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Curso: Mitologia Professor: Clóvis de Barros Filho Número de aulas: 3

Aula 3: A Filosofia e os Mitos Páginas: 31

A FILOSOFIA E OS MITOS

Virtude O que era a virtude para os gregos? A virtude era a atualização de uma potência. Atualização de atualidade e de ato. Quer dizer o quê? Quer dizer que para os gregos a virtude era um talento natural objetivado num momento de vida em que esse talento se convertia numa performance excelente. Perceba que esse conceito de virtude tem pouco a ver com o nosso, porque o nosso é a virtude cristã e para o pensamento cristão a virtude não é isso. Então, o que mudou? Pare para pensar. Para o pensamento grego o indivíduo virtuoso era o indivíduo talentoso, isto é, um indivíduo com possibilidades de performance excelente e que na hora de agir agia excelentemente. Por isso, a virtude é a atualização desse talento. É um talento convertido em realidade prática. Todos sabemos do que o jogador Neymar pode fazer. Isto é uma potência, é uma possibilidade de ação, mas Neymar é virtuoso quando ele transforma essa potência em ato. Quer dizer, quando ele transforma uma possibilidade em realidade. O talento materializado em conduta. A virtude, para os gregos, é isso. Ora, o que mudou de lá pra cá? Pra que nós possamos entender o que mudou de lá pra cá é preciso considerar o cenário de reflexão dos gregos, cenário de reflexão que alguns pedantes chamam de paradigma. O que é que os gregos achavam? Eles achavam que o universo é finito e ordenado como uma máquina ou como um organismo vivo. Eles achavam, portanto, que cada coisa neste universo era

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parte de um todo finito e ordenado. Ora, para o todo funcionar bem é fundamental que as partes funcionem bem, que possam cumprir o seu papel, a sua finalidade, a sua função. Então, os gregos estavam convencidos de quê? De que tudo o que está no universo tem uma finalidade. E veja, não basta isso, esta finalidade ela é anterior à própria coisa, de tal maneira que eles acreditavam que a coisa tinha sido feita sob medida para cumprir aquela finalidade. Mais ou menos assim: tá faltando alguém que explique Filosofia. Muito bem, vamos então fabricar um professor de Filosofia. Pensaram, pensaram, pensaram, foram pondo, pondo, pondo, blablabla tal e aí surgiu quem? Então, é claro, qual é a graça da história? Eu nasci pra isso, eu nasci pra isso. Essa é a minha causa final, eu nasci pra isso. E por isso sou apetrechado pra isso como o cachorro Said é apetrechado para entrar em toca, perninha curta né? Parece um pistão assim, ele é feito pra entrar em toca. O fulano, ele é naturalmente apetrechado para cumprir a sua função. Diferença entre mim e o Said: o Said viverá do único jeito que puder viver, ele não erra. Eu, eu posso passar a vida inteira sem descobrir pra que que eu fui feito. É claro, se o universo me faz para dar aula e eu passo a minha vida advogando, administrando empresa, gerenciando pousada em Búzios, pintando, candidatando-me a cargos eletivos e etc., eu estou vivendo errado. Ouça-me. Eu estou vivendo errado. Existe uma vida certa. A vida certa é aquela vida que tem a ver com as tuas potencialidades. A vida errada é aquela que é qualquer outra, é qualquer outra, qualquer outra. Agora, a diferença é que o vento, o cachorro, o gato, a girafa eles não erram, vivem certo e você eventualmente pode acertar. O mais normal é que erre.

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O sujeito: “Preciso arrumar um emprego.” Aí ele abre o jornal. Ele pega um lápis vermelho e ele circula as vagas. E aí ele vai, durante a semana, no lugar onde tem vaga, onde aceitarem ele fica. Vida desgraçada. Por quê? Porque ele vai viver de acordo com a vaga, vai se deixar pautar pela vaga. Você tem que se pautar pela tua potência, não pela vaga. “Sim, e se não tiver vaga pra minha potência?” Que se foda a vaga. Você fabrica a vaga, por quê? Porque você não vai ficar cozinhando fora de lugar. Tá perfeito? É o Neymar, sei lá, andando de skate ou jogando golfe. Tá fora de lugar, fora de lugar. Muito bem, a virtude então tem a ver com essa conversão de potencialidade em vida de carne e osso. Agora, ouça-me! Os gregos estavam convencidos de outra coisa muito legal. Qual é? Na hora de cumprir as finalidades de que o universo precisa para funcionar as coisas aqui não têm a mesma competência, me entendeu? Em outras palavras, se tem uma palavra que o grego não conhece é igualdade. Ou você é melhor ou você é pior, não existe igualdade. Tem o cara que é bom, quer dizer, ele usa com excelência sua potência para fazer aquilo que o universo espera dele e tem o cara que é ruim, quer dizer, ou a potência dele é fraca ou então ele usa errado a sua potência. Em outras palavras, para o grego existe uma hierarquia entre os seres. Hierarquia natural entre os seres. Pra você me entender você deve imaginar que quando eu falo, por exemplo: “Essa perspectiva grega, ela é absolutamente dominante, por exemplo, na medicina né?” O que que um médico pensa de um olho né? O olho é bom quando ele enxerga, né? É uma perspectiva finalista do olho. Você não vai estudar o olho pelo olho, você estuda o olho pela sua função, pela sua finalidade. Um olho que não enxerga é uma porcaria de olho, tá certo? Então, tem o olho que enxerga bem, tem o olho que enxerga mal.

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Joelho: tem joelho que dobra bem, joelho que dobra mal. Intestino: tem intestino que peristalta bem e intestino que peristalta mal. Acho que você entendeu, nessa porcaria, tem coisa que funciona melhor do que outras. Tem vaca que dá mais leite, tem cavalo que corre mais rápido, tem tudo, é isso, é isso. Então, existe uma hierarquia natural entre os seres, não tem igualdade ou é melhor ou é pior.

Finalidade Muito bem. Ora, que consequência isso tem? A consequência de que, no caso das relações humanas, essa desproporção entre as virtudes, porque a virtude é uma questão de habilidade natural, é uma questão de talento natural, essa má distribuição das virtudes, ela tem uma consequência moral e uma consequência política. O que que isso quer dizer? Isso quer dizer o seguinte: o indivíduo que é melhor do que o outro na hora de cumprir a sua finalidade ele é mais digno do que o outro. Você vai dizer: “Nossa, mas isso, isso é esquisitíssimo.” Pois é, pra você ver como você é mais cristão do que supunha. Isso é esquisitíssimo, quer dizer, um fulano, você vai pensar: “São muitos os professores pelo mundo. O sujeito não dá pra mais nada ele vai ser professor.” É, o salário do professor é inferior a de uma empregada doméstica. O sujeito melhorou um pouquinho vai ser motorista etc. e tal. O professor é à base da pirâmide, nada mais pra baixo. Pra baixo é o precipício, é o suicídio, provavelmente. Ora, há muitos professores, muitos professores né? Eu noto no meio de vocês um olhar esquisito. É, não me olha assim que eu não gosto. Vá se informar quanto é que o governador desse estado paga pros professores do ensino fundamental e aí você engolirá seco. Não adianta me olhar com essa cara não. É isso o que eu estou falando, a nossa sociedade legitima o sucateamento da educação. É

