. Então, se você tinha a expectativa de um curso de mitologia, não é o caso. Agora claro, eu terei que falar dos mitos pra poder mostrar o que é que está por trás deles, que é isso que nos interessa. Na verdade, há uma certa disputa para definir os mitos. Na verdade, muita gente quer se apropriar desses relatos como objeto do seu interesse oferecendo pra eles uma interpretação que é conveniente. Há, portanto, uma luta pela legitimidade de falar desse assunto. E eu diria que três tipos de pessoas se destacam nessa luta. De um lado o pessoal da História, que claro, estuda os mitos dentro da sua perspectiva. De outro lado o pessoal da Letras, que considera os mitos uma simples questão de estilo literário. E o terceiro lado é o lado da Filosofia, obviamente, é o mais interessante. E eu digo que é o mais interessante porque é o meu e é esse o lado que nós vamos trabalhar. Se fosse outro professor, seria outra a perspectiva, não estaria nem mais certo, nem mais errado, é só diferente. Normal que cada um queira puxar a brasa pra sua sardinha, e é claro, o que nos interessa aqui é a Filosofia. Os relatos são divertidos e legais, coisas pra gente de Letras. O que nos interessa são as ideias que estão por trás.

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Eu começaria destacando uma questão que estará latente nos três encontros que nós vamos ter aqui, o de hoje, o de amanhã e o de sexta. E essa questão é a questão da reflexão sobre a vida boa para os mortais. Em outras palavras, por detrás de todas as histórias que a gente for tratar aqui, essa questão é subjacente. Afinal de contas vale a pena viver mesmo sabendo que vamos morrer? E se vale a pena viver, que tipo de vida vale a pena ser vivida? Essa preocupação é a preocupação que está por trás de todos os mitos que nós escolhemos. Vale a pena lembrar, a título introdutório, alertar no sentido de que não façamos confusão. Uma confusão muito comum. Uma confusão entre, de um lado, ética e moral e de outro lado, vida boa. Aquilo que poderíamos chamar de espiritualidade. Para os gregos, ética sempre foi uma questão de felicidade, de vida boa. Então, na hora da confusão da vida, o último dos valores, a referência maior, o bem supremo, é a vida boa, a Eudaimonia, a felicidade. Mas isso para os gregos. O que acontece é que a felicidade de cada um deixou de ser a maior preocupação. Então, eu diria que a ética e a vida boa se separaram ao longo do tempo de tal maneira que hoje elas não têm nada a ver uma com a outra. E é fácil entender por que. A moral, nos tempos modernos, resume-se a uma questão de respeitar o outro, ser um cara gente fina, respeitar os direitos humanos, não discriminar quem é diferente de você. Isso nada tem a ver com ser feliz. Aliás, eu me atrevo a dizer que normalmente os gente fina costumam ser os que mais sofrem. Uma questão de amor antes de mais nada. Quase sempre os maiores enganados são os mais legais. A moral e o chifre fazem um belo par. O canalha, esse costuma sorrir mais amiúde. E depois, é claro, a literatura é cheia de exemplos, fique à vontade. Grandes sofredores generosos e bondosos.

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Mas não é só uma questão de amor é também uma questão de problemas existenciais clássicos, como a doença e a morte. Ser legal com os outros nunca economizou ninguém, nunca poupou ninguém de envelhecer, muito menos de morrer, muito menos de perder os entes queridos. Portanto, ser legal nunca ajudou ninguém a ser feliz. E eu poderia continuar lembrando do tédio. O tédio nos acompanha. Não sei vocês que têm sempre muito recurso para o entretenimento. Pra quem tem menos o tédio é explícito e aí não adianta ser legal, o tédio é o mesmo. Domingo à tarde é terrível pra quem é canalha ou pra quem é gente fina. Não tem nada a ver. E quiser eu continuo e polemizo ainda mais. A angústia, não saber o que fazer com a vida. Sabe, as pessoas que têm é, digamos, caráter e formação moral costumam ser sempre muito mais angustiadas do que as pessoas moralmente flexíveis, porque as moralmente flexíveis têm sempre muito mais alternativas para escapar da tristeza. Os indivíduos que têm uma moral mais rígida têm que encarar o mundo entristecedor de qualquer jeito. Portanto, eu me atrevo a dizer, não é nem que a moral e a felicidade não tem nada a ver, pessoas legais sofrem mais do que as outras. Então, partindo dessa premissa, que vai estar por trás de todos os mitos, a nossa reflexão é a reflexão sobre a vida boa para os mortais. E eu vou começar esse nosso encontro com o mais antigo relato de todos os tempos: a epopeia de Gilgamesh.

Epopeia de Gilgamesh A epopeia de Gilgamesh foi escrita em acadiano dezoito séculos antes de Cristo. Portanto, é a mais antiga obra literária de que se tem notícia. O autor é desconhecido, de resto como Homero também é desconhecido. Homero é um nome que aparentemente não corresponde à pessoa nenhuma. A rigor, os relatos míticos têm essa característica, são um pouco anônimos. Na verdade, não importa muito

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quem os inventou, porque o mais importante de um relato mítico é exatamente o fato dele ser recontado mais, e mais, e mais vezes. O que caracteriza a riqueza do relato mítico não é a originalidade da obra, mas justamente o fato dela ser emendada e remendada a cada relato. Então, nós é que contando a epopeia de Gilgamesh estamos participando da história da humanidade, colaborando com o relato, dando para o relato o nosso olhar e isso, no caso dos mitos, não é uma blasfêmia, pelo contrário, contribui para a sua riqueza. Participemos todos, portanto, dessa recontagem dos mitos sem nenhuma preocupação de pureza, porque não é disso que se trata, o autor não vai reclamar. Não tem autor. Ninguém sabe quem é. E depois, dezoito séculos antes de Cristo, o autor que se foda né? Já morreu há muito tempo. Portanto, vou contar os relatos a minha moda e aí, claro, se você veio é porque gosta das coisas a minha moda. Ainda é tempo de trocar por um curso de empalhamento de múmias ou outras coisas fascinantes que a Casa oferece. Muito bem! A Alegoria de Gilgamesh. Aparentemente Gilgamesh existiu. Ele era o rei. O rei da cidade de Uruk. Uruk fica ainda hoje na Mesopotâmia e você se lembrará disso, História Geral, aula um: Mesopotâmia entre rios e os rios são Tigre e Eufrates. Essa primeira aula todo mundo lembra, é claro. Tem também a Mesopotâmia argentina: “Misiones corrientes y entre rios”. Mas essa é da Argentina, não tem Gilgamesh aí. Gilgamesh é da Mesopotâmia original, aquela mesma que abriga a cidade de Uruk até hoje. Muito bem, Gilgamesh aparentemente existiu. E ele existiu muito tempo antes do relato. Se o relato é de dezoito séculos antes de Cristo, Gilgamesh foi rei de Uruk vinte e seis séculos antes de Cristo. Portanto, vamos ainda a muito mais longe. Que fique claro, esse relato só foi definitivamente decifrado no final do século dezenove, portanto ontem.

