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FOTOS LINCON ZARBIETTI

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OOTEMPO TEMPOBelo BeloHorizonte Horizonte DOMINGO, DOMINGO,14 14DE DEDEZEMBRO DEZEMBRODE DE2014 2014

Especial

A política social a serviço do voto Paraespecialistas,governoseapropriadoBolsa Famíliaecriavínculoeleitoral;Dadosmostramque Dilmavenceunascidadesdepoucaestrutura ¬ RICARDO BALLARINE

política social eleitoralmente pode ser clientelista ou não. Se você divulga que determinado partido vai acabar com o Bolsa Família, isso é uma forma de clientelismo eleitoral”, diz Fahel. “Já se sabe há algum tempo qual a base socioeconômica do voto em Lula desde 2006 e também em Dilma, ou seja, que há uma clara correlação entre esse voto e a posição socioeconômica dos eleitores - quanto mais se desce na escala socioeconômica, maior é o voto Lula/Dilma -, com as projeções espaciais ou geográficas disso. Essas projeções acontecem no plano nacional, principalmente no caso Nordeste versus Sudeste/Sul, e se reproduzem no caso de Minas”, diz Wanderley Reis.

Beneficiária do Bolsa Família em Dores de Guanhães, onde Dilma teve mais de 70% dos voto

mica Federal, togarantem reEm Santo Antônio do dos os 27 munisultados eleiRetiro, que tem cípios postorais favosuem mais de ráveis”. 50% de famíNo cade analfabetos adultos, lias beneficiaso de Sandas pela to Antônio transferência do Retiro de renda. Em (região Nordas famílias recebem o Minas, segundo te, a 675 km benefício o Ministério do Dede Belo Horizonsenvolvimento Social te), 85% das famíe Combate à Fome, 1,15 lias da cidade recebem milhão de famílias foram benefi- o Bolsa Família. A votação em ciadas com o Bolsa Família em no- Dilma neste ano ficou em vembro de 2014 – o total de repas- 83,67%, índice que praticamenses no mês chega a R$ 181,5 mi- te não variou desde a eleição de lhões. 2010, quando a atual presidenPara Fahel, o Bolsa Família se te recebeu 83,58% dos votos na tornou uma “proteção social de se- cidade. gunda categoria”: “O Brasil é “As pessoas estavam com mais inclusivo atualmente. A polí- medo de perder o benefício”, tica está desenhada para que as diz Claudinei Neves, secretário pessoas tenham melhores condi- de Assistência Social do municíções de vida. Mas as pessoas conti- pio. Isso gerou uma “acomodanuam no Bolsa Família e ficam na ção”, segundo Neves, “uma zoinformalidade. É espécie de prote- na de conforto que se soma à falção social de segunda categoria: ta de emprego e faz com que as manter as pessoas numa situação pessoas não queiram mudar a de acesso a políticas sociais, que situação em que vivem”. Amplificando o olhar sobre Santo Antônio do Retiro, a cidade tem um dos mais altos índices de analfabetismo de Minas entre a população adulta (acima de 25 anos), o maior entre as 27 cidades: 42,4%, enquanto Minas tem média de 10,4% e o Brasil, 39,1%. “O Bolsa Família é basicamente usado para segurança alimentar. A vantagem é que você cria duas condicionalidades (saúde e educação) importantes, mas o programa precisa ser aprofundado.”, diz Fahel