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isso o que acontece. Com a participação de todos, porque nós votamos nas mesmas pessoas há vinte anos, então, não me olha com essa cara, tá certo. Então, é isso, o professor é o fim da linha. Muito bem. Agora, tem que acertar, tem professor que é melhor do que outro. Tem professor ruim. Eu mesmo fui vítima de um monte deles; eu nem sei como é que eu me tornei alguém com alguma lucidez, porque fizeram de tudo para me atrapalhar, de tudo. Nossa como eu tive professor ruim. Como tem... Por quê? Porque o cara vai ser professor porque ele não conseguiu ser garçom, ele deixava cair a bandeja e coisa e tal. Então ele vai ser professor que é, exige menos do que isso, tá certo? Então tem professor melhor do que o outro. Ora, o professor que é melhor do que o outro ele é mais digno do que o outro. Por quê? Porque a dignidade moral tem a ver com a competência natural para participar do cosmo. Percebeu porque que eu disse ontem que o cosmo é a referência? Porque se você participa bem do cosmo, tudo pra você. Se você participa mal do cosmo, nada pra você, você é horrível, propriamente. Então, do ponto de vista moral você tem essa situação. E do ponto de vista político? Do ponto de vista político é ainda mais fácil de entender. Quem é melhor manda, quem é pior obedece. O que torna a escravidão alguma coisa absolutamente normal, quer dizer, não há um filósofo grego, você pode pegar qualquer coisa que você quiser encontrar, né? Não só os filósofos chapa branca da filosofia oficial, tipo Sócrates, Platão, Aristóteles etc., como os filósofos alternativos tipo Epicuro, Demócrito, Leucipo etc., a escravidão é uma obviedade, claro. É, tem um cosmo, o cara é ruim, ele atrapalha. Ele atrapalha a engenhoca cósmica. Então, ele é pouco digno de um lado e escravo do outro lado. Muito bem. O que mudou? Agora ficou fácil entender. Com o pensamento cristão o conceito de virtude muda. A virtude deixa de ser a atualização do talento natural. A virtude passa a ser um

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atributo, quer dizer, uma qualidade da decisão que livremente tomamos a respeito dos nossos talentos o que é completamente diferente. – Professor, eu não entendi a diferença. Então, estou aqui pra isso. Uma coisa é você ser virtuoso por fazer bem alguma coisa. A outra coisa é você ser virtuoso porque você escolheu um jeito certo de fazer aquilo que você faz mesmo que você não faça tão bem. Em outras palavras, para os gregos o Neymar nunca pode ser canalha. Para os cristãos sim. Porque para o cristão a virtude não tem a ver com o tamanho do talento, tem a ver com o uso do talento. Em outras palavras... Mais uma comparação. Eu tive um orientador no meu doutorado chamado Pierre Bourdie com quem eu convivi durante um certo tempo. Enfim, um indivíduo absolutamente genial. É, conversando com ele você percebe que você não joga na mesma divisão, certo? É outro naipe, é outro naipe de coisa. Quando muito dá pra entender, de vez em quando, uma frase ou outra. Ora, sobretudo porque naquela época eu tinha vinte e poucos anos, então, isso se agravava ainda mais. Bom. Então, o que diria um grego: a conversão de potência em ato dele é muito, mais infinitamente superior a minha, portanto ele é superior a mim. Portanto ele é mais talentoso do que eu. Portanto ele é mais digno do que eu e, portanto, ele manda e eu obedeço. No final acaba sendo assim, mas dentro da perspectiva cristã ele, talentoso que fosse, poderia ser moralmente questionável e alguns dos seus comportamentos de fato eram, porque era uma figura extremamente truculenta, aqui no Brasil ele não ficaria empregado uma semana em escola nenhuma. Era uma figura absolutamente agressiva para os padrões franceses que já são, quer dizer, o francês já é um indivíduo, assim, rude né? E para os, é um camarada extremamente agressivo.

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Agora, é claro, o que é que mudou? O que mudou é que eu com a minha inteligência tamanho cinco posso ser muito mais legal com os outros do que ele com a inteligência tamanho dez, quer dizer, eu posso ser muito mais virtuoso do que ele mesmo sendo pior do que ele. Então, o que aconteceu? Houve uma cisão entre o talento natural e a moral. Ficou claro? Uma cisão. Para os gregos a moral e o talento natural são a mesma coisa, para o pensamento cristão a moral é uma coisa o talento natural é outra coisa. O cara pode ser do caralho e ser um bosta, moralmente canalha. E o outro pode ser muito menos talentoso e ter, no uso do seu talento, um comportamento muito mais digno. Ora, por que eu fiz essa explicação se bobear até exagerada? Porque nós vamos falar do rei Midas e evidentemente as interpretações que são feitas do rei Midas são, lamentavelmente, interpretações cristãs. – Por que, o senhor não é cristão? Não é isso. É que quando a história foi proposta não era pra que se chegasse às conclusões que se che... Por quê? Porque nós olhamos a história a partir de lentes interpretativas que não são as daquele tempo. É claro que isto é o que é, e hoje o rei Midas é apenas um indivíduo concupiscente, avarento e meio burro, não é? E usa mal o seu talento. Então um indivíduo indigno do ponto de vista cristão. Mas a indignidade no mito não é essa de um uso livre e indevido das suas habilidades, não. A indignidade é uma blasfêmia contra o cosmo. Quer dizer, o grego estava “cagando” pro fato dele ser um fulano mesquinho. O problema é que sendo mesquinho ele colocava em risco a ordem universal. E é aí que tá o problema, a preocupação não é com ele, a preocupação é sempre com a ordem universal e é porque ele coloca em risco a ordem universal que o seu comportamento é inaceitável. Então, feito esse esclarecimento apresentamos o rei Midas e agora tudo fará um sentido mágico.

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Rei Midas A história do rei Midas, lamentavelmente, é apresentada para as crianças como se fosse uma espécie de lenda, uma fabulazinha água com açúcar pra criança pegar no sono. E, no entanto, esse tipo de tratamento dado pelo pessoal da Letras que se entretém com a história, gente que gosta de decorar nome, né? Gente que gosta de detalhe, quase sempre são pessoas sem horizonte né? Sujeito que decora muita coisa, aquela pessoa, são pessoas de talento burocrático e etc., gosta de decorar muita coisa, tarara, não consegue enxergar o horizonte que é a única coisa que importa o resto da história não tem a menor relevância. A relevância está naquilo que a história quer dizer e é isso que nós vamos tentar contar. O rei Midas era uma figura desagradável, que fique claro. Ele sempre foi uma figura insuportável né? Mas essa história começa na verdade com o sábio Sileno. E o sábio Sileno, sim, era muito legal. O sábio Sileno era medonho. E você sabe que em grego né? Em cultura grega, a feiura quer dizer o quê? Desarmonia com a ordem cósmica né? O sábio Sileno tinha o nariz achatado, orelhas peludas e pontiagudas como o cavalo. Ele era disforme, medonho mesmo, medonho. De tirar grito de criança. Bom. E o sábio Sileno ele tem passagens extraordinárias, passagens de outros carnavais que não são parte dessa história, mas que eu tenho que contar porque a mim me agradam muito. Sábio Sileno, um sábio da floresta, né? É, alguns dizem, filho do deus Pã, Pã de pânico viu? Que vai entrar aqui na história... E o sábio Sileno sempre na floresta, sempre bêbado, sempre né? tal. Da corte de Dioniso. Sábio Sileno, na verdade, foi aquele para quem Zeus entregou a educação do seu filho Dioniso, Baco, percebeu? Quer dizer, não é pouca coisa. Zeus não ia entregar a educação de um filho pra um qualquer, é o sábio Sileno.

