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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP C334 Casarin, Rodrigo. Paris é um encontro. / Rodrigo Casarin. São Paulo: Biografias e Profecias, 2013. 52 p. ISBN 978-85-65004-05-3 1. Relato de Viagem. 2. Paris. 3. França. 4. Literatura Brasileira. 5. Romance. I. Título.

CDU 910:821.134.3(81) CDD 910

Catalogação elaborada por Ruth Simão Paulino

Produção Biografias & Profecias www.biografiaseprofecias.com.br Edição Regina Magalhães

Ilustrações Marcos Daibes: capa, p. 13, 14, 18, 23 e 37 Marcelo Casalecchi e Nicolas Cares: p. 9, 16, 20, 27, 28, 30, 32, 34, 36, 40 e 45.

Texto Rodrigo Casarin

Imagens Lígia Jardim: p. 24, 25, 26, 27, 29, 31, 32, 41 Priscila Mota: p. 22 Acervo familiar: demais fotos.

Revisão Izabel C. Lourenço

Projeto Gráfico, Diagramação e Impressão ArteMídia


Nota dos Personagens Aos nossos amados pais, aos queridos familiares e padrinhos, e aos amigos que testemunharam nossa história. À Regina Magalhães e Rodrigo Casarin, pelo presente de eternizá-la neste livro. Renata e Fred


Paris ĂŠ um encontro


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ont Saint Michel, enfim. Conhecer a cidadela, passear pela cidadela, desfrutar a cidadela, vivenciar a cidadela, dormir na cidadela... um dos pontos mais aguardados da viagem. Preparados para andar, andar e andar, carregavam apenas uma mochila – as malas ficaram guardadas em Rennes – quando chegaram no hotel: Ao pisarem na recepção, Camille, do outro lado do balcão, empalideceu. Vocês que são o casal Linardi? Fred e Renata apenas confirmaram que sim, eram o casal Linardi. As reservas já estavam feitas com bastante antecedência. É o seguinte, tivemos um problema na reserva de vocês. Na noite passada, uns japoneses reclamaram que o quarto estava infestado de insetos. Aconteceu isso no quarto que seria de vocês e num outro. Já fizemos a dedetização, porém, ele está envenenado, não há condições de ficar lá, explicou a recepcionista. Já antecipando o golpe de sorte e mais uma boa história para contar, Fred imaginou que ofereceriam uma suíte superior pelo mesmo valor.


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Nós não temos mais quarto vago no hotel e já ligamos para todos os outros hotéis aqui da ilha. Tudo está lotado – eis a realidade. Ai, não! Estamos em lua de mel. O ponto alto da nossa viagem era dormir aqui na ilha. A frase desconcertou Camille. Entendia a situação do casal, ainda que pouco pudesse fazer, a não ser oferecer hospedagem em um hotel três estrelas – distante a cerca de 15 minutos de carro da ilha –, o táxi até lá e um jantar. Fred já esperava que Renata fosse se irritar, discutir com a francesa. Errou. Tá bom, amor, essa ilha deve ser mofada, imagina os insetos que tem aqui. Preocupavase com suas alergias. Conhecer Mont Saint Michel era um desejo de Renata. A ilha, na verdade, não é uma ilha, afinal, é ligada ao continente por um istmo. A grande atração – e quase única – do lugar é uma abadia erguida por monges beneditinos a partir do século X. A construção, que foi crescendo com o passar dos séculos, já serviu como fortaleza e prisão em diferentes períodos de turbulência francesa. Ao redor da atração sacroturística, uma vilinha com pequenos hotéis e lojas. No mais, apenas água, água, água e a passarela natural que, antigamente, causava a impressão de que os monges caminhavam sobre as águas..


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Os caminhos da cidade são em espiral. O visitante sobe, sobe, sobe... Até chegar, enfim, na abadia, digna de cenário de filmes como O nome da rosa. Não é necessário mais do que um dia para conhecer o lugar, contudo, paciência é essencial, pois a quantidade de visitantes é enorme, o que lota e aperta as estreitas ruas. Após explorarem a pequena cidade, e antes de rumarem para o enorme e inesperadamente luxuoso quarto que lhes aguardava – e onde só conseguiriam chegar depois de desencontros com taxistas – Fred e Renata aproveitaram o

