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26 DE junho DE 2012 • Ano XXI • n.º 248 • QuInZEnAL GRATuITo DIREToR cAmILo soLDADo • EDIToREs-EXEcuTIVos Inês AmADo DA sILVA E joão GAspAR

acabra

Entrevista a Ricardo Morgado “Voltamos a ser o centro da informação”

joRnAL unIVERsITáRIo DE coImbRA

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Carlota rebelo

cAsA do comerciAnte

Uma medida por cumprir Numa altura em que o comércio de Coimbra, sobretudo da Baixa, enfrenta um dos piores momentos de sempre, ainda há quem tenha a iniciativa de inverter a situação. Alguns comerciantes conimbricenses têm tentado exigir a concretização de uma medida há muito escrita em ata municipal – a cedência de um espaço da CMC para a Casa do Comerciante. Uma casa sem fins lucrativos e de “cariz social”, que pretende ajudar os casos de comerciantes em maiores dificuldades.

ZecA e AdriAno

Mais que homenagear, é reviver a liberdade Adriano Correia de Oliveira e José Afonso foram figuras incontornáveis da história da canção de Coimbra, bem como da própria cidade. Hoje, as vozes que outrora reivindicaram liberdade e democracia, são homenageados por alguns cantores atuais, bem como cantores dos idos anos 60 e 70.”Somos Nós os Teus Cantores” é o evento que pretende concretizar essa homenagem, dinamizado pelo Sindicato dos Professores da Região Centro e pela Turismo de Coimbra. A acontecer dia 29, na Praça da Canção.

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Ação sociAl

desPorto

Novo regulamento de bolsas é insuficiente

Pesca Desportiva da AAC

O novo regulamento de atribuição de bolsas para 2012-2013, publicado no passado dia 22, mantemse praticamente igual ao do ano letivo transato. Das alterações positivas destaca-se a possibilidade concedida ao estudante de se poder candidatar em qualquer altura do ano. Contudo, os dirigentes estudantis fazem uma apreciação negativa do novo documento, uma vez que as questões essenciais, como as fórmulas de cálculo, permanecem iguais, o que vai deixar novamente inúmeros estudantes fora da elegibilidade.

A Secção de Pesca Desportiva da Associação Académica de Coimbra iniciou, no final de Maio, o período de competição. Apesar do começo pouco auspicioso, as perspetivas desta secção que foi, em tempos, campeã do mundo, permanecem intactas. A prova que decorreu no último domingo, em Penacova, serve de ponto de partida para revisitar não só a secção desportiva, mas também os meandros da modalidade.

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mec

Nuno Crato e as lacunas do ES

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roméniA

O confronto com a história Do regime comunista à democracia, a Roménia passou por uma transição problemática. Um passado ditatorial que se reflete na dificuldade em assumir uma história oficial e a encarar os seus fantasmas. No entanto, é expresso um sentimento de nostalgia em relação às décadas de 60 e 70 em cerca de metade da população. A criação de um espaço público de diálogo livre e de partilha de ideias é fundamental. Pág.13

Mostra de Teatro

Universitário

O teatro académico conversado e discutido Reunimos os representantes dos grupos de teatro universitário de Coimbra à volta de um teatro cheio de especificidades. Lançam-se críticas mas também se enchem os peitos de orgulho. Págs. 10 e 11

Há um ano atrás, no dia 21 de junho, o ministro Nuno Crato assumia a cabeça do reformulado Ministério da Educação e Ciência. No entanto, nem a classe docente do ensino superior, nem os investigadores, nem o movimento associativo se mostram satisfeitos com o primeiro ano passado sobre o início do mandato. As queixas são em uníssono e dizem que o abandono do ensino superior, da ciência e da tecnologia são incompreensíveis, visto conhecer-se a ligação anterior do ministro àqueles sectores. A reestruturação da rede de ensino superior, o financiamento das instituições e outras questões passadas em revista. Págs.2 e 3

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Mais informação em

acabra.net


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dEStAquE

Nuno Crato o mini casa ao abandono Passa um ano sobre a constituição do Ministério da Educação e Ciência. Reunindo várias opiniões, parece também ter passado quase em vão um ano para o ensino superior e a ciência, numa altura em que o sufoco financeiro domina estas áreas fulcrais para o desenvolvimento do país. Olhando para o percurso anterior de Nuno Crato, os dirigentes acusam o ministro de ter deixado ao abandono a sua antiga casa. Por Inês Amado da Silva “Espanta-nos que um executivo ministerial que é composto na sua grande maioria por docentes do ES tenha deixado ao abandono aquela que é a sua casa”

O

dia 21 de junho marcou o primeiro ano passado sobre o governo de Pedro Passos Coelho. Um governo que, ensombrado desde o momento da génese pela ‘troika’ , viu a casa reestruturada: menos ministérios e alguns até passados a Secretarias de Estado. Aqueles que antes se designavam por Ministério da Educação e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, são apanhados nesta condensação da organização ministerial. O presidente do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup), António Vicente, comenta que a junção de ministérios não sofreu oposição por parte do sindicato que lidera, numa perspetiva de “ complementaridade e coordenação de estratégias e soluções para problemas que acabam por ser comuns” àqueles sectores. No entanto, um ano depois, o balanço feito pelos dirigentes contactados pelo Jornal A CABRA não é positivo. Nuno Crato é a face mais visível do novo Ministério da Educação e Ciência (MEC), e, ainda na opinião de António Vicente, personaliza “a imagem de alguém que se centrou essencialmente no ensino básico e secundário, descurando completamente o ensino superior (ES)”. Nem o trabalho dos quatro secretários de Estado atenua a opinião que é comum e que é resumida pelo presidente do SNESup: “não houve

medidas relevantes que tivessem sido tomadas por este ministro”, resume António Vicente, que fala ainda de uma “sensação de abando por parte da tutela” expressa pelos vários setores dependentes daquele ministério. A ligação de Nuno Crato à ciência e ao ES é longa - desde a cátedra de Matemática e Estatística no Instituto Superior de Economia e Gestão à presidência da comissão executiva do parque tecnológico Taguspark ou da Sociedade Portuguesa de Matemática, entre outros. E é por todo este trabalho que há um sentimento comum à classe que António Vicente representa: “espanta-nos que um executivo ministerial que é composto na sua grande maioria por docentes do ES tenha deixado ao abandono aquela que é a sua casa”.

paração com o anterior ministro do ES, Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago. “Durante o primeiro semestre do ano tivemos uma ausência completa de resposta do ministério às diferentes questões que foram colocas pelos sindicatos, pelos dirigentes das instituições e até a título individual”, assevera o presidente do SNESup. “De uma forma muito geral e como alguns colegas dos ES já têm transmitido, o mi-

MEC dependente das Finanças O período de contenção financeira tem, para estes dirigentes, influenciado a atuação do ministério em várias vertentes. Para António Vicente, o facto de “muitas das decisões estarem condicionadas ao nível do Ministério das Finanças” torna o ministério de Crato “refém”, sendo que, para Tiago Alves, a situação é acompanhada de “falta de

coragem política” em matérias como a reestruturação da rede de ES público. “O ES não tem de estar adaptado ao mercado de trabalho, mas defendemos que realmente tem de haver uma reestruturação na própria rede e na avaliação dos docentes”, considera Ricardo Morgado, que defende ainda ser preciso “um ministério que ouça quem tem que ouvir, que comece uma negociação com a rede de ES, com critérios

“Mariano Gago, mas com menos dinheiro” Nem só a classe docente sente o ES remetido para segundo plano nos planos do ministro Nuno Crato. O presidente da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv) afirma que o ministro “está desfasado da matéria do ES, completamente desligado, às vezes parece que não tem nenhum interesse na área”. “Não houve medidas relevantes que tivessem sido tomadas por este ministro”, reitera António Vicente, que caracteriza este primeiro ano como o reflexo de “um conjunto de intenções que não foram salvaguardadas” quanto a “um conjunto de problemas que vai preocupando as pessoas” - que vai desde o cumprimento dos estatutos de carreira, quer do ensino universitário quer do ensino politécnico, às condições de trabalho e ao financiamento das instituições e projetos, o que “vem colocando em causa a qualidade do ensino e da investigação”. A tudo isto, o presidente do SNESup soma um conjunto de problemas e preocupações dos próprios alunos, “que não têm tido a resposta que seria exigível por parte do responsável da tutela”. Todas estas questões culminam numa outra opinião comum sobre o trabalho de Nuno Crato, que se vem mostrando “averso ao diálogo e às questões de fundo do ES e da ciência”, conclui António Vicente, numa com-

nistro Nuno Crato é o ministro Mariano Gago, mas com menos dinheiro”, confronta, não existindo diálogo para assegurar “soluções mais efetivas para manter a qualidade do ensino e da investigação”. O presidente da direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Ricardo Morgado, assente e afirma que o rumo do trabalho do ministério segue “uma linha com falhanços estratégicos graves para o país”.

“Uma linha com falhanços estratégicos graves para o país”, é como Ricardo Morgado fala da atuação do MEC

de qualidade virados para o futuro e não apenas com critérios financeiros”. Ainda sem um anúncio da reestruturação, o MEC lançou, no passado dia 12, a limitação do número de vagas a abrir em 2012/2013 pelas instituições de ES, que não poderá exceder o de 2011/2012 (exceto quando pedido e comprovadas perante o MEC) e a recomendação da reorganização das vagas disponíveis segundo critérios de empregabilidade, assentes em dados


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dEStAquE

nistro que deixou a

do Instituto do Emprego e Formação Profissional, contabilizados entre 2000 e 2010. O cálculo é, no entanto, alvo de críticas: “estamos a falar de um passado algo longínquo, completamente diferente do que temos hoje, e se olharmos para aquilo que foi este passado em termos de empregabilidade para definirmos o que poderão ser os próximos 10, 20, 30 anos, o futuro das próximas gerações, naturalmente

Questões como as dívidas contributivas e tributárias não regularizadas deixaram, no ano transato, cerca de 2700 estudantes fora da ação social escolar (ASE). Também a não contabilização do património imobiliário para efeitos de cálculo, traz, este ano, “condições muito mais difíceis do que no ano passado, até porque o custo de vida está muito mais elevado”, explica o presidente da DG/AAC.

atribuição de bolsas e não pode pedir que o estudante tenha um aproveitamento de 60 por cento neste ano letivo se só recebeu a bolsa em janeiro, fevereiro ou março”.

Ciência: clima de preocupação Também na área da ciência e tecnologia a atuação do MEC tem suscitado dúvidas e trazido receios. Os atrasos

nanceira”. A falta de informação concreta vem trazer um clima semelhante quanto à possível tributação de IRS por parte dos bolseiros, que não dispõem de direitos laborais semelhantes a outros contratados. A razão pela qual esta medida foi proposta não é clara para a própria ABIC, que revela haver “uma possibilidade de diálogo importante entre a ABIC, o MEC e a FCT”. As conversações permitiram aclarar que as bolsas serão “essencialmente isentas” da taxação, exceto se “casuisticamente se verificar que há uma mais-valia económica para a instituição de acolhimento, em que o casuisticamente não é

“Vive-se um clima de de uma certa preocupação com a estabilidade do sistema”

fotomontagem por camilo soldado

parece-me que há algo completamente errado”, acusa o presidente do SNESup. declarou Ricardo Morgado questiona: “parece que não se compreende que as instituições estão a perder qualidade devido a todos os cortes desmesurados. A Universidade de Coimbra (UC), por exemplo, paga mais de impostos do que o que vai receber do Estado”. Tiago Alves receia: “é muito perigoso tornamos o ES de novo num ensino elitista”.

Já no próximo ano letivo, e sendo uma das medidas deste ministério que mais polémica tem suscitado, aumenta a exigência do aproveitamento para candidatura a bolsa de estudo: o aproveitamento escolar do candidato passa a ser, no mínimo, de 60 por cento. Sobre este tema, Ricardo Morgado explica a sugestão do movimento associativo: “se o estudante não pode falhar em nada, então o Estado também não pode. O Estado falhou no processo de

“extremamente graves” nos pagamentos das bolsas de investigação têm sido, segundo a presidente da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), Ana Teresa Pereira, justificados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) com “dificuldades económicas e algumas restrições financeiras dentro da FCT, que não pôde responder atempadamente aos seus deveres de pagamento de bolsas”, suscitando “um clima de insegurança fi-

muito claro”. “Não ficou claro para nós qual a razão desta questão da tributação do IRS. Gostávamos de acreditar que isso se pode ter tratado maioritariamente de um equívoco ou de uma falta de entendimento entre os dois ministérios [MEC e Ministério das Finanças] ”, declara Ana Teresa Pereira. “Do contacto que temos tido com outros representantes da ciência em Portugal, reitores ou laboratórios associados, ainda se vive um clima de uma certa preocupação com a estabilidade do sistema”, clarifica. O Jornal A CABRA tentou contactar, sem sucesso, o MEC e os reitores das seguintes instituições: Universidade de Aveiro, Universidade de Coimbra, Universidade do Minho, Universidade do Porto e Universidade de Lisboa. Também sem sucesso resultaram as tentativas de contactar o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos e as associações de estudantes da Universidade do Minho, Universidade de Trásos-Montes e Alto Douro, Associação Académica Lisboa e Federação Académica do Porto. com Inês Balreira

O PRiMEiRO anO dE nUnO CRatO • desatenção para com o ES e C&t em detrimento da educação básica e secundária • Falta de diálogo e de linha orientadora de ação • Reorganização do número de vagas do ES para 2012/2013 • aumento da exigência no aproveitamento escolar (para 60%) na aSE • alteração ao Estatuto da Carreira docente Universitária (ECdU) e Estatuto da Carreira do Pessoal docente do Ensino Superior Politécnico (ECPdESP) (por cumprir) • Reestruturação da rede de ES (por cumprir) • atrasos nos pagamentos aos bolseiros de investigação científica • tributação em iRS dos bolseiros de investigação científica (em caso de mais-valia financeira para a instituição de acolhimento) • Concurso investigador FCt: abertura de 200 a 300 vagas em 2012/2013

OUtRaS PROPOStaS • Proposta de alteração ao estatuto do bolseiro • Criação de tecido empresarial mais apto a contratar doutorados • Criação de sistema de contratação para maior recrutamento de novos cientistas • Balanço Bolonha

do

Processo

de

• Mais financiamento para aSE, ES e C&t • Gestão de qualidade pedagógica e avaliação docente do ES • Estratégia de concertação de formação do aluno nos vários níveis de ensino


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EnsIno sUPERIoR

Pagamento de bolsas de mobilidade em atraso por má gestão da UC d.r.

Vários estudantes manifestam o seu desagrado à DRI face aos atrasos no pagamento. Problemas nas contas de gerência da UC estiveram na génese da demora Inês Balreira Durante este semestre, vários tipos de bolsas de mobilidade têm sofrido atrasos no pagamento por parte da Universidade de Coimbra (UC). Exemplo dos atrasos em questão são as bolsas que provêm do consórcio estabelecido entre a UC e o Banco Santander Totta. Um dos estudantes de mobilidade afetados por estes atrasos é Vasco Batista, estudante de Relações Internacionais (RI), que este semestre frequentou a Universidade Jaume I em Castellón de la Plana, ao abrigo do consórcio do Santander. “Na altura em que estava a tratar do processo informaram-me que o pagamento demoraria entre três a quatro semanas depois de a UC receber o papel de confirmação de chegada à universidade de acolhimento e que o pagamento seria feito na íntegra”, explica o estudante. Na mesma situação esteve também Ana Rita Ferreira, estudante de Direito que esteve em mobilidade na mesma universidade espanhola. “Na altura prévia à partida sempre nos foi fornecida a informação de que, como nos encontrávamos em mobilidade através de um programa diferente, o pagamento seria mais célere do que o das bolsas Erasmus”, afirma a estudante. Ambos os estudantes afirmam

ter enviado os documentos da universidade de mobilidade, mas estiveram três semanas sem receber resposta por parte da divisão de relações internacionais (DRI) da UC. “Na altura, as três semanas passaram e eu perguntei pelo pagamento da bolsa. A funcionária da DRI que estava a tratar do processo disse que ia emitir o pedido para fazerem a transferência”, conta o estudante de RI. Contudo, o pagamento da bolsa apenas foi efetuado no final de junho, já depois do término do período de mobilidade dos discentes.