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E aí chegam pro sábio Sileno: “Sábio Sileno, o que que a vida tem que ter pra ser boa? ” Aquela coisa, tal: “O que eu faço? ”, aquela, blablabla, não sei quê. Pergunta típica de quem compra livro de autoajuda, assim: “Como é que eu faço? ” E o sábio Sileno: “Pra que você me pergunta aquilo que você já sabe? ” Então o que é... “A única coisa que teria dado jeito é não ter nascido, agora que nasceu fodeu meu amigo, passar bem. ” Né? É. Séculos e séculos e séculos depois Schopenhauer vai começar um livro dizendo: “A vida é dor e sofrimento. ” É Sábio Sileno né? Sábio Sileno. “Há um jeito de minimizar a desgraça: se não ter nascido era o ideal, depois que nasceu viva o menos possível, e claro, o sofrimento será o menor possível. ” Ah! Esse cara tem toda a minha simpatia, assino embaixo, gênero, número e grau, é disso que se trata. Sábio Sileno, show de bola. E o sábio Sileno estava bêbado na floresta e ele foi aprisionado pelos guardas do rei Midas. E aí, claro, prenderam o cara: “Me deixa, blablabla, seu vagabundo, blabla. ”, aquela coisa: “Vem cá! ” E tal. Prenderam o cara, levaram até o rei Midas, quando o rei Midas olha e fala: “Caralho! Olha, velho, o que vocês fizeram. ” Porque você imagina, sábio Sileno preceptor de Dioniso. Dioniso um deus terrível. Dioniso um deus crudelíssimo, um deus violentíssimo, um deus... Prenderam o professor do cara, velho. E o rei Midas, que era uma toupeira: “Solta esse cara já, sua mula. ” “O velho estava bêbado. ” “Foda-se, deixa ele. ” E para compensar a cagada o rei Midas organiza dez dias e dez noites de festa, boca livre, entendeu? Open bar com aquela sueca, como chama aquela vodka coisa transparente, eu sou ruim de bebida, mas de tudo, velho, show de bola. Mandou vim mulherada né? Meninas e tal, encheu ali. Nossa! Dez dias, dez noites bebendo, comendo, etc., orgia mesmo. Aí, claro, sábio Sileno se viu recompensado. Saiu dali foi pra Dioniso: “Pô, rei Midas me tratou bem. ” Então Dioniso vai até o rei Midas: “Queria agradecer pelo tratamento dado ao meu mestre,

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tanto que gostaria de agradecer oferecendo alguma coisa. ” E o rei Midas, espécie de anta em forma de majestade, tem a brilhante ideia de pedir o toque de ouro, quer dizer o quê? “Tudo o que eu vier a tocar converter-se-á em ouro. ” É claro que Dioniso viu a imensa estupidez, mas ele pediu, tome. E aí ele, hehe, né? Criança abobada, pegou um passarinho 'clac' ouro; mão na parede, parede de ouro, pô, o cara... Nossa! Chega em casa cheio de sede, cheio de fome, mandaram servir lá um, uma galinha cabidela, que era muito comum na época, galinha cabidela em outros lugares chama frango ao molho pardo né? Mandaram servir, também serviram um vinho etc. e tal, surpresa: na hora de tomar o vinho era uma espécie de farofa amarela, que ele, uma espécie de linhaça no copo assim, né? Na hora de pegar a coxa da galinha 'crac' né? Quebrou os dentes e tal e rapidamente ele percebeu que tinha feito uma besteira espetacular. Vai até Dioniso: “Piedade, piedade! Me devolva! Voltemos a situação anterior” He he, é, resgate o status quo anterior. E, e eu queria te dizer uma coisa, tudo na mitologia tem essa lógica, né? Todo desvio pressupõe o resgate ao status quo anterior. É a ideia de um quebra cabeça, saiu do lugar, tem que devolver no lugar, recolocar no lugar certo. Essa é a ideia, por quê? Porque tá tudo ordenado, e claro, que o rei Midas pedindo isso desordenava o universo. A preocupação não é com a salvação da alma do rei Midas. Não é uma preocupação de santidade pessoal. É uma preocupação do quê? De sustentabilidade cósmica. Se um cara toca e vira ouro ele converte o orgânico em inorgânico e ele compromete a ordem. No limite, ele pode transformar o universo inteiro em ouro e acabar com a vida né? Já imaginou o sujeito vai fazer xixi 'pruuu' é ouro né? Quer dizer, e ouro complica. Espero que tenha entendido o porquê da importância dessa perspectiva. O rei Midas é um imbecil, ele é concupiscente, mas a preocupação do mito não é com ele, é essa a ideia. O olhar cristão vai dar ao rei Midas uma interpretação cristã: pecador, pecou, vai pagar os

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seus pecados, vai pro inferno, vai não sei o que, vai sofrer porque fez o que não devia ter feito... Nada disso, não é esse o olhar do grego. O grego não se interessa pelo rei enquanto tal se interessa pela proteção de uma ordem que compreende a todos. Eu espero que você tenha entendido que esse paradigma é um paradigma que ressuscita com o ecologismo. Eu não sei se você já parou para pensar né? É, em coisas do tipo: Pô! Um tremendo escândalo por causa de uma árvore que vai tirar do lugar e as pessoas morrendo nas filas dos hospitais. Que tipo de equação é essa? Que tipo de escala de prioridades é essa? Então claro, de certa maneira quando você se incomoda com o equilíbrio cósmico, não é? Você acaba abrindo mão de se preocupar com as individualidades em nome de um funcionamento, propriamente. Em outras palavras, a perspectiva é de uma preocupação processual, né? E não uma preocupação de santidade individual, temos que destacar isso.

As Orelhas de Asno Mas a história do rei Midas não acaba aí. O rei Midas foi para a floresta, resolveu mudar de vida. Aí já vem um outro sacerdote dizer: “Tá vendo ele se arrependeu, agora ele vai ganhar o paraíso, blabla.” Nada disso. Ele não se arrependeu de nada, ele não nada, o problema é que na floresta que estavam os seus amigos, o deus Pã, o sábio Sileno, o pessoal da esbórnia etc. e tal. Então, não é que houve uma conversão estilo Agostinho. Outro dia eu li a comparação do mito do rei Midas com as confissões de Agostinho. É um alucinado, é um alucinado por quê? Porque o paradigma é outro, é óbvio que nada das confissões de Agostinho existia por época do relato de Midas; a comparação é absurda. O rei Midas vai pra floresta porque lhe convinha isso. Ele continuou idiota, ele continuou imbecil como o fim do relato vai né? O fato é que uma ninfa é perseguida. O deus Pã era terrível, ele passava o tempo inteiro

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perseguindo mocinhas para cópulas sem aquiescência da outra parte né? É, era uma figura que gostava disso: beber e fazer sexo com figuras diferentes. E a menina... Porque esses tais de Sileno, Pã e tudo o que representa as forças do caos né? Todos os que representam as forças do caos, são horrorosos, entendeu? A beleza e a feiura são indicativas do tipo de compromisso que um indivíduo tem em relação à ordem cósmica. E o deus Pã é horroroso. Ele persegue e a ninfa prefere se suicidar a se entregar para o deus Pã. Da onde ela morre nasce um arbusto, uma planta, uma espécie de cana e daí o deus Pã faz disto uma flauta. Esta flauta é famosíssima. A flauta do deus Pã vai aparecer num monte de coisas da literatura e da música. Mas isso não nos interessa. O fato é que o deus Pã ele tocava a flauta e a música do deus Pã era representativa do caos. Uma música erótica, sexy, gutural, rouca. Se você quiser uma imagem, não sei se você se lembra de uma cantora chamada Kim Karnes que cantava Betty Davis Eyes. Então, era linda a flauta do deus Pã, mas era um negócio assim, ou então alguma coisa tipo Serge Gainsbourg sabe? Música de mo... “Je t'aime’, aquela coisa né? O cara já tá com a língua, já tá babando, entendeu? É uma música sexual, é uma música, enfim etc. e tal. E o deus Pã saía com a porra da flauta dele tentando pegar algum incauto. E aí então, o deus Pã lançou um desafio: “A minha música é a melhor música do universo. ” E é claro, ele lançou um desafio direto ao seu, previsível competidor, o deus da música: Apolo. Apolo que tocava harpa. É claro, ficou-se sabendo que Apolo tinha sido desafiado pelo deus Pã. Você tá me acompanhando? Você vê que não tem nada de maldade, é, não. Uns são representantes de uma concepção de mundo e os outros são representantes de outra concepção de mundo. Apolo é um deus olimpiano. Apolo toca harpa. A música de Apolo é perfeita, melódica,

