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LONDON EDITION

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ISSN 2055-4826

DECEMBER/2015

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SUMÁRIO 6 8 10 12 14 16 18 20 22 23 26 28 30

EM FOCO Embaixador Eduardo dos Santos apresenta suas credenciais

LONDON EDITION

COLUNISTA CONVIDADO Christian Laloe escreve sobre o fim de uma era no Brasil É uma publicação mensal da ANAGU UK UN LIMITED fundada por:

PERFIL Henrique Cazes e o som de seu Cavaquinho BRASIL GLOBAL Pesquisa aponta o novo perfil do brasileiro no Reino Unido

ANA TOLEDO Diretora de Operações ana@brasilobserver.co.uk

CONEXÃO BR-UK Conheça o projeto Minha São Paulo – Café Art Brasil

GUILHERME REIS Diretor de Redação guilherme@brasilobserver.co.uk

BRASILIANCE O que esperar para o Brasil em 2016?

ROBERTA SCHWAMBACH Diretora Financeira roberta@brasilobserver.co.uk

BRASILIANCE A tragédia de Mariana e o que fazer agora CONECTANDO A revolta dos estudantes em São Paulo

EDITOR EM INGLÊS Shaun Cumming shaun@investwrite.co.uk

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DESIGN E DIAGRAMAÇÃO Jean Peixe peixe@brasilobserver.co.uk

GUIA Bixiga 70: Música brasileira instrumental para dançar

COLABORADORES Ana Beatriz Freccia Rosa, Aquiles Rique Reis, Franko Figueiredo, Gabriela Lobianco, Rachel Costa, Ricardo Somera, Wagner de Alcântara Aragão

DICAS CULTURAIS Música e literatura com um toque brasileiro COLUNISTAS Franko Figueiredo, Aquiles Rique Reis e Ricardo Somera VIAGEM Ana Beatriz Freccia Rosa te leva para Portugal ARTE DA CAPA

Mag Magrela

magcrua.blogspot.com.br

Mag sempre teve contato com as artes plásticas através de seu pai, que pintava telas. Mas somente em 2007 as ruas de São Paulo serviram de base para os desenhos acumulados em cadernos. Desde então seus trabalhos podem ser encontrados principalmente nas ruas de São Paulo, mas também no Rio de Janeiro, Londres e Nova York. Representando o estilo de graffitti brasileiro, que usa intuição e intensa criatividade, Mag se encontrou também em telas, bordados e azulejos. Inspira-se na euforia urbana de São Paulo para transitar por temas que falam sobre a mistura da cultura brasileira: a fé, o profano, o ancestral, a batalha do dia-dia, a resistência, a busca pelo ganha-pão, o feminino. Seus personagens dispostos nos muros contrastam com a arquitetura cinza e sofrida das cidades, propondo uma pausa a todos que procuram refúgio para outros pensamentos.

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brasilobserver.co.uk | December 2015 E D I T O R I A L

A QUE PONTO CHEGAMOS!

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Pronto. As cartas estão na mesa. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, autorizou na quarta-feira dia 2 de dezembro a abertura do processo de impeachment da presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Boa parte do país, vale dizer, comemorou como se fosse um gol. Assistimos, afinal, a um espetáculo trágico que se arrasta desde o início do ano, e que parece ter como objetivo impossibilitar que o país consiga superar os problemas mais urgentes: contas públicas deficitárias, desemprego crescente, inflação galopante, recessão econômica... De quem é a culpa? O vilão favorito é Eduardo Cunha, claro, a representar o que de pior existe na política brasileira – aceitou o pedido de impeachment para desviar o foco da Comissão de Ética que pode lhe cassar o mandato. Ou seria a própria Dilma, a grande vilã? Não importa. Assim como não importa definir se a situação configura ou não um golpe. Urgente é constatar que nosso sistema político se desintegra ladeira a baixo, sem sinal de recuperação enquanto não se criar um consenso mínimo no Congresso Nacional. Tempos de oportunismo e insensatez. Os erros do governo Dilma e do PT são inumeráveis – e, em última instância, principais indutores da crise pela qual passa o país. No poder, portaramse como os demais e traíram não apenas o movimento progressista que ainda julgam representar, mas a esperança de construção de uma democracia social em um país deformado por séculos de desigualdade. Avançou-se, e muito, na última década. Mas a negação da política como meio de confrontar paradigmas e construir linhas de passagem para um novo ciclo de desenvolvimento fez com que o projeto petista se esgotasse – apesar da vitória de Dilma em outubro de 2014. Ao prometer o impossível na campanha eleitoral e esconder da população os desafios que o país enfrentaria nesta transição de ciclo, Dilma e o PT perderam o capital político necessário para continuar mudando a realidade brasileira. Ao adotar o discurso derrotado nas urnas, perderam apoio popular e incitaram a oposição mais retrógrada a sair do armário. Criaram, enfim, as condições para que se debatesse abertamente, e diariamente, o impeach-

ment da presidente eleita. Trata-se, afinal, de um processo político (leia na reportagem de Wagner de Alcântara Aragão). E da oposição, o que dizer? É irônico constatar que, da Argentina e da Venezuela, países normalmente ridicularizados pelos partidos mais conservadores, venha a principal lição. Naqueles países, os governos “progressistas” de Christina Kirchner e Nicolas Maduro acabam de sofrer derrotas eleitorais. Ou seja, é possível vencer nas urnas – isso é democracia. No Brasil, porém, alas contrárias ao governo Dilma querem pegar um atalho, inclusive dentro do PSDB, principal partido de oposição, que sempre se julgou tão republicano. Mas por que isso acontece? Quatro derrotas seguidas nas urnas podem ser uma das explicações. O PSDB há tempos tem se mostrado incapaz de produzir um projeto de país compatível com o que espera a maioria da população brasileira. Tal incompetência em superar o PT nas urnas também é um dos fatores que nos fizeram chegar ao atual momento de crise política e econômica. Sobre o PMDB, não resta muito a falar. Trata-se do partido infiel da balança: seguirá quem estiver no poder e pronto, nada mais importa. É preciso, porém, confiar no Brasil. É preciso acreditar nos brasileiros, em nós, por mais que o pessimismo seja hoje dominante. As ocupações de escolas públicas por adolescentes na cidade de São Paulo é um dos motivos de esperança, apesar da narrativa dominante tratá-los como invasores (leia na seção Conectando). Precisamos, afinal, desenvolver nossa democracia através da participação da sociedade civil. Precisamos combater a despolitização que serve apenas aos políticos de gabinete, intocados no Congresso, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais. Politizar a política, e resgatar a soberania da população. Isso também vale aos empresários, por que não? Conquistas sociais são a contrapartida indissociável de vendas, lucros e investimentos. Uma sociedade mais igualitária é fundamental para bons negócios. Seja como for, o Brasil Observer deseja aos leitores um feliz Natal e um próspero Ano Novo! Nos encontramos de novo na edição de fevereiro.

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EM FOCO

EMBAIXADOR APRESENTA CREDENCIAIS À RAINHA que este número irá aumentar significativamente se assinarmos o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Européia. Aproveito esta oportunidade para agradecer ao Governo britânico o seu apoio à proposta visando a troca de ofertas entre os dois blocos em um futuro próximo”, disse o Embaixador. Na área da educação, o Embaixador ressaltou o desdobramento de parcerias viabilizadas após a vinda 10 mil brasileiros para o Reino Unido através programa ‘Ciência Sem Fronteiras’. “Outro campo que eu gostaria de destacar é a educação. Dos cem mil brasileiros que receberam bolsas de estudo desde que o programa ‘Ciência sem Fronteiras’ foi criado há quatro anos, dez mil escolheram o Reino Unido como destino. Encorajado por este sucesso, o Brasil e o Reino Unido têm apoiado estudos de pós-graduação científicas e inovação”, enfatizou. Além disso, o Embaixador citou a promoção de intercâmbio cultural entre os dois países e, também, destacou o momento em que assume o posto como especial, por estar a menos de um ano do Brasil sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos no Rio de Janeiro, que acontecem em agosto de 2016.

ALIONKA SARAIVA

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Eduardo dos Santos assumiu oficialmente o cargo de Embaixador do Brasil para o Reino Unido no dia 3 de dezembro, quando esteve no Palácio de Buckingham para apresentar suas credenciais à Rainha Elizabeth II. A carta credencial é uma carta formal enviada por um Chefe de Estado para outro, que concede formalmente a acreditação diplomática a um representante designado para ser o Embaixador do país de origem no país de acolhimento. Essa é a terceira vez que Eduardo dos Santos ocupa um posto como diplomata no Reino Unido. Em seu discurso, o Embaixador descreveu como “forte e histórica” a relação entre Brasil e o Reino Unido, pontuando o comércio bilateral significativo, a estreita cooperação em várias áreas importantes - como a educação - e um diálogo cordial sobre as grandes questões internacionais. “Empresas britânicas estão entre os maiores investidores estrangeiros no Brasil e as empresas brasileiras estão cada vez mais olhando para o Reino Unido como um destino para a sua expansão no exterior. O Brasil é o parceiro comercial mais importante do Reino Unido na América Latina, com o comércio bilateral atingindo US$ 7,1 bilhões em 2014. Estou certo de

Embaixador Eduardo dos Santos durante seu discurso na apresentação de suas credenciais à Rainha, no Palácio de Buckingham

DIVULGAÇÃO/MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER É TEMA DE PALESTRA NO CONSULADO-GERAL DO BRASIL EM LONDRES A ligação é direcionada para a Central de Atendimento às Mulheres, em Brasília, que recebe denúncias de violência, encaminha e orienta as mulheres. A Central funciona 24 horas, todos os dias da semana, inclusive finais de semana e feriados. E a ligação pode ser feita a partir do Reino Unido. O Consulado pode contatar as vítimas para prestar assistência ou, caso solicitado, acionar as autoridades locais. A iniciativa é promovida pelo governo federal com o objetivo de ampliar o apoio e assistência a vítimas brasileiras de violência doméstica, exploração laboral e tráfico de pessoas no exterior.

DIVULGAÇÃO

Em sintonia com a campanha mundial ‘16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência contra as Mulheres’, lançada pela ONU, o Consulado-Geral do Brasil em Londres realizou no início do mês de dezembro duas palestras gratuitas - em Londres (3/12) e em Belfast (5/12) -, voltadas para temas ligados à violência contra a mulher. Um dos pontos em destaque foi o serviço de atendimento telefônico “Ligue 180”, que já está disponível no Reino Unido. O serviço é totalmente gratuito, oferece informação, orientação e assistência à mulher brasileira vítima de violência doméstica (física e/ou psicológica) e de exploração sexual no exterior.

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COLUNISTA CONVIDADO

FIM DE O UMA ERA? Por Christian Laloe

Christian Laloe é profissional do mercado financeiro. Trabalhou por 20 anos na área internacional de várias instituições de renome. Engenheiro de formação, acompanha o trabalho de alguns Think Tanks na Europa e no Brasil. g

O ano de 2015 ficará marcado na história do Brasil pela profunda incerteza política e econômica. Pouco mais de um ano após a reeleição da presidente Dilma Rousseff, o país experimenta uma paralisação política associada ao agravamento da crise econômica que parece não ter fim. O PIB deste ano deve encolher por volta de 3%, ou seja, dois anos seguidos de crescimento negativo, o que não acontece no Brasil desde 1930. Apesar da incerteza no Brasil e no mundo, estou convicto de que grande parte da população, em seu inconsciente, está certa de que mudanças estruturais estão acontecendo e irão continuar a acontecer por algum tempo. Gosto de caracterizar o que estamos vivendo como “interregnum”, período de vácuo na história em que sabemos que o “velho” morreu e não voltará, mas no qual o “novo” ainda não emergiu de forma clara, nos deixando com pouca visibilidade de como será daqui para frente. Alguns períodos de “interregnum” foram marcantes, como a morte do imperador Qin, na China, e a ascensão de Li Bang, entre 206-202 AC, dando início à Dinastia Han, que durou quase 500 anos. Estudando a história hoje, esses períodos parecem normais e previsíveis, mas com certeza foram bem menos óbvios e pacíficos para quem os viveu. A grande questão que muitos se fazem hoje é se o que irá emergir será uma continuidade do que já vivemos desde o pósguerra, ou seja, a mesma sociedade baseada em crédito e consumo e que de certa maneira mantém a mesma organização do trabalho, ou se estamos de fato no fim de uma era (que começou na Revolução Industrial). Os estímulos monetários desde a crise de 2008 via bancos centrais dos Estados Unidos, Europa, Japão, Inglaterra e China, associados a um crescimento exponencial da tecnologia, fizeram com que a organização da sociedade e dos meios de produção fosse revista. Este processo está em andamento acelerado e acredito que conheceremos um novo modelo muito em breve. E o que me chama muito a atenção é que esse vácuo que o mundo vive é múltiplo, pois existe na política, na geopolítica e na economia mundial. Retomando uma ideia de Marx (que se baseou em estudos de David Ricardo e Adam Smith): a infraestrutura econômica determina a superestrutura, ou seja, a forma como o sistema de produção é organizado determina quem estará no poder. Durante todo o século 20, tivemos estruturas piramidais com grandes empresas, chefes e hierarquias bem definidas. A globalização muda isso, fazendo com que essas estruturas sejam mais flexíveis, totalmente horizontais. Parece ser um fenômeno muito interessante causado principalmente pela revolução tecnológica e da comunicação que começou na década de 1990. A sociedade vem evoluindo muito mais rapidamente do que a política, que continua antiquada e engessada. Tal processo leva à falta de representatividade dos governantes. Nunca as pessoas se sentiram tão mal representadas – fato mais visível nas democracias provavelmente por causa de uma agenda eleitoral pré-definida que faz com o que o político seja mais um profissional do que um representante do interesse coletivo.