jantar que Camille oferecera. O restaurante era ótimo, com uma vista maravilhosa que permitia enxergar toda a baía. A comida, excelente como é de se esperar em um restaurante francês. Ali estavam Fred e Renata, na surpreendente – em todos os sentidos – Mont Saint Michel, celebrando um romance que começara há mais de sete anos. No princípio era a janela. Sim, a janela. Os verbos também existiam: olhar e acenar. O carnaval acabara há pouco quando Fred abriu as cortinas e as janelas para arejar seu apartamento. Viu que a sala do apartamento à frente, no mesmo condomínio, estava diferente, com uma nova pintura, nova decoração. Enquanto olhava, uma menina apareceu. Deu um tchauzinho. O carnaval acabara há pouco, quando Renata, de pijama, assistia à televisão. Percebeu que uma luz se acendeu às suas costas, no outro prédio do mesmo condomínio. Virou-se e viu uma pessoa se mexendo na janela da frente. Não deu muita bola e continuou entretida com o programa.


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Quando olhou novamente, viu que a pessoa – quase que no anonimato do luscofusco – mandava-lhe um tchauzinho. Assustou-se ao descobrir que também estava sendo vista. Ficou sem graça, mas retribuiu o aceno. Fred e Renata continuaram acenando um para o outro nos dias seguintes e logo começaram a conversar por interfone. Renata contou para Fred que era de Belém, ele mal sabia onde isso ficava no mapa. Ainda assim, a conversa fluía. Tinham muitas coisas em comum: o gosto musical, a paixão por filmes, serem de fora de São Paulo e estarem sozinhos na cidade... Resolveram ir juntos ao cinema assistir Menina de ouro. Fred tinha 22 anos e Renata 23 quando se beijaram pela primeira vez. Renata deixou Belém para fazer pós-graduação em Jornalismo em São Paulo, onde dividiu, por um tempo, o apartamento com Rodrigo e Adria, amigos da capital paraense. Era formada em publicidade e procurava um rumo que lhe fizesse sentido no meio da comunicação social. Aprofundavase nos estudos do ramo por convenções e pressões. Na verdade, sua grande paixão era – e é – a dança. A oportunidade de estudar em São Paulo também era a chance de conhecer, experimentar ou descobrir novos mundos. Mudouse em 2003, e logo começou a trabalhar com produção de eventos e a se integrar à nova cidade. Conhecia pessoas, frequentava festas e baladas, e as novas amizades costumavam deixar cheia a sua casa. Demorou algum tempo para que começasse a sentir a ausência da família, dos antigos amigos e da comida belenense. Fred também chegara em São Paulo para estudar. Em 2001, deixou Americana, no interior do estado, e mudou para a capital. Cursaria Jornalismo no Mackenzie e demoraria um bom tanto para se


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adaptar à realidade de uma grande cidade, ainda mais morando a muitos quilômetros da faculdade. As viagens de ônibus – sempre lotados – pareciam levar uma eternidade. Fosse apenas uma afinidade por serem pessoas de fora descobrindo e se redescobrindo em São Paulo, o relacionamento de Frederico Linardi e Renata Daibes não teria ido adiante. Se os primeiros flertes e beijos aconteceram em fevereiro, o namoro começou pra valer somente em julho. A viagem de Renata para Belém durante as férias de inverno serviu para que ambos percebessem o quanto sentiam a falta um do outro. Só podia ser paixão. Antes disso, já viveram muitos momentos de namorados. Renata chegara a viajar para Americana, onde foi apresentada à família de Fred sob o título de “grande amiga”. A família da moça também já conhecia o garoto – a mãe, pessoalmente; o pai, por foto. Entre 2005 e 2006, tanto Fred quanto Renata passaram por um conturbado período profissional, alternando empregos indesejáveis com desemprego – ainda mais indesejável. Contudo, após a difícil fase, Renata conseguiu, enfim, voltar a trabalhar com dança. Já Fred obteve sucesso como jornalista freelancer. Durante todo esse tempo, ao menos o namoro ia muito bem. No carnaval de 2006, Adria retornou ao Pará. Como o apartamento que dividia com a amiga tinha