42% 85%

za e sustentabilidade, de orientação, todas essas variáveis tornam ¬ Analfabetismo e extrema pobre- praticamente imutável o comportaza altos, dependência do Bolsa Fa- mento político dos beneficiários. mília e pouca oportunidade de as“O problema é como um govercensão. Esse é o perfil dos morado- no se apropria das políticas sores dos municípios de Minas Ge- ciais. O PT conseguiu criar uma rais onde Dilma Rousseff obteve vinculação eleitoral entre o govermais de 80% dos votos no segun- no e o Bolsa Família. Ele utilizou do turno da eleição presidencial isso em todos as disputas eleitoneste ano. rais, inclusive neste ano, quando No mapa do disse que Estado, 27 desas pessoas sas cidades ficorriam o cam na região risco de Norte, acima do perder o paralelo 19, que benefício. SEGUNDA CATEGORIA corta Minas de É um uso No levantamento feito por O leste a oeste. Nesi n d e v i d o TEMPO, as 27 cidades do Norte sas localidades, que fere a de Minas onde Dilma obteve mais dos 295 mil eleiq u e s t ã o de 80% dos votos apresentam quatores aptos a parética”, diz se que uma dependência total do ticipar das eleições, 205 mil compa- Murilo Fahel, sociólogo e pesqui- Bolsa Família. Segundo o Portal receram às urnas, sendo que 166 sador da Fundação João Pinheiro. da Transparência e a Caixa Econômil deles votaram em Dilma. Para o cientista político Fábio Se ampliarmos a margem de Wanderley Reis, o assistencialisvotos na presidente para 70%, o mo existe há tempos, mas agora o número de munícipios cresce pa- debate social está mais presente, ra 148, e se espalham pelo Estado de forma “inédita”. “O medo de – a maioria permanece no Norte, perder o benefício é um dos ele47% (80), mas o perfil não se alte- mentos usados eleitoralmente”, ra. Nesse horizonte alargado, os diz. votos em Dilma somam então Esse mecanismo se traduz em mais de 718 mil. Em Minas, a dife- bolsões que não produzem riquerença da presidente reeleita para za e dependem apenas da transfeAécio Neves foi de 550 mil votos. rência de renda para sobreviver. Cidades com esse perfil se tor- “O clientelismo político sempre naram uma espécie de zona de se- foi feito pela relação de indivígurança do voto, locais onde a ex- duos, como na época do coronelispectativa dos cidadãos de mo. Não podemos dizer perder o Bolsa Famíque as políticas sociais lia se tornou quesgeram a mesma reEm Minas, tão essencial na lação, elas são de hora de definir natureza instio candidato tucionais, na urna. Sem avançam com porta de saíperspectiva da, resta o bede política de nefício. A auEstado, têm de famílias foram sência de goperenidade, beneficiadas com o verno, de polítêm critérios Bolsa Família em ticas de desenclaros. Mas eu dinovembro de 2014 volvimento local ria que a forma copara geração de riquemo você se apropria da Casa de eleitora de Dilma em Congonhas do Norte, cidade da região Central ESPECIAL PARA O TEMPO

“O medo de perder o benefício é um dos elementos usados eleitoralmente”

1,15 milhão

OUTRO LADO

O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome disse, por meio da assessoria de imprensa, que “repudia qualquer uso indevido do programa”. Segundo o MDS, o Bolsa Família “é estruturado para evitar ingerências”. Caso ocorram, a pasta orienta o beneficiário a procurar a Central de Atendimento para fazer a denúncia.


O TEMPO Belo Horizonte

Especial|

Depoimento

“Tive medo de perder o benefício caso o Aécio vencesse” ¬ Telma Aparecida Silva Ribeiro, 30 anos, mora com o marido e quatro filhos, de 1 ano e meio a 12 anos, na zona rural de Dores de Guanhães. Recebe R$ 367 do Bolsa Família. “Atualmente, eu e meu marido estamos desempregados, mas fazemos bicos. Eu vendo doce e sempre dou um jeito de conseguir dinheiro para sustentar a casa. Mas fixo é o Bolsa Família. Estamos construindo a nossa casa há dois anos e ainda não está totalmente pronta. Para mim, hoje, esse dinheiro é tudo. Se meu marido não acha um bico, sei que nada vai faltar nada em casa porque tenho o Bolsa Família. Com esse dinheiro, compro comida. Aqui, planto algumas coisas, como milho, feijão, canjiquinha para fazer fubá e farinha, abóbora. Temos horta e criamos galinhas. Tudo o que eu compro geralmente eu que pago. Comprei uma cômoda para o bebê e um fogão a gás com o dinheiro do Bolsa Família. Comprei também material escolar para os filhos, roupa e sapatos. Se ele consegue manter o básico da casa com os bicos, eu uso o Bolsa Família para manter o resto. Todos os meus filhos estudam. Eu vou mantê-los na escola até que se formem. Hoje, é impossível deixar de receber o Bolsa Família. Se não tiver, não terei, por exemplo, comida nem no dia do Natal. Não é que a gente não procura emprego, é que é difícil mesmo. Nós conseguimos um incentivo da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais) para aumentar a criação de galinhas. Já recebemos uma parcela de R$ 1.400 para construir o novo galinheiro e receberemos outra no mesmo valor para investir na criação. Com isso vamos conseguir criar pelo menos 50 galinhas e com uns 45 dias, 60 dias, já conseguimos vendê-las. Aécio pode até ser de Minas, mas não deixo de votar na Dilma. Com ela, sei que nunca vai faltar nada para a gente. Fiquei com medo de perder o benefício caso o Aécio vencesse. Não é medo de cortar o benefício, mas medo de entrar outra pessoa e mudar toda essa política.”

