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P.22 / PEDAGÓGICO Saiba como aplicar as dez competências da BNCC

UMA PUBLICAÇÃO DO SINEPE/RS Nº 132 /// ANO XXII /// MAIO-JUNHO 2019

RELAÇÃO ESCOLA-FAMÍLIA NOS AMBIENTES DIGITAIS

P.28 / INTERNACIONAL Reino Unido: autonomia para brasileiro ver


PREOCUPADO EM ACOMPANHAR A EVOLUÇÃO DO ENSINO? VÁ NA CERTEZA SISTEMA ETAPA O Grupo Etapa dedica-se 100% à educação há 50 anos. É líder em premiações em olimpíadas culturais e aprovações em universidades internacionais. Toda essa experiência pode ser levada para a sua escola por meio do Sistema Etapa. Desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, nosso material didático é desenvolvido e atualizado por uma equipe de professores rigorosamente selecionados e preparados, com ampla vivência escolar. Além disso, é produzido em editora e gráfica próprias, o que garante sua entrega antecipada às escolas. Ligue para 0800 727 8080 ou acesse sistemaetapa.com.br e conheça o sistema educacional que vai ajudar a sua instituição a atingir um patamar ainda mais alto.


4 /// COMEÇO DE CONVERSA

Grupos de pais no WhatsApp: problema ou oportunidade?

dele não podemos tirar boas lições? Laços fortalecidos com as famílias auxiliam não só no bom relacionamento, mas também ajudam a identificar e tratar problemas mais sérios envolvendo crianças e adolescentes, como bullying e depressão, que podem levar ao suicídio. O tema é ácido e difícil de ser tratado, mas deve ser discutido no ambiente escolar. Para orientar as

CARINE FERNANDES

instituições, conversamos com a psiquiatra do Hospital

Editora da Educação em Revista

Santa Ana Simone Saurin, na seção ‘Com a Palavra’. Outro tema em destaque nesta edição são as 10

Começamos a produção desta edição com um objetivo

competências gerais da Base Nacional Comum Curricular

claro: discutir, na reportagem de capa, a relação entre escola

(BNCC) que devem ser implementadas no currículo já no

e família diante de novas configurações sociais, econômicas

próximo ano e que precisam estar “na ponta da língua” dos

e tecnológicas. Mas, na reunião de pauta realizada em Santa

professores e das instituições.

Rosa, deparamo-nos com a necessidade de trazer como

A Revista de maio também leva os leitores para a Inglaterra

ênfase principal da reportagem um problema que parece ser

sem sair da instituição. Na seção ‘Internacional’, mostramos

unânime em todas as instituições: os conflitos entre escola e

como é o sistema de ensino do Reino Unido, e quais as

família a partir dos grupos de pais no WhatsApp. Se não há

similaridades do currículo de lá com a proposta da BNCC.

como evitar o uso dessas ferramentas, como tirar proveito

Ótima leitura!

delas? A primeira lição que se pode aprender é que, embora as tecnologias estejam aí para facilitar a comunicação, nada substitui o olho no olho, e as instituições devem investir cada vez mais em espaços de aproximação e relacionamento com os pais ou responsáveis para que possam se conhecer mais e alinhar as expectativas. E por que não romper também com a ideia de que o conflito é negativo? Será que

A partir desta edição, os conteúdos online terão um QR Code para facilitar o acesso no ambiente digital. Nos telefones com sistema operacional iOS e em alguns aparelhos Android, a leitura do código pode ser feita diretamente da câmera do celular. Caso esse recurso não esteja disponível no seu celular, é preciso baixar um aplicativo para fazer a leitura.

/// EXPEDIENTE EDIÇÃO: Carine Fernandes. Produção: Carine Fernandes (MTB 15449) e Patrícia Gastmann (MTB 15336). Reportagens: Carine Fernandes, Vívian Gamba (MTB 9383) e Padrinho Conteúdo. Infográficos: Hermes Moura. Produção da capa: Luciana Moriguchi Jeckel Lampugnani. Foto da capa: Depositphotos.com. Diagramação: Prya Estúdio de Comunicação. Revisão: Rosane Vargas e Milton Gehrke. Parecerista do artigo científico: João Batista Siqueira Harres. Conselho Editorial: Osvino Toillier, Hilário Bassotto, Flávio D’Almeida Reis, Mônica Timm de Carvalho, Naime Pigatto, Raquel Boechat, Ruy Carlos Ostermann, Ângela Ravazzolo, Rosângela Florczak e Gustavo Borba. Antenas: Adriana Gandin, Alfredo Fedrizzi, Caio Dibi, Crismeri Corrêa, Fernando Becker, José Moran, Laura Dalla Zen, Márcia Beck Terres e Mauro Mitio Yuki. DIRETORIA: Presidente: Bruno Eizerik, 1º Vice-Presidente: Osvino Toillier, 2º Vice-Presidente: Oswaldo Dalpiaz, 1º Secretário: Marícia da Silva Ferri, 2º Secretário: Iron Augusto Müller, 1º Tesoureiro: Hilário Bassotto, 2º Tesoureiro: João Olide Costenaro. Suplentes: Maria Helena Rodrigues Lobato, Ruben Werner Goldmeyer, Joacir Della Giustina, Laura Coradini Frantz, Nestor Raschen, Jacinta Maria Rothe, Carlos Roberto Milioli. CONSELHO FISCAL: Titulares: Ademar Joenck, Inacir Pederiva, Cátia Teresinha Lange. Suplentes: Isaura Paviani, Maria Angelina Enzweiler, Guilherme Kühne. EQUIPE: Direção: Milton Léo Gehrke. Assessoria pedagógica: Naime Pigatto e Claudete Chiarello. Centro de Desenvolvimento em Gestão (CDG): Vera Lúcia Corrêa. Assessoria de Comunicação e Marketing: Luciana Moriguchi Jeckel Lampugnani, Carine Fernandes, Eduardo Oliveira, Tamara Stucky, Hermes Moura e Bruno Pinheiro. Financeiro: Matheus Philippi. Secretaria: Jaqueline Maria Rodrigues da Rosa e Suelen Schroeder Ferreira. Recepção: Emília Pires e Joana Reni Vielhuber. Serviços Gerais: Ereni Souza da Silva e Naira Elizabetti Real. FALE CONOSCO – Redação: Cartas, comentários, sugestões, matérias – educacaoemrevista@sinepe-rs.org.br. Comercial: Anúncios e assinaturas – comercial@sinepe-rs.org.br. Informações: Telefone (51) 3213.9090 e www.educacaoemrevista.com.br. ISSN: 1806-7123 A Educação em Revista não se responsabiliza por ideias e conceitos emitidos em artigos ou matérias assinadas, que expressam o pensamento dos respectivos autores.


SUMÁRIO /// 5

06

22

CAPA

PEDAGÓGICO

Ambientes digitais e a relação escola-família

Saiba como aplicar as dez competências gerais da BNCC

38 18 GESTÃO Invista mais na retenção de alunos e menos na prospecção

DIVERSIDADE Como identificar alunos com transtorno de aprendizagem

28 INTERNACIONAL Educação no Reino Unido: autonomia para brasileiro ver EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


6 /// CAPA

AMBIENTES DIGITAIS E A RELAÇÃO ESCOLA-FAMÍLIA POR VÍVIAN GAMBA


7

E

scolas mudaram, famílias mudaram. O objetivo continua o mesmo: prover a educação. A responsabilidade, por vezes confusa – sobre até onde vai o papel da família e

onde começa o da escola –, continua em pauta. E novos espaços

“Ouvir os pais que questionam é tão importante quanto ouvir os pais que apoiam a escola”, Cleusa Scroferneker

de conversas e discussões passam a compor e tornar esse cenário mais complexo: os grupos de WhatsApp e outras mídias

questões transversais, até pessoais, entram em pauta, tirando

digitais. Como fazer a gestão de tudo isso?

o objetivo principal (do grupo) – a resolução de problemas,

Redes sociais e grupos de comunicação têm sido aclamados

situações que demandam auxílio dos pais, por exemplo –, e

como facilitadores dos debates, inclusive no ambiente escolar.

acabam gerando agressões desnecessárias.” Além disso, a

WhatsApp, Facebook, Instagram, Twitter, assim como as demais

professora alerta para o risco de estas atitudes de ódio e raiva

mídias, são espaços de interlocução, trocas e compartilhamento.

interferirem nas relações dos seus filhos com os colegas de

E, sob essa perspectiva, podem ser tanto facilitadores quanto

escola. O mesmo grupo criado para agilizar a comunicação pode,

geradores de problemas, aponta a doutora em Ciências da

nesse caso, ser um disseminador de problemas.

Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da USP e

Muitos dos debates dos pais nas redes, por exemplo, são

professora titular da Escola de Comunicação, Artes e Design da

de questões pontuais que poderiam ser resolvidas fora de

Pucrs Cleusa Scroferneker. “Trata-se dos objetivos e das pessoas

uma reunião formal, numa breve conversa com o professor,

que estão envolvidas nos grupos, da abordagem dos temas, da

aquelas na porta da sala de aula. No grupo, podem ganhar

linguagem utilizada. Temos muita dificuldade em aceitar o que o

novos contornos e ter sua proporção superdimensionada. A

outro pensa, em respeitar uma opinião divergente. Muitas vezes,

coordenadora do Núcleo de Apoio Psicopedagógico (NAP) do

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


8 /// CAPA

UniRitter e docente do curso de Psicologia, Vanessa Andina Teixeira, sugere que a escola possa criar parcerias com as famílias nas quais os pais se sintam mais apoiados pela instituição do que pelos outros pais em grupos de WhatsApp. “Por vezes, quando os pais tentam uma aproximação com a

“Por vezes, quando os pais tentam uma aproximação com a escola, há uma série de empecilhos que acabam por afastá-los”, Vanessa Andina Teixeira

escola, há uma série de empecilhos – como fazer atendimento apenas em horário comercial – que acabam por afastá-los desse

dificuldade de entender que o conflito não é algo negativo. Os

ambiente, favorecendo que outras redes de apoio surjam. Os

questionamentos às vezes nos levam a ver situações que não

pais devem sentir que a escola é um ambiente amistoso, e não

tínhamos percebido, a tomar decisões (antes impensadas).”

apenas o lugar onde mais cobranças lhes são feitas.” A Sociedade Educacional Monteiro Lobato, de Porto

Para o professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisinos e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas

Alegre, fez do limão uma limonada e usou novas mídias

em Sociologia da Educação (GEPSE/Unisinos/CNPQ),

para institucionalizar a reunião virtual. Para a diretora de

Rodrigo Manoel Dias da Silva, as redes sociais e os grupos de

projetos, Flávia Eizerik, uma fórmula simples, que poupa

comunicação criados em aplicativos para smartphone são

tempo dos pais e permite que a reunião ocorra para cada

ferramentas contemporâneas de comunicação que não podem

um no melhor horário. “Nas reuniões presenciais, tínhamos

ser descartadas na relação escola-famílias, ou entre famílias ou

entre 20% e 25% de participação dos responsáveis, enquanto

pais de estudantes; contudo, não substituem a presença dos pais

na reunião virtual o percentual passa dos 50%.” Pelo que os

na escola, em atitude respeitosa e de diálogo com todos.

números indicam, a alternativa foi bem recebida pelos pais. A coordenação continua aberta àqueles que desejarem um encontro presencial, ela enfatiza, mas, neste ano, por ora, apenas um responsável fez uso desse recurso. Se a escola opta por ter um espaço oficial nessas novas

Expectativas x entrega Independentemente dos contextos em que cada grupo familiar esteja inserido, quando os filhos frequentam a escola é natural que haja dificuldades nessa relação, pois a família

mídias, Cleusa coloca que é importante deixar claro quais os

muitas vezes espera da instituição um cuidado que ela

temas que serão tratados, rechaçando qualquer outro assunto.

própria tem dificuldade de atender, argumenta Vanessa. “Na

“Tem que ter clareza, se a escola entende que é um espaço

maioria das vezes, observo que tanto a família como a escola

que interessa a ela para interagir com os pais ou até mesmo

ficam tentando sinalizar uma à outra suas responsabilidades,

com alunos”, afirma Cleusa. E mais: é preciso considerar

mas, sobrecarregadas e superexigidas, acabam mais se

que todos são pais. “Ouvir os pais que questionam é tão

esperando do que se ajudando. Por outro lado, vejo interesse

importante quanto ouvir os pais que apoiam a escola. Temos

de ambas em contribuir na construção de cidadãos capazes de lidar com o mundo por meio de valores sólidos.”