O silêncio da DRI A chefe da DRI, Filomena Marques de Carvalho, confirma estes atrasos “no pagamento das bolsas de uma forma geral”. Como o atraso se arrastou até ao final da mobilidade, a estudante de Direito contactou várias vezes a divisão, no sentido de obter um esclarecimento para a demora. “Estive três semanas sem obter qualquer tipo de resposta por parte da DRI, até que contactei o gabinete de relações internacionais da universidade de acolhimento e o gabinete fez o favor de contactar a DRI”, explica Ana Rita. “Através da funcionária do gabinete tive a informação de que o pagamento se encontrava retido na contabilidade da UC”, acrescenta. “Contactei a pessoa responsável pelo meu processo, que encaminhou o meu email para um funcionário da contabilidade. De lá não explicaram o motivo pelo qual o dinheiro não estava a ser transferido”, afirma Vasco Batista. “Até hoje, não sei a razão oficial pela qual o processo se atrasou”, acrescenta, opinião que Ana Rita partilha. “Segundo a informação do departamento financeiro da UC,

todos os pedidos estiveram parados por causa das contas de gerência, de que resultou um atraso nos pagamentos e as bolsas não foram exceção”, explica a chefe da DRI. No caso do consórcio entre o Santander e a UC, apesar de ser o banco a entidade financiadora, quem procede ao financiamento é a universidade, uma vez que o valor é atribuído e a verba é transferida para a UC. “Posteriormente são abertas as candidaturas para as bolsas e os estudantes são selecionados e informados que vão receber a bolsa. Tudo isto é feito pela DRI”, assevera Filomena Marques de Carvalho, acrescentando que o banco nada tem que ver com o atraso nos pagamentos. Até ao fecho da edição o Jornal A CABRA tentou contactar o banco Santander para confirmar esta situação mas sem sucesso. A responsável pela divisão afirma ainda que “houve muitos estudantes a fazerem chegar o seu desagrado por estarem tanto tempo a aguardar o pagamento das bolsas”. No entanto, “foram essas mensagens que nos permitiram intervir de modo a que dentro dos possíveis e dos constrangimentos que existem, se agilizassem os processos de pagamento”, contrapõe. “Do que eu tenho conhecimento é que também costuma haver atraso no pagamento das bolsas de Erasmus, porque já realizei este tipo de mobilidade, mas normalmente é uma situação que é avisada previamente”, assevera a estudante da FDUC. Contudo, Ana Rita é crítica quanto à atitude da DRI: “ apesar de ter feito o mesmo tipo de contactos que fiz quando fui de Erasmus, nunca tive uma resposta tão silenciosa por parte da DRI como tive desta vez”.

Problemas nas contas de gerência da UC são a razão da demora d.r.

125 anos da AAC começam com jantar de época Recriar a gastronomia estudantil de 1887 e assinalar os 125 dias que antecedem o aniversário da AAC é o objetivo do jantar que marca o arranque da efeméride Inês Balreira Um jantar que recria as refeições servidas nas casas universitárias de Coimbra em 1887 é a iniciativa que marca o arranque oficial das comemorações dos 125 anos da Associação

Académica de Coimbra (AAC). O jantar tem lugar nas cantinas verdes no próximo dia 28 e o objetivo é “assinalar os 125 dias que faltam para os 125 anos da AAC e tentar recriar o que seria o ano zero na vida da AAC”, afirma José Guilherme Martins, membro da comissão organizadora dos festejos. A ementa, por enquanto, é segredo do chef Gil Edgar. “O jantar vai ser composto por dois pratos e servido à mesa, mas basicamente vai-se recriar a gastronomia de há 125 anos atrás”, revela o presidente da direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Ricardo Morgado. O jantar é aberto aos estudantes mas também à restante comunidade uni-

versitária, “nomeadamente professores, funcionários e antigos alunos”, diz José Guilherme Martins. O evento conta com o apoio dos serviços de ação social da Universidade de Coimbra (UC) que “disponibilizaram as equipas que vão ajudar o chef na cozinha e servir à mesa, assim como o espaço das cantinas e os ingredientes para o jantar”, confirma o membro da comissão organizadora dos 125 anos. Os interessados em jantar um menu diferente na quinta-feira vão ter de efetuar reservas, nomeadamente “para precaver eventuais intolerâncias alimentares mas também para não correr o risco de desperdiçar o que quer que seja”, assevera José Guilherme Martins. Devido à ementa especial o

preço não será os habituais dois euros e quarenta cêntimos. Os estudantes interessados vão ter de despender cinco euros e o público não estudante vinte euros. José Guilherme Martins assegura ainda que a atividade é autossustentada, através do pagamento do jantar. “Estamos ainda à procura de apoio na área das bebidas mas não acarretará nenhum custo para a AAC”. Para além da possibilidade de degustar uma ementa secular vai ser ainda possível assistir à atuação do Orfeon Académico de Coimbra e a Tuna Académica da UC. Durante o jantar vai estar em exibição uma recolha de fotografias, levada a cabo pela Secção de Fotografia da AAC, que documenta os 125 anos de existência da AAC.


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Novo regulamento continua insatisfatório Carlota rebelo

Apesar de contemplar alterações a nível processual, o documento mantem-se idêntico ao do ano transato. Dirigentes estudantis mostram-se insatisfeitos Inês Balreira O novo regulamento de atribuição de bolsas para o ano letivo 2012/2013 encontra-se disponível para consulta desde sexta-feira. Apesar de manter “na generalidade as soluções acolhidas no regulamento do ano transato”, conforme se pode ler no documento, “o resultado da experiência da sua aplicação e os diversos contributos recebidos” conduziram à introdução de uma série de aperfeiçoamentos. Estes melhoramentos visam principalmente “assegurar uma maior celeridade na decisão e pagamento das bolsas de estudo”. Embora os dirigentes estudantis vejam com bons olhos algumas das alterações ao regulamento, consideram que o que realmente necessitava de mudar foi ignorado. Das alterações introduzidas destaca-se a possibilidade de candidatura fora dos prazos normais, que decorre entre 25 de junho e 30

6 Ricardo Morgado

Presidente da direção-geral da Associação Académica de Coimbra

de setembro, caso passem a preencher os requisitos no caso de alteração da situação económica do agregado familiar ou resolução de dívidas fiscais. Assim, os estudantes passam a poder submeter a sua candidatura até 31 de maio, recebendo, no entanto, o valor da bolsa a partir do mês seguinte à formalização da candidatura. Outra das alterações é a possibilidade de atribuição aos bolseiros portadores de deficiência de um complemento para a aquisição de produtos necessários ao desenvolvimento da atividade escolar. Também o aproveitamento escolar necessário passa dos 50 para os 60 por cento.

Descontentamento estudantil Apesar de o novo documento contemplar alterações positivas, o movimento associativo estudantil mostra-se insatisfeito. “Há algumas alterações importantes ao nível processual mas as questões de fundo que reivindicámos continuam a não estar explícitas, como as dívidas contributivas e tributárias do agregado que continuam a ser imputadas ao aluno”, considera o presidente da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv), Tiago Alves. O dirigente encara questões como o património mobiliário e a questão do corte dos subsídios de férias e de natal do agregado que continuam ignorados. “Como o regulamento é baseado nas declarações

o prazo normal de candidaturas decorre entre 25 de junho e 30 de setembro de IRS do ano anterior é como se o agregado ainda estivesse a receber o subsídio de férias e de natal”, assevera Tiago Alves. O presidente da AAUAv assegura que o movimento associativo alertou o secretário de estado para o problema mas não houve abertura para alterar essa questão. “Disseram-nos que isso iria criar muitos problemas no sistema”, declara. Também o presidente da direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC),

Ricardo Morgado, é crítico em relação ao documento. “Como é que no rendimento mobiliário se consideram menos cinco por cento para quem zero, cinco ou cinco mil euros? Não é justo e depois contam-se coisas que já foram contabilizadas, como por exemplo a dupla contabilização dos salários do agregado”, afirma. Ricardo Morgado considera ainda a inaceitável a questão das dívidas que “não são comunicáveis, têm um titular”. “O apoio ao estudante não

é um apoio ao agregado, mas o secretário de estado disse-nos que tinha de ser visto como tal e se querem que seja um apoio à família que mudem a definição de bolsa”, assevera. Neste sentido, Ricardo Morgado adianta que o movimento associativo vai recorrer ao provedor de justiça com o intuito de clarificar algumas questões relativas ao regulamento. “É preciso perceber se a justiça está a ser feita e nós achamos que não está”, afirma o dirigente.

“A prioridade foi voltar a pôr a AAC como centro de informação e imagem de força” A meio do mandato e no final do ano letivo, o presidente da direção geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Ricardo Morgado, faz o balanço do trabalho desenvolvido pela sua equipa. A visibilidade mediática, a política educativa e o envolvimento dos núcleos na discussão política são as apostas ganhas até à data Que balanço fazes do teu mandato até à data? A nível de política educativa tivemos a ocupação das cantinas, do qual faço um balanço positivo, uma vez que elas acabaram por abrir cerca dois meses depois. Tivemos o Jamor mas também o corte das estradas, numa altura difícil no que toca à mobilização, mas numa altura fundamental que é o final do ano letivo e deixámos a imagem de que os protestos podem aumentar. Importante para isto foi a relação que estabelecemos com os núcleos e acho que foi uma das apostas ganhas este ano. A nível da comunicação voltámos a ser centro de informação, coisa que já não acontecia há algum tempo. Portanto, faço

um balanço positivo. Mas, obviamente houve falhas. Por vezes houve falhas na comunicação interna da casa, que era uma das bandeiras do mandato e acho que podemos melhorar. Falavas do envolvimento dos núcleos ao nível da discussão de política educativa. Qual é o feedback que têm tido dos núcleos? Tem sido positivo, porque eles sentem que são parte disto. É completamente diferente dizer aos núcleos o que vamos fazer do que perguntar como é que vamos e o que vamos fazer. Mas também nos apontam as falhas e ajudam-nos a crescer nesse sentido. Uma das bandeiras do teu mandato era a ligação aos estudantes e uma política de proximidade. Consideras que isso se tem concretizado? Acho que ainda não a concretizamos como eu desejo. Estivemos muito bem a nível político e na defesa dos estudantes, a nível externo, mas falta esse trabalho, que é o contacto direto com os estudantes. Isso não se faz num dia ou numa semana, não se faz

com flyers nem com outdoors ou vídeos na internet. Faz-se pelo contacto e por ir falar às aulas, tentando angariar cada vez mais estudantes que queiram ter essa participação política, porque também é missão da AAC estimular a cultura e o pensamento político nos estudantes e, nessa parte, não estivemos tão bem. Mas não vejo isso como um falhanço porque a prioridade foi voltar a por a AAC como centro de informação e imagem de força. No que toca às ações reivindicativas desenvolvidas pela DG, consideras que elas têm sido consequentes e geraram um impacto? Começámos desde início por reivindicar o direito de sermos ouvidos. Realmente fomos ouvidos: pela secretaria de estado do ensino superior (ES), pela direção geral do ES e outras entidades. Se trás resultados práticos? Acho que não trouxe. Se tivéssemos feito mais poderia ter levado a mais? Duvido. Neste momento fazer mais, como por exemplo uma manifestação, não nos vai trazer mais resultados. Mas conquistámos um espaço na opinião pública que não tínhamos e tenho a certeza, neste

momento, que a tutela sabe que a AAC está fortemente crítica e reivindicativa. O vosso mandato ainda vai a meio. Consideras, no entanto, uma possível recandidatura em novembro? Acho que ainda é muito cedo para falar disso. Ainda não consigo responder porque preciso de ter um balanço do que realmente foi feito para perceber se posso dar mais à académica. Acho que a AAC precisa de estabilidade, mas não passa obrigatoriamente por uma recandidatura. Mas consideras que existem projetos que a DG tem que se efetivariam melhor com um segundo mandato? Ninguém sabe. Por muito boa ou má que seja esta DG a única coisa que se sabe, se houver uma recandidatura, é que poderá ser igual ou melhor, mas não creio que esses projetos dependam de uma recandidatura. Estou contente com o trabalho que tem sido feito, mas ainda não estou satisfeito, acho que tenho de provar muito mais e só depois disso é que posso pensar nessa questão.


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CulturA

O limbo mesquinho da morte cá

cultura por 5 a 29 JUNHO

“ExPlOrANDO NOvAs tENDêNCiAs” DE rui CArrEirA Exposição ccdd • 14h às 24h Entrada LivrE

26

JUNHO

“sANguE DO mEu sANguE” DE JOãO CANiJO

cinEMa aMscav • 21h30 1€ coM dEscontos

26 e 27 JUNHO

“PEquENA HistóriA trágiCO-mArítimA” tEatro taGv • 15h E 21h30 7,5€ coM dEscontos

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Até 13 de julho, na Casa da Cultura, está a nova peça da Bonifrates. “Os últimos dias de Emanuel Kant” busca a reflexão sobre a fragilidade do ser humano

Ana Duarte Quem pensa em Emanuel Kant pensa em genialidade. É um conceito indissociável de uma das grandes mentes da filosofia da época moderna. Pensemos agora no processo de envelhecimento de Kant. Nos seus últimos dias – os últimos 17, para se ser mais preciso. Em “Os últimos dias de Emanuel Kant”, a nova produção da Cooperativa Bonifrates, a decadência do génio é apresentada despida de grandes

aconchegos ou comodidades, num limbo de emoções mesquinhas e realistas perante a morte. Depois de “La calle del infierno”, a companhia começou de imediato em busca de novos trabalhos. A encenadora da peça, Sílvia Brito, explica que o grupo esteve “durante um período de cerca de mês e meio a ler várias peças, a ver as possibilidades”. E ver as possibilidades porque o grupo de teatro é composto por amadores, que fazem do teatro a sua segunda vida. “Mas são amadores especiais, que já têm uma grande experiência”, acrescenta Sílvia. Da autoria de Alfonso Sastre, “Os últimos dias de Emanuel Kant” não sofreu qualquer adaptação da parte do grupo para a encenação. “O texto foi cumprido na sua totalidade. Fizemos apenas um pequeno corte de uma cena, mas o resto foi mantido, tal como foi proposto pelo autor”, esclarece a encenadora. Acerca do

caráter interventivo que Sastre costuma demonstrar no seu trabalho, Manuel Castela, um dos atores, conta que vai ao encontro daquilo que é o trabalho da Bonifrates: “temos pautado o nosso trabalho por essas implicações de natureza mais social, por vezes também política”, sem descurar a problemática do envelhecimento e da morte, temas bem vincados em “Os últimos dias de Emanuel Kant”.

