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Flávio Tomé

EVANGELHO QUÂNTICO SE VOCÊ PROCURA CERTEZAS, NÃO AS ENCONTRARÁ NA CRIAÇÃO


Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica Paulo de Tarso Soares Silva Editora Kiron

Criação e Editoração Eletrônica da Capa Paulo de Tarso Soares Silva Editora Kiron

Revisão Ana Lara T.C.T. Impressão e Acabamento Editora Kiron (61) 3563.5048 | www.editorakiron.com.br

Planejamento

05-2418 Tomé, Flávio Evangelho quântico: se você procura certezas, não as encontrará na criação / Flávio Tomé. – São Paulo : F. Tomé, 2012. ISBN 978-85-905127-6-9 1. Romance. 2. Filosofia. 3.Ficção. 4.Literatura brasileira. I. Título CDU 82-31 + 101


Agradecimentos

Este livro só aconteceu por que um sem número de luminares cientistas dedicou suas vidas à pesquisa incansável, sobre o universo e a sua criação. Suas descobertas nos esclareceram que nada sabemos com certeza sobre qualquer assunto. Nem mesmo sabemos se estamos vivos ou somos uma miragem. Só nos resta trabalhar a ficção esperando que algo dela possa instigar mais cientistas a buscar as verdades do universo e também despertar a curiosidade das pessoas comuns, como eu próprio, para os incontáveis mistérios que nos cercam. Meus agradecimentos carinhosos a todos eles prometendo que continuarei tentando acompanhar e entender os seus trabalhos. À minha esposa e consultora Ana Lara, meus filhos Marcelo, Renato e Thiago que sugeriram correções de rota e aos meus netos Yuri e Enzo. Não posso deixar de lembrar da Suzana Pellicciotta que teve a paciência de ler e opinar sobre os primeiros escritos.

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Sumário

NOTAS DO AUTOR ................................................................................. 7 ANTE PROLOGO ..................................................................................... 9 PRÓLOGO ................................................................................................15 Capítulo 1 ..............................................................................................19 Capítulo 2 ................................................................................................25 Capítulo 3 ................................................................................................37 Capítulo 4 ................................................................................................61 Capítulo 5 ................................................................................................89 Capítulo 6 ............................................................................................. 177

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NOTAS DO AUTOR

A ideia deste livro começou a tomar corpo em uma reunião informal com alguns membros do partido verde, conversávamos sobre a dificuldade do crescimento dos partidos verde em todo o mundo, foi colocado que isso poderia ser atribuído a que uma grande parte da sociedade não compreendia bem o assunto meio ambiente por ser muito abrangente. Eu observei que o partido estava bem estruturado, mas a bandeira que carregava precisava ser ajustada a objetivos bem focados e de fácil compreensão. Citei como exemplo outra agremiação política que cresceu muito rápida, simplesmente por ser fiscalizadora. Ora, tendemos sempre acreditar que algo está errado, mesmo que não haja comprovação, e nada melhor do que fazer parte de um grupo que solicite correções sem se preocupar com a solução do problema. Basta denunciar, exigir e cobrar que os descontentes, que são muitos, seguem o líder. Então fui questionado sobre o que eu recomendaria para consertar a situação. Como dar foco e cores vivas à bandeira desbotada dos partidos verde? Eu enxergava uma solução bem simples na idealização, mas de implantação complexa, pois a ideia mal empregada poderia gerar inúmeros conflitos e imagem negativa. O PV não protege a natureza? A natureza não é uma Criação divina? Portanto o PV defende a Criação divina. Somos soldados do Criador! Ou você apoia o PV ou está contra o Criador! Sai da reunião pensando que ninguém poderia ser contra esta bandeira e resolvi escrever um texto simples para expor melhor a ideia. Proteger a Criação é consenso mundial? Sim! Mas... O que é a Criação? E aí tudo começou a se complicar... Consultei um sem número de textos e fui surpreendido com a quantidade de material de excelente qualidade bem escrito e fundamentado. Entre eles posso