DOMINGO, 14 DE DEZEMBRO DE 2014

Viver por conta própria esbarra na falta de apoio A beneficiária Maria Geralda Moreira, da cidade de Dionísio

Rota de viagem Bela Vista de Minas. Dilma obteve 75% dos votos. Dos 10 mil moradores, 8,7% são analfabetos e o índice de extrema pobreza é 3,1%. Existem 2.574 famílias no munícipio, sendo que 766 recebem o Bolsa Família (21%). Dores de Guanhães. A cidade de 5.200 pessoas tem 1.356 famílias, 563 delas dependem do BF (41%). O analfabetismo bate em 24% e a extrema pobreza, 8,9%. Nas eleições, 77% votaram em Dilma.

OS DADOS SOCIAIS

DOS 27 ACIMA DO

PARALELO 19

MedodeperderBolsaFamíliainfluenciouvotoem Dilma;Beneficiáriosdizemquequeremumfuturo melhorparaosfilhos,comeducaçãoeemprego ¬ RICARDO BALLARINE ESPECIAL PARA O TEMPO COM REPORTAGEM DE BÁRBARA FERREIRA

¬ Ela é devota de Nossa Senho-

ra Aparecida, nasceu no dia da santa, 12 de outubro. A sala de sua casa, em Presidente Kubitschek, estampa uma santa enorme. Um dos sonhos é conhecer Aparecida do Norte (SP). Outro sonho é ter uma casa arrumada. “Para ver meus fi-

1-Bonito de Minas POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

lhos todos dentro dela”, diz Léia Aparecida da Silva, 38 anos, beneficiária do Bolsa Família e mãe de seis filhos. Ela gostaria de ter um emprego fixo e ter dinheiro suficiente para reformar a casa, comprar os remédios do marido doente, comida para a casa e material escolar para os filhos. “Meus meninos todos estudam e preciso de ajuda. Graças a Deus, o mais velho já vai para o Ensino Médio.”

4-Coração de Jesus 9.673 0,537 0,57 35,7% 1.552 2.044 76% 37% 88,37%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

7-Guaraciama 26.033 0,642 0,49 13,8% 4.446 6.474 69% 23,4% 82,88%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

Emprego, alimentação, moradia, educação, medo de perder o benefício, todos são itens decisivos para as pessoas que dependem do Bolsa Família. O TEMPO percorreu algumas cidades de Minas onde Dilma Rousseff obteve mais de 70% dos votos nas eleições para conhecer essas pessoas. Esses quesitos aparecem invariavelmente em cada um dos beneficiários. Além da esperança, depositada em Nossa Senhora ou no futuro de uma geração que não dependa do Bolsa Família. No quadro abaixo, conheça as cidades onde Dilma obteve mais de 80% dos votos.

10-Januária 4.718 0,677 0,40 6,7% 731 1.231 59% 22,7% 81,57%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

65.463 0,658 0,56 18,5% 8.513 15.326 55% 22,9% 82,79%

PARÂMETROS População e número de famílias no município: Censo 2010 IDHM: Média dos indicadores de renda, longevidade e educação. Quanto mais próximo de 1, melhor a qualidade de vida no município Índice Gini: Mede a concentração de renda. Varia de 0 (igualdade total) a 1 (desigualdade) Extrema pobreza: Proporção de indivíduos que vivem em domicílios particulares permanentes com renda domiciliar per capita igual ou inferior a R$ 70/mês (agosto/2010) Bolsa Família: Folha de pagamento de novembro/2014 Analfabetismo: Escolaridade da população acima de 25 anos (2010) Votos em Dilma: porcentagem dos votos válidos no segundo turno das eleições FONTES: IBGE, TSE, CAIXA ECONÔMICA FEDERAL E ATLAS DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

