ARQUITETUR A CENOGR ÁFIC A
por MARIANA FIGUEIREDO SOBR AL TORRES
“Nada no mundo é comum. Tudo o que existe faz par te de uma grande charada. Eu e você também. Nós somos a charada que ninguém consegue solucionar!” Jostein G aarder - “Ei! Tem alguém aí?”
PROJETO DE DIPLOMAÇÃO FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA aluna MARIANA FIGUEIREDO SOBRAL TORRES 11/0036409 orientadora MARIBEL ALIAGA FUENTES banca avaliadora CAROLINA PESCATORI CANDIDO DA SILVA JOARA CRONEMBERGER RIBEIRO SILVA profª convidada MÔNICA FIUZA GONDIM
BRASÍLIA, JULHO DE 2019
A vida é um grande quebra-cabeça. São tantas e tantas pecinhas. Os amigos-família e os família-amigos nos ajudam a ganhar perspectiva nessa montagem. Para você que faz parte dessa história - sou grata de coração pela ajuda e estamos juntos. Não posso deixar de agradecer especificamente ao meu desde sempre e para sempre porto-seguro: paizão, mãezona e irmãozão - amo vocês. À minha querida orientadora, Maribel: obrigada por acreditar nas minhas ideias e por me acolher em tantos momentos dessa jornada na FAU. Você é uma educadora e uma mulher arretadíssima (falo como boa nordestina). Mari Borges, outra mulher incrível, não consigo imaginar esse semestre sem seu apoio. Luz que nos guia, que continue nos guiando e ensinando a lidar com nossas sombras. Seguimos na caminhada.
SUMÁRIO SOBRE A ESCOLHA DO TEMA 11 ARQUITETURA E CINEMA 15
CASAS COMO INSPIRAÇÃO 19 DESENHOS DE CRIANÇA - A REPRESENTAÇÃO 27
“EI! TEM ALGUÉM AÍ?” - CRIAÇÃO DO ROTEIRO 31
O ROTEIRO COMO PROGRAMA DE NECESSIDADES 49
A CASA DO JOAQUIM - PROJETO DE ARQUITETURA CENOGRÁFICA 53 CRÉDITOS FINAIS 73 BIBLIOGRAFIA 74 LISTA DE IMAGENS 75
a seguir nessa trilha. Retomei um ponto de interesse despertado no intercâmbio e falei um pouco sobre o diretor francês Jacques Tati no ensaio teórico, com sua mirabolante expressão em Playtime. Mas o que fazer na diplomação? Já que era para investigar minha trajetória e interesses, voltei anos e anos antes de entrar na FAU pra Mariana criança. Sempre achei a infância uma época de formidável liberdade de expressão e senti que queria colocar um toque disso nesse trabalho. Eu era uma criança bastante curiosa, gostava de criar cenários imaginários, fossem eles no papel ou nos cômodos da minha própria casa. Que tal então fazer um cenário que eu imagino desde essa época? Alguns livros surgiram na minha cabeça, mas o livro “Ei! Tem alguém aí?”, do autor norueguês Jostein Gaarder, pareceu ser a escolha mais adequada.