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Evangelho Quântico citar alguns que deveriam fazer parte da leitura dos interessados pelo tema, posso citar entre eles o livro: A breve história de quase tudo, escrito por Bill Braison, a Fórmula de Deus escrito por José Rodrigues dos Santos. Algumas colocações interessantes feitas pelo frei Leonardo Boff nas suas obras, incluo aqui também as famosas palestras feitas por Prem Rawat e pela Dra. Jill Bolte Taylor neurocientista de Harvard. Impossível esquecer os trabalhos do Dr. Stephen Hawkins, do filósofo Osho e dos inúmeros programas científicos exibidos na TV, tal como o fazem o History Channel, o National Geographic, o Animal Planet e outros. Incluo também nesta lista inúmeros escritores impossíveis de nominar que transformam ciência complexa em ficção e concepções filosóficas de fácil entendimento para nós leigos, entre eles, posso citar Richard Bach.

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ANTE PROLOGO

A verdade é uma afirmação relativa e subjetiva que depende da concepção de cada um. Ela se apresenta em quatro vertentes principais: dogmáticas, verdades por convicção, filosóficas e científicas. 1. Dogmáticas – a religião afirma e o crente deve acreditar sem contestar. 2. Verdade por convicção - Se todos dizem que é ou foi assim, então eu acredito. 3. Filosóficas – São as que se originam do raciocínio dedutivo, como os filósofos antigos sabiam fazer muito bem, e dessa forma, pensando, descreveram o átomo e nos colocaram dúvidas sobre a Criação, o sentido da vida, e prenunciaram a física quântica entre tantos outros assuntos. 4. Científicas – Originam-se de dúvidas que dão origem a questionamentos, que são convertidos em experimentos que repetidos inúmeras vezes proporcionam sempre as mesmas respostas. Porém podem se originar de dados equivocados, obtidos de forma imprecisa, tendenciosa ou ainda terem partido de suposições mal formuladas. Entretanto, de todas, estas são as mais críveis. Muitos dos dados científicos obtidos em experimentos convencionais, fundamentados na física clássica, registram o que aceitamos como verdades durante a nossa existência. Comprovam matematicamente o mundo como o percebemos e nos permitem usufruir dessas descobertas que são aplicadas em inúmeros inventos que facilitam nosso dia a dia. Entretanto, a cadeira que está ao seu lado existe? E a mesa a sua frente está ali onde você a vê? As paredes de tijolos podem ser atravessadas como se

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Evangelho Quântico fosse apenas produto da sua imaginação? As pessoas queridas com quem você convive são reais? Bem... Para sua tristeza não é o que a física quântica sugere. Você e tudo mais pode ser um produto da sua sugestão e da sugestão coletiva. Filósofos da antiguidade, tal como nos denominados paradoxos de Zenão, um filósofo que viveu nos anos 400 AC e cujo método consistia na elaboração de paradoxos que refletiam sobre a multiplicidade, a divisibilidade e o movimento. Explicava que o tempo e o espaço nada mais eram que ilusões, pois se podemos dividir ou multiplicar o espaço e o tempo até o infinito, então vivemos no infinito, portanto vivemos no infinito e nosso mundo, incluindo nós mesmos, não ocupa nenhum espaço no universo, portanto... A mecânica quântica, conhecida pela teoria da incerteza, originou-se como ciência física, denominada dessa forma por um dos seus descobridores porque ela produz efeitos que utilizamos no dia a dia, mas não compreendemos como acontecem. As possibilidades que a quântica apresenta contraria quase tudo o que estudamos. Um bom exemplo disso são as aplicações dela utilizadas pela indústria da informática nas suas tecnologias e que faz funcionar a maioria dos aparelhos de transmissão de dados e comunicação que conhecemos, ela é aplicada nos foguetes espaciais, no forno micro-ondas, no celular, na TV que você assiste e até no veículo que você dirige. A física quântica virou de cabeça para baixo todo o nosso entendimento, pois ela demonstra, desde 1950, que você pode ter infinitas vidas acontecendo ao mesmo tempo em dimensões diferentes e que ainda pode estar vivo em umas e morto em outras. Tudo no universo surpreende os cientistas continuamente. Quando imaginavam que o universo estava perdendo velocidade na sua expansão, o universo os espanta mostrando que a expansão continua e a velocidade dos corpos está aumentando, ou seja, os planetas estão se distanciando entre si cada vez com uma maior velocidade. Nem mesmo sabemos se a velocidade de transmissão da luz é a maior velocidade possível no universo como nos fizeram aceitar até hoje. De Einstein a Stephen Hawking conhecemos a possibilidade teórica de retornarmos ao passado ou seguirmos para o futuro e de nos tele transportarmos de um para outro lugar como na ficção científica. Desconstruímos o objeto ou corpo aqui e remontamos ali do outro lado. Permita lembrar que a maioria das ideias criativas dos ficcionistas, no decorrer do tempo, transformou-se em realidade. Nossa compreensão dos fatos é tão limitada que impede que imaginemos as extensões existentes entre os planetas, galáxias e conglomerados de estrelas, cuja distância entre estes últimos pode alcançar bilhões de anos luz, ou seja, uma nave deveria viajar bilhões de anos a velocidade da luz para alcançar o mais próximo conglomerado de estrelas. Nem mesmo conseguimos reproduzir um mapa do