DIVULGAÇÃO COLÉGIO NOSSA SENHORA DO BRASIL

Em relação ao que é responsabilidade dos pais e da escola, uma discussão recorrente, a professora ressalta a importância do acordo entre família e instituição de ensino, desde o princípio. Entender a cultura e o projeto pedagógico da escola é fundamental. Afinal, há propostas diversas, que atendem a expectativas bastante diferentes. E se os pais elegem uma instituição, parte-se do pressuposto de que estão alinhados com aquela forma de trabalho. “Entendo que escola e pais não estão em lados opostos. Se estou questionando tanto a escola, será que é essa a escola que eu quero para o meu filho?”, questiona Cleusa. Vale, então, fazer /// Escolas devem criar espaços para conhecer mais as famílias

essa pergunta antes de realizar um levante no grupo de pais.


10 /// CAPA

De qualquer forma, o conflito é inevitável. No entanto, nem sempre é algo ruim. A docente da Pucrs coloca que as pessoas, de forma geral, foram educadas para saber que o conflito deve ser abolido. Mas a escola tem que andar na contramão dessa ideia. “A própria escola deveria ser o espaço que estimula o

“Escola e pais não estão em lados opostos. Se estou questionando tanto a escola, será que é essa a escola que eu quero para o meu filho?”, Cleusa Scroferneker.

diálogo. Se ela não entender assim, vamos ter que entender que escola é essa”, afirma Cleusa. Ela acredita que as instituições

‘Guia de Segurança e Ética Digital’. Ambos os documentos foram

de ensino precisam assumir o papel de mediadoras de relações

criados em conjunto por estudantes, educadores e representantes

e o compromisso de ter cidadãos críticos. A própria gestão,

das famílias do colégio. As dicas vão desde o cuidado com a

mostrar coerência entre o que a escola oferece, o que diz e o que

veracidade das publicações, o respeito às leis e a proteção em

faz e oportunizar o diálogo. “Claro que a tecnologia é positiva,

relação a informações pessoais e senhas até o comportamento

mas talvez a escola precise ouvir mais presencialmente, fazer

adequado nos grupos de WhatsApp. Há seções específicas para

uma escuta ativa, face a face, que se perdeu um pouco. Com

estudantes e pais em relação ao uso das redes e, uma especial, de

pais, para ouvir o que estão pensando e aceitar o que dizem.

cuidados parentais, lembrando, entre outras coisas, que os pais

Com os professores, para saber o que estão ouvindo, sentindo

são referência e exemplo para os filhos – na vida e nas redes.

e percebendo em sala de aula. Se estou dizendo que o diálogo é importante, é melhor que eu o exercite” A conscientização sobre o bom uso dessas novas mídias foi

Dias da Silva fala sobre a importância de as escolas manterem fóruns, grupos de reflexão ou pesquisas contextuais a fim de, efetivamente, conhecerem sua comunidade. “Estudos em

um dos caminhos encontrados pelo Colégio Farroupilha, de Porto

Sociologia da Educação têm demonstrado que escola e famílias se

Alegre, para manter relações saudáveis no ambiente escolar. Além

conhecem muito pouco, falam ‘línguas’ muito diferentes. Conhecer

do ‘Código de Conduta e Convivência’, a instituição conta com um

a comunidade, respeitando suas particularidades e apostando em sua produtividade pedagógica, é indispensável.” O professor coloca que atividades comuns, de diálogo amplo e formativo, abertas a toda a comunidade escolar, fortalecem o senso de pertença, de vínculo, de responsabilidade e de respeito mútuo.

Aos estudantes: • Ao enviar e receber conteúdos, proteja a sua imagem e não exponha a do outro. • Desconfie de mensagens que peçam para acessar arquivos e links. • Procure não divulgar informações pessoais. • Não compartilhe suas senhas com terceiros. • Liberdade de expressão requer responsabilidade.

Aos pais: • Aplique o princípio da não exposição, de si e do outro. • Trate situações que envolvam seus filhos em espaços reservados. • Somente poste fotos de outras crianças e adolescentes que não os seus filhos com a autorização do responsável legal. • Evite realizar75 check-in e postar imagens que demonstrem suas rotinas e de sua família. 250 450 • Todos são responsáveis legalmente pelos conteúdos postados, por ação e/ou omissão.

A informalidade pode ser uma alternativa. Como diz Cleusa, os coffebreaks dos eventos existem para que ocorram momentos de troca. “Esses espaços são muito favoráveis à construção de relações saudáveis. Em reuniões, todos já vêm armados. Nessa informalidade (poderiam ser as conversas ocasionais, de corredor, no trânsito dos pais?), pode-se estimular muito o fortalecimento desse ambiente mais saudável.” A pauta desta reportagem foi construída em reunião realizada na Regional Noroeste, na Fema, em Santa Rosa, e contou com a participação dos seguintes educadores: Antônio Roberto Ternes, Daniela Balkau e Regina Arend (Fema), Jéssica Rigon e Wilson Hint (Centro Tecnológico Frederico Jorge Logemann), Adriana Riedel e Angela Hofmeister Mateus (Colégio Dom Bosco), Adriana Marks e Dinara Ehlert (Instituto Sinodal da Paz), Renati Chitolina (Setrem), Cristiane Raquel Machado (Colégio Cnec Sepé Tiarajú), Roseléia Schneider (Faculdade Cnec Santo Ângelo). CONTEÚDO ONLINE DISPONÍVEL

Dicas construídas a partir do ‘Guia de Segurança e Ética Digital’, do Colégio Farroupilha

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12 /// COM A PALAVRA

FOTOS CARINE FERNANDES

Suicídio: é preciso falar sobre o assunto POR CARINE FERNANDES

O

tema suicídio é permeado por tabus, preconceitos e falta de entendimento sobre os reais motivos que estão por trás de quem tira a própria vida. E

tratando-se de crianças e adolescentes, o assunto torna-

se ainda mais difícil. Mas, para a médica, especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência, Simone Cristina Saurim, o tema precisa ser discutido no ambiente escolar. Isso porque a escola pode ser um agente facilitador para identificar o aluno em sofrimento psíquico e auxiliar na

como a busca de si mesmo e da identidade, a separação

procura por ajuda especializada. Da mesma forma, é

progressiva dos pais, a vinculação ao grupo, a evolução

ambiente propício para fortalecimento de vínculos e convívio

da sexualidade, a atitude social reivindicatória, variações

com o grupo, um dos fatores protetores contra o suicídio.

frequentes do humor e contradições sucessivas. Além

Nesta entrevista concedida à Educação em Revista, a médica,

desses, há os comportamentos de risco que se originam da

que atua na Unidade de Adolescentes e na Unidade de

necessidade de experimentar o novo e desafiar o perigo.

Dependência Química Feminina do Hospital Santa Ana, em Porto Alegre, explica o que está por trás do problema e traz

Uma pesquisa feita nos Estados Unidos concluiu que

dicas de como a escola pode enfrentá-lo. Confira:

adolescentes que passam mais tempo no computador ou no smartphone têm mais propensão a relatar problemas de

Educação em Revista – Nos últimos cinco anos, a

saúde mental. Essa “conexão” exagerada às novas mídias

incidência de suicídio entre jovens de 12 a 25 anos teve um

pode ser o gatilho ou influenciar o suicídio? Por quê?

salto de quase 40%. Quais podem ser as causas que levam

Sim, estudos recentes têm demonstrado que adolescentes

esses jovens a buscar o fim da vida?

que passam muitas horas usando computadores, tablets e

Simone Cristina Saurim – O suicídio é considerado um

smartphones têm maior probabilidade de apresentar quadros

problema importante de saúde pública que tem ganhado

de depressão e comportamento suicida. Por trás do “vício em

espaço na mídia e uma crescente produção acadêmica. Os

telas” se escondem, na maioria dos casos, carências pessoais

elevados números de suicídio em adolescentes podem ser

ou problemas de autoestima – que podem estar associados

explicados, em parte, pelas dificuldades de muitos jovens

a conflitos familiares, bullying, luto pela morte de um ente

para enfrentar demandas sociais e psicológicas inerentes

querido e outros fatores de sofrimento. Tudo isso pode levar o

a esse período, que é marcado pela aquisição de novas

jovem a buscar refúgio na tecnologia, e a consequência acaba

habilidades e desafios. Também existem vários componentes

sendo o isolamento, que o afasta do convívio com o grupo e

físicos e psicossociais neste processo de transformação,

com a família, que são dois fatores protetores contra o suicídio.


13 As escolas também têm registrado o aumento de casos de automutilação, inclusive feitas no ambiente escolar. Como a instituição deve lidar com esses casos e dar o apoio adequado à família? Como identificar que um aluno

“É importante que as instituições ofereçam um espaço de fala e escuta a estes sujeitos em sofrimento”

está se automutilando? A automutilação é uma forma disfuncional de enfrentar situações-problema, praticada por indivíduos que possuem

influenciam os comportamentos, modos de ser e pensar que

poucas estratégias de enfrentamento, dificuldade para regular

caracterizam o adolescente, fazendo-se uso de uma linguagem

o afeto e limitada habilidade de resolução de conflitos. Alguns

próxima com o adolescente. Outro ponto importante é oferecer

sinais físicos podem ajudar a identificar essa situação, como

um espaço de fala e escuta a estes sujeitos em sofrimento,

presença de cicatrizes ou cortes, manchas de sangue nas

o que possibilitará que eles expressem suas formas de

vestimentas, roupas inadequadas para o ambiente, posse

ver e dizer como se sentem e pensam, proporcionando o

de objetos cortantes ou pontiagudos, entre outros. Os

compartilhamento de experiências, sem que precisem recorrer

sinais emocionais frequentemente envolvem dificuldade ou

à automutilação para expressar seus afetos.

incapacidade de lidar com emoções, medo exacerbado, raiva, ansiedade, depressão ou isolamento social ou mesmo registros

Muitas crianças e jovens que passam por problemas

escritos sobre temas como tristeza, sofrimento ou danos físicos.

emocionais ou doenças como depressão não encontram

Algo primordial para ajudar as instituições a lidar com o tema é

na família o suporte adequado. Como deve ser a atuação

conhecer as configurações atuais existentes na sociedade que

da escola nesses casos?

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


14 /// COM A PALAVRA

Os adolescentes deprimidos costumam apresentar desinteresse, oscilações de emoções e sintomas de angústia e de ansiedade, assim como sintomas cognitivos, como diminuição de energia, falhas na memória e na concentração. A instituição escolar pode ser um agente facilitador, que poderá identificar o adolescente em sofrimento psíquico e, assim, auxiliar os responsáveis na procura de ajuda especializada ou, nos casos mais leves, direcionar o adolescente para um espaço de escuta e fala dentro da própria escola. Para que isso ocorra, a escola deve promover espaços de treinamento e aprendizado para seus profissionais, permitindo que eles tenham um bom entendimento dos processos do desenvolvimento emocional e biológico das diferentes idades e que possam desenvolver um olhar compreensivo e acolhedor com o adolescente em sofrimento, já que a carência de conhecimento sobre a depressão acaba contribuindo para o agravamento da saúde do adolescente. E como a escola pode tratar da prevenção? No Rio Grande do Sul, muitas instituições de ensino realizam programas de valorização da vida e de prevenção à violência. O que mais pode ser feito?

treinamento técnico, mas também pelo fato de a tentativa

Uma das principais estratégias para atuar de maneira

de suicídio, provavelmente, acionar sentimentos, crenças e

preventiva diante dos comportamentos suicidas é estar

valores pessoais que os deixem receosos e confusos. Nesse

ciente e alerta para os fatores de risco e de proteção

sentido, é importante, além de instrumentalizar teoricamente

associados. A escola pode ter a importante função de

esses profissionais para a intervenção nesses casos,

favorecer os fatores protetores, como o fortalecimento de

fornecer-lhes também espaços de discussão sobre esse

vínculos, busca de propósitos para a própria vida e a criação

assunto tabu, a fim de aumentar a clareza sobre o tema.

de espaços acessíveis de fala e escuta. Também cabe à escola reconhecer os fatores de risco, como presença de

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que

transtornos mentais, situação de vulnerabilidade psíquica e

deve orientar os currículos escolares a partir do próximo

social, uso de drogas lícitas, entre outros.

ano, tem uma grande ênfase no trabalho com as habilidades

Devido a tabus e preconceitos relacionados ao tema do

socioemocionais. Esse pode ser um caminho para auxiliarmos

suicídio, muitos profissionais podem sentir-se despreparados

crianças e jovens a lidar melhor com suas emoções?

para lidar com o assunto, não apenas devido à falta de

Podemos pensar que a escola é um microcosmo da sociedade, e, sendo assim, funciona como uma importante ferramenta para ajudar o adolescente a preparar-se para as

“A ênfase na promoção das habilidades socioemocionais é um dos fatores protetores mais importantes na prevenção de comportamentos suicidas”

situações que irá enfrentar ao longo de sua vida. Sendo assim, a ênfase na promoção das habilidades socioemocionais é de grande importância para a formação dos jovens e um dos mais importantes fatores protetores na prevenção de comportamentos suicidas e de automutilação.