SOBRE A ESCOLHA DO TEMA Minha trajetória na FAU, apesar de muito minha, talvez tenha pontos em comum com a de muitos estudantes de arquitetura. Esse curso cheio de vertentes abre nossa cabeça e chacoalha tudo lá dentro: para quem tem a mente curiosa é um chamado constante pra áreas adjacentes. Quantas coisas a arquitetura permeia em nossas vidas? A casa em que crescemos, a cidade em que vivemos, a universidade em que estudamos, etc e etc. Cenários que podem ter uma simbologia muito única por conta das emoções quenos remetem. Quando me deparei com a decisão do que fazer para um projeto de conclusão de curso, sabia que queria continuar esse processo (acho que eterno) de pesquisa com o universo da arquitetura simbólica. Dentro desse universo, a cenografia fílmica aparece com a sua linguagem única e sua gigante potencialidade expressiva. O cinema permite e pede que o espaço seja representado de uma forma muito especial. O espaço aqui pode não ter a função diária de abrigo, de proteção térmica, de habitação - mas ele tem a função de comunicar, de traduzir uma narrativa, um ponto de vista, uma emoção, até mesmo a importância de uma dessas funções da arquitetura “real”; ele vem com um propósito muito complexo de representar, de traduzir uma ideia em termos espaciais. Posso dizer que o interesse por esse tipo de expressão tenha se intensificado na época do intercâmbio (Chicago, IIT), quando tive a oportunidade de cursar duas matérias que me instigaram muito para o diálogo da arquitetura com outras artes: “Conflict and Time”, uma matéria sobre cinema e arquitetura; e “Visual Training”, uma matéria sobre estética. Voltei para Brasília, e surgiram oportunidades de estudar essas intersecções do meu curso com outras áreas: fui parar na direção de arte. Esse campo me empolgou, tive contato com pessoas e trabalhos muito bonitos, várias condicionantes me incentivaram
Esse livro conta a história de Joakim, um menino de 8 anos que está prestes a ganhar um irmãozinho e, na noite em que seus pais têm que ir para o hospital (às pressas com a chegada do bebê), ele tem que ficar alguns momentos sozinho em casa. É aí que ele recebe uma visita inesperada: Mika, um menino de outro mundo, que cai no seu jardim. BOOM. Juntos eles discutem suas histórias e vivem várias aventuras - tudo no contexto de um lugar comum, cotidiano: a casa. Seria a casa um lugar tão comum assim? “Se estou começando a história dessa maneira, é porque Mika me ensinou que nada é comum” – disse Joakim quando abriu as portas para entrarmos nesse dia inesquecível. E foi com a lembrança dessa história que inventei de fazer o roteiro para um curta-metragem (em que Joakim virou Joaquim, uma criança brasileira) e, a partir desse roteiro, projetar um espaço cênico. Convido você a descobrir como foi esse processo de muito aprendizado para desenvolver a casa do Joaquim.
ARQUITETURA E CINEMA Sergei Eisenstein (http://sensesofcinema.com/2017/great-directors/sergei-eisenstein/)
Nesse capítulo, vamos percorrer alguns pontos de congruência entre arquitetura e cinema que foram importantes para a concepção da casa do Joaquim. Vamos começar em ordem histórica. Sergei Eisenstein (1898-1948), o revolucionário diretor russo, com o seu filme Battleship Potemkim (1925), marcou a história do cinema com a edição experimental que trazia com a forma como as cenas eram ordenadas um novo jeito de comunicar emoções. “Dizer o indizível “ (One Hundred Years of cinema, 2016). Essa técnica, chamada montagem, usada até hoje no cinema, pode ser usada de várias formas para explorar diferentes efeitos com a forma que as cenas são dispostas na edição do filme (demonstrar um certo ritmo; colocar cenas parecidas em sequência para intensificar um sentimento; etc). A sequência do carrinho de bebê em Potenkim é um exemplo clássico de como ele utilizou diferentes pontos de vista de uma mesma cena (editou a sequência dos planos) para demonstrar ainda mais a dramaticidade de uma cena de ataque militar contra civis. Montagem é um conceito importante e complexo do cinema, mas aqui o utilizaremos como gancho para falar sobre um aspecto semelhante ao vivenciar um espaço sem o intermédio de uma câmera. O estudos do movimento do espectador em relação a uma obra arquitetônica são estudados a fundo por Auguste Choisy em seu longo tratado sobre arquitetura em 1889, sobre o movimento do observador em relação à Acrópole de Atenas (EISENSTEIN, BOIS, GLENNY, 1989). Mas pularemos alguns anos para a relação entre montagem e a promenade architecturale de Le Corbusier .
“The baby carriage sequence ” clássico exemplo de montagem do filme “Battleship Potenkim” (https://unaffiliatedcritic.com/ 2013/01/battleship-potemkin-1 925-independent-study-in-world-cinema/ the-baby-carriage-sequence/)
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Em uma obra arquitetônica, para apreendermos o que o local representa, nós o percorremos. No cinema, a câmera deve fazer esse percurso para nós. Por isso a edição é tão importante num filme, ela tem o poder de fazer certas misturas de planos que uma pessoa não veria num percurso normal por uma obra. Mas uma obra arquitetônica pode sim se utilizar de maneiras para oferecer uma variedade de perspectivas e vivências para um mesmo espaço, criando diferentes percursos que destacam aspectos específicos de uma construção. Ao percorrer uma obra estamos vinvenciando, plano a plano (em paralelo com a linguagem do cinema), aquele espaço. Le Corbusier se utilizou desse diálogo em suas obras com a promenade architecturale (FONTENELLE, 2017) . Por exemplo, percorrendo a Villa Savoye pela rampa, você tem uma perspectiva e sequência de vistas totalmente diferente do que as que você teria subindo pela escada. São formas de dinamizar a exploração de um espaço, trazer diferentes experiencias sensoriais. O percurso na casa do Joaquim será um tema importante, pois queremos que a casa seja vista do ponto de vista dessa criança (e a narrativa explora bastante a relação do Joaquim e do Mika com o espaço). Posteriormente, no subcapítulo de Desenhos de Criança, mostraremos uma interessante relação apontada pelos estudos do próprio Eisenstein com percurso e a representação dele em desenhos infantis.