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Flávio Tomé nosso sistema solar que represente minimamente as distâncias entre os corpos celestes que existem nele. O que você vê é uma representação que não obedece nenhuma escala. Aliás, ainda não sabemos com certeza nem mesmo se Plutão é um planeta. Hoje neste século XXI sabemos, entretanto, que é possível que existam muitos universos e não um único. Que o nosso pequeno planeta está destinado a passar por novas eras glaciais, transformar-se em uma bola de fogo, ser atropelado por asteroides que cruzam o caminho dele diuturnamente, e que a humanidade é uma das inúmeras formas de vida que se fixou por aqui e pode muito bem ser extinta e trocada por outra espécie a qualquer momento. Posso lembrar ainda que o eixo da Terra está se inclinando, que o campo magnético está se alterando, como faz de períodos em períodos, e que tudo isso pode nos ser fatal. Nem vamos pensar no Sol, que a qualquer momento pode mudar seu procedimento por infinitas razões desconhecidas para qualquer um de nós, e acabar com a nossa civilização em segundos. Estamos nos enganando e sendo enganados pela falta de conhecimento. Sabemos muito pouco e em alguns casos até mesmo nada, sobre a profundeza dos oceanos, a formação dos mares e da água que temos na superfície, a formação do planeta em que vivemos e do universo como um todo. Não sabemos, lembre-se, se existimos, se possuímos livre arbítrio, nada sobre existência do Criador e o que é simplesmente o conceito de liberdade. São assuntos que a humanidade discute a milhares de anos sem chegar a um consenso. Somos imortais? Alguns afirmam que sim e o que mais se aproxima da verdade é que como somos formados por átomos, quando o corpo deixar de existir eles vão se incorporar as demais formas do universo compostas também dos mesmos átomos. De outro lado, como a consciência ou alma, que acreditamos ser formada de pura energia, e por isso obedece às leis da mecânica quântica, ela quando não mais se manifestar por meio do corpo físico vai se incorporar à energia universal. Que acreditamos sempre existiu, e que a sua quantidade nunca foi alterada desde o início de tudo. Não podemos esquecer que não sabemos com certeza como esse tudo começou. Se os átomos que compõe o corpo físico vão continuar existindo, se a energia da nossa consciência ou alma sempre existiu e continuará existindo e se podemos concluir que: Somos imortais! Mas esses não são motivos para nos deixar deprimidos. Tudo e muito mais sobre as diversificações de quaisquer desses assuntos podem ser pesquisadas na internet, ou se preferir audiovisualmente, nos canais de TV especializados tal como o National Geographic, History Channel, entrevistas gravadas com cientistas e muitos outros.

