realização dos projetos, estudos e notas dos anos anteriores - seguindo-se da elaboração de O Grande Vidro propriamente dito, iniciado no outono de 1915 em Nova York e abandonado, inacabado, em 1923. Finalmente, o quarto estágio de O Grande Vidro assistiu à sua projeção em trabalhos que, de 1913 em diante, desenvolvem, comentam e ampliam idéias e elementos desta obra. Esse período é o mais longo, haja vista que se estendeu até a morte do artista. Pode-se dizer, portanto, que O Grande Vidro é não apenas o trabalho mais importante de Duchamp fato largamente aceito - como também o ponto focal de toda sua obra, o ponto para o qual convergem todas as suas mais significativas realizações anteriores, e do qual descendem suas mais importantes realizações posteriores.
3. O desenvolvimento iconográfico
o quadro que antecipa diretamente o tema básico do Vidro é Rapaz e Moça na Primavera, pintado em 1911. Aquele ano assistiu a um florescimento da personalidade de Duchamp, quando seu processo de individuação viu-se fortemente acelerado. Duchamp deve ter sentido a importância das motivações mais profundas dessa pintura na solidificação de seu processo de individuação, visto que, alguns meses depois, procurou realizar uma versão ampliada do mesmo tema. Mas o primeiro impacto emocional, responsável por Rapaz e Moça na Primavera, provavelmente se dissipara ou não poderia ser captado novamente, e Duchamp, insatisfeito com essa segunda versão, abandonou-a inacabada. Três anos depois, voltou à tela e pintou sobre ela a Réseaux des Stoppages (Rede de Cerziduras), 1914. Rapaz e Moça na Primavera não apenas antecipa o tema de O Grande Vidro como está imediatamente atrás deste em complexidade. O tema é sugerido tanto no duplo sentido do título - dois jovens "na primavera" de suas vidas - e na atitude que esse par heróico-virginal assume na pintura: evidencia-se que os dois estão sexualmente atraídos um pelo outro. Podemos notar que o Rapaz (o futuro Celibatário de O Grande Vidro) e a Moça (a futura Noiva) são pouco diferenciados sexualmente e ambos têm os braços erguidos para o céu, formando a figura do Y, posição indicativa de sua aspiração comum - a imortalidade - e de sua configuração física basicamente andrógina. Essa é a posição do xamã que se proclama imortal durante os rituais 14, como também a do Homem Cósmico na tradição esotérica. O signo Y personifica o conceito da imortalidade através da ressurreição, assim como o conceito da "dupla" personalidade andrógina. Os dois jovens encontram-se em dois mundos separados, conforme indicam os dois semicírculos dos quais emergem, com dificuldade, na direção um do outro. O semicírculo onde está o Rapaz irradia uma luz amarelada: bem pode ser um símbolo do sol. O semicírculo da Moça é mais escuro e apresenta uma área branco-prateada - a Lua. Na tradição alquímica, de maneira similar, o par incestuoso Irmão-Irmã é simbolizado pelo par Sol-Lua. Sua união (coniunctio oppositorum) reconstitui a unidade original do ser primordial, o imortal Andrógino Hermético (Rébus). Podemos observar na pintura que o encontro dos dois jovens parece simultaneamente sugerido e aprofundado por uma árvore cujos ramos crescem entre eles. A árvore enquanto símbolo carrega uma grande variedade de significados: aqui apenas iremos ressaltar que a árvore
é um símbolo do movimento rumo à totalidade cósmica, assim como o protótipo do hermafrodita, a síntese de ambos os sexos; e rJode, enquanto axis mundi, atuar como mediadora entre a Terra (Mulher) e o Céu (Homem) .15 A árvore da pintura cresce a partir de um círculo, ou melhor, de uma esfera transparente de vidro, que aprisiona uma personagem assexuada, que lembra muito de perto o Mercurius, freqüentemente representado no vaso alquímico. Nessa esfera podemos, de fato, ser tentados a reconhecer um alambique, o vaso alquímico. Finalmente, logo abaixo da esfera de vidro transparente do centro, há outra personalidade que repousa ao mesmo tempo no mundo do Celibatário (50/) e no mundo da Noiva (Lua!. Essa personagem participa de ambos os mundos, sendo a mediadora entre eles e reconciliando em si mesma as contradições dos dois. Essa personagem central é o epítome do significado da pintura, que é a realização, a nível artístico, de três aspirações primordiais e contraditórias somente na aparência, encontrando a gratificação na estrutura do incesto alquímico: a ânsia de reconstituir a unidade original, o impulso rumo à individuação e a aspiração da imortalidade. No tipo particular de relacionamento dos jovens, o relacionamento real do par Irmão-Irmã substitui gradativamente o relacionamento mítico do par Herói-Virgem. O incesto é aqui vislumbrado como um meio de resolver as contradições da dualidade masculino-feminino na unidade andrógina reconstituída do ser primordial, dotado da eterna juventude e da imortalidade. É igualmente importante, porém, lembrar que a bissexualidade é a qualidade arquetípica do criador, enquanto o incesto alquímico é o modelo mítico do estado no qual, depois de resolvidas todas as contradições, a individuação é alcançada e a criação torna-se possível. Poderíamos chamar a atenção, nesse ponto, para as extraordinárias semelhanças entre Rapaz e Moça na Primavera e seu modelo mítico - a tradicional representação do andrógino filosófico (o Rébus ou Compositam de Compositis) , tal como pode ser visto, por exemplo, na ilustração em que o par incestuoso Irmão-Irmã encontra-se novamente no Sol e na Lua e onde uma árvore cresce novamente entre eles, dividindo-os e unificando-os. Não apenas a relação sexual jamais ocorre (como em O Grande Vidro), como sua mera intenção acarreta a mais drástiéa das punições - a morte. É esse o modelo de um dos tabus mais antigos e difundidos do mundo - o tabu do incesto. No Vidro, a Noiva também é chamada de Virgem, ou Pendu Femelle, e, de fato, ela parece pender do céu. Isso pareceria indicar que os incestuosos sentimentos do Celibatário dirigem-se a uma irmã em vez de à mãe, sendo que esta hipótese pode encontrar maior fundamento se lembrarmos que muitas sociedades primitivas punem o incesto entre irmãos com a morte por enforcamento. Para descobrir qual das três irmãs de Duchamp teria sido objeto de seu inconsciente amor incestuoso, devemos voltar à pintura Rapaz e Moça na Primavera. Parece bastante óbvio que essa pessoa seja o receptáculo da obra. Basta apenas ler a dedicatória no verso da tela para conhecermos o receptáculo. A dedicatória de Duchamp diz: À toi ma chere Suzanne; a pintura foi o presente de casamento para sua irmã Suzanne. Ao escrever a dedicatória, deixou um espaço extraordinariamente longo entre as 17