Nota Prévia
Sobre o Projeto a Pressão a materialização da visão artística a transdisciplinaridade expectativas a descoberta
Residência Artística
Bárbara Paixão
Sofia Sá
Victor Gomes
Espetáculo
Podcast Em Pressão
Descrição
Alexandre Martins
Disclaimer
Episódio 【01】 Maria José Guerreiro
Episódio 【02】 Iva Viana
Episódio 【03】 Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão - Associação Nuisis Zobop Episódio 【04】 Ilídio Marques - GNRation / Theatro Circo
Bastidores
Ficha Técnica
【NOTA PRÉVIA】
No desenvolvimento do projeto Em Pressão, foi sendo adquirido um conjunto de informações e experiências relevantes, que merecem da nossa parte uma atenção particular, quer pelo valor acrescentado que representou para toda a equipa do projeto, quer pelas inquietações e reflexões suscitadas, que merecem ser partilhadas.
Sentimos necessário comunicar os diferentes pensamentos que ganharam forma ao longo deste projeto nas suas diversas vozes e configurações. Para essa partilha, procuramos adotar um formato de registo que prevalecesse e desse forma ao efémero, natureza que tanto caracteriza eventos deste género. Deste modo, tentamos registar em papel um momento no tempo, que foi a investigação, a criação artística e as reflexões sobre o estado da arte e das nossas práticas em rede que caracterizaram o Em Pressão 2ª edição.
Para compreender a natureza deste projeto, interessa reconhecer o contexto onde este nasceu - a cidade de Viana do Castelo. Uma cidade com um riquíssimo património cultural que suporta grande parte da sua identidade. As tradições assumem um peso importante e adquirem uma dinâmica de contágio da relação entre as pessoas e a cidade. São poucos os espaços da esfera pública imunes a esta presença cristalizada das tradições.
O Em Pressão surge neste contexto, numa cidade onde escasseiam o espaço e o tempo para o desenvolvimento de um trabalho artístico livre destas condicionantes. Uma realidade que nos condena a procurar oportunidades noutras geografias.
Mais do que nos estabelecermos individualmente em Viana do Castelo, interessa-nos, sobretudo, criar condições que possibilitem aos diferentes profissionais da cultura desenvolverem aqui o seu trabalho, numa tentativa de atração de linguagens e práticas artísticas contemporâneas. Resulta daqui o formato deste projeto, uma residência artística transdisciplinar, que, no decorrer de um curto espaço de tempo, promove o encontro entre diferentes artistas e as suas diversas metodologias de trabalho, visando o desenvolvimento de uma peça performativa a apresentar ao público no final de todo este processo criativo. Apesar de todas as limitações de natureza orçamental, material ou logística, que um projeto desta natureza possa apresentar acreditámos desde início que estas condicionantes poderiam servir de catalisador a propostas inovadoras e de caráter mais experimental.
Consideramos ainda que circunscrever o projeto unicamente a uma vertente de criação artística o tornaria inconsequente no contexto da cidade de Viana do Castelo. Desta forma, e como complemento à residência artística, foram promovidas oficinas abertas ao público, orientadas pelos artistas em residência, e promovidas uma série de conversas com diferentes agentes culturais que culminaram num momento final de discussão pública.
Para além da importância prática destas iniciativas, estas ganham relevância por serem momentos de aproximação do projeto ao público, pois só com este é que o processo criativo dos artistas em residência ganha peso e consequência. E só com o público este projeto terá capacidade para se cimentar no tecido cultural da cidade.
【SOBRE】 A PRESSÃO
A prática artística é teimosa, incendeia o instinto, mas não o mata, porque é desse processo de combustão que o instinto brota e se mantém vivo. Nesta simbiose fugaz, a pressão não deixa de funcionar como combustível à criação artística, um tecido sintético na fogueira do instinto. A pressão, diferente de pressionar, acaba por ser a força invisível essencial para que o instinto, promotor da criação artística, encontre sabores primitivos que outrora não teriam palco.
Demos origem a uma incubadora com um prazo de expiração de um mês, que preserva e nutre as vozes dos artistas. Por sua vez, a pressão traduz-se numa força impulsionadora e não numa restrição. Criamos um formato que não lhes permite ter o tempo desejado, no entanto, não é exigido um produto final coeso. A condicionante tempo, que dá origem à palavra “pressão”, resume o formato do projeto como também explica a circunstância desafiante de confiar no instinto, capaz de albergar fantasias. Ao contrário do esperado, a pressão acaba por os desinibir.
Paralelamente, estando o processo artístico concentrado num único mês, é exigido da equipa de produção uma postura eficiente, capaz de acompanhar de perto a imprevisibilidade na tomada de decisões. Cenários, figurinos, planos de luz e outras necessidades, acabam por acontecer neste espaço de tempo. O instinto, a ferramenta à mão de semear, não falha, move-nos a carvão. Há solução para quase tudo.
【SOBRE】 A MATERIALIZAÇÃO DA VISÃO ARTÍSTICA
Trabalhar o invisível com um prazo de um mês é a tarefa dada aos artistas convidados. Não estamos a falar de conceitos completamente claros. O começo de um processo criativo nem sempre sabe a algo. No estúdio, falava-se de resquícios e imagens, ansiosos por estar em palco. Nos primeiros dias, pegavam em papel e caneta, para tomar nota dos desejos de cada um, esperando, com isso, dar forma à massa mãe, a génese que compunha a peça final. Com o avançar do tempo, passavam das notas à prática, da prática a novos conhecimentos. Daí em diante, o foco, apesar de saltar de corda em corda, ia afunilando movido pela inequívoca força de trazer o invisível para o lado de cá.