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Evangelho Quântico A ciência e as religiões aos poucos estão se encontrando. Einstein foi o primeiro a buscar correlação nas informações bíblicas e de outras religiões com os fatos científicos. Conseguiu estabelecer que o mundo poderia mesmo ter sido criado em sete dias como as antigas escrituras dizem. Adaptando o tempo de um dia atual ao da época do Big Bang - O início de tudo como citado no Genesis Cada dia bíblico equacionado de acordo com velocidade causada pela explosão e a massa contida nela, ele chegou a conclusão científica que um dia naquela época equivalia a bilhões de anos que conhecemos. Portanto cada dia nosso atual equivaleria a bilhões dos daquela época. Como isso foi possível? Simples. Hoje sabemos que o tempo decorre de forma diferente quando se aumenta a velocidade ou se está sobre uma grande massa. Está provado que para um astronauta viajando em um foguete em alta velocidade e para uma pessoa que estivesse sobre a superfície de Júpiter - massa maior que a da Terra - o tempo passaria mais devagar do que para alguém aqui na Terra. No início do Big Bang a concentração de massa era gigantesca e a velocidade da explosão imensurável e por isso o tempo passava muito devagar. Contudo ainda não temos certeza se o provável Big Bang existiu. As conclusões de Einstein podem ter dado início a noética que é uma ciência nova e pouco conhecida e que busca encontrar similaridade entre os textos sagrados de diversas religiões com a ciência. É interessante conhece-la. Ela foi desenvolvida na universidade de Princeton – USA. Não vamos descrever neste prólogo o conceito de espaço-tempo, tempo curvo ou mesmo que ele sofre compressão dependendo da velocidade em que nos encontramos. O que hoje baliza toda a nossa ciência ainda não é ensinado nos bancos escolares, talvez por falta de atualização dos nossos mestres. Se eu não entendo, como posso transmitir? Escrevi este texto desejando despertar a curiosidade do leitor e preparálo para as novas descobertas vem por aí. Um bom motivo é levá-lo a encontrar explicações para as inúmeras questões que permanecem em segredo, bem como auxiliar quem se interessar em abrir novos caminhos para a compreensão. Lembrese que nem sempre são os grandes intelectuais que encontram a resposta para inúmeros e complexos problemas do universo, a história está repleta de pessoas comuns que solucionaram grandes questões. Até mesmo em muitos casos o pesquisador ao investigar um assunto encontra resposta para outro. O acaso é um fator imponderável que norteia talvez a maior parte das nossas vidas. Não podemos deixar de valorizar aqueles que trabalharam não lograram êxito em encontrar solução para um problema. Lembre-se que eles evitaram que os que vieram depois não seguissem os caminhos errados já tentados. Pouparam tempo e custos para eles.

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Flávio Tomé Enfim, a única conclusão sábia que chegamos é que a única coisa que sabemos é que sabemos muito pouco sobre tudo. Que a humanidade vai encontrar no futuro novas formas de governo, de religiosidade e de convivência com todas as espécies, conhecidas ou não. Somos formados pela mesma energia que circula por todos os universos e podemos concluir que não existem seres inanimados na Criação, tudo vive, a diferença está apenas em que a energia que consideramos alma ou consciência nos seres humanos e explicamos como vida, em algumas partes da Criação ela vibra em tempo diferente e em muitas espécies não nos é inteiramente perceptível. O impossível acontece todos os dias a partir do momento em que abrimos os olhos quando acordamos e temos a sensação de que poderemos fazer o nosso dia como quisermos. Essa é a mágica da vida!