ENTRE ASPAS /// 15

Do bullying à loucura: desafios para as escolas

“O

de “inteligência terapêutica” que mapeie todos os recursos existentes na comunidade local e na sociedade mais ampla. Um primeiro mapeamento é o dos problemas mais comuns e, entre esses, está o modo como filhos são afetados pelo alcoolismo parental (transtorno subdiagnosticado pelos próprios médicos, segundo levantamento de especialistas). Muitas crianças com déficit de atenção e hiperatividade têm, na verdade, ansiedades decorrentes de alguma forma de dependência química dos pais.

bsessão por games, abandono dos pais e bullying

Além dos Alcoólicos Anônimos (AA), há um grupo

marcaram a vida de atirador”, diz matéria sobre a

de entreajuda específico para familiares, o Al-Anon, e

tragédia de Suzano (SP), onde dois jovens mataram

também o Al-a-teen, para os filhos, pois geralmente o

oito pessoas e se mataram. Sequer usavam drogas, segundo

alcoolista não quer se tratar, e a família tem de buscar

a reportagem que ouviu familiares, que não imaginavam a

ajuda para si própria. Esses grupos, incluindo o Narcóticos

possibilidade de comportamento violento.

Anônimos (para outras dependências químicas), são todos

O enfrentamento do bullying nas escolas é indispensável, mas outro fator é mais difícil de resolver:

gratuitos e muito úteis na prática. Indo além do SUS, no qual psiquiatras se restringem

a desestruturação familiar, com jovens fruto de relações

à medicação, há clínicas com atendimentos acessíveis

eventuais, que não são criados pelos pais, mas por avós

(“conforme a renda”) com psicólogos e psiquiatras. Há

ou outros parentes. Por mais amorosos que sejam esses

instituições dedicadas à terapia de família, associadas à

familiares, ao desempenhar papéis de mãe e pai, eles não

Associação Gaúcha de Terapia Familiar (Agatef). E ainda,

podem impedir conflitos emocionais introjetados pelas

dentro da cultura de cada região, há diversos tipos de

crianças, fruto da rejeição dos genitores. Quando vêm a

religiões que fornecem algum tipo de apoio a essas famílias.

sofrer bullying na escola, o que pode ser muito violento

Criar “mapas de inteligência” reunindo todos os “recursos

psicologicamente, sentimentos de rejeição inconscientes,

da comunidade” pode ajudar as escolas a enfrentar essa

traumas do passado podem vir à tona e desestruturar o ego

difícil realidade, compreendendo que não há uma verdade

frágil desses jovens, com desorganização da identidade

única, mas sim uma estratégia possível em cada contexto.

psíquica, cujo grau extremo é a psicose, a “loucura”. Transtornos mentais são decorrentes de fatores múltiplos e não únicos, ou seja, de um somatório de fatores biológicos, psicológicos e sociais. O bullying pode ser o fator desencadeante, o “estopim” de uma explosão de conflitos e traumas não resolvidos que podem se manifestar, de modo trágico, na adolescência ou na vida adulta. Mas o bullying, por si só, não “enlouquece” jovens psicologicamente sadios e com adequado apoio emocional familiar que, quando vítimas de agressões psicológicas, encontram apoio em casa ou são encaminhados pela família para o adequado apoio profissional. Se já tem sido difícil para as escolas terem ações preventivas contra a cultura do bullying, o que as escolas podem fazer, afinal, diante de famílias desestruturadas, a que o próprio Estado não tem dado respostas? Uma alternativa estratégica,

MONTSERRAT MARTINS

capaz de produzir resultados concretos, é criar um sistema

Médico psiquiatra, autor do livro ‘Em busca da Alma do Brasil’.

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


16 /// POR DENTRO DA LEI

Maiores de 18 no Ensino Médio

A

lguns diretores têm expressado certa inquietação

com as “prerrogativas” da maioridade. Muitos acham que, a partir dos 18 anos, o aluno obtém uma espécie

que lhe devem ser destinados. Se o aluno formalizar essa retirada, a escola deverá liberar o(s) tomador(es) do serviço das suas obrigações, mormente do pagamento das parcelas contratuais vincendas, respeitados os parâmetros rescisórios contratuais. Mas se o aluno não o fizer, permanecendo, pois, vinculado à escola, deve obediência às regras acadêmicas e disciplinares que integram o contrato. Exemplificando: ao aluno maior de idade, num passeio ou “saída a campo” organizado(a) pela escola, não poderá

de “carta branca”, não só para entrar e sair do recinto escolar,

invocar privilégios ou “imunidades” comportamentais, sob

mas até mesmo para furtarem-se ao acatamento das regras

o argumento dessa maioridade. Deverá ater-se ao padrão

disciplinares. Não é bem assim.

de conduta exigido dos demais alunos. Se dispuser de

É preciso lembrar que o contrato de prestação do

automóvel e estiver habilitado a dirigir, não poderá, em

serviço educacional permanece íntegro. O aluno mantém-se

razão disso, dispensar-se do deslocamento em comum com

obrigado a respeitá-lo, mesmo que, em tese, já possa nele

os colegas para dirigir-se ao local do evento em condução

assumir a posição de contratante (deixando, pois, de ser

própria, salvo concordância da escola. E se a escola proibir

simples beneficiário). A adveniência da maioridade, por si só,

o consumo de bebida alcoólica, por entender que isso seja

não faz “tábula rasa” do contrato de origem, como também

importante para o resultado do evento, esse mesmo aluno

não desobriga o aluno de respeitar as regras da escola. As

terá de adequar-se, embora, noutras situações, tenha a

exigências acadêmicas e disciplinares continuam de pé.

liberdade de consumi-la.

Na realidade, o aluno integra uma espécie de comunidade,

Na realidade, a diferença maior, para a escola, é que a

cujos parâmetros de funcionamento se aplicam a todos os

eventual responsabilização civil do aluno por danos que

que dela façam parte, na medida do papel que nela exerçam.

tenha causado já não se estenderá, automaticamente, aos

A rigor, não há privilégios em favor do aluno em razão de sua

seus pais e/ou responsável(eis). Mas o pagamento das

maioridade; há, isso sim, responsabilidade acrescida. É verdade que esse aluno não poderá ser retido na

mensalidades continuará exigível do(s) tomador(es) do serviço enquanto o contrato estiver em vigor.

escola; se quiser dela ausentar-se, terá o direito de fazê-lo. O mandato tácito antes conferido à escola para vigiar sua permanência terá se exaurido, porque o aluno, agora, se tornou plenamente sui juris. Os próprios pais e/ou o(s) responsável(eis) já não têm como obrigá-lo a permanecer estudando. Mas continua(m) obrigado(s) a cumprir os encargos contratuais, enquanto o contrato não for extinto. Poderá o aluno, tendo atingido a maioridade, resilir o contrato? Indiretamente, sim! Ele poderá retirar-se da condição de beneficiário e, em razão disso, o contrato perderá seu objeto principal, que é a educação/ensino

“O contrato de prestação do serviço educacional permanece íntegro. O aluno mantém-se obrigado a respeitálo, mesmo na posição de contratante”

JORGE LUTZ MÜLLER Coordenador da assessoria jurídica do SINEPE/RS. OAB-RS 7.563


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18 /// GESTÃO

Mais retenção, menos prospecção POR PEDRO PEREIRA


19

A

“A transparência e o diálogo são importantes para fidelizar e captar”, Rosângela Florczak.

s instituições de ensino precisam ter processos estruturados e planejados para captação e retenção de alunos durante o ano todo. Isso garante

sustentabilidade no longo prazo. A primeira preocupação deve ser fidelizar, já que um bom sistema de retenção minimiza a necessidade de prospectar. Campanhas devem ser vistas como

possível. O que ressalto é a necessidade de processos claros,

um complemento a uma estratégia muito mais ampla.

conhecidos por todos e verificáveis, a fim de aproximar o máximo possível a qualidade estimada da qualidade

A professora e consultora de comunicação corporativa Rosângela Florczak acredita que é um equívoco fazer

percebida”, defende Bruna. Desde o plano pedagógico até a

campanhas perto da época das matrículas, por exemplo.

infraestrutura, passando pelos cuidados com o aluno, pela segurança, tudo precisa estar alinhado com os funcionários e

“Quando chega nesse ponto, é porque tem alguma coisa

os professores que entregam o serviço.

errada, precisa de diagnóstico e solução”, alerta. Em mais de 20 anos trabalhando com educação, ela garante que não viu uma só família tomar a decisão de matricular o filho, ou

Foco nas relações humanas

alunos decidirem por si, por meio de uma campanha. “Seja

Mais eficiente do que vender uma imagem é construir

modelo antigo, mídia exterior, outdoor, traseira de lotação

uma relação de confiança com alunos e famílias. A escola

ou versão contemporânea das mídias sociais. Campanha (de

que dialoga, atende e mantém a comunidade engajada

matrícula) para captar aluno é estratégia ineficaz”, afirma.

no cotidiano tem uma boa avaliação, o que se reflete num

Campanhas publicitárias devem ser feitas para construir

fator que tem sido decisivo: os grupos de WhatsApp. Os

presença de marca e de identidade, para mostrar publicamente

vínculos, independentemente da origem, são mediados

em que pontos aquela instituição se diferencia das outras.

pelas redes sociais.

Dessa forma, famílias e alunos procuram a que mais combina com seus anseios. No caso dos colégios, algo mais a ser lembrado: grande parte dos pais é jovem e é com eles, também, que a comunicação e o relacionamento precisam dialogar. “Na educação infantil e nas séries iniciais, as famílias

IMPORTANTE SABER:

definem no ano anterior, pesquisam”, observa Rosângela. Movimentos coletivos indicam que a comunicação pode ser determinante na hora da escolha. São grupos de condomínio, escolinha, creche. “À medida que a tecnologia se intensifica,

C

as pessoas estão buscando construir comunidades de

M

segurança”, analisa a professora. “Quando se pensa em

Y

captação, o processo leva tempo de maturação da escolha”,

CM

concorda a consultora educacional do Seminário das Ações

MY

Digitais na Educação Brasileira (SADEBR), Bruna Del’Labon.

Campanhas publicitárias servem para construir presença de marca e de identidade, mostrar diferenciais.

Satisfação de alunos e família está relacionada à compatibilidade entre o que foi oferecido (qualidade estimada) e a sua entrega (qualidade percebida).

Instituições devem cultivar relacionamento por meio de uma constante proximidade com alunos e familiares.

É preciso ter um planejamento adaptado às mudanças de cenário e uma medição de resultados eficiente.

CY

Por isso, é muito importante que a instituição de ensino

CMY

esteja preparada para atender esse candidato ou a essa

K

família no tempo deles. Já a fidelização começa na avaliação crítica e questionadora sobre a entrega da instituição, se é compatível com aquilo que foi vendido e anunciado nas campanhas de captação. É o que determina a satisfação de alunos e famílias. “A intenção dos profissionais de educação é a melhor

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


20 /// GESTÃO

Facebook e Instagram também dizem muito sobre as instituições, mesmo que elas não queiram. Uma campanha não condizente com o produto educacional entregue, ao invés de ajudar, pode colocar muita coisa a perder. “Momento ruim muitas vezes não se evita, mas tem que saber gerenciar e reverter. A transparência e o diálogo são importantes para fidelizar e captar, por consequência”, entende Rosângela. O relacionamento deve ser cultivado por meio de uma constante proximidade com alunos e familiares. É o que Bruna chama de momento da verdade: cada interação serve para, com real intenção, compreender as necessidades e a percepção sobre o serviço prestado. “Educação é feita por pessoas e para pessoas, então, nada melhor do que um real interesse nas relações”, acredita. Trabalhar esse quesito é escutar atentamente a comunidade escolar, mesmo naquilo

/// Redes sociais dizem muito sobre as instituições

que não é verbalizado. Para manter tudo alinhado, é importante promover

quando o governo do Rio Grande do Sul começou a parcelar

a integração do setor de marketing ou comunicação,

os salários dos funcionários do Poder Executivo estadual, há

responsável pela atração, com a equipe de professores e

cerca de quatro anos, as escolas demoraram a perceber o

funcionários, o maior ponto de contato com alunos e famílias.

reflexo que isso teria na inadimplência e na evasão de alunos.