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dois quartos, Renata decidiu se mudar para uma unidade menor do mesmo prédio. Teoricamente, Fred vivia sozinho em um apartamento e Renata dividia espaço com a solidão em outro. Na prática, não era nada disso. Chegara o final do ano e o contrato de aluguel de Fred estava para expirar. Como o garoto continuava sem emprego fixo, dependendo do sucesso das pautas que sugeria, a volta para o interior era iminente. Então, os namorados chegaram a uma conclusão: por que não morar juntos de uma vez? Já comiam juntos, dormiam juntos, viviam juntos... Agora iriam morar definitivamente juntos. Fred juntou suas coisas, despachou quase tudo para Americana, e levou para o apartamento de Renata somente miudezas e o que pudesse ser útil. Apesar de a convivência intensa criar a impressão de que a nova vida seria tranquila, quase sem novidades, não demorou para que as primeiras conturbações aparecessem. Afazeres do cotidiano, como lavar a louça, arrumar a casa, limpar os banheiros, fazer compras e pagar as contas, desgastavam o casal. Fred queria as coisas de um jeito; Renata, de outro. Dividiam as tarefas, mas as divisões não emplacavam. Dividiam novamente... e nada! Tiveram que ter paciência recíproca até aprenderem a levar de verdade uma vida de casal. Apesar de viverem juntos, sob o mesmo teto e dividindo suas vidas um com o outro, quando o assunto era casamento, a confusão se estabelecia. Se Fred dizia que já eram casados, pois levavam uma vida de casados, Renata dizia que não, faltava um marco. Se Fred dizia que não eram casados, porque Renata tinha dito que faltava a cerimônia, a discussão começava. Como assim não somos casados? A situação cômica atingiu o ápice em uma aula de francês que ambos cursavam. Ao serem indagados pelo professor se eram casados, responderam prontamente: SnIãMo Ou seja, eram um pouco casados. Eram casados na prática, não na teoria. Eram casados mais ou menos. Eram um casal, sem dúvida, só que meio casados. Eram favas contadas as discussões.


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Às vezes, conversavam sobre um possível casamento oficial. Renata sempre manifestava a sua vontade de casar de verdade – ainda que já fossem casados de verdade –, mas Fred ponderava. Casar é caro, não precisamos disso. Muitas pessoas casam e logo depois se separam. Nós já somos casados. Renata insistia. Queria que o amor de um pelo outro fosse celebrado pelos parentes e amigos. Queria a oportunidade de juntar as famílias, que ainda não se conheciam completamente. Só que em Nova Iorque não era esse o assunto. Estavam lá para executar mais um plano de Renata, que adora elaborá-los, o que muito agrada a Fred, que, de carona nos sonhos da mulher, também se realiza como pessoa. O ano era 2011, e o pretexto, um curso de dança que Renata realizaria. Para Fred, uma oportunidade de rever a família que praticamente o adotara por um ano quando realizou intercâmbio nos Estados Unidos. Também aproveitariam para fazer o tu-


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rismo clássico. A tradicional visita ao Empire State Building, um dos maiores prédios do mundo – e provavelmente o mais famoso até aviões se chocarem contra as torres do World Trade Center – fez parte do roteiro. Renata completava 30 anos no domingo que visitaram o prédio. Logo na entrada, aborrecimentos. Detector de metal, obrigação de passar as mochilas por raios-X, burocracia digna de aeroporto... O elevador ultrarrápido os levou até o octogésimo sexto andar, que, mesmo não estando no topo dos 443 metros da construção, já proporciona uma belíssima vista panorâmica da cidade. Na noite novaiorquina, um tapete de estrelas parecia se estender sob os pés do casal. Contemplavam a vista quando Fred segurou as mãos de Renata e olhou fixamente em seus olhos. Sei que todo mundo faz isso quanto está aqui em cima, mas eu também vou fazer. Você quer casar comigo? O choro foi pouco; o aceite, imediato;


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a emoção, enorme. Fred viajara com a certeza de que pediria Renata em casamento, só não sabia o momento. Imaginou que o Central Park poderia ser um cenário mais com a cara do casal, só que o frio, o vento e a chuva foram impeditivos. Sabendo da paixão de Renata pelo filme Tarde demais para esquecer, aproveitou a visita ao famoso prédio, onde se passa a última cena do longametragem, para o aguardado momento. Eu era casada com uma pessoa que não tinha me pedido em casamento, que não tinha falado que queria ficar comigo para o resto da vida. Para a maioria das mulheres, o homem pode dar o mundo, mas se não pedir em casamento, nada vale. O fato de pedir em casamento é como dizer eu te amo de outra maneira. É mostrar

que quer ficar com a pessoa pra sempre, que quer dividir a vida com ela. É um limiar. Era tudo isso que Renata queria ouvir e sentir de Fred. Voltaram para casa. Hora de bolar e executar o plano matrimonial. Primeiro tiveram que decidir onde tudo aconteceria. Belém estava descartada, muito longe de muita gente. Americana chegou a ser cogitada, todavia optaram mesmo por São Paulo, onde mora a maior parte dos amigos. Sabiam que as famílias iriam a qualquer lugar que escolhessem. Fred e Renata desejavam que a celebração marcasse o amor dos dois e que tal momento pudesse ser compartilhado e vivido com pessoas queridas. Tomariam as rédeas de todo o processo, a