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PRÓLOGO

A observação da Criação mostra que tudo é provável, entretanto provavelmente ninguém conseguirá provar nada com certeza. Em nosso futuro até o aleatório – o acaso - pode estar determinado, porem jamais conseguiremos saber o que irá acontecer. Ao pesquisar as sociedades e as religiões, observei que códigos comportamentais, leis e dogmas, concordam em um ponto: Proteger a Criação e a sua evolução. Considerando a Criação como tudo que existe, percebido ou não pelos nossos sentidos. Uma grande parte dos seres humanos acredita que em determinado momento o universo teve início – explosão conhecida como Big Bang – e foi criado por uma força maior. Hoje aceitamos também que tudo no universo está interligado pela mesma natureza de energia, que todas as partes do universo são interdependentes uma das outras e que tudo está em continua alteração, se adaptando e evoluindo. Degradar o que existe ou impedir a evolução significa interceder nos processos que afetam nossas próprias vidas. Qualquer ato negativo contra a Criação se voltará contra nós mesmos. O entendimento da humanidade em como proteger a Criação e a sua evolução foi se alterando com o correr dos anos e se adequando aos interesses de indivíduos e autoridades, como qualquer um de nós sabe. A missão de proteger a Criação transformou-se em compêndios de regras que obedeceram a valores das suas épocas, hábitos locais e de organizações que buscavam cooptar novos seguidores para expandir. Os compêndios ramificaramse em infinitas interpretações pessoais, conservando, entretanto, o foco em reverenciar e proteger a Criação. Assuntos polêmicos como este apresentam inúmeras divergências de compreensão e de interpretação pelo tratamento emocional que carregam na

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Evangelho Quântico forma de dogmas, de verdades por convicção, ou mesmo pela tentativa de fazer com que leigos entendam explicações científicas compreensíveis apenas por especialistas. Dogmas carecem de fundamentação porque tratam de mistérios divinos que são improváveis e inexplicáveis para a ciência, mas os fiéis devem acreditar por obrigação de culto. Verdades por convicção são aquelas que se todos acreditam eu também devo acreditar. Finalmente, surgem explicações científicas que muitas vezes nos são colocadas de forma complexa, e por serem de difícil compreensão geram polêmica até mesmo entre os próprios cientistas. A crença dogmática e a por convicção tem origem na transmissão de supostos fatos acontecidos, transmitidos de pessoas para pessoas e, que por sofrerem alterações temporais que distorcem a realidade perdem em credibilidade no decorrer do tempo. A que nos é transmitida por trabalhos científicos encontra como seu principal obstáculo a dificuldade que a maioria das pessoas tem para entender aquilo que suplanta o conhecimento básico necessário para compreender a linguagem científica. Some-se a isto o fato que os cientistas estão descobrindo e nos transmitindo novas ideias em uma velocidade muito maior do que nossos professores e nós mesmos conseguimos absorver. Outro fato que produziu o volume imensurável de interpretações sobre o Proteger a Criação e a sua evolução é a educação quantitativa que não ensina a pensar dedutivamente nem a contestar, mas sim a aceitar o conhecimento fornecido, engessado e pronto para o consumo. Uma frase atribuída a Thomas Edison explica de forma jocosa o comportamento humano com relação a fazer esforços introspectivos. Ela diz que: 5% das pessoas pensam; 10% fingem ou acreditam que pensam e 85% preferem morrer a pensar. Cada vez mais o excesso de informação que recebemos e de afazeres que somos obrigados a executar no dia a dia nos impede de dedicar uma atenção maior a tudo aquilo que não está ligado a nossa sobrevivência imediata, ficando para uma segunda instância buscar entender os mistérios da vida. Somos parte do universo e tudo que nele interfere influi direta ou indiretamente no curso das nossas vidas, assim sendo, nada mais inteligente do que tentar compreender o seu funcionamento para facilitar nossa caminhada na vida. Ao não abrir nossas mentes para discutir e entender o que acontece no universo, e nos deixar levar apenas pelas explicações recebidas sem contestá-las, estamos abrindo mão de saber quantos caminhos temos para escolher e o de escolher o caminho que mais nos convier. Se não escolhermos nossos caminhos alguém os escolherá por nós. Se não decidirmos como viver a nossa própria vida, alguém a estará vivendo por nós.