Paralelo entre diferentes apreensões do mesmo espaço - uma questão de percurso (escada/rampa) - Villa Sovoye (https://lauralot.weebly.com/villa-savoye.html)
Villa Savoye (https://www.spacesxplaces.com/villa-savoye-poissy-le-corbusier/)
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Partiremos agora para outro filme de grande importância histórica pelo modo como o cenário fala por si mesmo e transmite emoções. “O Gabinete do Dr Caligari” (1920), do diretor Rober Wiene (1873-1938), é um filme mudo de horror expressionista alemão e traz suas angulações extremas , refletidas não só no cenário como em detalhes como as tipografias; luz e sombra em seus ambientes dramáticos. É um filme que fala através dos espaços de uma forma marcante, expressando claramente uma estética para o espectador.
(https://www.evensi.uk/sounds-silence-cinema-cabinet-dr-caligari-jacaranda-records-phase/276362807)
Cena do Gabinete do Dr. Caligari (https://www.britannica.com/topic/The-Cabinet-of-Dr-Caligari)
Cena do Gabinete do Dr. Caligari (https://scienceonscreen.org/films/the-cabinet-of-dr-caligari) 17
Voltando a mencionar percurso e ambiências, o filme Blow Up (1966), do diretor Michelangelo Antonioni (1912-2007) , traz a questão da perspectiva e do trajeto em todo o seu filme. A riqueza do detalhe em como acompanhamos o que o fotógrafo Thomas faz durante o seu dia, nos envolve na história e no olhar do personagem. É um filme que trabalha com sequência de cenas e planos de forma muito bem arquitetada.
“(...) A realidade é, talvez, uma relação” - Antonioni
Blow Up (http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/15.173/6010)
“Os vidros refratam e refletem ao mesmo tempo, confundindo a realidade com a reprodução dela mesma – opa, já falamos sobre a dissociação entre reprodução e realidade; aliás, lembram de “Alice através do espelho”? A realidade está de que lado do espelho? Teriam as projeções da imaginação de Alice fragmentos de realidade? – e estão presentes durante todo o longa, auxiliando na concepção de um espaço limitado e íntimo, mas ambíguo. Indica que a fotografia talvez não seja propriamente a realidade absoluta, mas um jogo de espelhos; uma construção complexa de enquadramento e luminosidade variável que direciona o público a uma leitura parcial da realidade.” (SENS, 2016) 18
Passando para outro grande diretor, Alfred Hitchcock (1899 - 1980). As casas que podemos lembrar dos seus filmes de suspense são diversas. Aqui destacaremos a de Psicose (1960) justamente pelo ser um cenário que está presente no imaginário popular. A autora Giuliana Bruno, em seu livro Atlas of Emotion - Journeys in Art, Architecture and Film, faz uma importante reflexão sobre casas do “mundo real”/cinema. “O fato de eu nunca ter experienciado visitar a casa da cascata de Frank LLoyd Wright bem como a ‘Mansão Bates´de Psicose não quer dizer que ambas não sejam reais”.
C ASAS COMO INSPIRAÇ ÃO Continuaremos falando de cinema e expressão, mas com um olhar mais voltado para a habitação, já que é o objeto desse trabalho chegar na forma da casa cenográfica do curta-metragem “Ei! Tem alguém aí?”. Algumas casas aqui são das telas de cinema e outras não, mas não faremos essa distinção pelo fato de que todas elas tem a oferecer um algum fator cênico que foi importante para o arcabouço de ideias que precedem o projeto final.