Tínhamos plena consciência de que, ao atribuir uma tarefa desta dimensão, considerando o curto prazo para concluir a peça final, poderiam surgir desfechos inesperados.
Apoiar a criação artística, especialmente os artistas, foi o nosso objetivo inicial. Contudo, qualquer visão artística, mesmo a mais nítida, precisa de tempo para se revelar por completo. Não pudemos oferecer-lhes um espaço de tamanhas condições, mas proporcionamos-lhes um espaço para se reinventarem. Estas semanas trouxeram momentos intensos de aprendizagem, pondo em segundo plano a pressão de criar um produto encerrado. Desejávamos que o Em Pressão trouxesse à luz obras menos aprimoradas, mas carregadas de ideias frescas ainda por explorar, propositadamente programadas para contrastar com a realidade de Viana do Castelo.
Apesar do caráter experimental da obra final, e com isso referimo-nos à conceção de uma peça que ainda só tocou a superfície, existem dinâmicas e modos de agir profundos. Em estúdio, abriu-se um espaço de compreensão e negociação significativo para dar oportunidade às linguagens de cada um. Mesmo em circunstâncias normais, a criação artística dura meses, senão anos a formar-se. Era-nos impossível oferecer mais tempo considerando o orçamento previsto, e muitas opções foram postas de lado.
Claro que o fator criação - tempo potencia resultados inacabados, contudo fomenta um espírito de brincadeira séria. A residência artística é um espaço sensível à exploração, mais atento à circunstância e ao conteúdo do que ao seu impacto.
【SOBRE】 A TRANSDISCIPLINARIDADE
Assumindo que o ato de colaborar é inevitável, pusemos em causa o seguinte: Será a colaboração uma força ou uma desvantagem? Corremos o risco de uniformizar tendências e expressões, sítio onde o indivíduo mais inibido corre o risco de nunca ser ouvido? A colaboração é reativa, definimo-la como uma química inconstante, e no Em Pressão corremos o risco de passar por semanas certamente inesperadas. Os artistas, que até então nunca haviam colaborado entre si, revelavam indícios de vários dos sintomas previstos: demora na tomada de decisão, dinâmicas de trabalho que nem sempre se encaixavam, conflitos de ideias e até mesmo de ideais. Gerir tudo isto, enquanto se dá forma a uma peça, é certamente um desafio. Ainda assim, foi interessante observar o jogo de personalidades e presenciar a sua manifestação.
Por um lado, a colaboração periga numa potencial homogeneização. Por vezes, a unanimidade acaba por deixar para trás propostas que num olhar imediato não se destacam. Contudo, se bem nutrida, a colaboração tem a capacidade para conjugar ideias à partida não conciliáveis numa proposta potencialmente inovadora. O equilíbrio é uma constante e não um fim.
Disto retiramos que a colaboração tem o potencial para gerar uma proposta capaz de alicerçar ideias plurais. No Em Pressão, os artistas, sendo emergentes, viam o trabalho colaborativo como uma forma de aprimorar a sua visão artística, de lhe dar outros contornos. E isto, certamente, ia de encontro aos nossos objetivos iniciais.
A transdisciplinaridade surgiu para conjugar diferentes visões e práticas artísticas na cidade de Viana do Castelo. Move-nos saber que estéticas experimentais habitam uma cidade como esta, polida, exemplar, vaidosa. Deste caldo variado, sentimos a vontade de criar uma oportunidade que, aos olhos de muitos, fosse diferente, que fomentasse a criação artística transdisciplinar em contexto performativo. Acreditamos que o palco é um espaço amplo, polivalente, capaz de produzir novas e múltiplas realidades.
Não olhamos para o caráter tradicional da cidade como uma ameaça e alicia-nos o risco de saber que promovemos linguagens que a maioria poderá não acolher. O Em Pressão é um teste, um risco que queremos assumir.
【
SOBRE】 EXPECTATIVAS
Oscar Wilde, no seu romance “O Retrato de Dorian Gray”, escreve que a “experiência é apenas o nome que os homens deram aos seus erros”. Erros não os procuramos, mas refletimos sobre o que funcionou melhor e pior, o que não funcionou de todo, e o que gostaríamos que funcionasse.
No tronco do evento, e depois de termos uma primeira edição com quatro artistas diretamente ligados à cidade de Viana do Castelo, sentimos a necessidade de “trazer de fora para dentro”, e assumimos como objetivo que os artistas de uma segunda edição não tivessem uma ligação tão estreita à cidade.
Mantivemos a ideia de “troca de conhecimento”, e da aproximação “artista/público” através das oficinas, mas foi importante para nós, que nesta edição todas decorressem em espaços escolares da cidade, numa tentativa de aproximar não só o público geral,mas também um público mais específico, um público aspirante. Inclusive, foi intenção ligar cada um dos artistas, dentro das suas respetivas áreas, a estabelecimentos de ensino que refletissem essas mesmas áreas nos seus planos de formação.
As conversas foram também alvo de mudança. Na primeira edição, as conversas foram privadas, realizadas através de plataformas online, com um determinado número de convidados, sobre um tema utópico relacionado com a realidade cultural vianense. Este modelo repetia-se depois em conversa pública, presencial, com a possibilidade de interação com o público. Esta última ideia manteve-se. No restante, optou-se por alterar o formato. Ora, toda a gente tem um podcast hoje em dia, e agora o Em Pressão também tem. Deste modo as conversas que eram outrora privadas, passam a públicas, disponíveis a qualquer momento.