Vale, ainda, uma figura ou departamento responsável

É preciso ter um planejamento adaptado às mudanças de

pelo processo, avaliando indicadores, propondo ações e

cenário e uma medição de resultados eficiente.

respondendo pelo resultado. “Treinamentos, alinhamentos,

A inadimplência é outro problema constante das

proximidade com o público-alvo e um bom software de

instituições e pensar soluções para estas famílias – ou

retenção, com certeza, serão um grande diferencial na

vantagens que facilitem o ingresso do aluno – são estratégias

estratégia de fidelização”, elenca Bruna.

que podem auxiliar na retenção e na captação. Recentemente,

Rosângela tem uma expressão que resume o trabalho

a Fundacred lançou o crédito educativo para os ensinos

de relacionamento: cultura do cuidado. Para ela, as

médio, técnico e superior com taxas competitivas. Segundo

escolas precisam desenvolver de forma consistente,

o diretor-superintendente da Fundacred, Nivio Delgado,

no seu cotidiano, essa filosofia. “Isso está definindo as

a evasão e a inadimplência nas escolas que aderiram ao

organizações que conseguem manter uma comunidade bem

programa são três vezes menores em relação àquelas

resolvida, tranquila, coesa, e aquela que está esfacelada,

que não aderiram. Mas esse também é um trabalho de

sofrendo com o mundo contemporâneo.”

sensibilidade e diálogo. “Em vez de ter sua matrícula

Em muitos casos, falta atenção pormenorizada às

suspensa e a cobrança judicializada, muitas vezes o aluno é

famílias e aos alunos ou a leitura de cenários que influenciam

chamado para uma conversa e damos a oportunidade para

as estratégias de captação e retenção. Rosângela conta que

incluir a dívida no total de crédito a ser tomado, para ser pago depois de terminar o curso”, explica. Independentemente do problema que afaste alunos da

“Treinamentos, alinhamentos, proximidade com o público-alvo e um bom software de retenção serão um grande diferencial”, Bruna Del’Labon.

matrícula ou rematrícula, o caminho é ouvir, conversar e entender. Depois, buscar a melhor solução. E, por fim, entregar um produto alinhado com toda essa comunicação. “As instituições precisam entender o ritmo de mudança. Eu não brigo com o cenário: leio e atuo a partir dele”, orienta Rosângela.


GESTÃO NA PRÁTICA /// 21

Escolas investem para fidelizar e captar alunos

A

de fidelização também cresceram, de 89% de estudantes fidelizados em 2015 para 93% em 2019. O projeto conquistou Ouro na categoria Retenção e Captação de Alunos do Prêmio Gestão de Comunicação do SINEPE/RS, em 2017. Usar a tecnologia e a comunicação a serviço da captação e da retenção de alunos tem sido a estratégia do Colégio Santa Inês, de Porto Alegre. A escola investiu num projeto de marketing de conteúdo que produz informações de interesse da comunidade escolar e de famílias com

ções para estreitar vínculos com a escola,

potencial de matricular os filhos na escola. Os materiais

atendimento diferenciado para irmãos de

são publicados em diversas plataformas e encaminhados

estudantes e filhos de educadores e marketing

por e-mail, periodicamente, por meio de um software de

digital são alguns dos caminhos encontrados pelas

automação de marketing.

escolas para fidelizar e captar alunos ao longo do ano.

Com a análise das métricas, é possível identificar a

No Colégio Dom Bosco, em Porto Alegre, desde 2016 é

captação de novas famílias, cujo primeiro contato com

desenvolvido o projeto ‘Aqui eu Fico’, com o objetivo de

a escola foi realizado pelo acesso ao conteúdo digital.

evitar a evasão de alunos da Educação Infantil para o 1º

O retorno da comunidade interna sobre o processo de

ano do Ensino Fundamental. Ainda na Educação Infantil,

comunicação também reafirma o impacto positivo do

são desenvolvidas diversas atividades que preparam os

projeto na fidelização. “A interação entre escola e família

estudantes para a entrada no Ensino Fundamental, como a

se dá de uma forma muito constante e transparente,

visita guiada, uma oportunidade de conhecer os ambientes

através de uma comunicação ágil, eficiente, criativa e

do 1º ano – salas de aula, laboratórios, praça e pátio – e

muito próxima da comunidade. São e-mails, banners

a aproximação com a equipe de professores por meio de

com notícias e informações dentro do ambiente escolar,

peças de teatro e hora do conto. A iniciativa conquistou o

além das redes socais tão presentes no nosso cotidiano”,

troféu Bronze na categoria Retenção e Captação de Alunos

destaca Vanessa Ávila, mãe de Arthur (3º Ano do EF) e

do Prêmio Gestão de Comunicação do SINEPE/RS, em 2018.

Carolina (8º Ano do EF). O projeto conquistou o troféu

As famílias também são inseridas nesse processo. O

Prata na categoria Retenção e Captação de Alunos do

Happy Hour Pedagógico é o momento de conhecer os pais e

Prêmio Gestão de Comunicação, em 2018.

apresentar a eles o material didático, a proposta de trabalho e demais novidades que os alunos encontrarão a partir do 1º ano. No final do ano, ocorre a Celebração de Troca de Ciclo, uma espécie de formatura, chamada “Rumo ao 1º ano”. Já no primeiro ano do projeto, a retenção foi de 100%. A iniciativa inspirou a criação de outros dois projetos: “Sextou”, que trabalha a transição do 5º para o 6º ano, e “Desafios”, que encaminha estudantes do 9º ano para o Ensino Médio. No Colégio Marista Aparecida, de Bento Gonçalves, uma das estratégias para fidelizar os estudantes é o projeto ‘Inscrição Preferencial’, no qual irmãos de alunos e filhos de educadores podem fazer a matrícula duas semanas antes da abertura do sistema para a comunidade externa. Nos últimos quatro anos, cerca de 30% da meta anual de captação do colégio são provenientes desse projeto. Os números

/// Dom Bosco prepara alunos para o 1º ano do EF

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


DIVULGAÇÃO IENH

22 /// PEDAGÓGICO

Foco nas dez competências gerais da BNCC POR VÍVIAN GAMBA

A

s dez competências gerais da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), obrigatória no currículo da Educação Infantil e Ensino Fundamental a partir de 2020 nas

escolas de todo o país, têm que estar “na ponta da língua” dos professores e das instituições. O foco, em 2019, é debruçar-se

sobre o documento e compreender como tudo deve funcionar. As competências e as habilidades representam, na definição das aprendizagens essenciais a serem construídas pelos estudantes, um conjunto de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes que buscam promover o seu desenvolvimento em todas as suas dimensões – intelectual, física, social, emocional e cultural –, afirma a professora da Faculdade Murialdo de Caxias do Sul Márcia Carvalho. “São definidas como a capacidade de mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), as


23

“É necessário que as escolas incorporem várias mudanças, não apenas práticas em sala de aula”, Márcia Carvalho. Novo jeito de dar aula “O ‘novo jeito de dar aula’ não é tão novo assim”, alega Márcia. Ao longo dos últimos trinta anos, pelo menos, o currículo escolar tem sido pauta permanente. “O alerta é a percepção de que agora eles estão centrados não mais em conteúdos, e sim em habilidades, que nada mais são do que processos cognitivos a serem construídos por meio de objetos do conhecimento.” As novidades são a categorização – competências cognitivas, comunicativas e socioemocionais – e as competências socioemocionais em si, que devem estar presentes nos PPPs e também nos planos de trabalho dos professores, com o detalhamento das estratégias de ensino oportunizadas para construção dessas competências. “O que muda (também) é a definição de como elas evoluem ao longo da Educação Básica, o que os professores precisam desenvolver e a forma de promover e acompanhar os resultados das aprendizagens pelos estudantes.” O conhecimento é um exemplo: pode ser comprovado quando os professores verificam se os estudantes o aplicam para solucionar problemas diversos. O que agora talvez passe a ser uma prática permanente, explica a professora, é a verificação de aspectos das competências socioemocionais e o seu registro para planejamento sequencial das aulas, com vistas ao alcance dessas competências. habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), as atitudes e

Mesmo antes da BNCC, já havia escolas, como a Lumiar

os valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana,

Educação, de Porto Alegre, que contemplavam, na prática,

do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho. Nesse

as competências básicas exigidas. Segundo a diretora

sentido, é necessário que as escolas incorporem várias mudanças,

pedagógica da instituição, Fábia Apolinário, a Lumiar surgiu

não apenas práticas em sala de aula”, alerta.

a partir da percepção de que conteúdos e informações não

De certa forma, essas competências já estavam presentes

eram mais eficientes para preparar crianças e jovens para os

nos currículos escolares, mas não eram trabalhadas de forma

mais diferentes desafios e atuação nas suas vidas pessoal,

tão impactante como a BNCC requer agora, argumenta Márcia.

cidadã e profissional. “Era preciso priorizar uma proposta que

“Todos os PPPs das escolas têm presentes responsabilidade,

promovesse um desenvolvimento global desses estudantes.

cidadania, construção de conhecimento, autonomia de

Quando pensamos em personalização da aprendizagem, não

pensamento, valorização da cultura, tecnologia da informação e

havia como não considerar o ensino por competências”, afirma.

da comunicação. A diferença é o enfoque e o detalhamento que

Segundo Fábia, destrinchar as competências em habilidades

a BNCC carrega para cada uma das dez competências, de forma

específicas garante intencionalidade pedagógica no planejamento

que, ao longo da Educação Básica, todos os estudantes tenham

do currículo e a possibilidade de se medir, de maneira completa

construído o conjunto de competências como um todo.”

e objetiva, o desenvolvimento dessas competências pelos

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


24 /// PEDAGÓGICO

estudantes. “Desejamos colocar em prática uma proposta na qual os estudantes consigam desenvolver uma gama de habilidades essenciais, com atividades que tenham objetivos claros, possíveis

“É preciso romper a lógica de entregar conteúdo aos alunos”, Mariana Brito

de serem medidos e que possam, igualmente, empoderá-los.” É preciso romper a lógica de entregar conteúdo aos alunos, e levá-

Avaliação

los a desenvolver estratégias para que resolvam os problemas

As avaliações escolares passarão a ter indicadores para cada

trazidos pelos professores, explica a coordenadora pedagógica da

dimensão das competências gerais da BNCC. Definidos pelo

Lumiar, Mariana Brito. “Desta forma, é possível engajar os alunos

coletivo de cada escola, eles serão acompanhados durante o

no processo de aprendizagem, identificar os interesses deles para

período definido para o seu desenvolvimento. Ao final do período,

que essas aprendizagens sejam significativas.”

caso não se verifique o atendimento dos indicadores, deverão ser traçadas novas estratégias, capazes de oportunizar a construção

10 COMPETÊNCIAS GERAIS DA BNCC

do que não foi alcançado naquele prazo definido, aponta Márcia. “A cada período avaliativo, a cada ano da Educação Básica, os professores precisarão dialogar para verificar o que já foi feito e alcançado e o que precisará ser continuado. Essa articulação deverá estar presente no planejamento da escola como um todo. Caso contrário, somente ao término do ensino médio é que será feita a verificação da construção das dez competências, o que não é viável para que seja considerado todo o processo de construção da educação básica que se inicia na Educação Infantil.” Diálogo com a comunidade A revisão do PPP é, para Márcia, um ponto de destaque no processo de implementação da BNCC e deve ser compartilhada com todos os segmentos da comunidade escolar, porque mostrará como a escola vai incorporar os princípios propostos pela Base no seu dia a dia. “É neste documento que a escola registra sua identidade, seus objetivos e os meios pelos quais pretende alcançá-los. Entre outros aspectos, o currículo é referido no PPP no que diz respeito às aprendizagens essenciais previstas na BNCC, com a definição de metodologias de ensino e os recursos disponíveis, considerando o contexto local e as condições e organização da comunidade escolar como ponto de partida.” O trabalho é grande, mas os caminhos estão definidos e a expectativa é de bons resultados. Cabe a cada escola, agora, personalizar a sua caminhada e fazer com que a sua tradução e aplicação da Base colabore da melhor forma para a aprendizagem efetiva dos seus alunos.