Olhando com mais cuidado, vemos que alguns líderes têm seguido um roteiro populista bastante claro, seja na Rússia, com um discurso de resgate do Grande Império, ou na China de Xi Jinping, que é considerado o líder mais popular desde Mao. Mais recentemente, na Turquia, tivemos a reeleição do presidente Erdogan, que conseguiu reverter na última hora um cenário adverso, de acordo com as pesquisas eleitorais. Estamos assistindo a uma instalação de governos populistas em países emergentes e eventualmente de governos mais extremistas em países desenvolvidos? Do ponto de vista geopolítico, o vácuo e a incerteza não são menos preocupantes. É notório o que acontece no Oriente Médio: uma guerra implacável entre xiitas e sunitas que vai do Iêmen à Turquia e que irá redefinir as fronteiras da região nos próximos 20 anos – consequência direta de uma ruptura forçada e fracassada do Império Otomano imposta por uma briga de influências de países europeus na região. Essas mudanças fazem com que a relação da maioria dos países daquela região com os países ocidentais passe por uma bastante provável revisão. No Brasil, temos uma democracia jovem com algumas doenças de país velho. Temos muito a fazer nas áreas da saúde, educação e segurança pública. Temos uma estrutura de governo inchada com gastos públicos maiores do que o país pode suportar, além de uma população em processo de envelhecimento. Na frente econômica, estamos também pagando por erros que cometemos em um passado recente e torcendo para que a lucidez faça com que reencontremos o equilíbrio nas contas públicas, retomando assim confiança, poder de investimento e capacidade de crescimento. Não sei quando e como chegaremos lá, mas tenho uma forte convicção de que chegaremos. Mas, afinal, como ter tal convicção? Para os mais observadores, 2015 foi um ano no mínimo extraordinário em vários aspectos. O principal deles é que, até agora, ao longo da consolidação do nosso processo democrático, temos conseguido criar e preservar instituições sólidas que ficarão ainda mais sólidas e estabelecidas conforme a democracia for amadurecendo. Este é um processo demorado e às vezes doloroso, mas é o único certo e perene. Em particular, o trabalho do Ministério Público e da Polícia Federal é de dar inveja aos nossos vizinhos sul-americanos. Não há sinal maior do que este a indicar que o país está avançando, sim, na direção correta. É muito fácil, em conversas com amigos, ser pessimista, achar que amanhã será pior do que hoje. Quem se esqueceu da grande fome na China entre 1958 e 1961, que matou 15 milhões de pessoas? Hoje a China é a segunda economia mundial. Será que aqueles que eram crianças na época achavam que iriam viver na grande nação que a China se transformou? A mesma analogia pode ser feita com Japão e Alemanha. Portanto, precisamos ter coragem de ousar, transformar ou repensar o que já está feito. A hora de fazer é agora. O Brasil já conheceu situações semelhantes ou piores em sua história e conseguiu se restabelecer. Tais mudanças só dependem da vontade da sociedade em querer evoluir.


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PERFIL

HENRIQUE

CAZES E SEU CAVAQUINHO

RÔMULO SEITENFUS

Foi o cavaquinho que me escolheu

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O cenário poderia muito bem ser um botequim no Rio de Janeiro. Quem sabe até o Amarelinho, bar tradicional localizado na Cinelândia, para onde costumavam ir os sambistas das antigas para encontros memoráveis. Ocorre que, na realidade, o local onde se passou a conversa aqui narrada fica em Londres, mais precisamente em frente à estação Baker Street: The Globe, um pub. Afinal, pelo menos uma cerveja (meio) gelada deveria haver para acompanhar o papo. Papo daqueles bem cariocas. Pois Henrique Cazes, que nasceu no suburbano bairro do Méier, no Rio de Janeiro, traz consigo a marca registrada da Cidade Maravilhosa: o samba, o choro e, no colo, o cavaquinho. Sem contar que, invariavelmente, surgiam à mesa nomes de grandes bambas que fizeram e fazem do Rio um oásis da boa cultura: Waldir Azevedo, Radamés Gnatalli, Joel Nascimento, Pixinguinha, Jacob do Bandolim – para ficar apenas entre aqueles que mais inspiraram a carreira do personagem desta entrevista. Perguntei ao Henrique como ele explicaria a um inglês o que é um cavaquinho, seu instrumento de trabalho. “Eu começo falando do ukulele, que hoje em dia todo mundo sabe o que é, pois é um. Daí eu pergunto se sabem de onde vem o ukulele e respondo que vem de um instrumento chamado cavaquinho, que veio de Portugal...”. “Isso cria curiosidade e, quando eu toco, muitas pessoas ficam fascinadas porque o som do cavaquinho é mais harmonioso, mais elaborado, então alguns dizem que houve um retrocesso com o ukulele”, disse Henrique ao lembrar-se da reação que gerou ao tocar o cavaquinho para pessoas acostumadas com o ukulele no Havaí. “Uma maneira importante de falar do choro”, continuou, “é contar a

Por Guilherme Reis

história do ritmo a partir da adaptação das danças europeias”. O Rio de Janeiro em meados do século passado era conhecido como a cidade dos pianos. Dos salões da alta burguesia até as salas de visita da classe média, eram tocadas ao piano as polcas, schottische, mazurcas, valsas e outras danças que vinham da Europa. Ao adaptar estes gêneros, os músicos populares foram acrescentando o sotaque português e introduzindo o lado lúdico comum à música de influência africana. Assim nasceu um jeito choroso de tocar – daí o nome ‘choro’ –, que teve em Joaquim Callado seu primeiro expoente. A ele se seguiram outros flautistas como Viriato, Luizinho e Patápio Silva. Depois disso surgiram compositores como Ernesto Nazareth e Anacleto de Medeiros, que abriram o caminho para que, já na década de 1910, pelas mãos do gênio Pixinguinha, o choro ganhasse uma forma definida. Em seguida vieram Jacob do Bandolim, Luis Americano, Garoto, Radamés Gnattali, Waldir Azevedo e muitos outros, fazendo o choro evoluir, absorvendo e reciclando influências. A história do choro, aliás, é parte importante da carreira de Henrique Cazes, que, em 2005, gravou o disco Desde que o Choro é Choro, passando por toda a trajetória do ritmo. Além disso, lançou, em 1998, o livro Choro, do Quintal ao Municipal, que se tornou uma referência para todos que querem estudar e aprender sobre o tema. Mas, se o cavaquinho nasceu em Portugal, por que hoje ele é considerado um instrumento brasileiro? “O cavaquinho brasileiro criou uma personalidade própria que começou a ser forjada na música dos chorões, nas últimas três décadas do século 19.


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Quando surgiu o rádio e o samba, o cavaquinho brasileiro teve uma oportunidade que nunca teve em Portugal, que foi a oportunidade de profissionalização. Passou a haver no Brasil emprego de tocador de cavaquinho na rádio. E não só na rádio nacional como também nas rádios regionais. Cada rádio tinha pelo menos um conjunto regional. Então por que o cavaquinho se desenvolveu mais no Brasil? Porque no Brasil ele teve uma chance dentro da música comercial”, argumentou Henrique.

DA BRINCADEIRA À PROFISSÃO Da mesma forma que o cavaquinho passou a se desenvolver quando virou instrumento de trabalho, Henrique Cazes foi tomado de vez pelo ‘cavaco’ quando surgiu uma proposta de emprego para tocar no Conjunto Coisas Nossas. “Foi o cavaquinho que me escolheu”, disse. Assim como a grande maioria dos músicos, as primeiras influências surgiram dentro da própria casa. “Lá em casa meu pai tocava violão e meus irmãos começaram a tocar. Eu tinha seis anos de idade quando comecei a pegar os primeiros acordes no violão. Minha mãe sempre cantava o repertório da Carmem Miranda, da Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso... Tocávamos sempre juntos nas festas”, lembrou. Foi quando surgiu o disco Acabou Chorare, da banda Novos Baianos, que Henrique Cazes decidiu que queria aprender cavaquinho. Corria o ano de 1972, Henrique completava 13 anos de idade e o som do cavaquinho e bandolim em músicas como “Brasil Pandeiro” fez com que o jovem se arriscasse no novo instrumento. Mesmo assim, ainda preferia o violão, tocando cavaquinho apenas nos blocos de Carnaval. Em 1976, a virada. Henrique foi convidado para tocar cavaquinho profissionalmente no Conjunto Coisas Nossas e nunca mais parou. No primeiro trabalho, teve que aprender um vasto repertório de músicas de Noel Rosa, o que o introduziu desde o início ao universo da pesquisa musical. Em 1980, passou a integrar a Camerata Carioca, onde trabalhou em contato direto com dois músicos que o influenciaram muito: o bandolinista Joel Nascimento e o maestro Radamés Gnattali. Sobre a camerata, Henrique afirmou que “era totalmente diferente, pois tive que estudar música de verdade”. A carreira de solista começou em 1988. E, naquele mesmo ano, deu talvez a sua principal contribuição para o universo do cavaquinho: lançou o método Escola Moderna do Cavaquinho, o mais utilizado livro didático do instrumento. Gaio de Lima, aliás, utilizou esse método, apesar de hoje ter o bandolim – parecido com o cavaquinho, mas com quatro pares de cordas – como primeiro instrumento.

ACADEMIA E LEGADO Além de cavaquinista, arranjador e produtor, Henrique Cazes é também professor universitário. “Meu trabalho como produtor teve uma queda a partir principalmente de 2009, então eu resolvi abrir uma porta diferente e fui fazer mestrado, me tornar professor de universidade”, explicou. Hoje, ele ministra o curso de Bacharelado em Cavaquinho na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Digo para meus alunos: O que eu tenho para oferecer, mais do que conhecimento, é experiência. É uma quantidade de experiência tão grande que você começa a achar que é importante passar adiante, tanto de uma maneira informal, como num ensaio, numa roda, quanto de maneira formalizada, dentro de um curso na universidade. Mas, sobretudo, é chegar numa altura da vida e correr menos atrás do imediato, tentar construir uma coisa pra deixar essa experiência ser transformada num conhecimento organizado”, refletiu Henrique. Experiência essa que foi acumulada em mais de 100 produções. “Parei de contar quando fiz 50 anos. Mas contei 127 produções, entre discos de conjunto, discos solo e discos que eu fui produtor ou arranjador”, afirmou o cavaquinista, que mesmo assim ainda não se sente confortável em dizer que faz parte da história do choro. “É estranho porque tenho espírito jovem. Estou sempre começando a fazer alguma coisa que eu não sei. Fui fazer mestrado com 50 anos. Ao mesmo tempo em que sei que tenho uma enorme experiência, estou sempre entrando em alguma coisa que eu não sei fazer, como mexer com áudio, trabalhar sons antigos e melhorá-los”, contou. Questionado sobre quais de suas obras ele considerava mais importantes, respondeu: “O disco Pixinguinha de Bolso, com Marcello Gonçalves, foi muito importante. Tocamos três anos juntos o repertório antes de gravar, então no estúdio foi tudo muito natural. O livro Escola Moderna do Cavaquinho também foi importante, mas o livro sobre a história do choro (Choro, do Quintal ao Municipal) acabou tendo maior significado para minha carreira profissional; o livro saiu em 1998 e acabou virando uma referência para todos”. Antes de encerrarmos, quero saber de Henrique Cazes quem tinha aprendido mais: o bandolim com o cavaquinho ou o cavaquinho com o bandolim? “O bandolim aprendeu com o cavaquinho em Joel Nascimento. O Joel reproduziu no bandolim aquilo que ele via o Waldir Azevedo fazer no cavaquinho. Essa coisa vai e volta”.

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BRASIL GLOBAL

O NOVO O PERFIL DO BRASILEIRO NO REINO UNIDO Estudo evidencia predominância de brasileiros que têm fincado raízes em território britânico, constituindo família e conseguindo ascender socialmente

O que antes era apenas uma percepção, agora é fato: o perfil do brasileiro que vive no Reino Unido mudou. É o que aponta o mais amplo estudo já realizado sobre imigrantes brasileiros em solo britânico, ‘Diversidades de Oportunidades: Brasileir@s no Reino Unido, 2013-2014’. Conduzido por cinco pesquisadores do Grupo de Estudos sobre Brasileiros no Reino Unido (GEB), o relatório traz entre as principais conclusões a constatação de que a maioria dos brasileiros no país tem nível superior completo (29%) e decidiu emigrar em busca de “experiência de vida” (34%), e não apenas para “ganhar dinheiro e voltar para o Brasil” (17%). Não existe, porém, um único perfil de brasileiros no Reino Unido, afirmou ao Brasil Observer a doutora Yara Evans, pesquisadora visitante da Queen Mary (University of London) e uma das autoras da pesquisa. “A comunidade brasileira é diversificada, mas num passado recente, entre quinze e dez anos atrás, talvez predominassem brasileiros que vinham para cá em busca de oportunidades econômicas. Ou seja, brasileiros que vinham para trabalhar e se capitalizar, economizando para investir de algum modo no Brasil e para lá retornar após alguns anos. O que o último relatório do GEB evidencia é uma predominância de brasileiros que têm fincado raízes no Reino Unido, vivendo aqui por vários anos, constituindo família e conseguindo ascender socialmente”, explicou a doutora Evans. Entre as possíveis explicações apontadas para tal mudança estão a ascensão de uma nova classe média no Brasil, a chamada classe C, e o maior controle de imigração por parte do governo britânico nos últimos anos. Além disso, a expansão do ensino superior brasileiro – quase três quartos dos entrevistados (73%) afirmaram ter pelo menos começado a cursar nível superior no Brasil antes de emigrar para o Reino Unido.