Deixámos cair a ideia de “Residência Aberta”, e optámos por marcar uma data para um ensaio aberto, mais ou menos a meio da residência artística, na expectativa de criar, mais uma vez, uma ligação entre o artista e o público, mas agora durante o processo criativo.Esperávamos também exercer um pouco de pressão sobre os artistas convidados. Criar uma ideia de checkpoint na corrida até ao espetáculo final.
O espetáculo final: a tensão entre o desejo de controlar e a inevitabilidade do acaso. Quando pensamos em “organizar”, “promover” ou “criar”, estamos, de facto, a invocar o poder de domesticar o caos. Mas será isso realmente possível?
Existe neste projeto uma ideia divergente à que se espera quando pensamos em “organizar algo” ou “promover” ou talvez “criar”, que se debruça sobre a falta de controlo ou poder de decisão, principalmente no que se prevê como o “resultado final” da residência artística.
Ainda assim, controlamos coisas. Controlamos o corpo, quando escolhemos os artistas que vão participar na residência, o tempo, quando definimos o calendário da residência e a duração que o resultado final deve ter, e, por fim, o espaço, de ensaio, de residência e de apresentação. O resto é astronomia. Corpos a habitar o espaço/tempo. Não se controlam rotas, colisões, movimentos nem órbitas. Procuramos ordem, mas a criação exige liberdade. Esperamos harmonia, mas aceitamos a possibilidade de uma explosão em supernova, num espaço onde não há garantias. Aceitamos todos esses termos, sempre confiantes que o trabalho criativo de quem foi apontado para a criação é de excelência, e que caminha para um objetivo em comum com o nosso.
Criamos condições, mas não criamos destinos. E nesse sentido, podemos dizer que o Em Pressão também nasce dos constrangimentos e dificuldades que a cidade de Viana do Castelo apresenta aos profissionais da área artística.Enquanto projeto que se propõe a criar e promover, ainda que pontualmente, condições para estes profissionais desenvolverem a sua prática, torna-se inevitável o confronto com uma série de desafios.
Os maiores estão na génese deste projeto - o espaço e o tempo. Foram estas as condicionantes que moldaram todo o projeto e o desenharam enquanto residência artística, e que, previsivelmente, se tornaram nas dificuldades mais complicadas de ultrapassar. Os constrangimentos de espaço e tempo revelaram-se essencialmente na disponibilidade de locais apropriados e devidamente equipados para os artistas desenvolverem o seu trabalho de pesquisa e experimentação. Foi possível encontrar algumas soluções juntos das entidades que apoiaram generosamente este projeto, no entanto, rapidamente percebemos que são escassos os espaços apropriados para este tipo de trabalho em Viana do Castelo e, consequentemente, os poucos que existem revelam uma disponibilidade de calendário muito reduzida.
O desafio do espaço manifestou-se ainda nas soluções de alojamento dos artistas em residência. Enquanto que na primeira edição o grupo dos artistas escolhidos dispunham de habitação própria em Viana do Castelo, esta mesma condição já não se verificou na segunda edição do evento. Dado o período alargado de tempo da residência artística, o alojamento revelou-se um dos problemas mais complexos de resolver tanto por questões orçamentais como de logística e localização.
Tendo em conta a pequena presença que o Em Pressão ainda tem no espaço da cidade, previsivelmente, outro dos desafios mais complicados de resolver foi o de fazer chegar o nosso projeto ao público. Foram promovidas um conjunto de iniciativas de mediação para criar uma ponte entre a nossa oferta e a comunidade de Viana do Castelo, nomeadamente as oficinas, as conversas e o ensaio aberto. Avaliando pela participação do mesmo nessas iniciativas, estas revelaram-se insuficientes ou de pouco alcance. Esta situação evidenciou-se com maior preponderância junto do público escolar, mesmo tendo como parceiro e espaço de residência uma instituição de ensino superior artístico.
No entanto, esta situação não encontrou reflexo nas várias sessões do espetáculo final. Estas contaram com uma forte presença da comunidade o que nos revela um público por enquanto mais interessado em consumir enquanto espetador do que enquanto participante ativo nas diferentes iniciativas que foram desenvolvidas.
【SOBRE】 A DESCOBERTA
Os desafios logísticos e a interação com o público local revelam que existe um caminho a percorrer para aproximar a criação artística de um público como o de Viana do Castelo. Apesar do interesse pelo resultado final, ainda existe resistência em participar nas várias etapas do processo, o que exige sensibilidade e a procura de alternativas na construção desses diálogos.
É uma reflexão para a qual não encontramos uma resposta correta, e suspeitamos que o tempo e a persistência deste tipo de iniciativas podem ser a chave para desbloquear essa ligação.
De um ponto de vista interno, percebemos que a convivência de linguagens artísticas distintas revela tanto tensões como aprendizagens. Sob pressão, os artistas foram forçados a confiar nos instintos, encontrando na colaboração não apenas trocas criativas, mas a aceitação da vulnerabilidade, que foi tão necessária para um trabalho em conjunto. Além disso, a dinâmica entre os artistas e a produção destacou o valor de uma equipa adaptável, capaz de transformar imprevistos em oportunidades. Esse suporte foi crucial para sustentar a visão artística e manter o foco na criação, mesmo em condições menos favoráveis para as disciplinas em questão. Ficamos com a ideia que, com alguma vontade e capacidade de adaptação, podemos trazer outro tipo de dinâmicas para pequenos centros urbanos.