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Flávio Tomé A verdade criada e elaborada por alguns, tem menos vigor do que a que provem de estudos comprovados, obtidos de respostas que o universo dá às nossas perguntas científicas bem formuladas. A desconfiança proativa e positiva salva mais do que a fé incontestável ou a submissão a falsas verdades.

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Capítulo 1

Todos os dias, como todo mundo, eu ia de casa para o escritório e vice versa. A rotina do caminho era mais extenuante que o trabalho na agência de comunicação, onde apesar de ter me graduado em jornalismo, eu gerenciava o departamento de propaganda. O incessante fluxo de automóveis serpenteava até um sinal de trafego bem lerdo que impedia o acesso fácil para o outro lado da avenida, onde ficava a continuação do caminho para a minha casa. Quase dava para apalpar a lentidão do trânsito. A longa fila de motoristas rumava quase parada em direção ao lerdo sinal. Todos, como eu, demonstravam no rosto a falta de tempo para chegar ao seu destino ou até mesmo que tinham tempo marcado para cumprir alguma outra missão do dia. Acontecia um verão pleno de temperaturas altíssimas. O suor escorria pelo meu rosto sem parar. Eu me sentia como carne posta para desidratar ao sol. Alguns diziam que era o tal do aquecimento global. O ar condicionado do carro não dava conta de me resfriar. Meu mau humor escorria pelas roupas junto com o suor, não permitia nem que eu aproveitasse aquele tempo trancado no veículo para pensar, estar comigo, sonhar nem que fosse com um banho gelado e uma bebida idem. O motorista logo à frente demorava para sair e retardava os que vinham logo atrás como eu. Eu aproveitava para sonhar em colocar o carro dele, com ele dentro, em baixo de uma prensa gigante até virar uma chapa fina. Eu buzinava e reclamava do sinal luminoso que demorava a abrir, dos motoristas mais lerdos que o sinal, dos vendedores de doces e de outras tralhas e bugigangas e de quem mais estivesse no meu campo de visão. Todos os dias quando acordamos podemos fazer nosso dia bom ou mau. Depende de cada um de nós interpretar o que vemos como fatos auspiciosos ou maléficos e prejudiciais para nossa existência. Um dia cinzento pode ser visto

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Evangelho Quântico como bom para meditar, conversar, tomar um bom vinho ou como uma agressão do meio ambiente ao meu humor. Hoje eu estava vendo tudo com os olhos do Darth Vader, o lado negro da força! A tecnologia grudou um telefone em cada pessoa e agora falávamos uns com os outros o tempo todo. O telefone tocava e era alguém me cobrando de algum esquecimento no escritório, de parar para comprar alguma coisa para levar para casa, o filho querendo dizer algo sobre o seu dia de escola, a esposa alertando para a hora do jantar e eu querendo sumir debaixo da capa de invisibilidade do Harry Potter. Qual o sentido da vida se tudo parece ser uma rotina que nos envolve assim que adquirimos compreensão do mundo? No tempo em que o diabo esfrega um olho passou pela minha cabeça ermitar no Alaska, me enfiar dentro de uma geleira, longe de tudo e todos... Ao menos era um pensamento refrescante. O tempo abafado estava mudando, nuvens espalham-se pelo céu como óleo queimado - Vai começar a chover. Tudo vai ficar alagado e o transito que era lerdo vai parar - Uma mosca que pegou carona no carro teimava em querer pousar na minha cara. Para somar a tudo isso o motor do carro novo tossia provavelmente engasgado com o combustível adulterado para aumentar o lucro do ganancioso dono do posto onde abasteci o carro. Olho para o lado pensando em subir na calçada gramada e passar por cima do jardim florido do outro lado da avenida. Talvez descobrisse um caminho novo, um atalho, uma rota de fuga desse inferno. Sentado na grama entre eu e o meu desejo de passar por cima do passeio vejo um mendigo debaixo de uma árvore, curtindo ainda um pouco da sombra que antecederia a tempestade. Ele parecia estar em uma praia francesa. Roupa amarfanhada, pernas das calças arregaçadas, barba comprida, descalço – os chinelos estavam jogados ao lado – com jeito de quem não tomava banho há dias e escrevendo. Escrevendo? Escrevendo como se o mundo fosse acabar logo mais à noite. Escrevendo sem parar. Notei uma pilha de cadernos próxima e um cachorro magro encolhido ao seu lado, dormindo. Sua fronte era tensa, era pensa como se estivesse escrevendo um texto muito importante. Sinal verde! Era a minha vez de passar. Eu nem havia notado que durante algum tempo o carro ficou como se estivesse no piloto automático, todos andaram e havia chegado a minha vez. A imagem do mendigo ficou gravada em minha mente. Como podia alguém ser tão desprendido? O que será que o maluco estava escrevendo tão intensamente? E o mais interessante era que o mundo aqui fora parecia não fazer parte da sua existência. Nem o calor parecia afetá-lo.