A COMUNIDADE Os dados da pesquisa foram coletados entre setembro de 2013 e fevereiro de 2014 por meio de um questionário. Ao todo foram preenchidos 700 questionários válidos, que estavam disponíveis na internet e em estabelecimentos que oferecem serviços a brasileiros, como representações diplomáticas, por exemplo. Puderam participar do estudo apenas os adultos que nasceram no Brasil e que estivessem residindo no Reino Unido havia pelo menos seis meses da data de início da pesquisa. Apesar de ser a maior amostragem já obtida, os resultados não podem ser considerados representativos da comunidade brasileira como um todo, uma vez que não se conhece o tamanho real dessa comunidade no Reino Unido, estimada entre 80 mil e 300 mil pessoas, incluindo aquelas que possuem dupla cidadania ou estão em situação irregular – a imensa maioria vive na Inglaterra (98.4%), especialmente em Londres. De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores, quase 120 mil brasileiros residiam no Reino Unido no ano de 2012, o que coloca o país como terceiro destino atualmente mais procurado

Brazil Day 2015 na Trafalgar Square

por brasileiros na Europa, atrás apenas de Portugal (140 mil) e Espanha (128 mil). Segundo o último Censo britânico, porém, moravam no Reino Unido em 2011 pouco mais de 52 mil brasileiros – uma alta significativa em comparação com 2001, quando eram apenas 8 mil os brasileiro no país. De qualquer maneira, dado o número expressivo de participantes do levantamento, pode-se afirmar que os resultados são indicativos das características e experiências de muitos brasileiros no Reino Unido. Quase a metade da amostragem de brasileiros pesquisados tinha entre 30 e 39 anos na época da pesquisa; cerca de dois terços (67%) eram casados ou estavam convivendo com alguém; menos da metade (45%) declarou ter filhos; e a maioria nasceu ou teve como último local de residência o estado de São Paulo (entre 31% e 35%), seguido de Minas Gerais (entre 11.7% e 12.3%) e do Rio de Janeiro (entre 10.6% e 11%).

SITUAÇÃO IMIGRATÓRIA Neste quesito em particular, o relatório do GEB pontua que “as leis de imigração no Reino Unido têm mudado constantemente ao longo da última década com o intuito de enrijecer o controle imigratório de estrangeiros oriundos de países que não pertencem à Comunidade Europeia. Tais mudanças tem dado origem a uma vasta gama de tipos de vistos que, por sua vez, pro-


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SIMON RICHARDSON/EMBASSY OF BRAZIL IN LONDON

embora importante (cerca de um quarto dos pesquisados), enviava dinheiro para o Brasil. Em termos de planos para o futuro, o estudo revelou um fragmentado quadro. Cerca de um terço afirmou não ter intenção de morar mais no Brasil, enquanto outro terço pretendia voltar a residir no Brasil, e pouco mais de um terço mostrou-se indeciso quanto a voltar a viver no Brasil. O custo de vida (50%) e a solidão (28%) foram apontados como as principais dificuldades do cotidiano. Língua (26%), moradia (25%) e integração à sociedade britânica (23%) também foram mencionadas.

MANTER MESMO NÍVEL SOCIAL É UM DOS PRINCIPAIS DESAFIOS

duzem complexas situações imigratórias. Contudo, apenas uma pequena proporção de tais vistos se aplica ao caso da maioria dos brasileiros que são admitidos ao Reino Unido”. No momento da pesquisa, os brasileiros que reportaram possuir passaporte europeu por descendência eram maioria (34%). A esse grupo seguiam os brasileiros que reportaram possuir um passaporte europeu por união (22%). Proporções semelhantes de brasileiros reportaram possuir o visto de tempo indefinido (11%) e o visto de trabalho/ residência (11% em cada caso). Em proporções menores, observam-se os grupos de brasileiros que à época do estudo possuíam o visto de estudante (8%), os que declararam terem obtido cidadania britânica por tempo de permanência (5%) e os que possuíam um visto de turista (1%). Uma pequena minoria declarou estar vivendo no país sem visto (5%), e ainda outro grupo reduzido reportou outro tipo de situação imigratória (4%). Em termos do tempo de permanência, a maioria já residia no Reino Unido por vários anos. Quase dois terços (64%) residiam no país há mais de cinco anos na época do estudo. Destes a maior parcela é a de brasileiros que residiam no Reino Unido entre 5 e 10 anos (35%), seguida do grupo dos que residiam entre 10 e 20 anos (24%). Dos que residiam por menos tempo no Reino Unido, destacam-se as que resi-

diam entre 1 e 5 anos, constituindo o segundo maior contingente da amostragem (27%). As menores parcelas foram as das que haviam chegado ao Reino Unido nos últimos doze meses (7%), e as que aí residiam há mais de 20 anos (5%).

VIDA ECONÔMICA O estudo indagou sobre as atividades exercidas pelos brasileiros no Brasil antes de emigrarem e constatou que quase dois terços dos pesquisados (68%) havia trabalhado antes de deixarem o país de origem, seguidos de pouco mais de um quarto (26%) que declarou ser estudante na época. Sobre as atividades exercidas no Reino Unido durante o período da pesquisa, pouco mais da metade dedicava-se integralmente a uma atividade remunerada. Quase um quarto (22%) trabalhava e estudava. Uma minoria (14%) declarou não exercer atividade remunerada alguma, e outro grupo (12%) declarou dedicar-se integralmente aos estudos. Um quarto dos entrevistados exercia atividades relacionadas ao setor de negócios/administração, seguido por serviços ao consumidor (12,2%) e limpeza (11.9%). Grupos menores reportaram exercer atividades nos setores de educação (8.5%), saúde (7.4%) e construção (2.3%). Uma minoria (3.7%) não declarou a atividade que exercia, mas uma

proporção importante (12.1%) reportou exercer atividades em outro setor. Dos pesquisados que declararam estar trabalhando e estudando no Reino Unido, 41.6% eram estudantes de graduação, enquanto 30.7% eram estudantes de pós-graduação e 27.5% eram estudantes de curso de inglês. Dos pesquisados que declararam não estar trabalhando durante o período do estudo, a grande maioria (77%) era dependente do cônjuge. Outros grupos declararam depender de renda advinda do Brasil (1.1%) ou de bolsa de estudo (3%), ou ainda depender de outra fonte (1.9%).

VIDA SOCIAL O estudo revelou também que a vida social dos pesquisados gira normalmente em torno de atividades direcionadas a não-brasileiros ou praticadas em ambientes não-brasileiros, sendo que as principais exceções são participação em atividades religiosas e reuniões em casa. Quase metade não manifestou preferência por relacionar com brasileiros ou não-brasileiros, mas um terço preferia relacionar-se somente com não-brasileiros, e um quinto preferia relacionar-se apenas com brasileiros. A grande maioria mantém contato frequente (diário/semanal) com família e amigos no Brasil, sendo o Skype o meio mais utilizado, seguido pela comunicação por telefone. Apenas uma minoria,

Mesmo com nível educacional mais alto, nem sempre o imigrante brasileiro consegue manter no Reino Unido o nível social que tinha no Brasil. Salvo em situações em que chega ao país com emprego garantindo em sua área de atuação, o brasileiro aqui quase sempre experimenta uma situação de “descenção social”, como classificam os especialistas. “A descenção ocorre, sobretudo, por causa da falta de conhecimento ou domínio da língua inglesa, e não é experiência exclusiva de brasileiros, ocorre em vários outros grupos de imigrantes”, afirmou Yara Evans. “Assim, mesmo que tenham obtido um alto grau de qualificação no Brasil (por exemplo, nível universitário e pós-graduação), se esses brasileiros que aqui chegam não tiverem suficiente domínio do idioma, perceberão imediatamente que é muito difícil competirem num mercado aberto de trabalho onde competem também pessoas de todos os países do mundo, inclusive aqueles onde o inglês é a primeira língua (por exemplo, Estados Unidos, Canadá, Austrália etc.)”, completou uma das autoras do estudo. Evans lembra ainda que outros fatores podem pesar, como tempo de trabalho na área e nível de capacitação. “Enquanto não cumprem tais requisitos, resta aos brasileiros a solução mais imediata que é trabalhar nos chamados ‘sub-empregos’, que aqui envolvem sobretudo atividades como garçons/garçonetes, lava-pratos, motoboys, peões de obras (homens sobretudo), faxineiras e babás (sobretudo mulheres)”. “Contudo”, ressalva Evans, “dado o tamanho da comunidade no Reino Unido, há muitas oportunidades de emprego em serviços voltados exclusivamente para brasileiros e outros grupos de imigrantes que se comunicam em português, como por exemplo, estética pessoal, serviço de preparo e entrega de comida a domicilio, comércio de produtos brasileiros, serviços jurídicos, serviços de transporte, que podem propiciar a manutenção aqui do mesmo status social que ocupavam no Brasil”.


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CONEXÃO BR-UK

A CIDADE SOB UM NOVO OLHAR Cem câmeras fotográficas foram entregues a cem pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo. Elas tiveram dois dias para registrar suas perspectivas “Quando entregaram as câmeras em nossas mãos, parecia que não existia mais nada além daquilo”, lembra emocionado Matheus Leandro Barbosa, que se encontra em situação de rua em São Paulo, onde mora há 5 anos, vindo da Bahia. Matheus é uma dos cem moradores de rua da capital paulista que participaram do projeto Minha São Paulo – Café Art Brasil, nascido do programa With One Voice, intercâmbio de capacitação e debate sobre arte e população de rua entre Brasil e Inglaterra. A iniciativa é uma produção das organizações inglesas Streetwise Opera e People’s Palace Projects e conta também com o suporte da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo, além do apoio do British Council Brasil e da Calouste Gulbenkian Foundation UK. O calendário Minha São Paulo foi baseado no projeto idealizado pela organização inglesa Café Art, que há três anos conecta, através da arte, pessoas em situação de rua com a comunidade local. Anualmente, a organização promove a competição fotográfica Minha Londres, distribuindo cem câmeras descartáveis à população de rua da capital inglesa, que registra, em fotos, o cotidiano da cidade. As melhores imagens tiradas pelos participantes integram um calendário, com renda revertida para grupos que trabalham com arte e população de rua. Em São Paulo, cada fotógrafo teve 27 cliques para registrar suas impressões sobre a cidade. Das cem câmeras entregues, 92 retornaram – marca nunca antes atingida pelo projeto. Matheus, por exemplo, teve duas fotos escolhidas para ilustrar o calendário, nos meses de agosto e setembro. “Eu quis registrar pessoas que encontro na rua, pois acho que este projeto é justamente para contar estas histórias”. Já Diogo Virolli, outro participante cuja foto ilustra o mês de fevereiro, clicou uma casa sem janelas que lembrava muito a casa que morava quando pequeno, no interior da Bahia. “Lembrei-me de minha infância, que foi muito feliz”, diz. Ao todo, foram tiradas mais de 4.500 fotos. Um júri então selecionou as 20 melhores, que posteriormente foram a voto popular durante o Seminário de Arte e Cultura para a população de rua, ocorrido no dia 10 de novembro na Prefeitura de São Paulo. Paul Ryan, diretor do Café Art, ressalta que o projeto é mais do que uma competição: “É um passo em frente para que a sociedade se aproxime da população de rua, conheça suas histórias. Não é sobre as fotos. É sobre as pessoas que tiram as fotos”. Todas as fotografias trazem um breve perfil com foto do fotógrafo. O calendário será lançado entre 6 e 13 de dezembro, durante o Festival de Direitos Humanos de São Paulo, com a presença dos fotógrafos participantes e uma exposição com as melhores fotos tiradas por todos os 92 participantes. A tiragem será limitada e será vendida por R$25 no Brasil e £9.99, no Reino Unido. Toda a renda revertida será utilizada para apoio a projetos de arte com a população de rua de São Paulo, para dar continuidade a iniciativa e a realização de novo calendário em 2016. Para saber mais sobre como adquirir um calendário no Reino Unido, mande um email para info@cafeart.org.uk com o título Café Art Brazil.

DIVULGAÇÃO

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Casa sem janelas capturada por Diogo Virolli

Duas fotos escolhidas de Matheus Barbosa


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ELEVANDO A AUTOESTIMA Por Dr. Paul Tulley

Após a cirurgia bariátrica, os pacientes geralmente perdem quantidades significativas de peso de forma bastante rápida. Isso pode, muitas vezes, resultar em excesso de pele e outras alterações em todo o corpo. Embora se possa perder entre 25% e 50% do peso (algumas vezes mais), tal problema pode ser substituído pelo excesso significativo pele, causando outros problemas de contorno e harmonização corporal.