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E na verdade, a grande tradução para é, digamos, o nosso idioma, os nossos idiomas modernos, é feita por Jean Bottéro, que relata Gilgamesh. E todos os relatos em português são na verdade traduzidos do francês, desta que é a edição de Gallimard, de Jean Botérro; então você pode adquirir. Há também versões para criança né? Versões pra gente preguiçosa. Versões facilitadoras. Tem de tudo, mas Jean Bottéro é considerado, digamos, a versão mais fiel é, que conseguiu dar conta da tradução desse texto muito curioso escrito em idioma que não existe mais. Muito bem. Eu diria que esta obra é dividida em quatro partes, muito embora formalmente ela não seja apresentada assim, não é parte um, parte dois, parte três e parte quatro, mas se você lê o texto inteiro verá existem quatro atos diferente nessa peça. A primeira parte é a apresentação de Gilgamesh. A segunda parte são as aventuras de Gilgamesh. A terceira parte é a morte do seu amigo Enkidu. E a quarta parte é a busca de Gilgamesh pela eternidade. Aproveitando, o subtítulo da obra é O Grande Rei que não queria morrer. Muito bem. Apresentemos então o nosso herói: Gilgamesh. Gilgamesh aparentemente teria três metros de altura. Um indivíduo de força extraordinária, um indivíduo de extraordinária beleza, mas um tirano espetacular. Todos da cidade de Uruk ou eram suas amantes, no caso das moças, ou eram seus escravos, no caso dos rapazes. Gilgamesh era um tirano clássico. Um tirano à moda antiga, alguém que exercia o seu poder e garantia a legitimidade do seu poder pela sua extraordinária presença física. Ficou claro? Nenhuma dificuldade. Fica evidente que os habitantes de Uruk nem sempre curtiam o seu rei. Gilgamesh, portanto, não era aplaudido sempre, mas garantia o monopólio da violência do Estado pela sua força, pelo seu físico, pela sua capacidade de subjugar os demais cidadãos. Muito bem, é, eu não preciso te dizer que só isso aí já é objeto de muitas consequências

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filosóficas interessantes. Afinal de contas, quando a filosofia surge parte dela vai se dedicar a como deve ser organizada a cidade. E evidentemente, a principal preocupação é que a cidade seja um espaço patrocinador da felicidade do maior número possível de cidadãos. Portanto, a tirania seria o pior dos jeitos de governar. Fica claro então, que só esta apresentação de Gilgamesh já nos suscita reflexões filosóficas importantes. O tirano exerce a sua força, e claro, as mulheres são suas amantes, os homens são seus escravos. Fica também claro, que Gilgamesh não era só forte. Devia ser, digamos, alguém com um extraordinário apetite, porque se todas as mulheres da cidade eram suas amantes, é claro, Gilgamesh tinha que dar conta de muita gente do sexo feminino. Portanto, Gilgamesh é apresentado como alguém essencialmente poligâmico e que claro, diversificava ao máximo possível a sua atividade sexual. Gilgamesh é, portanto, apresentado assim, teria tudo para ter uma vida típica de um tirano, isto é, alguém que enquanto for o mais forte governará sem piedade a cidade da qual, na qual é rei. Então, isso é apresentado como o status quo. O status quo é esse: uma tirania que se perpetua. Uma tirania sustentável é, para usar um termo contemporâneo. Uma tirania que dura, essa é a tirania de Gilgamesh. E é muito interessante sabe, porque Gilgamesh tem falas deliciosas. Ele diz: “Eu mando porque eu sou o mais forte. ” E ele diz: “Eu poderia disfarçar e tentar simular convencimentos e adesões aos meus pontos de vista, mas não vou perder tempo com isso. Eu bato mesmo. ” Ora meus amigos, esta fala é de extraordinária riqueza. A filosofia política moderna nos ensina que existem duas maneiras de exercer o poder ou batendo, à moda de Gilgamesh, Pinochet, Garrastazu Médici, Hitler ou Mussolini, ou então convencendo as pessoas de que você tem razão.

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É claro, Gilgamesh antecipa isso. Gilgamesh o que diz: “Não vamos perder tempo com ideologias. Não vamos perder tempo com representações de mundo. Eu não quero convencer ninguém. Eu não quero manter o meu poder à luz do convencimento. Não, o que vai acontecer é que eu vou bater mesmo. Eu opto pela força física. ” Nesse sentido a fala de Gilgamesh é rigorosamente oposta à de Maquiavel né? Por mais que se interprete errado Maquiavel. Maquiavel como Gilgamesh está convencido de que política é conservar o poder. E portanto, Gilgamesh e como todos os outros, como o presidente Lula etc., querem o poder, querem ficar no poder, querem manter o poder etc. Só que têm jeitos e jeitos pra isso. E claro, o que dirá Maquiavel: “Podendo seduzir, seduza. Podendo convencer, convença. Podendo ser aplaudido, seja aplaudido. Se não der, sente a mão; força física. ” O que dirá Gilgamesh: “Eu poderia seduzir, mas não vou gastar vela com mau defunto. Eu vou logo direto na porrada que pra mim é mais fácil. ” Nesse sentido proposta de Gilgamesh literalmente “anti-maquiaveliana”, apesar do que se costuma dizer.

Sinopse do Mito Muito bem, Gilgamesh exercia o seu poder até que num determinado momento os habitantes de Uruk resolveram mostrar sua insatisfação, momento revolucionário, luta de classe né? Bláblá. “Nós vamos dar um pau nesse cara. Vamos juntar todo mundo. Vamos quebrar ele no meio. Não importa que ele tenha três metros de altura. Nós vamos dar um pau no cara. ” Foi isso? Não foi. – É, o senhor leva à confusão! – É o meu jeito de explicar né? Não gostou há a possibilidade de evacuação imediata. É, ou espera o intervalo. Não foi isso que ele fez. O que foi que ele fez? O que foi que eles fizeram, os cidadãos de

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Uruk? Rezaram. Rezaram. Se Maquiavel não usa a ideologia tem quem use. Rezaram. Pediram aos deuses: “Pelo amor de Deus, esse cara é insuportável. Ou é amante dele ou é escravo. O homem que não quiser ser escravo... Muito difícil escolher entre ser escravo e três metros de altura, você pode imaginar o estrago que isso faz; é foda viver assim. ” Aí então os deuses resolveram intervir. E aqui nós temos um ponto que vai ser repetido ao longo dessas três aulas, um ponto fundamental de tangência entre os mitos e a filosofia: o porquê que os deuses intervêm? Não são deuses gregos, hein! São deuses mesopotâmicos. Por que que eles intervêm? Eles intervêm porque eles consideram que Gilgamesh excede. Gilgamesh extrapola. Gilgamesh desorganiza. Gilgamesh, diriam os gregos, peca por hybris. Peca por excesso. Peca por considerar-se mais do que é. Peca por querer ocupar um lugar que não é o seu. Peca por não harmonizar-se com o todo. E tudo isso recebe o nome em grego de hybris. E essa ideia já está presente na perspectiva do mito de Gilgamesh. Em outras palavras, quando é que os deuses intervêm? Intervêm para manter a harmonia das coisas, aquilo que os gregos vão chamar depois de cosmo. Tá perfeito? Então, Gilgamesh é apresentado como uma força anticósmica. Como uma força da desordem. Como uma força do caos. Como uma força, portanto, do desequilíbrio. Como uma força da desarmonia. E aí os deuses resolvem mandar para a cidade de Uruk uma figura para reequilibrar a parada. A intenção de reequilibrar é óbvia, porque a figura que eles mandam para a cidade tem o mesmo tamanho de Gilgamesh. É o que nós poderíamos chamar de um alterego de Gilgamesh. Uma figura igual de grande. Uma figura igual de forte. Uma figura igual de espetacular. Uma figura igual de impressionante. E esta figura vai se chamar Enkidu. A partir de agora eu apresento a segunda personagem do relato Gilgamesh e Enkidu. Enkidu chega na Mesopotâmia e já chega grande, entendeu? Coisa de Deus. Diferente de

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Gilgamesh que tem pai, mãe, que foi criança, que foi pequenininho, etc., Enkidu já nasceu impressionante, já surgiu impressionante, coisa dos deuses. Só que ele surgiu animal, isso é fundamental no relato. Ele surgiu animal. Enkidu é um animal, é um animal. Peludo mesmo. Um bicho, com jeito de homem, mas bicho. Não fala, grunhe, rosna, violento. Diria a psicanálise: cem por cento regido pelo princípio de prazer. É um bicho, um bicho. E aí, e aí Enkidu antes de aparecer na cidade de Uruki propriamente, ele vai ser civilizado, portanto ele vai virar homem. E eu preciso te dizer que isso é reflexão que tem consequências filosóficas extraordinárias, afinal de contas, o que é o homem? E é claro, Aristóteles, você se lembra, definiu o homem como “zoon politikon”, animal político; animal socializado; animal que vive na pólis; animal civilizado; animal que convive com os outros de forma civilizada e política. E percebeu, dezoito mais quatro, não, dezoito menos quatro, catorze séculos antes de Aristóteles essa definição já estava presente no relato de Gilgamesh. Enkidu nasceu bicho vai virar homem, por quê? Porque vai ser civilizado. O que caracteriza o homem é o tipo de socialização de um certo animal. Tá perfeito? Em outras palavras, não haveria na perspectiva do mito de Gilgamesh uma diferença de essência entre os animais e o homem. O que diferencia os homens dos animais outros é a socialização, é a forma de virar gente, é a forma de virar adulto, portanto, o tipo de sociedade, só isso, o resto somos animais como quaisquer outros. Estamos há dezoito antes de Cristo. Perceba a riqueza da proposta: Enkidu vai virar gente, porque vai ser civilizado por uma mulher. A mulher! La Joeis, Jean Bottéro diz: “La Joeis.” É claro, a ideia de alegria é bacana, porque La Joeis era prostituta, exercia o mais antigo metier, veja, Gilgamesh é a prova. Por que é que se costuma dizer que a prostituta exerce o mais antigo metier do mundo? Por causa do relato de Gilgamesh. Aprendeu essa?