Da construção da personagem à concretização Para Alexandra Silva, uma das protagonistas, a construção da personagem “é um mito”. “A pessoa que lê o texto, percebe, mais ou menos, quem é que vai interpretar. Não se pensa à partida no que é que vai ser a personagem, ela vai-se construindo à medida que se trabalha”, explica. E a partir daí, o processo de montagem do espetáculo desenrolase naturalmente: do trabalho de en-

saios ao trabalho conjunto com os técnicos de som e luz, passando pela divulgação da própria peça. No final, há a estreia. “Correu muito bem, a casa estava cheia”, conta Sílvia Brito, fazendo a ressalva de que “o público de estreia é sempre um público especial”. “São pessoas amigas, que vão para dar força e apoio. E nós agradecemos”, acrescenta. Que as pessoas se sintam tocadas. Este será o principal objetivo da Bonifrates com este trabalho. “Apresenta-se um Kant num momento de plena decadência e fragilidade, contrariamente ao lado daquele Kant lúcido, com intelecto vivo, astuto e brilhante, que nós conhecemos da filosofia e da história” elucida Manuel Castela. E é através deste cenário que o público é mergulhado em reflexão sobre “a fragilidade do ser humano perante a morte, com um pouco de humor negro”, conclui a encenadora. Com Mariana Morais cedida pela bonifrates

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“ErA umA vEZ NA ANAtóliA” DE Nuri BilgE CEylAN cinEMa taGv • 21h30 4€ coM dEscontos

“Os últimos dias de Emanuel Kant” não sofreu qualquer adaptação da parte do grupo para a encenação.

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Em Coimbra ainda se canta a intervenção

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Numa sessão que se prevê intimista, recordam-se duas vozes importantes na luta pela liberdade. A 29 de Junho, Coimbra presta homenagem a Zeca e Adriano. João Valadão

“DOt.COm” cinEMa praia FLuviaL das torrEs 22h • Entrada LivrE

do

MondEGo

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JULHO

“tABu” DE miguEl gOmEs

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Por Ana Duarte

Um cruzar do que é memória com o que há-de vir, é um dos objetivos propostos para a homenagem que decorre na noite da próxima sexta-feira. “Cantar de Emigração” ou “Milho Verde” fazem eco no Parque da Canção, num relembrar de lutas que se apresentam cada vez mais atuais. A realização do espetáculo acaba por ser “uma repetição de um concerto que teve lugar há

pouco tempo em Lisboa”, esclarece o violinista da Brigada Victor Jara, Manuel Pires da Rocha. O músico, membro de uma das bandas intérpretes, esclarece que se juntou “um conjunto de pessoas que tinham afinidade com o Adriano Correia de Oliveira ou com o José Afonso” e que a homenagem resulta num “conjunto de abordagens mais diversas da música dos dois artistas”. Luís Lobo, do Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC), aponta a “ligação muito estreita dos músicos com Coimbra, com a universidade e com os estudantes”, como mote para esta celebração. No que toca à associação do SPRC com este evento, o sindicalista relembra que o próprio Zeca Afonso foi professor e que “há um conjunto de aspetos que se conjugam e que levaram à decisão de avançar”. A iniciativa é também um reflexo das lutas sindicais contra as

atuais políticas. “Há uma necessidade de voltar a erguer aquilo que é o ideário da democracia e da liberdade”, ressalta Luís Lobo. Manuel Pires da Rocha, que acredita que as canções de Zeca e Adriano estão atuais, lamenta que vivamos “numa conjuntura política de ataque àquilo que são os direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos”. Relativamente à memória dos dois músicos no imaginário português, parece haver um consenso entre os organizadores da homenagem. Um dos últimos músicos a acompanhar Adriano Correia de Oliveira, Paulo Vaz de Carvalho, esclarece que, em determinadas circunstâncias há “uma tendência para ir buscar lições do passado”. O músico tece duras críticas às rádios: “estas não prestam a devida homenagem”. Também Manuel Pires da Rocha reconhece que esta “não é a música que passa todos os dias”, mas que “há pes-

soas para quem a vivência destes valores é fundamental”. Numa perspetiva animadora, Luís Lobo aponta para o número crescente de “intérpretes novos que recuperam as letras e adaptam as músicas para aquilo que são novos ritmos e novas realidades”. A escolha dos artistas passou pela relação estreita entre estes e os homenageados. O sindicalista do SPRC explana que havia a necessidade de “vozes tão diferentes, da música clássica à expressão mais popular”. Manuel Pires da Rocha sublinha que os artistas partilham uma “pertença à mesma família estética, política e democrática”. Paulo Vaz de Carvalho reconhece que houve um cuidado em incluir “uma voz jovem” e que daí surgiu Mariana Alves da Costa. Inserido nas Festas de Coimbra, o evento conta com o apoio da Câmara Municipal de Coimbra e da Turismo de Coimbra.


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DEsPOrtO fernando sá pessoa

ana marques francisco

ana marques francisco

ana marques francisco

os campeonatos de pesca começaram em maio e duram até novembro deste ano

Secção de Pesca inicia competição A época de pesca desportiva teve início no final de maio e os torneios amigáveis começaram agora, de forma a preparar os atletas e angariar fundos para os clubes. A secção de Pesca da Associação Académica de Coimbra entra em várias competições, que duram até ao mês de Novembro, por todo o país. Por fernando sá Pessoa

E

m Penacova, o recinto de pesca começa a atividade organizada pelo clube local, em dia de prova amigável, por volta das oito horas da manhã. O silêncio percorre a margem, depois de montados os pesqueiros e, durante as três horas de competição, há pouco mais do que o chilrear dos pássaros. E há cheiro a carne que se vai cozinhando, atrás dos 94 atletas espraiados pela costa, e que anuncia a mudança de ambiente de concentração para o convívio. Do peixe para a carne, à beira do mondego. Belisário Borges é, atualmente, pescador de alta competição da Secção de Pesca da Associação Académica de Coimbra. Dedicase aos anzóis, aos iscos, ao engodo, aos “paniers” (suporte onde os atletas se sentam), à fuíz, às canas. Terminada a prova, e só aí, porque na meia hora antes de começar a pescar prefere estar sozinho e sem conversas, revê-se no peixe que recolhe e especula, com certezas científicas, que “o peixe não sofre. É um animal de sangue frio. Usamos anzóis ultra pequenos para não o ferir, que ficam só no tecido bocal”. “No fim, divertem-se todos sem estragar a natureza”, declara. Na verdade, na pesca de alta competição, os atletas são obrigados a devolver ao rio

todo o peixe e são desqualificados se mais de 10 por cento dele estiver morto.

Ioga para a pesca Entre a etapa em que se pesa e se atestam os escassos 40 gramas pescados por Belisário, que “tentava enganar um barbito para ver se resolvia o problema”, o também treinador fala na importância da concentração nesta

"O peixe não sofre, é um animal de sangue frio e nós usamos anzóis ultra pequenos" modalidade desportiva. Sem se alongar nas várias técnicas que afirma existirem, destaca, de entre elas, o ioga. Ioga para a pesca. “Talvez, no ano que vem, vá falar com a Secção de Ioga para nos darem uma ajuda”, revela. Depois, para além da concentração, todo o pescador tem de contar com o inesperado. O basquetebolista, diz Belisário, “está useiro e vezeiro naquilo que faz. Quase encesta de olhos fechados. Na pesca, uma das belezas é que

nunca temos a certeza de nada”. Dá como exemplo a mini-hídrica de Penacova, cabo da desordem que provoca enxurradas no rio. Antes de ser pescador, foi toda a transversalidade que se vê nas competições de pesca. Belisário foi estudante de direito, delegado de informação médica, dirigente de uma ‘IPSS’, trabalhador na área imobiliária, com passagem na guerra colonial. Armando Amaral, atleta do Clube de Pesca de Penacova, salienta que, mais do que as profissões, “é importante formar um grupo de amigos”. É dono de um gabinete de contabilidade, mas fala no talhante, no desempregado e no médico, todos pescadores. A propósito deste último colega, recorda a afirmação do mesmo, que dizia ser “pescador a tempo inteiro e médico em ‘part-time’”. É um desporto “apaixonante e competitivo”, garante. E, às vezes, também dá bons momentos. Um dia, recorda entre risos, “estava a pescar com o meu amigo Mateus, que usava um sombrero. A certa altura, não via Mateus, só via o chapéu. Até que ele voltou, para dizer que lá em baixo cheirava mesmo mal”.

Panorama competitivo “Em Portugal, a competição está muito desenvolvida”. Quem o diz

é Humberto Marques, presidente da Secção de Pesca da AAC, que só lamenta o desconhecimento desse facto. “Somos dos melhores a nível mundial, logo atrás de Inglaterra e Itália”. No contexto da secção, a Académica possui, atualmente, atletas nas divisões nacionais e nos regionais, seja em seniores ou veteranos. Na totalidade, são onze praticantes, dos quais nenhum,

"Em Portugal, a competição está muito desenvolvida. Somos dos melhores" neste momento, é estudante. Um número que só não é mais elevado, justifica Belisário Borges, “porque não há capacidade financeira para mais. E não existem universitários porque eles não são ricos”. Recentemente, depois do início da época desportiva, no final de Maio, as expectativas são precavidas. “A primeira fase foi desastrosa”, confessa Belisário, mas garante que tal se deveu às circunstâncias naturais. No entanto, o rosto do treinador abre-se num

sorriso quando se recorda o feito de 1992, ano em que a Académica foi campeã do mundo.

“Dos sete aos doze mil euros” José Ramalho está na prova de Penacova mas não aparenta tensão de alta competição. Fala das “trutas, robalos e carpas” com aparente calma, mas não é por isso que não trabalha para melhorar. Entre montagens, engodagens, calibrares de boias, ajustamentos de medidas de fios, dos anzóis, “50 por cento desse trabalho é feito em casa”, assevera. Metade do trabalho feito numa casa cujo frigorífico tem, na parte de baixo, isco. “Conserva-se ali durante uns 15 dias”, assegura. Mas tanto trabalho não dispensa custos monetários elevados. Diz quem percorreu margens por 30 anos e já pescou, certo dia, por engano, uma perdiz. “Temos de comprar iscos e farinhas, as canas são caras, e ainda há todo o equipamento”, afirma Ramalho. A título de exemplo, o presidente do Clube de Pesca de Penacova, Alceu Fernandes, aponta para investimentos entre os sete e os doze mil euros. “Basta uma cana com um fio e temos pesca. Mas para pescar bogas, a especialidade da zona, pode-se chegar a esses valores”.


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CidAdE

Uma Casa do e para o comerciante A iniciativa de alguns comerciantes da cidade agilizou um processo que se arrasta há dez anos. A Casa do Comerciante, “com fins altruÍstas”, revela-se uma rede para o comércio João Martins Ana Morais “É o que posso fazer pela cidade e não estar à espera daquilo que a cidade pode fazer por mim. A ideia aqui é despoletar”. Quem o diz é o comerciante Luís Quintans, “inspirado em Kant”, admite. A sua proatividade demonstra a preocupação com a situação atual dos comerciantes da cidade e, como tal, tem batalhado para erguer a Casa do Comerciante (CC), ao ser um dos

seus fundadores. O processo de criação da CC remonta ao ano de 2001, quando o Fórum Coimbra pediu licenciamento à Câmara Municipal de Coimbra (CMC). Segundo Luís Quintans, o vice-presidente da CMC, João Rebelo, era o presidente da Associação Comercial e Industrial de Coimbra. O que levou à proposta de uma contrapartida a fim de salvaguardar o comércio tradicional da cidade: ficou previsto em ata do executivo a “cedência de um terreno para a construção da CC”. Porém, passados dez anos, a CMC não tomou qualquer medida para avançar com o projeto.

Dificuldades económicas dos comerciantes Numa altura em que a crise económica se faz notar, os comerciantes da Baixa parecem ser um alvo fácil. A CC visa, então, o apoio social aos comerciantes que se deparam com

este tipo de situações críticas. O presidente da Associação para Promoção da Baixa de Coimbra e também dos fundadores da CC, Armindo Gaspar, dá a conhecer vários destes casos - “alguns comerciantes têm muitas dificuldades económicas, quer a pagar a renda de casa quer a pagar a alimentação”. Outro fator que preocupa os fundadores da CC é o facto de, em situação de desemprego, os comerciantes não terem direito a subsídio, o que Luís Quintans considera de “injustiça brutal”. Desta forma, a CC seria uma instituição “sem fins lucrativos e de cariz altruísta”, como classifica Luís Quintans. Para além de facultar ajuda monetária aos comerciantes em situações mais críticas, pode ser também “uma porta de abrigo para essas pessoas”, isto é, “um espaço onde pudessem ter alimentação ou habitação”.

O “arrastar” do processo “Se tivesse havido vontade política, isto já se tinha resolvido há muitos anos” refere, num discurso crítico, Armindo Gaspar, a fim de realçar o “arrastar” do processo. Tem sido a iniciativa de Luís Quintans que tem combatido este atraso. Em fevereiro passado, deslocou-se à Assembleia Municipal mas, apesar de ser bem acolhido, não houve desenvolvimentos. No entanto, a sua persistência fez com que em junho se deslocasse lá novamente. Desta vez, o único pedido foi a cedência de um espaço. Em jeito de ironia, Quintans assegura que todos os membros do executivo “mostraram um sorriso de boa vontade”, contudo, refere que “as medidas não passaram de palavras”. Ainda assim, Armindo Gaspar ressalva que este projeto já está sob a tutela do Gabinete de Inovação e Desenvolvimento Económico da CMC, dirigido por António Veiga Simão.

A Casa do Comerciante é já, na sua essência, uma verdade, dado que os estatutos já estão idealizados. Mas para completar o processo falta um espaço. Ainda assim, Luís Quintans assegura que esta ideia “vai avançar, quer a CMC ceda o espaço ou não”. Numa fase inicial, o projeto pode arrancar através de uma morada postal. Sem quererem fazer demasiadas exigências, os comerciantes preferiam que a Casa fosse na zona da Baixa, uma vez que “é o coração do comércio da cidade”, atenta Quintans. A nível de financiamento, a CC passaria pela quotização de todos os comerciantes aderentes, mas também por atividades de angariação como leilões ou pequenas feiras. O Jornal A CABRA tentou contactar o diretor do Gabinete de Inovação e Desenvolvimento Económico da CMC, António Veiga Simão, mas até ao fecho desta edição não foi obtida qualquer resposta. fotomontagem por Carlota rebelo

os fundadores da Casa do Comércio pedem à CmC a cedência de um espaço para avançar com o projeto, mas, até agora, ainda não obtiveram resposta

Como as repúblicas trilham a história da cidade As repúblicas integram o património de Coimbra. E mais do que paredes, são gentes com história e com vidas de partilha. Um trilho por estas casas deu a conhecer as suas vivências Ana Morais Que lugar ocupam as repúblicas na história da cidade? Que importância têm atualmente para Coimbra? No ano em que a cidade ultima os pormenores da sua candidatura a património mundial da UNESCO, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) quis responder a estas questões. Sem as formalidades de uma visita guiada e em jeito de Trilhos – nome dado ao passeio pedestre que o Museu organiza mensalmente – dáse conhecer a história esquecida de

vários locais de Coimbra. O último passeio levou famílias, jovens e investigadores a descobrir os caminhos de algumas das repúblicas da Alta. “As repúblicas são mais que património material. São património imaterial”, atenta a investigadora do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX e guia deste trilho, Teresa Carreiro, ao alertar para o peso que estas instituições têm na candidatura da Alta a património. Contudo, os riscos que as repúblicas enfrentam com a Nova Lei do Arrendamento Urbano (NRAU) foram várias vezes apelidados de “ameaças” para as mesmas. Segundo Teresa Carreiro, a importância destas casas para a história da cidade reside, essencialmente, na “enorme luta de oposição ao Estado Novo”. Lutas “encabeçadas” por alguns repúblicos de Coimbra. Com várias publicações sobre este tema, a investigadora realça a importância que o verbo “aprender” tem para os que escolhem este caminho.

