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A(s) DANÇA(s) DO(s) SUJEITO(s) INDEXADO(s) Helena Katz – UFBA e PUC-SP Resumo: A pergunta que Heidegger fazia em 1953 sobre a diferença entre a mão que escrevia e a que datilografava se renova na nossa prática atual de comunicação via ponta dos dedos-tela. Não somos mais cognitivamente os mesmos. O tipo de sociabilidade praticado nas redes sociais escorreu para a vida off-line e produziu um novo habitante: o sujeito indexado – um sujeito permanentemente público. Que dança ele faz? Ainda não sabemos identificá-la bem porque perdemos a capacidade de estar presentes ao que se apresenta. Estamos cegos para o acontecimento (BADIOU, 2005). A dança do sujeito indexado nasce das novas formas de subjetivação e relacionamento que hoje nos constituem. Chamando ela sem eles, espetáculo realizado por Sheila Ribeiro (2012) realiza artisticamente este novo mundo. Palavras-chave: sujeito indexado, on line/off line, hábitos cognitivos, Chamando ela sem eles, acontecimento. Abstract: The question proposed by Heidegger in 1953 about the difference between the hand that writes and the hand that types comes again in our digital form of communication. Cognitively, we are no more the same persons we used to be. Forms of social contacts from the on-line life were drained to the off-line life producing a new type of person: the indexed citizen – one that is permanently public. What dance does he make? We are not yet capable of indentiying it because we do not know anymore how to be present. We are blind to the event (BADIOU, 2005). The dance of the indexed person emerges from the new forms of subjectivation and relashionship that guide us nowadays. Chamando ela sem eles (2012), Sheila Ribeiro’s creation, introduces us to this new world. Key words: indexed person, Chamando ela sem eles, event.

on-line/off-line,

cognitive

habits,


“Pai, quando você me abraça, eu penso que eu sou um iPhone e você é a capinha” – declaração de Catu a seu pai, em 10/12/12 (@Neto).

As circunstâncias práticas do que temos vivido apontam para uma transformação importante: somos agora sujeitos diferentes, com formas de sociabilidade que ainda não havíamos praticado. Não à toa, já desenvolvemos uma língua própria para tal situação e, como se sabe,

toda

mudança

de

vocabulário

nunca

acontece

sem

consequências. Como o sujeito é sempre uma construção (e não o protagonista de uma possível ‘natureza humana’), sempre se é ‘sujeito de’ algo. Nesse momento, o ‘algo’ que vem nos produzindo como novos sujeitos é o fato da vida on-line e da vida off-line estarem continuamente escorrendo, uma para a outra, e produzindo situações que merecem a nossa atenção. São mudanças substantivas, que nos tornam sujeitos diferentes dos que fomos. Usamos palavras conhecidas de outras maneiras (amigo, adicionar, disparar etc), inventamos verbos (downloudar, googar etc). Nos especializamos em fazer, ao menos, duas coisas simultaneamente. Temperados pela velocidade sempre crescente, não suportamos a sensação de perder tempo. Estamos nos desabituando a não termos nossos desejos imediatamente atendidos. O que nos desagrada, deletamos. Nossa impaciência aumentou (diminuiu nossa tolerância aos segundos que nossas máquinas demoram para realizar uma tarefa comandada). Passamos tantas horas nos comunicando por telas que os comportamentos típicos desses ambientes nos invadiram. Passamos a praticar o mesmo tipo de intolerância na vida off-line, uns com os outros. Somos hoje um conjunto de adultos mimados que não


podemos dispensar o pensamento crítico sobre esse novo modo de estar no mundo. Se, no momento, esse vem sendo o nosso modo de existir, a arte que daí surge não está imune a tais transformações. Cabe pensar, então, quais os tipos de dança desse sujeito outro, que agora somos – e que será aqui chamado do ‘sujeito indexado1. Para ser sujeito, é necessário perseverança. Se as telas se tornaram continuidades de nossos corpos, se nossa percepção está atravessada por hábitos cognitivos produzidos na vida

on-line,

podemos renovar a pergunta que Heidegger fazia, em 1953, sobre a diferença entre a mão que escrevia e a que datilografava. O dígito passa a comandar a comunicação. Não somos mais cognitivamente os mesmos, e nossas capacidades adaptativas apontam mudanças na comunicação, na ética, na política e na cultura. Evidentemente, a arte faz parte desse conjunto de transformações em curso. Tensionados pela tecnologia, os discursos da comunicação promovem novas formas do viver, e irradiam uma falsa concepção de igualdade, como se todos tivessem acesso ao mesmo sistema de possibilidades.