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Eu não tenho a menor certeza do que eu falei. Mas de qualquer forma, como é o mais antigo relato fica evidente que você sai daqui com uma tese, como você não vai encontrar ninguém para te desmentir... Por que que prostituta é o mais antigo metier do mundo? Relato de Gilgamesh, Jean Bottéro... A pessoa vai engolir na moita porque assim é que se faz. É preciso mostrar logo o tamanho, né? La Joeis era prostituta, uma linda mulher. Na verdade ela é courtisane, né? Courtisane por quê? Porque com Gilgamesh não tinha outro jeito, né? Então claro, ela era mais uma do harém de Gilgamesh. Não tinha jeito. E ela, claro, ela procurava satisfazer outros que não Gilgamesh mediante contraprestação pecuniária. E aí ela viu Enkidu, simpatizou com Enkidu, civilizou Enkidu, raspou os pelos de Enkidu com sistema de rasage, Philips, né? E tal, tirou, cremes, coisas, hidratantes e essa coisa de protetor solar e mostrou pra Enkidu... Você sabe que eu estou falando isso, parece que estou zoando, estou, claro, mas é, o que o relato diz é que a prostituta deu pra Enkidu tudo o que se poderia dar de melhor de existente na civilização na época. Portanto, ervas, unguentos, perfumes, águas-de-colônia, aquelas coisas todas, não sei que lá. E ela era linda, e ela ofereceu pra Enkidu além de todo o seu zelo, ofereceu pra Enkidu a sua instrução. Deu a Enkidu uma linguagem, uma fala. Deu a Enkidu maneiras, modos, jeito de se portar. E deu a Enkidu o seu corpo. Nossa! E eles foderam, assim diz o relato de Jean Bottéro: “Ils on fait l'amour. Par on de jour et noi. Sans arrêter”. Quer dizer, treparam velho até ralar. E Enkidu se tinha o mesmo tamanho de Gilgamesh a coisa era pesada e a mulher também tinha prática, sabia das coisas... Nossa! O tal do Enkidu passou um estágio probatório, um estágio de experiência finíssimo na mão de La Joies. Até que La Joies cumpre o seu papel de restabelecer a justiça no reino de Uruk e leva Enkidu

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para fazer o seu serviço. E qual é o seu serviço? Encarar o Gilgamesh. Mais ou menos assim: “Oh! Ainda bem que você chegou, tem um cara que tá batendo em nós, um tal de Anderson Silva. ” Puta que pariu. Né? Então é mais ou menos isso: “Dá para tomar uma Kaiser antes? ” Porque são de igual tamanho. Um olha pro outro e no exato momento que se encaram são tomados por um ódio infinito um do outro. E aí se estapeiam; se esmurram; se chutam; se golpeiam, mas como eles têm exatamente a mesma força eles foram se aniquilando um ao outro, se aniquilando um ao outro até que, tal como Sylvester Stallone em Rock III, ele cai junto com o seu opositor... E os dois se dão conta que dali não poderia ter vencedor. E a hora que eles se dão conta disso acontece o pior, eles viram amigos. Eles viram mais do que amigos. Passaram a se gostar mesmo. Você precisa ver o carinho de um com o outro. Uma loucura viu? Enkidu e Gilgamesh. Enkidu de repente começou a não querer mais visitar La Joies. Entristecida, ela rapidamente entendeu que Gilgamesh tinha o que ela não tinha. E aí então, Gilgamesh e Enkidu formaram uma dupla.

Maquiavel e o Mito de Gilgamesh Se você lê Maquiavel, Maquiavel necessariamente foi leitor do mito de Gilgamesh, porque ele diz isso: “Forças equivalentes, quando não encontram meios de uma superar a outra tendem a se aliar. ” Isto é o que aconteceu com Gilgamesh e Enkidu. E aí então Gilgamesh com Enkidu no colo disse: “Sabe, eu aqui arregaço. ” E Enkidu disse: “Como assim? ” “Eu bato em todo mundo, eu sou foda. ” Aí os dois se entreolharam e disseram: “Imagina nós dois juntos?!” E foi o que aconteceu. Nossa! Enkidu e Gilgamesh passaram a querer estender o seu poder pra fora da cidade de Uruk. Normal não é não? Se eu já esgotei o poder aqui... Acabou a graça. Agora eu quero ir pra fora

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daqui. Eu quero o mundo, certo? Charles Chaplin em Um Grande Ditador, certo? É o mundo, eu quero o mundo! Né? Mas é a ideia clássica de Maquiavel né? Quer dizer, é impressionante, ou seja, todo mundo exercerá o seu poder no limite máximo que puder exercer. – Ah! Professor, e quem segura a onda? Quem segura a onda é porque tem medo. Em outras palavras, só outra força em sentido contrário se opõe a uma força no primeiro sentido. Uma força não é ela mesma resistência pra si mesma. Portanto, a hora que Gilgamesh e Enkidu deram aquela beijoca gostosa eles disseram: “Nossa! Uma verdadeira passeata velho. Vamos fazer do mundo um mundo aquarela. ” E saíram pro pau. Ouviram falar que havia um cara muito grande, um monstro na verdade, muito maior que eles dois juntos. Um tal de Humbaba. – Professor, como é que o senhor sabe que é assim que pronuncia? Não tenho a mais puta ideia. Tá escrito ali eu estou lendo como tá escrito. Não sei como isso será nesse tempo. Humbaba um monstro, grande demais. E ele protegia uma floresta de cedros. Dizia-se Cedros do Líbano. E sabe, pra quem mora no deserto árvore é bem legal, né? Então eles falaram: “Pô! Vamos dar um pau nesse Humbaba.” A hora que eles viram o tal do Humbaba eles disseram: “Melhor amanhã. ” O tal do Humbaba era foda. Mas aí um olhou pro outro e falou: “Ninguém nos deterá. ” Saíram pro pau com Hubaba; mataram Humbaba. E voltaram pra Uruk... nossa! Pode imaginar exército americano voltando em triunfo, hein? Né? Cantando o hino dos Estados Unidos, o hino da

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Marinha, né? E aquela mulherada com as bandeirinhas dos Estados Unidos etc. e tal. Nossa velho! Eles vieram comendo quem aparecia pela frente. Eles vieram matando quem eles encontravam. Eles voltaram em glória, em triunfo. Eles eram os donos do mundo. Eles tinham matado a maior criatura existente no planeta: Humbaba. Eles eram gloriosos, Gilgamesh e Enkidu. Aí, aí os deuses definitivamente não gostaram. Uma deusa, a deusa do amor pra eles, a Afrodite do pedaço: Ishira (Ishtar) queria dar para Gilgamesh. – O senhor usa termos chulos. Queria fazer sexo com Gilgamesh. Copular com Gilgamesh. E chegou pra Gilgamesh do jeito que as mulheres sabem fazer tal: “Quer tomar uma coca?” Mas Gilgamesh estava noutra, como você pode imaginar. Mas isso é explicado assim, velho. Não é que eu estou floreando não, Gilgamesh era amoroso de Enkidu. É, está em outra, sai fora. E essa deusa do amor tinha a fama de, sabe, usar os homens como se fossem meias laranjas, ela chupava e desprezava logo em seguida. Não sei se conhece gente assim. Gente que te seduz e depois cai fora. Eu mesmo fui tanto vítima de gente assim que usou o meu corpinho e depois partiu. Uma coisa horrível. E Gilgamesh disse: “Não vou te comer, porque você não me quer de verdade, você não me ama de verdade. Quem me ama de verdade é Enkidu. Não, sai fora, sua feia. ” A deusa ficou... Mulher velho... É o mito de Gilgamesh, eu não tenho nada com isso. Mas se ela chega e você não comparece esse rechaço custará caro, ainda mais se é deusa. Não sendo deusa já é complicado se for deusa é infernal. E a tal da deusa do amor foi falar com o pai dela, uma espécie de Zeus do pedaço, um tal de Anu. E disse pro Anu: “Eu quis dar pro Gilgamesh e ele não quis me comer, eu quero que você