Mas começa o trilho. A República dos Galifões é a primeira paragem. De porta aberta, os repúblicos evidenciam a sua hospitalidade, contam e mostram tudo, até os quartos menos arrumados. Dina Veríssimo, república dos Galifões, garante que “ainda é mais barato viver” nestas casas, devido aos apoios dos Serviços de Ação Social da UC e à ajuda “muito significativa” da Associação Académica de Coimbra. Uns passos mais à frente, na Rua das Matemáticas, estão já à porta os repúblicos da Kuarenta. Para receber os passeantes: chá, água fresca e até um bolo. Mais confortados, a visita prossegue, e depois de muitas escadas, chega-se mesmo até ao sótão. Entre os visitantes escuta-se: “esta está mais arrumadinha”. Ao que, entre um sorriso, o repúblico Diogo Duarte responde: “foi só hoje”. Segue o passeio. A próxima paragem é a República Rás –Teparta. Aqui o protesto contra o NRAU é evidente com uma grande faixa que enfeita a

fachada. Por aqui viveu, durante três anos, Adriano Correia de Oliveira, na altura Rás-Narciso. Na sala, o lema da casa é visível – “O arroto é livre e a Rás-Teparta é eterna”, o que pretende simbolizar a liberdade de expressão, como salienta o repúblico Luís Nunes. A visita termina com mais uma prova de hospitalidade – um convite para um almoço ou jantar. “Não venham é todos ao mesmo tempo”, brinca Luís Nunes. Mais abaixo, perto da Sé Velha, a paragem é na República dos Kágados. Nesta casa, era frequente encontrarem-se Zeca Afonso ou José Mário Branco, garante Teresa Carreiro. Para ressalvar a ideia de partilha e comunidade, os Kágados contam que tudo é partilhado. Até a comida da cadela Guida “é paga por todos”. Depois destas espreitadelas a quatro repúblicas da Alta acaba o percurso. “Estas foram autênticas escolas de vida”, conclui Teresa Carreiro. Termina o trilho, mas os passeios podem seguir-se.

ana morais


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CiêNCiA E TECNOlOgiA d.r.

Descoberta arte rupestre mais antiga da Europa A gruta de El Castillo é o local onde se encontra a pintura rupestre mais antiga da Europa. A investigação coloca o Homem de Neandertal na autoria das pinturas e altera conceções da evolução humana Filipe Furtado

em espanha encontra-se a imagem mais antiga do paleolítico

Um novo estudo apresenta evidências de que a arte pré-histórica começou há mais dez mil anos do que até agora era conhecido. Os resultados mostram que esta forma de expressão artística era já habitual quando o Homem de Neandertal pisava a Terra. A gruta de El Castillo, no norte de Espanha, é agora o local onde se pode encontrar a imagem rupestre mais antiga da Europa, com mais de 40 mil anos, depois de o estudo ter sido capa da última edição da revista “Science”. A descoberta tem crivo português, com a participação do arqueólogo João Zilhão, investigador da Universidade de Bristol. A equipa de investigadores analisou 50 pinturas paleolíticas de 11 grutas em Espanha, nas regiões das Astúrias e Cantábria, utilizando a técnica radiométrica com urânio e tório. Até agora, a imagem rupestre mais antiga da Europa estava identificada na gruta Abri Castanet, em França. João Zilhão explica que em Espanha as datações mais antigas de arte rupestre em grutas rondavam os 18 mil anos, enquanto que os registos em França indicam pelo menos 35 mil anos de existência, e,

em Portugal, o Vale do Côa possui gravuras com 25 mil anos. Esta discrepância cronológica é o ponto de partida para a investigação. “Em Espanha, a coisa parecia ser mais recente. Havia duas hipóteses: ou porque realmente o fenómeno era mais tardio nessa zona, ou porque ao utilizar o método de rádio-carbono estávamos limitados à datação de pinturas feitas a carvão”, explica o arqueólogo. As pinturas feitas com pigmentos minerais, como o ocre vermelho ou o ocre amarelo, não podiam ser datadas, apesar de serem as mais antigas. A inexistência de ferramentas que permitissem datar os motivos rupestres revelou-se o verdadeiro problema. Construir uma cronologia para pinturas de pigmentos minerais implica datar a calcite, formada pela escorrência de águas que cobre as pinturas, do mesmo modo que se formam estalactites e estalagmites. Também é possível o contrário, isto é, gravuras desenhadas sobre as crostas de calcite. “Se a calcite está por cima, a idade da calcite é idade mínima, se está por baixo, a idade da calcite é a idade máxima que a pintura pode ter”, explica o investigador. O método radiométrico de datação de urânio-tório é muito preciso. A técnica nunca antes foi aplicada neste género de vestígios arqueológicos, pois os métodos tradicionais necessitam de amostras muito grandes. A Universidade de Bristol desenvolveu, entre 2003 e 2006, uma técnica que permite datar amostras muito pequenas, na ordem dos miligramas. “A conclusão que se tira é que esta coisa de pintar ou gravar nas paredes, pelo menos dentro de grutas, é um fenómeno mais antigo da cultura humana do que se pensava, há mais de 41 mil anos”, afirma

João Zilhão, ressalvando que existe um lapso temporal entre a execução da pintura e a formação de calcite – a idade real do motivo pode ser de 43, 44 ou 45 mil anos. “O que é interessante também é que os nossos resultados parecem indicar que nesta fase mais antiga da pintura só se fazem desenhos abstratos ou geométricos, juntamente com as mãos em negativo”, refere o docente da Universidade de Bristol. As típicas figuras de bisontes e veados, pelas quais a pintura paleolítica é mais conhecida, são mais recentes. As gravuras mais antigas remetem para uma época onde só existiam Neanderthais, portanto, tudo indica que tenham sido eles os pintores. João Zilhão destaca que as conceções da evolução humana que colocam o Homo neanderthalensis como um “espécie de primo afastado”, ou como um espécie diferente, perdem lógica. Essas conceções baseiam-se na suposta diferença entre Neanderthais e Homo sapiens de origem africana pelas capacidades cognitivas, com o pensamento simbólico, ou a falta dele. Os resultados do estudo somam-se às evidências genéticas e fósseis do Homo neanderthalensis, que provam que a diferença anatómica não é significativa, embora não deixem de ser Homo sapiens. Os próximos passos da investigação passam por estender a amostragem não só a Espanha mas também a Portugal, Itália e França, para tentar obter resultados mais antigos. A equipa de investigadores pretende perceber até onde esta técnica de urânio e tório pode chegar e arranjar resposta para a grande questão sobre a arte paleolítica: “quando é que começou exatamente”, finaliza João Zilhão.

Fazer da Ciência uma notícia percetível para todos O iiiUC tenta colmatar possíveis falhas de comunicação dos investigadores aos media com um workshop que já vai na segunda edição Paulo Sérgio Santos Realiza-se nos próximos dias 26 e 27 de Junho o segundo workshop “Comunicar Ciência através dos Media”, organizado pelo Instituto de Investigação Interdisciplinar (III) da Universidade de Coimbra (UC), em colaboração com o Centro de Es-

tudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20). “Os investigadores não têm, normalmente, as ‘skills’ de transmitir a sua informação; não foram, por exemplo, treinados para falar em televisão”, começa por referir Cláudia Cavadas, diretora do IIIUC. Paulo Gama Mota, docente do Departamento de Ciências da Vida da UC, explica que os cientistas estão essencialmente “habituados a comunicar entre si e a utilizar uma linguagem que é característica”. Todavia, a investigação que se faz em ciência deve sair, deve ser partilhada com outros agentes. Daí a importância e o objectivo deste workshop, nas palavras da diretora do IIIUC, “tornar os investigadores mais eficientes na comunicação escrita

e falada com o público e com os media”. Essa falta de eficiência prende-se, muitas vezes, com o “conseguir explicar ao jornalista, em termos simples e claros, o que se está a fazer e qual a relevância e como antecipar aquilo que poderá vir a ser uma falha de interpretação do jornalista”, afirma Paulo Gama Mota.

Participação do CEIS20, RTP eUCV Para permitir aos investigadores uma melhor interacção com os jornalistas, dando-lhes as ferramentas necessárias para a divulgação dos seus trabalhos, o III conta, na segunda edição deste workshop, com a colaboração do CEIS20 (depois de na primeira ter participado o Centro de Neu-

rociências e Biologia Celular) e de nomes da área jornalística e científica como João Figueira, Carlos Fiolhais, António Granado e José Manuel Portugal, sendo os dois últimos integrantes dos quadros da Rádio Televisão Portuguesa (RTP), entre outros. Entre os diversos módulos que preencherão a totalidade do primeiro dia e a manhã do segundo, destaque para “Questões de linguagem”, onde se abordará a linguagem da comunidade científica no relacionamento com os media. No módulo “Comunicar Ciência: porquê?” coloca-se a questão de quando é que a Ciência é notícia. Cláudia Cavadas é célere a definir que “a Ciência tem que ser notícia quando tem qualidade suficiente para ter gerado uma comunicação

científica”, a que o público, usualmente, não tem acesso, existindo uma “obrigação perante os contribuintes e a sociedade em geral” de o fazer. A UCV, televisão web da UC, dá o apoio técnico. “Como este workshop é prático, tem filmagem dos investigadores a falar e depois os formadores vão criticar e melhorar a forma de comunicar”, demonstra a diretora do Instituto de Investigação Interdisciplinar. O sucesso do workshop, esse, já está garantido pela quase totalidade de preenchimento das inscrições disponíveis. Cláudia Cavadas afirma ainda que há “inscritos vindos de vários pontos do país, como Trás-os-Montes, Aveiro ou Lisboa, para além de, obviamente, Coimbra”.


10 | a cabra | 26 de junho de 2012 | terça-feira

mostra de teatro

Um discurso polifón volta do teatro univ De 10 a 14 de julho vai-se realizar a primeira edição da Mostra de Teatro Universitário no TAGV, com os grupos da cidade. Juntámos seis vozes dos quatro grupos: Joana Santos (TEUC), Anabela Ribeiro e Patrícia Antunes (CITAC), Sara Leitão e Catarina Alves (GEFAC) e Nélson Ferreira (Thíasos). Uma conversa à volta do teatro universitário em Coimbra, das suas dificuldades, dos seus anseios e das suas especificidades. Um discurso polifónico de quem faz do teatro suor. Por João Gaspar Onde é que fica o teatro universitário? É amador ou pré-profissional? Joana – O teatro universitário está no meio do que é o teatro amador e o profissional. Não temos este lado amador de fazermos quando queremos, mas acaba por não ser profissional porque os actores não recebem dinheiro. Anabela – O Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC) é como o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) nesses termos. Não é o profissional, mas também não é amador na medida em que tenta ser profissional pelo rigor que apresenta. Acho que já é o próximo passo para o profissional. É o comprometer e fazer. Nélson –O Thíasos, acima de tudo, serve como formação para quem lá passa. Catarina – No caso do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC), é diferente porque não é um grupo de teatro, ao contrário dos outros aqui presentes. O grande objectivo do GEFAC é dedicar-se ao estudo e divulgação da cultura popular portuguesa e fazemo-lo em várias vertentes. No que diz respeito ao teatro, temos a mesma preocupação em seguir uma linha rigorosa. Mas, se tivesse que nos definir, não andaríamos muito longe do amador, porque temos ao mesmo tempo muitas

das características dos amadores. Desde logo o voluntarismo, a descoberta em equipa, e, nesse domínio, somos claramente amadores dramáticos. [risos] Sara – O que caracteriza o teatro universitário é esta componente formativa de que o Nélson estava a falar, esta obrigação de chegarmos aos estudantes e educá-los para o teatro, mas por outro lado, este experimentalismo que é transversal. O ser amador dá-nos essa liberdade de errar e de fazer disparates a torto e a direito. Uma escola do faz tudo.

Eu sinto que às vezes isso afasta algumas pessoas do grupo… Joana – Às vezes assusta! Não são só aquelas quatro horas de ensaio para fazer teatro. Se for preciso limpar o chão, limpa-se o chão, se for preciso fazer um relatório de contas, faz-se um relatório de contas. É um trabalho que ninguém vê mas é necessário. Anabela – Fazemos tudo!

Sara – Não é uma coisa que é dispensável nas nossas vidas. Acho que nenhum de nós dispensa este tempo… Há outras áreas da minha vida em que me quero focar, mas espero nunca abdicar desta actividade. Anabela – Uma pessoa gostava de investir mas Portugal não deixa… É complicadíssimo.

Nélson – Para o nosso grupo é muito complicado. E a maior parte das limitações não são técnicas, mas sim de tempo - questões de disponibilidade imediata ou incondicional, porque neste âmbito é complicado ter esse tipo de disponibilidade. Patrícia – Temos todos os nossos cursos, há quem trabalhe, temos os nossos ensaios diários, temos trabalho de produção, de direcção, testes, exames... Às vezes não há tempo para tudo. Catarina – Óbvio que, por vezes, é mais complicado, porque os grupos cada vez têm menos gente [todos anuem]. Parte das pessoas que entram têm alguma dificuldade em assumir o compromisso de ter que estar.

que têm que ficar e que também têm que tratar de coisas burocráticas e chatas… Patrícia – Saem logo. Anabela – Fica quem quer mesmo. Joana – Às vezes nem é uma questão de não quero. É acabarem o curso e terem que ir para a sua cidade. Anabela – Os jovens querem passar rapidamente de uma coisa para outra.

tados - temos que readaptar tudo. Joana – Apesar de assustador, é benéfico no sentido em que não fica estagnado. Não há vícios. É sempre positivo quando entram novas pessoas, com novas ideias, com um espírito diferente. Anabela – Essa fase de transição é que é mais difícil. Quem se quer ir embora não deve desaparecer. Uma pessoa entra, vai seguindo os passos, mas é preciso alguém que já tenha estado lá… Sara – A rotatividade é essencial ao teatro universitário. É uma característica sua! Teremos sempre que viver com ela, dá dinamismo.

O fluxo natural de Notam que há cada pessoas em Coimbra vez menos gente a é benéfica para os querer participar grupos? É complicado manter neste tipo de grupos? Catarina – Às vezes é muito complio compromisso de ter Anabela – Sim, e mesmo que entrem cado. Temos uma equipa sólida, consisuma programação com aquele fascínio de fazerem um tente e de repente desaparece. E ficamos regular? curso de teatro, quando se apercebem só com cinco pessoas, muito mais limi-

Alguém daqui quer viver do teatro ou encaram isto como um passatempo?


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mostra de teatro

ónico à versitário Catarina – É um jogo - uma tensão entre haver quem assegure a continuidade e quem dê renovação. Sara - E é giro como é que, com tanta rotatividade, todo o grupo mantém a sua cultura e identidade. As pessoas mudam, mas há claramente uma identidade que fica de geração em geração.

Quais é que são as maiores dificuldades no teatro universitário? [silêncio] Catarina – Financiamento, que é transversal a toda a cultura portuguesa. Infelizmente, estamos numa época em que se entende que a cultura é algo em que não vale a pena investir. E obviamente que o financiamento é importante para tudo. Somos obrigados a ter muita criatividade para fazer muito com pouco. Nélson – Temos que dar azo à criatividade, mas a criatividade não consegue criar uma lâmpada de um projector ou arranjar uma coluna. Joana – Também sentimos o problema do financiamento. Mas também temos muitos problemas com as infra-estruturas. No sítio onde estamos, nem sempre sentimos que é acarinhado por pessoas que coabitam nesta associação. Acho que às vezes há um desrespeito pelos organismos que estão na associação. Tornou-se num bar, numa discoteca, já não é dos estudantes, é dos frequentadores do bar… Sara – É dos que pagam. Joana – Num dia de ensaio, chegamos e temos a porta arrombada, ou vómito à frente da porta, a música do bar começar às 23h00 e nós com ensaio até à meianoite.

