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LONDRES

www.brasilobserver.co.uk

ISSN 2055-4826

DEZEMBRO/2016

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brasilobserver.co.uk | Dezembro 2016


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Conteúdo LONDON EDITION É uma publicação mensal da ANAGU UK UN LIMITED fundada por:

Ana Toledo Diretora de Operações ana@brasilobserver.co.uk Guilherme Reis Diretor Editorial guilherme@brasilobserver.co.uk Roberta Schwambach Diretora Financeira roberta@brasilobserver.co.uk Editor em Inglês Shaun Cumming shaun@investwrite.co.uk Design e Diagramação Jean Peixe ultrapeixe@gmail.com Colaboradores Christian Taylor, Damien Chalmers, Franko Figueiredo, Gabriela Lobianco, Heloisa Righetto, Humberto Dantas, Isabel Harari, Leandro Monteiro, Nathália Braga Bannister , Tina Wells, Wagner de Alcântara Aragão

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Embaixador britânico no Brasil deixa o cargo

A situação dos indígenas e ribeirinhos em Belo Monte

OBSERVAÇÕES

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COLUNISTA CONVIDADO

Damien Chalmers sobre viver no Reino Unido pós-Brexit

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COLUNISTA CONVIDADO

Humberto Dantas e Leandro Monteiro sobre o controle de recursos

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ENTREVISTA

Ernani Lemos, jornalista brasileiro autor do livro “Sobre os outros”

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REPORTAGEM

Os desafios para as startups brasileiras driblarem a crise

CONECTANDO

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CULT

Uma noite com a diva Elza Soares

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DICAS CULTURAIS

Arte, cinema e teatro... Com toque latino

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COLUNISTAS

Franko Figueiredo sobre teatro e vida Heloisa Righetto sobre feminismo

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LONDON BY

Um passeio por Londres com Tina Wells

Arte da Capa Arquivo pessoal

Narcelio Grud

IMPRESSÃO St Clements press (1988 ) Ltd, Stratford, London mohammed.faqir@stclementspress.com 10.000 cópias

www.narceliogrud.com

Narcelio Grud é um artista brasileiro cujo trabalho se concentra na arte urbana. Nos últimos anos, ele tem explorado diversos tipos de linguagens, como esculturas sonoras, ferramentas para pintura, instalações, entre outras. Realizou trabalhos na Argentina, México, Itália, Espanha, Reino Unido, Alemanha, França, Suíça, Colômbia e Chile, onde participou de festivais e exposições, além de intervenções nas ruas. Uma de suas características mais marcantes é o desejo de interagir e provocar o público. Portanto, sua arte tem como objetivo ser aberta e acessível.

Distribuição Emblem Group Ltd. Para anunciar comercial@brasilobserver.co.uk 020 3015 5043 Para assinar contato@brasiloberver.co.uk Para sugerir pauta e colaborar editor@brasilobserver.co.uk Online 074 92 65 31 32 brasilobserver.co.uk issuu.com/brasilobserver facebook.com/brasilobserver twitter.com/brasilobserver O Brasil Observer, publicação mensal da ANAGU UK MARKETING E JORNAIS UN LIMITED (company number 08621487), não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados. As pessoas que não constarem do expediente não tem autorização para falar em nome desta publicação. Os conteúdos publicados neste jornal podem ser reproduzidos desde que creditados ao autor e ao Brasil Observer.

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DEZEMBRO/16

APOIO:

A capa desta edição foi feita por Narcelio Grud para a Mostra BO, projeto desenvolvido pelo Brasil Observer em parceria com a Pigment e com apoio institucional da Embaixada do Brasil em Londres. Cada uma das 11 edições deste jornal em 2016 contará com uma arte em sua capa produzida por artistas brasileiros selecionados através de uma chamada pública. Em dezembro, os trabalhos serão expostos na Sala Brasil.

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IMIGRAÇÃO

O ano na Imigração

Um balanço de 2016 e nossas dicas para o próximo ano O ano de 2016 não foi fácil na questão imigratória. A votação a favor do Brexit, no Reino Unido, e a vitória de Trump, nos EUA, mostram uma retração na liberdade dos imigrantes, algo visível no mundo todo. Em tempos de crise imigratória como o que vivemos agora, é normal que os países queiram estreitar suas fronteiras. Mas, como ficam os imigrantes que estão dispostos a viver de forma legal e contribuir para o crescimento do país? Nessa hora, o seu bem mais valioso é a informação. O seu passaporte de entrada é justamente entender todos os seus direitos naquele país e saber o caminho certo a percorrer para garantir a sua estadia e da sua família. As leis imigratórias estão em constante mudança. Novas regras surgem todos os meses. A Agência de Imigração Britânica, por exemplo, divulgou uma série de alterações que começaram a valer a partir de 24 de novembro para vistos de trabalho e estudo. Estar a parte dessas informações, significa perder chances e prazos, que podem ser valiosos ao longo da sua vida no exterior. Nós, que há 15 anos trabalhamos com imigração, sabemos o quanto é importante estar atualizado para não perder uma oportunidade que pode mudar a sua vida. Se os governos tornam-se mais conservadores e contraídos com relação aos imigrantes, é necessário que os mesmos se informem para agir de maneira correta. Ao lado confira algumas medidas que podem ser tomadas para assegurar a sua vida no Reino Unido, no próximo ano. Se você deseja mais informações ou precisa de auxílio para realizar os seus processos, entre em contato conosco. Nossos profissionais terão prazer em ajudá-lo.

Certificado de Residência Portadores de passaporte europeu podem tirar esse certificado assim que mudarem para o Reino Unido. Ele poderá dar garantia do seu status imigratório no país após o Brexit.

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Residência Permanente Cidadãos com passaport e europeu ou que viveram no Reino Unido por 5 anos como membro da família de um cidadã o da Área Econômica Europeia (EE A) podem solicitar um cartão de residência permanente.

Regulamentado pela Office of the Immigration Services Commissioner (OISC)

Cidadania Britânica Todos aqueles que tiverem a 1 Residência Permanente, após em pod o, ent um doc ano com o a. solicitar a naturalização britânic

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OBSERVAÇÕES Embaixador do Reino Unido no Brasil vai integrar Ministério que negociará o Brexit Convidado para fazer parte da equipe que negociará a saída do Reino Unido da União Europeia, o atual embaixador do Reino Unido no Brasil, Alex Ellis, despede-se do cargo após três anos e meio de trabalho em Brasília. A partir de janeiro de 2017, Ellis responderá como Diretor-Geral do ministério responsável pelo Brexit. “Foi uma grande honra servir o governo de Sua Majestade como Embaixador no Brasil nestes três anos e meio. Amei tanto o país quanto o trabalho que me foi dado. Agora sigo para um novo desafio, levando comigo muitas amizades e

lembranças felizes do meu tempo no Brasil”, diz o Embaixador Alex Ellis em declaração oficial. Nos últimos anos, Brasil e Reino Unido intensificaram as relações bilaterais, com diálogos estratégicos anuais entre os Ministros das Relações Exteriores, Ministros de Finanças e Ministros do Comércio. Além disso, o número de projetos de investimentos brasileiros no Reino Unido triplicou nos últimos três anos. No que se refere ao turismo, mais de vinte mil britânicos visitaram o Brasil durante a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos Rio 2016. E quando o assunto é Educação, o

Reino Unido foi o segundo país mais procurado por estudantes do projeto Ciência sem Fronteiras. Esses são apenas alguns exemplos de como o Brasil é estrategicamente importante para o Reino Unido. O posto de Embaixador Britânico no Brasil será preenchido por Dr. Vijay Rangarajan, ex-diretor para a Europa no Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido. O diplomata já foi vice-embaixador no México e diretor nas Nações Unidas. Ele deve chegar ao Brasil no primeiro semestre de 2017.

#FORÇACHAPE

Reprodução

A queda do avião que transportava a equipe de futebol da Chapecoense para Medelín, na Colômbia, onde disputaria o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, causou comoção no Brasil e no mundo. O acidente aconteceu na madrugada do dia 29 de novembro a 56 km do aeroporto. Das 78 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulantes, 71 morreram e seis sobreviveram. Até o fechamento desta edição, as investigações preliminares davam conta de que a aeronave havia caído por causa de uma pane elétrica ou por falta de combustível. Em homenagem às vítimas da maior tragédia esportiva do tipo, o Estádio de Wembley, em Londres, se iluminou com a cor verde e passou a mensagem “Força Chape”.