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mate ele. ” E o Anu disse: “Não, isso eu não posso fazer. ” “Então eu quero que você mande aquele Taureau Celéste que cada vez que pisa mata quatrocentos mortais a cada pisada. ” Aí o Anu disse: “Não, isso eu não posso fazer. ” Taureau Céleste, é a expressão, não inventei nada. Então a deusa do amor chantageou o pai. Olha até onde vai uma mulher recusada, velho. Ela disse: “Se você não mandar o touro eu vou soltar os mortos. ” Isso é de uma riqueza infinita. Por que que a ameaça funciona? Porque soltar os mortos quer dizer ressuscitá-los e ressuscitar morto é gerar uma zona sem limite. Sabe por quê? Porque a harmonia pressupõe que mortal morra e quando mortal não morre começa a juntar muita gente, as gerações não se seguem, os ciclos não se cumprem e aí a desarmonia se instala. Entendeu?

Vida e Morte Todo aquele que luta contra a mortalidade peca por hybris, por excesso, por atentado a ordem universal, tá certo? Se já tá na hora de ir, fica segurando o malandro, coisa, injeção, segura, coisa e tal... Velho, tá ocupando espaço, tá respirando ar que não é seu, tá “coisando”, tá comendo costela que é de outro. Desova, malandro. É essa a ideia, a certeza de que a mortalidade faz parte da ordem cósmica, porque só tem dois tipos de gente entre os que vivem, deuses que não morrem e o resto que morre. O homem que quer ser Deus comete o pior dos pecados. Ficou claro? Ficou claro. Então, então liberar os mortos... Anu disse: “Tá bom, eu mando a porra do touro. ” Veio o touro, mas Gilgamesh e Enkidu estavam com a moral muito alta e um falou pro outro: “Vamos pegar esse touro na unha. ” E mataram o touro com uma espada aqui no cangote. Clássico hein? Né? Muito antes de qualquer Plaza de Toros, né? De qualquer toureiro já teve gente que matou touro com uma espada aqui no cangote.

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Essa foi a maior ofensa que eles poderiam ter feito aos deuses. E nesse momento, os deuses não gostaram nada e resolveram matar um dos dois. E aí decidiram matar Enkidu, porque eram eles mesmo que tinham posto ele ali, eles iam tirar. Enkidu faz um sonho, faz um sonho... Enkidu sonha, é porque hum... Enkidu sonha que vai morrer. E você sabe, nessa época o sonho sempre foi uma forma de comunicação dos deuses com os mortais. Então Enkidu entra em pânico: “Eu vou morrer, eu vou morrer, eu vou morrer! ” E aí os dois entram em pânico: “Você vai morrer. Não, não pode ser.” E Enkidu fica doente, e Enkidu adoece, e Enkidu fica frágil. Gilgamesh cuida de Enkidu, manhã, tarde, noite. Gilgamesh, né? Como Montaigne e La Boétie, uma amizade, um amor infinito; um amor, um amor sem falha; um amor sem folga; um amor sem brecha; um amor que se depara com a finitude. E aqui você tem uma das mais importantes questões filosóficas que o homem sempre teve que enfrentar que é o paradoxo entre a finitude e o amor. E Gilgamesh vai dizer coisas sozinho: “Como é possível, como é possível que este que eu tanto amo morra.” Essa questão da irreversibilidade da morte é tratada de forma magistral. É apresentada alegoricamente como Enkidu passando os umbrais de uma caverna do qual ele não voltaria nunca mais. Enkidu morre nos braços de Gilgamesh e eu diria que é nesse momento que a epopeia ela de fato assume uma perspectiva filosófica definitiva. A conciliação do amor e da morte sempre foi resolvida pelas correntes filosóficas ao longo da história. Não tem como um pensamento fugir desse problema. E é claro, os estoicos, a título de exemplo hein, os estoicos o que vão dizer: “Não ame! ”. Pelo menos se você entender por amor apego, sofrimento com a perda, não ame, nem ninguém, nem nada, por quê? Porque vai, vai decompor. Vai destruir, vai morrer. Você vai sofrer. O treinamento que os estoicos propunham era abraçar o filho querido e dizer: “Você pode

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morrer amanhã, portanto afaste-se.” Assim na hora que morre não sofre. Reflexão estoica típica: “não tenho cachorro porque quando morre eu sofro. Não tenho mulher, porque como o cachorro, quando morre eu sofro. Não tenho amigos, porque quando morre eu sofro. Também não me apego a nada, porque deteriora e eu sofro”. É bem legal, assim a gente evita muito sofrimento. Resta saber se tem alguma graça viver assim. Um outro exemplo de resolução... Não, então claro, os estoicos... Você vai dizer: “Então o que que eu amo? ” Ama o que é eterno. E o que é eterno? A ordem universal, os deuses, o cosmo, o que não morre, em suma. Tem que amar o que não deteriora porque aí você amará enquanto você existir. Se amar o que morre vai sofrer. O pensamento cristão proporá outra saída: Ame à vontade, ame à vontade. É Agostinho com a mãe, a mãe morreu e Agostinho organizou um pagode. E por quê? Pela certeza que daqui a pouquinho vamos tá todo mundo junto, eu aqui, vocês aí, falando sobre mitos em outro lugar bem mais legal. Eu sem minha dor nas costas; sem minha dor no joelho; sem minha dor de garganta; sem minha dor de cabeça; sem minha dor de coisa; sem não sei o quê. Só na boa, só show de bola, corpo e alma em outro lugar e ainda com os entes queridos que já se foram. Eu sempre falo da minha mãe e do meu pai, imagina que barato: “Entra aí velho, olha só!” Né? O meu pai ia curtir tanto aqui. É uma pena que ele tenha morrido antes. Como ele ia gostar. Eu acho que ele não ia sair das minhas aulas e das outras também. O meu pai ia adorar isso aqui. Como eu lamento que ele não tenha conhecido. Eu amava o meu pai e ele morreu. Para os estoicos eu me ferrei. Para os cristãos nem um pouco. Até porque eu também estou a caminho e aí tudo se resolve, não tem problema, nada de tristeza. Você percebe que eu estou dando exemplos de solução do problema filosófico que é a incompatibilidade entre o amor e a morte; o amor e a finitude. Esse problema é apresentado no mito de Gilgamesh de maneira linda, de maneira extraordinária, de maneira fantástica.

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Imortalidade O quarto momento da epopeia, portanto, lembrando, primeiro momento: apresentação de Gilgamesh; segundo momento: as aventuras de Gilgamesh e Enkidu; terceiro momento: a morte de Enkidu; quarto momento: Gilgamesh desesperado percebeu a sua finitude. O rei que não queria morrer é a quarta parte da epopeia. E Gilgamesh ouviu falar que em algum lugar havia alguém que tinha recebido dos deuses a imortalidade: Utnapishtim. Fiquei ontem três horas para decorar essa porra desse nome. Utnapishtim. Porque não fica bem trazer notinha para ler. Sábio que é sábio nunca lê nada na hora, tudo brota de dentro dele. “Pera aí, não lembro o nome do porra do cara deixa eu tirar pra ler”, não pega bem. Utnapishtim. Tomará que eu esqueça às nove e meia. Utnapishtim. E Utnapishtim, por que que ele ganhou a imortalidade? Porque os deuses estavam de saco cheio dos homens e resolveram matar todos os homens. E aí fizeram o quê? Inundaram a Terra e chamaram Utnapishtim e disseram: “Oh! Faz um navio e ponha dentro do navio um exemplar, um casal de cada bicho. ” E Utnapishtim foi bem legal, fez tudo isso. E você dirá: “Meu Deus, mas essa é a história de Noé! ” Pois é, mas dezoito séculos antes já tinha a mesma história. Ficou triste? O Noé da bíblia é Utnapishtim da Mesopotâmia. Lamento te informar, já tinham falado antes de um cara que fez um navio para botar os animais dentro. Só que o deus da Mesopotâmia é mais generoso do que o da bíblia e deu a Utnapishtim e a mulher a imortalidade. O Gilgamesh ficou sabendo e foi procurar o cara. Só que o deslocamento de Gilgamesh até Utnapishtim é como os doze trabalhos de Héracles de Hércules, né? É terrível. E ele... O canal da morte, encostou na água morre. O túnel do tempo protegido por escorpiões. Um monte de façanhas. E Gilgamesh vai, vai, vai até que ele encontra