CONTEÚDO ONLINE DISPONÍVEL Acesse material para estudar a BNCC www.educacaoemrevista.com.br


EM DESTAQUE /// 25

ROSETTA STONE TRAZ NOVIDADES NO ENSINO DE IDIOMAS PARA O BRASIL Sucesso no mundo inteiro, com mais de 3 milhões de alunos, o Lexia chega ao Brasil oferecendo suporte aos professores do Ensino Infantil e Fundamental I. A solução contempla material didático inovador e atividades digitais no formato de jogo. O Lexia trabalha as habilidades de leitura, compreensão, consciência fonológica, fonética e vocabulário em inglês. Os diferenciais do programa são

PRIMUS OFERECE SEGURANÇA DE DADOS NA HOSPEDAGEM O crescimento do número de ataques cibernéticos levou diversas instituições a aumentar significantemente seus

a classificação dos alunos em 18 níveis, a identificação das lacunas de cada aluno e a indicação de atividades personalizadas, conforme as respostas nos exercícios. O Lexia e outras soluções são fornecidos pela ASG Educação, que realiza toda a implementação, o treinamento e o acompanhamento. Para receber o material do Lexia, basta contatar a ASG. Mais informações: idiomas@asg.com.br, (51) 3376 1210/ www.asgeducacao.com.br/.

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PESQUISA RETRATA AS MELHORES PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DO PAÍS Ao longo de 2018, a Plataforma Redigir monitorou o desempenho de instituições escolares da rede particular de ensino de todo o país com o propósito de identificar as melhores práticas pedagógicas em Redação. O estudo traduz, objetivamente, algumas impressões e responde a importantes perguntas que gestores e professores têm sobre as estratégias referentes ao ensino de Redação. Afinal, entre tantos caminhos didático-pedagógicos, quais as melhores práticas para se chegar à nota 1000? Saiba mais no link: www.plataformaredigir.com.br/gpr.

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


26 /// INOVAÇÃO

Enxergar para inovar

P

habitantes – tem alguma dificuldade de visão. Ao mesmo tempo em que é visível a evolução de jogos digitais, o mercado é pouco difundido para esse nicho da população, pois os produtos não desenvolvem aspectos motores e de tato. Entra em cena, então, a metodologia de ensino com a premissa da interação entre educandoeducador e objeto do conhecimento e, fundamentalmente, o planejamento voltado para as problematizações. A atividade

ensar em inovação com propósito requer mais do que

proposta pela professora Graciane Berghahn Konzen

saber fazer. Foi isso que os estudantes dos cursos de

caracteriza um fazer pedagógico voltado para o ensino

Engenharia, Tecnologia da Informação e Gestão da Ftec

prático. Não a prática pela prática, mas a configuração de um

Faculdades de Novo Hamburgo perceberam quando deparados

processo que busca uma ação fundamentada em conceitos

com o desafio de criar jogos educativos que desenvolvessem

válidos e discutida entre todos envolvidos no processo,

habilidades motoras e de tato de deficientes visuais e cegos, na

produzindo assim, os melhores resultados.

disciplina de Design Thinking e prototipagem. Segundo dados do IBGE de 2010, existem

O trabalho começou com um encontro entre os estudantes e dois representantes da Associação dos

aproximadamente 6,5 milhões de pessoas com alguma

Deficientes Visuais (Adevis) de Novo Hamburgo – Flavio

deficiência visual no Brasil. Destas, 528,6 mil pessoas são

Cardoso e Lucimara Azambuja. A entidade, fundada em

incapazes de enxergar (cegos) ou têm visão subnormal

1988, surgiu com o intuito de contemplar as necessidades de

(grande e permanente dificuldade de enxergar). Outras

pessoas com deficiência visual e seus familiares e a inserção

2,9 milhões de pessoas declararam ter alguma dificuldade

do cego no mercado de trabalho, ou seja, proporcionar ao

permanente de enxergar, ainda que usando óculos ou

deficiente visual (cego e baixa visão) o necessário para que

lentes. Na região sul do Brasil, 3,2% da população – 866 mil

ele se desenvolva na sociedade.


27 A partir desse contato, os alunos conseguiram entender como é o dia a dia de uma pessoa cega e a importância da sua autonomia. Os estudantes aprenderam, inclusive, como auxiliar um deficiente visual em sua locomoção. “A diversidade de olhares somada à multidisciplinaridade permite aos alunos enxergar oportunidades e soluções que jamais seriam possíveis de se pensar sozinho”, afirma Graciane. Depois de um brainstorming, foram elencadas três principais ideias para a criação de um protótipo. Com os dados de imersão e entendimento traçados, os estudantes definiram o caminho a ser seguido e fizeram testes com os protótipos desenvolvidos. Os próprios alunos usaram vendas para simular a deficiência visual e testar os jogos e, posteriormente, os testes foram realizados com cegos. As regras para a utilização dos brinquedos foram desenvolvidas em tinta e em braile depois de, na Associação, os estudantes aprenderem como funciona a

/// Alunos entenderam como é o dia a dia de uma pessoa cega

leitura em braile. Os 14 jogos – de xadrez, quebra-cabeças, jogo da velha, bingo, dominó e outros – foram finalizados

suas dúvidas e aceitar as nossas sugestões. Foi possível

e apresentados para a turma e, após a conclusão da

perceber o desenvolvimento dos trabalhos e o resultado foi

disciplina, doados para os projetos de apoio às crianças

muito interessante. Os jogos foram muito bem recebidos e

cegas implementados pela Adevis.

aproveitados para desenvolver habilidades motoras e de tato

“Nós acompanhamos o projeto e desde o início percebemos um interesse muito grande dos alunos em esclarecer as

das crianças da associação”, declara Cardoso. O grande impacto deste projeto foi a transformação da visão dos estudantes em relação aos deficientes visuais.

“Percebemos um interesse muito grande dos alunos em esclarecer dúvidas e aceitar nossas sugestões”, Flavio Cardoso

Eles conseguiram enxergar o quanto os deficientes visuais são capazes, mesmo com suas limitações físicas. Devido ao sucesso da atividade, Graciane garante que ela será replicada em todos os semestres, com a alteração do público foco.

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


28 /// INTERNACIONAL

O

s alunos britânicos recebem educação em turno integral a partir dos 4 anos de idade. É

o começo de uma jornada que se estende até

Autonomia para brasileiro ver POR PEDRO PEREIRA

o fim da adolescência e precede (ou não) o ingresso na universidade – nem todos têm vontade de cursar o ensino superior, já que nos anos finais da educação básica há escolha de disciplinas para estudar com maior ênfase, com preparação para atividades profissionais. Autonomia é praticamente palavra de ordem. Pedagogicamente, cada instituição decide como

se desenvolver. Escolas secundárias seguem o currículo nacional, mas podem optar por dar destaque a algumas matérias. Assim, é comum que as escolas sejam reconhecidas pela aptidão em áreas específicas como artes, esportes, ciências naturais ou matemática. E muitos alunos e famílias escolhem a instituição conforme seu objetivo. Professores mais experientes coordenam determinadas áreas e têm jornada de trabalho reduzida para monitorar as atividades de seus pares. “O professor que cuida de uma área acompanha indicadores, assiste a algumas aulas. Passa muito pela liderança da própria escola, que cria um ambiente em que todos têm responsabilidade”, aponta o gerente sênior de educação básica do Conselho Britânico no Brasil, Luis Serrao. Nas escolas mais técnicas, os alunos podem iniciar a preparação para o mercado de trabalho a partir dos 16 anos. Para que a ênfase não comprometa a qualidade do ensino ou torne insuficiente o aprendizado básico de todas as disciplinas, as escolas passam por constante avaliação, por meio de equipes próprias que acompanham o desempenho de alunos ou consultorias externas contratadas para fazer um diagnóstico. Sem conservadorismo Esqueça cenas de filmes clássicos, com alunos enfileirados, silêncio sepulcral e um professor soberano transmitindo conhecimento em via de mão única. A disciplina é a mesma, mas a dinâmica dos processos pedagógicos passou por uma forte transformação. “O professor é muito mais um mediador entre o aluno e a expectativa de


29 aprendizagem. O estudante é mais engajado, interessado em projetos, pesquisas, trabalhos coletivos em sala de aula, e senta em círculos, grupos, não em fila”, comenta Serrao, que, recentemente, visitou algumas instituições na Inglaterra e na Escócia. “Isso muda toda a relação entre professor e aluno.”

“O estudante é mais engajado, interessado em projetos, pesquisas, trabalhos coletivos em sala de aula”, Luis Serrao.

A aplicação de metodologias ativas contribui, na medida em que envolve os alunos, para menores índices de mau

servirá para motivar os alunos. “As mudanças do ensino

comportamento ou de abandono. O segredo para prender

médio abrem esses itinerários formativos mais direcionados.

a atenção dos alunos pode estar na oportunidade de se

O Reino Unido tem um histórico que pode inspirar na

dedicar mais àquilo de que eles gostam. A jornada estendida

construção do currículo”, afirma.

das escolas britânicas é muito permeada por grupos de

Graças à autonomia que marca o sistema de ensino

interesse, como leitura, robótica ou artes. “Não é incomum

britânico, cada escola define como emprega a tecnologia no seu

ver grupos de projetos de cooperação internacional, salas

cotidiano. O consenso, segundo Serrao, é tratá-la como meio

com turmas específicas que têm relação com grupos de

de comunicação e informação, como recurso pedagógico, e não

outros países”, conta Serrao.

como um fim. “Algumas escolas apostam em laboratórios de

Ele acredita que, com a reforma proposta pela Base

informática, para projetar soluções, mas também de marcenaria,

Nacional Comum Curricular (BNCC), o Brasil caminha para

para criar protótipos. Depois vão além e trabalham em cima da

um currículo mais baseado em competências, o que também

viabilidade econômica daquela solução”, relata.

I

EDUCACAO MUITO ALEM DO COGNITIVO

A BNCC definiu 10 competências gerais e todas elas são englobadas no conteúdo que a EI desenvolve com as crianças, adolescentes, seus familiares e professores:

I

I

A Escola da Inteligência enxergou a necessidade de ensinar inteligência socioemocional desde a infância e foi pioneira no desenvolvimento de um programa completo que, há uma década, trabalha as habilidades e competências socioemocionais pelas escolas de todo o Brasil.

1 – Conhecimento

6 – Trabalho e projeto de vida 2 – Pensamento científico, 7 – Argumentação crítico e criativo 8 – Autoconhecimento e 3 – Repertório cultural

autocuidado

4 – Comunicação

9 – Empatia e cooperação

5 – Cultura digital

10 – Responsabilidade e cidadania

I

VA L O R I Z E A E D U C A C A O C O M A E I . I

A importância desse trabalho nunca foi tão evidente como agora, quando a Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, traz essa necessidade social como complemento do ensino cognitivo e define que até o final de 2019 as escolas brasileiras precisam se adequar às normas do documento.

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30 /// INTERNACIONAL

Esse tipo de atividade também fomenta o interesse pelo empreendedorismo, trabalhado não apenas como uma forma de ganhar dinheiro, mas sob a perspectiva de compreender os problemas econômicos e sociais e apresentar soluções viáveis – geralmente começando pela própria comunidade. “País de Gales e Escócia têm muita gente trabalhando nisso. Existem marcos curriculares que influenciam a promoção de um ensino baseado em projetos, resolução de problemas”, afirma Serrao. Lições de gestão aplicadas em sala de aula Inspirado no que a diretora de operações, Patrícia Ribeiro, viu no Reino Unido há cerca de cinco anos, o Colégio Vértice, de São Paulo, firmou parceria com o British Council para um projeto de capacitação de seus gestores.

Bem-vindo ao clube! • Alunos ingleses desenvolvem aptidões em clubes dedicados a diferentes áreas, como esportes, robótica, marcenaria e teatro. • Prática tem mostrado excelentes resultados na preparação para o mercado de trabalho e no combate à evasão. • Atividades se estendem às universidades. Um exemplo é o grupo de teatro Footlights, da Cambridge University, celeiro de alguns dos maiores nomes do humor britânico e mundial. • Entre os nomes que passaram por lá está Hugh Laurie, aclamado no Brasil e no mundo como protagonista da série House.