9

2-Catuti POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

5.102 0,621 0,50 21,7% 911 1.306 70% 36,7% 80,84%

3-Cônego Marinho POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

5-Engenheiro Navarro POPULAÇÃO 7.122 IDHM 0,655 ÍNDICE GINI 0,43 EXTREMA POBREZA 8,13% BOLSA FAMÍLIA* 973 FAMÍLIAS 1.797 PARCELA QUE RECEBE 54% ANALFABETISMO 22,5% VOTOS EM DILMA 81,12% 6-Francisco Sá

7.515 0,621 0,52 26,8% 1.187 1.621 73% 24,9% 84,97%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

8-Ibiaí POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

11-Japonvar 7.839 0,614 0,48 18,5% 1.235 1.937 64% 23,6% 84,70%

9-Jaíba 24.912 0,654 0,53 11,2% 3.125 6.000 52% 26,7% 80,14%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

8.298 0,608 0,46 18,3% 1.500 2.074 72% 29,8% 84,48%

12-Jequitaí 33.587 0,638 0,46 6,8% 4.625 8.066 57% 25,1% 80,77%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

8.005 0,643 0,47 8,4% 1.271 2.030 63% 25,8% 82,35%


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O TEMPO Belo Horizonte

|Especial

DOMINGO, 14 DE DEZEMBRO DE 2014

PÓS-ELEIÇÕES FOTOS LINCON ZARBIETTI

“Nãopensoem voltaraestudar” A escola é parte essencial do Bolsa Família. As crianças devem estar matriculadas e frequentando as salas de aula. Os beneficiários enxergam nessa exigência uma forma de mudar o futuro da família. É assim que pensa Maria Geralda Moreira, que aos 65 anos mora sozinha com dois netos em Dionísio. Os R$ 141 que recebe do Bolsa Família ajudam a completar a renda de doméstica. Nunca pensou em desistir do benefício porque diz precisar muito. “Eu abriria mão dele se melhorasse de vida”. Ela não recebeu incentivo para abrir negócio ou estudar. Completou apenas o primeiro grau quando era jovem. “Estudo agora é para os meus netos. Emprego aqui é algo muito difícil. A maioria trabalha em casas de família, roça ou no comércio. Mas são poucas ofertas.” Roseane Vitorino, de Bela Vista de Minas, não pensa em deixar de receber o beneficio agora, mas tem vontade de mudar de vida e não precisar mais do auxílio. Ela estudou até completar o segundo grau. “Aqui na cidade não temos oferta de cursos técnicos e nem oportunidades de empregos melhores. Já que não tive oportunidade, não penso em voltar a estudar. Vou deixar para os meus filhos, que estão na escola”.

Rota de viagem Congonhas do Norte. É a cidade com o maior índice de analfabetismo (39%) e extrema pobreza (19%) das visitadas pela reportagem. São 4.900 habitantes, divididos em 1.231 famílias. Delas, 869 recebem o Bolsa Família, cerca de 70%. Presidente Kubitschek. Tem o 2º maior índice de beneficiários do Bolsa Família, 60% das 680 famí-

lias. Com 2,9 mil habitantes, 17,6% são analfabetos e 12,3%, extremamente pobres. Neste ano, 70% votaram em Dilma. Dionísio. São 8.700 pessoas no munícipio, cerca de 2.289 famílias. Dessas, 35% recebem o Bolsa Família. A taxa de analfabetos é de 14,3% e de extrema pobreza, 4.8%. Nas eleições, 71,5% votaram em Dilma.

“Fiqueicommedo deperderobenefício”

Adenilza das Gracas Lucas e seus três filhos, de Dores de Guanhães

O medo de perder o Bolsa Família rondou as cidades na época das eleições. Como diz Adenilza das Graças Lucas, de 26 anos, moradora de Dores de Guanhães (no Rio Doce, a 214 km de Belo Horizonte): “O comentário que ouvi era que o Aécio (Neves) tiraria o benefício”, diz a eleitora de Dilma e mãe de três filhos. O discurso é o mesmo de Betânia Cristina de Almeida, de 27 anos. Moradora de Presidente Kubitschek (na região Central, a 298 km da capital), ela vive num quarto e cozinha com seus cinco filhos – sendo dois gêmeos e um garoto deficiente. Ela conta que votou em Dilma apenas no segundo turno.“Votei nela no final porque fiquei com medo de perder os meus benefícios”. Sem incentivo e com baixa escolaridade, Elba Pinto de Lima, 40 anos, lamenta a falta de oportunidade em