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Utnapishtim, sujeito aparentemente anódino, uma figura assim, né? Monsieur to Monde né? Uma figura, tal... Oh, ali oh, “O senhor é Utnapishtim?” “Sou eu tal...” “Ouvi falar que o senhor não vai morrer. ” “É, acho que não. Não tenho envelhecido nos últimos tempos. Faz aí trezentos e cinquenta anos que eu estou assim né? Tal né? ”. E aí o Gilgamesh falou: “Também quero. ” “Não vai dar, malandro. ” A conversa é fantástica. É assim mesmo que é o tal diálogo: “Não vai dar. Isso é um dom que os deuses me deram, eu não tenho como passar pra você. É o deus que, né? Ele fez isso porque ele me pediu pra montar uma porra de um barco, todo mundo zoou da minha cara, eu fiz o barco assim mesmo, botei a minha mulher, vaca, porco, galinha, girafa, etc. e tal, agora eu sou imortal e tal, mas você, você acho que não vai rolar. ” E Gilgamesh velho... Gilgamesh: “Nãoooo, nãoooo, nãoooo...” E aí a mulher de Utnapishtim ficou com pena do Gilgamesh. Sabe por quê? Porque no mito de Gilgamesh a morte não é uma coisa natural, legal, tranquila. Ela é ruim, cara! Não sei se você me entendeu. Eu queria que você... Por exemplo, para Epicuro a morte não é nada para nós, né? “La mort n'est rien pour nous”. A morte não é nada. De jeito nenhum aqui. A morte é um horror. A morte é uma desgraça. E mesmo quem é imortal, Utnapishtim e a esposa, sabem que a morte é uma desgraça e por isso existe pena de quem vai morrer. A morte é ruim. Você sabe qual é a lição? É de que a morte tem que ser ruim quando a vida é boa. – Pois é, parece óbvio, professor! Pois é, cara. Mas se a morte não fosse nada, isso seria um indicativo de que a vida também não foi essas coisas. Mas se a vida foi do caralho é claro que morrer é ruim. E a mulher tem pena de Gilgamesh e dá pra Gilgamesh umas ervas, né? Compensação da

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finitude, meio caminho: “Não vai morrer, mas vou te esticar a vida. Essas ervas te permitirão rejuvenescer cada vez que você tomar um chazinho delas. Economiza, né? ” Como? Como creme francês caro, você põe o neguinho assim, tal e coisa... “Economiza. Faz chazinho, uma folhinha só e tal. Economiza. E aí você vai rejuvenescendo, rejuvenescendo... quando acabar a porra da erva não tem mais jeito, mas dá uma esticadinha. Beleza? ” Nossa! É de uma atualidade irritante, velho. É o próprio doutor Dráuzio Varella: Você quer viver mais? Coma linhaça etc. e tal. Como viver mais e tal. É de uma atualidade irritante. Tá aqui a erva é a linhaça da coisa. Que mais você quer? Dezoito séculos antes de Cristo, dezoito séculos antes de Cristo: “Toma o chá e você vai viver mais. ” Gilgamesh, bom; prêmio de consolação: “Valeu! Valeu, tia! ” Só que na hora que Gilgamesh tá voltando ele tem as ervas roubadas por uma serpente. Não é por acaso que a serpente é símbolo da medicina, porque não morre, porque roubou as ervas de Gilgamesh. Olha que legal! Pois é cara, essa é a perspectiva, a epopeia acaba assim, Gilgamesh volta pra casa e de certa maneira a epopeia acaba sem uma solução. Em outras palavras, a epopeia mostra a necessidade de uma reflexão de espiritualidade laica, porque a religiosa Gilgamesh tentou com Utnapishtim, não deu certo, os deuses não querem você eterno. Então, quando a espiritualidade religiosa não resolve, quem sabe a necessidade de pensar sobre a vida mesmo sem os deuses. Dezoito séculos antes de Cristo o mito de Gilgamesh abre as portas para o pensamento filosófico. Ele não apresenta soluções, mas ele aponta, existe aqui a necessidade do grande rei Gilgamesh poder pensar sobre a vida mesmo com a certeza de que vai morrer. Mas apesar disso, o mito de Gilgamesh, ele apresenta uma reflexão de espiritualidade laica e essa reflexão está na morte de Enkidu. Eu volto um pouquinho. Quando Enkidu sabe que vai

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morrer ele fica muito desacorçoado, ele xinga os deuses. E aí La Joies vai visitá-lo e ele blasfema contra La Joies. O relato é muito duro é muito cru, é muito cheio de pornografia, de crueza de detalhes de sexo vil muito interessante: “Sua puta. Por causa, por sua causa que eu estou nessa enrascada. ” E ele maldiz La Joies. E La Joies é do tipo que sabe do charme que tem e espera a raiva de Enkidu. Enquanto La Joies espera a raiva de Enkidu um deus intervém, Samas, e esse deus vai dizer pra Enkidu: “Pô! Você é um babaca cara. É claro que você vai morrer, mas você viveu bem pra caralho, você encontrou a La Joies, ela te cuidou; ela te carinhou; ela te ensinou; ela te civilizou; ela te deu amor; ela te deu prazer e você com ela teve uma vida fantástica. Depois você conheceu Gilgamesh, que também te deu amizade; te deu amor; te deu carinho; te deu parceria; te deu vitórias; te deu glória e você tá reclamando do quê? ” E Enkidu volta atrás. E quando Enkidu volta atrás você tem aí o momento maior de reflexão de espiritualidade laica, reflexão sobre como devemos viver pra ser feliz. E você tem aqui duas lições fundamentais. A primeira delas: não é porque você vai morrer que a vida não presta, pelo contrário, é justamente porque a vida acaba, que ela é rara e é porque ela é rara que ela tem valor e vale a pena ser cultivada e bem vivida. A segunda lição: são dois caminhos para a vida boa, o amor e a civilização. Veja, o que é que o deus tá dizendo ali na alegoria, na epopeia de Gilgamesh, o que que o deus tá dizendo? Ele tá dizendo: “Duas coisas se destacaram na tua vida que valeram a pena, fizeram a vida valer a pena, você amou e civilizou-se.” E é claro, isso poderia ser objeto aqui de enorme reflexão entre nós: será mesmo que é o amor que faz que a vida possa valer a pena? Será mesmo que pra nós a civilização é condição de uma vida boa? Proposta da alegoria de Gilgamesh. Reflexões filosóficas que ficaram para sempre nesta obra literária, a mais antiga da história da humanidade, de dezoito antes de Cristo. Eis aqui o

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fim da nossa primeira metade.