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matemática, harmônica, maravilhosa etc. e tal. E a música de Pã, a música da flauta, é gutural, é rústica, é agressiva. É bonita também, mas é de outro naipe. E aí organiza-se um grande festival: Apolo versus Pã. Monta-se um júri e quem é que se mete no júri? Midas. Claro, Midas. Representante lisboeta na mitologia, Midas. Então claro, Pã toca a sua flauta, o pessoal aplaude, legal e tal, mas quando Apolo começa a tocar a sua harpa aquela música é perfeita né? Então, bom, terminou, os júris, os jurados dão as notas e tal e aí todos dão vitória pra Apolo. Menos o nosso herói Midas ‘é nóis, velho!’ Aí ó. Você vê, fidelidade, solidariedade. Viu como você pode problematizar tudo. Ele não era amigo do cara? Ele não do cara? Ele não era do grupo do cara? Ele peitou todo mundo. Você poderia interpretar Midas de maneira superpositiva, ele é 'nóis, velho', não é traidor, não virou a casaca na última hora etc. e tal. – Professor, alguém interpretou isso diferente? Não, só eu estou fazendo. Do caralho, puta valor, porque ele foi contra toda a opinião pública e não é fácil fazer isso; é preciso ser meio “matusquela” para fazer isso. O fato é que ele falou: “Deus Pã,! O Pã ganhou! Pã ganhou! ” He, Apolo, como tudo que é deus, não gostou. Porque, não sei se você reparou, mas deus e democracia tal, não falam a mesma língua. Apolo não gostou e decidiu castigar o rei Midas. Aqui vai uma observação curiosa. Todas às vezes que os deuses castigam alguém na mitologia o castigo tem diretamente a ver com a heresia cometida. E a heresia quer dizer o atentado contra a harmonia do cosmo. Então, quando o rei Midas dá a vitória a Pã, de certa maneira, é um concurso musical, tem a ver com audição, tem a ver com ouvido, tem a ver com orelha, então o que faz Apolo: “Se você deu vitória ao deus Pã é porque você tem orelhas de asno. ” E então, castiga Midas com orelhas de

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asno. Midas disfarça. Pra alguns não é difícil, para outros não há o que fazer, mas pra alguns não é difícil. É, botou lá a cabeleira por cima e tal e seguiu viagem. Mas quando foi cortar o cabelo, ele frequentava o “Jacques Janini” da época, o cabeleireiro: “Permettez-moi majesté... Você tem orelhas de asno? ” E o rei Midas disse: “Presta atenção, malandro! Se alguém ficar sabendo disso eu te escorjarei; eu te desventrarei; eu te arrancarei as bolas pela boca; eu te empalarei em praça pública; eu te...”, bom, enfim. E o tal do barbeiro ficou com aquilo engasgado e preocupadíssimo de se trair e numa espécie de ato falho acabar falando o que ele não podia falar, era um segredo que não poderia ser de forma nenhuma... E aquilo foi angustiando, angustiando e um certo momento esse barbeiro tem uma ideia, ele resolve abrir um buraco na terra e gritar lá dentro: “O rei Midas tem orelhas de asno! O rei Midas tem orelhas de asno! O rei Midas tem orelhas de asno! ”. E aí ele se sulajou né? Ele se livrou daquilo, tampou a porra do buraco e foi embora. Mas aí veio a primavera, o arejamento poroso, uma espécie de “sufflair” da terra, aquilo tudo e aí por todo o reino o vento levava a voz do barbeiro gritando: “O rei Midas tem orelhas de asno! O rei Midas tem orelhas de asno! ” etc. etc. Essa história é uma história fantástica. Por quê? Porque, de certa maneira, essa história em dois momentos, o toque de ouro e o voto para o deus Pã, em dois momentos, essa história permite, a exemplificação de um comportamento desviante, um comportamento excessivo, um comportamento desregrado, um comportamento em desarmonia com a ordem cósmica. E é isso que os gregos chamavam de hybris. Este é o melhor exemplo de hybris, o mais fácil de entender de toda a mitologia. Tá claro até aqui? Show de bola? Nenhum problema? Muito bem.

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Ícaro e Dédalo O segundo exemplo que vale a pena destacar é uma outra epopeia, uma outra alegoria, que no fundo está metida no meio de outras, na verdade, todas essas histórias elas estão um pouco interconectadas, mas a história aqui é a história de Ícaro. Ícaro e Dédalo, seu pai. Dédalo foi expulso de Atenas, não vem ao caso aqui o porquê senão, se a gente começa a puxar o fio a gente não chega nunca. E Dédalo era um cara muito astucioso. No fundo ele era uma espécie de engenheiro, se você preferir, um inventor. Uma espécie de professor Pardal da mitologia. Dédalo quebrava qualquer galho. Dédalo é alguém que você precisa ter na sua casa de campo, entendeu? Dédalo é aquele cara que né: “Pode deixar doutor, eu vou montar um esqueminha que vai dar certo e tal.” Todo mundo tem o Dédalo que merece, assim né? Hehe. Dédalo é esse cara. E ele foi mandado embora, ele... Dédalo tinha esse mérito enorme, mas ele era um pouco invejoso. Ele recebeu um sobrinho, depois acabou matando o sobrinho, foi julgado, foi expulso de Atenas e você sabe que quando você é expulso do seu lugar é foda na perspectiva da mitologia, você sai do seu lugar natural etc., é muito difícil e tal e coisa e tal né? O lugar natural exerce sobre as pessoas que se afastam dele um efeito de imã. Eu gosto muito dessa, dessa imagem né? É, se você imaginar o cachorro né? O cachorro ele sai de casa e enquanto ele não volta pra casa ele, aquela coisa, ele persegue, ele volta, ele coisa... É um pouco essa a ideia né? Então, o lugar natural, tal como em Ulisses e Ítaca né? Enquanto eu não chegar eu não sossego né? O lugar natural e tal. E Dédalo foi expulso de Atenas e isso é uma condenação gravíssima, por quê? Porque isso é o impedimento de uma vida no lugar que lhe é devido. E o fato é que Dédalo vai parar em Creta. E lá tem um rei, Minos, com uma mulher. Essa

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mulher, curiosamente, ela era doida pra dá pra uma espécie de um touro. – Pô, mas esses relatos são picantes! Você fica assistindo Faustão e isso diminui a tua imaginação, né? Depois você vai trabalhar na Nestlé, aprende a respeitar protocolo e tal, então trepar com vaca é uma coisa que não passa pela sua cabeça. Mas houve o tempo que as pessoas eram mais criativas, entendeu, né? E essa mulher era doida e tal. Esse touro era de Poseidon né? E ela queria dá pro touro de qualquer jeito. Aí chegou pro Dédalo e disse: “Você não resolve qualquer parada?” “Madame, é comigo mesmo. ” “Então, eu quero dá pra essa porra desse bicho, mas eu me ofereço e esse bicho...” Aparentemente não é esse tipo de vaca que ele gosta de comer. Nunca dá certo, ele dá “chabu”. E aí então, Dédalo ele resolve o problema da rainha. Ele monta uma vaca artificial. É muito bem bolado isso, cara. Eu tenho grande admiração por essa gente, velho. Por quê? Por que qual é a ideia? Botar a rainha dentro da vaca, porque o cara já não tinha botado soldado dentro do cavalo, por que não botar a rainha dentro da vaca? Aí põe a rainha dentro da vaca, mas de maneira a coincidir a vulva da vaca com a vulva da rainha. Eu penso que isso, eu penso, né? Ela ficava numa espécie de posição de motocross assim, motovelocidade né? Assim, e tal, né? É, não sei bem como acomodar a porra da mulher ali dentro, porque de frente assim, papai e mamãe, não ia dar, pare pra pensar né? Então eu acho que era na posição que eu estou sugerindo, eu assim imagino e tal. E aí o que aconteceu? Aconteceu o que só ia acontecer. O tal do Dédalo era foda mesmo, o touro se deixou enganar pela vaca do Dédalo e comeu a vaca da rainha, tá certo? Muito bem. As consequências disso são previsíveis: o rei não gostou. Sobretudo porque o rebento deste coito, deste idílio amoroso, acabou tendo feições sui generis, um pouco, um pouco humano, um pouco bovino. E aí então, a história avança de maneira a que o rei ponha lá dentro Dédalo e o seu