A Mansão Bates entra aqui para ser um exemplo de planta baixa de uma casa construída em cenário para ser “filmado 360º” - pegando emprestado essa expressão do livro Arte em Cena (2014), da autora Vera Hamburger, ao falar do detalhado cenário do filme Brincando nos campos do Senhor (Diretor Hector Babenco, Direção de Arte de Clovis Bueno), que também construiu os espaços em totalidade, não uma fachada dissociada de interior, como muitas vezes é feito na arquitetura cenográfica.
Na disciplina de Ensaio Teórico da FAU-UnB (1º/2018), falei sobre o cineasta francês Jacques Tati (1907 - 1982) e sua crítica divertida ao mordernismo no seu filme PlayTime (1967). Não poderíamos deixar de citar a icónica casa modernista de “Meu Tio” (1958) nesse trabalho de diplomação. Não por ela ser uma referência estética para a forma desse projeto, mas por ela ser tão bem sucedida imageticamente em passar um conceito , uma sensação .
A casa de “Meu Tio” https://www.vanityfair.fr/culture/ecrans/story/ comment-jacques-tati-a-utilise-le-decor-de-mon-oncle-pour-denoncerla-societe-de-consommation/2075)
Mansão Bates - Psicose (https://oroteiro.files.wordpress.com/2012/07/psycho.jpg)
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A seguir vemos imagens do livro “The Wrong House - The Architecture of Alfred Hitchcock” mostrando como são as plantas baixa dessa casa. Reparem que existem cômodos que terão cenas filmadas em seu interior e outros que são de composição dessa casa vitoriana, para que o exterior seja completo (são construídos apenas para dar veracidade à forma geral da casa). A casa do Joaquim se utilizará de cômodos assim pois será um cenário 360º (mais detalhes no capítulo A CASA DO JOAQUIM).
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“Ei! Tem alguém aí?” é um um curta-metragem com roteiro adaptado de um livro infantil. Dois grandes filmes com roteiros adaptados não poderiam deixar de aparecer como inspiração, com suas representações super expressivas de habitação. O primeiro, “Charlie and the chocolate factory” (2005), do livro (1964) de mesmo nome do autor Roald Dahl, em sua versão de Tim Burton tem uma casa com uma representação externa de angulação extrema, que procura representar a pequeneza e precariedade daquele lar. O interior desafia as leis da física, mas mostra que lá cabe uma grande família que dá um jeito de aproveitar o diminuto espaço com boa vontade e união.
Cena de “Onde vivem os monstros” (https://www.blu-ray.com/movies/ Where-the-Wild-Things-Are-Blu-ray/8351/)
Cena de “Onde vivem os monstros”
O outro filme, que fala sobre conflitos e relações de uma forma muito sensível e peculiar para o público infantil, é “Onde Vivem os Monstros” (2009), do diretor Spike Jonze. O livro que inspirou o roteiro é de 1963, do autor Maurice Sendak. Em determinada parte do filme, o personagem principal, Max, constrói juntamente com os monstros uma nova casa para eles morarem. A casa, assim como o filme, não é nada tradicional. O longa traz a importância da significação de um lar. em vários momentos Na casa que Max vive, na casa de gelo que ele constrói, na casa com os monstros, etc.
Casa do Charlie (https://br.pinterest.com/pin/516154807285019428/?lp=true)
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O “Catelo-Rá-Tim-Bum” faz parte do imaginário infantil de muitas crianças dos anos 90. O filme (2000) aparece aqui como um grande exemplo de arquitetura cinematográfica realizada para um filme infantil brasileiro - com direção de Cao Hamburger e direção de Arte de Vera Hamburger e Clóvis Bueno. A casa original foi reinventada pelos diretores de arte para a realização do filme. Foi um cenário extremamente complexo, com diferentes locações e ampla construção de interiores. A fachada de um palacete construído no século XX em São Paulo foi aproveitada como base para intervenções cenográficas. (HAMBURGER, 2010)
Imagens de construção do set de filmagens, do livro Arte em Cena.
Desenho para intervenção da fachada de palacete, do livro Arte em Cena.