Normalmente, esses pacientes acumulam excesso de pele no abdômen, incluindo os lados e, muitas vezes, nas costas. Casos assim requerem, no mínimo, uma abdominoplastia para a correção. No entanto, em muitos casos o bodylift é necessário para remover o excesso de pele localizada nos lados e nas costas. Além dessa remoção, o bodylift também tonifica o núcleo dos músculos abdominais, estreitando a cintura e nivelando o estômago. Muitas outras áreas são geralmente afetadas, incluindo:

BRAÇOS E COXAS

O excesso de pele nos braços e nas coxas requer um lifting nessas regiões (Lifting Crural para as coxas e Lifting Braquial para os braços). Isso remove o excesso de pele flácida, remodelando a área e deixando a pele mais lisa e com contornos suaves, resultando em uma aparência tonificada.

MAMAS

A perda de peso pode causar a queda e perda de volume das mamas, exigindo uma elevação com a mastopexia, também conhecida como lifting de mama. A paciente tem a opção da aplicação deste procedimento com ou sem um aumento, reposicionando a aréola e o tecido mamário, removendo o excesso de pele e comprimindo o tecido para compor o novo contorno da mama.

FACE E PESCOÇO

O excesso de pele flácida no rosto e pescoço requer facelift e necklift. Esses procedimentos removem o excesso de pele e criam contornos mais jovens, deixando o rosto mais cheio e a parte inferior da face, mais magra, com queixo e pescoço com contorno bem definido.

GLÚTEOS

O lifting dos glúteos é indicado para casos de glúteos flácidos ou caídos. A opção pode ser com ou sem aumento de volume. O procedimento melhora o contorno do glúteo, com uma aparência curvilínea sem excesso de pele.

PARA NÃO ESQUECER!

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No Reino Unido, o cirurgião plástico deve ter treinado no NHS em diversas áreas da cirurgia plástica, reconstrutiva e estética. E deve ter as seguintes qualificações: 1) Certificado FRCS (Plas) e 2) Registro de especialista junto ao General Medical Council para cirurgia plástica e reconstrutiva. Este último prova que o treinamento feito pelo cirurgião plástico foi completado na íntegra.

Bsc MB BS MD FRCS(Plas)

Acredite no

seu corpo!

Na primeira vez que encontrei o Dr. Tulley, ele demonstrou que dominava o assunto e me explicou todos os procedimentos. Eu estava indecisa entre fazer as pernas ou os braços, e o Dr. Tulley pacientemente me explicou os dois procedimentos, me deixando segura e confiante para decidir. No dia 14 de novembro passado fiz a tão esperada plástica nas pernas, com resultado excelente, exatamente conforme o prometido na primeira consulta.Recomendo o Dr. Paul Tulley pelo profissionalismo, competência e por transformar um momento de ansiedade em uma mudança de vida extraordinária. Não hesite de visita-lo, pois vale a pena! Francine Mendonça, Diretora Executiva da London Help 4U

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Além disso, é importante ser membro de órgãos como BAAPS (British Association of Aesthetic Plastic Surgeons) ou BAPRAS (British Association of Plastic, Reconstructive and Aesthetic Surgeons). E ter um bom tempo de experiência no procedimento que o paciente deseja se submeter, no caso do citado no artigo, cirurgia bariátrica, de perda de peso.

Consultant Plastic, Reconstructive and Cosmetic Surgeon

Falamos português

Cirurgia plástica e reconstrutiva da face Seios e corpo, incluindo rejuvenescimento facial (facelift) Cirurgia plástica dos seios (aumento, redução e elevação) Contorno corporal (abdominoplastia, lipoaspiração e nádegas)

152 Harley St. London | 0207 183 1559 | enquiries@paultulley.com

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BRASILIANCE

NADA SERÁ COMO ANTES (?) Ameaça de impeachment da presidenta Dilma Rousseff torna ainda mais imprevisível e instável o cenário político e econômico do Brasil para 2016 Por Wagner de Alcântara Aragão

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Videntes, cartomantes, astrólogos, analistas econômicos, cientistas políticos. Quem exerce a função de traçar projeções para o Brasil, em especial para o ano novo que se avizinha, está com a vida bastante dificultada. Uma sucessão de episódios neste último mês de 2015 torna praticamente impossível o exercício de se prever o que 2016 reserva para os brasileiros. O mais recente desses acontecimentos é a ameaça de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Não que o assunto não estivesse em voga desde que a mandatária da nação iniciou sua segunda gestão, em janeiro. No entanto, do dia 2 de dezembro para cá, quando o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aceitou colocar em pauta um dos pedidos de afastamento da presidenta, a possibilidade, até então cada vez mais remota, reascendeu. O Brasil Observer conversou com duas figuras que estiveram entre as protagonistas quando, mais de 20 anos atrás e pela única vez na história brasileira, foi aberto processo e aprovado o impedimento de um presidente da República (Fernando Collor de Mello, em 1992). São eles os advogados e ex-detentores de cargos eletivos Sérgio Sérvulo da Cunha e Gastone Righi. O objetivo: obter deles perspectivas para o Brasil no próximo ano – mais precisamente, para os próximos meses.

INCERTEZA Gastone Righi era deputado federal em 1992, pelo PTB de São Paulo, e presidiu a Comissão Especial da Câmara instalada para dar o parecer em torno do pedido de impeachment que fora acolhido pela Casa. O pedido de impeachment aceito tinha sido protocolado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Sérgio Sérvulo da Cunha, então filiado ao PSB e vice-prefeito de Santos, foi um dos advogados de acusação no processo de impeachment de Collor. Tanto para Gastone Righi como para Sérgio Sérvulo da Cunha o cenário próximo é de absoluta incerteza. “Não dá para prever nada”, afirma Sérvulo, que menos de 24 horas antes de o pedido de impeachment de Dilma ter sido aceito, descartava por completo esse risco, e precisou mudar de opinião. O repórter

que assina este texto havia conversado com Sérvulo, sobre análises para 2016, na tarde de 2 de dezembro. Justamente pela experiência que acumulara no processo de impeachment de 1992, foi perguntado se o fantasma continuaria a assombrar o país ano que vem. Ele dissera que, sem embasamento consistente e sem aderência nas ruas, “o impeachment sairia da pauta em 2016”. Algumas horas depois, porém, num evidentemente movimento de chantagem ao Executivo, Eduardo Cunha anunciava aceitar um dos pedidos de impedimento de Dilma. Diante da reviravolta, o Brasil Observer precisou, então, voltar a falar com Sérgio Sérvulo. “Não falei que está difícil prever alguma coisa? Inclusive você pode até contar essa história, de que eu tinha dito uma coisa e horas depois aconteceu justamente o contrário, para ilustrar esse momento surreal. O Brasil é surreal”, respondeu.

SEM FUNDAMENTO Sérgio Sérvulo da Cunha e Gastone Righi observam que as razões para o pedido de afastamento de Dilma aceito pelo mandatário da Câmara não são motivo para o impedimento da presidenta da República. O pedido se baseia na reprovação, pelo Tribunal de Contas da União (TCU), das contas do governo federal de 2014. No ano passado, o governo repetiu uma prática comum nos últimos 20 anos: manobras contábeis, as chamadas “pedaladas fiscais”, feitas pelo Tesouro Nacional. A reprovação do TCU ainda precisa ser apreciada (para ser referendada ou rejeitada) pelo Congresso. Fora isso, acrescenta Sérgio Sérvulo, o acatamento do pedido de impeachment se deu em circunstâncias “anômalas”: foi aceito por um presidente da Câmara investigado por denúncias graves de corrupção, ameaçado de ser julgado (e perder o cargo) na Comissão de Ética da Casa, e até correndo o risco de ter prisão decretada a qualquer momento. Eduardo Cunha, sem o apoio na Comissão de Ética do partido da presidenta, o PT, e da base aliada do governo, em assumido ato de retaliação resolveu dar início a eventual processo de afastamento de Dilma. Para Sérgio Sérvulo, não é improvável que, instado, o Supremo Tribunal Federal

(STF) intervenha no processo. “Acho que a Dilma vai tentar impugnar isso, e há possibilidade de o STF brecar sim”. Ainda para o advogado de acusação do impeachment de Collor em 1992, desta vez há poucas chances de, nos próximos meses, haver mobilização popular ampla em prol do afastamento de Dilma. “É difícil prever. Mas embora Dilma não esteja ‘bem na foto’, isso não significa que a sociedade esteja disposta a ir às ruas para defender um processo de impeachment que nasce enfraquecido, comprometido, e sem motivação consistente.”

DEPOIS DA TEMPESTADE Apesar de ter dúvidas quanto ao papel que vai desempenhar o PMDB – partido de Eduardo Cunha e do vice-presidente da República Michel Temer – o ex-deputado Gastone Righi considera que a tendência é Dilma escapar do afastamento. Na avaliação de Gastone Righi, em que pese a tempestade que o Brasil vai enfrentar nos próximos meses em torno da discussão do impeachment, quando o processo terminar – e sobretudo num cenário de permanência de Dilma – 2016 poderá representar uma recuperação da estabilidade política capaz de fazer o país reencontrar seu prumo. “É um perigo que existe, a possibilidade de o PMDB – que tem se caracterizado pelo fisiologismo – em apoiar o impeachment. Mas parece que a Dilma e o PT estão querendo mesmo apressar esse processo, para ver se é logo superado. Se não houver uma traição do PMDB, [a perspectiva] é de que o impeachment seja arquivado. Com isso, e com esse combate à corrupção em curso, caminharemos para semear uma credibilidade perante o mundo muito importante”, projeta Gastone Righi. O ex-deputado, que na votação do impeachment de Collor foi o único parlamentar a se abster, ressalta que não há nada que motive o afastamento de Dilma. “No de Collor também não havia motivo jurídico real. Foi um problema totalmente político. No caso de Dilma igualmente. As ‘pedaladas fiscais’, a vida inteira todos os presidentes se utilizaram desse instrumento. O processo de impeachment não é um processo jurídico, é político”.


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MARCELO CAMARGO/ AGÊNCIA BRASIL LULA MARQUES/AGÊNCIA PT

Fim da chantagem: Eduardo Cunha gasta seu último cartucho; sobram as incertezas sobre o governo Dilma Rousseff

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MAIS RECESSÃO NO HORIZONTE Se o governo insistir no ajuste fiscal, o ano de 2016 não será nada animador para a economia brasileira, adverte o economista Guilherme Santos Mello, pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política do Instituto de Economia da Unicamp e professor da Facamp. BRASIL OBSERVER | Com os recentes novos cortes no orçamento, o governo federal sinaliza que a política de ajuste fiscal não terá trégua em 2016. Deve ser assim mesmo ou, dada a projeção de duas quedas consecutivas (2015 e 2016), o governo pode no decorrer do percurso afrouxar o ajuste para amenizar seus efeitos recessivos? GUILHERME SANTOS MELLO | Caso o governo insista na estratégia “austericida” de reduzir os gastos na esteira da queda das receitas, irá apenas aprofundar a recessão e reduzir ainda mais as receitas públicas. É uma estratégia sem fim, como se mostrou na Europa, onde após a crise fiscal pudemos observar anos de crise social, desemprego e recessão. Acredito que o governo deve buscar alternativas para ampliar seu espaço fiscal, retomar os investimentos públicos e, desta forma, incentivar as empresas privadas a produzirem. Para isso, o governo poderia se valer do ponto forte do Brasil atualmente: temos muitas reservas e pouca necessidade de dólar, dada a melhoria da nossa balança comercial e em transações correntes derivada da desvalorização cambial. O governo poderia utilizar algo como 10% das reservas (35 bilhões de dólares), converter em reais (o que reduziria a tendência de desvalorização que virá com o aumento dos juros americanos) e criar um fundo de investimentos, que também deveria contar com crédito de instituições multilaterais, como o Banco dos Brics. Ao criar este fundo, o governo deve escolher projetos de investimento já devidamente licenciados, com bons projetos executivos, que melhorem a infraestrutura e a produtividade, como forma de alavancar novamente o crescimento. Os rendimentos futuros destes investimentos (seja na forma de concessões, seja na forma de rendas advindas de sua utilização) seriam novamente convertidos em valores para financiar novos projetos, tornando-se assim um fundo de estabilização do investimento público, muito útil em momentos como o atual. BRASIL OBSERVER | Há alguma perspectiva também de a política econômica seguir pelo caminho da redução, ainda que gradativa, das taxas de juros, ou, nesse aspecto, igualmente não teremos nada muito diferente do verificado em 2016?