Como

permanentemente

se

a

situação

conectados

de

realizasse

muitos uma

poderem democracia

estar de

igualdades capaz de inibir o mundo violentamente competitivo que se instaurou entre nós. Esperávamos uma sociedade solidária, e nos organizamos como um conjunto de ilhas-do-eu. Montamos a sociedade da auto-autorização (cada um autoriza-se a falar, escrever, dançar,

1

O sujeito indexado foi produzido no dia a dia das muitas horas vividas na frente das telas. É o novo habitante de um mundo atravessado pelas tecnologias do contato e da mobilidade, um sujeito que não tem qualquer possibilidade de controle sobre as informações que envia para quem deseja. Essas informações são usadas por quem e com propósitos que ele desconhece. Ele é permanentemente rastreável, permanentemente público, sem direito à privacidade.


ensinar, cantar, atuar etc, a partir do seu desejo), e precisamos enfrentar o que tem sido assim produzido. O mundo dos sujeitos indexados Quais são as danças desse tipo de mundo? Quais são as danças dos sujeitos indexados? No dia 23 de outubro de 2012, o blogueiro ativista digital Bogomil Shopov, um dos presidentes do Partido Pirata da Bulgária, divulgou que havia comprado dados (e-mail, nome e sobrenome e também o perfil) de 1,1 milhão de usuários ativos do Facebook (divididos

em

12

planilhas

de

Excel)

por

US$5.

(http://talkweb.eu/openweb/1819) Ainda é um protótipo, mas já anuncia o momento no qual equipamentos

das

mais

transformando

o

‘estar

variadas sozinho’

funções em

estarão uma

conectados,

especiaria

em

desaparecimento. Se somos o que comemos, nossos dejetos podem fornecer informações a nosso respeito. Assim, uma e-latrina equipada com sensores e reagentes pode transformar cada descarga em material de

análise capaz de

identificar

dados como doenças,

deficiências, tipo de alimentação etc, que permitirão agrupar seus usuários em segmentos da população de mesmas características, configurando estatísticas que alimentarão programas profiláticos. A lista de fatos semelhantes seria extensa e demonstraria o que tem se tornado cada vez mais claro: os próximos anos serão dedicados à interligação dos dados existentes. Cresce, portanto, a importância de se refletir sobre nossos usos dos equipamentos que permitem

registro,

busca

e

combinação

de

informações.

Que


perdemos a privacidade, já não é segredo para ninguém, mas a extensão dessa perda ainda não está bem delineada para a maioria. Manuel comunicação

Castells

(2007)

socializada,

que

identifica chama

de

uma

nova

forma

de

“auto-comunicação

de

massa”: ”ela é autogerada no conteúdo, auto-direcionada na emissão e auto-selecionada na recepção de muitos que se comunicam com muitos” (CASTELLS, 2007, p. 248) – tradução nossa 2 . Na sociedade industrial, a comunicação era distribuída de um para muitos. Na sociedade conectada, passou a ser de muitos para muitos, graças à rede de computadores e à linguagem digital compartilhada por usuários interativos e distribuídos por todo o mundo. Instaurou-se um novo modo de viver e nele, junto com as benesses das novas tecnologias da comunicação e da mobilidade, vieram as formas de controle e de poder. Quem usa celular e computador, vive no mundo crawler3 e perdeu o que se chamava de privacidade, pois todas as informações que digitou, desde a primeira vez que usou o seu computador, podem ter desaparecido da sua tela, mas continuam a circular sem a sua autorização ou conhecimento. Seres

públicos

e

rastreáveis

desenvolvem

processos

de

subjetivação apropriados a essa situação e, muito possivelmente, formas de fazer arte que não ignoram tais condições de existência. Uma pesquisa encomendada pela Time Warner apontou que os ‘nativos digitais’ (aqueles que nunca viveram sem internet e/ou celular) trocam de mídia 27 vezes por hora (D’ELIA, 2012). Tal comportamento produz um hábito cognitivo que, muito possivelmente, indisponibiliza este praticante de trocas tão frequentes a, por exemplo, 2

“it is self-generated in content, self-directed in emission, and self-selected in reception by many that communicate with many” (CASTELLS, 2007, p.248) 3 Crawler é um nome genérico para qualquer programa de computador com a função de espião, que navegue pela web e indexe o que encontrar. É uma espécie de “robô “ de busca de informação.


sentar-se e assistir por 50 minutos a uma obra (de dança, teatro ou cinema) que não seja composta por uma rápida sequência de ações curtas.

Chamando ela sem eles No projeto Chamando Ela, Sheila Ribeiro trabalha com João Milet Meirelles e Tiago Lima. Nele, o corpo existe como um acontecimento da dança, moda, arquitetura, consumo, publicidade, comunicação, cultura. São imagens de um corpoacontecimento, tão insólitas quanto um estranhamento pode ser. Organizador de fila, deusa do ébano, geopolítica no Pelourinho, vestido-mar-natureza-cultura, tribo guarani, boneca de pixe, grafite, aeroporto, festa de iemanjá, shopping center, barco, pier… Composições com doses desiguais de quatro insistências: desejo, ilusão, fetiche, fantasia. Salvador rebatendo em São Paulo rebatendo em Salvador rebatendo em você e em mim. Adentra-se ao teatro. Galeria Olido, no centro da cidade de São Paulo, dia 04/11/2012. Lá acontece o 5º Festival Contemporâneo de Dança.