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CONVIDADO

Vivendo no Reino Unido pós-Brexit Quais oportunidades, riscos e ameaças a saída do Reino Unido da União Europeia reserva para os brasileiros e latinos? Por Damian Chalmers g

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Como é ser brasileiro vivendo no Reino Unido pós-Brexit? Os próprios brasileiros e seus parentes e amigos podem responder esta pergunta melhor do que eu. Mas, certamente, é possível afirmar que a voz da intolerância e da xenofobia se tornou mais alta nos últimos cinco meses. A ideia de que os imigrantes são um problema se transformou, de forma assustadora, em um novo senso comum na Grã-Bretanha. Como resultado, muitos não britânicos acabaram perdendo o sentido de casa que adquiriram por viverem a muitos anos no Reino Unido. O Brexit, porém, ainda não aconteceu – e nem acontecerá até 2019, no mínimo. Quais oportunidades, riscos e ameaças a saída do Reino Unido da União Europeia reserva para brasileiros e latinos que moram no país? Para começar é bom tirar uma quimera do caminho. Entrar no Reino Unido pode ficar mais fácil para alguns brasileiros. Durante a campanha antes do referendo, muitos argumentaram que o Brexit faria com que a política imigratória britânica ficasse menos eurocêntrica. Propostas foram apresentadas para a adoção de um sistema pelo qual pontos são concedidos aos imigrantes por determinadas habilidades e qualidades – se o indivíduo atinge certo número de pontos, ele pode entrar no país. Tal sistema, em teoria, não leva em conta a nacionalidade. A Austrália, que usa esse

método, recebe mais imigrantes do que o Reino Unido. Infelizmente, as coisas não são assim tão simples. A posição atual do governo britânico é de que a entrada de imigrantes de fora da Comunidade Econômica Europeia (CEE) ainda está em níveis muito altos. Em agosto, a entrada líquida de imigrantes no Reino Unido foi de 327 mil pessoas, sendo 190 mil cidadãos não europeus e 180 mil europeus, e 43 mil britânicos deixando o país. O governo pretende reduzir a entrada líquida para dezenas de milhares, algo em torno de 80 mil a 120 mil. A entrada de não europeus teria de cair para entre um terço e metade dos níveis atuais. Qualquer sistema de pontos seria aplicado de acordo com a posição de cada nacionalidade dentro dos alvos previamente estipulados. Há outra má notícia para os latino-americanos. Não pela primeira vez, é improvável que eles estejam em uma competição justa com a Europa. Cidadãos em busca de empregos de alta qualificação (médicos e acadêmicos, por exemplo) são mais suscetíveis a conseguirem visto de residência. Haverá, portanto, vagas limitadas para pessoas de outros lugares do mundo. Além disso, é possível que o Reino Unido dê passe livre para europeus em busca desses trabalhos em troca de acesso à zona de livre comércio europeia, reduzindo as chances dos não europeus.


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Isabel Infantes

Isso será bom para os latino-americanos com passaporte europeu – eles continuariam a ter acesso a esses trabalhos. Mas isso traz uma questão racial: é mais provável que sejam brancos do que afrodescendentes. Se a vida é melhor para aqueles com cidadania europeia do que latino-americana, ela continuará a ser tão boa assim? A rota escolhida por muitos é procurar por trabalho enquanto se aprende inglês. De muitas formas, isso não estará mais disponível no Reino Unido. Até para os cidadãos europeus é provável que não haja mais essa opção. Há também aqueles que residem aqui há muitos anos. A posição do governo britânico é de garantir os direitos dos cidadãos europeus residentes no Reino Unido se houver reciprocidade em relação aos cidadãos britânicos vivendo na União Europeia. Como não há argumentos contrários a isso por parte da UE, um acordo deve ocorrer em 2017. Então tudo certo? Nem tanto. Em primeiro lugar, não se sabe a qualidade do direito de residência a ser garantido. Atualmente, cidadãos europeus podem aplicar para residência permanente depois de viver cinco anos no Reino Unido. Caso contrário, eles só podem residir aqui se forem economicamente ativos, autossuficientes ou parentes de cidadão europeu nessas condições.

Se deixarem seus empregos ou negócios no Reino Unido e voltarem mais tarde, devem começar novamente. Isso não é exatamente um problema porque cidadãos europeus podem voltar para procurar trabalho. Mas não está claro se o direito de retorno será garantido. Se um brasileiro com cidadania italiana desistir de um trabalho após dois anos no Reino Unido e voltar ao Brasil por três meses, não se sabe se poderá voltar ou não. Em segundo lugar, não está claro também quem terá esse direito. Atualmente, a lei europeia garante que qualquer cidadão com dupla nacionalidade pode reivindicar seus direitos como cidadão europeu independentemente da conexão entre o estado europeu e o estado latino-americano. De acordo com o direito internacional, porém, os estados podem requerer um teste de nacionalidade. O indivíduo precisaria mostrar uma ligação genuína com o estado de sua cidadania europeia para usufruir dos benefícios europeus. Não está claro que tipo de teste o Reino Unido aplicaria. Um brasileiro vivendo no Reino Unido com cidadania europeia por ser filho de mãe italiana, por exemplo, pode ficar vulnerável. A última questão é quais direitos, além da residência, esses cidadãos poderão ter acesso no futuro. Antes do referendo, um ponto fundamental dos debates era que os cidadãos europeus não poderiam aplicar para muitos benefícios sociais nos primeiros quatro anos de residência. Seria surpreendente se o governo britânico oferecesse qualquer condição mais generosa. É possível que os cidadãos europeus tenham direitos limitados no Reino Unido até que eles passem certo número de anos no país. Os tempos são incertos para todos os brasileiros. Se tiverem cidadania europeia, vale a pena buscar informações com seus respectivos estados europeus. Se estiverem no Reino Unido por tempo suficiente, é recomendável começar o processo de residência permanente. Vou terminar com algum otimismo. Os governos europeus não toleram que seus cidadãos sejam mal tratados e, dada a linguagem agressiva de alguns políticos britânicos, devem adotar uma postura “um por todos e todos por um”. Além disso, o tipo de sistema de imigração previsto acima pode ser mais prejudicial à economia britânica do que o acesso limitado ao mercado único europeu. Ou seja, o governo britânico pode recuar. Por fim, não se sabe se as autoridades podem lidar com tudo isso. Nos últimos cinco anos, 150 mil novos passaportes britânicos foram emitidos a cada ano. Como eles lidariam com os requerimentos de 3,6 milhões de cidadãos europeus que vivem no Reino Unido permanece um mistério. Eles podem acabar sendo forçados a facilitar o processo. Professor Damian Chalmers faz parte do grupo The UK in a Changing Europe (www.ukandeu.ac.uk)

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Prefeito eleito de São Paulo, João Dória

Quem controla mais recursos locais a partir de 2017? O poder que adquiriram determinados partidos nas recentes eleições municipais, assim como a queda do PT, antecipa mudanças importantes a nível estatal e federal Por Humberto Dantas e Leandro Monteiro g Artigo publicado originalmente em www.opendemocracy.net

Não são poucas as interpretações, acerca do que move um partido político no mundo enquanto organização, que dão conta de mostrar a dependência dessas instituições em relação a dois recursos essenciais: cargos nas máquinas públicas que controlam e orçamento público. O primeiro ponto está associado, principalmente, à possibilidade de uma legenda acomodar seus filiados, que muitas vezes mesclarão as funções de servidores públicos e cabos eleitorais. Aqui se torna importante olharmos, sobretudo, para os cargos de livre provimento, ou os comissionados – a despeito da relevância de tantos outros espaços. Nesse caso, existe espaço pra todo tipo de função: das mais básicas às mais elaboradas, do sujeito que efetivamente vai trabalhar àquele que será conhecido como funcionário fantasma e pairará em outros espaços, dos mais altos salários da administração aos menos portentosos. Essas posições não serão ocupadas apenas pelo partido que ganhou a eleição – a palavra “partido”, em algumas cidades, sequer faz sentido. Consideremos que muitos desses espaços assentam gente técnica, que vem até mesmo da própria máquina e coloca a mão na massa pra avançar com políticas públicas. Segundo porque parte dessas vagas são ofertadas a aliados eleitorais, bem como servem para promover cálculos futuros com vistas a outros pleitos, que transcendem a própria prefeitura. Cruzar candidatos não eleitos com espaços ocupados nas máquinas controladas pelos partidos em outras localidades

é um ótimo começo para entender esse fenômeno. Quando ele volta como candidato no pleito seguinte, temos a nítida sensação que os partidos utilizam governos como incubadoras de talentos eleitorais. A Assembleia Legislativa de cada estado é um ótimo termômetro para isso: técnicos desse poder afirmam que gabinetes precisam “ter votos”, ou seja, deputados são assessorados por políticos de suas regiões, em lógica eleitoral que se retroalimenta. O segundo ponto, o orçamento, está associado à ideia de que o partido se fortalece na possibilidade de impactar realidades e implementar políticas. Mas seria romântico demais acreditar que apenas isso está em jogo. Quanto maior o bolo administrado, e mais expressivo o volume de recursos por habitante, mais atraente a máquina se torna para uma série de parcerias, esquemas, trocas e ações que fortalecem o caixa do partido e seu poder de chantagem em eleições futuras. Cruzar fornecedores de prefeituras com prestadores de serviços de campanha é exercício interessante, sobretudo se conseguíssemos debelar a cortina de fumaça imposta pelas empresas fantasmas, em nomes de laranjas etc. Quem vai controlar mais espaço e mais dinheiro a partir de 2017 nos municípios? O que nos mostram as eleições de 2016 nesse sentido? O intuito é fugir das análises mais convencionais. Os bancos de dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e do Tesouro Nacional carregarem inconsistências que nos levam a perder algumas centenas dos