começar pela temática do casamento. Claro que teria o noivo e a noiva, entretanto, o primeiro seria um palhaço, a segunda, uma bailarina. Foi árduo o planejamento para o inusitado encontro. Aonde iam e com quem falavam, viam e ouviam apenas ideias já prémoldadas. Tiveram que insistir até entenderem que não queriam nada padronizado. Quem comandou as pesquisas foi Renata. Entrava em blogs, procurava por sites, folheava revistas e mais revistas. As possibilidades, opções e variedades iam aparecendo aos montes. Uma assessora dava o norte, os noivos decidiam as soluções. Também tinham que tomar

cuidado para não cair em armadilhas como vendas casadas, preços exorbitantes ou simples modismos. Deslumbravam-se com apaixonantes mimos e fantásticas soluções. Queriam tudo! Todavia, na maioria das vezes, o querer não resistia a uma análise um pouco mais fria e a um orçamento já estipulado. O trabalho exigia muito de Renata, mas também proporcionava prazer. Além de curtir cada momento das pesquisas e escolhas, a moça dividia com Fred a responsabilidade de provar as centenas de doces e salgadinhos que experimentariam até escolher os preferidos para a festa.


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Houve final de semana que o apartamento se encheu de guloseimas. Empanturraram-se. Alguns amigos do casal ajudaram nos preparativos. O buffet de comidas ficou sobresponsabilidade de Rodrigo Abou, também padrinho, o mesmo belenense que dividira apartamento com Renata nos primórdios da garota em São Paulo. Além disso, o rapaz indicou a decoradora, que chegou a levar Fred e Renata até a Ceagesp para que pudessem escolher as flores. Já as fotos foram feitas por Lígia Jardim. O que faltava era um padre. Ou melhor, um frei, já que oficialmente padres não podem celebrar cerimônias fora da igreja. Ficaram sabendo também que poderiam receber no máximo uma benção, pois, para a Igreja Católica, o casamento só pode ser registrado em papel – para constar no Vaticano e tudo mais – quando feito em solo sagrado. Preocupavam-se de que os pais de Renata, católicos fervorosos, não vissem o casamento com os mesmos olhos. Foi uma surpresa ouvirem “o que importa é a benção, minha filha” de Flávio Oliveira, pai de Renata. Os preparativos se seguiram cada vez mais intensos. Sabiam que não poderiam ter o controle de tudo – se no dia faria frio, calor, chuva ou sol não lhes competia –, só que a possibilidade de erros deveria ficar apenas na conta do imponderável. Chegaram a visitar o lugar da festa umas dez vezes para que resolvessem diferentes problemas e sanassem diversas dúvidas. Nos dias que antecederam o casamento, a correria foi ainda maior, tamanha que quase não deixou espaço para a tensão. Precisavam resolver tudo a tempo, não existiria outra data ou oportunidade para que algo pudesse ser postergado.


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10h30 da manhã e os noivos começam a despertar. Oito de junho, uma sexta-feira de emenda de feriado. Dia de casar. Fred acorda muito ansioso. Está preocupado. Torce para que tudo dê certo, para que todos adorem a festa, mas nada pode fazer além de buscar algumas poucas coisas que falta pegar na gráfica e levar até o lugar da festa. Renata tem fome. Deseja almoçar antes de ir para o salão de beleza. Ao chegar ao hotel onde o casal ficaria hospedado junto com os parentes, uma surpresa: toda a sua família estava por lá. Não deveria. Há seis meses os horários já estavam reservados no salão e, naquela hora, algumas pessoas já deveriam estar sendo produzidas. Começou a sentir uma leve dor de barriga. Sabia que, no final, haveria atrasos. Conseguiu apenas comer pouco de uma bobagem qualquer. Subiu para o seu quarto. Tomou um banho para relaxar. Rumou para a sua produção. Ao menos a noiva estaria no horário. Enquanto isso, Joka, o cachorro de Renata, também merecia especial atenção. Tinha vindo de Belém, só que ficaria de fora da festa. Como chora e faz barulho quando está sozinho, acharam melhor contratar uma diarista para ficar com o cão no apartamento do casal.