Epopeia de Ulisses Avançamos dez séculos. Oito pra sete antes de Cristo: A Odisseia. O autor Homero, mais uma palavra do que propriamente uma pessoa. Na Odisseia de Homero muitas são as epopeias, destacamos a de Ulisses, não por achar legal, mas por acreditar que a epopeia de Ulisses é de fato o marco fundador da filosofia clássica. A compreensão da alegoria que tem Ulisses como herói exige ir um pouco atrás da Odisseia. Exige lembrar das causas da Guerra de Tróia. Você sabe que um casal ia casar, Peleu e Tétes e era um casal com algum prestígio, porque o casal ia casar no Olimpo e Zeus organizou a festa ele mesmo. Amanhã eu vou falar da Teogonia de Hesíodo e aí Zeus vai fazer mais sentido, por enquanto ele é um baita deus. E Zeus na hora de organizar a festa, aliás sobre essa festa tem tantos mitos né? Mercúrio, é bem legal sabe, tem... Cada história dessa tem um milhão de desmembramentos, viu? O fato é que Zeus esqueceu, entre aspas, de convidar Éris. Éris matriarca da família de Ibrahim, é brincadeira. Você não se lembra do Ibrahim Éris, mas é... Éris é a deusa da discórdia. Não é bem isso, não é bem deusa da discórdia, deusa da discórdia. Não é bem isso. O que aconteceu, eu vou explicar amanhã, mas eu tenho que rapidamente avançar. O que aconteceu é que castraram Urano. Urano é o céu que cobria Gaia, a Terra, e o pinto de Urano foi arremessado longe, por quem castrou, amanhã eu explico. Então o que aconteceu? O pinto saiu voando e um pinto que comia a Terra inteira era um

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pinto que chamava atenção. O pinto foi parar no mar, mas ele foi esparramando sangue pela Terra. Do encontro do sangue do pinto de Urano com a Terra nasceram, entre outros, as Erínias, entre elas Éris, que são na verdade as deusas da vingança da castração de Urano. Então aqui para lembrar todo o tempo que Urano teve o seu membro amputado. Porém, o pinto latejante de Urano que caiu no mar, né? Do esperma e o encontro com a espuma do mar deu Afrodite, né? Entendeu? Então, quer dizer, do mesmo pinto saiu gente revoltada e gente amorosa. Ouça o que eu falei. Quem tem família sabe do que eu estou falando, do mesmo pinto costuma sair isso... Eu não sou Urano, mas sei do que... Tudo comigo é mais modesto, muito mais modesto, mas ainda assim sai gente revoltada e gente amorosa. Acho que você entendeu, Éris é a parte revoltada da história, Afrodite a parte amorosa. Os dois tem a ver com o que eu estou falando. Bom, Zeus que não queria confusão não convidou Éris. E Éris foi assim mesmo, como convém a alguém que gosta de criar confusão. E Éris chegou na festa e colocou em cima da mesa uma maçã de ouro hein! Você certamente já ouviu falar na expressão “Pomo da discórdia” “Pomme”, por isso, pomme em francês, né? Pomo da discórdia. A minha mãe me chamava assim sempre, pomo da discórdia, né? Então, essa mulher botou uma maçã de ouro em cima da mesa. Essa maçã era guardada pelas... Eu explico, são outras e outras histórias, é bem bacana. Mas o fato é que a maçã foi ali e estava escrito: Para a mais bela. Olha, o que isso significa no meio da mulherada. Todas: “É pra mim! É pra mim! É pra mim! É pra mim! ” Passaram a disputar a maçã e aí, claro, três ficaram na final. Aproveitando o espírito olímpico, três ficaram pra final. Olha a final! Olha a final! A mulher de Zeus, Juno em latim, Hera em grego. A filha de Zeus, Atena em grego, Minerva em latim, a deusa da arte e da guerra. E finalmente Afrodite em grego,

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nada mais, nada menos do que a deusa do amor. Nada mais, nada menos... obrigado, eu até sei, né? Nada mais, nada menos do que Vênus. Nada mais, nada menos, percebeu? As três, velho. As três ficaram pra final. A mulher de Zeus, a filha de Zeus e a tia de Zeus no páreo final. E aí é claro, viraram pra Zeus, espécie de patriarca do Olimpo: “Com quem fica a maçã? ” E Zeus, podia ser patriarca mas não era otário, pegou e falou: “Eu não tenho nada com isso. ” Entendeu? Zeus: “Não tenho nada com isso, malandro. ” E aí então Zeus foi atrás de alguém para decidir. Encontrou um pastor, menino ainda, bonitinho, desses, né? Trabalharia em Malhação, assim, né? Pegou o menino pela pele do pescoço, e aí botou o menino para decidir. As três resolveram convencer o menino. Hera, mulher de Zeus... Cada uma ofereceu o que tinha na butique pra oferecer, o que podia oferecer, Hera o Império, claro, mulher de Zeus. Atena, Minerva, deusa da guerra, disse: “Se votar em mim não vai perder uma guerra mais. ” O moleque olhou: “Pô! Legal”. E aí chegou Afrodite: “Se votar em mim vai seduzir a mulher que quiser, quando quiser, como em Pasárgada: a mulher que quiser na cama que escolher. ” E o moleque, claro, é nóis: “Império?! Quem é que quer Império, velho? Já tenho a minha casa em Serra Negra, já tenho uma Kombi, que Império! Império! Império! Ganhar a guerra? Nunca vou guerrear contra o Paraguai. Ganhar a guerra! Que guerra o caralho! Eu quero a mulher. Afrodite ganhou, óbvio. A maçã é dela. ” Claro que o nosso amigo não era exatamente um pastor, era Páris, filho do rei de Tróia, irmão de Hector e de Cassandra. E Páris pegou e falou: “Bom, já que eu posso seduzir qualquer uma e vou pegar a melhor: Gabriela. ” E a Gabriela da época era Helena. Só que Helena, ó o enrosco, velho, Helena era casada com Menelau. “Eh! foda-se Menelau, chifrudaço.” Não, mas é que Menelau era o quê? Rei de Esparta e Esparta, você aprendeu, porque começo do ano você estava bem com os neurônios ativos, você estudou a Mesopotâmia, Tigre e

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Eufrates, depois a Grécia. Esparta era aqueles caras que guerreavam bem. E aí o Páris foi lá, seduziu Helena. E a mulher quando é seduzida é um quatro por quatro, tração nas quatro rodas. Largou o Menelau sumariamente, sem dó nem piedade e foi atrás do Páris até Tróia. Foi atrás do Páris até Tróia. Menelau sabendo disso clamou por vingança e chamou todos os reis gregos para ajudar. E aí começa a Guerra de Tróia.

Guerra de Tróia Eu não vou entrar nos detalhes da Guerra de Tróia, uma guerra terrível, uma guerra violentíssima, uma guerra de detalhes de extraordinária crueldade, mas eu gostaria que você entendesse que Ulisses entra na parada a partir do caos. O caos da discórdia de Éris. O caos da Guerra de Tróia. O caos da chacina né? E o último caos, os troianos estavam ganhando a guerra e dando um pau nos gregos até que Ulisses foi chamado. Ulisses é um cara sossegado. Estava lá na ilha dele com a mulher dele Penélope, com o filho dele Trasímaco, Ulisses sossegado, até que chegaram e falaram: “Malandro, nós estamos tomando um pau dos troianos e você tem que nos ajudar.” Ulisses não quer ir: “Não tenho nada com isso, tô bem aqui. ” Ulisses controla Ítaca. É como a Assembleia Legislativa do Estado, todo mundo aplaude, uma beleza. Tranquilo. “Eu não vou porra nenhuma sair daqui. ” Mas aí disseram: “Você prometeu ajudar em caso de coisa...” Ele teve que ir. Sabe quando é que ele vai voltar pra casa? Vinte anos depois. Dez anos de guerra e dez anos para voltar pra casa. Dez anos de guerra em que graças a sua astúcia ele inventa o tal do Cavalo de Tróia. E por causa do Cavalo de Tróia os gregos massacram os troianos. É um massacre, é um massacre. A história de Ulisses começa no caos.