5.568 municípios. Mas os principais orçamentos e espaços estão mapeados. Com mais de mil prefeituras conquistadas, o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) é o principal controlador de cargos no Brasil. A eleição municipal se fortalece como o grande espaço de atuação política dessa legenda, que desde pelo menos 1992 elege mais de mil prefeitos no Brasil, e controla fortemente uma verdadeira horda de apoiadores, cabos eleitorais e servidores locais que dependem da vitória para manterem-se empregados. Partes expressivas das prefeituras do Brasil são os maiores “patrões locais”, e muitas delas possuem 25%, 30% ou até mais postos nas mãos da livre nomeação técnica e, sobretudo, política do prefeito. Não muito atrás do PMDB e seus pouco menos de 90 mil cargos está o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) com mais de 85 mil vagas. Os tucanos se fortalecem de maneira expressiva. Em nível abaixo, mas com força, quatro partidos estratégicos em qualquer lógica nacional: PSD (Partido Social Democrático), PSB (Partido Socialista Brasileiro), PP (Partido Progressista) e PDT (Partido Democrático Trabalhista). Desoxigenado nessas eleições, o PT (Partido dos Trabalhadores) ficará com algo em torno de 20 mil cargos, muito pouco para quem controlava, apenas na Presidência da República, número superior a esse em posições do tipo DAS (Direção e Assessoramento Superiores), a despeito de outras milhares de posições e das diferentes utilizações de tais posicionamentos.


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Divulgação/PSDB

Humberto Dantas é doutor e mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP); Leandro Monteiro é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Goiás

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Chama a atenção o volume orçamentário a ser controlado com base nos dados de 2015 do Tesouro Nacional – onde infelizmente existem apenas pouco mais de 4,9 mil cidades. Ainda assim, é possível notar o destaque do PSDB, impactado pelo maior cofre do país: a prefeitura de São Paulo. Considerando que o partido amealhou 28 das 92 cidades com mais de 200 mil eleitores, ficar com o dobro do volume orçamentário do segundo lugar (PMDB) era algo esperado. O PT, nesse caso, ficou na décima primeira posição, e o destaque é o PRB (Partido Republicano Brasileiro), tendo em vista a conquista de Marcelo Crivella no Rio de Janeiro. Aqui merece atenção o fato de o PMDB ter muitos cargos e “pouco” recurso, revelando como hipótese a capacidade de o partido chegar ao controle de cidades muito pequenas. Ficará, em termos de eleitorado, com 14% dos cidadãos comandados localmente enquanto o PSDB vai governar 24% dos cidadãos brasileiros em suas realidades locais. O PT, mais uma vez, foi o grande perdedor. Não apenas pela derrota em São Paulo, mas pela redução de 60% no total de cidades. Ademais, o partido que controlava, a partir dos resultados de 2012, cerca de 20% do eleitorado do Brasil passará a ter pouco menos de 3% em 2017. O PSDB é, efetivamente, o grande vencedor e terá recursos políticos de sobra em relação aos demais partidos. Algo parecido em termos de dimensão ocorre apenas com o PMDB. O quarteto destacado anteriormente – PSB, PSD, PP e

PDT – se firma estrategicamente em boa posição, e o PT, mais uma vez, revela sua aguda desoxigenação. Em termos políticos, resta saber o quanto um partido consegue articular todo esse recurso em voos maiores nas eleições estaduais e federais. É relevante compreender se esse cenário acomodará os dois gigantes municipais dentro de um mesmo governo federal a partir de 2017, já que o PSDB e o PMDB são as maiores legendas do governo Temer. Os tucanos, por exemplo, têm suas diferenças internas para as definições de 2018, enquanto o PMDB sequer teria um nome para se mostrar forte. Se a política, como muitos afirmam, começa pelos municípios, o desafio é entender se o PMDB aceita, com naturalidade, perder o seu “reinado” de partido local. Especialistas apontam que parte dos conflitos com o PT nasceu depois da expansão municipal dos petistas nas eleições de 2012, “invadindo” território peemedebista. E outros tantos lembram os conflitos entre PSDB e PMDB, por exemplo, na década de 90 – que o diga a pancadaria de 1998 entre defensores e opositores à aliança com o PSDB em torno da reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB – 1995 a 2002) em pleno Congresso Nacional, nas convenções do PMDB. Tendo em conta a fragmentação do “poder real” que se produziu nestas eleições, o calendário eleitoral que se avizinha promete mudanças que podem ser muito relevantes a nível federal e estatal.

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ENTREVISTA Divulgação

Nos outros podemos nos conhecer melhor

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Ernani Lemos é jornalista, tem 35 anos e coordena a sede da TV Globo em Londres. Mora na Europa desde 2008. Mas falar dele e de sua história não é o ponto principal desta entrevista. Ernani quer falar dos outros, literalmente. A arte de observar e escrever sobre o comportamento das pessoas o levou a publicar o livro “Sobre os outros” (Chiado Editora). Uma coletânea de crônicas sobre pessoas formam a publicação, que conta com a participação especial de sete convidados. “Talvez, descobrindo um pouco sobre você, eu consiga saber sobre mim também”, diz o autor. Em um bate-papo informal, Ernani conta sobre sua vinda para Londres, seu trabalho como escritor, o lançamento de seu segundo livro e os desafios e as delícias de quem vive observando o mundo em sua volta. Você mora na Europa há mais de nove anos. Como chegou aqui? Sai de São Paulo em 2008 com a minha namorada, hoje mulher, Juliana. Decidimos cair no mundo para ter uma experiência de viver fora. Fomos para Dublin, na Irlanda, e lá trabalhamos em bares, restaurantes, entregando jornal, enfim, foi uma época muito boa. Sempre mantivemos nosso trabalho jornalístico, enviando matérias para o Brasil. Em 2011, viemos para Londres cobrir o casamento real. Foi quando o “bichinho da cidade grande” picou de novo e decidimos mudar para cá. Como surgiu a ideia de escrever um livro? Foi algo que você sempre teve vontade ou surgiu com a vinda para cá?

Sempre quis escrever um livro, imagino que seja um sonho de quase todo jornalista. Logo que cheguei à Irlanda passei por aquela fase maravilhosa de estranhamento, tudo para você é novo, maluco e engraçado. Criei um blog para contar isso, em forma de crônicas. Achava que pelo menos minha mãe e minha sogra iam ler. Parei com o blog eventualmente e, quando queria escrever algo, postava nas redes sociais. Ano passado, lancei meu primeiro livro, um romance [“Onze Semanas”], que foi muito bem recebido. E foi engraçado porque muita gente me falou que esperava que o livro fosse uma coletânea das crônicas que eu escrevia, as pessoas me cobravam isso e assim surgiu esse livro. Muitos relatos são de momentos do cotidiano. Como foi o processo de escrita dos textos? É quase instantâneo. A maioria das histórias acontece quando eu estou sozinho, ando de manhã bem cedo na rua, quando você tem tempo de olhar ao seu redor. Começo ver essas situações engraçadas e elas se transformam em texto na minha cabeça. Paro na rua, anoto no celular, volto para casa e faço questão de não falar com a minha mulher até escrever o texto inteiro, para não distrair o pensamento. Algumas crônicas tem um personagem que você conhece, um amigo, por exemplo, e que só é revelado no fim do texto. Como essas pessoas citadas no livro reagiram a isso?

Com livro recém-lançado em Londres, jornalista brasileiro Ernani Lemos bate um papo com o Brasil Observer Por Nathália Braga Bannister

O carinho é muito grande, mas tem também o ciúme de quem não está no livro. Poucas pessoas se dão ao ato de se declarar tão abertamente para as outras, sobre a diferença que elas fizeram na sua vida. Acho que quem mora fora sente isso de uma forma mais despida, essa liberdade de demonstrar sentimento que muitas vezes quem está no Brasil não demonstra. Me chama muito a atenção as pessoas que eu sempre vi, mas não vejo mais. Então porque eu tenho saudade elas me são estranhas, digamos assim, acabo escrevendo sobre elas. Em determinada parte do livro, você tem a participação de blogueiros com alguns textos. Como você lida, como jornalista, com esse universo dos blogs? Seria ingênuo achar que só a velha mídia estabelecida funciona. A internet tem uma relevância muito grande, é uma maravilha que todo mundo possa se expressar. No meu caso, aconteceu naturalmente essa ligação com blogueiros, mas tem um escritor amigo meu que me elogiou por divulgar meu livro entre essas pessoas. Afinal, dificilmente hoje em dia um jovem vai abrir o caderno de cultura de um jornal atrás de um livro. É nas redes sociais que você acaba achando esse tipo de informação. Como esses convidados foram selecionados? Conheço muita gente boa, com histórias interessantes. Tentei ter um perfil variado de pessoas que

moram em lugares diferentes. Também, claro, foram pessoas que eu admirava a escrita. Quis mostrar essas sensações de estranhamento para o sujeito que pega o livro lá no Brasil, que nunca foi imigrante. Queria que as pessoas vissem alguns outros exemplos de histórias, para não achar que sou o único maluco que sai do Brasil, sofre de saudade e acha os outros esquisitos. Seu primeiro livro, Onze Semanas, é um romance. Conte um pouco sobre ele para quem quiser ler mais além das suas crônicas... É uma história de mãe e filha, que não se falam há 16 anos. A filha é uma bióloga de 27 anos e a mãe também é muito jovem, mas está com câncer, em estado terminal. E houve um evento, que, aliás, é o grande mistério do livro, que fez as duas se separarem. A história se passa com mãe e filha trocando informações sobre esse evento. É um livro rápido de ler, foco mais na personalidade das pessoas do que na descrição dos cenários, algo que também tenho em mente para o meu próximo livro. Pode contar sobre o que é e quando pretende lançar? Posso falar um pouco só. É para o ano que vem e é um romance. Uma história em que, de novo, falo de relações humanas, de família. É também uma história sobre amizade, inclusive de pessoas de idades diferentes e tem também algumas dúvidas filosóficas.