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Flávio Tomé A partir daquele dia sempre que eu passava por aquele canteiro olhava e via a figura do mendigo escritor, sempre compenetrado, escrevendo alheio a tudo e a todos. Observei-o por semanas. Mesmo em um domingo quando resolvi levar meu filho para passear em um parque público desviei meu caminho para ir ver se o tal mendigo estava ali. Ele estava. Deitado na grama, de barriga para o alto abraçava o cachorro magro e parecia procurar figuras nas nuvens! No escritório durante o dia minha curiosidade aumentava e por vezes me pegava olhando para fora da janela, hipnotizado, pensando no mendigo: Será que era um escritor falido? E a família? Não sentia falta de nada? Do que vivia? Como vivia? E, principalmente o que escrevia? Ou era simplesmente mais um desses malucos de pedra que habitam as ruas e de que tanto ouvimos falar! Uma das minhas atribuições era redigir textos para serem divulgados pelos veículos de comunicação e para anúncios criados pelo meu pessoal do departamento de arte. Formei-me em jornalismo e pós graduei em propaganda e marketing. Para mim, alguém para escrever tinha que ter informações. Os assuntos não surgiam do nada, se originavam de estudos, pesquisas e de formação técnica que produzia estilo próprio. Ninguém escrevia tanto sem ter se graduado em alguma faculdade. A não ser que escrevesse de forma incoerente sobre o nada, ou fingisse que escrevia... Para redigir uma campanha de propaganda ou escrever um artigo para uma revista, muitas vezes eu tinha que usar fórceps para tirar alguma ideia nova da minha cabeça. Cada dia que eu passava e avistava o mendigo mais curioso eu ficava e mais eu pensava nele. Em um desses dias de trânsito entupido resolvi parar em uma padariarestaurante do outro lado da rua em que ele ficava e, em pé ao lado do balcão pedi um café. Na verdade eu queria observá-lo um pouco mais intensamente, ele estava se tornando uma obsessão para mim. Ele continuava a escrever e a escrever. Seduzidos pelo dinheiro nos transformamos em máquinas corporativas. Sempre achei que todos estavam inseridos nesse contexto e que não haveria outra forma satisfatória de vida. Como alguém poderia ser feliz, como aparentava aquele mendigo, sem estar incluído nesses valores? Escrever por nada? Minha esposa sempre diz que apesar de aparentar calma externamente – talvez isso se deva aos meus cabelos cacheados como o dos anjos representados nos afrescos das igrejas e aos meus olhos azuis – meu cérebro é agitado como se fosse movido por descargas elétricas. Estou sempre em contínuo movimento, por vezes descoordenados, em razão dos meus 1,90 m de altura. Uma força que eu mesmo não sei bem o quê, move os meus dias. O mendigo - para uma alma curiosa e pesquisadora como a minha - parecia feito sob medida para