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E a Odisseia é a volta de Ulisses pra casa. A Odisseia é a passagem do caos para a ordem; da desarmonia para a harmonia; do deslocamento para o locamento; da vida fora de lugar pra vida no lugar; do lugar errado para o lugar certo. Essa é a distância que separa Ulisses de Tróia até Ítaca. Eu espero que você entenda que a mais firme convicção dos gregos é a de que o Universo é ordenado, as coisas têm uma razão de ser. E, portanto, todos os mortais participam desta ordem universal. Ouça-me, só que o vento venta, ele faz a única coisa que ele poderia fazer, então é claro, o vento não bagunça a ordem universal. A maré, o porco e a girafa também não bagunçam a ordem universal, porque tudo vive como só poderia viver. Portanto, só quem pode bagunçar a ordem universal é quem escolhe a própria vida, é o homem. E o homem poderá viver em harmonia com o todo ou poderá viver em desarmonia com o todo. Ouça-me, todos os relatos míticos gregos, todos eles, ou contam a história de quem perturbava a ordem cósmica ou contam a história de quem lutou para preservar a ordem cósmica. Só tem dois tipos de mito: o pecado da arrogância da hybris, da desordem ou a luta pela preservação da ordem, só isso. Ulisses, é, preciso que me entenda, hein? Quando Aristóteles diz: “Tudo tem o seu lugar natural” ele está atualizando filosoficamente a mitologia. O lugar natural é o lugar do vento ventar, mas é o lugar de cada um de nós viver. Então, em que consiste uma vida boa? É uma vida em harmonia com o todo. E o que é que é uma vida em harmonia com o todo é só estar no lugar certo? Não, é estar no lugar certo, fazendo o que tem a ver com aquele lugar, encontrando as pessoas que têm a ver com o que você faz, em suma, é todo um contexto de vida que pode estar em harmonia com o todo ou não. E para saber qual é a tua praia e qual é o teu lugar, Sócrates já deu o caminho: “Conhece-te a ti mesmo. Percebe qual é a tua praia. Percebe qual é a tua vocação, teu talento, tua habilidade, teu gosto, teu apetite, teu desejo. Estuda você mesmo, que estudando você mesmo você vai

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rapidamente perceber onde é que é tua praia e onde é que não é a tua praia. ” Ora, o lugar natural de Ulisses é Ítaca. Mas depois que Ulisses ganha a guerra, ele vai voltar pra Ítaca, ele tem dificuldades para voltar, porque durante a guerra ele matou ene, ele matou muita gente, mas ele sobretudo furou o olho do ciclope Polifemo. O que é ruim, porque o ciclope só tem um olho. E esse ciclope Polifemo era nada mais, nada menos do que filho de Poseidon e aí o enrosco é grande, porque um deus não vai deixar barato quando furam o olho do filho dele. Mesmo não sendo deus já é problema imagine o deus dos mares. Complicou pra Ulisses e Poseidon resolveu atrapalhar a vida de Ulisses. Saiba, todas as dificuldades que Ulisses teve para voltar pra casa tem a ver com o esquecimento. E por quê? Porque Ulisses sabia qual era o seu lugar natural. Para condenar Ulisses a uma vida ruim era preciso que ele não conseguisse chegar no seu lugar natural. Pra isso Poseidon usava o artifício do esquecimento. Ele dormia na hora agá, ele não conseguia, ele se perdia, ele, em outras palavras, tudo foi feito pra que Ulisses não encontrasse o lugar natural que ele sabia bem qual era. Entenda isso. Você pode viver mal porque você não sabe qual é o teu lugar natural. Mas você pode viver mal porque mesmo sabendo qual é o teu lugar natural o mundo se coloca como obstáculo pra você viver nesse lugar. Tá me acompanhando? Eu espero que você perceba a atualidade dessa reflexão. Você pode perfeitamente saber que o que você gosta é ser pintor, mas aí tem um monte de Polifemos e Poseidons atrapalhando. Vai ser pintor pra quê? Vai ganhar dinheiro com o quê? Vai ser engenheiro. E aí você tem a odisseia de uma vida deslocalizada, de uma vida fora de lugar. Ulisses passou vinte anos fora de lugar. E perceba, nesses vinte anos ele viveu ou no passado, lembrança de Ítaca, ou no futuro, esperança de Ítaca. O presente era fora de lugar.

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O lugar natural de Ulisses era Ítaca. O meu lugar natural é a sala de aula. E eu tive tantos Poseidons. Os meus pais, por exemplo, que achavam que ser professor era fim de linha, no que no olhar deles eles tinham toda a razão, toda a razão.

Vida e Morte na Odisséia O momento maior da epopeia de Ulisses, pelo menos no que diz respeito à questão filosófica, é a passagem de Ulisses pela ilha de Calipso. Mais uma dificuldade, mais um obstáculo colocado por Poseidon para chegar em Ítaca. Um obstáculo curioso esse, cheio de significado, porque quando você pensa em obstáculo você pensa em coisa ruim, não é não? Né? Por exemplo, eu queria chegar aqui, mas na hora de vim pela Marginal, estou vindo de Ribeirão Preto de carro, na hora de vim pela Marginal ia entrar pela lateral eu vim pelo meio, passei por debaixo da Bandeirantes pela pista expressa e aí não tinha mais como entrar. Aí eu tive que ir até a Ponte do Morumbi, dá a volta, voltar, pegar trânsito para ir, trânsito pra voltar, dá a volta na Ponte Cidade Jardim, faz o anel, volta, então foram vinte e cinco minutos. A ilha de Calipso é um obstáculo diferente desse, porque Calipso era incrível. Nossa! Se você tivesse visto. Calipso tinha glúteos rijos. Consta que Calipso gastava pelo menos hora e meia dando coices para o ar, ginástica que enrijece os glúteos. Calipso tinha... Era perfeita, equilibrada, branquinha, parecia um tofu e toda a sua penugem negra contrastava com a alvura da cútis. Nossa! Calipso tinha os olhos levemente rasgados, os beiços protuberantes, mas não muito, as fossas nasais emparelhadas como costuma acontecer. Calipso era foda. E Calipso se apaixonou completamente por Ulisses. E a ilha de Calipso? Um paraíso. Lagosta, javali com geleia de amora. Ninfas, ninfas para limpar, espécie de paquitas da época, né? É, elas ficavam ali... As ninfas, cada ninfa era uma Angélica assim, um negócio de Copenhagen, velho, um negócio do outro mundo, um negócio...

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Tudo esperando Ulissses, as ninfas aplaudindo já tirando a roupa. Calipso era apaixonada por Ulisses e o que é incrível, ela gostava de transar. Uma bomba sexual. Manhã, tarde e noite. E Ulisses estava bem, ele tinha levado uns frasquinhos, uns negócios, ele estava bem, Ulisses. E os dois, nossa, ralaram, ralaram. Mas Ulisses chorava. Aí você vai pensar: Pera aí malandro, um cara com uma mulher dessa, com as ninfas. As ninfas são muito importantes, porque não há mulher que segure monogamia assim, né? É sempre importante ter um negócio pra uma diversificação. As ninfas são muito importantes, né? Churrasco todo dia. Nossa! Vinha os Originais do Samba, Raça Negra, né? Trouxe Luan Santana. Até a Paula Fernandes foi cantar. Um negócio do outro mundo. E Ulisses chorava. Vai dizer: “Pô! Qual é a desse cara? ” Pois é, o ensinamento tá aí. Não tem nada que seja bom em si, porque tudo é bom para alguém. Não é? Isso eu aprendi em Brasília. Eu prestei concurso e o concurso era difícil, mas era bem legal. Senado, salário, estabilidade, poder, mídia, era bem legal. Na verdade é tudo o que todo mundo quer, todo mundo que não é herdeiro. Não sei se você entende... Tem gente que não nasceu bem, então concurso público compensa esse azar inicial, né? Ele te dá uma segurada boa. Você vai dizer, né? Concurso público segura a jornada... Então para passar num negócio desse é ralado, velho, é ralado. Aí se passa, do caralho, Brasília, apartamento funcional, coisa, show de bola. Pois é cara, Brasília pra mim lembrava muito a ilha de Calipso. Deve ser do caralho. Deve ser do caralho, mas não pra mim. E eu chorava virado pra Ítaca. Ítaca era a UNB, pra sala de aula: “Me tira daqui. ” Até o dia, e como ninguém me tirava dali, eu acabei me tirando. Foi o que aconteceu com Ulisses. Atena, cheia de ciúme, pediu pra Zeus liberar Ulisses. Zeus mandou Hermes, Hermes é um deus legal, uma espécie de Sedex 10, é o mensageiro de Zeus, né? Mercúrio para os latinos.