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REPORTAGEM

O desafio das startups brasileiras Cenário econômico é menos favorável e há dúvidas quanto à continuidade de apoio governamental, mas empreendimentos inovadores e colaborativos seguem promissores no Brasil Por Wagner de Alcântara Aragão

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A notícia de um convênio assinado entre os governos de Portugal e do Brasil, que prevê parcerias e cooperação no desenvolvimento de startups, faz esse tipo de empreendimento manter uma perspectiva promissora de geração de emprego e renda neste momento de crise intensa enfrentada pelos brasileiros. Se na primeira metade da década atual, aproveitando-se da extraordinária conjuntura econômica e fomento estatal, o ecossistema de startups experimentou um boom, agora o desafio é driblar as dificuldades, não se contaminar pelo pessimismo (até certo ponto justificável) predominante no país e encarar as incertezas. Na avaliação do Start-Up Brasil – programa do governo federal lançado em novembro de 2012 – grandes corporações mundiais, sobretudo na área de tecnologia da informação (como Apple, Microsoft, Google, Facebook), mantêm suas atenções voltadas para iniciativas de startups em todo planeta. “[Essas iniciativas] são capazes de trazer consigo uma mentalidade fresca, com ideias revigorantes e conseguem abraçar as mudanças constantes do mercado”, diz texto oficial do programa. O Start-Up Brasil é encabeçado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e desde o lançamento, há quatro anos, realiza chamadas públicas “para qualificar e habilitar aceleradoras e para a seleção de empresas nascentes de base tecnológica”. Atualmente na quarta turma, o Start-Up Brasil registra apoio, desde o surgimento do programa, a 183 startups nacionais e internacionais. Dispõe de uma rede de 18 aceleradoras em oito estados brasileiros “e mais de 50 parceiros públicos e privados”, ainda conforme material de divulgação da iniciativa estatal.

VÁRIAS ÁREAS Só na Turma 4, segundo informações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, são 40 empreendimentos apoiados. São iniciativas nas áreas de saúde, tecnologia da informação e telecomunicações, finanças, agronegócio, logística e transporte, entretenimento, mídia e comunicação e educação. “O Start-Up Brasil cria condições para alavancar grandes ideias. Nós continuaremos fazendo do programa uma prioridade, apoiando-o e melhorando-o sempre”, declara, no site do Ministério, o secretário de Política de Informática da pasta, Maximiliano Martinhão. Também em texto oficial, o gestor do programa, Vítor Andrade, destaca a importância das startups para o processo de recuperação da economia brasileira. “As startups, por meio de produtos e serviços inovadores e de mão de obra extremamente qualificada, têm um grande potencial para

contribuir com o desenvolvimento econômico e social do país. As startups da Turma 4 evoluíram bastante ao longo dos 12 meses de aceleração”. A Turma 4 (biênio 2015-2016) do Start-Up Brasil recebeu, ainda segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 639 propostas, sendo 84% nacionais e 16% internacionais. “O investimento público foi de R$ 7,7 milhões. Em contrapartida, as aceleradoras investiram R$ 1,5 milhão e foram captados mais R$ 7,5 milhões no mercado”, ressalta a pasta.

MUDANÇAS Oficialmente, ainda não há nenhuma manifestação detalhada por parte do Ministério, mas a expectativa é de que o Start-Up Brasil sofra reformulação. Em abril, ainda durante o governo de Dilma Rousseff, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação promoveu algumas mudanças – a nova fase chegou a ser batizada de Start-Up Brasil 2.0. Àquela altura, o então secretário da pasta, Manoel Fonseca, anunciou investimentos de R$ 40 milhões, sendo R$ 20 milhões para aceleração de 100 empresas oriundas de base tecnológica, outros R$ 10 milhões em apoio a startups de hardware e mais R$ 10 milhões de incentivo ao nascimento de ideias inovadoras. “Tivemos muita discussão para o novo modelo, que incorpora a figura da mentoria técnica. Vamos aproximar das nossas startups a contribuição de mestres e doutores. A ideia é fazer a integração entre academia e empresa”, frisou o então secretário. O atual titular da Secretaria, Maximiliano Martinhão, declarou ao portal IT Forum 365, em entrevista na abertura do IT Forum Expo (ocorrido nos dias 8 e 9 de novembro, em São Paulo), que o Start-Up Brasil será “relançado nos próximos dias”. O secretário não forneceu maiores detalhes, nem sobre as alterações planejadas, tampouco sobre quando ocorreria o relançamento. “O mais importante é gerar desenvolvimento econômico. Falar de regulamentação específica é colateral”, disse.

OBSTÁCULOS No mesmo IT Forum, pesquisadores e empreendedores de startups afirmaram que alguns obstáculos precisam de ser superados pelo Brasil para que esse ecossistema possa deslanchar com mais consistência. “Nossos investidores não aceitam correr riscos no Brasil. Risco que é bom ele quer minimizar o máximo possível. Por um lado, você tem o sonho de investidor norte-americano que investe sem medo. Por outro lado, nós temos

poucos empreendedores que conseguem acelerar na mesma velocidade que os norte -americanos”, comparou o professor e especialista em economia colaborativa, Marcelo Nakagawa, ao portal IT Forum 365. Apesar de certos entraves, o otimismo para o ecossistema de startups prevalece. “As empresas estão com olhar aberto para a criação de novos modelos de negócios. Várias grandes empresas no mundo estão criando iniciativas de inovações abertas. Hoje não tem empresa que está no mercado competitivo que não esteja olhando para os modelos de inovações”, afirmou Nakagawa, segundo o mesmo IT Forum 365.

‘SILÍCIO BRASILEIRO’ As adversidades e as potencialidades do ecossistema de startups no Brasil foram apuradas também por uma pesquisa realizada ano passado pelo Start-Up Brasil. Para o levantamento, foram consultados 525 empreendedores brasileiros, sobre a avaliação que fazem em torno da possibilidade de se estabelecer um “Vale do Silício Brasileiro”, isto é, um polo referência gerador e desenvolvedor de empreendimentos inovadores e criativos. Para eles, o acesso a investimentos é difícil, bem como receber suporte de investidores. “Mais da metade das empresas ouvidas, 53%, nunca recebeu qualquer aporte”, observa a pesquisa. O estudo apontou também que as startups brasileiras pleiteiam não só suporte financeiro e empresarial. “Para elas, o fundo ideal é aquele que também assume riscos (para 14% dos respondentes), acredita no empreendedor (8%) e participa do dia a dia da empresa, porém respeitando a independência do empreendedor (8%)”, enumera o levantamento, que continua: “A grande maioria delas, 90%, considera que tais fundos devem ter profissionais experientes e que conheçam o negócio no qual estão investindo. Ao mesmo tempo, 85% acreditam que é muito importante que esses fundos já tenham um histórico de sucesso”. Das empresas consultadas, 78% dispõem de faturamento anual inferior a R$ 1 milhão. A maioria dos participantes do estudo é da área de tecnologia (44%) “e já apresentou formalmente sua empresa a algum investidor (61%)”. “O perfil dos respondentes é composto, basicamente, de startups em estágio inicial que já atuam no mercado e buscam investimentos para alavancar o crescimento dos negócios. Isso quer dizer que os insights que obtivemos na pesquisa vêm justamente de um público qualificado que está entrando no ecossistema agora e comparando possibilidades de investimento”, constatou o estudo.