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18h30. O atraso, inevitável atraso, acontece. Renata já está lá, dentro do carro, em frente ao salão do casamento, mas precisa esperar cerca de 40 minutos até que todos – inclusive as damas de honra – cheguem. Vê Fred, longe, recebendo os convidados. Conversa com uma pessoa ou outra. Procura se consolar; finge acreditar que tudo está sob controle. Vez ou outra tenta ser acalmada pelo pai, que faz piadas. Nada que alivie muito o estresse. Ficou ali, plantada, esperando, deixando claro que o atraso viera, entretanto, não por culpa da noiva. Ao menos, o tardar no horário fez com que os convidados tivessem um tempo a mais para chegar sem perder a cerimônia. O salão está todo decorado com fitas e bolas de papel vermelho e branco. Na parede, um varal com fotos da história do casal dividindo espaço com uma sapatilha e um nariz vermelho. Para acompanhar a essência, doces como bicho-de-pé e brigadeiro


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figuram ao lado das guloseimas mais invocadas, típicas de casamentos. No lugar do bolo, cupcakes. Para celebrar o casório do palhaço com a bailarina, o noivo veste um tênis que combina com o terno, suspensórios e uma gravata borboleta vermelha. A noiva, um vestido branco armado, de tule, e sapatos altos, dourados, de salto fino. As inspirações estão ali representadas. Hora de iniciar a cerimônia. Ao som de “What the world needs now is love”, de Jackie DeShannon, Fred adentra ao salão acompanhado de Silvania, sua mãe. Durante a caminhada, a cabeça


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do noivo parece vazia, como se estivesse anestesiado, ainda que imensamente feliz. Quando começa a tocar “With a little help from my friends”, dos Beatles, entram os 14 casais de padrinhos – 28 pessoas e uma fila que parece sem fim. Enquanto isso, Renata apenas ouve as músicas. Escondida

atrás de uma cortina junto com seu pai, ninguém consegue vê-la. Ela nada pode ver também. Quando ressoam os primeiros acordes de “Sound of Music”, música tema do filme Noviça Rebelde, é que a tensão aumenta. A hora chegara. Ainda que com um pouco de vergonha, é ela a grande estrela da noite. Por mais que o noivo seja de suma importância para um casamento, é a noiva que todos querem ver. Ao entrar no salão, Renata olha e nada vê. Fita apenas Fred nele, ela tem que chegar; ele é quem interessa. É por ele que está ali. Quando vê a sua mulher, Fred se controla para que a emoção não transpareça por demais. Teme um desmaio, mas a alegria o tranquiliza.


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Renata continua sua cadenciada caminhada até chegar ao improvisado altar. As primeiras palavras do frei são acompanhadas por um enorme nervosismo, como se o homem estivesse ali apenas para deixá-la sob tensão. Acha por diversas vezes que vai desmaiar. Aperta a mão do noivo para se sentir mais segura. Em alguns momentos, discretamente, chora. Depois da troca de alianças – trazidas pelas daminhas embaladas por “Here comes the sun”, também dos Beatles – Fred inesperadamente se mociona ao cumprimentar os padrinhos. Não podia imaginar que isso aconteceria, mas é surpreendido por um forte sentimento ao ouvir de pessoas muito queridas tantas palavras positivas e carinhosas. Todos deixam o espaço da cerimônia sob “Tonight Tonight”, do Smashing Pumpkins. Como não poderia ser diferente, o casal é o centro das atenções dos aproximadamente 180 convidados que ajudam a fazer com que a festa aconteça. Todos familiares e amigos, contentes pela alegria dos noivos. Vindos de lugares próximos ou distantes, estão ali por causa de Fred e Renata, nada mais. A preocupação maior de Renata não era com a cerimônia, e sim com o sucesso da festa. O pessoal iria dançar? Beber? Curtir? Aproveitar mesmo? Ou ficariam apenas sentados, comendo, conver-


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sando um pouco e logo iriam embora? Esquecera-se que a junção de uma trupe de palhaços com um corpo de dança praticamente completo não teria como resultar em algo diferente de muita bagunça e entusiasmo. O salão contava apenas com poucas mesas, exatamente para que quase ninguém ficasse sentado. Assim que a cerimônia terminou e o DJ começou a tocar

“Wouldn’t it be nice”, do The Wonders, música que marcava o início da festa, a pista já bombou. Os noivos sequer tinham cumprimen-

tado a todos os presentes e muitos convidados já dançavam como se a balada estivesse no auge. Em meio aos cumprimentos e às danças, Fred vai ao microfone para algumas poucas palavras, não mais do que um agradecimento geral a todos os convidados. Formalidades. E volta a música.