O Em Pressão não procurou respostas definitivas para nada, mas sim a valorização do processo. Criar sob pressão é, acima de tudo, um exercício de descoberta. O Em Pressão desafia-nos a explorar o que emerge quando artistas enfrentam limitações de tempo, espaço e recursos. Não se trata apenas de criar, mas de compreender como as condições moldam processos e relações.
bárbara paixão (Bombarral, 1994) é uma artista digital dos novos media que desenvolve visuais 2D, instalações interativas e sets de VJing. Motivada pela complementaridade entre arte e tecnologia, o seu foco incide em trabalhar a interação entre o corpo e o computador. É em formato de instalação audiovisual que retira maior partido das experiências interativas. Trabalha frequentemente com sensores que capturam a presença humana e software que atua em tempo-real. Com recurso ao tempo-real permite-lhe ainda criar visuais que sejam reativos ao som, além de manipulados ao vivo, criando experiências sinestésicas.
Um processo bem processado.
Entusiasmada.
Era eu e uns conhecidos.
Sabia o que queria, mas não sabia como.
Temia que nada surgisse.
Falou-se em caos e ordem.
O que sabia eu sobre esses dois opositores?
Caos: tudo o que se passava na mente criativa
Ordem: saber que tinha almoço feito.
Na mente, pairavam palavras faladas entre os conhecidos: ruído; textura; orgânico; forma; figura; nítido; abstrato; mitologia; construção; desconstrução.
Parecia muito, mas o caos continuava. Numa busca mais profunda sobre cada palavra, em coletivo, surgiram outras: Surrealismo; Sonho.
Um aparte: sonho foi também o que vivi ao trabalhar com artistas de outras áreas.
Por falar em artistas: o processo foi processado com esses mesmos artistas (os conhecidos).
Continuando.
Um dia e noutro dia, sublinhei palavras e fiz-me pensar:
Figura → Mitologia; Orgânico → Forma; Construção → Nítido: Desconstrução;
Surgiu, finalmente, a verdadeira base para o trabalho visual. Ora vejam se entendem:
Construí a figura da nossa mitologia e dei-lhe uma forma nítida. O seu interior era orgânico, mas simultaneamente uma desconstrução de si mesmo.
Para um outro momento, queria uma outra versão deste corpo visual. Não sabia como, sabia só que precisava de cor. Situação: caos menos caótico.
Afastei-me da figura.
Sendo eu versátil em habilidades (desde mexer as narinas a trabalhar com sensores...), chamei a Kristnet. Apresentei-a ao corpo dançante e à menina da música (os outros artistas, os conhecidos).
Se fomos todos felizes?
Diria que foi uma relação tóxica: amor e ódio. Momentos de desespero ela nos deu e momentos de amor ela soube proporcionar.
Adianto-vos: foi um final feliz.
Voltei à figura.
Olhei-a e perguntei: como podes tu te modificar? … vista
Na última semana, respondeu: Ruído. textura. Abstrato.
Eram as palavras restantes faladas entre os conhecidos. Pareceu-me bem.
E ainda respondeu: Sonhoooooo.
(O momento não foi tão explosivo como os “o’s” sugerem, mas... ajudou bastante.)
Com estas palavras e a figura para modificar, comecei a trabalhar.
Deste visual, sabia o que queria: que cada frame resultasse num quadro, como se fosse uma pintura digital.
Digo, com muita humildade: consegui.
Há muito que fica por dizer.
E o que aqui disse não relata 40% do que foi vivido.
Se queriam saber mais, lamento.
Durante um mês, toda a hora, todo o minuto, todos os momentos, foram o processo criativo. Que, no final, até foi bem processado.
sofia sá é cantora, compositora e artista sonora natural de Braga. Iniciou o seu percurso musical a estudar piano clássico no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, onde concluiu o 5º grau. Frequentou o secundário em Artes Visuais e em 2016 ingressou na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, em Arte multimédia. Em 2017 retoma os estudos musicais no Hot Club para estudar Jazz. É nessa altura que começa a explorar a voz e a improvisação. Em 2021 conclui a licenciatura em Canto na ESMAE, no Porto. Tem vindo a participar em vários projetos entre Portugal e Copenhaga onde reside actualmente, explorando áreas ligadas à performance, instalação e música para dança.
É sempre em conversa com o desconhecido que nasce uma criação. O nosso ponto de partida resumiu-se a isso, desconhecidos em conversa:
surrealismo mitologia começo impacto corpo
submersão água lullababy espaço alien
silêncio abstrato voz ruído
precisão humanidade
fluidez concreto desconstruir textura
Pontos de conexão, queríamos partilhar onde nos sentimos confortáveis.
Pontos desconhecidos, a necessidade da experimentação Pontos de partida, o motor começou a funcionar.
E o motor desta criação foi o próprio ato de criar e ser criado.
Cruzamos os nossos percursos artísticos para criar uma ilusão, e percebemos que a ilusão era na verdade a única coisa que sustinha o caos e a ordem.
Viemos de ilusões diferentes, umas que sustentam a visão, outras que sustentam a escuta, por isso começamos por partilhar perspectivas: do espaço, do som, da cor, do movimento, até precisarmos de uma bolsa amniótica para as abrigar. Aí germinou uma história, um começo, um fim, e apoiamo-nos nessa narrativa que se completa pela sua possibilidade de ser continuamente complementada. Dentro dessa bolsa, nasceu a nossa ilusão.
Uma das partes fundamentais para a fluidez deste processo foi o espaço que permitimos uns aos outros para explorar individualmente a nossa área. Cruzamos estes três mundos diferentes, e predispostos a aprender oferecemos muito uns aos outros.
Sem pressão Sem pressa Sempre sãos
Sabíamos que tínhamos de criar do zero, e questionamos isso. O processo de criar, e o recurso tecnológico inevitável. Muito naturalmente começamos a dar corpo à nossa conversa, e fluiu a ideia dos sons que queríamos, das cores, do tipo de movimento, cenário. Estava tudo lá como paisagem desfocada, e agora era só começar.