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Agora vamos partir para as inspirações da forma do projeto. A casa que queremos projetar tem como locação Brasília, mas bebemos de fontes de arquitetura contemporâneas de vários lugares do mundo ao procurar por habitações minimalistas. Apareceram muitas influências escandinavas e japonesas que se adequavam a estética buscada. Pelo autor Jostein Gaarder ser norueguês, uma arquitetura inspirada nas habitações que têm sido projetadas em sua região é uma forma de homenageá-lo. E, as arquiteturas do Japão e do norte da Europa se assemelham em seus conceitos minimalistas, compactos e com muito uso de madeira. Seguem as casas inspiradoras:
Grande inclinação do telhado Uso da madeira Janelas assimétricas Minimalismo
Villa Korsmo / Huus og Heim Arkitektur Noruega, 2011 (https://www.archdaily.com/230219/villa-korsmo-huus-og-heim-arkitektur/villa_korsmo-3/)
Haus am Moor / Bernardo Bader Architects 2013, Austria (https://www.archdaily.com/380697/ haus-am-moor-bernardo-bader-architects)
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A próxima casa foi projetada pelo Frank Gehry, a partir de uma casa que ele e a esposa compraram na Califórnia, Estados Unidos. A casa original ficou praticamente intacta, mas a projeção dela é totalmente desconstrutivista. A expansão é muito bem definida pela frase do próprio arquiteto: “Me disseram que haviam fantasmas na casa. Decidi que eram fantasmas cubistas.” A livre forma que essa casa adquiriu tem uma expressão cênica interessante para o repertório projetual. (Gehry Partners, 2010)
Gehry Residence / Gehry Partners Estados Unidos, 1978 (https://www.archdaily.com/67321/ gehry-residence-frank-gehry)
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DESENHOS DE CRIANÇ A - A REPRESENTAÇ ÃO Falando de uma perspectiva pessoal, quando criança eu adorava desenhar casas em corte. Assim eu me sentia fazendo parte daquilo, colocando os móveis, como uma casa de boneca em duas dimensões - até porque não tinha muita habilidade, então não me arriscava no desenho em perspectiva. Fui muito influenciada a desenhar mundos imaginários pelo livro “Ponto, Pontinho, Vírgula e Tracinho”, do Hanz Witzig. Esse livro representa em suas páginas jeitos para a criança se expressar sem grandes técnicas. As casinhas sempre estão em fachada ou corte.
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Esse estilo de desenho não se restringe à Mariana criança. Rudolf Arhein, em seu livro “ARTE e Percepção Visual - Uma visão da psicologia criadora” (1980) , redige um parágrafo muito interessante sobre esse tipo de representação planificada: “Uma boa maneira de chegar a compreender como as crianças representam o espaço é ler o romance fantástico Flatland de E. A. Abbot. Planilândia é um país bidimensional no qual, comparando-se com nosso próprio mundo, tudo se reduz a uma única dimensão. As paredes das casas são meros contornos de figuras planas; mas cumprem sua finalidade porque num mundo plano não há como penetrar um cortorno fechado” As crianças também não seguem uma regra de hierarquia de tamanhos. Elas podem representar aquilo que julgam mais importante como maior no desenho. Até que descobrimos uma coisa muito interessante: esse jeito da criança de se expressar tem muito a ver com o cinema e a montagem que introduzimos o conceito no início desse capítulo. “Pode-se mencionar aqui que a técnica mais altamente sofisticada e realística do cinema retomou alguns dos efeitos notáveis da representação elementar. Decompondo-se o mundo visual em uma sucessão de vistas parciais, o filme pode, por exemplo, voltar ao princípio de que as unidades de uma proposição visual são basicamente de igual tamanho. Quando se mostra uma pessoa observando uma borboleta, um ”close-up” pode fazer o inseto parecer tão grande quanto a pessoa. De modo similar, uma mudança no ângulo da câmera fará a imagem da tela desviar do espaço vertical para o horizontal, de modo que o espectador pode ter uma vista lateral de pessoas sentadas à mesa de jantar, e, um segundo depois, a comida vista de cima. Este procedimento é “justificado” realisticamente através da sucessão de tomadas no tempo, que permite uma mudança de distância ou ângulo. Na experiência real do observador, contudo, estas mudanças do ponto de observação não são claramente percebidas como tal. Essencialmente, aceita as coisas como se fossem apresentadas num tamanho e ângulo que lhe sejam mais adequados, sem se preocupar se tal exatidão visual é ou não “fiel à realidade”. “ (Arhein, 1980). Todo esses aspectos representativos que são a facilidade de desenhar em escalas diferentes com desprendimento da ”realidade”; a representação num só desenho de um percurso que seria dividido em vários planos para conferir maior realidade dimensional a cada objeto e a predominância da representação planificada também são comentados no texto “Montage and Architecture” (EISENSTEIN, BOIS, GLENNY, 1989) e são ilustradas nas imagens ao lado. “Benditos discursos poéticos da infância”, pegando emprestado as palavras da jornalista Diana Corso. Não iremos desperdiçá-los na expressão espacial desse projeto.