A proposta foi de desenvolver aspectos de liderança sem abandonar a missão, a visão e os valores da instituição. “O ensino britânico é um bom modelo para nos inspirarmos. Todos falam da Finlândia e de outros países, mas a Inglaterra tem um modelo que abarca várias realidades – diversidade de nacionalidades, realidades econômicas –, muito próximo do que acontece no Brasil”, avalia Patrícia. Foram cinco dias de atividades: dois após a volta das férias de inverno e três antes do reinício das aulas, no ano seguinte. Esse distanciamento de um semestre permitiu que alguns aprendizados fossem vistos na prática antes de o grupo se reunir novamente. No aspecto pedagógico, a mudança de paradigmas foi flagrante. A dinâmica proposta pelo treinamento incentiva que os docentes desenvolvam projetos mais criativos e

relação entre aluno e professor, o colégio não deixa de

interdisciplinares, sob a orientação dos gestores, para dar

implantar (novas) tecnologias e ferramentas que estimulem

mais segurança. “Muitos professores se sentiram à vontade

o aprendizado. “Não mantemos tudo como há 50 anos nem

para ousar mais, propor projetos diferentes, ter uma

partimos só para inovações. Em função disso, buscamos

discussão maior com os diretores”, conta Patrícia.

esse conhecimento em parceria com o British Council,

Outra inspiração que a diretora de operações revela ter buscado no Reino Unido é a combinação entre o tradicional

combinando vários aspectos”, explica. No ano passado, o SINEPE/RS firmou parceria com o

e o contemporâneo. Respeitando o entendimento de que

British Council para oferecer às escolas e às instituições

alguns aspectos da educação são atemporais, como a

de ensino superior projetos de cooperação com escolas e universidades britânicas. Por meio dessa parceria,

“Não mantemos tudo como há 50 anos nem partimos só para inovações”, Patrícia Ribeiro.

estuda-se oferecer um curso de formação de lideranças de 23 a 27 de setembro, na sede do SINEPE/RS. Mais informações pelo e-mail relacoesint@sinepe-rs.org.br ou pelo telefone (51) 3213-9090.


31 COMPARTILHAR /// 31

ESCOLA PROJETO É DESTAQUE NO PRÊMIO AÇORIANOS DE MÚSICA Em sua 22ª edição, o Prêmio Açorianos de Música homenageou a Escola Projeto, de Porto Alegre, com Menção Honrosa por seu empenho na “difusão da música do Rio Grande do Sul” – reconhecimento ao projeto ‘Encontro com o Compositor’, realizado há 18 anos pela instituição. O projeto busca incentivar os alunos a conhecer, estudar, pesquisar e envolver-se diretamente com os músicos de Porto Alegre e suas obras. Ano passado, a escola comemorou seus 30 anos com um espetáculo no Auditório Araújo Vianna, reunindo mais de 20 artistas referências da música do Rio Grande do Sul.

VALORES HUMANOS FAZEM PARTE DO CONTEÚDO NO LOURDES Os alunos da Educação Infantil até o 5º ano do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, de Farroupilha, receberam a coleção de livros ‘Identidade Scalabriniana’. O material pedagógico trabalha valores como amor e a solidariedade difundidos por João Batista Sclabrini, fundador da Congregação da qual o colégio faz parte. Os professores foram capacitados pela coordenadora

La Salle inaugura Ambiente Educativo Inovador O Colégio La Salle Canoas, de Canoas, inaugurou, no início

da Pastoral Escolar, Irmã Inêz Bernardi, sobre como trabalhar com o material nas turmas e sensibilizar as crianças para a importância dos sentimentos e das atitudes que contribuem para a cultura de paz.

deste ano, o Ambiente Educativo Inovador, um projeto piloto e inédito no país, realizado em parceria com a Universidade de Lisboa e com a Editora Positivo. A sala diferenciada tem recursos que privilegiam a criatividade, a interação e o uso de tecnologias. Móveis ergonômicos e de fácil locomoção, iluminação natural, computadores, projeção de imagens na parede, monitor de TV e espaços para atividades diferenciadas e até um aquário compõem o ambiente e despertam a atenção dos estudantes. A proposta traz uma metodologia moderna, focada em aprendizagens mais significativas e no desenvolvimento de competências para o século XXI.

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


32 /// COMPARTILHAR

ENSINO BILÍNGUE NO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS O Colégio Sagrado Coração de Jesus, de Bento Gonçalves, e as demais escolas que compõem a Rede Sagrado de Educação implementaram na grade curricular de 2019 o ensino bilíngue. O projeto é uma parceria com a University of Dayton, dos Estados Unidos, e contempla o aprendizado linguístico e o estudo da cultura por meio do idioma. A proposta também busca significar os saberes e os conhecimentos adquiridos por meio da ampliação da carga horária de Inglês, de aulas mais dinâmicas e do uso de material diferenciado.

ROSARIENSES GANHAM PLATAFORMA ONLINE DE MATEMÁTICA Os estudantes do 4º e 5º anos do Ensino Fundamental (EF) do Colégio Marista Rosário, de Porto Alegre, estão utilizando uma plataforma online interativa de Matemática para potencializar o aprendizado no Componente Curricular. A Matific (www. matific.com.br) é um complemento ao trabalho desenvolvido em sala de aula e conta com mais de 1.500 jogos. Segundo a coordenadora pedagógica do 3º ao 5º anos do EF, Vanessa Riva, o aprendizado da Matemática torna-se significativo quando associado a propostas guiadas, de interação e por

O aniversário do Colégio Marista São Pedro, de Porto Alegre, foi celebrado com momentos de oração, agradecimento e distribuição de bótons comemorativos. Os educadores foram homenageados com bombons acompanhados de cartões de agradecimento pelo empenho e pela dedicação à escola. A comunidade também foi lembrada em ação que teve a participação do grupo da Pastoral Juvenil Marista e do Grupo Estudantil, juntamente com as coordenações e a direção. Foram entregues violetas (símbolo do carisma marista) em pontos comerciais do bairro com um cartão confeccionado pelos estudantes de 4º e 5º anos, como forma de agradecimento pela acolhida durante essas nove décadas.

descoberta. “E a plataforma Matific traz todos esses princípios, além de oportunizar o protagonismo do estudante”, afirma. PATRÍCIA DOS SANTOS / COLÉGIO ROSÁRIO

Colégio Marista São Pedro celebra 92 anos


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COLÉGIOS MARISTAS TRABALHAM EDUCAÇÃO PARA A INTERIORIDADE Três colégios da Rede Marista – Marista Santa Maria, de Santa Maria; Marista Conceição, de Passo Fundo; e Marista São Luís, de Santa Cruz do Sul – iniciaram um projeto piloto com o objetivo de trabalhar a educação para a interioridade. Semelhante a uma disciplina semanal, a proposta trabalha a espiritualidade e as competências socioemocionais com alunos do 9º ano do Ensino Fundamental. De acordo com o coordenador de pastoral do Marista Santa Maria, Neimir Mentges, as aulas são realizadas a partir de diferentes práticas que envolvem meditação, exercícios para trabalhar a respiração, dinâmicas sobre empatia, valores, entre outras atividades que buscam desenvolver a inteligência existencial.

/// Primeira aula do Santa Maria ocorreu num parque de turismo

FARROUPILHA É DESTAQUE EM PRÊMIO NACIONAL O Colégio Farroupilha, de Porto Alegre, conquistou o primeiro lugar no Prêmio Nacional de Gestão Educacional 2019, categoria Gestão Acadêmica, com o Programa ConViver Bem. A instituição foi a única premiada gaúcha e concorreu com outras 70 escolas de todo o país. O projeto premiado tem como objetivo reforçar a importância do equilíbrio e da empatia nas relações da comunidade escolar. A proposta traz os valores institucionais /// Alimentos foram doados a comunidades carentes

e a missão de formar cidadãos competentes, éticos e globais

COLÉGIO SÃO JOSÉ COMPLETA 109 ANOS COM TONELADA DE ALIMENTOS

e, como outras iniciativas, é voltada ao desenvolvimento de habilidades e competências socioemocionais dos estudantes.

O Colégio São José, de Pelotas, completou 109 anos em março com uma série de comemorações, como a campanha ‘Gesto de Amor’, que arrecadou mais de uma tonelada de alimentos para comunidades carentes da cidade. As festividades contaram com celebração em ação de graças na Catedral Metropolitana São Francisco de Paula e atividades em sala de aula para relembrar a história da instituição, refletir sobre o atual momento e pensar em ações futuras. No dia do aniversário, 19 de março, a comunidade escolar reuniu-se para cantar o ‘Parabéns’ e foi realizada uma dinâmica de troca de abraços. /// Gestoras do Farroupilha na entrega do Prêmio em São Paulo

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


34 /// COMPARTILHAR

ALUNOS DA IDEAU DESENVOLVEM O AUTOCONHECIMENTO As turmas de Educação Infantil Nível II A e II B da Escola de Educação Básica IDEAU, de Santa Clara, trabalham com o projeto ‘Quem sou eu? De onde eu vim?’. A iniciativa tem como objetivo desenvolver o autoconhecimento e o respeito ao outro, por meio de atividades envolvendo os campos de aprendizagens, enfatizando noções, habilidades, atitudes e valores para garantir os direitos de aprendizagens das crianças. Uma das atividades do projeto foi a apreciação do Álbum da Família, no qual as crianças relataram suas origens e quem faz parte de sua família, desenvolvendo a consciência de si e sua importância.

/// Crianças buscaram reconhecimento nos álbuns de família

ESTUDANTE DO SANTA INÊS PARTICIPA DE REUNIÃO NA ONU A estudante do Colégio Santa Inês, de Porto Alegre, Mainá Stock Godoy participou da reunião internacional da Comissão das Nações Unidas sobre o Status das Mulheres na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. No evento, foram debatidos os sistemas de proteção social, o acesso a serviços públicos e a infraestrutura sustentável para a igualdade de gênero e o empoderamento feminino. Mainá compartilhará os assuntos e as tratativas do encontro com a comunidade escolar e a rede IENS.

/// Aula de Karatê foi sugestão da comunidade escolar

MIRA BODIS/DIVULGAÇÃO COLÉGIO SANTA INÊS

NOSSA SENHORA DA GLÓRIA INVESTE NO ESPORTE O Instituto de Educação Nossa Senhora da Glória, de Carazinho, ampliou a oferta de modalidades esportivas nas escolinhas da instituição. Desde março, são oferecidas aulas de Tênis e Karatê para alunos do 1º ano do Ensino Fundamental até o Ensino Médio. A escola acredita que o incentivo à prática de esportes, tanto na escola como fora dela, desenvolve na criança e no adolescente o autoconhecimento, a autoconfiança, o espírito de equipe, a socialização, além de melhorar a autoestima e /// Irmã Eileen Reily, Mainá Godoy, Nilce Bortolin e Thiele Reis

favorecer o desenvolvimento motor.


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REDE LA SALLE PREMIA ALUNOS COM O PROJETO EDUEMPRÈN Estudantes do Colégio La Salle Canoas, de Canoas, foram os vencedores do EduEmprèn, iniciativa voltada a divulgar o empreendedorismo social para alunos da Educação Básica. Mais de 200 estudantes do Ensino Médio dos colégios La Salle Canoas, La Salle Niterói e La Salle Santo Antônio foram envolvidos. A equipe ganhadora desenvolveu um copo inteligente que identifica alterações do pH do seu conteúdo interno – pensado para garantir a segurança de quem se encontra em momentos de lazer e suscetível a ter sua bebida alterada por alguma substância. Os vencedores apresentarão seu trabalho no EduEmprèn Barcelona 2019, local onde o projeto foi idealizado pela Universidad La Salle Ramon Llull.

SANTA MÔNICA TRAZ LINGUAGEM DE PROGRAMAÇÃO À SALA DE AULA A Escola Santa Mônica, de Pelotas, passou no processo seletivo do Inventura Experience Powered by BBC Micro:bit e está recebendo treinamento para inserir a linguagem de programação em atividades de sala de aula. A iniciativa tem o apoio da Micro:bit Educational Foundation, organização mundial sem fins lucrativos que tem a missão de inspirar alunos de todo o mundo a criar o seu melhor futuro digital. A instituição concorreu com mais de 200

Ensino Bilíngue adaptado à Educação Infantil no Sagrado

escolas de todo o Brasil. Por meio de uma placa chamada

A partir deste ano, todas as turmas do Sagrado Coração de

milhão de alunos em todo o mundo.

BBC micro:bit, os alunos podem criar diversos projetos tecnológicos. A iniciativa já é desenvolvida com mais de 1

Jesus de Garibaldi estão recebendo o projeto bilíngue. Na educação infantil, é uma ferramenta lúdica de aprendizagem – as crianças aprendem brincando sobre cores, formas geométricas, números e animais. A professora Aline Jaeger destaca os benefícios em aprender uma segunda língua na infância: “existem vantagens na abordagem do ensino para crianças, como a ludicidade, a maleabilidade do cérebro e as questões fonológicas que propiciam que uma criança consiga produzir os sons das línguas que está ouvindo. Como o aparelho fonador está em formação quando somos criança, aprendemos qualquer som que nos for apresentado”.