Tínhamos plástico, estruturas de metal, possibilidade de ampliar visuais a uma grande escala. Queríamos trabalhar com isso tudo para criar um pequeno laboratório em palco, que retratasse uma criação. E foi baseada na forma como nos propusemos a criar que criamos a nossa narrativa.
O ambiente alienista veio da estranheza.
Estranheza em contactar com algo que não existe. E ser esse algo, uma coisa que vem de nós, que só pode assim vir do nosso subconsciente.
Mas nada soou estranho à medida que demos vida ao nosso subconsciente. Nem tampouco partilhar este processo com o subconsciente da Bárbara e do Victor. De alguma forma encontramo-nos todos lá, e talvez todos nos encontremos todos.
Esta foi a ideia abrigada por este processo, do qual estou muito grata que tenha passado por mim.
Obrigada à equipa da Em Pressão, à Bárbara e ao Víctor pelas suas belas mentes criativas.
victor gomes 1993, licenciado pela Escola Superior de Dança, Lisboa 2014. Integra como intérprete os projetos Sem Chão, Sem Fim, Sopro, Eternuridade e Um fio de ar de Amélia Bentes, Stay Still, Stand Silent de João Cardoso, SUGAR do coletivo SillySeason, Justiça de Joana Providência, entre outros. Cocria as peças Adapted to Y&Y com João Cardoso, Na Ausência de Ternura e BLUEPRINT com Juliana Fernandes, ambas coprodução do Teatro Municipal do Porto e Instável Centro Coreográfico. Membro da equipa de organização do Festival Summer Intensive PT 2015-2019. Frequentou a formação profissional Performact, 2018/19 e integrou a equipa de formadores e organização 2020-21. Integra a equipa do festival LETHES EM BRUTO como coreógrafo convidado. Cofundador com Juliana Fernandes e João Cardoso do programa AN-TRE 2021-23.
SUSPENSÃO
Antes de mais, quero alertar para a inúmera quantidade de ‘questões e talvezes’ que seguem no texto abaixo, não tenho respostas e não creio que as queira ter, encontrei-me enroscado no calor de não saber, na inquietude de querer saber mais, e desse terreno só podem vir questões e conjecturas. Com isto fora do vosso caminho:
há questões que nos surgem, de sentidos abstratos em direções possivelmente convergentes, questões que se desvanecem pelo esquecimento adentro. Algumas reaparecem mais tarde, perto do primeiro fim, para que se encontre conforto na sua falta de sentido e na sua pertinência quando agregada à nossa vontade de lhes atribuir sentido.
A meio da primeira semana de residência, de uma avalanche infindável de ideias trocadas e uma excelente (e demasiadamente variada) hot-pot de possibilidades fiz um pequeno exercício de escrita automática, longe de preciso ou concreto, mas do qual surgiu uma questão que depois de esquecida me voltou a acompanhar nos últimos dias desta bela viagem:
“Sem a São quem são as Sãos suspensas?”
A São nunca existiu, nem o plural dela mesma, no entanto se lhe adicionarmos aquilo que lhe falta para ela ser outra coisa, o ‘suspens(e)’, ela torna-se não só relevante, mas talvez (sem grande compromisso), um pilar fundamental não só do processo mas daquilo que nasceu da partilha de quatro semanas de residência do Em Pressão 2024. As Sãos tornam-se assim, desta minha perspetiva e na sua inexistência, as suspensões/Sãos?, numa viagem em que se procurou cuidadosamente aproximar ideias de uma fantasia laboratorial orgânica do estilhaçar de uma harmonia estética normativa.
Desde a primeira partilha de ideias entre mim a Bárbara, e a Sofia que ficou presente esta vontade de trabalhar sobre algo para lá do animal humano, para lá das normas do “real”, do mundano. Em estúdio fomos puxados de arrastão para trás, a vontade tinha de ter início antes da sua materialização, tinha de ter um início, tipo ‘big bang menos espalhafatoso’ mas ainda assim um início que falasse de criação. Desde a criação do cosmos, à criação do ser, falámos de estrelas, deuses, os deuses antes dos deuses, de ordem e caos, do que se destruiu para se construir, de galáxias, explosões, mitologia, moléculas, do vazio e do criador. A ideia daquele que cria, agregada primeiramente ao mitológico mas posteriormente a algo mais orgânico e térreo, agregado à ideia de gestar, de uma bolsa de fluídos, sacos amnióticos, fetos, corpos e um rebentar de águas. Falamos e digerimos tudo isto com o tempo que nos foi dado. (inserir todo o tempo que nunca é suficiente para digerir este tipo de devaneios)
Penso que “as águas nos rebentaram” aos três quando percebemos que as palavras “criar, cria e criado” eram a membrana que envolvia o nosso processo. Nessa altura tinha recolhido umas quantas fisicalidades improvisadas em dueto com um bocado de plástico que se assemelhavam a estas imagens de fetos e criaturas que começam a existir antes de serem despejadas daquilo que as carrega. Eu era em simultâneo o que cria e aquilo que era criado pela fantasia laboratorial orgânica que tínhamos começado a chamar de realidade. Eu era uma proveta, um in vitro que se destrói, volta a gestar e renasce de si mesmo para ser um pouco mais igual àquilo que foi antes. Houve quem visse a peça e me dissesse que “depois de nascer, a criatura dá-nos mais espaço para empatizar, quase se cria um apego com ela… e depois aprisionam-na e nós temos de a deixar ali”.