MELLO | Se o Banco Central considera que a atual taxa real de juros, próxima a 4,25%, é suficiente para reduzir a inflação, não há por que ele não manter o mesmo critério nos meses vindouros. Ou seja, a manutenção da taxa real de juros no patamar atual – um dos maiores do mundo – deveria balizar a estratégia do BC, fazendo com que conforme a inflação dê sinais de queda, a taxa nominal de juros também comece a ser afrouxada. Apesar de esse cenário ser o ideal, parece-me que o BC deve ser mais conservador e apenas começar a rebaixar os juros quando as expectativas de inflação de 2016 convergirem novamente para dentro da meta, o que pode elevar a taxa real de juros no início do ano que vem, mesmo sem uma elevação nominal da Selic. BRASIL OBSERVER | As projeções do FMI indicam um crescimento do PIB mundial em torno de 3%; as economias avançadas e os Brics (exceto Rússia e Brasil) também deverão registrar ligeiro crescimento. Essa melhora no cenário internacional pode servir de relativo alento à economia brasileira em 2016? MELLO | O cenário internacional só ajudará a economia brasileira se os países que puxam o crescimento mundial ampliarem as importações de produtos brasileiros. Os Estados Unidos voltarem a crescer não resolve o problema do Brasil se eles não estiverem dispostos a importar nossos produtos, como parece ser o caso. Ademais, a recuperação econômica global é frágil e incerta, puxada basicamente pela China e, em menor grau, pelos Estados Unidos. A desaceleração chinesa nos impacta diretamente, ao reduzir um importante mercado para nossos produtos de exportação e reduzir o preço das commodities. Tendo a acreditar que, apesar de um possível alento do setor externo, não podemos nem devemos apostar nele para puxar a retomada do crescimento econômico doméstico. Para isso, o essencial é reativar os investimentos, coisa que no cenário atual só será possível se o governo encontrar uma forma de financiá-los de maneira a não aumentar sua dívida. É por isso que insisto na proposta da utilização das reservas para criação de um fundo de estabilização dos investimentos no país.

2015 - DESEMPENHO DO PIB BRASILEIRO

2016 – PIB BRASILEIRO X ECONOMIA MUNDIAL

Contas Nacionais do IBGE: • Acumulado no ano (janeiro a outubro): -3,2% • Acumulado em 12 meses (encerrados em outubro): -2,5%

Projeções do Fundo Monetário Internacional: • Brasil: -1% • PIB Mundial: 3,6% • América Latina: -0,3% • Economias avançadas*: 2,2% •China: 6,3% • Índia: 7,5% • África do Sul: 1,3% *Inclui Estados Unidos • Rússia: -0,6% e Zona do Euro

*Em relação a período imediatamente anterior


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JUSTIÇA Por Rachel Costa

Quando a barragem do Fundão se rompeu em Mariana, na quinta-feira 5 de novembro, poucas foram as reações imediatas. Visto de agora, o silêncio exagerado parece explicar-se por um cálculo extremamente mal feito do real tamanho da catástrofe humana e ambiental que se iniciou no exato momento em que aqueles 55 milhões de metros quadrados de rejeitos romperam a barreira do reservatório e se lançaram furiosamente sobre o que encontraram à frente: árvores, arbustos, cavalos, pessoas, casas, carros e, finalmente, um rio. Não qualquer rio, mas sim um braço d’água de mais de 800 quilômetros, em cuja bacia vivem mais de 3 milhões de pessoas, casa de uma das poucas reservas de Mata Atlântica do país (o Parque Estadual do Rio Doce) e que, apesar do destino salgado, tem Doce como nome. Foi quando a lama do Fundão chegou ao rio Doce que o Serviço Geológico do Brasil emitiu uma nota alertando 15 municípios, em dois estados, sobre o risco de enchentes. O serviço estimava que o “tsunami marrom”, como foi apelidado, chegasse ao mar na terça-feira 10. A previsão, porém, não se concretizou. Em vez de uma viagem breve e quase imperceptível pelas águas claras do rio Doce, a mancha marrom de rejeitos da mineração desceu incômoda e lenta. A cada nova cidade atingida, uma enchente de fotos e vídeos inundava jornais e re-

DA LAMA AO CAOS

des sociais, misturando o pânico das populações locais à miséria do rio. Na medida em que a lama descia, a tragédia tomava forma: 13 mortos, 18 desaparecidos, centenas de quilômetros de rio comprometidos e um dano ainda não calculado ao Oceano Atlântico nesta que foi a maior tragédia causada pelo rompimento de barragens de mineração em países ocidentais desde 1985. Naquele ano, duas represas em uma mina de fleróvio se romperam em Stava, na região norte da Itália, jogando 38 mil metros quadrados de resíduos na natureza e matando 269 pessoas. Voltando ao Brasil, foi necessária uma semana para que a presidente Dilma Rousseff – nascida em Minas, cenário da tragédia – sobrevoasse a área. Outros 21 dias para que o Instituto para a Gestão das Águas de Minas Gerais (IGAM) publicasse os resultados das análises realizadas nas águas do Rio Doce durante o percurso da lama até o mar, mostrando altos índices de arsênio, cádmio, chumbo, cromo, níquel, mercúrio e cobre em parte das amostras. Resultados diametralmente opostos aos dados divulgados pela empresa Samarco, que desde o dia do rompimento da barragem vinha alegando que os rejeitos não eram tóxicos. Foi também preciso tempo para se descobrir que a capacidade da barragem era muito superior aos 39 milhões de metros cúbicos declarados pela Samarco aos órgãos ambientais.

REAÇÃO A falta de clareza em relação ao que vem ocorrendo e a lentidão na resposta ao problema foram motivos de crítica em um relatório da Organização das Nações Unidas divulgado no dia 25 de novembro. No texto, os relatores John Knox, especialista em direitos humanos, e Baskut Tuncak, especialista em substâncias perigosas, consideraram “claramente ineficientes” os passos dados pelas companhias Vale e BHP Billiton, assim como pelo governo brasileiro. “Não é aceitável que se tenha levado três semanas para se ter informações sobre os riscos de contaminação”, registraram os especialistas. “Governo e companhias deveriam estar fazendo de tudo para prevenir futuros danos, incluindo a exposição a metais pesados e a outros poluentes”. O puxão de orelhas internacional parece ter acordado o poder público brasileiro. Na mesma semana, no dia 27, os ministros do meio ambiente, Izabella Teixeira, e da Advocacia-Geral da União, Luís Inácio Adams, anunciaram que a União, mais o governo dos dois estados afetados pelo rompimento da barragem vão abrir processo no valor de R$ 20 bilhões contra Samarco, Vale e BHP. “É o maior desastre ambiental que o Brasil já viveu. E não é um desastre natural, é um desastre provocado por uma atividade econômica, então cabe reparação de danos, além das multas”, disse a ministra durante o anúncio.

O mesmo tom foi adotado pela presidente Dilma Rousseff em Paris. Durante a COP, a chefe do executivo reiterou a responsabilidade das companhias na tragédia e prometeu agir. “Estamos reagindo pesado com medidas de punição, apoio às populações atingidas, prevenção de novas ocorrências e também punindo severamente os responsáveis por essa tragédia”, disse a presidente.

NOVOS RISCOS Punir, porém, não põe fim ao pesadelo vivido pelas comunidades afetadas pelo derramamento da barragem. Após a tragédia, veio à tona que as outras duas represas vizinhas a Fundão, Germano e Santarém, também estão comprometidas e correm o risco de romperem-se. Caso isso ocorra, o estrago será ampliado consideravelmente: a barragem de Germano, sozinha, armazena uma quantidade de resíduos equivalente a quatro vezes o tamanho da represa que se rompeu. O medo de que um desastre ainda maior aconteça levou a uma decisão judicial publicada na sexta-feira, 27, determinando o esvaziamento da usina hidrelétrica Risoleta Neves, a cerca de 100 km de Mariana. O plano é, em caso de um novo rompimento, usar o reservatório para a contenção dos rejeitos, evitando que eles viagem mais uma vez por todo o rio, indo desaguar nas águas do Oceano Atlântico.

55 milhões de m3 de lama seguiam Rio Doce abaixo enquanto poder público e empresas envolvidas assistiam inertes à concretização da tragédia

ROGÉRIO ALVES/TV SENADO

REPRODUÇÃO

5 de novembro

6 de novembro

9 de novembro

12 de novembro

16 de novembro

A vila de Bento Rodrigues, em Mariana, é completamente destruída por rejeitos de uma mina operada pela Samarco, empresa controlada pelas gigantes Vale e BHP

O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) lança seu primeiro alerta para 15 cidades banhadas pelo rio Doce e estima que a lama chegaria ao mar no dia 10 de novembro, previsão que não se concretizou.

A lama chega a Governador Valadares, primeira grande cidade atingida, cortando o abastecimento de água para seus 278 mil habitantes, totalmente dependentes do Rio Doce.

Apenas uma semana depois da tragédia, a presidente Dilma Rousseff, nascida no estado de Minas Gerais, visita a região.

O “tsunami de lama” atinge o Espírito Santo, na altura do município de Baixo Guandu.


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AINDA QUE TARDIA Após o rompimento da barragem do Fundão, em Minas Gerais, Brasil tem adiante o desafio de reagir ao maior desastre ambiental de sua história e fazer justiça aos atingidos pela tragédia

Além disso, a Justiça mineira determinou a criação e a implementação de um plano de emergência para a evacuação das comunidades que possam ser afetadas caso uma nova tragédia ocorra. Depois da tragédia em Bento Rodrigues, descobriu-se que há seis anos a Samarco havia contratado uma empresa especializada em segurança, a RTI (Rescue Training International), para criar planos emergenciais para suas unidades no Pará, Espírito Santo e Minas. A proposta, entretanto, nunca saiu do papel. Em entrevista para o jornal Estado de Minas, o diretor da RTI, Randal Fonseca, disse que o pretexto da Samarco para a inércia era a impossibilidade de investir em segurança devido à crise econômica. “O documento incluía até o treinamento da população no caso de precisar sair com segurança do local”, disse Fonseca ao jornal mineiro. O treinamento, assim como as outras ações propostas, nunca aconteceu. Quando Fundão se rompeu, foi a mobilização da própria comunidade que impediu ainda mais mortos. Gente como Paula Alves, que trabalhava na região da mina e recebeu pelo rádio comunicador a notícia do rompimento da barragem. Sem pestanejar, Paula pegou sua moto e saiu correndo rumo ao povoado para avisar aos outros sobre o mar de lama que vinha em direção a Bento. Em uma história cheia de vilões,

ROBERTO STUCKERT FILHO/PR

Paula tornou-se uma heroína: não fosse ela, grande parte dos moradores de Bento teria sido engolida pela lama.

IMPACTO AMBIENTAL Um mês depois do rompimento e com rejeitos da barragem espalhados desde Mariana até o Oceano Atlântico, ainda não se tem claro exatamente qual o impacto ambiental da tragédia, nem quanto tempo se levará para recuperar as áreas atingidas pelo tsunami marrom que desceu do Fundão. Só em peixes, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) disse ter recolhido nove toneladas de espécies mortas após a passagem dos rejeitos, seis delas no trecho mineiro do Rio Doce e o restante na parte capixaba. Quantos outros animais e plantas morrerão pela deterioração das condições da água, é difícil calcular. Como lembra a geoquímica Kendra Zamzow, do Center For Science In Public Participation (CSP2), nos Estados Unidos, mesmo que os metais pesados encontrados no rio estejam presos aos sedimentos, o que reduz os riscos de contaminação da água, há outros problemas que precisam ser monitorados daqui em diante. O principal deles é o depósito dos rejeitos no fundo do rio, que pode levar à formação de uma espécie de “cimento” no leito, afetando a vida de todo o ecossistema aquático.

ESPERANÇA DE MUDANÇAS Diante do cenário desolador de um rio e comunidades arrasadas pela lama e de uma história permeada por casos de inércia e ineficácia por parte do governo e das empresas, resta olhar para o futuro e esperar que o presente ao menos sirva de lição. Não só para o Brasil, mas para o mundo, fala o geofísico David Chambers, também do CSP2. Chambers criou uma base de dados com o registro de problemas em barragens de rejeitos em todo o mundo, cobrindo todo o último século. Ao resgatar e reunir essas informações em um mesmo local, o pesquisador descobriu que, embora tenha havido uma redução na quantidade de eventos com o avançar da tecnologia, os rompimentos se tornaram muito mais graves com o passar dos anos. Na base de dados de Chambers, a maior concentração de acidentes muitos sérios está na primeira década do século 21. Entre 2000 e 2009, foram 10 rompimentos com essa classificação ao redor do mundo. Comparativamente, entre 1950 e 1959, não houve nenhum evento muito sério. A previsão do cientista é de que a mesma média observada na década passada se repita até o encerramento desta década, com uma média de um grande rompimento de barragem a cada ano. Fundão foi apenas um deles. E o problema, fala Chambers, está

FRED LOUREIRO/SECOM-ES

longe de ser só brasileiro. “Quando divulguei meu estudo, a resposta que recebi foi a de que um grande rompimento nunca aconteceria na América do Norte. Seis meses depois, aconteceu o rompimento da barragem em Mount Polly”, diz o geofísico, referindo-se ao desastre ocorrido no Canadá em 2014, quando 23 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram lançados no meio ambiente, atingindo reservatórios de água da região e destruindo um lago usado para a criação de salmão. É por isso que Chambers acredita que o caso brasileiro pode incentivar a criação de normas internacionais que ajudem a pôr limites às mineradoras. “Quando ocorre um rompimento desses, é preciso recuperar o meio ambiente, pagar às pessoas que tiveram casas destruídas, vidas perdidas, negócios destruídos… Tudo isso precisa ser compensado e o governo não tem nenhuma garantia financeira para cobrir esse gasto. Ele depende das companhias, o que é um problema porque os seguros das empresas também não cobrem catástrofes causadas pelo rompimento das barragens”, analisa o especialista, que defende a criação de fundos mantidos pelas próprias mineradoras que possam cobrir os custos nos casos de emergência. “Não sei quão forte é a regulação ambiental no Brasil, mas o país certamente tem muita mineração e é muito impactado por ela”, avalia Chambers.

