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Revlsta O GLOBO •ANO 5 •Nº 227 •30 DE NOVEMBRO DE 2008

Gramado do MAM: exposição e livros dão início às comemorações

O jardineiro fiel Às vésperas do centenário de Burle Marx, conheça o legado do paisagista que mais valorizou e difundiu a vegetação brasileira


CAPA O 42 • REVISTA O GLOBO • 30 DE NOVEMBRO DE 2008 •

Burle Marx Por Fátima Sá

Fotos de André Coelho

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O legado do primeiro paisagista que valorizou a vegetação brasileira, às vésperas do seu centenário

Obras inesquecíveis a Praça de Casa Forte,

Recife (1935)

a Parque da Pampulha,

Belo Horizonte (1942)

a Aterro do Flamengo,

Rio (1961)

a Parque do Ibirapuera,

São Paulo (1954)

a Parque del Este, Ca-

racas (1956)

a Eixo Monumental,

Brasília (1961) a Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio (1976) a Calçadão da Avenida

Atlântica, Rio (1977) a Parque Mangabeiras,

Belo Horizonte (1980) a Teatro José de Alen-

car, Fortaleza (1973) a Jardins internos da sede da Unesco, Paris (1963) a Jardins da Organiza-

ção dos Estados Americanos, Washington (1979)

não morreu acana mesmo, até os anos 30, era jardim com inspiração européia, camélia florida, azaléia e magnólia. Ninguém dava bola pra paineira, cacto ou helicônia. Planta brasileira, aliás, era tratada como mato. Isso até Roberto Burle Marx ter a coragem de encher parques e mansões com espécies da Mata Atlântica, do cerrado, da Floresta Amazônica e, até, da caatinga. E inventar o jardim moderno, com diferentes volumes e texturas, formas sinuosas, pisos cheios de grafismos, plantas integradas à arquitetura. Depois de Burle Marx, bacana mesmo era ter um jardim de Burle Marx. E ainda é. Às vésperas do cen-

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tenário do paisagista, seus projetos continuam em alta e seu nome permanece uma referência no mundo todo. Se estivesse vivo, Burle Marx faria 100 anos em agosto de 2009. Mas foi abatido por um câncer abdominal em 1994, aos 84 anos. Ao morrer, deixou dois mil jardins projetados. Deixou também objetos, jóias, cerâmicas, tapeçarias, cenários, figurinos, guaches, maquetes e, mais que tudo, pinturas. Muitas pinturas. A partir do próximo dia 12, a vida e a obra de Burle Marx serão tema da megaexposição “Roberto Burle Marx 100 anos — A permanência do instável”. A mostra — pontapé inicial nas comemorações do

centenário do paisagista — vai ocupar todo o Paço Imperial, com 335 peças, além de projeções de fotos, filmes e uma instalação que promete recriar um jardim. — Ele era uma pessoa poliédrica, como aqueles artistas completos do século XIX. E é isso que pretendemos deixar claro — diz Lauro Cavalcanti, diretor do Paço Imperial e curador da exposição. — Acho que a grande frustração dele foi não ter sido reconhecido como grande pintor — conta Haruyoshi Ono, diretor do escritório Burle Marx & Cia. e amigo do paisagista desde os anos 60. — Ele pintou com fúria, até morrer.a