Sentem-se desrespeitados? Nélson – Falta respeito de quem devia ter respeito.

Dos próprios estudantes? Nélson – Pelo menos não connosco. Principalmente das pessoas que beneficiam da actividade estudantil, desta imagem que estas associações têm e transmitem. Sara – Por parte dos estudantes há indiferença… Anabela – Não fazem ideia, é ignorância. Há pessoas que sobem aquelas escadas todos os dias e ainda me perguntam onde é o CITAC. Não querem saber…. Joana – O desrespeito vem das pessoas que estão à frente da Associação. Da direcção-geral da Associação Académica de Coimbra (AAC), da parte da cultura, ligam-nos a perguntar: “daqui a uma semana podem apresentar um teatrinho?”. [risos] Catarina – O próprio meio também favorece o distanciamento. Se nós chegamos aos jardins da AAC e passamos por uma lata insuflável duma marca de cerveja, com um boneco em cima, um ecrã a passar imagens de não sei o quê, depois dois carros no meio da relva, ao lado direito temos um lençol a fazer publicidade ao licor nacional, na sala de estudo há anúncios a tapar a sala! Na sala de estudo! Depois o Intocha a bombar música. Isto é uma associação vocacionada para a cultura? Anabela – Isto é uma associação que já não é para estudantes. É para a diversão. Patrícia – É muito estimulado este lado da bebida, música e discoteca. Fica descurado o resto. O que é que se passa aqui em cima? O que é que há? Joana – Nós somos o caminho para a casa de banho. [risos] Nélson – As pessoas que chegam cá e não têm qualquer tipo de predisposição para este tipo de actividade, dificilmente vêem uma porta a dizer TEUC, CITAC… e outra a dizer bar da associação, dificil-

mente escolhem o TEUC ou o CITAC. Catarina – E temos dificuldades de fazer passar a mensagem. Há tanta publicidade… Vale a pena ainda fazermos cartazes? Mailing list? Publicidade direccionada? Facebook? Nós tentamos tudo, mas cada vez mais quem vem às nossas iniciativas é quem está interessado e procura. Joana – Acaba por ser um círculo de pessoas que já se conhecem.

A própria descaracterização do espaço pode levar a uma diminuição do público. Dantes enchiam-se o Teatro Avenida, os jardins da AAC… Notam que há menos público agora? Catarina - Não é de haver menos público… Sara – Mas são sempre os mesmos. Catarina – Os suspeitos do costume. [todos concordam] Nélson – Quando vemos qualquer espectáculo, nem precisa de ser de teatro universitário, estão lá sempre as mesmas pessoas na bancada… Há que mostrar que vale a pena ver outro tipo de actividades. Mas é muito difícil. O Thíasos vai à Bobadela (Oliveira do Hospital), e tem 200 pessoas, e depois vamos aqui ao Museu Machado de Castro e juntamos 50, que estavam já programadas. Tínhamos cartazes, facebook… tudo… mas é isto que acontece.

Em jeito de provocação, porque ainda vale a pena par-

ticipar e ver teatro universitário? Patrícia – Por tudo! Estamos continuamente a aprender. Aprendemos enquanto actores, aprendemos na técnica, na produção, aprendemos a gerirmo-nos enquanto grupo, conhecemos gente, aprendemos a resolver situações. As pessoas devem estar integradas em actividades deste género. Desenvolve-se muita coisa a nível pessoal. Nélson – No teatro perde-se o desconforto, o desconforto para com nós mesmos… E isso é tão importante! Anabela – Também perceber que todos temos potencial para criar alguma coisa e há aquele preconceito: uma pessoa parece que cresce com medo de fazer alguma coisa. Além de puxar esse lado pessoal, puxa o lado criativo que todos temos e que precisamos de ter. Catarina – Há aqui uma liberdade de expressão, de criatividade que dificilmente encontramos noutro contexto. Sara – Falta falar um bocadinho de porque é que o público deve vir ver o teatro universitário. Porque acho que isso tem que ficar lá bem chapado [risos]. Acho que é uma oportunidade de verem teatro que pode ser mais arrojado e mais genuíno. Porque somos pessoas normais e estamos ali cheios de amor pelo que estamos a fazer.

Entrevista na íntegra e artigo “Olhares à volta do teatro académico por quem o vive e viveu” em

@

acabra.net


12 | a cabra | 26 de junho de 2012 | terça-feira

PaíS fotomontagem por carlota rebelo

O aborto foi despenalizado no ano de 2007 e agora o CDS/PP propõe a aplicação de uma taxa moderadora

“Não pretendemos reabrir a discussão em torno da despenalização da IVG” O CDS-PP propõe a aplicação de uma taxa moderadora ao ato médico despenalizado em 2007. Há quem advogue contenção de custos ou maior planeamento familiar Liliana Cunha Em 2011, registaram-se 19 802 interrupções voluntárias de gravidez (IVG) até às dez semanas por opção da mulher. A aplicação de uma taxa moderadora ao procedimento médico é, em 2012, proposta por um dos partidos da tutela governamental. A deputada parlamentar do CDS-PP, Teresa Caeiro, admite que o partido toma d.r.

esta medida porque “existe uma isenção universal de pagamento da IVG que não se encontra em outros atos médicos”. No entanto, a própria definição de taxa moderadora pode deixar algo a desejar: “é um absurdo chamar-lhe taxa moderadora porque certamente não se vai moderar a IVG através de uma taxa”, defende o bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva. Ainda assim, o bastonário é a favor da denominação de copagamento pois a IVG “não é um cuidado básico de saúde”. Advoga por isso a existência do copagamento mas que tenha como base “critérios sociais”, tal como em outras taxas. Esta questão é, para José Manuel Silva, de maior importância. “Não pretendemos, de modo algum, reabrir a discussão em torno da despenalização da IVG a pedido porque a matéria foi sub-

metida a referendo e legitimada pela população”, afirma Teresa Caeiro. O aborto até às dez semanas despenalizado em 2007 por referendo é um tema sensível. Foi já alvo de referendo na década de 90, onde venceu o não por uma margem de um por cento. O partido quer que exista equidade e justiça na aplicação destas taxas: “por que razão se aplica a consultas de especialidade ou cirurgias como remoção do apêndice, fraturas, hérnias ou tumores e a IVG a pedido está isenta?”, questiona a deputada. “Defendemos cuidados de saúde gratuitos, universais e de qualidade. Rejeitamos a mercantilização da prestação de cuidados de saúde, nomeadamente de saúde sexual e reprodutiva e portanto recusamos a taxação da IVG”. Assim escreve a direção da UMAR (União das Mulheres Alternativa e Res-

posta) num documento divulgado a nove de maio sobre o aborto em Portugal. A recusa em aceitar a taxação da IVG prende-se também com o relatório apresentado pela Direção Geral de Saúde sobre o aborto no presente ano. Não admitem que os dados sejam “enviesados ou lidos de forma distorcida por conceções ideológicas com objetivos de colocar em causa a liberdade das mulheres em decidir sobre a maternidade”.

Evolução e consequências da conjuntura O aumento do número de IVG em 2011 é inferior ao verificado nos anos anteriores. Para a UMAR é um sinal positivo pelo momento em que se lançam “cada vez mais mulheres para a precariedade, baixos salários, pobreza”. Para Teresa Caeiro, “tudo o que signifique um decréscimo efetivo de IVG a pedido

é de assinalar como positivo”. Todavia para o bastonário da Ordem dos Médicos, “não há explicação para que haja, excetuando situações como por exemplo de violações ou algum falhanço preventivo, tanta gravidez indesejada”. “Ter filhos é cada vez mais uma possibilidade só para algumas pessoas”, alerta a direção da UMAR. A falta de condições económicas para constituir família ou aumentar a já existente é evidente. Em 2011, nasceram cerca de 97 mil bebés, mas a IVG é cada vez mais uma realidade no contexto atual. “O que é necessário é que haja educação para a saúde, planeamento familiar correto e uma consciencialização dos cidadãos para que se quiserem evitem a gravidez, porque há métodos suficientes para o fazer, salvaguardando algumas exceções”, assinala José Manuel Silva.

Fatores sociais intervêm na carga horária laboral O estudo de dois investigadores da FEUC “tem potencial” para ajudar a perceber os fatores e as implicações de um aumento nas horas de trabalho nas pessoas Liliana Cunha “Estamos no campo das ciências sociais, portanto, de um único estudo não podemos estar à espera que resultem logo implicações práticas”, sustenta o investigador do

estudo sobre a relação entre o trabalho e o bem-estar, Filipe Coelho. A pesquisa de dois investigadores da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) fica reconhecida por ter analisado a ligação entre a ideologia política e o trabalho. A conclusão é clara - a relação negativa não era exatamente igual para todas as pessoas. Em particular, as pessoas que são da ideologia de esquerda sofrem mais com o aumento das horas. Filipe Coelho e Maria da Conceição Pereira pretenderam analisar os dados de 24 países que são disponibilizados por um projeto europeu. Com uma amostra de 34 mil pessoas, não quiseram analisar o

caso nacional em específico, mas sim encontrar uma cadeia sistemática entre a relação que se estabelece entre o trabalho e o bem-estar: “havia estudos que não encontravam relação nenhuma e outros que encontravam uma relação negativa”, garante o investigador. Assim, conseguiram verificar que vários fatores se interpunham nesta relação e todos sofriam com o aumento laboral. Quer fossem “pessoas que têm mais idade, mulheres, pessoas com problemas de saúde, ou quem esteve desempregado por longos períodos de tempo”, sustenta o docente da FEUC. Poderão parecer conclusões de senso comum, mas Filipe Coelho acredita

que este e outros estudos relacionados com o tema “têm potencial para se traduzirem em alterações nas práticas das organizações.” A diversidade de profissões e estatutos laborais que vai de profissionais liberais a operários, será um dos próximos temas a estudar, para perceber a sua influência no trabalho. Quanto aos dados continuarão a ser europeus pela possibilidade de maior generalização. Filipe Coelho afiança que o contraponto com a situação nacional é “uma questão em aberto”. O estudo encontra-se publicado numa revista que publica resultados relacionados com a qualidade de vida - a Social Indicators Research.


26 de junho de 2012 | terça-feira | a

cabra | 13

MUnDO d.r.

“na sociedade romena há demasiados silêncios e a questão perturbadora é essa”, afirma Sousa ribeiro

Transição democráTica

Os silêncios que incomodam a Roménia a Roménia e o período de transição para a democracia iniciado na “Revolução de 89” foi o ponto de partida para a conferência realizada no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra: o desvanecimento na sociedade atual romena de um passado ditatorial comunista e o evitar da sua discussão Por antónio Cardoso

“A

parentemente, na sociedade romena, há demasiados silêncios. E a questão perturbadora é essa”, alerta o professor catedrático do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, António Sousa Ribeiro, ao passo que defende ser o trabalho da democracia o “fazer falar esses mesmos silêncios e não deixar que se instalem.” Considerando por isto o tema da transição democrática “absolutamente central para as sociedades da nossa época”, o também interlocutor da conferência “Coming to terms with Dictatorial Past: Lessons from Romania”, Sousa Ribeiro justifica o porquê da problemática da Roménia ser agora discutida. Aborda-se a democracia, a configuração de regimes políticos e, acrescenta, “neste caso, particularmente, de como é que se transita de uma ditadura para uma democracia e quais os meios de construção de algo diferente.” A conferência, promovida pelo Núcleo de Estudos sobre Democracia, Cidadania e Direito (DECIDe) teve lugar no Centro de Estudos Sociais (CES) da Univer-

sidade de Coimbra no passado dia 22, e encontra-se inserida no ciclo de eventos “Processos de memória política: Roménia e Portugal em diálogo”. Coorganizada pelo CES, pelo Instituto Cultural Romeno e pela Fundação Mário Soares, a sessão teve como convidado o historiador e membro do Conselho Nacional para o Estudo dos Arquivos de Securitate em Bucareste, Adrian Cioflâncă.

“Uma história oficial não trata de criar ou pensar em pensamentos unanimistas” Um processo de transição na Roménia que, segundo Sousa Ribeiro, se revelou “extremamente problemático”. Sendo a democracia parlamentar romena construída, em parte, por pessoas implicadas no regime comunista de Ceuasescu, este facto acabou por trazer para a atualidade problemas sociais e políticos, como o antissemitismo. Uma vez reunido o consenso face a uma transição

mal sucedida, o tema merece reflexão no panorama da sociedade romena.

O regime comunista nas décadas de 60, 70 e 80 No entanto, é importante contextualizar que, nas décadas de 60 e 70, o regime comunista instalado no país era visto com contentamento: “as pessoas focavam-se mais nas suas vidas e o próprio regime colocava menos pressão na sociedade”, declara Adrian Cioflâncă. Duas décadas que reportam a um sentimento de nostalgia. Em pelo menos metade da população romena, que “foi diretamente beneficiada pelas medidas de modernização tomadas pelo governo”, acrescenta o historiador. Em contraponto, os anos 80 apresentam uma mudança, revelando-se problemáticos, a partir do momento em que “metem o acento de novo na ideologia”, diz Cioflâncă, sendo atribuído um carácter especialmente inaceitável nessa altura. Todavia, a verdade é que apenas uma minoria assume ter sofrido uma repressão direta e violenta, diz ainda. Um outro ponto explorado trata da criação de comissões como a

The International Commission on Holocaust in Romania (de 20032004) e a The Presidential Commission for the Analysis of the Communist Dictatorship in Romania (de 2006), destinadas a documentar o envolvimento nas políticas e métodos terroristas utilizados pelo regime comunista ditatorial contra a sociedade. Em geral, os relatórios finais das duas comissões ofereceram terreno para reconhecer a participação da Roménia no Holocausto e a condenação simbólica da ditadura comunista. Na opinião da também coordenadora do DECIDe, Iolanda Vasile, é importante e fundamental “trazer à luz um passado recente e desenterrar certos acontecimentos que se sucederam há quase 23 anos”.

“Não queremos uma história oficial” O facto de os órgãos internos romenos não possuírem uma história oficial sobre o seu passado comunista, particularmente sobre o período da “Revolução de 1989”, remete para uma outra problemática: a de não haver uma memória pública que possa ser partilhada. “Essa memória pública só pode

surgir quando houver um espaço de discussão aberto que passa por muitos aspetos, inclusive pela questão da educação”, assegura António Sousa Ribeiro. Por outro lado, Adrian Cioflâncă acredita “ser benéfico” para os romenos o “choque de diferentes interpretações de memórias”, ressalvando por isto não quererem “uma versão única do passado e de como as coisas aconteceram antes de 1989. “Não queremos uma história oficial”, certifica Cioflâncă. Sousa Ribeiro contrapõe, defendendo que uma “história oficial não trata de criar ou pensar em pensamentos unanimistas”.