“Desenho típico de uma criança” que demonstra o despreocupação com a apresentar o percurso na forma lógica de um adulto. (EISENSTEIN, BOIS, GLENNY, 1989)
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PERSONAGENS PAI DE JOAQUIM - LUCAS: leonino • 37 ANOS. SERENO, FOCADO, CALMO. PROFESSOR UNIVERSITÁRIO/ENGENHEIRO AMBIENTAL. MÃE DE JOAQUIM - ISABELA: geminiana • 35 ANOS. CARINHOSA, ESPONTÂNEA, SENSÍVEL, ENGRAÇADA. BIÓLOGA/ESCRITORA.
“EI!TEM ALGUÉM AÍ?” - CRIAÇ ÃO DO ROTEIRO
TIA HELENA: virginiana • 40 ANOS. ALTRUÍSTA, RESPONSÁVEL, DOCE, GENEROSA. FUNCIONÁRIA PÚBLICA.
Como dito na introdução desse trabalho, a escolha do tema envolveu a decisão de fazer um cenário para uma história que marcou a minha infância, a do livro “Ei! Tem alguém aí?”, do autor Jostein Gaarder. Para entender melhor e estudar como as coisas funcionam ao fazer um filme, além de me aventurar na cenografia resolvi me aventurar também como diretora/roteirista. Assim poderia me envolver mais ainda com a história na missão de adaptar o livro para um roteiro de curta-metragem. Já adianto que escrever um roteiro não foi fácil, mas ele nasceu (com pesquisa, tentativa-erro e ajuda de quem trabalha com isso). E, com ele, nasceu também o programa de necessidades desse projeto - porque as cenas ditaram que cômodos/espaços da casa seriam explorados nesse filme. Ao longo do processo de escrita fui consolidando o conceito que teria essa casa, juntando a temática cinema + arquitetura + infância. Mas esse capítulo é sobre a narrativa, no próximo retomaremos a teoria e consolidaremos a forma.
JOAQUIM: virginiano • 8 ANOS. INTELIGENTE, COMPENETRADO, RESPONSÁVEL, ENGRAÇADO , DOCE. MIKA: Signo desconhecido extra terrestre com características similares a aquário • APARENTA 4 ANOS TERRESTRES.CURIOSO, COMUNICATIVO, TEMPERAMENTAL, CATIVANTE.
A história foi adaptada para uma realidade contemporânea brasileira ( a original é norueguesa e escrita em 1996) e colocada num espaço de tempo de uma noite ao invés de 24 horas. O foco do curta é na relação do Joaquim com o Mika, sobre troca e cuidado, com um toque do questionamento de evolução/ origem da vida. Ao lado temos um breve esquema só para introduzir as personagens. Em seguida, a história , o roteiro em si.
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O ROTEIRO COMO PROGRAMA DE NECESSIDADES
LL
HA - UM
Leram a história? A partir dela, como falamos na introdução do capítulo, fizemos o programa de necessidades:
- ESC
TR DE EN
ADA
ADA HA
IN - COZ
Uma casa de uma família jovem brasiliense que tenham os seguintes cômodos:
-
E os outros cômodos de uma habitação? Como essa é uma habitação cenográfica, e já introduzimos certas diferenças no capítulo ARQUITETURA E CINEMA, mostraremos como o espaço será solucionado no próximo capítulo - e como incorporaremos a visão do Joaquim nisso tudo.