Calçadão central da Avenida Atlântica: geometria


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Muito menos valorizada que seu paisagismo, a produção de Burle Marx como pintor vem ganhando força desde que ele morreu. Antes, era facílimo encontrar suas telas em leilões. Agora, nem tanto. — Uma pintura dele com 1,12 metro por 1,48 metro já está valendo uns R$ 150 mil. Ele tem cada vez mais reconhecimento — diz a marchande Soraia Cals, que conheceu o artista em 1989, quando ele ia fazer 80 anos. Junto com Tamara Leftel, Soraia produzia um especial sobre o paisagista para a Rede Manchete e encantaram-se tanto um com o outro que ela passou a comercializar suas obras, produziu sua fotobiografia e virou sua amiga até o fim da vida. — Aos 80 anos, ele acordava às 5h, cantando Schubert. Pintava até o meio da manhã, ia para o escritório, trabalhava até o fim do dia, voltava para o sítio e pintava até tarde. Deve ter produzido umas seis mil telas, gravuras, desenhos e panôs. Sítio Burle Marx: a propriedade do paisagista foi doada ao governo e hoje é aberta ao público Os panôs — pedaços de brim pintados — estarão na Marinho, uma das realizado- 1913, ele cresceu num ambienmostra, junto com o vídeo de ras da mostra. — Olhando as te interessante, criativo e cerSoraia e raridades como os obras juntas, fica muito nítida cado de verde. Morava numa desenhos do cenário e dos a semelhança que existe entre casa no sopé do Morro da figurinos do Balé Petrouchka o paisagismo e a pintura dele Babilônia, no Leme, e desde e uma tapeçaria de 26 metros — ela diz. garoto ajudava a mãe a cultivar por 3 metros, que pertence à Burle Marx gostava de dizer espécies no jardim da família. prefeitura de Santo André e que fazer paisagismo era fazer Quando tinha 19 anos, pronunca havia saído de lá. arte e que as mesmas leis que blemas de visão — que o acom— Seguimos uma linha do regiam a composição de uma panhariam por toda a vida — o tempo ao contrário, começan- pintura (cor, forma, textura) se levaram até a Alemanha, para do pelo último trabalho rea- aplicavam ao jardim. Mas foi tratar-se. Foi com a família tolizado e terminando no início através dos pincéis que ele da: cinco irmãos, mais o pai — da carreira dele — explica Lú- começou a carreira. Nascido Wilhelm Marx, alemão, dono cia Basto, gerente geral de pa- em São Paulo e transferido de curtume — e a mãe — trimônio da Fundação Roberto com a família para o Rio em Cecília Burle, brasileira, des-

a

Divulgação/Oskar Sjostedt

cendente de franceses, pianista. Passou dois anos por lá, freqüentando exposições, óperas, teatros, aulas de canto. — Ele era de um tempo em que a elite econômica também era a elite intelectual, um homem muito culto e curioso — diz a historiadora da arte Vera Beatriz Siqueira, autora de um livro sobre o artista. Foi nessa temporada alemã que Burle Marx deslumbrouse com a obra de Van Gogh e botou na cabeça que haveria de ser pintor. Em seguida, numa viagem à Suíça, conheceu a fase rosa de Picasso. E ficou abismado com a liberdade do artista catalão e com sua disposição de recusar fórmulas. Tudo isso já martelava a cabeça de Burle Marx quando ele — por mais estranho que possa parecer — encontrou a vegetação tropical em Berlim: “Foi na visita ao Jardim Botânico de Dahlem que comecei a descobrir as plantas brasileiras, que eu não via nos jardins daqui”, ele contou, anos mais tarde. De volta ao Brasil e à casa do Leme, Burle Marx foi estudar arquitetura e, depois, pintura. Seguia como artista plástico, até que o vizinho Lúcio Costa, admirado com as plantas que ele cultivava, o convidou para fazer o paisagismo de um de seus projetos. Foi assim que, em 1932, Roberto Burle Marx assinou seu primeiro jardim — para a casa da família Schwartz, em Copacabana. A casa não existe mais, mas a integração entre jardim e construção deu fama ao jovem de 23 anos.a Fotos de divulgação/Cesar Barreto

Aterro do Flamengo: uma de suas maiores marcas

Obra: a partir da esquerda, esboço de cenário para o carnaval, feito entre os anos 60 e 70; pintura sobre madeira da década de 50, sem título; garrafa de murano; e panô pintado em 1990