Espaço público de discussão A presença de “um espaço público de discussão livre e de partilha” e o “papel dos intelectuais na sociedade” é visto como “fundamental” para António Sousa Ribeiro. Para Adrian Cioflâncă, “o discurso dos intelectuais públicos é muito normativo no discurso do passado”, o que resvala numa “perspetiva ética de condenar e criticar a altura em que não havia liberdade de todo”. com Maria Garrido


14 | a cabra | 26 de junho de 2012 | terça-feira

Cinema

Artes

uma bela orgia à “Moda Antiga ” de ALex GreGoGy e Peter Huyck Com JAson sudekis tyLer LAbine 2012

Você sabe o que é bacanal?

ver

CrítICa de FábIo rodrIgueS

S

alaviza não gosta de unanimidades, gosta de discussão. o brilho chegou-lhe em 2009 com a Palma de ouro ganha em Cannes, tinha então realizado “arena”. até hoje a sua maior conquista, é, de facto, a mais interessante das três curtas que integram este dvd. Um retrato de um Portugal um pouco desconhecido, a película, à semelhança das que lhe seguiram, retrata a realidade social dos bairros da Grande lisboa. Mauro vive em prisão domiciliária e passa o tempo na arte de tatuar. Três putos vândalos assaltam-lhe a casa e roubamlhe uma elevada quantidade de dinheiro, o que leva Mauro a abandonar a habitação na busca pelo dinheiro perdido. o final é

a

o contrário da actividade recreativa que o título refere, o enredo de "Uma Bela orgia À Moda antiga" é bastante simples: Eric (Jason Sudekis, Patrões Horríveis) lembra-se de fazer um bacanal. Como tal, lança o convite aos seus amigos, um grupo de trintões que, desde os tempos do liceu, promovem as mais inusitadas festas numa casa de férias nos Hamptons. Pelo meio, surge o pai de Eric, que pretende vender o imóvel. de resto, é essa emocionante possibilidade que leva o protagonista a insistir na realização do dito certame – para a despedida, nada melhor que uma memorável, épica e lasciva festividade. inicialmente relutantes, os privilegiados que receberam o convite vão cedendo, um a um e pelas mais diversas razões. E assim se passa grande parte do filme. Fim de relacionamentos, despedimentos, falta de afirmação. Tudo razões mais que plausíveis para uma

bela orgia à moda antiga, ainda que o desenvolvimento das justificações pessoais de cada um dos personagens seja bem menos emocionante que as imagens que o conceito normalmente nos despoleta. o filme marca a estreia de alex Gregory e Peter Huyck no mundo cinéfilo, e logo na dupla condição de argumentistas e realizadores. até aqui, o duo esteve confinado ao pequeno ecrã, sobretudo como escritores para programas como o "late Show com david letterman" ou para séries cómicas como "King of the Hill". E se de comicidade falamos, uma coisa é certa, o humor de "Uma Bela orgia À Moda antiga" não participaria no bacanal: é seco, superficial e de difícil encaixe – se bem que, por vezes, é tão bruto que magoa. Fiel à sua "alma Mater", Jason Sudekis bafeja o personagem principal com uns ares da escola "Saturday Night live". No geral, a

performance do elenco roça o inócuo, chegando mesmo, em certas alturas, a fazer-nos menear a cabeça em tom de desaprovação. Contudo, seria difícil fazer melhor com protagonistas mais bidimensionais que um pedaço de película aderente. destaca-se, ainda assim, Tyler labine (Planeta dos Macacos: a origem) ao representar praticamente o mesmo personagem que na série "Reaper" que, por vezes, nos arranca um sorriso, sobretudo pelo humor físico. Se, depois de uma primeira leitura, o título deste filme nos pode remeter para as estantes mais altas dos clubes de vídeo ou para sessões de cinemas em ambientes alternativos, engane-se quem pensar que o paralelismo se esgota apenas na nomenclatura. "Uma Bela orgia À Moda antiga" pertence, em grande medida, ao mundo pornográfico – um universo onde tudo é forçado, pejado de clichés e os diálogos pouco interessam.

III Filmes de joão Salaviza inclusivo, mas ideias de futilidade e resignação pairam sobre a mente da personagem. a curta, que vagamente faz lembrar a “Cidade de deus”, é um dos poucos filmes a descrever os bairros sociais portugueses num registo narrativo que, sem se afastar da realidade, foge ao típico documentário. o filme que se segue é “Cerro Negro”, o retrato de uma imigrante brasileira que vai visitar o marido à prisão de Santarém. o casal vê-se forçosamente separado, com um pequeno filho entre mãos. Feito dois anos depois do filme que lhe deu a fama, “Cerro Negro” fica, no entanto, abaixo das expectativas. Uma película demasiado apática, com um final que mais uma vez se apresenta aberto.

a trilogia finaliza com “Rafa”, a história de um rapaz da margem sul, que descobre às tantas da madrugada que a mãe está detida numa esquadra da capital. o miúdo, que teima em trazer a mãe para casa, vê-se a braços com a delinquência fácil e a quase impossibilidade de recusar o papel de adulto que lhe é imputado. apesar de não ter o brilho de “arena”, vale a pena a ver. aliás, foi com esta última que Salaviza voltou aos prémios, ao ganhar o Urso de ouro para a melhor curta no Festival de Cinema de Berlim. os caminhos abrem-se agora para o realizador, que surge como um promissor viajante desse Portugal desconhecido. joão Valadão

filme

De João Salaviza eDitora MidaS 2012

artigo disponível na:

Lusitana marginalidade


26 de junho de 2012 | terça-feira | a

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FeitAs oUvir

ler

Capicua ”

É

mais do que notória a influência masculina no mundo do Hip-Hop. os motivos para tal são contas de um velho rosário que excede a vertente musical do movimento. Faz parte da cultura e está intrinsecamente ligada à sua génese, bem como ao seu carácter mais interventivo. impera à MC que pretende vingar no meio, não seguir as pisadas clássicas, ou seja: rimar sem masculinizar. a resposta em português a esta premissa é uma pergunta que se afigura retórica – “Capicua?”. ana (Capicua) nasceu no Porto e apesar de só em 2012 sobressair aos olhos da crítica pela mão de Henrique amaro (optimus disde cos), conta já na bagagem com cAPicuA dois EPs e uma mixtape: “3 corpos astrais alinhados”(2006), com o edItora colectivo Syzygy; “Mau Feitio oPtiMus discos EP”(2008) com os Mau Feitio e “Capicua goes Preemo”(2008), 2012 que culmina na sua estreia a solo, apadrinhada pelos beats do dJ Premier. Como álbum de estreia, estaria, à partida, talhado para ser um álbum fracturante; pela abordagem, pela produção e até pelo próprio formato de edição e divulgação. a produção conta com alguns dos melhores beatmakers em Portugal como Sam The Kid, dJ Nelassassin, darksunn ou d-one que são o garante de uma variedade sonora que viaja desde a batida típica, a géneros tão mais longínquos quanto o próprio jungle ou o funk. Se em “Capicua goes Preemo” damos de caras com uma abordagem mais íntima e mais pessoal sobre a vida, em “Capicua”, ana aborda questões tão pertinentes como a sociedade e os seus medos, o crescimento e expectativas pessoais, o desemprego jovem, o amor entre homem e animal, os problemas e incertezas amorosas ou a simples banalidade do quotidiano. Surpreendentemente, face a tantas colaborações nos instrumentais, vingou a opção de apenas um MC. Nerve foi o único escolhido, que fez jus, em “Judas e dalilas”, ao potencial evidente na nova escola de MC’s. o nome do disco encaixa na perfeição já que é tão bom do fim para o início como do início para o fim. CarloS braz

“Guerrilha cor-de-rosa”

Cândido ou o optimismo

tudo está bem mesmo que acabe mal

de FrAnçois de VoLtAire edItora tintA dA cHinA 2012

riada toda a vontade inicial e derrotados todos os sonhos, a sentença capital de qualquer réstia de um optimismo obscuro. Conferir a “Cândido ou o optimismo” o cunho de simples obra literária, de diversão folhetim, seria demasiado redutor. a obra espraia-se incomodamente pelas linhas mais nítidas da filosofia e da política. Está lá bem cunhada a crítica ao iluminismo setecentista e ao optimismo de leibnitz. Estão lá, umas atrás das outras, explícitas críticas à conduta eclesiástica do mais variado tipo. E está, se assim o quisermos entender, uma absconsa alegoria a uma luta de classes, assente num confronto entre uma burguesia em ascensão e uma aristocracia feudal decadente, e, no meio disto tudo, o povo que se desgraça sempre. “Cândido” está longe da obra capital de voltaire, contudo, não está, nem nunca esteve, votado ao desconhecimento. Num tempo que não se fazia de prateleiras de ‘tops’ ou estantes de ‘best-sellers’, “Cândido” conquistou a façanha de ingressar diretamente no index Santorum Prohibitorum. E isto, admitamos, é proeza mais que suficiente para nos obrigar a ler atentamente cada linha do livro. Se entre o português e o português brasileiro, e qualquer concordata linguística que dali advenha, se multiplicam as traduções e versões, esta edição possui o mérito de não desvirtuar a cacofonia, as repetições e as maiúsculas mal amanhadas, propositadamente manifestas na versão francesa original. joão mIranda

JoGar

binary domain ” “Adeus, sushi”

GUerra DaS CaBraS a evitar Fraco Podia ser pior vale a pena a Cabra aconselha a Cabra d’ouro

artigos disponíveis na:

a

Cândido a vida não lhe corre mal. vive maravilhosamente sob o auspício do optimismo mais bacoco. Encerrado no castelo da vestefália, para este pequeno franzino, pródigo discípulo de Metafísico-teológico-cosmológico-nigologia, toda a causa tem uma consequência, e tudo vai pelo melhor. apenas o amor pela jovem baronesa lhe apoquenta o coração e o demove do decente percurso de nobre obtuso que é. E vai ser esse amor que o vai levar a ser proscrito do seu cosmos quimérico – pela pavorosa intrepidez de beijar a mão amada – e a enfrentar todos os males que a Terra lhe tem para oferecer. E depois a guerra dos Húngaros. E depois a guerra dos abaros (das quais apenas os Reis, que reis que são, se safam, entoando vivas ao seu desígnio divino [isto, porque há um desígnio divino para cada um deles]). E depois a doença. E a fome, a pobreza e a tortura dos homens. E até um Terramoto de lisboa, para o qual os doutos senhores da Universidade de Coimbra não encontram melhor remédio que submeter à vontade da inquisição três ou quatro almas condenadas. Queimam-se uns quantos corpos e está evitada qualquer prometida réplica. Como boa obra literária de filósofo, com o seu toque ‘dandy’ setecentista, copiamse ao longo das suas páginas as referências a África, américa do Sul e mais uns quantos lugares de um hemisfério, que afinal é assim tão igual ao nosso. No final, sobra a miséria de ver contra-

PlataForma Ps3, xbox ou PC edItora rockstAr GAMes 2011

R

ecentemente, Hayashi da Team Ninja admitiu em entrevista que cozinhou um hamburguer para ocidental comer, quando o que devia ter feito era sushi... afinal, quem iria preferir um hamburguer japonês a sushi? o argumento é persuasivo, mas para mal dos nossos pecados, sustentado em equívocos. No ocidente, a cozinha japonesa até pode colher um mercado de nicho, mas nunca poderá disputar o domínio das massas de um gigante Mcdonalds, e para um título de grande produção ser rentável, tem de competir nesse mercado. Toshihiro Nagoshi, criador por detrás deste “Binary domain”, já foi um “sushi-man”, mas, como Hayashi, acabou a grelhar carne picada. após quase uma década de “Yakuza”, surgiu “dead Souls”, o previsto capítulo final da série. Só que o fim não revelou ser um fim, mas um novo começo. liberto das raízes de brawler arcade, enveredou pelo território do shooter zombie, incorporando a matriz contemporânea de “Resident Evil” e alguns traços do revoltante “left 4 dead”. o resultado foi uma capitulação perante um sistema instalado – para vender, faça-se um jogo de tiros... de preferência com zombies. Seguiu-se este “Binary domain”, um clone de “Gears of

War” sacarino, formulaico, cozinhado para agradar quem quer enfardar e passar ao próximo. Tal como em “dead Souls”, Nagoshi percebe a perversão do seu acto – eis um dos estúdios nipónicos mais ortodoxos a reescrever o guião do mais plastificado dos estúdios ocidentais – e aproveita a sua submissão para, no detalhe ínfimo, injectar laivos de ironia e alguma literacia mínima para quem tiver olho. ao contrário da Epic, o seu estúdio SEGa sabe animar uma personagem, injectar-lhe carisma e expressão emocional, e desenhar um cenário futurista com uma estética minimamente apelativa. a escrita de Nagoshi honra uma longa tradição de videojogos inspirados na ficção científica de “Blade Runner”, “Terminator” ou “i, Robot”, acabando por prestar uma homenagem sentida ao universo singular de Kojima, que é citado sempre que possível. São esses pequenos cuidados que ainda mostram o valor da produção nipónica, mesmo quando empacotada num sistema de jogo abrutalhado. iríamos mesmo ao ponto de dizer que este ‘hamburguer cuisine’ seria tragável não fosse tão ofensivo pelo que representa e afirma sobre o actual estado do meio videolúdico: é um hamburguer... ou nada. ruI CraVeIrInha


16 | a cabra | 26 de junho de 2012 | terça-feira

soltas

liliana cunha

uma ideia Para o ensino suPerior josÉ antónio Bandeirinha • Professor do dePartamento de arquiteCtura da uC

tomai e Comei

Universidade e ideologia oU Universidade e CUltUra

um Pequeno-almoço dos deuses

“Alimenta-te!” é o que a minha avó me diz sempre quando falamos ao telefone. Não por estas palavras certas, mas pergunta se tenho saciado a larica que me assalta o estômago, em demasiada força durante a época de exames. Um facto que a senhora Teresinha desconhece é que em cidade de estudantes, o “Psicológico” é muito caro, o MacDonalds fecha cedo, o Sandwich-bar das cantinas amarelas faz qualquer baguete nadar em maionese, e quando preciso de dinheiro para financiar a fomeca, todos as máquinas de multibanco recusam o meu cartão... Não é falta de dinheiro, é má vontade! A Caixa Geral é muito metódica na escolha dos 'timmings' de atualização do sistema informático. Desisto da ideia das gorduras e esqueço os MB. Volto para a AAC e entristeço-me... as máquinas estão pilhadas a estas horas. Tirando os chocolates, qualquer tipo de docinho ou croissant provoca azia, ou refluxo em termos médicos. Volto para o conforto de uma cadeira e escrevo, enquanto o meu estômago entra em turbilhão, pedindo por algo... Mas o Ambrósio está de férias com o Ferrero Rocher. As horas passam, a bruma dissipa-se e o sol raia cheio de força e alegria. O meu estômago contrai-se. Será fome? Serão gases? Saberei eu, certamente... Nas cantinas azuis serve-se o pequeno-almoço às oito em ponto. Dois papo-secos estaladiços, finas fatias de fiambre e queijo. Servem café com leite quente e sumo de laranja – tudo por um preço simbólico. O ambiente pacífico e simplista remontam para memórias de família. Barram-se os pães com manteiga, prepara-se o recheio e 'voilá': um manjar dos deuses. No fundo, os jantares e os almoços de prato social estão sobrevalorizados. Se toda a comida em Coimbra fosse assim, não passaria fome, seria uma boca feliz.