GUI TAVARES

17 de novembro

22 de novembro

25 de novembro

27 de novembro

4 de dezembro

A empresa Samarco reconhece que Germano e Santarém, as outras duas barragens vizinhas a Fundão, também correm riscos de rompimento.

A mancha marrom de rejeitos invade o mar no município de Linhares, no Espírito Santo, mudando a cor das águas.

ONU se pronuncia sobre a tragédia pedindo ao governo brasileiro e às empresas envolvidas que tomem medidas imediatas para proteger o meio ambiente e as comunidades.

Vale anuncia a criação de um fundo voluntário para a recuperação do Rio Doce, sem informar valores e isenta-se de responsabilidade em indenizações para os atingidos pela tragédia.

Em evento realizado em Londres, sob protesto de manifestantes na entrada de hotel, Vale diz esperar que todos os desalojados pela tragédia estejam em casas permanentes até o Natal.

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CONECTANDO

ESTUDANTES DE SÃO PAULO REFUNDAM A CIDADE Revogação do decreto que fechava 93 escolas públicas comprova que ocupações são método político legítimo Por Alceu Luís Castilho, do Outras Palavras www.outraspalavras.net

ROVENA ROSA/AGÊNCIA BRASIL

Estudantes protestam contra fechamento de escolas


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O

O governador Geraldo Alckmin levou um xeque-mate já na primeira semana de ocupações em São Paulo. E demorou a perceber. Mais até do que a presidente Dilma Rousseff levou para perceber a dimensão da catástrofe em Mariana (MG). Os estudantes fizeram uma jogada de mestre. Ocupar as escolas que seriam fechadas levou ao governo estadual a imagem de truculento – que só seria agravada em caso de reintegrações de posse. Foi uma alternativa aos protestos de rua, precocemente abortados pelos black blocs. Estes foram isolados pelos secundaristas, em frente do Palácio dos Bandeirantes, enquanto tentavam derrubar as grades. O método violento servia para o governo – e para a opinião pública – desqualificar o movimento. Mas a nova geração de adolescentes paulistanos mostrou-se mais madura que os militantes tradicionais. Não desistiu. Reuniu-se em assembleias e conquistou territórios. E os territórios eram as próprias escolas. Inicialmente, as que seriam fechadas. O que levou a criminalização tradicional feita pela imprensa corporativa a soar ridícula: esta chegou a noticiar que os estudantes “invadiam escolas” – as próprias escolas. E mais: escolas que seriam fechadas. Como repetir que eles não queriam ter aulas, se era pelas escolas que eles estavam brigando? Geraldo Alckmin ficou sem saber o que fazer. Parecia apenas torcer para que o movimento não se alastrasse. E se alastrou. Dobrou a meta. Até sexta-feira 4 de dezembro, quando o governador desistiu da “reorganização” e defenestrou o secretário de Educação, eram 196 escolas ocupadas, mais que o dobro das 93 escolas que ele queria fechar. Foi ficando tão desigual que parecia que os adolescentes jogavam um jogo de xadrez, como velhos enxadristas, enquanto Alckmin se aplicava ferrenhamente a um jogo de damas – binário. Esperando que alguma peça engolisse de uma vez todos os adversários. Essa peça não existia. Como toda batalha política, tratase também de uma batalha de comunicação. E quem costuma defender o governo estadual e sua polícia truculenta viu-se, de repente, tão derrotado quanto o governador. O milagre de multiplicação da palavra “invasões” nos títulos foi sendo progressivamente percebido como algo extraterrestre. Só nossos jornalões mesmo para manter criminalizado o método político das ocupações – como se fossem seres perigosíssimos a ameaçar pessoas ou o patrimônio público. Não colou.

IMPRENSA DERROTADA É por isso que a vitória histórica dos estudantes significa também uma vitória contra certo modo de se fazer jornalismo político. Ainda que um jornalismo político disfarçado, escondido em nome de um noticiário “isento” que não é mais percebido como tal.

O Datafolha da última semana de dezembro – que mostrou a queda da popularidade de Alckmin e o apoio popular às ocupações – mostrou que também a imprensa foi uma grande derrotada. E, por isso, precisa se repensar. As implicações são muitas. Mas vale insistir na carga política de se chamar ocupações de “invasões”. Se ficou demonstrado (com o aval do Judiciário) que as ocupações são legítimas, como continuar perpetuando a criminalização discursiva – ela que antecede a repressão – nos títulos sobre sem-teto, sem-terra, estudantes universitários? Enquanto isso, o jogo de xadrez dos secundaristas tratava a comunicação de forma contemporânea. Tomando a cidade como uma das peças. Ocupar a EE Fernão Dias Paes, em Pinheiros, significou trazer para o centro expandido, mais visível, uma disputa que talvez ficasse amortecida nas periferias – estas que costumam ser criminalizadas sem que a classe média paulistana se sinta culpada. Os estudantes catapultaram, a partir dali, suas demandas: Algo acontece em São Paulo, na #OcupaFernão. E se comunicaram. Entre si, por meio de grupos no WhatsApp, com a ajuda das redes sociais, da imprensa contra-hegemônica (pronta a noticiar abusos do governo e da polícia), e sabendo usar a própria cobertura da grande imprensa. Esta não conseguiria distorcer os fatos o tempo todo, por muito tempo – e se viu obrigada a ser testemunha da maior manifestação urbana em rede de que se tem notícia no século 21, neste país que se acostumou a enxergar as cidades como apenas algo pulverizado.

UMA NOVA CIDADE A cidade de São Paulo acaba de ser reinventada. Estudantes dos quatro cantos da cidade ocupando escolas com política, arte, cultura e capacidade de autogestão mostraram a todo o país – e não somente a esse governador subitamente letárgico – que existem outras formas de se pensar o urbano, não apenas como uma sucessão de prédios isolados. Mas em rede, de forma que prédios escolares das zonas sul, leste, norte, oeste se tornem, todos eles, centrais. A cidade tem um novo Centro. Ele está em todas as partes e tem nos estudantes secundaristas a assinatura de sua alforria. Acaba de ser inaugurada em São Paulo a reterritorialização da luta política. As ruas plenamente liberadas para que a direita exponha sua despolitização (ao ponto de tirar selfies com PMs) não costumam ser liberadas para quem tenha uma pauta de reivindicações à esquerda. Por isso os estudantes buscaram as ruas virtuais e se entrincheiraram; e as trincheiras eram um território incontestável: as escolas. Públicas.

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THE SÃO PAULO TAPES

AN ALBUM OF BRAZILIAN RESISTANCE SONGS UM DISCO DE CANÇÕES BRASILEIRAS DE RESISTÊNCIA SUNG BY MÔNICA VASCONCELOS PUT TOGETHER WITH THE HELP OF ROBERT WYATT INTERPRETADAS POR MÔNICA VASCONCELOS NA PRODUÇÃO, UMA MÃOZINHA DO AMIGO ROBERT WYATT

JOIN OUR CROWDFUNDING EFFORT. BE PART OF THIS MOVEMENT! WWW.IGG.ME/AT/THESAOPAULOTAPES

THE SÃO PAULO TAPES

BIXIGA 70 “É O ENCONTRO DO AFROBEAT COM O DOM MUSICAL BRASILEIRO E DEIXA O OUVINTE SUSPIRANDO DE ADIMIRAÇÃO” MUSIC NEWS

RICH MIX SEXTA 29 JANEIRO COMONO.CO.UK

CRIOLO DOMINGO 24 ABRIL KOKO KOKO.UK.COM 0844 847 2268 UMA DAS ATRAÇÕES DO O FESTIVAL DE MÚSICA LATINA DE LONDRES lalineafestival.com @lalineafest lalineafestival


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REDES PARA

O PRÓXIMO VERÃO Durante o verão que está chegando ao Brasil, 36 projetos atuarão na cidade do Rio de Janeiro. Conduzindo essa onda de realizações estão jovens de origem popular das quatro zonas da capital. O foco é impactar territórios e mostrar novas possibilidades de agir e circular na cidade. Para fortalecer esse movimento da juventude por novos espaços de ação e visibilidade, a Agência de Redes para Juventude tem aproximado uma rede de parceiros nacionais e internacionais. Conheça-os agora! REDES NO TERRITÓRIO “O Rio de Janeiro começa em Santa Cruz”, é assim que Marcus Faustini, idealizador da Agência de Redes para Juventude, refere-se ao bairro onde cresceu. Localizado na zona oeste da cidade, o bairro faz fronteira com outros municípios do estado. Além do seu contexto geográfico, Santa Cruz é um ponto estratégico nas redes da Agência por apresentar um dos parceiros mais antigos da trajetória dessa metodologia. A CEBs de Santa Veridiana (Comunidade Eclesial de Base), localizada em Santa Cruz, foi um dos espaços responsáveis pela formação cultural e política de Faustini e de muitos outros jovens na região. “Ao longo dos seus 23 anos de existência, ela vem mantendo o objetivo de estar aberta para encontros de qualquer natureza”, conta Alair Rebecchi, representante da comunidade. Dessa forma, além de sediar as reuniões da Agência, o local recebe também rodas de samba, aulas de capoeira, taekondo e apresentações de rock e funk. Uma das novas frentes de atuação é na cultura negra e para isso a CEBs está apoiando a formação da ONG Associação de Mulheres Afrodescendentes Ativas (AMADA). As iniciativas locais que ganharam vida através do apoio e da ocupação do espaço mostram a importância de ter como primeiros pontos de uma rede parceiros nos territórios.

DIVULGAÇÃO

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Por Juliana Sá e Marina Moreira, da Agência de Redes para Juventude

REDES DA CIDADE Ampliando os pontos estratégicos de articulações, a Agência de Redes para Juventude entende como fundamental estabelecer contato com o poder público. A juventude precisa ter direitos efetivados e isso acontece por meio dos processos institucionais. Assim, representantes da Agência, entre bolsistas e equipe, estiveram presentes em conferências de cultura, audiências públicas e outros meio de interlocução entre sociedade civil e os diversos âmbitos de governabilidade. Um dos resultados dessa atuação foi aproximação com a Prefeitura do Rio de Janeiro, através do Instituto Eixo Rio/SMC, iniciada em 2015. De acordo com o presidente do instituto, Marcelo Silva, a Agência traz uma nova perspectiva para o lugar do jovem na cidade. “A partir do encontro com estes jovens, a Agência propõe um fortalecimento para ação destes no território e uma interação com outros espaços e pessoas da cidade. De modo que eles atuem na construção de iniciativas e projetos, assumindo protagonismo nos seus projetos de vida”, conta o presidente. REDES MUNDO Reconhecendo o caráter adaptável da metodologia e identificando questões comuns na juventude em outros lugares do mundo, a Agência passou a estabelecer conexões internacionais. Um dos objetivos é gerar oportunidades de circulação para jovens de origem popular. A primeira delas aconteceu na Europa, em 2012, através da premiação realizada pela Fundação Calouste Gulbenkian. O resultado desta conquista foi o investimento na criação da The Agency, na Inglaterra, nas cidades de Londres e Manchester. Os parceiros que conduzem conjuntamente esta empreitada são Battersea Arts Centre, Contact Theatre e People’s Palace Projects. PATROCÍNIO

PARCERIA

“Acredito que a metodologia da Agência de Redes para a Juventude trouxe mais evidências de que a arte e o trabalho criativo são fundamentais para que jovens se tornem empreendedores”, destaca André Piza, gerente de projetos do People’s Palace Projects, sobre um dos pilares da metodologia: aumentar a atuação da arte em questões sociais. “Se o projeto de um jovem é reconhecido em várias cidades do mundo como um projeto transformador, como ignorar a voz desse jovem nas discussões que ele faz parte sendo dentro da sua cidade ou do seu país?”, completa André. Em 2015, outra grande parceria internacional foi estabelecida com a Universidade de Stanford, através do Programa sobre Pobreza e Governabilidade (Program On Poverty and Governance – PovGov). Segundo Beatriz Magaloni, diretora do programa, entender a Agência é formular mais um caminho

para impactar positivamente a juventude no mundo. “Nós escolhemos trabalhar com a Agência porque nós achamos que a organização desenhou uma metodologia que tem o potencial de revolucionar as estratégias que usamos para aliviar a pobreza e o combate à violência em muitas áreas do mundo em desenvolvimento através da educação”, conta a também professora de ciência política. Esses parceiros constituem parte de uma extensa rede que coloca os jovens de origem popular e seus projetos de impacto no território e de vida em diversas rotas de visibilidade. Do reconhecimento de suas ações e suas necessidade mais imediatas até espaços de decisão, pesquisa, fomento e outros tantos que lhe garantam o direito de agir na cidade e no mundo. * Colaborou Carolina Lourenço

REALIZAÇÃO

APOIO INSTITUCIONAL


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B R A S I L S E R V E R NICOLE HEINIGER

>> PĂ GINA 24

BIXIGA 70

Banda instrumental brasileira se apresenta em Londres


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GUIA

MÚSICA INSTRUMENTAL PARA DANÇAR Bixiga 70, de São Paulo, estreia em solo britânico. Mauricio Fleury, tecladista e guitarrista, conversa com o Brasil Observer LECO DE SOUZA

O ano de 2015 foi especial para quem mora em Londres e aprecia música brasileira de qualidade – e ao que tudo indica 2016 não será diferente! Se neste ano a cidade recebeu shows de nomes consagrados, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, e da nova safra, como Criolo e Emicida, entre outros, no ano que vem a tendência continua, a começar pela vinda do grupo Bixiga 70, de São Paulo, que toca no Rich Mix dia 29 de janeiro. Misturando influências sonoras da África e da América do Sul, e com um espírito que nos remete à música inconfundível de Fela Kuti, a banda de dez integrantes, criada em 2010, se apresenta no Reino Unido pela primeira vez. E traz o repertório de seus três álbuns lançados até agora – os dois primeiros em 2011 e 2013, e o mais recente em setembro. Este último, aliás, elevou o som da banda a um novo nível graças ao entrosamento do grupo, cujo reflexo é possível notar nas composições, mais coletivas e identificadas com as características de cada membro. Às vésperas da estreia do Bixiga 70 em solo britânico, o tecladista e guitarrista Mauricio Fleury concedeu entrevista ao Brasil Observer: Como você define o som do Bixiga 70? Música brasileira instrumental dançante. Quão importante é o entrosamento entre os dez integrantes? Vocês já trabalham no automático ou é preciso muito ensaio?