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Burle Marx encheu várias casas de verde, como a da colecionadora Eva Klabin, na Lagoa, e a do banqueiro Walter Moreira Salles, na Gávea, onde criou o jardim e desenhou o painel de azulejos junto ao espelho-d’água. Transformados em centros culturais, os dois prédios passaram a atrair visitantes de olho no acervo e, claro, nas plantas. Também assinou o paisagismo de várias casas de campo, como a de Edmundo Cavanellas, em Pedro do Rio. Mas o que mais gostava era de projetar espaços públicos. Seu primeiro parque foi em Recife — o jardim da Praça de Casa Forte, feito em 1935. O último, um projeto para Kuala Lumpur, na Malásia, que estava em sua prancheta quando ele morreu e foi concluído pela equipe de seu escritório. O maior legado do paisagista, sem dúvida, está nas ruas — no Rio, em São Paulo, Minas, Brasília e mundo afora. Só na Venezuela, ele fez mais de 30 trabalhos, incluindo o Parque Fundação Eva Klabin: a casa da colecionadora, na Lagoa, tem paisagismo de Burle Marx del Este, em Caracas. Mas foi no Rio que ficaram suas maio- pécies. As plantas vinham do pesquisava o feitio delas, a res marcas: o Aterro do Fla- terreno que ele havia com- maneira como cresciam, do mengo, o calçadão e os can- prado em 1949, em Barra de que precisavam. Tirava fotos, teiros da Avenida Atlântica e o Guaratiba — o Sítio Santo An- anotava detalhes, coletava sepaisagismo da Lagoa. tônio da Bica, com 365 mil mentes. Depois, acompanhaNos anos 50, seus jardins metros quadrados, onde ele va o desenvolvimento das foram ficando mais geométri- ambientava as espécies que plantas e árvores em seu sítio. cos, mas ele nunca deixou de coletava país afora. E procurava preservar a nalado as formas orgânicas. CoAo longo de toda a vida, turalidade delas em seus promeçou a projetar o Parque do Burle Marx — e uma comitiva jetos de jardim. Tinha horror a Flamengo em 1954 e cuidou de que incluía parte do staff de topiária — a arte de esculpir todo o paisagismo do Aterro. seu escritório, amigos e quem arbustos, que doma as planQueria uma área livre e verde, mais se dispusesse a ir junto tas na marra. um amplo espaço de lazer que — fez expedições por ecosA cada viagem pelo interior ligasse a cidade à praia. E para sistemas brasileiros. Era lá, no do Brasil ia constatando, in isso não economizou em es- habitat das plantas, que ele loco, o avanço do desmata-

a

Arquivo pessoal

Chiquito Chaves/28-2-1984

Leonardo Aversa/15-10-1989

mento e das queimadas. A paisagem nunca estava igual à vez anterior. Inconformado, transformou-se numa das primeiras vozes a favor da ecologia, ainda nos anos 70. “Achamos que devemos dominar a natureza, para não sermos dominados por ela. Acontece que a alternativa ‘senhor ou escravo’ não corresponde à realidade das coisas. O caminho que a ecologia nos indica é o de ‘sócio’ da natureza”, dizia. Foi nos anos 70, também, que a Bienal de Veneza expôs pela primeira vez um jardim como obra de arte: seu projeto para o calçadão de Copacabana. Burle Marx fez um leve ajuste no desenho de ondas que já existia na calçada junto à areia e foi criando formas geométricas no calçadão central e na pista junto aos prédios, usando pedras portuguesas e plantas. Hoje, a montoeira de ombrelones e afins acabou por esconder parte da criação do mestre, mas ainda é possível andar por ali esbarrando nos desenhos do chão. O Aterro também alterna períodos de grama verde e jardins bem cuidados com épocas menos generosas. Assim como a Lagoa. O mesmo acontece com o jardim em frente ao Aeroporto Santos Dumont, que Burle Marx transformou numa espécie de mostruário da flora local, para os visitantes que chegam ao Rio. E com outras obras do mestre, como os jardins do Palácio Gustavo Capanema, do prédio da Petrobras, do Museu de Belas Artes e da estação de bondinhos no Centro.a Marcos André Pinto/4-8-1989

Instituto Moreira Salles: Vida: a partir da esquerda, Burle Marx em família (ele é a primeira criança, à esquerda), em 1923; desenhando, em 1984; com Lúcio Costa, cinco anos depois; e na festa de seus 80 anos

até o painel é do jardineiro


REVISTA O GLOBO: BURLE MARX, O JARDINEIRO FIEL