M AQUI O J O TO D QUAR DOR
RE - COR
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A CO
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TURE A N M
A C ASA DO JOAQUIM PROJETO DE ARQUITETURA CENOGRÁFIC A Finalmente chegamos ao projeto em si. Mas antes, vamos falar sobre onde essa casa poderia se localizar. O roteiro foi escrito com a intenção de adaptar a realidade do Joakim para a do Joaquim. Ou seja,de uma criança norueguesa para uma criança brasileira. Essa família jovem brasiliense, assim como descrita nas informações extra-roteiro, moraria no Altiplano Leste, no condomínio Vale dos Ipês. O Vale é uma das ecovilas da região. que prezam a construção das casas em harmonia com a vegetação nativa do cerrado e procuram promover um senso de comunidade entre os moradores (um ótimo lugar para as investigações noturnas do Joaquim e do Mika). Em questões práticas para a filmagem do curta-metragem, o Altiplano traz vantagens por ser um local silencioso e com muitas visuais interessantes para serem exploradas.
fotos do terreno pela autora
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N
N
localização do terreno no condomínio Vale dos Ipês
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Agora chegamos à forma da casa. A casa do Joaquim aqui toma a perspectiva dele. Uma casa feita em corte, que nos permite ver as movimentações dos personagens como em uma casa de bonecas e contempla a bidimensionalidade dos desenhos de criança. Uma casa de madeira, com o minimimalismo de uma arquitetura escandinava (em homenagem à origem do livro),mas sem deixar de ser uma casa brasileira que um estúdio jovem de arquitetura de Brasília projetaria. Esse cenário valoriza as movimentações nos interiores e a relação de Joaquim com o céu, com a natureza, com o amigo que está por vir do espaço. Ele é uma criança aberta para o mundo e para as experiências que ele pode oferecer - seu quarto representa o espaço de maior abertura com o mundo à volta. Por ser uma arquitetura cenográfica, essa casa é construída com algumas especificidades, que foram introduzidas no capítulo ARQUITETURA E CINEMA e serão explicadas nos desenhos a seguir.
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cenas 2, 4, 7, 10, 12, 19 e 20
Começamos com os desenhos do Joaquim, seguiremos por explicações compositivas e sensações (cores, texturas) e depois passaremos para os desenhos técnicos. A parte da casa que conhecemos são as que estão em corte, os interiores que fazem parte do programa de necessidades elucidado no roteiro (HALL, COZINHA, ESCADA, QUARTO DO JOAQUIM, CORREDOR E BANHEIRO). O roteiro sugere a movimentação das cenas e dá algumas orientações para aspectos imprescindíveis (na visão do diretor/roteirista) para algumas visuais. Mas pode ser decisão do fotógrafo escolher os melhores ângulos e locais para que a câmera seja posicionada, o que ela captura nos planos. Esse cenário procura dar subsídios a uma infinidade de visões lúdicas sobre a casa, elucidando as diferenças dela para uma casa “comum” - a criança tem facilidade de ver o extraordinário no ordinário. Aqui temos uma listagem das cenas do roteiro e onde elas acontecem nas casas:
QUARTO DO JOAQUIM
HALL
ESCADA
COZINHA
cena 18 fachada oeste cena 11
fachada leste
cenas 3 e 8
CORREDOR
cenas 6, 9,14 e 16
BANHEIR0
cenas 1, 5, 13 e 15 no exterior/arredores da casa
cena 17
60
banheiro
corredor
quarto do joaquim
SALA 03 pavimento superior
“VAZIO”
SALA 02
Em relação à composição geral da casa, explicamos no capítulo de ARQUITETURA E CINEMA que numa casa de experiência 360º podem existir cômodos que existem para dar a forma geral da casa mas não têm cenas interiores. No ROTEIRO (PROGRAMA DE NECESSIDADES) é deixado claro que a CASA DO JOAQUIM é a casa da família toda dele (pai, mãe e irmão que está por vir). Então, apesar de não existirem cenas nesses cômodos, é esperado que exista uma sala de estar, uma área de serviço, o quarto dos pais, uma sala de jantar (talvez). São as salas 01,02 e 03 que ficarão com esse papel. Mesmo a casa sendo na visão do Joaquim, esses cômodos não deixariam de existir na representação geral, pois a família é muito importante para ele - eles só não estão “abertos” na noite que o Mika chegou porque não participaram dessa história em particular. Talvez se fosse outro dia da vida dele, com uma história diferente pra contar, a casa teria um corte de outro jeito.