EDUCAÇÃO EDUCAÇÃOEM EMREVISTA REVISTA/// ///


GUSTAVO DIEHL

36 /// RADAR

Pacto Alegre POR PEDRO PEREIRA

L

São seis macrodesafios: talentos, transformação urbana, ambiente de negócios, imagem de cidade inovadora, qualidade de vida e modernização da administração pública. Cada um com um grupo de trabalho. Ainda no primeiro semestre, esses grupos definirão projetos prioritários, seguindo um critério relativamente simples: liderança estabelecida e algo para

evar Porto Alegre a uma era em que mentes brilhantes

apresentar em seis meses. O objetivo é viabilizar medidas

das ciências exatas e humanas encontrem na capital

práticas para começar a mudar o panorama o quanto antes,

gaúcha um ambiente próspero para suas ideias. Essa é

a fim de que o Pacto Alegre comece a mostrar seus efeitos.

a proposta do Pacto Alegre, lançado em março com a reunião

“Entre os primeiros projetos lançados está um da Secretaria

de 75 representantes de entidades, instituições de ensino,

de Educação que visa identificar, selecionar e contratar

poder público e sociedade civil, entre elas o SINEPE/RS. O

startups do segmento educacional para atuarem junto às

compromisso foi assinado pelo presidente Bruno Eizerik, no

escolas públicas”, exemplifica o superintendente de inovação e

ato de lançamento do projeto. O sindicato integrará os grupos

desenvolvimento da PUCRS e membro do comitê estratégico

talentos, transformação urbana e qualidade de vida.

do Pacto Alegre, Jorge Audy.

A educação é reconhecida como um valor transversal que

Às instituições que pretendem colaborar, a dica é procurar

aparece, de alguma maneira, em todos os temas. “Quando se

seus representantes – o Sinepe/RS faz parte da Mesa do

fala em nova economia, gerar empregos ou cidadania engajada,

Pacto, grupo que se reúne para tomar as principais decisões.

tudo passa por um processo educacional que dá suporte a

De antemão, o coordenador do projeto propõe um desafio:

uma série de ações”, acredita o coordenador do Pacto Alegre

pensar coletivamente. “É preciso ter sinergia entre as ações.

e diretor da Escola de Engenharia da Universidade Federal do

Cada escola pode pensar separadamente, mas às vezes se

Rio Grande do Sul (UFRGS), Luiz Carlos Pinto da Silva Filho.

gasta muita energia para um efeito menor. Juntos, usamos


37 as boas ideias e não reinventamos a roda em cada uma das instituições”, argumenta Silva Filho. Retenção e atração de talentos

“Queremos ser um dos destinos que os talentos do século XXI considerem estar”, Luiz Carlos Silva Filho

Um dos problemas identificados em Porto Alegre é a perda de “cérebros” para outros centros de desenvolvimento

contando com a integração de outras instituições. O vice-

científico. Segundo Silva Filho, o Rio Grande do Sul concentra

presidente do Sinepe/RS, Osvino Toillier, está otimista com

cerca de 6,5% da atividade econômica brasileira e 11% do

a participação no Pacto: “uniremos esforços para melhorar

conhecimento qualificado, o que significa que esses talentos

a nossa capital. Contamos com a participação das nossas

ativam a economia de outros ecossistemas – São Paulo,

instituições para construir estratégias juntos”.

Brasília, Rio de Janeiro ou até outros países. Mudar com o mundo

A meta é transformar a capital (e o Estado) em um ecossistema de inovação que, além de reter seus maiores

Algumas iniciativas mostram que as escolas particulares

pensadores, atraia grandes cientistas. “Queremos ser um

de Porto Alegre estão alinhadas com os propósitos do

dos destinos em que os talentos do século XXI considerem

Pacto. É o caso do Colégio Farroupilha, que ajuda os alunos a

estar. Para isso, precisamos de oportunidades, infraestrutura

acompanharem as transformações da sociedade a partir da

agradável, bons restaurantes, cuidar da imagem da cidade”,

própria visão de mundo. Por meio do projeto ‘Da Escola para o

alega o coordenador do Pacto. Ao mesmo tempo, não adianta

Mundo’, a instituição convida cada aluno para colocar em prática

ter os melhores pensadores se o processo de ensino não

seus projetos de vida, valorizando suas próprias características.

desenvolve as habilidades mais importantes na sociedade atual.

O projeto já rendeu uma websérie intitulada ‘Meu mundo

É preciso preparar os novos habitantes para serem nativos

no mundo’, que provoca conversas e reflexões sobre temas

digitais em todos os níveis de ensino. “Teremos de puxar todo

contemporâneos. Os estudantes participaram não apenas

o sistema para dar aos jovens a capacidade de se inserir em um

como convidados, mas também na produção da série:

mundo que estará em plena transformação”, sustenta.

sugeriram temas e buscaram perfis de colegas ou membros da

Para reunir ideias, o Sinepe/RS criou, no ano passado,

comunidade escolar para que fizessem parte das gravações.

um grupo de trabalho que será ampliado para todas as

O colégio promove outras ações de desenvolvimento

escolas particulares de Porto Alegre. Membro do Conselho

de habilidades relacionadas a liderança, inovação e

Consultivo do Pacto, Mônica Timm de Carvalho propõe três

empreendedorismo. São clubes de aprendizagem, nos quais os alunos se dedicam às áreas em que mais têm interesse. Um exemplo é a Grow Cube, incubadora de negócios voltada para

uma iniciativa da cidade e liderança de uma ação inovadora,

estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental e Ensino Médio. DIVULGAÇÃO COLÉGIO FARROUPILHA

ações para as escolas que pretendam colaborar com o projeto: estabelecimento de processos de cooperação, filiação a

Juntos pelo Pacto Queremos ouvir as escolas! Para integrar o grupo de trabalho organizado pelo SINEPE/RS, entre em contato: secretaria@sinepe-rs.org.br. A participação é aberta a todos os associados.

/// Farroupilha convida alunos a colocar em prática seus projetos de vida

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


38 /// DIVERSIDADE

Os sinais do TDAH em sala de aula POR VÍVIAN GAMBA

S

aber diferenciar uma dificuldade de aprendizagem de

passageira, enquanto um transtorno de aprendizagem

um transtorno, buscar um diagnóstico preciso e fazer

é persistente e aparece desde os estágios iniciais da

a intervenção apropriada podem ser determinantes na

escolaridade. Pode ficar mais ou menos evidenciado em

caminhada escolar de uma criança. Não é raro imaginar que

função da metodologia utilizada pela escola, do seu grau de

um transtorno dessa ordem esteja relacionado a um quociente

exigência e do tipo de avaliação que ela faz. “Uma escola que

de inteligência baixo, mas não é verdade. Prova disso são os

valoriza muito a leitura e a escrita desde os anos iniciais talvez

testes que muitas vezes indicam até um QI acima da média.

tenha mais condições de apontar alguma dificuldade do aluno.”

“As famílias se assustam e ficam angustiadas quando o

Uma dificuldade de aprendizagem pode ser causada

filho que parecia tão esperto, tão inteligente, de repente entra

por problemas da escola, uma metodologia inadequada

na escola e não consegue aprender, não lê direito ou não

ou mesmo uma situação familiar em razão da qual o

consegue escrever. Suspeitam da sua capacidade intelectual.

aluno não está tendo as condições adequadas para chegar

No entanto, isso é uma coisa bem estabelecida: o transtorno de

ao sucesso na aprendizagem. O transtorno, por sua

aprendizagem não significa pouca inteligência. É importante

vez, corresponde ao neurodesenvolvimento da criança;

desmitificar”, alerta a professora da área de Psicopedagogia da

não é circunstancial, tem origem biológica. Mais um

Faculdade de Educação da Ufrgs e doutora em Psicologia pelo

comparativo: as dificuldades podem estar circunscritas a

Instituto de Educação da Ufrgs Helena Vellinho Corso.

uma determinada tarefa, matéria ou algum período da vida

E como saber quando se trata de uma dificuldade

escolar; já os transtornos de aprendizagem vão afetar uma

de aprendizagem, apenas? A dificuldade é de percurso,

habilidade específica, entre as habilidades acadêmicas-


39 chave – leitura, escrita ou matemática – ou mais de uma. Além disso, as dificuldades de aprendizagem podem ser secundárias a outros quadros diagnósticos, como déficit de atenção ou transtorno do espectro autista (TEA). “Já

“As famílias se assustam e ficam angustiadas. Suspeitam da capacidade intelectual do filho”, Helena Corso.

nos transtornos de aprendizagem, os comprometimentos no aprendizado não são resultado de outros transtornos,

da criança, assim como é possível fazer muito em termos de

mesmo que possam ocorrer simultaneamente”, explica

reabilitação, segundo Helena.

Helena. “Quando há um transtorno de aprendizagem, o

“O fato de ser um transtorno do neurodesenvolvimento em

aluno apresenta resultados muito abaixo do que seria

nada significa que não tenha cura, pelo contrário. Sabemos

esperado, considerados os níveis de desenvolvimento,

que um transtorno de leitura, por exemplo, afeta circuitos

escolaridade e capacidade intelectual.”

muito específicos do nosso cérebro que, contando com a

Até 2013, os transtornos de aprendizagem estavam situados

plasticidade cerebral, são passíveis de reabilitação.” Existem

na área do desenvolvimento psicológico. A última edição

estudos com imagem do cérebro mostrando o quanto uma

do ‘Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais’

ativação atípica em leitores disléxicos pode ser corrigida

(DSM-5), no entanto, já os classifica como uma desordem do

depois de uma intervenção adequada.

neurodesenvolvimento, de origem biológica. “Muito importante enfatizar, nessa definição, é que essa origem biológica supõe a

Os sinais

interação de fatores genéticos, epigenéticos e ambientais, que

Para se encaixar nos critérios diagnósticos para transtorno

vão afetar a habilidade do cérebro de processar a informação

de aprendizagem apresentados no DSM-5, a criança tem que

verbal ou não verbal de uma forma eficiente e precisa.” Ou seja,

apresentar pelo menos um dos seis sintomas, persistente

certas experiências podem atrapalhar muito a aprendizagem

por pelo menos seis meses, mesmo que sejam realizadas intervenções dirigidas para essas dificuldades. Os primeiros dois sintomas estão relacionados à leitura: imprecisão ou lentidão na leitura de palavras, o aspecto mais mecânico de decodificação do código escrito – a criança lê a palavra de forma incorreta, lenta ou hesitante, pula palavras, inverte sílabas ou tem dificuldade na pronúncia –; e dificuldade de compreender o sentido do que é lido. “O aluno pode ter uma decodificação muito adequada, ler um texto com correção, com fluência, mas mesmo assim não alcançar o significado do texto. Não entender as relações, não conseguir fazer inferências, não chegar aos sentidos mais profundos do que é lido.” Ainda sobre a escrita: dificuldades ortográficas – a criança escreve errado, acrescenta letras, omite letras, substitui letras – e uma dificuldade mais ampla, na expressão escrita – organização frágil na expressão escrita, falta de clareza na expressão de ideias. E os outros dois outros sintomas são ligados à matemática: dificuldades relacionadas com senso numérico, fatos numéricos, cálculos – pouca compreensão do número, da magnitude das relações numéricas –; e dificuldade com raciocínio matemático, ao aplicar conceitos ou procedimentos para resolver problemas que envolvem quantidades.