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filho Ícaro. Lá dentro da onde? Da vaca coisa nenhuma. Isso é o que faria você, figura grosseira. Dentro do labirinto que o próprio Dédalo fez para botar ali o minotauro. E o labirinto é foda, por quê? Porque botado o Dédalo e o Ícaro ali dentro não tinha como sair, nem mesmo o Dédalo sabia sair do labirinto que ele tinha feito. Mas aí, a história é conhecida, o Dédalo tinha solução pra tudo e conseguiu com o que ele encontrou ali pelo labirinto fabricar dois pares de asas e com esses dois pares de asas há possibilidade de sair do labirinto por via aérea. Na hora da decolagem Dédalo adverte o filho: “Preste atenção! Você não voe nem muito baixo, nem muito alto. Muito baixo por causa da umidade, muito alto por causa do sol. Voe comigo. ” E assim se faz e eles saem dali. Só que o sucesso do empreendimento foi de tal ordem que Ícaro resolveu ir além. Eu queria chamar a tua atenção pra isso. Você sabe que uma das concepções de justiça mais conhecidas da filosofia é a de Aristóteles e a justiça de Aristóteles é conhecida como a justiça do meio termo. Não é possível que você não enxergue a influência do pensamento mitológico nesse tipo de afirmação filosófica: nem muito alto, nem muito baixo. Ícaro adotou um procedimento equivocado, excedeu-se, e com isso, claro, suas asas derreteram e Ícaro vem a morrer diante de Dédalo.

Técnica e Ética Vale a pena chamar atenção de uma questão aqui. Há muito pouco tempo eu li num editorial, de um grande jornal aqui, o seguinte comentário: A tecnologia ela avança tão rapidamente que dentro de pouco tempo as preocupações metafísicas de natureza ética, por exemplo, desaparecerão, porque a técnica resolverá todos os problemas do homem dando ao homem aquilo que a metafísica nunca conseguiu que é o bem estar, a felicidade etc. e tal, coisa que talvez até já esteja acontecendo. Assim diz o editorialista.

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Isto quer dizer o quê? Isto quer dizer que o avanço da técnica pressupõe um recuo da reflexão sobre valores. Um recuo sobre o certo ou o errado, o adequado e o inadequado, justo e o injusto, etc. Ora, essa afirmação, que é repetida aos quatro ventos nessa espécie de apologia desenfreada da tecnologia, ela é das mais idiotas que alguém poderia fazer. E eu explico: imagine um indivíduo que tem uma vida simplória, pouca técnica, desses que come o que planta. Perceba que esse indivíduo que tem recursos técnicos acanhados, ele também tem uma vida com poucas alternativas, de tal maneira, que não adianta nada ele pensar em empreender grandes reflexões sobre o certo e sobre o errado, porque de qualquer jeito a vida dele é mais ou menos como a da pera, a única que poderia ser. Então veja que curioso, para uma técnica enxuta uma ética singela. Ética, reflexão para escolher o melhor caminho. Que adianta reflexão se só tem, praticamente, um caminho a percorrer, né? Quem faz essa análise é Fabiano em Vidas Secas: “Que que adianta também eu pensar muito se a minha vida só pode ser do jeito que é? ” Exatamente isso que eu estou dizendo. Agora, é claro, imagine agora um outro cenário: um indivíduo em Nova York, numa megalópole, em São Paulo, um indivíduo com recursos, esse é um indivíduo que a cada segundo tem um milhão de alternativas. E é claro, contrariamente ao que diz o editorialista, o aumento de possibilidades de vida pressupõe uma reflexão ética cada vez mais sofisticada, quer dizer, por exemplo, a internet. O surgimento da internet não elimina a ética, pelo contrário, exige uma reflexão ética sobre um tipo de atividade que se não existisse não haveria a reflexão de valor. Quer dizer, quanto mais técnica mais pensamento ético sobre o que nos convêm e o que não nos convêm, porque acredite, não é toda a técnica que nos convêm ou que convêm a muitos de nós. Então, claro, o Ícaro é muito legal, por quê? Porque a reflexão sobre não voar nem muito

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alto, nem muito baixo, é claro, uma reflexão ética, é uma reflexão de procedimento, é uma reflexão deontológica, não, de dever ser. Você não deve voar nem muito alto, nem muito baixo. Por isso, deontológica, de dever ser. Essa reflexão ética de dever ser só existe, por quê? Porque tem a asa. Então, técnica e ética caminham paralelamente, né? Equivalentemente, correspondentemente. E não quanto mais a técnica surge mais a ética tá dispensada. É rigorosamente o contrário. Ficou claro? E o mito de Ícaro ajuda demais a entender o quanto não é? O desenvolvimento tecnológico contemporâneo não é acompanhado de reflexão ética. Eu posso dizer isso pra minha alegria porque se hoje eu tenho uma demanda por palestra em empresa superior ao que eu posso oferecer e olha, e olha que eu ofereço, né? Eu tenho uma agenda sem fim, né? E a demanda é sempre maior, por quê? Porque quem é que fala sobre ética no mundo do capital. E aí as pessoas dizem: “Ah, tem o professor X, tem o professor Y e parece que tem o professor Z.” Isso na nossa sexta economia do mundo, tá certo? E tecnologia? Aí, aí é uma profusão infinita, têm milhões, têm milhões. Então é claro, existe um descompasso na evolução da técnica e da ética, de tal maneira, que a internet já chegou e não há discussão ética sobre o anonimato da internet; não há nem jurídica, o direito que tem muito mais gente, não acompanha, você imagina a filosofia ética que não tem ninguém, entendeu? É, eu hoje trabalho pra UNESCO refletindo sobre a ética na publicidade pra público infantil. E isso já me toma o tempo inteiro. Então, e o outro? O outro... Acabou. E o resto? O resto não tem ninguém. O resto não tem ninguém. – Professor, o senhor pode dar um parecer? Me ligaram da CBN aqui, dez minutos antes de começar a aula: “O senhor pode falar sobre o mensalão? ” “Não posso, eu vou entrar na aula agora, eu vou falar sobre o mensalão? ” Não tem, né? Não é assim. Um professor quando toma a palavra, falando em nome da Universidade de São