Por Filipe Furtado

Paulatinamente, a Universidade vai tentando a subsistência da sua autonomia no oceano de imperativos ideológicos que a assolam, medida após medida, decisão após decisão. Estes tipos de relacionamento não são novos. Todos os sistemas de governação fundados em premissas de base fortemente ideológica tentaram, de formas muito diversas, é certo, que a Universidade se inscrevesse na esfera de funcionalidades associadas à reprodução social dessas mesmas premissas. Pelo que diz respeito à circunstância contemporânea, assistimos quase quotidianamente às manifestações de intenção, por parte dos governantes, em garantir que essas funcionalidades sejam plenamente cumpridas pela Universidade. De entre as mais comuns, registam-se a procura obsessiva de uma formação dirigida para uma alegada procura especializada dos mercados, por um lado, e a ideia mitificada de inovação, por outro. À primeira, reagiram alguns responsáveis universitários com a proliferação de novos cursos, especificados a um nível de tal modo absurdo que mais se assemelhavam a acções de formação para linhas de montagem ‘low tech’, ou para planos de marketing dirigidos a micro-nichos de mercado. O resultado foi a entrada em funcionamento de largas centenas de licenciaturas e mestrados, muitos deles com sérias dificuldades de procura. Quanto à segunda, é preponderante a ideia que existe uma condição isolada em si mesma, ou mesmo uma

É na terra não É na lua • taGV • 18 de junho

tenho merdas para fazer... mas não me apeteCe

O

ra aí está algo que não se aplica ao visionamento deste documentário nem à escrita desta crónica. Pouco posso acrescentar em termos técnicos, para além daquilo que já é conhecido de quem quer que tenha prestado, pelo menos, um pouco de atenção à vida desta realização portuguesa: vencedor no Documenta Madrid, San Francisco International Film Festival e BAFICI (Buenos Aires), entre outros, e, desde a sua estreia nos cinemas nacionais, cerca de 3500 espectadores. Obviamente que não é fácil nem simples assistir a um filme com três horas de duração. Mas é impossível não querer falar logo deste documentário, da sensação arrebatadora que me tomou ao ver as sucessivas cenas de um silêncio que só encontra comparação na espantosa população de cerca de 450 habitantes. Filmado de forma soberba por Gonçalo Tocha, o tal operador de câmara que, reza a sinopse, chega ao Corvo em 2007 acompanhado por

funcionalidade, que tem obrigatoriamente de estar colada à actividade universitária e que se dá pelo nome pomposo de inovação. Frequentemente, esta ideia vem inspirada por modelos que são reconhecíveis na investigação tecnológica praticada em países centrais do sistema mundial. É uma espécie de atributo que toda e qualquer acção praticada no seio da Universidade tem obsessivamente de procurar, sob pena de não ter préstimo algum. A inovação, quando existe, não existe por si só, nem por ser obsessivamente procurada. Os meios universitários onde pode ser reconhecida como um verdadeiro motor de reprodução social da actividade de investigação, não são laboratórios isolados dessas actividades especializadas, esterilizados de qualquer contágio com a vida social envolvente. São, isso sim, verdadeiros caldeirões de cultura, em permanente miscigenação das ciências sociais com as tecnologias, das disciplinas tradicionais com as ciências puras, da tecnologia altamente especializada com a actividade artística. Essa é a condição genérica a partir da qual se gera a inovação. Não nasce por decreto, m u i t o menos por fecharmos os olhos e fazermos força para

que ela aconteça. Isso faz com que Universidade e Cultura sejam como pregas paralelas de um mesmo tecido, por vezes sobrepõem-se, por vezes permanecem em tensão, conjugam-se no padrão e na textura, confundem-se na representação de si próprias e não se entende muito bem qual a que fica voltada para fora e qual a que fica voltada para dentro. Acima de tudo, não é possível conceber a dimensão segundo a qual se interpenetram senão através do todo, da sua complementaridade inclusiva, só no jogo dos balanços recíprocos e harmonizados é que se pode definir o ponto de equilíbrio através do qual qualquer uma delas está apta a potenciar o sentido da outra. Como tal, ambas se constituem também como reflexo da força dos ventos que sopram num determinado momento. As suas oscilações mútuas resultam, assim, como consequência, activa ou reactiva, dos contextos, são moldadas pela acção dos pensamentos e das práticas dominantes sobre o tecido social.

arte.Ponto D.R.

Dídio Pestana, o técnico de som. É entre eles o primeiro diálogo do filme, a intenção de querer filmar tudo, de querer estar em todo o lado ao mesmo tempo, não perder qualquer momento no ponto mais isolado e inacessível da Europa. Quase que o fazem. Eu, durante aqueles 185 minutos de um quase exercício experimental cinematográfico, nem me lembrei que o Gonçalo não era, de facto, tão ubíquo como tinha prometido. Não precisei de me lembrar. Houve uma sensação familiar de fazer parte daquela gente e vi-me lá, durante uns dias, numa viagem que ganhou vontade de ser feita. São imagens e histórias, algumas verdadeiras e outras que já se perdem em memórias seculares. A caça às baleias, o senhor que pergunta se querem mais mentiras, as matanças do porco, a chuva, o verde, as campanhas partidárias, as noites dos jovens ao som de Fade (estava-se, afinal, em 2007/2008). Uma coisa que nunca havia visto: o parto de

uma vaca. A quem teve a possibilidade de assistir a este “É na terra não é na Lua”, não deixa de ficar a percepção de se ser um pouco ‘voyeur’. Eu não me importo. Podia ter ficado em mim qualquer pedaço de passado daquele povo. O Ti Pedro, com 94 anos. O cabo-de-mar que diz, com os olhos marejados, que queimou o seu diário de 40 anos porque já não conseguia mais. Ficou-me a história daquele outro homem, não me recordo do nome, que um dia chegou ao Corvo sem nada e por lá ficou. “Deixei a minha filha e a minha mulher por lá”, diz ele. Quero dizer, já não é a minha mulher, mas há-de ser sempre, percebes? De uma forma triste, amigo, digo-lhe, a quase 2000 km de distância, percebo. Isto, dito em pleno Atlântico numa pequena embarcação, eufemismo para algo onde cabem duas pessoas, ganha outra dimensão. Que levante a mão quem não perceber. Por Paulo Sérgio Santos


26 de junho de 2012 | terça-feira | a

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soltas somBra aCesa

miCro-Conto

Por nuno de figueiredo buscando manter entre os dedos a breve consolação, eu circulava os olhos e havia ali outra parede, e outra parede acolá, era um quarto com livros, uma cama quase sempre desfeita, e tu, abandonado às órbitas dos astros. Entre as quatro paredes, parece que ainda foi ontem, o verão parava no seu repouso merecido. Eu sei, não se explica, não faz sentido, mas não posso negar: às vezes uma lágrima rompia a custo como uma premonição e escorria-me pelos seios até morrerme no afago do ventre. Parece q u e ainda f o i

ontem. Aqui havia uma parede onde teimava acesa uma janela. Havia os livros, uma cama, o teu corpo. E, agora me lembro, chegava lá de fora, envolto no silêncio, o estrídulo incansável das cigarras. Tudo com o tempo se doura e molda, se continuo ainda te invento de novo, adormecido, nu, entre a penumbra e o branco dos lençóis. E me surpreendo no espelho, aberta ao prodígio. E,

quem sabe, altere a própria estação. Parece que ainda foi ontem: falo desse tempo ou falo de agora? Seria verão ou a pele sedosa, precoce da melancolia? Não sei. Vou ter de pensar melhor, parece que ainda foi ontem mas na verdade já atravessei tantos mares. E a única coisa que não mudou foi a solidão. Ah, sim, e o cantar estrídulo das cigarras envolto no silêncio das horas bordadas a mágoa e desalento.

Ilustração Por ana beatrIz marques

P

arece que ainda foi ontem. Aqui havia uma parede onde se rasgava uma janela. Era a parede de um quarto mergulhado na penumbra, com a cama quase sempre desfeita. Eu punha-me à janela a olhar os prados verdes, o alargado crepúsculo dos sobreiros, via os pássaros sequiosos esquivando-se ao calor com seus voos súbitos e acidentados. Sentia nas veias o silêncio do sangue e o rumor surdo da terra, voltava-me de vez em quando mas os olhos não conseguiam ver mais que a mancha clara dos lençóis. Parece que ainda foi ontem. Ao lado da parede havia um espelho e nem a minha sombra o habitava, nem as minhas feições, o cintilar dos olhos, era tudo um fumo, uma barreira, e lá de fora subia, cheio de sossego, o canto das sementes e o esplendor das raízes. Tudo era vão e agia como se o fosse. As coisas, os objectos, constituíam um mundo irreal, uma atitude sem futuro, mortos para os meus dedos. O meu próprio corpo, algemado à nudez e satisfeito entre o suor e o cansaço, o meu próprio corpo sorria palidamente num prenúncio ominoso e no entanto afável. Parece que foi ontem. Voltavame, olhava as outras paredes, varria os livros de cor e, com desmedido esforço, desenhava os contornos da tua nudez adormecida. Eras um homem presente que dorme e sonha e eu viro as costas ao cântico das aves e medito no tempo de amanhã, no rolar das horas pela tarde adiante. Insegura, à beira da tristeza mais estúpida e

monumentais Panados soCiais

nuno de FIgueIredo Foi em Coimbra que nasceu e é em Coimbra que se mantém. mas foi também Coimbra e os escritores que por cá passaram que lhe valeram os prémios literários já conquistados. o mais recente foi o Prémio literário miguel torga, instituído pela Câmara municipal, com o romance “Vida e sombra”. entre outros, podem destacar-se a conquista de dois prémios Joaquim namorado e do Prémio José régio. ainda assim, não foi a escrita a primeira das opções. a engenharia civil parecia atrair mais e ingressou no Instituto superior técnico de lisboa. mas, a paixão pela literatura esteve sempre lá e falou mais alto. Primeiro umas colaborações em vários jornais regionais, depois um livro de poemas em 1985, e uns anos mais tarde começaram os romances. desde aí, as suas participações em revistas literárias foram recorrentes. É com o seu nome ou com os pseudónimos de miguel marão e alberto marques que assina as cerca de três dezenas de obras de poesia, contos e romances já publicados. Com uma loja na Praça do Comércio, continua a viver a história de Coimbra e a escrever nas entrelinhas de uma cidade rica em autores que querem ser lidos. nuno de Figueiredo é um desses autores. Ana Morais

and now the end is near

Por doutorando Paulo fernando • facebook.com/paulofernandophd

C

aminhamos a passos rápidos para o fim do ano e para o fim do mundo. E como tenho de ir estudar para o exame de Primatologia, vou abordar aqui um tema ‘en passant’, porque vocês também têm de ir estudar e eu não quero ser responsável pelo insucesso escolar de ninguém. Parece que no âmbito das comemorações dos 125 anos da AAC, aos 125 dias antes do aniversário (ou seja na próxima quinta-feira… ouvi dizer, não sei se é verdade ou não), a comissão da DG para as comemorações está a organizar um jantar evocativo, com presença de um chef de renome. A ementa é da época e vai ser servida na defunta cantina das verdes: se não vos convidaram considerem-se convidados. O espaço vai ser decorado com umas múmias gentilmente cedidas pela Faculdade de Direito, a segurança do evento será assumida pelo corpo de archeiros da reitoria, e o transporte em charrete fica a cargo do Conselho de Veteranos por razões de obsolência.

Se ainda não está definido quem é o chef convidado queria deixar aqui três sugestões em jeito de sondagem: 1 – Chakall: anda sempre de toalha na cabeça cumprindo as regras da ASAE. Tem um fiel companheiro canino o que me recorda algumas personagens das secções mais teatrais da AAC. Como está habituado a andar com aquele traste na cabeça, em consonância com o espírito da época, podia levar o capelo e ficava já tratado mais um honoris causa. Devido às semelhanças onomáticas com um famoso revolucionário/mercenário de origem venezuelana, a sua escolha poderia conduzir a um apoio moderado das forças mais radicais da academia às comemorações dos 125 anos. Não sei o que é que ele cozinha mas deve meter caril. 2 – Jamie Oliver: confesso que não é o meu favorito, no entanto, advoga uma dieta mais saudável e tem um programa dedicado à poupança nas cozinhas escolares. Ambos os conselhos me parecem uteis para o trabalho dos nossos

D.R.

SASUC, podendo marcar o regresso da feijoada ao almoço de quarta-feira, e o fim das hamburguesas que fomentam a obesidade dos colegas da Sala de Estudo, e o regresso de um prato a preço social – a sério. Por razões orçamentais a ementa seria minimalista, confeccionada com produtos orgânicos adquiridos no mercado D. Pedro V e nabiças da horta da reitoria.

3 – O meu candidato do coração é Anthony Bourdain. Eu sei que ele agora anda mais arredado das lides da cozinha e que tem um programa em que finge ser um ‘connaisseur’ para poder andar pelo mundo a encher o bandulho à conta do orçamento, mas a verdade é que o seu espírito de ‘bon vivant’, boémio e pseudo-intelectual se coadunam perfeitamente com o espírito do es-

tudante de Coimbra. Acho que nos poderia patentear com uma ementa ao estilo do velho Pratas, que nos ficaria gravada para sempre no coração em colesterol do mau, contendo miúdos de várias espécies animais, e regada com vinho da casa cujas manchas de vinho se enxaguam com serradura. Para finalizar, quem esperar encontrar muitas moçoilas no referido repasto, tire daí o sentido se a coisa acontecer com fidelidade ao espírito da época… a primeira só chegou em 1891. Se no entanto simpatizar com valores conservadores e da monarquia creio que se sentirá em casa… não creio que será necessária grande aptidão teatral para a larga maioria dos convivas. * Quem descobrir quantos galicismos foram usados nesta crónica pode eventualmente ter o jantar dos 125 anos à la palix se por ventura fizer parte de uma determinada camarilha


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opinião NoN passa NieNte? J. Norberto pires**

a realidade mostra um país provinciano, centralizado e onde prevalece a ideia: se não se passou em Lisboa, então não aconteceu. e isso é, de facto, muito redutor e nada condizente com o que deve ser feito para explorar de forma eficiente os recursos de todo o país

O afastamento dos centros de decisão, ou das delegações, de órgãos de comunicação nacional do Centro de Portugal é muito preocupante para o futuro do país. Na verdade, já poucos jornais, rádios ou televisões nacionais têm representação nesta zona do território nacional. As razões são várias, sendo todas de curto prazo e relacionadas com questões económicas dos próprios órgãos de comunicação social. Nessa perspectiva, e tendo como pano de fundo o país, a sua coesão territorial e social, as atividades económicas e culturais, essa realidade mostra um país provinciano, centralizado e onde prevalece a ideia: se não se passou em Lisboa, então não aconteceu. E isso é, de facto, muito redutor e nada condizente com o que deve ser feito para explorar de forma eficiente os recursos de todo o país. O Centro de Portugal é uma região muito dinâmica. Na verdade, apresenta uma elevada densidade de população e de empresas, particularmente no litoral centro, organizados à volta de centros urbanos de média dimensão e de clusters industriais fortemente internacionalizados, que são por si só geradores de

importantes fluxos de pessoas e mercadorias; Em 2010, 20% do valor das exportações portuguesas tinham origem no Centro de Portugal (cerca de 7,4 mil milhões de euros). Já as importações (cerca de 5,4 mil milhões de euros) correspondiam a 10% do total das importações portuguesas. Fica aqui bem evidente a capacidade exportadora do Centro de Portugal (com um saldo positivo de 2 mil milhões de euros). E os produtos exportados são variados e incorporam valor acrescentado: máquinas e aparelhos elétricos (19% das exportações), papel e produtos da madeira (16%), produtos químicos e plásticos (13%), material de transporte (13%), produtos metálicos (10%), produtos da agricultura e agro-indústria (9%), pedra e cimento (9%), produtos têxteis (6%) e outros (5%). Para além disso, o Centro de Portugal tem merecido importantes investimentos em termos de infraestruturas e equipamentos de apoio à atividade económica, nomeadamente áreas de localização empresarial, incubadoras e parques de ciência e tecnologia. Investiu também, fortemente, na sua capacidade de transferir conhecimento e tecnologia para a economia.