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


40 /// PESQUISA

Como ajudar Há pelo menos 10 anos Helena pesquisa, especificamente, a questão da compreensão e da dificuldade de compreensão na leitura. No começo, com foco no perfil neuropsicológico do aluno com transtorno de atenção e, hoje, descobertas as questões comprometidas nos alunos com baixo desempenho em compreensão, a pesquisa está ligada ao desenvolvimento e à testagem de uma proposta de intervenção que visa favorecer a compreensão dos alunos, para ser aplicada pelos professores. “Ainda está nas etapas iniciais. A gente começou a avaliar os alunos de duas classes experimentais e duas classes controle. Vamos ter esse comparativo, então, para

/// Diagnóstico é esclarecedor para a própria criança

ter certeza de que a intervenção realmente fez a diferença.” O histórico da pesquisa nessa área, que já tem algumas

mal para nenhum aluno, como é algo que todo aluno precisa ter

décadas, principalmente nos Estados Unidos, revela uma

para um bom desempenho na leitura, na aprendizagem. É uma

heterogeneidade em transtornos de aprendizagem. “Não

coisa interessante, rica e facilita a vida do professor.” O mesmo

tem como a gente botar tudo no mesmo saco. Os transtornos

com estratégias de compreensão, que sabidamente devem ser

são específicos; e compreender a especificidade é muito

ensinadas em sala de aula. “Vai ajudar sobremaneira um aluno

importante, tanto para a gente dispor de instrumentos

que tem dificuldade de compreensão e certamente promover o

para diagnosticar precisamente como para lançar mão de

desenvolvimento da compreensão de qualquer outro aluno.”

estratégias de intervenção eficazes para a questão que o aluno apresenta.” E, com essa especificação cada vez mais afinada, ficou claro que existe um transtorno circunscrito à

Importância do diagnóstico Qualquer transtorno de aprendizagem, quando não

compreensão. Estudos dimensionam algo entre 5% e 10% da

diagnosticado, pode ter um impacto negativo na vida escolar

população, afirma Helena. No entanto, na sua pesquisa inicial,

de uma criança. Helena aponta o transtorno de compreensão

com uma amostra de 110 alunos do 4º ao 6º anos do Ensino

como um exemplo. “A partir do quarto ano se espera que o

Fundamental, de escolas públicas e privadas, 17% deles,

aluno já tenha uma leitura fluente, com compreensão, e que ele

embora apresentando um desempenho muito bom na tarefa

passe a utilizar a leitura independente como instrumento de

de leitura de palavras isoladas, apresentavam desempenho

aprendizagem.” Então, para que o processo de aprendizagem

muito baixo nas tarefas de compreensão.

seja bem-sucedido, entre outras coisas, ele precisa compreender

Algo muito interessante é que a pesquisa nessa área, de modo geral, tem revelado que os recursos usados para

o que lê no livro de História, de Geografia, de Ciências. “Temos que entender que não conseguir aprender, não

ajudar o aluno com algum transtorno de aprendizagem

aprender bem, ter dificuldade para aprender, significa um

específico são úteis também aos alunos que não apresentam

sofrimento para qualquer aluno. E crianças com transtorno

nenhum transtorno. “Para ajudar um aluno com dislexia, por

de aprendizagem são inteligentes, sensíveis, têm crítica,

exemplo, eu preciso proporcionar atividades que promovam o

conseguem se comparar com o colega do lado e perceber o

desenvolvimento da consciência fonológica, a relação letra-

quanto seu desempenho está abaixo dos demais.” Questões

som, a ênfase na pauta sonora da escrita. E isso não só não faz

ligadas ao autoconceito e à autoestima também entram nesse pacote, porque elas percebem o que acontece, mas

“Não tem como a gente botar tudo no mesmo saco. Os transtornos são específicos”, Helena Corso.

não entendem o porquê. “Então, antes de mais nada, o diagnóstico é esclarecedor para a própria criança. E, claro, se seguido de um atendimento adequado, é um fator de alívio e de saúde mental, em última análise”, afirma Helena.


PESQUISA /// 41

O exercício da cidadania na formação dos professores POR LUIZ SÍVERES1 E DANIEL LUÍS STEINMETZ2 RESUMO O propósito deste trabalho é sugerir uma reflexão sobre o conceito de cidadania para a formação de professores, fundamentado em três contribuições teóricas, e propor uma reflexão prospectiva para a formação das novas gerações pelos docentes. O primeiro olhar é direcionado para a cultura grega, no sentido de perceber suas expressões de cidadania; o segundo horizonte será definido pelo estudo filosófico de Lima Vaz (1999); e o terceiro se relaciona à percepção de professores que estão atuando na formação de professores. Tendo como referência essas contribuições, deseja-se fazer algumas reflexões acerca da cidadania, como um exercício que pode contribuir com a formação de professores na contemporaneidade. Palavras-chave: Cidadania, docência, formação. A primeira abordagem retoma o entendimento de cidadania vivenciada pelos gregos, isto é, uma teoria que deveria estar vinculada à práxis. A experiência da polis grega é considerada a primeira organização da vida política da cidade-estado, em sua forma mais significativa no mundo antigo. Os gregos são considerados o povo com o qual começou a ser sistematizada, tematizada e organizada a vida na polis, isto é, nas cidades e nos povoados que eram mais significativos à época, mais especificamente em Atenas e Esparta. Eram cidades com grande ebulição econômica, cultural e

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


42 /// PESQUISA

religiosa e, por causa dessas categorias, as cidades gregas foram identificadas pelo conceito de civilização. Segundo Mossé (2004, p. 7), “civilização vem do latim civis, cidadão. Em grego, ‘cidadão’ se diz polites, aquele que pertence à polis, à cidade-estado, de onde vem o termo ‘política’”. Basta dizer que a civilização grega é, antes de mais nada, civilização da polis, civilização política. Com base nesse enunciado, pessoas da cultura grega tinham a necessidade de se definir como cidadãs ou não cidadãs, e disso decorria o entendimento da civilização da polis, ou ainda, o espaço do cidadão livre. Os cidadãos eram, portanto, aqueles que estavam livres dos afazeres domésticos e se ocupavam das questões da cidade. Podiam ter grandes posses, inclusive escravos, o que favorecia a independência econômica. Por outro lado, os não cidadãos

se, portanto, na fundação da cidade-estado, na qual o

eram aqueles que não pagavam impostos, por não terem

exercício da cidadania era feito por cidadãos livres.

propriedades ou não terem funções “dignas” e visíveis por parte dos cobradores de impostos. Os cidadãos tinham grandes regalias, tais como o poder

O argumento da ideia de um povo com um poder constituinte da cidadania é percebido por Abrão (1999, p. 23), ao afirmar que “os destinos da polis são de responsabilidade

de voto, eram consultados para legitimar alguma lei ou

de todos os cidadãos, acima dos quais não há nada, a não ser

imposição sobre o povo. Ser um cidadão era possuir prestígio

as leis que eles mesmos elaboraram”. A base da cidadania

e reconhecimento, e todos tinham o desejo e se esforçavam

grega, embora excludente porque dela só participavam

para chegarem a ser cidadãos atenienses ou espartanos.

cidadãos livres, foi se afirmando como um projeto de cidadania

Dessa forma, “quando Aristóteles definiu o homem grego

participativa, pela qual se exercitava, plenamente, a cidadania.

como um zoon politikon, um animal político, foi precisamente esta realidade que ele expressava” (MOSSÉ, 2004, p. 7). O exercício da cidadania na Grécia era estabelecido por

A segunda abordagem sobre a cidadania é acoplada à visão de Henrique Cláudio de Lima Vaz (1999), padre jesuíta, professor, filósofo e humanista brasileiro. Uma das grandes

três elementos fortes, sem os quais não se sustentava o

contribuições desse pensador contemporâneo foi a proposta

cumprimento do dever cidadão. Um dos pontos era a idade.

de agir racionalmente e, nesse exercício, vincular a ética e a

Qualquer pretenso cidadão precisava cumprir 21 anos, sinal de

moral para desenvolver um olhar de liberdade sobre o mundo,

maturidade e de ponderação. O segundo ponto era a filiação, a

a natureza e o ser humano. A livre ação, pautada sobre a

partir da qual o futuro cidadão deveria ser descendente de um

verdade, obriga o pensante a agir em uma liberdade moral,

pai grego que fosse portador de uma boa conduta, não incorrer

adaptando-se às mais variadas formas de agir que necessitam

em situações que maculassem sua carreira e deliberações que

ser compreendidas e praticadas. Segundo o autor,

tivessem que tomar na sua nobre função. O terceiro e último ponto era o direito. Por meio dele, quem preenchesse os dois

Por outro lado, aos olhos da Razão, o Bem sendo

primeiros elementos, idade e filiação, teria o direito de ser

o melhor, necessariamente obriga ou liga o

cidadão, tendo todas as credenciais para isso. Considerando estes três atributos da cidadania grega,

indivíduo que age racionalmente. Necessidade moral ou ética que, longe de opor-se à liberdade, é

entre tantos outros, pode-se inferir que a cidadania é um

sua lei interior, pois é na sua relação constitutiva

direito do cidadão que, por um lado, é herdado da família ou

com o Bem que a liberdade se realiza na sua

da sociedade e, por outro, é construído no cotidiano por meio

verdade como liberdade moral. Daqui procede

da diversidade de ações públicas. O espaço público da polis,

uma das categorias fundamentais da ética, a

vinculado à dimensão pessoal, familiar e social, configurava-

categoria da obrigação (LIMA VAZ, 1999, p. 73).


43 A partir desse entendimento, o conceito de cidadania em

formação e na prática docente.

Lima Vaz é desenvolvido como referência a uma ação ética da

As implicações práticas na formação de professores,

pessoa na sociedade. Todo indivíduo ético tem a possibilidade

baseada no contexto atual, segue distintos modelos e tem

de desempenhar a sua cidadania, por ser uma convivência

como referência diversas teorias. Porém, num contexto de

adaptável a qualquer forma de vivência. Na rigidez da lei, a

fragilização da cidadania, a proposta de um projeto formativo,

pessoa ética se adapta por ser uma cumpridora de normas;

no qual a participação efetiva dos sujeitos educativos, por

por outro lado, numa situação de fragilidade ou dificuldade de

meio da articulação da ética, bem como da prática dos valores

convivência, a ética se sobressai como referência de ação.

pessoais e sociais, poderia contribuir com o exercício da

Arce (2006, p. 15), tomando como pressuposto o

cidadania no processo de formação de professores.

pensamento filosófico de Lima Vaz (1999), escreve que

A formação de valores e a prática de referenciais éticos e estéticos poderão ajudar na retomada desse viés da cidadania.

A ciência do ethos tem como base uma estrutura

Dessa forma, dominar os conceitos da cidadania, na ausência

lógica na qual se localiza a relação entre o ethos e

de uma prática coerente com esses referenciais, pode se tornar

a práxis. No ethos estão presentes os fins da ação

uma vã filosofia e continuar sendo ineficaz na prática docente.

ética que só se realizam na ação como perfeição do

Por fim, a cidadania na prática docente, aponta para um

sujeito, comunidade e mundo ético objetivo na sua

melhor entendimento dos meandros do pensamento como

singularidade. Essa realização ocorre no movimento

referenciais teóricos. Mas, sobretudo, indica que a cidadania se

dialético de autodeterminação do universal, ação

constrói pela compreensão também, na prática, do movimento

virtuosa, mediada pelo ethos como hábito.

de construção desse mesmo conceito. Aprende-se a ser cidadão no embate da ágora, o espaço público por excelência,

Se a ética tem necessidade de se tornar hábito, tanto mais a cidadania tem isso como objetivo a ser alcançado. Toda ação humana, numa dimensão cidadã, tem essa necessidade da liberdade no convívio coletivo do cotidiano para ser como que uma ação natural, livre e sem amarras legais de atitude ou de consciência, sendo uma ação livre e propositiva. A terceira percepção está pautada na contribuição de professores que percebem a necessidade de entender que a docência é uma atividade de cidadania. Diante de distintas manifestações, torna-se oportuno acolher a sugestão de um professor de uma escola básica de Brasília: “precisamos nos comprometer com os direitos e deveres; ensinar a serem honestos e terem respeito, mostrar, abordar e exemplificar

que ainda hoje nos dá as referências da formação eficaz. Pós-doutorado em Educação e Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília. Mestre em Educação pela Universidade Católica de Brasília. Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Especialista em Aprendizagem Cooperativa e Tecnologias Educacionais pela Universidade Católica de Brasília e Especialista em Psicoterapia Junguiana pela Faculdade de Saúde de São Paulo. Atualmente é professor no programa de pós-graduação em educação da Universidade Católica de Brasília. luiz.siveres@gmail.com 2 Doutorando em Educação pela Universidade Católica de Brasília. Mestre em Educação nas Ciências pela UNIJUI. Licenciado em Filosofia pela UNILASALLE Canoas. Pós-graduação em Administração e Planejamento escolar pela UNILASALLE. Pós-graduação em Marketing Empresarial pela FASUL Toledo Pr. Daniel.steinmetz@lasalle.org.br 1

valores”. Pode-se compreender, portanto, que hoje ser cidadão é ensinar e exemplificar valores, assim como comprometer-se com direitos e deveres do ser humano, de modo geral. Assim sendo, a cidadania se torna um valor na

“Ser cidadão é ensinar e exemplificar valores, assim como comprometer-se com direitos e deveres do ser humano, de modo geral”

Referências ABRÃO, Bernadete Siqueira. História da filosofia. São Paulo: Nova Cultura, 1999. (Os Pensadores). ARCE, Enrique Viana. A ética do conflito em Henrique Claudio de Lima Vaz, Josep Maria Puig e nos PCNs. 2006. Tese (Doutorado em Educação) – , Faculdade de Educação, Universidade de Campinas, Campinas, SP, 2006. MOSSÉ, Claude. Dicionário da civilização grega. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de filosofia IV: Introdução à ética filosófica 1. São Paulo: Loyola,1999.

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