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Paulo, não vai falar no carro né? Na Cidade Jardim: “Pau no cú dos caras e tal!” Não é assim, não é assim. “Eu não posso falar nada sobre isso. ” “Mas o senhor pode indicar alguém? ” E eu: “Claro, posso. ” Eu né? Dei, dei o telefone. “Muito obrigado! ” Por quê? Porque não é fácil encontrar gente que fale sem 'chap chap'... Todo mundo fala sobre o mensalão. Noventa e nove por cento, as mesmas “pataquadas” de sempre. Aquele senso comum rasteiro, aquelas “bobajadas”. Depois, meio por cento são interessados no caso, ideologicamente, e o outro meio por cento é gente que estuda e esses, esses tem horror da mídia, esses estudam, esses sabem que não dá pra explicar tudo o que eles têm pra dizer em trinta segundos, entendeu? Esses não vão pra televisão, esses não tão no “Na Moral” do Pedro Bial, entendeu? Né? O cara não deixa falar né? Não dá tempo para falar, então não vou, já sei que não vou, né? Eu estive aí no programa das mulheres, qual é esse? É, Saia Justa. Obrigado. O cara gravou uma hora comigo sobre vaidade e coisa, o que que entrou? Um minuto e meio, porque eu me saí muito bem, entrou um minuto e meio. Quer dizer, o mais importante que... Claro, e eles cortaram o que eles acharam mais legal e obviamente eu não concordo com a edição de jeito nenhum. Então, eu não entendi muito bem o que eu disse. Aí mostrava lá o Eduardo Moscovis, a Proença, a outra “Babalença” lá olhando assim, falou: “Nossa, o professor é profundo. ” Quer dizer: “Não entendi picas do que ele falou. ” Não sei se você tá me acompanhando. É, desde Ícaro, o que que tá querendo ser dito? Não faça técnica sem ética, não faça. Em outras palavras, não faça asa sem guia de manual de procedimento. Não faça ser sem deontologia. Não faça ser sem dever ser, entendeu? Não faça forno de pizza a laser sem um manual pra explicar como é que faz... Aquilo vai queimar o seu nariz. Não faça... Em outras palavras, existe um descompasso, existe um encantamento desmesurado com a

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técnica que é o mesmo encantamento de Ícaro. É o mesmo, não muda nada. As asas que Dédalo fez pra Ícaro são a parafernália que você compra sem juízo crítico. Por quê? Porque você não tá preparado para julgar criticamente a tecnologia. Sabe por quê? Porque o mundo do capital não tem nenhum interesse nessa preparação. Sabe por quê? Porque o mundo do capital precisa de um consumo acrítico e desenfreado para movimentar a economia e é claro, quem tem juízo crítico, claro, é um consumidor com um pouco mais de consciência e esse, claro, não é o consumidor ideal para movimentar essa parafernália que nós chamamos mercado. Ficou claro? Se ficou claro, fazemos um intervalo. Isso, aplauso no intervalo é uma “chiqueza”, viu?

Eudaimonia Eu estive na Google e o primeiro valor do banner é 'To have fun', jeito ianque de dizer prazer. O prazer é uma referência para a vida. É claro que muitas outras referências para a vida excluem o prazer, inclusive o segundo valor do banner: respeito. Quase sempre quando respeitamos alguém nos privamos de algum tipo de prazer. O respeito é estrábico, um olho sempre mantemos em nós, mas por causa do respeito consideramos o outro na hora de decidir a própria vida. É interessante porque os dois primeiros valores do banner apontam para soluções de vida contraditórias. Quem vive a vida regido pelo prazer, quem vive a vida regida pelo respeito, quase sempre não vivem da mesma maneira. Tudo isso nos remete a uma complexidade e essa complexidade, nós vimos ontem, tem uma proposta de simplificação: a harmonia cósmica. Mas essa harmonia cósmica ela é uma proposta teórica, afinal de contas, alguém que vai agir, escolher o caminho, identificar a melhor trajetória, se for usar a harmonia cósmica vai ter dificuldade para operacionalizar a escolha. É por isso que essa

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harmonia cósmica tem que ter uma tradução em nós. Alguma coisa mais na mão. Alguma coisa mais reconhecível imediatamente. E é por isso que essa harmonia cósmica se deixa traduzir em cada um de nós através daquilo que os gregos chamam de Eudaimonia. A harmonia cósmica é uma situação objetiva praticamente impossível de ser identificada ou mapeada enquanto tal. Por isso todos nós precisamos de um GPS, o GPS da harmonia cósmica. Um indicativo em nós daquilo que nos aproxima ou nos distancia da perfeita colaboração com o cosmo. E a Eudaimonia é isso. Traduzindo em miúdos: quando você encaixa no todo, este encaixe objetivo no todo se converte subjetivamente, afetivamente em Eudaimonia. Eudaimonia, portanto, é alguma coisa que se sente antes de mais nada. Isso nos permite deduzir que para os gregos o homem tem que usar a razão para encontrar o seu lugar. Sem a razão o homem não compensa a fragilidade da sua natureza. Mas o sintoma de que ele está vivendo bem, este sintoma é afetivo. A Eudaimonia, portanto, é um estado de espírito que implica várias coisas: primeiro, potencialidade, em outras palavras, você só vai viver bem se você explorar adequadamente as tuas potencialidades. O cantor que não tem voz erra. O desenhista que não tem habilidade e assim por diante. Mas a potencialidade não basta. Esta situação de Eudaimonia, quer dizer, de excelência vital, esse encantamento com a própria excelência vital, depende também de treinamento. Depende também daquilo que os gregos chamam de dynamis, quer dizer, empenho, tesão, energia, sangue no olho, faca nos dentes, aguerrimento. E aí se você tiver potência, aguerrimento e treinamento é possível que num determinado

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instante você tenha uma performance excelente. Essa performance excelente os gregos chamam de energeia, performance... Energeia não é energia, energia é dynamis, né? Energeia é uma performance excelente e no momento da performance excelente você é um fragmento de eternidade, você está em harmonia com o cosmo, você é Eudaimônico, traduzimos por feliz. Mas é preciso entender que essa felicidade não é qualquer felicidade. Essa felicidade é uma felicidade muito particular. É a felicidade que você sente quando você participa do todo de maneira excelente, explorando da melhor maneira possível as tuas potencialidades. A Eudaimonia não é um prazer frívolo, não é um prazer episódico, não é um prazer circunstancial. A Eudaimonia é um prazer, é um estado de espírito que decorre de uma situação muito bem, muito bem orquestrada, muito bem pelejada, muito bem, muito bem preparada. Eu sou professor há vinte e seis anos. Para tanto eu fiz três graduações, dois mestrados, dois doutorados, uma livre docência, enfim, um pouco eu estudei. Um pouco eu me preparei, mas não bastou. Acredito explorar as potencialidades que são as minhas e como se não bastasse dou aula todo dia. Aí alguém diz: “Pô, do caralho a aula! ” “Pô, meu, não veio do nada. Para chegar aqui a coisa foi mais ou menos, tá certo? O que você tá vendo aqui é uma síntese de uma vida. ” É: “Ah, o senhor dá nó em pingo d’água! ” “Porra, tal seria se não desse né? Fazendo isso, blablabla, alguma coisa tem que sair; também não sei fazer mais nada a não ser isso, mais nada a não ser isso. ” Agora, é claro, têm momentos de excelência, às vezes eu vibro assim. Têm espasmos de excelência e esses espasmos de excelência são Eudaimônicos. É como se o universo me aplaudisse, sabe? É como se o vento ventasse em minha homenagem. A maré mareasse, o sapo sapeasse e eu aqui na minha sala de aula, dando aula, estou fazendo a única coisa que eu poderia fazer. – Professor, por que que o senhor não larga tudo isso pra se candidatar?