E para novamente a música. Hora do casal cumprir a tradição da dança. A valsa? Nada de valsa! “My Love”, de Paul Mccartney embala o casal. Em seguida, o pai da noiva também quer dar uma palavrinha para os presentes. Ao final de um breve discurso, começa a introduzir a próxima atração da festa. Dá pistas e se empolga ao final, quando anuncia o cover de seu grande ídolo. Com vocês, o Elvis Presley da Amazônia! O cover do grande astro do rock’n’roll entra pela frente do palco, arrastando consigo todos os que estão sentados junto às mesas ou de pé, mas longe da pista, que imediatamente lota. No pequeno espaço, empolgação de show em uma grande arena. Durante pouco mais de uma hora de espetáculo, Renata canta todas as músicas, ainda que, ao final, não se lembre de nenhuma das canções que haviam sido tocadas. O show acabou sendo o ponto alto da festa, ao menos na opinião de muitos convidados. O responsável pela apresentação foi o pai de Renata, que sequer consultou o casal. Já decidi uma coisa, no casamento de vocês tem que ter o

meu amigo Eli, que faz o cover do Elvis. Quero dar isso para vocês. Falou com tamanha alegria que o casal não poderia recusar o presente. Entretanto, o espaço que haviam escolhido para a cerimônia não comportaria o show. Renata se desesperou. Teriam que redefinir um item que já tinham riscado da lista de afazeres. E não era qualquer item, mas o lugar da festa. Calma, eu a ajudo.


Com o apoio de Fred, o casamento mudou da Vila Madalena para Pinheiros. Solucionado o problema, a apresentação de Elvis passou por mais alguns testes. Pessoas que ajudaram na organização da festa questionaram se os convidados iriam realmente gostar da atração. Ninguém poderia adivinhar como todos reagiriam, porém, por já terem visto e gostado do show, Fred e Renata apostaram no sucesso do presente de Flávio. Acerto inquestionável. Outro acerto foi a intervenção – coisa rápida, não mais do que 10 minutos, não menos do que 5 – de palhaços que aconteceu assim que o Elvis da floresta deixou o palco, enquanto desmontavam a parafernália da banda para que o DJ comandasse a festa até o final. O time de palhaços do qual Fred é integrante, há tempos tentava fazer uma intervenção em público, entretanto, por razões diversas, nenhuma se concretizava. Pensaram que o casamento seria uma boa oportunidade para tentarem mais uma vez. Conversaram com Fred, que topou a brincadeira; apenas alertou que tudo deveria ser muito bem pensado. Nada de fazer no meio do show do Elvis, pois poderia desagradar o cover. Nada de fazer no meio da pista de dança, pois poderia afastar outros convidados. Nada de envolver pessoas que não fossem palhaços, pois poderiam não gostar. Nada de perder a noção com a máscara, como frequentemente acontece. Nada de muitas regras, o bom senso deveria prevalecer. Os palhaços sobem ao palco executando movimentos lentos, embalados por uma música o melhor estilo do tema de Carruagens de Fogo. Todos com o tradicional nariz vermelho e alguma indumentária personalizada. Fred está seguro de que os convidados gostarão da apresentação.


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Anunciam a todos que mais um casamento acontecerá ali: o do palhaço Pacífico, o personagem que Fred incorpora ao vestir sua máscara. A noiva será a mesma Renata. O pajem traz um girassol, enquanto a daminha, com uma bandeja, oferece a Fred o nariz que o transforma em Pacífico. As alianças são bambolês, que envolvem os noivos. Ao final da breve cerimônia, um brinde. Cada palhaço com sua própria bebida – de achocolatado em caixinha a uísque em garrafa. Cotovelos cruzados, goles tomados, mais uma surpresa feita e todos satisfeitos. Que venha o DJ. 4h e alguns muitos minutos. Os noivos deixam o salão. A festa, que durou cerca de oito horas, terminara muito depois do estipulado para acabar. Renata conseguira chegar até ali, graças ao amigo Rodrigo, o padrinho e dono do buffet, que levava comida até a boca da noiva para que ela não passasse mal. Quando tudo acabou, a sensação era de dever cumprido; a vontade, de que aquilo tudo algum dia aconteça novamente.

No sábado e no domingo que sucederam o casamento, Fred e Renata aproveitaram para descansar, ficar um pouco mais com os pais da noiva, que em breve retornariam para o Pará, e acertar os últimos detalhes da viagem de lua de mel. A princípio, o destino seria o romântico norte italiano, com cidades como Roma, Veneza, Assis e Pádua, lugares que Fred já conhecera e se apaixonara. Renata aceitou, só que com uma exigência: quero ir até Paris!