O fato de ser um som instrumental faz com que ele seja mais aceito fora do Brasil ou torna a ‘internacionalização’ mais difícil? Acredito que torna mais acessível o som pra quem não fala português, pois transcende as barreiras da comunicação verbal. Qual avaliação você faz dos três discos da banda? Vocês sentem que houve uma evolução no trabalho de vocês? Em qual sentido? Sentimos uma evolução clara e por isso estamos nos superando a cada álbum. Em diversos sentidos: na forma de uma composição mais coletiva, onde as ideias de cada um são contempladas, e na busca de uma identidade única através da soma dessas ideias. Nossos discos não têm títulos, pois consideramos que esses três primeiros álbuns são a busca de uma identidade, do que significa Bixiga 70. Qual expectativa para Londres? Que público vocês esperam? Ainda não sabemos qual público esperar, mas esperamos que eles dancem bastante! Nossa expectativa é a melhor possível, vai ser nossa primeira vez no Reino Unido e estamos ansiosos!

Ingressos em www.comono.co.uk

CRIOLO RETORNA A LONDRES EM ABRIL Além de trazer o som do Bixiga 70, a equipe do Como No está preparando a próxima edição do La Linea – The London Latin Music Festival, que acontece em abril. Entre as atrações já confirmadas está Criolo, que se apresenta no dia 24 daquele mês no Koko. Um dos mais proeminentes representantes da cena contemporânea da música brasileira, o rapper já esteve na capital inglesa diversas vezes – e parece que deixou saudade.

DIVULGAÇÃO

O entrosamento é fundamental, é de onde vem o som. Isso vem sendo trabalhado desde o início da banda para chegarmos num som que tenha uma identidade forte, que seja a cara dos dez integrantes. Ensaiamos todas as terças-feiras desde o começo da banda em 2010. Nos entendemos cada vez mais rápido, mas ainda conversamos muito e nos preparamos para cada passo juntos.


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DICAS CULTURAIS

MÚSICA

ARÔ RIBEIRO

THE SÃO PAULO TAPES

Mais informações: https://goo.gl/ozGxK3

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A cantora brasileira radicada em Londres Mônica Vasconcelos está fazendo uma campanha de financiamento coletivo para finalizar seu novo disco, The São Paulo Tapes. O álbum reúne canções compostas por grandes nomes da música brasileira em resposta à ditadura militar. E conta com uma ‘mãozinha’ do roqueiro inglês Robert Wyatt na produção. Contribuições podem ser feitas até o dia 5 de janeiro. A ditadura militar no Brasil (1964-1985) foi marcada por forte censura às artes e à produção intelectual. Mas também foi um período de imensa riqueza na vida cultural do país. Sem liberdade de expressão, grandes nomes da música brasileira driblaram os censores para criar uma coleção de canções eternas, que abordam temas universais. Amor. Liberdade. Justiça. The São Paulo Tapes paga tributo a alguns desses mestres compositores e letristas. Chico Buarque, João Bosco, Aldir Blanc, Ivan Lins, Gonzaguinha, Caetano Veloso, Geraldo Vandré. A interpretação fica a cargo de Mônica Vasconcelos, que há duas décadas reside em Londres. A cantora tem sete álbuns gravados no Reino Unido. Entre seus parceiros nesses discos estão o compositor e violonista brasileiro Guinga (convidado especial no disco Gente), o jazzista inglês Steve Lodder e o violonista brasileiro Ife Tolentino. Outro ilustre parceiro de Mônica, o roque-

iro inglês Robert Wyatt (ela participou de um disco dele, ComicOpera, e ele do dela, Hih) dá uma ‘ajudinha’ na produção de The São Paulo Tapes. Figura lendária no rock britânico, Robert Wyatt é ex- integrante da banda de rock progressivo Soft Machine, trabalhou com Jimi Hendrix, Brian Eno, David Gilmour (do Pink Floyd), Paul Weller e Bjork, entre outros. Ele empresta às canções de resistência seus ouvidos ‘fresquinhos’ – pois não conhecia o material – e sua bagagem musical única. Além da combinação inusitada de ingredientes, essa receita musical anglo brasileira ainda traz outro diferencial: coisa rara em lançamentos de música brasileira no exterior, as canções vêm acompanhadas de texto de apresentação em inglês e português, assinado pelo tradutor e professor de cultura brasileira David Treece (King’s College London). Os textos abordam o contexto histórico e conteúdo das letras, permitindo que o público de língua inglesa aprecie melhor o poder e a beleza das canções. Cada contribuição para o financiamento coletivo será retribuída com um prêmio. Os valores vão de £12 a £1,000. E os prêmios incluem cópia do disco, nome na lista de agradecimentos e até show na sala de estar do (generoso!) contribuinte. The São Paulo Tapes está na etapa de produção. O lançamento está previsto para o final da primavera de 2016.


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LITERATURA CLUBE DO LIVRO CELEBRA UM ANO Por Ministra-Conselheira Ana Maria de Souza Bierrenbach

A Embaixada do Brasil registra, com júbilo, que em dezembro o “Brazilian Bilingual Book Club” celebra seu primeiro aniversário proporcionando encontros verdadeiramente inspirados e agradáveis. O nosso “Book Club” além de congregar leitores britânicos e brasileiros com muito êxito, também atrai membros de outras nacionalidades que vivem e trabalham nesse magnífico centro cultural – Londres. De fato, como o artigo na revista The Linguist (nr. 54) mostra, o “Brazilian Bilingual Book Club” é o primeiro e único clube de livro organizado por missão diplomática em Londres entre outros clubes de livro bilíngues que existem aqui. Os doze clássicos lidos possibilitaram aos nossos membros descortinar diversas camadas da vida, história e sociedade brasileiras bem como ideias universais que foram destiladas, circuladas e assimiladas pelas narrativas ficcionais. O ACLAIIR Blog (da Biblioteca Bodleian de Oxford) reimprimiu

o boletim do nosso Clube do Livro intitulado apropriadamente, “Mitos e estereótipos desfeitos através da literatura: O ‘Brazilian Bilingual Book Club’ promove intercâmbio cultural de valor inestimável”. Estamos convencidos de que o nosso Clube do Livro eventualmente possa interessar editores britânicos e outros em publicar traduções de alta qualidade dos clássicos da literatura brasileira negligenciados até hoje. Todos os leitores com paixão pela literatura ficam convidados a desconsiderar clichês e críticas, simplesmente os convidamos a ler autores brasileiros para descobrir a alma do Brasil no ano dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 no Rio! Não perca o encontro de celebração no dia 17 de dezembro: discussão sobre ‘A Carne’, de Julio Ribeiro. E, em comemoração, o Quiz desta edição contará com prêmios e a lista dos livros para 2016 será anunciada! O clube do Livro é organizado por Nadia Kerecuk.

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Mais informações: www.culturalbrazil.org


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COLUNISTAS

FRANKO FIGUEIREDO

VÁ VER UMA PANTO!

Franko Figueiredo é diretor artístico e produtor associado da Companhia de Teatro StoneCrabs (stonecrabs.co.uk)

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Nesta temporada de inverno, de norte a sul do país, você provavelmente vai notar uma pantomima sendo encenada em um teatro local. É tradição. Antes do Natal, durante os feriados ou como um deleite de Ano Novo, pantomima é atração certa para a família: teatro excêntrico para entreter. Mesmo durante períodos de guerra as pantomimas não deixaram de acontecer. O período após a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945, produziu um dos momentos mais difíceis para o teatro e a pantomima, mas pelo menos nos primeiros dias da guerra na década de 1940 o mundo da pantomima existia como uma fuga das ruas que explodiam em ataques aéreos e das condições austeras da Europa. Os teatros tornaram-se lugares para onde escapar dos problemas por algumas horas. A Grã-Bretanha certamente precisava daquilo, a fim de manter a sanidade – e nada como uma boa panto para realizar isso. Pantomima é uma instituição britânica fabulosa. Ocorre sempre próximo ao Natal e é quase sempre baseado nas bem conhecidas histórias infantis, como Peter Pan, Aladim, Cinderela, Bela Adormecida, entre outros. Pantomimas são realizadas não só nos melhores teatros, mas também em salas menores e estão frequentemente muito bem atendidas pelo público. A participação do público, aliás, é im-

portante. Os membros da audiência são incentivados a vaiar o vilão e a animar o herói, cantando em voz alta. Artistas populares vitorianos, cantores de salão e, mais tarde, estrelas do rádio sempre fizeram parte da tradição e subiram nos palcos interpretando personagens de suas histórias de pantomima favoritas. Atualmente, o grande atrativo ainda são as celebridades convidadas. Neste inverno você pode encontrar o comediante Julian Clary em Cinderela, em Wolverhampton, o coreógrafo Louie Spencer em Aladim, em Hastings, o e ator David Hassellhoff em Peter Pan, em Glasgow. Em Londres há Elf, o musical, Cinderela no Lyric Hammersmith e Robin Hood no Theatre Royal Stratford East. Já o National Theatre contratou o cantor e compositor Damon Albarn para criar o show Wonder.land. Há um monte de palhaçada e arremesso de tortas; muitas vezes duas irmãs feias (geralmente encenadas por homens) caem uma em cima da outra e um cavalo é representado por duas pessoas debaixo do figurino. Qualquer que seja a história, gargalhadas são bem prováveis. O vilão será derrotado, o amor conquistado e todos viverão felizes para sempre. Nenhuma das histórias é natalina, por isso pode parecer estranho que pantomimas só se produzem durante o inverno. Uma das origens reside nas peças morais medievais realizadas

no Natal que tinham um enredo do bem vencendo o mal. As antigas saturnálias romanas também fizeram sua parte. A reversão de gênero que é parte da pantomima hoje pode ser rastreada até essas duas tradições – quando a ordem natural das coisas era virada de cabeça para baixo durante os dias de festividades. Especialistas também dizem que a pantomima tradicional pode ter evoluído a partir do “Feast of Fools”, expressão europeia da Idade Média. A festa era incontrolável, envolvendo bebidas, folia e inversão de papéis. O Senhor da Desordem, normalmente um plebeu com reputação de saber desfrutar uma boa festa, era escolhido para dirigir o entretenimento. Uma boa pantomima tem algo para todos, não só um mundo de conto de fadas, mas também referências contemporâneas. Pantomimas também podem ser políticas: há dois anos, o King’s Head Theatre produziu uma pantomima gay onde o Rei Rato era um banqueiro mal intencionado. Pantomimas são como árvores de Natal. Goste-se ou não, sempre vão estar lá, brilhando. Há algo essencialmente inglês sobre pantomimas, você precisa experimentá-la ao vivo para realmente entender seu mundo. Quando tudo à nossa volta parece desesperadamente escuro e frio, e isso não apenas em relação às condições metrológicas, por que não derreter suas aflições de inverno e ir ver uma pantomima?