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Por quê? Hehe. Por que, né? Então, é nesse sentido que a Eudaimonia é entendida pelos gregos como o bem supremo, o bem supremo. Quer dizer o quê? É o que de melhor podemos sentir. E por que é o que de melhor que podemos sentir? Porque é a sensação que temos quando de melhor podemos viver. Quer dizer, existe uma convicção grega que é a correspondência entre às condições objetivas de vida que você preparou e os afetos que você sente. Quando você vive adequadamente você sente do caralho. Quando você vive em desarmonia você sente ruim, você sente ruim. A Eudaimonia é sentimento bom que decorre de vida bem preparada. Por isso é o bem supremo. Bem supremo quer dizer o máximo que podemos pretender. E é nesse sentido que fica evidente a perspectiva de meios e fins. O que define a Eudaimonia? Não é meio para nada. Por que não é meio para nada? Porque é o fim último, né? Pra que o senhor lê? Para dar aula. Dar aula pra quê? Para blablabla. Para blablabla. Para a Eudaimonia. E aí a Eudaimonia pra quê? É a mesma coisa que perguntar: “Pra que você é feliz? ” Essa pergunta é imbecil. É óbvio que eu sou feliz para nada. A felicidade é perfeitamente inútil. E tudo só é útil para ela. Tá me acompanhando?

Metas As empresas têm suas metas. Os empresários têm suas metas. Sem perceber que essas metas são metas provisórias, de meia pataca, instrumentais. Porque se não levarem à Eudaimonia são fraudes, são fraudes, são fraudes. Tudo o que você faz ou leva à Eudaimonia ou é estratégia fracassada de vida. Então veja, de certa maneira, se a hybris quer dizer desalinhamento cósmico, a Eudaimonia é a consequência afetiva do alinhamento cósmico. Bem supremo, aquilo que você não troca por

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nada né? É claro, que se eu desse aula apenas para ganhar dinheiro eu estou trocando aula por dinheiro, então é porque o dinheiro vale mais do que a aula porque senão eu não trocaria né? Quando me pagam muito pouco, você sabe que, você tem aí uma média de escolas, mesmo privadas, no interior pagando cinco, seis reais a hora/aula. Já que querem saber, já vamos logo... vieram me perguntar aí no corredor, já vamos esclarecendo: cinco, seis reais a hora/aula, a hora/aula, tá certo? Cinco, seis reais a hora/aula. Então, agora você já tá me olhando mais simpaticamente. Então, claro, se alguém me oferece seis reais pra dar uma aula eu não dou. Por quê? Porque não troco a minha aula por seis reais. Agora, se você pega o dinheiro e compra um carro, você trocou o dinheiro pelo carro, porque o carro vale mais do que o dinheiro, aquilo outro, senão você não trocaria. E assim você vai trocando. Agora, tem uma hora que você não troca. Quando você não troca é porque a sua vida é inútil, quer dizer, feliz, certo? Enquanto você tiver no campo da utilidade você é triste, porque a utilidade só tem sentido por conta de outra coisa, fora dela né? Entende o que eu estou querendo dizer? Um colírio é útil para o olho. O colírio não tem utilidade nele mesmo, portanto, o colírio é instrumento. Eu diria, não há felicidade em colírios, porque o colírio é exclusivamente instrumental. Quando é que a vida é feliz? Quando ela não é instrumento para nada, ela já é o fim da linha. Muito bem. É, qual é a diferença desta felicidade para a felicidades contemporâneas à moda de Nietzsche, por exemplo? Há muitas semelhanças e muitas diferenças. Existe uma semelhança evidente entre, por exemplo, o amor fati, o eterno retorno e a Eudaimonia, é que aquele instante

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vale por ele mesmo. É um instante soberano, vale por si só. Não precisa de mais nada para se justificar. A diferença é que Nietzsche já sabia o que os gregos não sabiam. O quê? O universo não é cósmico. Então é claro, se você acha que a felicidade depende de um ajuste numa ordem universal, já sabemos ou pelo menos hoje supomos, que este universo não é ordenado. Portanto, se a felicidade depende, depender de um ajuste cósmico o cosmo não existe. Portanto, fodeu nesse sentido. Quer dizer, para os gregos é como se houvesse uma cadeira cativa, se você tá sentado na fileira certa e na coluna certa, você é feliz, se você estiver sentado fora daquele lugar, você não é feliz. Ora, qual é a proposta? É que este cinema universal ele não tem filas e colunas porque ele é infinito e caótico. Movediço e cambiante. Energias que se devoram, que se engolem, que se mastigam centrípetas e centrífugas, caoticamente. Tem um livro muito legal né? É, de Alexandre Koyré, ele chama: Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. Se você quiser a leitura desse livro te esclarecerá os dois grandes paradigmas da história da humanidade, o paradigma grego e o paradigma moderno. A vida regida por um universo fechado e ordenado e a vida regida por um universo aberto, infinito e caótico. Agora, é perfeitamente possível a felicidade aí nesse segundo caso. E, e Nietzsche dirá: “Viva de tal maneira a desejar a eternidade daquele instante. ” E eu mais modestamente direi: “Viva de tal maneira a desejar que aquele instante dure um pouquinho mais. ” É, o que isso quer dizer? Regra do eterno retorno. Quer dizer simplesmente o seguinte: quer dizer que se você tiver num determinado instante e desejar que aquele instante não acabe, a vida é boa. Se tiver esperando acabar, a vida é uma bosta. E você sabe, noventa e nove por cento estamos esperando acabar. He! Ou você entra no carro e desfruta do trajeto pelo trajeto? Não, você está esperando chegar em casa. Quando chega

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em casa você espera acabar tal programa para começar o outro. Depois você espera a hora de dormir. Depois você espera acordar. Depois você espera... Chega segunda, espera chegar sexta. Chega sexta, espera chegar a segunda. Quer dizer, no fundo você está esperando acabar. Esperando a vida acabar. Quando você não quer que acabe é porque tá vivendo bem. Agora veja que curioso, e é aqui que nós chegamos em Asclépios, né? Quando é que a vida é boa então? É quando você deseja na contramão. Porque, claro, o fluxo vital é esse, o inevitável, no sentido da deterioração. Quando você quer que acabe você está, de certa forma, desejando o que vai acontecer. Quando é que a vida é boa? Quando você deseja o que não vai acontecer. É paradoxal, é fantástico, é fascinante. Quer dizer, a aula vai acabar, quando é que a vida na aula é boa? Quando você quer que não acabe, entendeu? A trepada vai acabar, quando é que a trepada é boa? Quando você gostaria que ela não acabasse. É, quer mais exemplo? O filme argentino vai acabar, mas quando é que a vida é feliz no filme argentino? Quando você gostaria que não acabasse. Em outras palavras, se você for somando aula, filme argentino etc. e tal, quando é que a vida é boa? Quando você gostaria que fosse eterna, que não acabasse. Hehe! Não é, tá certo? E quando é que ela ruim? Quando você tá esperando. É que a gente, é difícil alguém dizer: “Tô esperando a vida acabar. ” É um pouco chocante, embora muito lúcido. É, você diz: “Tô esperando a aula acabar; tô esperando o final de semana acabar; tô esperando o ano acabar...” Isso a gente tolera muito né? “O que você tá fazendo? ” “Ah, não aguento mais esse ano, não vejo a hora de chegar às férias; não vejo a hora de blá blá blá. ” É muito difícil você encontrar alguém e dizer: “Puta, que merda, o dia já tá acabando, cara. Puta tesão de dia né? Que coisa lamentável, eu vou ter que voltar pra casa e dormir. Eu não quero que acabe. Me deixa acordado, me deixa acordado. ” Não é, não é isso que se diz, porque a

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felicidade é rara. Você percebe então que existe uma relação entre felicidade e temporalidade que é uma relação ambígua. Tá perfeito?