Congonhas do Norte (Central, 287 km). “A gente tenta emprego, mas não consegue pela falta de estudo. Eu só leio e escrevo meu nome”, diz a desempregada, mãe de um filho e que faz bicos como faxineira. A falta de estrutura leva ao receio: “Votei nela (na Dilma) porque ela ajuda os pobres. Falavam que se ela perdesse iam cortar o Bolsa Família, mas a gente não pode ir atrás do que o povo fala. Pensei nisso, mas não acho que o outro (Aécio) ia cortar nada, não”. Também de Congonhas do Norte, Claudia Mendes de Lima, 35 anos, compartilha o sentimento: “Fiquei com medo de perder o benefício se ela (Dilma) perdesse a eleição. Mas isso era medo meu, ninguém veio falar isso comigo”.

“Eunãotrabalhoporqueprecisoficarem casacuidandodascrianças” Roseane de Jesus Vitorino, 36 anos, moradora de Bela Vista de Minas (Central, 120 km), recebe o Bolsa Família há cinco anos. Solteira, mora com os pais, duas sobrinhas, um irmão e seus três filhos, de 11, 10 e 5 anos. O caçula é deficiente físico. Ele nasceu com um problema nos pés e teve que passar por uma cirurgia e tratamentos em Belo Horizonte. “(O Bolsa Família) ajuda muito na compra de material escolar para meus filhos. Eu não trabalho porque preciso ficar em casa cuidado das

crianças e da minha mãe. Sempre tivemos dificuldades, e agora não preciso me preocupar tanto com as coisas, já que sei que posso contar com essa ajuda.” Ela gastou parte do benefício com o tratamento do caçula. “Quando ele era bebê, tínhamos que ir a Belo Horizonte toda semana para o tratamento. Agora, depois que ele passou por uma cirurgia, volto a cada três meses. O Bolsa Família ajuda com os custos da viagem”. Cuidar de crianças pequenas é fa-

tor determinante para que, em sua maioria, as mulheres não trabalhem. É o caso de Scarlet Damasceno, 21 anos, moradora de Dionísio (região Central, 189 km), mãe de duas crianças – 1 ano e 3 meses e 5 anos – e desempregada. “Nunca tentei cursos profissionalizantes porque tenho crianças pequenas e não tenho com quem deixar. Creche aqui é muito difícil e não tem berçário para o mais novo. Quando vou para roça, sempre tenho que arrumar alguém para cuidar deles”, diz. EDITORIA DE ARTE / O TEMPO

16-Matias Cardoso POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

14-Luislândia POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI

PARALELO 19

EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

13-Lontra POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

17-Miravânia 6.400 0,614 0,57 20,6% 1.015 1.475 69% 26,1% 88,21%

15-Mamonas 8.397 0,646 0,50 13,5% 1.365 2.044 67% 29,2% 83,37%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

19-Pai Pedro 9.979 0,616 0,56 16,7% 1.132 2.220 51% 31,1% 80,69%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

4.549 0,593 0,49 22,1% 839 1.039 81% 33,7% 80,36%

18-Nova Porteirinha 6.321 0,618 0,45 22,5% 958 1.747 55% 35,4% 82,58%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

7.398 0,641 0,41 5,59% 1.054 1.820 58% 24,6% 82,71%

5.934 0,590 0,46 25,4% 866 1.431 60% 42% 85,87%

22-Santa Cruz de Salinas POPULAÇÃO 4.397 IDHM 0,577 ÍNDICE GINI 0,49 EXTREMA POBREZA 24,3% BOLSA FAMÍLIA* 646 FAMÍLIAS 1.091 PARCELA QUE RECEBE 59% ANALFABETISMO 34,2% VOTOS EM DILMA 82,95%

25-São João da Ponte POPULAÇÃO 25.358 IDHM 0,569 ÍNDICE GINI 0,48 EXTREMA POBREZA 18,2% BOLSA FAMÍLIA* 4.154 FAMÍLIAS 5.824 PARCELA QUE RECEBE 71% ANALFABETISMO 38,5% VOTOS EM DILMA 84,59%

20-Pedras de Maria da Cruz POPULAÇÃO 10.315 IDHM 0,614 ÍNDICE GINI 0,47 EXTREMA POBREZA 13,1% BOLSA FAMÍLIA* 1.691 FAMÍLIAS 2.430 PARCELA QUE RECEBE 70% ANALFABETISMO 30,1% VOTOS EM DILMA 88,04%