“quase se cria um apego… e depois temos de a deixar ali”
Sinto que isto resume a experiência de encontrar caminho para esta peça, esta criatura que depois de ser criada tem de ser deixada. E talvez também isto seja uma forma de responder à questão das ‘Sãos’, o que é a cria depois do criador, quem é, como é, porque é, sendo que sempre e sem qualquer questão, é. tem de ser. Existir não tem um botão de pausa, e daí também sinto que é importante pensar no que vem antes do nascer desta criatura como a possibilidade de ser aquilo que vem depois do final, quase como se a peça fosse um ciclo que, ao ser estendida para o dobro, ou o triplo do tempo, regressaria ao início, cronologicamente ou em reverse.
Tudo isto são ‘talvezes’, são questões, são “coisas nas quais podemos pensar”, são a ausência de existências afirmadas, são as Sãos a serem combustível nuclear para o seu próprio ensaio de existência, tudo por elas é suspenso, é suspense, está tudo no ar e dependente do jeito próprio do olhar de cada um.
Não me descarto com isto da existência de um sentido criativo, do caminho que foi traçado. Não sinto que as coisas tenham sido feitas aleatoriamente e que se validem apenas pela visão externa, ou pela interpretação alheia à criação.
Há uma polpa palpável que foi fermentada ao longo do curto mas intenso período de gestação que partilhamos, ela existe.
Acredito no entanto que essa polpa se enriquece a cada reinterpretação, a cada pessoa que a prova de forma diferente, e que este provar não deve ser retirado a ninguém pelo orgulho e conservadorismo naturais da vontade de que todos vejamos a mesma coisa.
Daí enalteço as questões e os talvezes, daí sentir que do materializar desta peça nasce um ambiente de suspense, não só a nível cénico, mas também ao nível da pluralidade de interpretações que lhe são possíveis.
O suspense instalou-se também através do conforto que fomos encontrando na ausência de respostas concretas, no surgimento de ideias potencialmente não concretizáveis mas que, de forma mais ou menos convencional, se tornaram materiais.
Será que é pedir demais?
Será que vamos mesmo utilizar isto?
Será que resulta?
Será que conseguimos ter uma torre de plástico do chão ao teto do teatro?
Será que precisamos de uma banheira?
Será que o Victor e a Sofia começam de pernas para o ar dentro da banheira?
Será que a Sofia vai dançar?
Será que o Manuel nos faz próteses?
Será que conseguimos fazer um reverse da peça toda?
Não me lembro de ter havido um momento em que estivéssemos completamente perdidos e sem rumo, no entanto houve desde o início um grande misticismo em torno daquilo que seria realmente o resultado de cada uma destas perguntas, o resultado de cada uma das nossas pesquisas, por muito que a nível teórico e conceptual nos tivéssemos alinhado de forma orgânica, sinto que ficou sempre aquela questão de “como é que isto tudo vai virar um peça?”.
“o suspense é um estado de tensão ou incerteza que mantém o público ansioso e curioso sobre o que vai acontecer a seguir.”
É justo dizer que todo este suspense se tornou um quarto intérprete da peça, uma entidade capaz de permear o espaço interno e externo, uma criatura metafísica de mãos dadas a cada milisegundo de “o que está a acontecer? o que vem a seguir?”.
Este papel em voz-off, talhado a branco, suado, iridescente, incandescente e afeto à beleza do não-belo pode até ser a resposta para a pergunta de como tudo isto surgiu. Não houve propriamente um caminho linear à criação, o desconhecido foi um dos pilares fundadores da nossa interação, desde que não nos conhecíamos de forma pessoal ou artística, ao facto de que nos eram alheias as maneiras de como poderíamos articular coerente e concisamente não só as nossas áreas de expressão mas também as nossas vontades criativas. Foi assim que tudo foi encontrando a sua forma, no calor de não se saber que forma lhe dar em primeiro lugar, e no testemunhar naif do erguer misterioso de toda uma realidade paralela.
É justo dizer que esta questão, que para mim é relevante e se desdobra em tudo isto, não é mais do que uma partícula daquilo que na realidade foram quatro semanas num rabbit hole.
Com tudo isto não concluo e guardo a vontade de que este processo se prolongasse por mais tempo. Ficaram demasiadas ideias em suspensão, sEm Pressão mas com vontade de que lhes fosse dado o tempo para terem corpo próprio.
Há seres que levam vinte e dois meses para nascer.
Com tudo isto guardo bastante e descarto algumas incertezas pelo tempo que me foi dado para mergulhar de cabeça nas inquietudes que poderiam ter passado mais meia eternidade a cultivar culturas de fungos nos confins das minhas vontades.
Há seres que se criam para nascer.
Um perdão por toda esta grande incoação.
Um enorme obrigado à Bárbara e à Sofia pela partilha constante e pela inspiração.
Um enorme obrigado a toda a equipa do Em Pressão pela oportunidade, confiança e trabalho.
Um enorme obrigado à equipa técnica do Teatro Municipal Sá de Miranda pela disponibilidade e apoio.
Um enorme obrigado a todas as estruturas acolhedoras e financiadoras deste projeto.
Uma mini série de 4 episódios, onde nos sentamos à mesa com artistas, agentes culturais e comunidade para refletir sobre práticas em rede no setor cultural.
Tendo a colaboração como um dos pilares fundamentais deste evento, propomos para esta edição reimaginar a forma como estabelecemos e nutrimos esta complexa rede de relações entre agentes culturais e a comunidade.
Interessa-nos refletir sobre as dinâmicas de interação entre os diferentes agentes culturais e como estas redes se estabelecem. Entender qual o seu impacto na prática artística, na oferta cultural e na sua integração junto das comunidades.