O Mito de Asclépios O mito de Asclépios tem a ver com isso. E nós estamos chegando no fim. Eu sinceramente espero que você tenha desejado... Mas é bem essa a ideia: “Professor, se tivesse mais uma aula tal” é porque você foi feliz. Se você estiver falando: “Caralho, ainda faltam quinze minutos, velho, e esse cara ainda vai falar de Asclépios, puta que pariu! Na sexta-feira eu estou com uma puta fome, né velho, esse cara... Reservei a mesa lá em cima, o cara segura até às nove e meia e o palhaço vai engatar agora um tal de Asclépios. Pior que eu vim com a mulher aqui do lado que tá gostando do cara aí e eu tenho que aguentar. ” Precisa ser filósofo para entender isso? Não precisa. – Ah, mas o senhor explicando fica fácil. Eu também acho. Sinceramente, eu também acho. Agora, é claro, Asclépios é filho de Apolo. Mas um filho de Apolo surgido em condições as mais... Apolo se apaixonou por uma mortal. Eu já disse, os deuses tinham particular afeição por mortais. Não que as mortais fossem mais lindas, não, as deusas são deusas, mas as mortais, as mortais sabem fazer mais gostoso, né? E aí, é claro, a mulher que Apolo queria até deu pro Apolo, sabe-se lá em que condições, porque esses caras são meio autoritários. Mas ela gostava mesmo de um outro cara. E aí então Apolo ficou sabendo até por intermédio de um urubu: “Olha, tão fodendo lá, hehehe.” E o que é

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pior, né? A mulher gostava de um cara que é um mortal, um bosta absoluto, entendeu? Cobrador da CMTC. Você chegou com Sotérnimus safra 78, você chegou com Volovan de Faisão etc. e tal e a mulher foi dá na Vila Nhocuné aonde mora o cobrador da CMTC. É mais ou menos isso o que acontece. O Apolo ficou fodido. Primeiro ficou fodido com o urubu que trouxe a notícia, porque sempre o mensageiro se fode. Vai aqui a única lição de autoajuda do curso: nunca dê notícia ruim, não seja burro, deixa outro dá. Por quê? Porque, é claro, quem materializou a tristeza foi quem deu a notícia: “Se não tivesse dado a notícia eu ainda estaria um chifrudo feliz, mas agora não, eu sou um chifrudo puto graças a você. ” Então, o urubu antigamente consta que era brancoe... tudo isso é muito pouco politicamente correto, mas é a mitologia, virou preto, castigo. Ainda vai ser símbolo do Flamengo, que foi o castigo supremo, né? O urubu. Aí o Apolo foi lá e pegou os dois na cama... Apolo era um exímio arqueiro, segundo nas semifinais, perdeu só de um coreano cego, hehe, que ficou em primeiro lugar, hahahahahaha. Que se vai fazer, velho, o campeão de arco e flecha é cego. E o fato é que Apolo matou os dois. Uma flechada só, eles estavam fazendo papai e mamãe 'fiouuu' entrou por trás do amante e entrou por dentro... Não, eu gosto de dar os detalhes porque eu sou um estudioso. E matou os dois. Muito bem. Ocorre que quem morre ali tem que ser queimado e ainda põe umas moedas no olho para pagar o deus lá do rio lá debaixo e tal, e aí tudo isso nada importa. O fato é que na hora que Apolo vai, a mulher começa a queimar ele vê que tem um filho dele ali dentro, então, ele tira o filho de dentro da mulher morta em vias de cremação. É mais ou menos essa a situação em que nasce o tal do Asclépios. Então, ele já nasce sob o estigma da ressurreição, ele já meio que nasceu na berlinda, meio do caminho.

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E qual era a graça desse Asclépios? Ajudado por Atena ele tinha um dom de ressuscitar. Bom, qual é a graça disso? Hades, que controla os mortos, né? O xerife do necrotério, Hades vira, bateu na porta de Zeus e falou: “Tem um viado aí que não deixa ninguém morrer e eu estou perdendo a clientela, cada um que passa lá tem que me pagar um tanto e agora ninguém mais morre, porque esse palhaço não deixa ninguém morrer.” Então, Zeus pune Asclépios, fulmina, na verdade, Asclépios, porque esses caras não tem meios termos é coisa meio grosseira. Mas qual é, o que que importa dessa história? O que importa dessa história é entender a eternidade como uma blasfêmia. E, portanto, entender a finitude como um pré-requisito da harmonia cósmica. Sem a finitude as gerações não se seguem. Sem a finitude há um entupimento. Sem a finitude filhos se confundem com os pais. Sem a finitude não há sequência generacional. Sem a finitude blasfema-se contra a ordem cósmica. Portanto, perceba, a vida que temos que aceitar é uma vida finita. Mas é aqui que nós chegamos no ponto interessante. A felicidade é o desejo da eternidade do instante. E essa eternidade do instante desejada nada tem a ver com o viver para sempre. Essa eternidade a que eu estou me referindo não é a eternidade cristã. Quando Calipso propõe a Ulisses uma vida eterna na juventude, se você me permitir, Calipso antecipa o cristianismo, é isso que o cristianismo propõe, ressurreição com corpo e alma, vida eterna com quem você ama tá? Só pegar o apocalipse e é assim. Então, é uma antecipação da proposta cristã. O que nós estamos dizendo é o seguinte: é que é óbvio que você vai morrer e aceitar essa finitude é condição de uma vida boa, portanto, a felicidade é uma situação ambígua de desejar a eternidade do instante sabendo-se finito. É exatamente deste ponto que Platão vai definir Eros no Banquete. Como é que Platão define Eros no Banquete? Amar, né? Eros é desejar e o desejo é a falta. A felicidade é o desejo de uma

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eternidade que não virá. A felicidade é o desejo de um “esticamento” da vida que não encontra abrigo na objetividade dos segundos e dos minutos. A felicidade é uma intenção de resistência contra o fluxo vital. A felicidade é, portanto, uma valorização dos instantes de vida e os instantes de vida só podem ter valor se eles forem raros. A finitude é a condição desta valorização. Então, existe alguma coisa de muito paradoxal e muito fascinante nessa reflexão, porque você é feliz na sala de aula e na minha aula quando você deseja que a aula dure um pouco mais. Quando você deseja assistir uma outra aula. Quando você deseja ser meu aluno para sempre. Quando você deseja me abraçar no final do curso. Quando você deseja me mostrar na internet pra alguém que você ama. Quando você deseja, em suma, repetir, manter, conservar, esticar, prolongar, fazer durar, tudo isso, tudo isso é só o que você quer e como tudo o que você quer ou deseja é o que você não terá. Portanto, existe na felicidade uma perspectiva necessária de falta e não, como se costuma pensar, de satisfação plena e permanente. Ficou claro? Tendo ficado claro eu só posso nesse instante dizer que os três últimos dias foram especiais. Muitos daqui eu não conhecia e agradeço pela presença e pelo prestígio. Muitos eu já conhecia e agradeço pela fidelidade. Tomara que a gente volte a se encontrar para falar dessas ou outras coisas. Gostaria de lhes fazer duas lembranças: a primeira, essas três aulas, absolutamente repetíveis, virginais, únicas, elas estão à disposição na sua perspectiva sonora na internet, gravadas que estão sendo por esses aparatos diabólicos, no site www.espacoetica.com.br, lembre-se, espacoetica.com.br, essa é a primeira observação. Alguém não veio ontem por conta de motocas, então, ainda há esta possibilidade. Baixe isso, deixe gravado num pen drive, compre um aparato, isso não vai ser problema pra você, ponha na cabeceira da cama, deixe o cônjuge ter o seu sono tranquilo e você fique me ouvindo e lembrando

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Curso: Mitologia Professor: Clóvis de Barros Filho Número de aulas: 3

Aula 3: A Filosofia e os Mitos Páginas: 31

dos momentos augustos que você teve aqui. Muito obrigado e até a próxima se Deus quiser!

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A filosofia dos mitos, aula 3 os mitos e as virtudes do homem