23-Santo Antônio do Retiro POPULAÇÃO 6.955 IDHM 0,570 ÍNDICE GINI 0,58 EXTREMA POBREZA 39,7% BOLSA FAMÍLIA* 1.382 FAMÍLIAS 1.623 PARCELA QUE RECEBE 85% ANALFABETISMO 42,4% VOTOS EM DILMA 83,67%

26-São João do Pacuí POPULAÇÃO 4.060 IDHM 0,625 ÍNDICE GINI 0,64 EXTREMA POBREZA 22,4% BOLSA FAMÍLIA* 720 FAMÍLIAS 936 PARCELA QUE RECEBE 77% ANALFABETISMO 28,5% VOTOS EM DILMA 83,51%

21-Riacho dos Machados POPULAÇÃO 9.360 IDHM 0,627 ÍNDICE GINI 0,44 EXTREMA POBREZA 11,8% BOLSA FAMÍLIA* 1.409 FAMÍLIAS 2.094 PARCELA QUE RECEBE 67% ANALFABETISMO 30,5% VOTOS EM DILMA 81,98%

24-São Francisco

27-Verdelândia

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

(*) número de famílias

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

53.828 0,638 0,55 15,9% 7.752 12.107 64% 23,7% 81,33%

POPULAÇÃO IDHM ÍNDICE GINI EXTREMA POBREZA BOLSA FAMÍLIA* FAMÍLIAS PARCELA QUE RECEBE ANALFABETISMO

VOTOS EM DILMA

8.346 0,584 0,45 14,7% 1.169 1.871 62% 37,5% 81,85%


O TEMPO Belo Horizonte

Especial|

DOMINGO, 14 DE DEZEMBRO DE 2014

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PÓS-ELEIÇÕES

Pulverização mantém voto, mas muda perfil

Minientrevista

G

Viviane Alcântara PSICÓLOGAEANALISTADEPOLÍTICAS PÚBLICASDASECRETARIA DEASSISTÊNCIASOCIAL DEBELOHORIZONTE

FOTOS LINCON ZARBIETTI

NascidadesondeDilmaRousseffobtevemaisde70% dosvotos,analfabetismo,pobrezaebeneficiários caem,semalterarperspectivademelhorias ¬ RICARDO BALLARINE ESPECIAL PARA O TEMPO

¬ A falta de perspectiva para a

população das pequenas cidades faz com que o cenário pouco se altere . Com pequenas mudanças, esse perfil - alto analfabetismo e índice de extrema pobreza e grande número de beneficiários do Bolsa Família - se repete nas 27 cidades onde Dilma teve mais de 80% dos votos. Já ao olhar para os municípios onde Dilma obteve mais de 70%, além de pulverizados pelo Estado, é possível perceber um grau de extrema pobreza menor. O analfabetismo também cai, assim como os percentuais de beneficiários. Caso de São José do Goiabal (região Central, a 187 km da capital), cujo índice de extrema pobreza de 2010 é de 3,3%, nove pontos a menos do que em 2000 e ligeiramente abaixo da média de Minas (3,49%). As famílias dependentes são 34%, abaixo da média das cidades Norte. O analfabetismo chega a 15,3%, índice alto, mas também abaixo da média do Norte de Minas. Como comparação, Bonito de Minas (Norte, 653 km), onde Dilma obteve a maior votação proporcional (88,37%), a taxa alcança 37%. No momento em que os índices de qualidade de vida sobem e a independência do cidadão emerge, é o momento em que o voto se torna mais consciente, diz Murilo Fahel, pesquisador

“Não existe valorização da educação. O ciclo de pobreza se repetirá”

da Fundação João Pinheiro. Para isso, as políticas sociais precisam de incrementos. “Você abusa do baixo nível de escolaridade, as pessoas não têm critério discricionário tão claro e se sentem ameaçadas em perder uma certa condição de bem-estar e podem votar no partido X.”

Moradores de São José do Goiabal, onde Dilma teve mais de 70% dos votos

É possível traçar um perfil dos beneficiários do Bolsa Família (BF)? A maioria dos responsáveis por administrar o recebimento do BF é de mulheres. Possuem baixa formação escolar, em geral menos de quatro anos de escolaridade. Muitos estão inseridos no mercado informal (manicures, costureiras, diaristas, pedreiros, serventes, ajudantes). Quando empregados formalmente, são alocados em funções que exigem baixa escolaridade e de baixa remuneração. Em geral, têm acesso à educação e a centros de saúde próximo à residência, mas a qualidade é questionável.