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Elói Corrêa/ GOVBA

Associação tem meta ousada para o segmento Tornar o Brasil “uma das cinco maiores potências do mundo de inovação e empreendedorismo tecnológico, para que as startups brasileiras possam representar 5% do PIB nacional até 2035”. Esta é a meta da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), entidade criada em 2011 e cujo crescimento, nestes cinco anos, ilustra como esse tipo de empreendimento se expandiu no país na primeira metade da década. “A ABStartups é uma organização sem fins lucrativos de representação das startups brasileiras. Atualmente temos em nossa base de dados cerca de 4 mil startups e mais de 38 mil empreendedores de todos os estados brasileiros, que participam de projetos e eventos focados em aumentar a competitividade globalmente”, assinala a entidade, em nota. Para a associação, três pilares são fundamentais para que o segmento de startups no Brasil siga crescendo: informação (banco de dados consistentes), promoção (por meio da articulação de projetos, criação de programas de acesso a mercados, realização de eventos) e representação (defesa de interesses do segmento, discussão de políticas públicas). “Nós conseguimos modificar o mercado de startups. O que começou com uma ideia de quatro startupeiros, se tornou uma grande associação, com gestores regionais e mais de 200 associados”, sublinha a entidade.

Reino Unido se interessa pelas startups brasileiras

Startup do Parque Tecnológico da Bahia desenvolveu um game que ajuda no combate ao mosquito Aedes aegypti

O Reino Unido vem demonstrando interesse em apoiar startups brasileiras. No ano passado, a conselheira econômica da Embaixada Britânica no Brasil, Catherine Barber, declarou que o país estava disposto a investir na internacionalização de até 15 empreendimentos desse tipo, por meio de um programa denominado UK Chapter, que seria integrado ao Programa InovAtiva Brasil, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O InovAtiva Brasil, segundo informações oficiais, já qualificou pelo menos 20 startups brasileiras no Vale do Silício. Quando do anúncio da conselheira – feito durante a 15ª Conferência Anpei de Inovação Tecnológica, em Cabo de Santo Agostinho (PE) – o orçamento previsto para o apoio era de 150 mil libras, conforme informou à época a Agência Brasil. Catherine Barber ressaltou a “criatividade das empresas e dos empreendedores brasileiros”. “A ideia é servirmos de plataforma para que essas startups se tornem empresas globais. Acreditamos que há também potencial para marcarem presença no mercado da América Latina e no Mercosul”, afirmou no evento.


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CONECTANDO

Belo Monte, um ano depois Ribeirinhos e indígenas refletem sobre as consequências da barragem no Xingu Por Isabel Harari, do Instituto Socioambiental medium.com/@socioambiental

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As comportas de Belo Monte, segunda maior usina hidrelétrica do Brasil e quarta maior do mundo em capacidade instalada, foram fechadas em novembro do ano passado, dando início ao enchimento do reservatório da barragem na Amazônia – e transformando para sempre as vidas das populações indígenas e ribeirinhas que vivem ao seu redor. Dificuldade de navegar em trechos do rio, desaparecimento de locais de pesca, aumento de pragas e morte de peixes são alguns dos impactos relatados por estas populações. “Viver hoje do Rio Xingu é impossível, não tenho chance nenhuma. As pessoas viviam bem, e hoje vegetam, não é vida digna”, comenta Raimunda Gomes da Silva, ao passar pelos pedrais da Volta Grande, trecho

do Rio Xingu duramente afetado pela barragem. Raimunda vivia com seu marido, João, em uma das ilhas fluviais do Xingu que foram alagadas pelo reservatório artificial da usina. Ambos viviam da pesca e da roça. Hoje ela habita uma casa no bairro Airton Senna II, periferia de Altamira, cidade de 100 mil habitantes – a maior nas redondezas da usina. Desde o fechamento das comportas, cerca de 80% do volume do Xingu foi desviado do seu leito natural por um canal artificial até o reservatório. O volume de água deixa de passar pela Volta Grande, trecho do Rio Xingu de cerca de 100 quilômetros que banha duas terras indígenas, Arara da Volta Grande e Paquiçamba, pertencente aos povos Arara e Juruna. Também habitam ali centenas de famílias ribeirinhas.

“O maior problema é a falta d’água. Pra baixo falta e pra cima sobra. A sobra de cima não presta e a debaixo faz falta pra vida. Muita água pra cima, mas toda comprometida, com problemas, com resíduos, com morte dos peixes, morte de árvores que foram submersas. E pra baixo precisando de água, tem um pouco ainda, mas não é o suficiente”, diz Raimunda. Hoje ela faz planos para sua nova morada, que chama de “terra prometida”: um terreno localizado a 350 metros do rio, adquirido com a indenização da Norte Energia. Para ela, ainda distante, mas ao menos próximo ao rio. “Eu vou estar lá, de frente, olhando… Não vou ver ele sorrindo nem correndo livre, pelo contrário, vou ver ele agonizando, mas quero que ele veja que eu não o esqueci”.

Este artigo também foi publicado em www.globalvoices.org


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Isabel Harari/ISA

SEM RIO E SEM PEIXE Entre fevereiro e abril deste ano, o Ibama multou a concessionária Norte Energia em R$ 35,3 milhões pela morte de 16,2 toneladas de peixes durante o enchimento do reservatório, que levou três meses. Foram três multas consecutivas – de R$ 27,5 milhões pela morte dos peixes, R$ 7,5 milhões por descumprimento de uma das condicionantes da licença e R$ 510 mil por ter apresentado informações falsas sobre a contratação de trabalhadores para resgate dos peixes. A multa de R$ 27,5 milhões foi a maior aplicada à concessionária desde o início da construção de Belo Monte. Mas a morte de peixes não é o único problema enfrentado pelas populações do Xingu. Desde o início da construção de Belo Monte, por conta de iluminação artificial de canteiros de obras ou uso de explosivos, os indígenas da Volta Grande relatam comprometimento – e alguns casos extinção – de importantes pontos de pesca. Com o barramento definitivo do rio e a diminuição da vazão do Xingu, os impactos se intensificaram. “A gente levava uma hora pra chegar aos locais de pesca e agora demoramos o dobro. Tem local que a gente não tem mais acesso porque a água diminuiu muito e não dá mais pra passar”, relata o indígena Natanael Juruna. A pesca é a principal atividade de subsistência dos Juruna, conforme o Atlas dos Impactos da UHE Belo Monte sobre a pesca. Segundo dados de um monitoramento independente realizado pelos Juruna em parceria com o ISA e a Universidade Federal do Pará, a produção de pescados anual dos Juruna é de 4.469 kg, sendo 98% para alimentação própria e 2% para comercialização. O peixe representa 55% de suas refeições. A captura dos peixes está intimamente ligada aos ciclos de cheia e vazão do rio. Tanto o pacu como a matrinxã, por exemplo, se alimentam de frutos provenientes das áreas alagadas, ambientes que deixarão de existir com a alteração da vazão do rio. “Sem peixe nós não sobreviveremos. O nosso povo sempre viveu do peixe nesta região. Eu fico triste quando ouço que o peixe vai acabar. Nós vivemos do peixe, do rio, por isso somos os Yudja [outro nome para designar Juruna], que quer dizer ‘os donos do rio’, e nós sempre sobrevivemos do rio, que pra nós é tudo. Enquanto existir o Xingu nós estamos lutando. Vamos até o fim. Quando ele morrer a gente morre junto”, diz Gilliard Juruna, cacique da aldeia Mïratu, localizada na terra indígena Paquiçamba. Ribeirinhos e indígenas relatam também que a quantidade de mosquitos, chamados por eles de carapanãs, aumentou consideravelmente desde a instalação da usina, comprometendo suas atividades de  pesca, coleta de produtos florestais e roça. Para Bel Juruna, outra liderança da aldeia Miratu, é preocupante a alta quantidade de repelente de insetos que as comunidades têm usado diariamente: “Agora a gente tem que viver andando com bomba de veneno, tendo que respirar veneno, mas é a única forma que temos de ficar um pouco livre dos insetos, mesmo dentro da própria casa. Pode intoxicar as crianças, as pessoas, e os problemas do veneno não aparecem na hora”.

FALTA DE DIÁLOGO A navegação também foi prejudicada com a diminuição da vazão no Xingu. Em determinado trecho do rio, é preciso descer da embarcação e utilizar o transporte terrestre provido pela Norte Energia. “A gente ficou totalmente arrasado porque é um transtorno passar por aquela transposição, a nossa embarcação ter que passar por ali. Isso no nosso rio, que a gente tinha total liberdade de ir e vir”, aponta Bel.

Funcionários da Norte Energia aplicam um questionário aos que atravessam o trecho: nome, sobrenome, telefone, endereço, o que se leva na embarcação e, segundo Bel, até a renda. “O que tem a ver perguntar a nossa renda? Agora a gente tem que dar satisfação do quanto a gente ganha pra Norte Energia?” desabafa. Uma das condicionantes da licença de instalação de Belo Monte obrigava a Norte Energia a discutir, um ano antes de barrar o rio, propostas de monitoramento, mitigação e compensação dos seus impactos com as comunidades afetadas, tanto indígenas como ribeirinhas. Até o momento, segundo as comunidades, o empreendedor apresentou essas informações apenas ao Ibama, o órgão licenciador. O monitoramento da qualidade da água, por exemplo, é realizado por empresas contratadas pela Norte Energia. Alguns indígenas participam da coleta de informações junto às empresas terceirizadas como monitores, mas até agora não tiveram acesso aos resultados. “É uma experiência sentir junto com os indígenas e ribeirinhos as consequências da instalação da usina, as belezas e as dores da região. Quem ouve as populações afetadas, sente as picadas de carapanã, vê os peixes e árvores morrendo, volta convencido de que o modelo de desenvolvimento para o país não pode ser o de construção de barragens como Belo Monte”, afirma Marcelo Salazar, do ISA.