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Porém, o desvio de rota até a capital francesa iria encarecer demais a viagem. Como o destino era inegociável para Renata, mudança nos planos. Agora iriam para a França. Para a capital da França. Para o interior da França. Para o litoral da França. Fred pesquisou sobre o país e traçou o roteiro de cidades. Renata ajudou com a compra de passagens e reserva de hotéis. Chegada a hora de embarcar para os dezoito dias na terra do crepe, Renata mal sabia para onde estava indo. Pouco tinha pesquisado sobre as cidades que conheceriam. Tudo seria uma surpresa. Só que a moça queria menos do que surpresas, bem menos. Queria era poder fazer nada. Depois de todo o desgaste do casamento, descobriu porque casais normalmente optam por passar os primeiros dias de casados em destinos que os convidam a não fazer nada além de se deitar em um bangalô e receber uma massagem ou coisa parecida. Fazem isso porque estão fisicamente esgotados. Renata não queria enfrentar 12 horas de voo, fazer escala, pegar trem, andar em cidadezinha... queria descanso. Chegou a desejar que a viagem não acontecesse ou que ao menos acontecesse dali a alguns dias. Mas essas possibilidades não existiam. Voaram. Assim que chegaram a Paris, Fred e Renata pegaram o trem que os levaria até Avignon, a primeira parada. Avignon, que já foi


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residência provisória de papas, é uma cidade que cresceu cercada por muralhas – erguidas pelos máximos representantes da Igreja Católica. Atualmente, seus limites urbanos extrapolam os paredões, porém, é na parte antiga que muitas igrejas dividem as paisagens com faculdades, museus, restaurantes e teatros. Charmosas ruazinhas, quase vielas, costumam levar o turista a inusitados lugares, com palácios e casarões repletos de história. Apenas circular pela cidade já é um grande prazer, e por ali, tudo se faz a pé. Para tristeza de Renata.

Assim que o trem parou na estação, já pegaram as malas e começaram a andar. Nada de táxi. A bagagem ia sendo puxada por ruas de paralelepípedos. Os últimos vestígios da tensão do casamento se misturavam ao cansaço do corpo, o desgaste da mente e o insuportável tec tec tec tec trrrrrrr das rodinhas contra o chão. Não fosse a energia extra que um belo e desconhecido lugar sempre proporciona ao viajante, Renata teria se enfurnado no hotel assim que chegassem lá.


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Contudo, se buscara energias do além para circular por Avignon, em Arles o cansaço venceu Renata. Era uma tarde quando a moça preferiu ir para o hotel dormir um tanto ao invés de conhecer mais da pequeníssima cidade, quase que exclusivamente turística, que parece saída de um conto de fadas e serviu de inspiração para diversos quadros de Van Gogh, um de seus mais ilustres (ex) moradores. A programação de Fred e Renata sempre contemplava uma

noite dormida nos destinos e ao menos um dia para conhecê-los. Depois de Arles rumaram para Rennes, a capital da região da Bretanha e uma das cidades mais importantes da França. Mais um lugar pelo qual se apaixonaram. Ali, a história se mistura com a contemporaneidade. O clima é de cidade pequena, só que com cotidiano – o movimento nas ruas, a diversidade cultural, as possibilidades intelectuais, as atrações que são oferecidas... – de cidade grande.


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Ficaram em Rennes pouco tempo e retornaram à cidade quando voltaram de Mont Saint Michel, para buscar as malas e pegar o ônibus que os levaria até a próxima cidade. Já nas andanças pelo interior da França, Fred e Renata puderam fazer muitas constatações sobre o país. Diferente do que reza a fama, os franceses foram gentis e corteses: estão prontos para ajudar no que for possível – até mesmo se oferecer para se comunicar em inglês ou falar francês bem devagarzinho, para que o turista possa treinar a língua local. Voltaram de lá com a impressão

de terem conhecido um povo frio, sim, mas muito educado, sincero e solícito, capaz de caprichos e cuidados como oferecer um café da manhã para o casal apenas por estarem em lua de mel. Também confirmaram o que já era bastante previsível, comeram e beberam muito bem. Pratos bem servidos eram acompanhados por bons vinhos, vendidos a preços menores do que o de um suco ou refrigerante. Admiraram encontrar um carrossel no centro de cada cidade. É algo típico. Em Rennes também tinha, claro, e era lá que eles