Aquelas infraestruturas e equipamentos são o resultado de uma estratégia regional multipolar que valoriza o conjunto da Região e promove o trabalho em rede e a articulação territorial e sectorial. A Região oferece ainda boas condições em termos de capacidade de I&D e de formação de recursos humanos altamente qualificados. A Região tem condições favoráveis, em termos de qualidade de vida, para o acolhimento de quem pretende trabalhar ou residir no seu território, para o qual contribui muito a oferta cultural muito diversificada e rica. Ou seja, no Centro de Portugal as coisas acontecem e são de muita qualidade. Perante este cenário, o que explica a saída da região dos centros de decisão de órgãos nacionais de comunicação social? Pessoalmente penso que isso se deve a dois factores muito importantes, os quais se têm vindo a tornar relevantes ao longo dos anos: 1 - Ausência de uma consciência regional. A região não funciona em conjunto e precisa de perceber que as mais-valias da união permitiriam, através de relações forte e perenes, sinergias e resultados melhores para

todos. 2 - Ausência de uma estratégia conjunta que permita potenciar as iniciativas locais e dar-lhe a dimensão e projeção necessárias. É importante que todos percebam que os problemas do interior da região são problemas de toda a região, e precisam de ser encarados em conjunto com a necessária entreajuda. Não é possível estar satisfeito com as assimetrias que se verificam, bem como, por exemplo, com um sistema de transportes que torna mais fácil chegar de Coimbra a Lisboa do que a Figueira de Castelo Rodrigo ou Pampilhosa da Serra. Resolvendo isso, e é nisso que estamos empenhados, o Centro de Portugal passará a contar para o registo do que acontece e será, de novo, um território de ideias arrojadas e fora da caixa, de reflexão e de debate, o que, aliado à boa performance económica e empresarial, marcará a diferença e a atenção dos órgãos de comunicação social. **presidente da CCDRC

MicheL FoucauLt, viNte e oito aNos após a sua Morte Luís QuiNtais**

ao Foucault que  diagnostica deveríamos acrescentar o Foucault proliferante,  multiplicador,  desterritorializador.”

Vinte e oito anos após a sua morte, a influência de Michel Foucault é enorme. Mas, em grande medida, é também profundamente irónica e revela como é improvável o pensar e o agir (porque uma e outra coisa são modalidades do mesmo) hoje. Por um lado, trata-se porventura de um dos autores mais citados e apropriados no domínio das ciências sociais e humanas. Por outro, e apesar de estarmos perante um filósofo de combate, capaz de pôr em marcha uma verdadeira máquina de guerra destinada a desmontar todas as evidências em que se fundam as instituições modernas ocidentais, e de nos revelar o brilho escondido de uma possibilidade – a de que podemos pensar de outro modo, viver de outro modo, desenhar linhas de fuga e multiplicidades, como poderia porventura dizer o seu amigo Gilles Deleuze –, apesar de tudo isso, Foucault permanece disciplinarmente contido pelas ameias das formações de saberpoder que ele, como nenhum outro, soube cartografar.

Em suma, não me parece que o pensamento de Foucault tenha sido instrumentalmente decisivo para fazer o mundo de novo nestes quase trinta anos após a sua morte. Tudo o que acontece à nossa volta parece confirmar as suas suspeitas mais sombrias – e daí também a facilidade (e por vezes os usos distorcidos e truncados) com que o enaltecemos na academia, como se se tratasse da mais óbvia das referências –, sendo que a grande interrogação que se faz inscrever no seu percurso se nos afigure coisa distante e estrategicamente improvável. Ao Foucault que diagnostica deveríamos acrescentar o Foucault proliferante, multiplicador, desterritorializador. É de estranhar que a quase ninguém incomode a presente sujeição a uma resposta única que se vem reafirmando normativamente na Europa. É de estranhar que a sombra de Michel Foucault não pese aí, no lugar onde o colectivo das decisões se desenha, produz discurso e, em última análise, apagamento de tudo que o poderá comprometer

ou inquietar. **Professor auxiliar no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC)

A Cabra errou: Na edição 241, no artigo “40 anos depois, emigrar é mais do que atravessar fronteiras”, o contexto em que a entrevista se realizou não foi referido. A entrevista a Amadeu Lopes Sabino, Manuel Paiva, José Morais e Jorge de Oliveira e Sousa foi realizada no seguimento de uma conferência do projeto Milplanaltos. Na edição 247, no artigo “Talvez Deus não se importe que exista um 'Adão e Steve'”, o evento organizado pelo Núcleo de Estudantes de Antropologia da Associação Académica de Coimbra (NEA/AAC) é, erroneamente, chamado de “colóquio” em vez de “simpósio”. Também, no mesmo artigo, o nome do evento não aparece completo. A atividade que o NEA/AAC organizou tem por nome “Anthropology in the 21st century: Challenges and New Directions”. Aos visados, o nosso pedido de desculpas. Cartas ao diretor podem ser enviadas para

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opinião carta ao Diretor Dia 30, toDo/as coNtra o DeseMprego! MaNueL aFoNso e  ivo siLva ** Há um milhão e duzentos mil desempregados em Portugal, contando com desempregados de longa duração e sub-empregados. Hoje a taxa é de 15,2 por cento, 36 por cento na juventude, calcula-se que possa chegar a 24,2 no final do ano. Se números já pouco dizem, falemos antes de famílias cujas contas se acumulam, sem dinheiro para água, luz ou gás. O desemprego obrigar-nos a escolher entre a comida ou a renda. Os sintomas depressivos ensombram cada dia, os círculos de amigos fecham, porque não há colegas de escola nem de trabalho, nem dinheiro para ir “beber uma” ou para ir até à praia. Os leitores desta carta, a maior parte deles estudantes, talvez achem este cenário longínquo. Então pensem assim: cada noite a estudar, cada cêntimo de propinas, todo o esforço da vossa família, irá, infeliz mas provavelmente, ser recompensado com um futuro intermitente entre o desemprego e o salário mínimo. A realização pessoal, a criação de uma família e uma prometida reforma são miragens. Aos desempregados costumam responder-nos com mentiras, que de tão repetidas quase chegam a verdades. A primeira é o estigma: o desempregado não quer trabalhar. Vejamos um exemplo: o último concurso que abriu para a GNR viu 15 mil inscritos para 200 vagas… Isto é um sinal de que os desempregados não querem trabalhar? E se assim fosse… há um milhão de postos de trabalho à espera que todos deixem a preguiça? Outra é a flexibilização. “O mercado de trabalho é demasiado rígido”. Há uma grande empresa que, em Coimbra, emprega centenas de jovens com vínculos quinzenais e todos os meses despede dezenas deles… é a flexibilidade em acção. Perguntamos: porque é que nos países com maior “rigidez” laboral há menos desemprego? Ou mesmo em Portugal, porque é que quando havia menos precariedade

havia menos desemprego? Talvez facilitar os despedimentos não crie mais emprego, mas menos, por “estranho” que pareça. Já o empreendedorismo é a mentira mais em voga na AAC. Querem fazernos crer que o mais de milhão de desempregados deve tornar-se empresário e criar um milhão de novas empresas em Portugal! E se não o fazem é porque não são empreendedores o suficiente! Isto quando as PME estão a fechar e não há crédito nem apoios para novos projectos. Esta falácia só vinga para quem tem pais ricos ou uma carreira “empreendedora” na JS ou na JSD, por isso são estes que a repetem até à exaustão a “cassete do empreendedorismo”. Pelo emprego há medidas fáceis que

o desemprego  obriga-nos a escolher entre a comida  ou a renda.” podem ser tomadas: em tantas empresas trabalha-se gratuitamente várias horas por dia, se isso parasse criava-se emprego. Se a idade da reforma diminuísse em vez de aumentar, criava-se emprego. Se as grandes empresas, que distribuem milhares de milhões aos seus accionistas, investissem 10% desse dinheiro no emprego, eram centenas de milhares de empregos que se criavam. Se se suspendesse o pagamento da dívida pública para investir na produção, empregava-se a juventude e parava-se o endividamento do país… Nas Astúrias, os mineiros e suas famílias lutam contra o despedimento de 10 mil mineiros. Esse é o exemplo a seguir. Não é o empreendedorismo ou a emigração que nos darão futuro, mas a luta pelos nossos direitos. Não há outro caminho! Por isso estão convocadas, pelo Movimento Sem Emprego, manifestações pelo emprego com direitos para o próximo dia 30 em todo o país. Em Coimbra encontrar-nos-emos na Praça da República. Se queres contar com emprego, contamos contigo nesta luta!

Secção de Jornalismo, Associação Académica de Coimbra, Rua Padre António Vieira, 3000 - Coimbra Tel. 239821554 Fax. 239821554 e-mail: acabra@gmail.com

eDitoriaL a coNtiNuiDaDe Na MuDaNça Um ano é, por norma, uma data símbolo de um mandato. No entanto, ao fim de um ano sob a tutela de Nuno Crato, as medidas são poucas para tantas reivindicações. Reivindicações que transitaram de Mariano Gago, às quais o atual ministro não tem sabido dar resposta. A 21 de junho de 2011, Nuno Crato não herdou apenas uma pasta do seu predecessor. Ao adotar uma postura em tudo semelhante, herda também as críticas. Daí que os setores ligados ao ensino superior lhe apliquem uma espécie de epíteto que, tendo em conta o legado do seu antecessor, em nada é lisonjeiro. É então um Mariano Gago de bolsos vazios e a simpatia que granjeava, à partida, pelo facto de ser um académico reconhecido, torna-se agora irrelevante perante um ano em que falhou em debelar as principais deficiências do sector. Mais uma vez atrasos no pagamento das bolsas de ação social escolar, mais uma vez atrasos no pagamento das bolsas de investigação científica, mais uma vez redução na fatia do Orçamento de Estado destinada ao ensino superior… A extensa lista (que poderia ser continuada, não fosse o limite de caracteres) deixa um sentimento labiríntico de iteração, multiplicando apenas a gravidade de cada circunstância com o passar dos anos. O perpetuar de comportamentos que fecham as vias ao diálogo parece ser transversal à triple entente que se senta ciclicamente, com mais ou menos al-

terá  que  recair  em  alguém  a  responsabilidade  pela  visível  e  gradual perda de condições dos estudantes do ensino superior ternância, no poder. Apesar de um ano que tudo tem para ser apontado como negativo, Nuno Crato figura no grupo dos ministros mais populares, ou menos impopulares. Posição que pode, eventualmente, ser justificada com a descrição e com uma estratégia de comunicação menos proactiva que outros colegas do governo. Argumentar-se-á que o trabalho está profusamente condicionado por um outro ministério: o das finanças. Mas num ciclo interminável, em que os reitores atribuem responsabilidades ao ministério, o ministério diz-se condicionado pelas finanças e o governo faz o mesmo com a troika. Terá que recair em alguém a responsabilidade pela visível e gradual perda de condições dos estudantes do ensino superior. Apesar de poder parecer precoce fazer uma avaliação completa da fusão de ministérios, esta parece também constituir mais um obstáculo ao desenvolvimento do sector da educação. Num ministério que tutela uma vasta área, alguma fração terá menor prioridade. Se a princípio, como afirma o presidente do SNESup, António Vicente, a “complementaridade e coordenação de estratégias e soluções para problemas que acabam por ser comuns” ao anterior Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e ao Ministério da Educação constituía a razão maior para a junção, um ano depois, essas vantagens não se destacaram. Na salvaguarda da qualidade do ES, as associações académicas e de estudantes têm um papel fulcral e a visibilidade mediática de pouco serve se as ações não são consequentes. E, se não são consequentes, muito há que repensar na forma como defendem as suas posições. Camilo Soldado

Diretor Camilo Soldado Editores-Executivos Inês Amado da Silva, João Gaspar Editoras-Executivas Multimédia Ana Francisco, Catarina Gomes Editores Carlota Rebelo (Fotografia), Inês Balreira (Ensino Superior), Ana Duarte (Cultura), Fernando Sá Pessoa (Desporto), Ana Morais (Cidade), Filipe Furtado (Ciência & Tecnologia), Liliana Cunha (País), Maria Garrido (Mundo) Paginação Carlota Rebelo, Catarina Gomes Redação Andreia Gonçalves, Daniel Alves da Silva, João Valadão, Paulo Sérgio Santos Fotografia Ana Marques, Ana Morais, Carlota Rebelo, Fernando Sá Pessoa, João Gaspar Ilustração Ana Beatriz Marques, Tiago Dinis Colaborou nesta edição António Cardoso, João Martins, Tiago Mota Colaboradores Permanentes Carlos Braz, João Miranda, João Ribeiro, João Terêncio, João Valadão, José Afonso Biscaia, José Miguel Pereira, José Santiago, Lígia Anjos, Luís Luzio, Pedro Madureira, Pedro Nunes, Rafael Pinto, Rui Craveirinha Publicidade Inês Amado da Silva 239410437 Impressão FIG – Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra, Rui António Bandeirinha, Nuno Figueiredo


Mais informação disponível em

Redação: Secção de Jornalismo Associação Académica de Coimbra Rua Padre António Vieira 3000 Coimbra Telf: 239 41 04 37

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Direção Geral das Artes

Vira o disco e toca o mesmo. Apesar do discurso do secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, apelar à necessidade de aumento dos públicos em espetáculos, estes veem-se sem apoios. Os financiamentos são reduzidos até ao tutano e há companhias que correm o sério risco de fecharem portas. Exemplo bem vincado disso é A Escola da Noite, que de há uns anos para cá já percorria um caminho periclitante. Hoje, os tempos são ainda mais marcados pela austeridade e as artes não têm para onde se virar. A batalha da oposição para reverter a situação tem sido gorada. Até quando é que Portugal vai continuar neste marasmo cultural? A.D.

Câmara Municipal de Coimbra

Depois de ter ficado em ata a cedência de um terreno para a construção da Casa do Comerciante, há mais de dez anos, o executivo ainda não tomou qualquer medida que realizasse este projeto. Numa altura em que o comércio, sobretudo da Baixa, espelha de forma significativa a crise que o país atravessa nada é feito por parte da CMC. Quando são cada vez mais as lojas encerradas e os comerciantes a passar por dificuldades, não há capacidade para se concretizarem as promessas há muito feitas. Não seria pertinente salvaguardar o apoio aos comerciantes, apenas com a cedência de um espaço? Para quando deixar as palavras ocas e passar efetivamente aos atos? A.M.

MEC

Pela primeira vez, nos últimos anos, o regulamento de atribuição de bolsas é publicado antes do final do ano letivo. No entanto, o documento é praticamente igual ao que já existe, ou seja, vai continuar a deixar muitos estudantes fora de este tipo de apoio social. Grave também é o facto de os estudantes serem responsabilizados por dívidas que não são suas ou o regulamento contemplar como rendimentos os subsídios de férias e de natal do agregado quando estes já não usufruem de tal, fruto de mais uma medida deste governo. É pena que, depois de um ano, o ministério de Nuno Crato não tenha aprendido com os erros e continue a desprezar o ensino superior. I.B.

A IdAde MédIA conteMporâneA por Tiago MoTa

200 x 100 Vamos fazer um jogo. Estamos na Feira Medieval de Coimbra, tida como uma das mais antigas e rigorosas em Portugal. Esta é uma tentativa de viajar até ao passado e vivenciar o espírito de então, há alguns longos séculos atrás. Vemos o pobre, desengonçado sem-abrigo, que pede na rua, cuja face desesperadamente acompanha os que por ele passam em tom de indiferença. Vemos que a figura feminina é moeda de troca para o homem nas suas disputas e desafios, a seu belprazer. Vemos que o pão é o que mais alimenta e, até esse, dá provas de escassez. Vemos um povo despreocupado que engraça com o infortúnio e as figuras ridículas de quem o rodeia. Vemos, sobretudo, que o ser humano gosta de proclamar bem alto a sua estupidez, o seu instinto animalesco e o que de pior tem para oferecer. Agora, voltemos ao presente. Desafio-o a encontrar as diferenças.

Edição 248  

Jornal Universitário de Coimbra A CABRA

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