Senta-se

em

um

espaço

conhecido,

familiar,

mas

ele

desaparece. Chamando ela sem eles instaura um translugar estranho, que continua a aumentar à medida em que você consegue manter-se nele. Não é possível percorrê-lo, uma vez que ele não existe enquanto um

caminho

a

atravessar,

pois

derrubou

as

ortogonalidades

convencionadas de palco-proscênio-plateia-paredes-poltronas. É preciso uns instantes para reconhecer que se está em um tapete voador do mundo crawler. E mais outros para identificar a experiência de um acontecimento, no sentido de Badiou (2005). Um acontecimento que é irrepresentável porque não tem referente externo


a espelhar. O acontecimento, porque é singular e não se deixa pensar a partir dos saberes produzidos pelo hábito (BADIOU, 1995), é como um corte nas lógicas de busca de sentido; o acontecimento existe apenas no tempo do presente. Chamando ela sem eles, atravessado por tantas mídias, nelas se enreda de forma tão elegante, perfurando uma com a outra, que se revela uma mediação, um modo de ver o mundo crawler, um modo de nele fazer arte. Você identifica uma de suas construções, a transforma em discurso, e outra aparece, e para essa você não tem discurso. É um portfolio de potências que se escoam entre elas, deixando você de fora, te dando uma única chance: a de viver a experiência de um flanêur que deambula de uma imagem (seja sonora, visual ou ambas) para a próxima, aceitando que se trata de uma sucessão de acontecimentos únicos. O espaço escolhido é um fundo infinito, que monta um circuito moebiusiano de alta velocidade sem pistas definidas, deslocalizando a espacialidade. Espalha-se, mas, curiosamente, não tem finalização. Poderia continuar a acontecer para sempre e de n modos diferentes. Mas não seriam reorganizações nem refazimentos de nada do que já mostrou, porque suas situações são flashes-frestas-acontecimentos que se desfazem assim que se aprontam. Incrustação de pensamento digital em situação analógica, produz um frescor que ainda não se identifica bem. Faltam palavras, sobra inteligência. Em 29 de abril de 1937, Virginia Wolf participou da série Words Fail Me, da BBC, e o que lá disse foi publicado em 1942, em The Death of the Moth and Other Essays. 4 Afirmava que as palavras não são entidades separadas, que pertencem umas às outras, e que são as 4

Agradeço a Wagner Schwartz haver me apresentado a única gravação que resta da voz de Virgínia Wolf: http://www.youtube.com/watch?v=E8czs8v6PuI


coisas mais livres, irresponsáveis e não-ensináveis de todas. Que elas podem ser enjauladas na ordem alfabética de um dicionário, mas detestam ser confinadas a um significado, pois são da natureza da mudança. E que sobrevivem justamente porque conseguem significar coisas diferentes, para um e para outro. Termina dizendo que talvez não exista um grande poeta, autor ou crítico na sua época porque todos recusam dar liberdade às palavras e as espetam a um significado útil, aquele que nos faz pegar o trem, passar no exame… (http://www.youtube.com/watch?v=E8czs8v6PuI). Chamando ela sem eles é uma dança de sujeitos indexados do mundo crawler. Adicione uma pitada de Homer Simpson dizendo: "A culpa é minha, e eu a coloco em quem eu quiser ". Lembre que se trata de uma língua própria, pictograficamente digital e recheada do que pensamos que já conhecíamos. As projeções cessam, mas não se sai do circuito moebiusiano. Com sorte, vai aparecendo algo como um “preciso continuar aí”. Referências Bibliográficas: BADIOU, Alain. Being and Event, trad. Oliver Feltham, Londres: Continuum, 2005. BADIOU, Alain. Ética. Um ensaio sobre a consciência do mal. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995. CASTELLS, Manuel. Communication, power and counter-power in the network society, em International Journal of Communication 1 (2007), p.238-266. D’ELIA, Renata. Cara, cadê meu foco?, em Folhateen, 21/05/2012, p.E4, jornal Folha de S. Paulo. RADFAHRER, Luli. A privada pública, em Folha de São Paulo, 07-012013.


WOLF, VirgĂ­nia. The Death of the Moth and Other Essays, 1942, http://www.youtube.com/watch?v=E8czs8v6PuI


A(s) DANÇA(s) DO(s) SUJEITO(s) INDEXADO(s), Helena Katz