NOVA AMEAÇA Nos próximos anos, a Norte Energia fará uma série de testes para determinar qual será a quantidade de água destinada à geração de energia e o quanto será liberado para a Volta Grande. Ou seja, até 2019, ano em que todas as turbinas estarão funcionando, a concessionária vai “abrir e fechar a torneira” da barragem, atendendo disposições estabelecidas pela Agência Nacional de Águas (ANA) e pelo Ibama. “O que está sendo experimentado é qual é a vazão mínima para manter a vida no local e que vida essa vazão mínima consegue manter. É um grande experimento humano e com a natureza, de testar a vida da natureza e do homem que vive naquela região pra ver se vai dar certo. É um laboratório macabro que está sendo feito com essas pessoas que vivem na região”, alerta Marcelo Salazar, do ISA. A maior mina de exploração de ouro a céu aberto no Brasil pode ser instalada na Volta Grande, agravando ainda mais a situação do Xingu. O grupo canadense Belo Sun Mineração vêm realizando pesquisas na região desde 2008 e a estimativa da empresa é que poderão ser extraídas 600 toneladas de ouro em 12 anos. Ainda não há previsão para o início da operação, embora o projeto já possua uma Licença Prévia emitida pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará. A mina encontra-se no município de Senador José Porfírio, próximo da Vila da Ressaca, comunidade de 300 famílias que depende da roça, pesca e do garimpo artesanal para sobreviver. Se a obra for consolidada, as 300 famílias terão que ser reassentadas. Em 2014, a Justiça Federal suspendeu o licenciamento ambiental do projeto de mineração até que a Belo Sun entregasse os estudos de impactos nas populações indígenas. A empresa conseguiu derrubar a decisão, mas os índios querem ser consultados sobre o empreendimento antes que o licenciamento avance. Também foi determinada uma atualização do Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima) para que este contemple a acumulação de impactos com a usina de Belo Monte, que não foram considerados nos estudos anteriores.

CONECTANDO é um projeto criado pelo Brasil Observer que busca fomentar experiências de comunicação ‘glocal’. Em parceria com universidades e movimentos sociais, nosso objetivo é fazer com que pautas locais atinjam uma audiência global. Para participar e/ou obter mais informações, escreva para contato@brasilobserver.co.uk


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Uma noite com a diva Elza Soares Cantora brasileira emociona o público em Londres e conversa com o Brasil Observer: ‘O segredo é cantar até o fim’ Por Guilherme Reis


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Do alto de seu trono posicionado no centro do palco, rodeado pelos músicos de sua banda, Elza Soares pede ao público que grite. “Eu quero ouvir gritos, assim fica bom, quero ouvir barulho”. A plateia responde prontamente, emocionada diante da diva da música popular brasileira. O show de Elza Soares no Barbican, em Londres, dia 13 de novembro, foi tão potente quanto a voz rouca da cantora prestes a completar 80 anos de vida e 60 de carreira. Nem os problemas de saúde que a obrigam cantar sentada são suficientes para abalar seu poder em cima do palco. Elza brindou o público com o repertório do disco “A Mulher do Fim do Mundo”, que dias após a apresentação venceu o Grammy Latino 2016 na categoria “Melhor Álbum de Música Popular Brasileira”. Primeiro álbum com músicas inéditas escritas especialmente para Elza, o trabalho foi gravado no final do ano passado e conta com letras críticas que abordam racismo, homofobia e a violência contra a mulher, entre outros temas. “É um trabalho muito forte, foi maravilhoso. Ninguém imaginava que fosse ser tão forte assim. É um presente divino”, disse Elza Soares ao Brasil Observer em seu camarim, horas antes do show em Londres.

PLANETA FOME Elza da Conceição Soares nasceu em 1937 na favela Moça Bonita, no Rio de Janeiro. Filha de mãe lavadeira e pai operário e músico amador, mudou-se ainda jovem com a família para o bairro Água Santa. Aos 12, obrigada pelo pai, casouse com um homem dez anos mais velho, com quem teve cinco filhos, o primeiro aos 13. Dos cinco, um morreu de subnutrição e outro foi entregue para adoção. Aos 21 anos ficou viúva. A primeira vez que Elza Soares subiu em um palco foi em 1953, aos 16 anos, em um programa de rádio apresentado pelo lendário Ary Barroso. Na ocasião, o público reagiu a sua aparição com risos – Elza pesava 45 quilos. O apresentador aproveitou a onda e perguntou de que planeta aquela menina vinha, no que ela respondeu “do mesmo planeta que o senhor”. Ele então retrucou “que planeta é esse?”. E Elza respondeu: “do planeta fome”. Após cantar “Lama”, de Aylce Chaves e Paulo Marques, Elza ouviu de Barroso: “nesse momento nasce uma estrela”. No camarim do Barbican, o repórter quer saber como ela responderia aquela questão se a mesma fosse feita hoje. “Da mesma maneira. Planeta fome. Ainda vejo muita coisa errada. Muita gente dormindo

na rua, muita criança sem escola, sem educação, sem cultura. Planeta fome”.

CANTORA DO MILÊNIO Elza Soares fez sua primeira gravação em 1959, uma versão de “Se acaso você chegasse”, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins. Os anos seguintes foram de ascensão meteórica, com grandes sucessos e dezenas de discos gravados. Entre as músicas cantadas por Elza mais tocadas no Brasil estão “Boato” (1961), “Cadeira Vazia” (1961), “Só Danço Samba” (1963), “Mulata Assanhada” (1965) e “Aquarela Brasileira” (1974). Nascida musicalmente no samba, Elza Soares sempre teve facilidade para percorrer os mais diversos ritmos musicais, do jazz à bossa nova, do hip hop ao rock n’ roll. Não à toa foi escolhida pela BBC, em 1999, como a cantora brasileira do milênio. A escolha teve origem no projeto The Millennium Concerts, criado pela emissora para comemorar os anos 2000. A carreira, porém, não passou sem alguns percalços. Elza teve um longo relacionamento com o jogador de futebol Garrincha, campeão mundial com a seleção brasileira em 1962, no Chile, e sofreu com a opinião pública. Garrincha era casado e tinha nove filhos, o que não pegava bem num país conservador às portas de uma ditadura civil-militar. Elza, aliás, chegou a se exilar em Roma com medo de represálias dos militares. A potência de sua voz, porém, falou mais alto. Elza é com justiça considerada a rainha do samba, uma verdadeira diva. Uma mulher que assume suas opiniões independentemente do olhar dos outros.

ATÉ O FIM Toda a força de Elza Soares transparece em seu último disco. Na música “Maria da Vila Matilde”, a cantora incentiva as mulheres vítimas de violência doméstica a denunciarem seus agressores. Em um dos versos ela canta “você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. “Num ponto de vista sempre fui feminista”, contou Elza ao Brasil Observer. “Sempre fiz tudo sozinha, sempre lutei sozinha, então sou feminista mesmo. A mulher que está aí pra lutar tem que lutar”. Na faixa que dá nome ao disco, Elza exclama “Eu vou cantar até o fim / Eu sou mulher do fim do mundo / Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim”. Qual seria o segredo? “Não tem segredo. Enquanto eu tiver saúde e vida, vou cantar. Enquanto estiver de pé tem muita coisa pra fazer”. O mundo da música agradece. Elza Soares é imortal.


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DICAS

EXPOSIÇÃO BRASIL OBSERVER APRESENTA ‘MOSTRA 2016’ A equipe do Brasil Observer apresenta em dezembro sua ‘MOSTRA 2016: Brazilian Designers Translating News into Powerful Images’. Esta exposição nasce do entendimento de que a capa de um jornal desempenha papel fundamental para atrair a atenção dos leitores – e deve ser considerada como um pôster, como afirmou o designer polonês Jacek Utko. Nosso objetivo é explorar a relação ente arte e jornalismo para aguçar e ampliar a percepção e a imaginação do público. Nascido em novembro de 2013 para conectar a comunidade brasileira e os leitores de língua inglesa que moram em Londres, o Brasil Observer é um jornal bilíngue publicado mensalmente com a ambição de entender o Brasil através de uma perspectiva global. Em 2016, nossa equipe selecionou através de uma chamada pública 11 artistas brasileiros que produziram cada uma de nossas 11 capas publicadas durante o ano. Usando técnicas diversas, cada artista representou em imagens o conteúdo jornalístico que estava sendo exposto em palavras, criando uma experiência estética e emocional única para os leitores da publicação. No processo de escolha dos 11 artistas, o Brasil Observer contou com a contribuição da Seção Cultural da Embaixada do Brasil em Londres e da Pigment – coletivo que representa artistas brasileiros na Europa. Convidamos a todos para a ‘MOSTRA 2016’ e esperamos que você possa se inspirar com os trabalhos originais desses 11 artistas brasileiros. Quando: 16 a 30 de dezembro (10am – 6pm) Onde: Embaixada do Brasil (14-16 Cockspur Street, Londres SW1Y 5BL) Entrada: Gratuita Info: www.brasilobserver.co.uk