AQUILES RIQUE REIS

UMA INTÉRPRETE IRREPREENSÍVEL

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Aquiles Rique Reis é músico, vocalista do MPB4

Estou eu aqui ouvindo o segundo CD da cantora Valéria Lobão, o álbum duplo Valéria Lobão – Noel Rosa, Preto e Branco (Tenda da Raposa). Após ouvi-lo – e eu recomendo que façam o mesmo assim que possível – percebi que eu nunca mais ouviria Noel Rosa sem que me viesse à cabeça o feitio como ele foi agora gravado por Valéria. A ideia do álbum é simples: selecionar 22 obras do repertório de Noel, cantá-las sempre acompanhada apenas por um piano – um pianista diferente a cada faixa – e convidar seis intérpretes para dividirem o canto com Valéria em meia dúzia dessas obras-primas. Mas nem só de grandes clássicos vive o repertório – e este é um dos seus méritos: músicas praticamente desconhecidas foram gravadas por Valéria e seus parceiros pianistas. Cada instrumentista se apoderou da canção que tocou, impregnando-a com seu talento; recriou levadas e harmonias; tocou introduções, improvisos e intermezzos que, de tão ardentes e intensos, nos trazem bons humores. Toda essa capacidade criadora

reluz como uma pedra preciosa, habilmente tratada por um ourives do piano. É isso que Valéria Lobão recebe deles, seus cúmplices, ambos empenhados em dar às músicas de Noel Rosa um requinte que, na verdade, elas sempre tiveram, mas que agora ganham feições de reafirmada excelência. Valéria canta e as notas deslizam suaves de uma para outra, das mais agudas às mais graves. Para cada faixa, doçura, malícia ou emoção; brejeirice, seriedade e senso rítmico. Suas divisões são ótimas, bem como a sua respiração. A afinação... bem, a afinação de Valéria Lobão é a mais que perfeita das suas qualidades – sem cera nem verniz, plena. O CD 1 abre com “Pastorinhas” (Noel e João de Barro). Ao piano, André Mehmari. Seu arranjo e a interpretação de Valéria dão a exata dimensão da ideia do projeto: revelar Noel Rosa de maneira incomum. Tocado e arranjado por Rafael Vernet, “Só Pode Ser Você” (Noel e Vadico) traz na letra as mágoas de Noel com Ceci, o grande amor da vida do Poeta da Vila. Joyce Mo-

reno e Valéria cantam e acrescentam ainda mais melancolia aos versos. Com arranjo de André Mehmari, tocado por Robert Fuchs, “Sinhá Ritinha” (Noel e Moacyr Pinto), obra pouco conhecida de Noel, tem bela melodia, cheia de notas, permitindo a Valéria exibir mais um de seus muitos dotes. Outro desses é sua interpretação teatral do buliçoso “Minha Viola” (Noel), arranjado e tocado por Leandro Braga. “Filosofia” (Noel e André Filho) está no CD 2; o arranjo e as interpretações de Itamar Assiere e Valéria são de um vigor arrebatador. Tudo produzido, gravado, mixado e masterizado pelo pianista Carlos Fuchs – ele que criou o arranjo e dividiu “Último Desejo” com a intérprete, sucesso de Noel que fecha o CD 2. E assim Valéria Lobão vivenciou seu transe musical, em que o (en)canto ora se mistura às teclas, ora se distancia delas, mas sempre impondo a certeza de que a música não tem limite para ir à mais profunda beleza. Mesmo as de Noel Rosa.


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RICARDO SOMERA

IMPRESSÕES DO SÓNAR SP Na última semana de novembro, São Paulo recebeu a terceira edição brasileira do festival catalão Sònar. Com uma programação diversa, teve espaço para debates sobre tecnologia, criatividade e, claro, música. O Sonar+D, que discute novas tendências e tecnologias, aconteceu na Red Bull Station e teve curadoria de Hermano Vianna, Ronaldo Lemos e Alê Youssef. O conceito central do evento era o de “refazer”, no sentido de que tudo, na atualidade, está sendo e deve ser reconstruído, desde a forma como você consome até ao seu dia a dia andando pela cidade. Assisti à palestra de Grant C. Dull (ZZK Records), pesquisador de música latina, dono de selo e criador do The Nu LatAm Sound, um programa sobre a cena musical latino americana que será lançado em breve. Mais focado na pegada eletrônica com misturas regionais, ele destaca nomes como

Chancha Via Circuito e Nicola Cruz, além dos brasileiros Omulu, João Brasil e Gang do Eletro. Teve também espaço “maker”, com palestras sobre novos negócios da música, startups e o espírito DIY. Já o Sónar Cinema, que aconteceu no MIS, foi uma homenagem ao cineasta holandês Frank Scheffer. Entre os destaques da mostra estavam Frank Zappa: A Pioneer of the Future of Music e Brian Eno: Music for Airports.

SOM NA CAIXA O festival é conhecido principalmente pelas atrações musicais, que foram poucas neste ano. The Chemical Brothers (UK), Zopelar (BR), Hot Chip (UK), Pional (ES), Valesuchi (CL), Evian Christ (UK) e Brodinski (FR) se apresentaram numa noite chuvosa no Espaço das Américas para um público de seis mil pessoas. Público

grande para um evento que custava R$ 550. Diferentemente do público que frequenta o Tomorrowland ou até mesmo o Lollapalooza, a média de idade ali era de 30 e poucos. O duo inglês começou o show com um dos maiores hits, “Hey boy, hey girl”, e sem dúvida foi a atração que mais empolgou o público, que pulou durante uma hora e meia. Eu me senti transportado para 2005, quando os quarentões não saiam da lista de mp3 que carregava no celular. Tinha boatos que só um dos “brothers” iria aparecer, mas eles vieram juntos e também trouxeram robôs gigantes para o festival. Absolutely great! Depois de esperar mais de uma hora sentado no chão, já que não tinha nenhum lugar onde fosse possível relaxar, o grupo Hot Chip abriu o show com “Huarache Lights”, música do álbum mais recente, Why Make Sense, lançado em 2015. E depois um hit

atrás do outro: “One Life Stand”, “Night and Day”, “Over and Over” e “Ready for the Floor”. Senti que o público (pelo menos eu, para ser honesto) estava mais curtindo um revival do que dançando. A festa nunca termina, mas a idade chega. De maneira geral, o festival tem uma ótima proposta, mas o atual formato ficou um pouco confuso e caro. Opções seriam reorganizar as bandas e DJs em festas durante vários dias ou aumentar as atrações de peso e fazer um festival com vários palcos em um lugar mais amigável, com lugar para esperar entre um show e outro. Que venham os próximos! g

Ricardo Somera é publicitário e você pode encontrá-lo no Twitter @souricardo e no Instagram @outrosouricardo


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VIAGEM

DE LISBOA

AO PORTO Por Ana Beatriz Freccia Rosa

DIVULGAÇÃO

PORTUGAL


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Prepare-se para ver castelos e construções históricas, provar excelentes vinhos e saborear muita comida boa. Com este roteiro de Lisboa ao Porto, Portugal pode ser o destino perfeito para suas próximas férias. Com 315 km para percorrer, a melhor alternativa é alugar um carro e conhecer as cidadezinhas pelo caminho. As rodovias são bem localizadas e fáceis de viajar, as distâncias entre as cidades são pequenas e as paisagens, de tirar o folego! Durante sete dias percorri o trajeto entre as duas principais cidades portuguesas parando em Cascais, Sintra, Óbidos, Fátima, Batalha e Coimbra. Conto agora os pontos altos de cada local.

LISBOA

Distante apenas 30 minutos de Lisboa e considerada uma vila, Cascais conta com várias fortalezas situadas entre a praia do Abano e de São Julião da Barra, além de ruínas romanas, igrejas e capelas. O local tem clima ameno, belas paisagens, gastronomia variada e até um casino.

SINTRA Apenas 20 km separam Cascais da bela vila de Sintra, que é Patrimônio Mundial da UNESCO na categoria Paisagem Cultural. Entre morros, bosques e palácios, tudo é lindo e inesquecível. Vale até passar um tempinho maior na cidade e visitar o Palácio da Pena, uma de suas principais atrações.

A palavra Óbidos deriva de ópido, que significa cidadela ou cidade fortificada, pela quantidade de muros. Em 2007, o Castelo de Óbidos recebeu um diploma de candidato a uma das sete maravilhas de Portugal e recentemente as muralhas da cidade integraram o projeto “Maravilhas de Portugal”, criado pela Direção Geral do Patrimônio Cultural junto com o Google – sendo possível visualizar o local em 360 graus através do Google Maps. Na época de Natal, Óbidos se transforma em uma grande “Vila de Natal”. É a principal atração para moradores e muitos visitantes.

FÁTIMA Conhecida por ser um dos maiores centros de peregrinação católica do mundo, Fátima atrai mais de seis milhões de pessoas anualmente. O local, que tinha apenas uma capelinha onde crianças viram Nossa Senhora pela primeira vez, hoje chega a ser duas vezes maior que a Praça de São Pedro, no Vaticano. Com uma imagem de Nossa Senhora, visite a Capela das Aparições. Há diversas missas em vários idiomas. Em 2007, foi inaugurada a Basílica da Santíssima Trindade, com capacidade para até 8.000 pessoas, já que a Basílica de Nossa Senhora de Fátima, onde estão enterrados os três pastorinhos, já não conseguia dar conta de receber tantos fiéis. Todos os locais são próximos uns dos outros, portanto fácil de visitá-los. Se você não gosta de multidões, evite a visita no dia 13 de cada mês. Principalmente no dia 13 de maio, que é a data que marca a primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima.

BATALHA O Mosteiro da Batalha é um dos desvios que vale a pena. Considerado um dos mais bonitos de Portugal, foi construído como agradecimento à Virgem Maria pela vitória na Batalha de Aljubarrota. Foram mais de dois séculos e sete reinados para a sua construção. Hoje é Patrimônio Mundial pela UNESCO e eleito como uma das sete maravilhas de Portugal.

COIMBRA Além de ser a universidade mais antiga de Portugal, a Universidade de Coimbra também é uma das mais

antigas do mundo. Por isso, passear pelo seu campus e suas instalações é uma ótima pedida, justamente porque a melhor atração vai estar ali: os estudantes e suas capas pretas. Por ser uma universidade cheia de tradições, os estudantes se orgulham de vestir a toga – tanto que há lojas específicas que vendem somente esses produtos, entre roupas e acessórios para os universitários. Se você estiver em Portugal em maio, não perca a cerimônia da Queima das Fitas, que acontece durante a Semana Acadêmica e é a festa dos formandos da universidade. Coimbra é pequena, fácil de ser percorrida e se você quiser passar mais tempo por lá, não deixe de visitar a Sé Velha, que parece um castelo e que até hoje está praticamente intacto. Passeie pela Baixa, a parte histórica da cidade, visite o Convento de Santa Clara, construído em memória da Rainha Isabel e que fica localizado no alto do morro, onde tem a melhor vista da cidade. Antes de ir embora, não perca a Quinta das Lágrimas. Hoje um belíssimo hotel, o local é considerado o cenário de “Romeu e Julieta” em sua versão portuguesa.

PORTO A famosa cidade do Porto, segunda maior de Portugal, oferece diversas e encantadoras atrações que podem ser vistas em apenas um dia, pela proximidade entre elas. Se você não estiver muito cansado ou achar que subir ladeiras é um bom exercício, aproveite para conhecer tudo andando. Por outro lado, aproveite que o sistema de transporte funciona bem e percorra a cidade de ônibus, parando em diversas estações de metro, pegando um tuk tuk – carrinho comum na Ásia e que já apresenta sua versão portuguesa – ou andando de bicicleta em algumas áreas, afinal, você já tomou tanto café e comeu tantos doces até chegar aqui que qualquer esforço compensa para gastar um pouquinho das calorias. Cercada de casarões antigos e edifícios históricos, comece o seu passeio atravessando a Ponte Dom Luís I e visite as caves em Vila Nova de Gaia, do outro lado do Rio Douro. Aproveite a vista de lá, que é linda, observe a Ribeira e então cruze novamente a ponte em direção a essa área. A Ribeira, de onde saem os passeios de barco, é realmente uma boa pedida. De lá, caminhe para o Palácio da Bolsa, a Sé Catedral, a Torre dos Clérigos e em então para a Avenida dos Aliados, considerada o coração da cidade. Visite a Rua de Santa Catarina, onde você irá encontrar várias lojas e o famoso Café Majestic, além do Mercado do Bolhão. O Museu de Arte Contemporânea de Serralves também é uma boa opção. Prove a Francesinha, prato típico do Porto, e se ainda tiver disposição e gostar de arquitetura, não deixe de visitar a Casa da Música.

Palácio da Pena, Sintra

Fátima

Delícias de Portugal

ANA BEATRIZ FRECCIA ROSA

CASCAIS

ÓBIDOS

Para mais dicas sobre Portugal e outros destinos, acesse www.omundoqueeuvi.com

ANA BEATRIZ FRECCIA ROSA

Lisboa tem tanta, mas tanta coisa legal que é difícil escolher apenas algumas recomendações. Comece seu passeio andando de Elétrico, ou trem – percorrendo os bairros históricos você terá uma ideia da cidade. Visite o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, dois dos maiores patrimônios mundiais. E, claro, prove o famoso Pastel de Belém, cuja receita é um dos maiores segredos da culinária portuguesa. Não deixe de subir o Castelo São Jorge, o ponto mais alto da cidade. Perca-se nos bairros da Alfama e da Mouraria. Escolha um dos restaurantes para provar o seu prato português preferido e ouvir um fado. Vá ao terreiro do Paço, considerada a maior praça e símbolo da cidade, e passeie pela beira do Rio Tejo. Suba no Elevador Santa Justa enquanto percorre a Baixa – a vista é linda e você consegue ver a parte antiga da cidade. O elevador, aliás, tem mais de cem anos e foi desenhado por Ponsard, discípulo do grande mestre das obras em ferro, Gustave Eiffel. Visite também o bairro do Chiado, ideal para compras, e assista ao por do sol nos mirantes de Santa Catarina ou de São Pedro de Alcântara. Termine o dia jantando no bairro Alto, na noite mais animada de Lisboa.

Já o Castelo dos Mouros, construído no século 10, fica localizado em um dos cumes da serra de Sintra. A caminhada vale a pena e lá de cima tem-se uma vista deslumbrante. Também imperdível é o Convento dos Capuchos, construído em meio à natureza para abrigar 12 monges que viviam em total despojamento e simplicidade. Como em todas as paradas comer é obrigatório, não deixe de provar o famoso travesseiro ou a queijada. A Pastelaria Piriquita é a mais tradicional.

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CIRCULE SUA ARTE EM LONDRES

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