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Evangelho Quântico ocupar o meu tempo de lazer. Lazer para mim era estar trabalhando em um projeto novo. Após esse dia do café, outro dia parei para um lanche e depois para uma bebida de final de tarde que se estendeu até a noite. O anoitecer espalhou-se como cerveja derramada no balcão branco do bar enquanto eu observava o mendigo escrever ao longe. Cheguei tarde em casa e tive que dar explicações para a minha mulher sobre esta mudança na rotina. Expliquei o que estava acontecendo e ela parecendo não acreditar disse simplesmente OK e mudou de assunto. Como uma esposa iria acreditar em um marido que disse ter ficado horas observando um mendigo escrever? Ao final das tardes observei que ele escrevia à luz dos postes de iluminação. Se um asteroide caísse sobre a sua cabeça provavelmente ele continuaria escrevendo até exalar um último suspiro. Nunca vi nada igual! Um desses dias ele deitou com as mãos atrás da cabeça e ficou por mais de uma hora olhando para o céu como se estivesse observando o movimento dos planetas ou esperando que uma nave viesse buscá-lo. A mesma coisa tinha acontecido no domingo em que eu passei com meu filho por ali. Depois se recostou na árvore e voltou a escrever como se estivesse abastecido de ideias novas. Minha mulher percebeu que alguma coisa estava acontecendo comigo, pois eu chegava em casa e ficava como que hipnotizado pensando. Ela sentou-se à minha frente e brincando perguntou se ela estava invisível ou se o meu time havia perdido o campeonato. Acordei dos meus pensamentos e perguntei por quê? Ela disse que apesar dela estar há mais de 10 minutos ali eu não a havia notado. Contei para ela o que estava acontecendo, o que me angustiava, e ela escutando com atenção sugeriu que era muito fácil resolver o problema. Porque eu não ia ver de perto o que ele escrevia? - A solução para o problema que me estressava era tão simples e eu não a havia percebido. No dia seguinte, estacionei o carro e caminhando pelo gramado fui ter com ele. Aproximei-me devagar, pois poderia ser um sujeito maluco ou violento e usando o meu melhor tom de voz que demonstrava, vim em paz forasteiro, falei: - Boa tarde! Eu tenho passado por aqui todos os dias e tenho notado que o senhor está constantemente escrevendo e, como sou jornalista gostaria de saber se a sua vida daria uma boa história para ser publicada, quem sabe, talvez até um livro. - Boa tarde senhor jornalista! – ele respondeu em tom gozador - Eu me perguntava quando o senhor viria falar comigo. Eu estava a sua espera! -Desculpe, eu não entendi... – falei confuso - O Senhor não está me confundindo com alguém?

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Flávio Tomé - Só se o senhor não for aquele que trabalha em uma agência de propaganda na Av. Paulista e mora no bairro de Pinheiros com uma linda esposa e um filho mais lindo ainda! Surpreso, dei dois passos para trás e me perguntei como ele podia ter aquelas informações e ele percebendo meu susto, continuou sorrindo. - Ora meu amigo tudo no mundo está interligado eu você e o resto do universo e, se você se dispusesse a sentir que existe uma mente cósmica que tudo sabe, também não precisaria vir até aqui perguntar nada sobre mim. Eu estava sem palavras. Disse boa noite para ele e me despedi apressadamente. Grunhi alguma coisa como desculpa por estar com pressa e disse que voltaria em outro dia. Fui embora olhando para os lados, tirei a carteira do bolso de trás das calças e a coloquei na cintura por baixo da camisa - podia ser que algum comparsa dele estivesse me seguindo - Ao chegar em casa perguntei para o porteiro do prédio se alguém, por esses dias, tinha vindo fazer perguntas sobre mim ou sobre a minha família. Algum desconhecido? Ele respondeu que ninguém havia perguntado nada sobre mim há muito tempo. Subi para o meu apartamento e pedi para a minha mulher passar a tranca nas portas e não atender ninguém que não fosse conhecido. Ela ficou em pânico e perguntou em que eu estava metido. Quando expliquei o acontecido ela ficou tão preocupada quanto eu.

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Evangelho Quântico  
Evangelho Quântico  

Um publicitário e jornalista ao passar diariamente por uma praça, nota um mendigo sentado em um canteiro, escrevendo sem parar. Vai ao seu e...

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