CINEMA UTOPIA, O FESTIVAL DE CINEMA PORTUGUÊS No ano em que se comemoram os 500 anos da primeira edição de “Utopia” de Thomas Moore, Filmville comemora o sétimo ano do UTOPIA – UK Portuguese Film Festival. Este ano, o festival pediu a convidados especiais para escolherem os sete filmes que consideram como os mais relevantes no cinema português contemporâneo e o resultado é um programa surpreendentemente imaginativo. Os críticos britânicos Kieron Corless e Jonathan Romney, o escritor Hélder Macedo e a artista Paula Rego escolheram os seus filmes favoritos, que retratam uma visão eclética da cultura portuguesa e da história recente do país. Todas as sessões serão acompanhadas por uma introdução ou uma sessão de perguntas e respostas. Pela mão do realizador independente Manuel Mozos, a escolha do crítico da Sight & Sound Kieron Corless permite-nos entrar na mente do legendário diretor da Cinemateca Portuguesa João Bénard da Costa, uma figura semelhante a Henry Langlois, símbolos de uma paixão pelo cinema sem limites. As escolhas de Paula Rego e de Kieron Corless dãonos uma perspectiva do trabalho produzido por realizadoras portuguesas, tanto em documentário como em ficção, através da originalidade dos filmes de Joana Pontes e Rita Azevedo Gomes. As escolhas de Jonathan Romney e de Hélder Macedo, na forma de filmes premiados sobre a história colonial portuguesa, dão-nos algo para pensar. E a visão de Hélder Macedo permite-nos trazer a Londres o trabalho de José de Sá Caetano e João César Monteiro, com filmes que nos dão um olhar original sobre a cultura e a utopia portuguesas. Quando: 25 de novembro a 8 de dezembro Onde: Vários locais Entrada: A partir de £10 Info: www.utopiafestival.org.uk

TEATRO ‘THEBES LAND’ ESTREIA NO REINO UNIDO Uma história eletrizante sobre verdade e ficção, retribuição e justiça, “Thebes Land” já foi apresentada em oito países e agora faz sua estreia no Reino Unido – durante quatro semanas, estrelando Trevor White (“Long Day’s Journey Into Night”, West End; “Enron”, Royal Court) e Alex Austin (“Fury”, Soho Theatre; “Yen”, Royal Court). O dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco, uma das vozes mais aclamadas do teatro latino-americano, se juntou ao diretor Daniel Goldman para provocar as fronteiras entre verdades e mentidas, entre o que você sabe e o que você acha que sabe. A peça, um drama engraçado e frequentemente surpreendente, é encenada dentro de uma cela. Quando: 30 de novembro a 23 de dezembro Onde: Arcola Theatre (24 Ashwin Street, London E8 3DL) Entrada: A partir de £10 Info: www.arcolatheatre.com


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COLUNISTAS FRANKO FIGUEIREDO

Vendo o copo meio cheio Algum conforto e garantia de que o ano de 2016 está longe de ter sido o pior da história

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Franko Figueiredo é diretor artístico e produtor associado da Companhia de Teatro StoneCrabs g

Sofrimento é uma experiência pessoal e subjetiva influenciada pelo aprendizado cultural, pelo significado de uma situação e outras variáveis psicológicas, dizem os especialistas. Neste momento, estou muito perto de atingir o mais alto nível de sofrimento em qualquer escala possível. Estou tentando encontrar um fio de esperança no mundo, mas tem sido difícil enxergar qualquer aspecto positivo neste ano que termina. Foi o ano de 2016 o pior da história? Terrorismo, zika virus, guerra, fome, Brexit, Donald Trump. Perdemos Prince, David Bowie, Tereza Rachel, Cauby Peixoto, Victoria Wood, Leonard Cohen, Alan Rickman, Terry Wogan, Gene Wilder, Muhammad Ali, Elke Maravilha, Domingos Montagner e tantos mais. É como se eu estivesse sofrendo com o fim de uma geração. E, assim, me pego relembrando dos “bons velhos tempos”. Se eu escolho, porém, olhar o outro lado da moeda, percebo que, apesar de tudo, a vida melhorou consideravelmente: há um pouco mais de igualdade, estamos mais conectados, a expectativa de vida aumentou, os riscos de morte e desastres naturais diminuíram, estamos mais abertos para discutir saúde mental, mais sensíveis ao papel da psicologia no entendimento da história, os padrões de vida se elevaram etc. etc. Então por que parecemos mais dispostos a pensar no presente de forma catastrófica e ver o passado como algo grandioso? Em “Ars Poética”, Horácio se refere a “laudator temporis acti”, ou seja, alguém que está descontente com o presente e prefere as coisas do passado. Essa tendência de pintar o passado com cores brilhantes é tão velha quanto o tempo e provavelmente consequência da própria natureza humana. Em tempos de adversidade e desapontamento somos mais suscetíveis a reverenciar o passado, esquecendo suas desvantagens e os privilégios do presente. Temos vários exemplos diante de nós, desde o Brexit à promessa de Donald Trump de “fazer a América grande de novo”. Com sete eleições europeias no horizonte, espero que essa tendência se reverta. Até na Bíblia encontramos esse aviso: “Não te apresses no teu espírito a irar-te, porque a ira repousa no íntimo dos tolos. Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta” (Eclesiastes 7:9,10). A imaginação, porém, nos agarra e os mais velhos, conscientes de suas fraquezas e sofrimentos, buscam conforto nas memórias da juventude, pintando cenas e experiências de tempos idos com cores enganosas. Ao fingir que toda a prosperidade e felicidade pertencem ao passado, não se consideram as fantasias e o alcance das contradições, tudo se torna belo e irreal.

Sim, os velhos tempos podem ter sido bons, mas não foram fáceis. Quando cheguei pela primeira vez ao Reino Unido, não havia celulares nem aquecimento central nas casas; beber vinho era um luxo; produtos e comércios brasileiros quase não existiam. A cláusula 28* estava em vigor, assim como o poll tax**, e abrir uma conta no banco ou conseguir um cartão de crédito era praticamente impossível. Você não ouviria muitos sotaques na televisão que não fossem received pronunciation***. Preconceito parecia tão frequente quanto hoje. Tínhamos que lutar por nossos direitos, tínhamos que marchar e fazer greves. Conquistamos alguns direitos, deixando as coisas um pouco mais fáceis para as gerações futuras. Qual é o ponto de recordar a história se a história está fadada a se repetir? Nós, seres-humanos, somos feitos de nossas memórias e definidos por nossas escolhas. Não somos animais. Com livre arbítrio vem responsabilidade. Há complexidades que tornam tudo confuso, mas também belo, e às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. À medida que me aproximo do fim deste artigo, meu sofrimento vai se esvaindo. Depois de checar online comparações entre o passado e presente, é possível sentir algum conforto e garantia de que o ano de 2016 não foi o pior da história. O político britânico Tony Benn disse que “todas as gerações devem lutar as mesmas batalhas por paz, justiça e democracia. Não há vitória ou derrota definitiva. O avanço da raça humana sempre se deu através da luta. Mesmo quando se perde uma batalha, uma lição de coragem e determinação é deixada para as futuras gerações”. Seja o passado melhor ou não do que o presente, o tempo em que vivemos é bom o bastante para melhorarmos nossa capacidade espiritual, e ao mesmo tempo ruim o suficiente para juntarmos forças e melhorá-lo. Devemos lutar todos os dias para superar a negatividade e praticar atos de gentileza. Nossa própria vontade pode fazer o resto, nosso melhor ano de todos. *A cláusula 28 proibia as autoridades locais de “promover” a homossexualidade ou famílias formadas por casais de pessoas do mesmo sexo. A mesma foi revogada na Escócia em 2000 e em todo o Reino Unido em 2003. **Poll Tax (oficialmente Community Charge: “imposto comunitário”) foi o imposto regressivo instituído pelo governo de Margaret Thatcher em 1989 na Escócia, e em 1990 no restante do Reino Unido, o qual custearia os governos locais (“councils”, semelhantes a prefeituras) por meio de uma taxa única a ser cobrada por habitante, independentemente da sua renda ou capacidade econômica. Foi substituído pelo Council Tax em 1993. ***Forma padrão da pronúncia do inglês britânico.