Num mundo que atravessa um processo de uniformização de grande escala, importa perceber como se combatem (ou não) fenómenos como as modas e as tendências artísticas e entender como se pode compatibilizar dinâmicas em rede com uma programação que se quer heterogénia e uma criação artística livre e independente.
Conversa é um nome feminino. Provavelmente a palavra adquiriu uma das melhores qualidades que o género feminino tem: a acuidade.
Também se costuma dizer que “a conversa é como as cerejas”, quando se escolhe uma, vêm sempre mais atrás.
Mas quando se chega à palavra “moderar”, o dicionário especifica que é um verbo transitivo esclarecendo, entre outras definições, que é “dirigir ou agir com moderação ou contenção ou sem se deixar levar pelas próprias paixões ou apetites”.
E aqui começou o mote às soluções dos problemas previstos: enfrentar a moderação de uma conversa com bastante acuidade auditiva e deixar-se levar pelas paixões e apetites de quem conversa.
Moderar as conversas do Evento Em Pressão em 2024 foi algo que nunca esperei fazer ou sequer estava na minha lista que se guarda num balde 【bucket list】.
Gosto de conversar, como qualquer outro Ser Humano que é social e apto a sê-lo, mas é sempre uma conversa longe de qualquer ribalta ou holofote, sem muita gente a ouvir e que, sobretudo, escorregue uma cerveja e haja, no mínimo, uns tremoços.
A empreitada foi aceite para me pôr à prova e depois para conhecer melhor a equipa que está na organização deste Evento e que me suscitou curiosidade no primeiro ano em que levantaram a poeira numa cidade tão calma como é Viana do Castelo.
Lembro-me perfeitamente de no ano um do Em Pressão, olhar para o que estava previsto ao longo dos dias e pensar, “que pena, mais um evento que irá desaparecer nas águas frias da indiferença vianense”.
Mas, felizmente, os meus augúrios de “velho do Restelo” caíram por terra e a 2ª edição apareceu mostrando a perseverança, a resistência e, por que não escrevê-lo, a teimosia de um grupo de jovens nascidos e/ou criados na cidade da foz do Lima.
Esta minha conversa escrita pretende apenas lembrar o que todos os vianenses esquecem – todos os vianenses, não. Parte dos vianenses, talvez… - que a cidade tem “sangue na guelra” e que é preciso lutar contra gigantes que no fundo não passam de moinhos.
Sem ser por acaso ou talvez mesmo por acaso, o poeta António Gedeão sonhou um poema chamado “Impressão Digital” e, a dado momento, escreveu ele:
Onde uns vêem luto e dores uns outros descobrem cores do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas onde passa tanta gente, uns vêem pedras pisadas, mas outros, gnomos e fadas num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos, querer ser depois ou ser antes. Cada um é seus caminhos. Onde Sancho vê moinhos D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes.
O Gedeão escreveu do que sabia desta Alma Lusitana. Eu apenas acrescento à conversa que o António Gedeão descreveu ao pormenor a Alma Vianense, sem ter consciência disso. Tudo isto vem a propósito das conversas e das ideias e das lutas e das resistências que nascem das redes que se criam entre os Seres.
O que o Evento Em Pressão número 2 pretendeu foi mesmo parar para pensar em conjunto e falar mais daquilo que nos pode unir nas nossas pequenas e grandes diferenças do que aquilo que nos desune nas caminhadas solitárias da criação, da intervenção, da mostra ao público.´
O que estes jovens de idade e de espírito pretendem é mesmo criar linhas, mesmo que singelas e ténues, que nos conectam muito para além das redes, das redes de amigos, das redes institucionais ou das redes do universo Zuckerberg.
“A criação é a mais eficaz de todas as escolas de paciência e de lucidez”, escreveu Camus.
Se ele fosse vianense, talvez tivesse substituído a palavra “paciência” por agonia e “lucidez” por alheamento. Mas aí já não estaríamos a discutir a criação. Provavelmente discutiríamos por que razão se haveria de discutir se o alheamento não se discute, apenas se pratica.
A equipa do Em Pressão propõe, uma vez mais, a necessidade de criar, conversar, discutir, convergir e transpor no colectivo a importância de querer chegar a cada vez mais pessoas, tocar-lhes no seu íntimo 【se isso é possível】 e mostrar a uma cidade que Arte é onde “o homem se ultrapassa definitivamente”, como pensava Simone de Beauvoir.
Conto com a edição número 3 do Em Pressão. A cidade precisa e, quem sabe, talvez agradeça a conversa à sua volta.
【disclaimer】
Os textos que se seguem são uma seleção parcial dos episódios do podcast Em Pressão. Para ouvir os episódios completos aceda ao podcast Em Pressão, disponível no spotify ou em www.empressao.com
Transcrição e adaptação/seleção por Sara Miguelote e Manuel Almeida
【ALEXANDRE MARTINS】
【...】
Se tivesse que se apresentar, como é que a Maria José Guerreiro se apresentava às pessoas? O que é que diria?
【MARIA
JOSÉ GUERREIRO】
Eu acho sempre que tenho muito pouco interesse em apresentar-me. Mas também dependeria a quem eu me estaria a apresentar. Eu sou professora e todos os anos tenho de me apresentar aos alunos e, portanto, essa coisa de apresentar não é muito estranha. Maria José Guerreiro, nascida em São Martinho de Coura, concelho de Paredes de Coura. Vim viver para Viana do Castelo quando tinha oito anos. Desde então tenho estado sempre por Viana, a não ser no período em que fui estudar para o ensino superior. Ou seja, já tenho mais anos de Viana do que de Paredes de Coura. Mas uma pessoa tem sempre aquela nossa raiz, que está sempre lá. Do que é que eu gosto? Eu gosto de falar do que eu gosto. Não gosto de falar daquilo que eu não gosto. Gosto muito de ler. Gosto muito de literatura. Gosto muito de estar com pessoas. Gosto muito de falar. Gosto muito de música. Gosto muito, sobretudo, poesia. Gosto da natureza. Gosto muito de animais.