SALA 01
cozinha
hall
N pavimento térreo
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O foco do trabalho é a forma da casa do Joaquim, na arquitetura cenográfica que surgiu dessa narrativa. Existem muitos outros aspectos de um trabalho de cenografia, que aqui daremos uma breve pincelada. Sobre as cores e texturas: a textura predominante é a da madeira, trazendo aconchego com sua cor clara e amarelada. Os pontos de cor com os props (objetos portáteis que compõem os cenário, que são importantes numa cena) são inspirados em cores que compõem muitos das imagens de espaço, galáxias: ocre, rosas, laranja em contraste com azul e cinzas. Céu preto azulado e o interior amarelado. Luz e sombra. As cores citadas no desenho são das aquarelas utilizadas para criar a paleta (KOI WATER COLORS Sakura). Nas página seguinte, aquarela de dois ambientes utilizando a paleta de cores.
#152 indigo + #004 ivory black
#192 raw umber madeira
CONTRASTE
#023 Carmine + #071 yellow ocre
#023 Carmine
#152 indigo
#231 payne’s gray
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#071 yellow ocre
livro sobre dinoussauro* globo terrestre*
peças de lego* lupa* sacola com coisas do bebê”
QUARTO DO JOAQUIM *exemplos de objetos de cena citados no roteiro
HALL/ESCADA 63
Agora que a forma está definida, partiremos para a solução estrutural e desenhos técnicos. Como estrutura de uma construção efêmera, tivemos a preocupação de escolher materiais de uso corriqueiro nas obras de construção civil (materiais e bitolas comerciais) pois impactam positivamente na expectativa de um custo acessível e disponibilidade no mercado, além de possibilidade de reaproveitamento para atender ao conceito ecológico. A alma (esqueleto) foi elaborada em pinus e o fechamento em compensado OSB, material leve e com apelo sustentável. Da base ao teto esta preocupação foi mantida , pois as telhas da cobertura proposta são de fibra vegetal - ecológica.
N
N
N
inspiração para escada: madeira (primeiro lance) e metal + madeira (segundo lance) (https://www.studioscott.be/nl/pand/fiep)
informações extras sobre telha ecológica escolhida e estrutura do telhado 70
CRÉDITOS FINAIS Consultor de Roteiro Tom Motta Auxílio com Bibliografia Bárbara Gomes, Denise Moraes Auxílio com Estrutura Construtiva e Representação Técnica Cristiane Gomes e Pericles Torres
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BIBLIOGRAFIA
ENTREVISTAS / SITES ARQUITETURA E CINEMA, FAU USP. Disponível em: <https://arquiteturacinema.wordpress.com/>
ARTIGOS/ LIVROS/ TESES ARNHEIM, Rudolph. Arte & Percepção Visual. Uma psicologia da visão criadora, 1980
ENTENDA A DIFERENÇA ENTRE OSB E COMPENSADO DE MADEIRA. Disponível em: <https://www.hometeka.com.br/aprenda/entenda-a-diferenca-entre-osb-e-compensado-de-madeira/>
BRUNO, Giuliana. Atlas of Emotion. Journeys in Art, Architecture and Film.2002
GEHRY RESIDENCE/ GEHRY PARTNERS. Disponível em <https://www.archdaily.com/67321/gehry-residence-frank-gehry>
DAHL, Roald. Charlie and the Chocolate Factory. 1964. EDGAR-HUNT, Robert. MARLAND, John. RAWLE, Steven. A linguagem do cinema, 2013
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LISTA DE FIGURAS CAPA E CONTRACAPA https://unsplash.com/search/photos/starry-sky ILUSTRAÇÕES VINTAGE DO ESPAÇO (NA ORDEM DOS CAPÍTULOS) https://nemfrog.tumblr.com/post/91222719362/fig-56-fire-ball-seen-from-the-observatory-at/amp https://www.etsy.com/listing/127297856/1950s-star-cluster-original-vintage https://i.pinimg.com/originals/5a/61/49/5a61491e4660a548b2de41fbaf6e2626.jpg - Foto da autora antes do roteiro - Do avião, chão que parece céu com estrelas. https://w w w.etsy.com/listing/127296803/1950s- ear th-planet- original-vintage?utm_source=Pinterest&utm_medium=PageTools&utm_campaign=Share https://irrrorare.tumblr.com/
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Ilustraçþes e aquarelas da autora