brasilobserver.co.uk | Dezembro 2016 21

HELOISA RIGHETTO

Retrospectiva feminista Ganhamos força, ganhamos adeptas, ganhamos espaço “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes, você terá que manter-se vigilante durante toda sua vida”. Essa conhecida afirmação feita por Simone de Beauvoir aplica-se perfeitamente ao que estamos vivendo hoje, em 2016. O ano que nos mostrou que a história é mesmo cíclica, que o senso de coletivo é uma utopia, um sonho distante. Tendo em vista a real ameaça aos direitos das mulheres, a militância feminista começou a se preparar para as diversas batalhas que virão. Ganhamos força, ganhamos adeptas, ganhamos espaço. Acredito que os leitores dessa coluna estão mais do que familiarizados com os males de 2016. Mas você está a par das vitórias, protestos e projetos feministas? No Brasil, um acordo sem precedentes na Justiça de São Paulo é exemplo da conscientização das mulheres em relação ao assédio “casual”, que até pouco tempo era visto como algo cotidiano. O homem, que assediou a vítima no elevador do seu próprio prédio, concordou em fazer uma doação para a ONG feminista Think Olga e comprometeuse a não continuar com esse tipo de comportamento (e se for denunciado novamente irá enfrentar processo). Também no Brasil, no dia 28 de setembro (Dia da Luta Pela Descriminalização do Aborto no Caribe e América Latina), coletivos, projetos e ONGs feministas uniram-se para fazer uma virada online no Facebook por 24 horas. Das 0h às 23h59 aconteceram transmissões ao vivo na rede social, e a hashtag #PrecisamosFalarSobreAborto promoveu interação e engajamento em torno do tema. Eu tive o privilégio de fazer parte da virada, falando sobre as leis de aborto no Reino Unido e Irlanda. Foi um dia de intenso ativismo digital, com especialistas e militantes abordando a questão do aborto com fatos e estatísticas, para tirar o estigma e mostrar o quanto o corpo da mulher está sob total controle do patriarcado. Ainda na questão do aborto, acompanhamos as mulheres polonesas realizarem uma greve geral e tomarem as ruas de cerca de 60 cidades no país no dia 3 de outubro para protestarem contra a tentativa do governo de banir o aborto sob qualquer circunstância. Atualmente o procedimento é permitido em casa do estupro, de má forma-

Tendo em vista a real ameaça aos direitos das mulheres, a militância feminista começou a se preparar para as diversas batalhas que virão. ção do feto ou se a vida da mulher está em risco. Confrontadas com a possibilidade de perderem o pouco que tem, as polonesas se organizaram e conseguiram – ainda que temporariamente – que o governo engavetasse o projeto. A diferença de 14% nos salários de mulheres (para menos) em relação aos homens (que ocupam cargos similares) levou as islandesas a organizarem um protesto sincronizado e criativo. Precisamente às 14h38 do dia 24 de outubro – 14% antes do fim do expediente – elas deixaram seus postos e foram para as ruas. Vale enfatizar que a Islândia é o melhor país no mundo em relação à igualdade de gênero, e ainda assim é estimado que essa diferença no salário só chegará ao fim em 52 anos. O que chega a ser pouco se comparado com os 170 anos estimados pelo Fórum Mundial de Economia para acabar com o problema a nível global. E, por fim, uma luz no fim do túnel pós-eleições, no Brasil e nos Estados Unidos. Em Belo Horizonte a candidata Áurea Carolina do PSOL, militante negra e feminista, foi a vereadora eleita com o maior número de votos. E nos Estados Unidos a instituição Planned Parenthood, que fornece informações e consultas sobre saúde e direitos reprodutivos, recebeu milhares de dólares em doações do público, como forma de protesto contra o ultra-conservadorismo do vice-presidente eleito, Mike Pence (que durante a campanha prometeu cortar os fundos públicos direcionados à instituição). Que 2017 seja um ano de ainda mais vitórias, e que elas não sejam as exceções. g

Heloisa Righetto é jornalista e escreve sobre feminismo (@helorighetto – facebook.com/conexãofeminista)


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LONDON BY

A vida que passa em Londres Londres é como uma festa barulhenta e cheia de gente, mas com uma porta para um jardim tranquilo. Tina Wells escreve sobre sua relação com a capital britânica

Londres Pra Você | Passeios guiados e roteiros personalizados, em português, para você curtir o melhor de uma das cidades mais fantásticas do mundo. No blog eu dou dicas e conto o que está rolando na cidade e mostro fotos dos lugares que eu mais curto no Instagram. londrespravoce.com info@londrespravoce.com @londrespravoce

L

Lembro-me de pensar “nossa, que cidade feia”, quando o motorista fazia o trajeto do aeroporto de Heathrow par o meu hotel em Swiss Cottage, no noroeste de Londres. As casas todas iguais, tempo cinza, tudo muito estranho para os olhos de uma carioca acostumada com sol, praia e a beleza natural do Rio de Janeiro. Dia 15 de julho de 1992. Duas semanas antes eu havia recebido um telefonema confirmando meu novo contrato com o escritório de jornalismo da TV Globo na capital britânica. Avisei a produtora onde trabalhava como freelancer; fechei a conta no banco; despedi dos amigos e familiares; coloquei tudo que eu consegui em três malas e vim sabendo que era pra ficar. Muitas águas rolaram nesses 24 anos. Não trabalho mais na TV Globo nem como editora de imagens. Tornei-me cidadã britânica e me casei com um londrino, nessa ordem, por isso sempre brinco com meu marido que ele pode ter certeza que casei por amor e não pelo passaporte. Virei blogueira – ou pelo menos estou tentando – e faço passeios guiados pela cidade. Londres deixou de ser um patinho feio e hoje não para de me encantar. Minha felicidade é ver o brilho nos olhos dos turistas quando se deparam pela primeira vez com os monumentos saídos dos cartões postais. Big Ben, London Eye, Tower Bridge, Palácio de Buckingham... E com eles aprender a ser turista também – como vim para trabalhar com telejornalismo, as imagens que me interessavam antes eram bem diferentes. Hoje não me canso de passear pela beira do rio Tâmisa, passando pelas lindas pontes, cada uma com sua história. A música que eu mais gosto sobre Londres é “Waterloo Sunset”, do Kinks – a ponte de Waterloo é um dos lugares mais legais para apreciar o por do sol. Viajar nos cheiros e sabores do Borough Market, um dos maiores mercados de comida de Londres e um paraíso para quem gosta de cozinhar (e comer) como eu. Sentar no pátio do The Anchor, um dos pubs mais antigos da cidade, e concluir que o escritor inglês Samuel Johnson tinha toda razão: “se você está cansado de Londres, está cansado da vida. Porque há em Londres tudo que a vida tem para oferecer”. Admirar a cúpula da Catedral de St. Paul no horizonte da Millennium Bridge. Tomar um drink no Riverfront enquanto espera a sessão do seu filme clássico preferido começar no BFI (British Film Institute).

Entrar na National Gallery, um lugar pra deixar de boca aberta até mesmo quem não entende nada de arte, como eu, nem que seja só para usar o wi-fi, e sentar em frente a uma obra de Rapahel, Caravagio, Degas, Van Ghogh. São mais de 2.000 quadros pintados desde o século 13 até o começo do século 20. Ver Londres do alto do Primrose Hill, o meu parque favorito. Ou da London Eye, a roda gigante mais famosa do mundo. Do Sky Garden, um jardim instalado no topo do prédio apelidado de Walkie Talkie, na City. Do Emirates Cable car, o teleférico que atravessa o rio Tâmisa no lado leste da cidade. Ou do décimo andar do prédio novo da Tate Modern, uma das maiores galerias de arte contemporânea do mundo. E quase tudo de graça! Descobrir, a cada dia, lugares diferentes e curiosidades da cidade que eu gosto de chamar de casa. Londres é como uma festa barulhenta e cheia de gente, mas com uma porta para um jardim tranquilo que podemos entrar para relaxar e apreciar a natureza de uma metrópole com 47% de área verde. Adoro explorar os mercados de Camden Town e depois fugir da “muvuca” pelo Regent’s Canal, caminhado até Little Venice ou dando uma paradinha no Regent’s Park para ver as rosas no início do verão. As estações do ano, todas tem seu charme, mas o outono é a minha preferida, com suas cores e o arzinho gelado anunciando que está na hora de tirar os casacos do armário. A escuridão do inverno deprime muita gente, mas é só passear pelas ruas do West End e pegar a energia das luzes e vitrines de Natal, cada uma mais linda do que a outra. E depois ir se divertir no Winter Wonderland, no Hyde Park. Patinar no gelo, andar na montanha russa ou simplesmente festejar na Bavarian Village com muita cerveja, comida e músicas típicas. Ver os fogos do Ano Novo e ouvir o Big Ben soar as badaladas da meia-noite, nem que seja pela TV – nunca fui ver ao vivo porque sempre trabalhava, mas, quem sabe, agora que virei turista, não me animo? E que felicidade ver os primeiros narcisos da primavera e aquele verdinho novo nas árvores que dão um ar de campo para uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. Mais um ciclo, mais um ano. A vida passa e meu amor por Londres não para de crescer.


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Tina Wells


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MOSTRA 2016 B R A Z I L I A N D ES I G N E R S T R A N S L AT I N G N E WS I N TO P OW E R F U L I M AG ES

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DECE


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AT SA L A B R AS I L B R A Z I L I A N E M BAS SY I N LO N D O N

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