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estavam – não no carrossel, mas na rodoviária, quando encontraram um casal de japoneses que duas vezes já cruzara os seus caminhos em Mont Saint Michel. Para onde vocês estão indo, perguntaram os nipônicos. Paris. Ohhhh, respondeu o japonês inclinando levemente a cabeça para trás, em sinal de admiração, enquanto a japonesa se contentava em dar pequenos sorrisos e tímidos tchauzinhos. Quando Fred e Renata chegaram à capital francesa, já sentiam saudades. Saudades das cidadezinhas. Saudades das viagens de trem, onde podiam ir sentados um de frente para o outro, cochilando, escrevendo, ou apenas admirando – o companheiro, a paisagem, a viagem.... Sete dias já tinham se passado, teriam mais onze pela frente. Que viesse a festa de Paris. Na cidade luz encontraram amigos por todas as partes. Amigos que moravam no Brasil e curtiam as férias; amigos que estavam trabalhando por lá; amigos franceses que não viam há tempos; amigos que moravam em países próximos e foram a Paris apenas para vê-los. Foram juntos a museus e restaurantes, tomaram porre de vinho, bateram papo debaixo da Torre Eiffel, onde também há um carrossel.


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Por onde andavam encontravam vestígios de história. Descobriram uma cidade que consegue ser romântica apesar do seu enorme tamanho; que é repleta de estilos arquitetônicos e culturais distintos que se alinham a uma unidade; que consegue fazer com que o passado viva no presente. Basta andar alguns poucos metros para sair da quase sagrada Shakespeare and Company – célebre livraria que serviu, e ainda serve, de ponto de encontro para muitos intelectuais que vivem na França – para chegar à tradicional Sorbonne, uma referência acadêmica. Mais alguns passos e é possível visitar a Catedral de Notre Dame, um gótico clássico religioso.


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Um lugar que Renata não abria mão de conhecer era a Ópera Garnier, mais conhecida como Ópera de Paris, uma das casas de espetáculos mais importantes do mundo, berço do balé. Para não correr o risco de ficar sem assistir a um espetáculo no clássico teatro, já havia providenciado os ingressos ainda no Brasil. Na segunda-feira à noite, quando chegaram ao hotel após um passeio de barco pelo Sena, Renata foi conferir o horário da apresentação que iriam no dia seguinte. Surpresa! Ela havia se enganado. A apresentação não seria terça, mas na própria segunda. Começara há três horas. Desesperou- se. Começou a chorar. Fred, os ingressos eram pra hoje. As amigas Maristela Chelala e Lígia, a fotógrafa do casamento, tinham tentado comprar entradas para o mesmo espetáculo, porém não haviam conseguido. Tudo parecia estar esgotado. Pensou que nunca mais conseguiria ver um balé na Opera. Quando estaria em Paris novamente? Quando a oportunidade se repetiria? Chorou ainda mais. Calma, vamos entrar no site e ver se ainda tem alguma coisa.


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Entraram. Outra surpresa: havia ingressos para o dia seguinte. Poucos lugares na primeira fileira, que poderia ter uma vista péssima. Não importava. Pagaram os 150 euros. No dia seguinte, quando chegaram a suas poltronas, perceberam que, ao contrário do que imaginavam, a primeira fileira era excelente. Conseguiam ver a orquestra e todo o palco, sem nenhuma cabeça na frente para atrapalhar. Uma noite inesquecível. No dia seguinte, novamente teatro. Dessa vez se prepararam para a data correta. O espetáculo seria de Savion Glover, um famoso sapateador dos Estados Unidos que encanta Renata desde sua infância. O dançarino estava iniciando sua turnê europeia justamente por Paris, para a sorte do casal, que, ao final da apresentação, ainda conseguiu conversar um pouco e tirar foto com o artista. Na mesma noite, ainda encontraram a amiga indiana Kanchan Maradan, que viajara da Inglaterra para Paris exclusivamente para ver o casal.


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Nesses eventos, Fred e Renata puderam confirmar uma famosa história acerca dos franceses: eles realmente não cheiram muito bem. Estavam sentados em suas cadeiras quando uma bonita menina, arrumada, penteada e bem vestida se sentou ao lado de Renata. Demorou pouco tempo para que o odor azedo que a moça exalava os fizesse trocar de lugar. Por outro lado, outra fama também foi confirmada. São estilosos. Com corpo esguio e normalmente torneados, vestem-se sempre de maneira impecável, até mesmo quando vão de bicicleta ao trabalho. É clichê dizer que os dias em Paris foram inesquecíveis, mas não tem problema, deixemos o clichê. Ou alguém ousará duvidar que Fred e Renata jamais esquecerão do dia que compraram pães e queijos e foram fazer piquenique no parque? Atrás do casal estava a Torre Eiffel; à frente, apenas o hipnotizante horizonte, e ao lado de cada um deles, o seu destino, o seu maior encontro, o grande amor.


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