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E Hermes chegou lá, deus também da comunicação, deus da mensagem, deus da informação, espécie de Willian Bonner do pedaço. E Hermes mandou: “Oh! Tem que liberar o cara, Zeus tá mandando. ” E Calipso ainda está apaixonada por Ulisses. E Calipso tenta uma última: “Fica comigo. ” “Não fico. Penélope me espera. ” E Calipso dizia: “Como é essa Penélope? ” E Ulisses dizia: “Ah! É a minha Penélope. ” Tem uma música de Joan Manoel Serrat, cantor catalão, cujo título é Penélope, coloque na internet. A história é de uma moça, de uma moça que viu o seu amado partir. E essa moça durante muitos anos foi à estação de trem todos os dias esperar ele chegar. É muito legal a música. Penélope, Joan Manoel Serrat. Um dia o amado volta e Penélope se dá conta que aquele que ela amava e esperava não existe mais. Ulisses também corria esse risco. Ulisses chorava e Calipso para segurar Ulisses tenta uma última cartada: “Eu te dou a eternidade. ” Isso faria de Ulisses um herói, um deus. E transformar em deus em grego chama apoteose, por isso tem no sambódromo a Praça da Apoteose, quando os mortais se convertem em deus. Mas a oferta de Calipso era ainda mais tentadora. Sabe por quê? Vamos imaginar que eu olhe pra este jovem aqui e digo: “Você vai viver eternamente. ” E paro por aí. E ele vai envelhecendo, envelhecendo, envelhecendo, envelhecendo e de repente ele está inapropriado pra qualquer tipo de uso que Calipso pretenda ter. Foi o que aconteceu com Aurora. Aurora também se apaixonou por um mortal, deu a ele a eternidade, mas esqueceu da juventude, teve que transformar o cara em cigarra porque ele foi se tornando uma uva passa. Sabe o que que é você envelhecer e não morrer? E você vai coisando... Vira uma espécie de damasco. Então melhor virar cigarra. Então, Calipso lembrou de Aurora e disse: “Te dou a eternidade desse jeito. ” Mais ou menos eu com dez anos menos, porque desse jeito eu não quero mais. Agora eu já passei do ponto. Eu

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queria antes, né? Desse jeito. Essa é a maior oferta que alguém pode fazer. E Ulisses não aceita. É preferível uma vida de mortal bem sucedida do que uma vida eterna no lugar errado. Eu espero que você tenha entendido. A perspectiva filosófica de aceitação da morte, e Ulisses já tinha descido aos infernos, livro onze da Odisseia, Ulisses sabia muito bem do que ele estava falando. É foda mesmo, a morte é uma merda. Não pense você que Ulisses é desses budistas que acha que a morte “não, não é nada, não é nada. ” Não é nada o caralho, é um horror morrer, é uma bosta morrer. Mas não importa é melhor morrer do que ficar aí tendo que comer a Calipso. É melhor morrer do que ser assessor legislativo. E aí eu, entendeu, eu assino embaixo, velho, é melhor dez anos como professor do que a eternidade no Senado. É melhor, eu troco. É preferível uma vida de mortal no lugar certo do que uma vida eterna no lugar errado. A lição é infinitamente poderosa. E é claro, ela se desmembra em três grandes perspectivas filosóficas que permitem dar conclusão a esse nosso primeiro encontro. Primeiro: o sábio é aquele que aceita a sua finitude, tranquilamente. O sábio é aquele que entendeu que a sua finitude tem a ver com a harmonia do Universo. O sábio é aquele que percebeu que a luta contra a finitude é uma blasfêmia contra a ordem cósmica. A segunda lição é a de que justamente porque vamos morrer é absolutamente imperativo buscar a vida que vale a pena ser vivida. Aproveito para recomendar a leitura do livro com esse título de autor genial e conhecido. A vida que vale a pena ser vivida deve ser buscada, por quê? Porque não temos a eternidade. Se tivéssemos a eternidade, doutor Si, se tivéssemos a eternidade seria diferente, não tá bom agora, a gente espera uns cinquenta anos e acerta. Não tá bom agora em algum momento encaixa. Não tá bom agora né? – Professor, o senhor gosta da Juliana Paes? – Muito!

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– Já comeu? – Nunca. Não, mais daqui duzentos e cinquenta anos ela vai acabar caindo na minha. Aparentemente não é assim que funciona. Então, é preciso que as coisas deem certo já. O sábio é aquele que lamenta menos, espera menos e ama mais. Vida no presente. Vida no instante. Vida na imediatidade da vida. Vida que privilegia o que acontece em detrimento do que já foi, em detrimento do que não é ainda. O sábio é aquele que percebeu rapidinho que o passado e o futuro são um delírio, um delírio de gente que não vive bem, porque quem vive bem não tem porque ficar lembrando. Não tem porque ficar projetando. Quem vive bem desfruta. Se algum dia você encontrar Gabriela perceberá que não faz o menor sentido se lembrar da namorada que você tinha aos catorze anos, porque Gabriela esgota todo o seu imaginário. Como não tem Gabriela, você... Só te resta lembrar do que aconteceu e como o que aconteceu nem sempre é bom, às vezes você acaba tendo que fantasiar sobre o que ainda vai acontecer. Quando a vida é boa não tem porque lembrar, não tem porque esperar. O sábio é aquele que lamenta menos, espera menos e ama mais. Linda perspectiva. Linda perspectiva. É o que Nietzsche chama de reconciliação com o real. Amor fati, amor pelo que é. Lição de Ulisses. Mas você ama o que é desde que você esteja no lugar certo, fazendo a coisa certa. Essa é a condição da reconciliação com o real. Se você estiver vivendo errado só te restará lembrar de Ítaca, só te restará esperar por Ítaca, você só vai viver o presente quando você estiver na sala de aula. Bacana! Terceira lição: a eternidade. A vida no lugar certo é um fragmento de eternidade. Fragmento de eternidade é linguajar grego. Átomo de eternidade é linguajar mitiano. É a mesma coisa. Quando você encaixa, você participa de um cosmo que é eterno, você se torna parte de alguma coisa que não acaba nunca, você é fragmento de eternidade.

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Por isso você só tem dois tipos de vida, uma vida fora de lugar, a vida que está fora de lugar é também uma vida fora do tempo, fora do presente é uma vida deslocada e desarmônica. Mas quando você está no lugar certo cada instante é contaminado de eternidade, é o eterno retorno. Viva de tal maneira a desejar a eternidade daquele instante. Eu vou baixar a sua bola, porque desejar a eternidade é abstrato demais pra nós. Viva de tal maneira a desejar que aquele instante dure um pouquinho mais. Já vai ser bem legal. Sabe, só tem dois tipos de gente, aqueles que esperam a vida passar. E quando eu digo esperam a vida passar não é a vida abstrata, é assim: esperam o trabalho acabar; esperam a semana acabar; esperam a aula acabar; esperam o sono acabar; esperam o almoço acabar; esperam blablabla acabar; esperam o horário do motel acabar, blablabla, quatro horas, oh! Me avisa por favor, porque não posso perder o fim do motel blabla, espero a coisa acabar, espero blablabla acabar, e sem perceber esperando a aula acabar; esperando o sono acabar; esperando a trepada acabar; esperando o almoço acabar; estão esperando a vida acabar. E tem o outro tipo, que espera que não acabe, que torce para durar mais um pouco. Sabe, aquele que espera a vida acabar, esse parece no mesmo sentido do trânsito, porque afinal de contas o que ele espera é o que vai acontecer. Aquele que torce para não acabar, esse parece na contramão do trânsito, porque a sua torcida será vencida pela realidade. Sabe, vai acabar mesmo, a finitude se impõe, a finitude da aula; a finitude do sono; a finitude do almoço; a finitude da bimbada tudo vai acabar mesmo. Mas aquele que viveu aquele instante torcendo pra que não acabe, esse viveu muito melhor do que o outro que viveu aquele mesmo instante esperando que ele acabasse logo. Entendeu? Lição de Ulisses. Lição da Odisseia. Consequência filosófica da epopeia de Ulisses. O sábio é aquele que aceita a morte, não por achá-la boa, por sabê-la ruim, e porque é ruim, distância dela, luta contra a correnteza, resista. Se a vida é como um escorregador, que tudo facilita para a deterioração, a felicidade é a resistência mais heroica possível à inclinação. A felicidade é o

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atracamento. A felicidade é a resistência. A felicidade é a hercúlea luta pra que esta aula dure mais um pouco. Viva de tal maneira a desejar que a aula dure mais um pouco. Ela não durará, mas amanhã eu estarei aí pra que você continue feliz. Obrigado e até amanhã.

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Filosofia dos mitos, aula 1 primeiras reflexões sobre a vida