Na casa de beneficiário do Bolsa Família, um prato ao fim da refeição

Os beneficiários têm esperança de poder viver sem o BF? Quando se fala em esperança de melhorar de vida, sim. Contudo, penso que a mudança só ocorre quando fazemos um projeto de vida. O que percebo é que a maioria dos beneficiários não tem um projeto de vida. O único projeto de vida dessas pessoas, na pobreza ou extrema pobreza, é sobreviver. A melhora de vida efetiva é muitas vezes delegada aos filhos. Esperam que eles estudem e tenham condições melhores. Mas até esse ponto é um pouco contraditório. Não existe uma valorização da educação por parte das famílias. Temos altos índices de evasão escolar, principalmente dos jovens entre 12 e 16 anos. Acabam assim por repetir um ciclo de pobreza, pois ficarão sujeitos a trabalhos mal remunerados.

EDUCAÇÃO

Educação é caminho essencial para uma porta de saída. “O partido governista hoje parou de falar nas portas de saída. Para um jovem, o que existe é o Pronatec e o ProUni. Mas você não consegue tirar as pessoas num volume tão grande, pois o mercado não suporta”, diz o pesquisador da FJP. Fahel sugere duas mudanças no Bolsa Família: 1, normatização do benefício, ou seja, tornar o programa uma política de Estado, não de governo; 2, aumentar o valor do repasse, que é insuficiente na comparação com o seguro-desemprego e o BPC (Benefício de Prestação Continuada), que pagam um salário mínimo e criam as condições necessárias para as pessoas poderem se reerguer. Para o cientista político Fábio Wanderley Reis, a saída se desenha por meio de políticas econômicas mais amplas e mecanismos menos precários, de forma a criar uma “agenda mais dinâmica” Leia mais na edição de amanhã: como criar portas de saída para os beneficiários

BolsaFamíliatransferiu R$1,9biparaMGem2013 O Bolsa Família é um dos programas do Plano Brasil Sem Miséria e uma das maiores políticas sociais de transferência de renda do mundo. Implantado em 2004, o programa foca nas famílias que possuem renda per capita inferior a R$ 77 mensais, com teto de R$ 154. A família deve ter obrigatoriamente gestantes, nutrizes ou crianças e adolescentes de até 17 anos. Para receber o benefício, um responsável, normalmente a mulher, deve preencher o Cadastro Único, instrumento que organiza e identifica a população de alta vulnerabilidade. O pagamento é feito mensalmente e pode ser sacado

por meio de um cartão. Como condicionalidades, o programa exige frequência mínima na escola de 85% para crianças de 6 a 15 anos e de 75% para adolescentes de 16 e 17 anos. Além disso, as mulheres de 14 a 44 anos devem fazer acompanhamento médico periódico. Em Minas Gerais, 2,9 milhões de famílias estão cadastradas. Dessas, o programa beneficiou 1,15 milhão em novembro, com um total de R$ 181,5 milhões. No acumulado do ano, já foi transferido para o Estado R$ 1,37 bilhão. Em 2013, o Bolsa Família em Minas alcançou R$ 1,9 bilhão, um aumento de 27% em relação a 2011, primeiro ano do mandato de Dilma Rousseff.

EDITORIA DE ARTE / O TEMPO

DISTRIBUIÇÃO Onde estão as cidades onde Dilma obteve mais de 70%

Jequitinhonha /Mucuri Norte

80 17

3 Noroeste

5 Triângulo

1

CentroOeste Alto Paranaíba

15

11

0

1 Sul

Central

Rio Doce

25 Zona da Mata

O que é possível fazer para melhorar o BF? Quais seriam as portas de saída para quem hoje depende do benefício? Os beneficiários precisam ter um projeto de vida, eles devem querer sair efetivamente da situação de pobreza. Mas para isso o governo tem que viabilizar acesso a saúde, a educação de qualidade. As famílias precisam de respaldo do Estado, uma base que garanta seus direitos básicos para construir uma vida melhor. Penso que o BF é um programa importante na melhoria da qualidade de vida dos seus beneficiários, mas ele em si não é suficiente para combater um ciclo de pobreza tão complexo.


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