【AM】
Então podemos dizer que a arte sempre esteve presente, não é? Sobretudo por esse gosto que eu sei que tem, e também sendo professora de português…
【MJG】
Sim. Eu não sou artista de área nenhuma. Não sou especialista em rigorosamente nada. Agora apetecia-me dizer “graças a Deus”. Mas por isso mesmo gosto de muita coisa e estou sempre aberta a muita coisa. Do ponto de vista da arte, sim, talvez por gostar de literatura. E nós às vezes esquecemo-nos que a literatura também é uma arte. Esquecemo-nos porque nas escolas os professores fazem os possíveis por assassinar essa parte, por estragar essa coisa, esse prazer da arte, sobretudo no que diz respeito à literatura. Aquela com as métricas, e com as rimas, e com os substantivos, e com os sujeitos, e com os complementos. Agora há um complemento fantástico que se chama oblíquo. E, portanto, essas coisas, na minha opinião, nem sempre fazem com que a literatura seja de facto encarada como uma perspetiva artística e é quase vista, muitas vezes como técnica, uma técnica qualquer. Portanto, se calhar, esse meu gosto pela literatura acaba por me fazer gostar de outras coisas, que acabam por estar ali um bocadinho ligadas. O interdisciplinar é um aspeto muito interessante e que me diz muito.
【AM】
Tendo 【a Maria José】 tantos anos de Viana do Castelo, e pegando nesta questão que estamos aqui a tentar debater sobre a arte e a relevância da arte para o público vianense, como é que caracterizaria este tecido cultural vianense?
【MJG】
Pegando na metáfora que apresentou, os tecidos são feitos de fios, e os fios são múltiplos e vários. Portanto, quando nós falamos de uma coisa que é o público, nós não podemos falar do público, temos que falar de públicos. Assim, quando falamos de arte, também temos que falar de artes e de muitas, muitas coisas.
【AM】 E especificamente em Viana?
【MJG】
Sim, sim. Eu ia tentar agora mergulhar um pouco aqui em Viana. Penso que, como nos outros locais, nós encontramos várias áreas, encontramos vários públicos, encontramos vários níveis, encontramos várias culturas. E, por vezes, em Viana do Castelo, acho que os públicos se segmentam muito. Ou seja, o público que vai ver um determinado espetáculo é capaz de achar que o outro espetáculo, de um outro género, mesmo que seja cultural, pode não ser tão interessante. Eu acho que ainda está muito entranhado nas pessoas aquilo que é a arte mais elitista, a arte culturalmente mais valorizada, e aquela que pode ser menos valorizada. Aquela que pode ser mais, digamos, vulgar, e aquela que é só para alguns. Eu acho que isso está muito presente. E pegando no exemplo muito forte em Viana do Castelo, as pessoas que vão a um festival de folclore, muitas vezes não têm o mesmo gosto ou não têm a mesma motivação para ir assistir, por exemplo, a um espetáculo de dança contemporânea. E, no entanto, são pessoas que gostam de dança e são pessoas que gostam de ver dançar. Isso é interessante. Eu acho que é interessante e faz-me muitas vezes perguntar a mim própria porque será assim. Porque é que isso acontece? Porque é que há essa estranheza, às vezes, de um lado e do outro? O inverso também é verdade, curiosamente. Pessoas que, quando há um espetáculo de dança contemporânea, estão entusiasmados e vão assistir, mas se calhar não estão disponíveis para assistir a um espetáculo de dança folclórica. Também é interessante. Às vezes, pergunto-me porquê. Porque eu vou a um e a outro com o mesmo gosto, com o mesmo prazer de ver e com o mesmo fascínio. Acho que no nosso folclore temos movimentos lindíssimos, coisas fantásticas do ponto de vista de movimentos de braços, e de pés, e de ancas. E acho que a dança contemporânea também tem movimentos lindíssimos de braços, e de pernas, e de ancas. E, portanto, às vezes tenho dificuldade em perceber porquê. Mas lá está, são públicos diferentes, se calhar. São formas diferentes de estar nas coisas ou perante as coisas, não sei.
Como é que lidou durante o tempo em que esteve na vereação da cultura com todos estes fatores e todas estas tensões? E depois, já agora, deixe-me acrescentar mais uma pergunta. Acha que depois, com este caldo todo, Viana consegue funcionar em rede?
Eu penso que as pessoas têm consciência disso, mas às vezes não têm. Não existe propriamente um curso de preparação para
exercer cargos políticos. Quer dizer, as pessoas vêm exercer cargos políticos e claro que a nossa experiência de vida é muito importante. Eu quase defendo que uma pessoa só deve exercer cargos políticos a partir de um determinado momento, depois de se ter tido uma vida profissional, depois das pessoas conhecerem o mundo, digamos assim. Eu acho que é muito importante essa base, esse substrato. E, portanto, quando cheguei a esse cargo, naturalmente que tive de perceber muita coisa que até ao momento não tinha percebido. Porque é um cargo fantástico, conhecemos muita coisa e conhecemos sobretudo essas camadas todas. Às vezes, as camadas são quase como as camadas tectónicas. Às vezes essas camadas chocam e fazem erupções. E é importante nós percebermos quando chocam e porque chocam. Eu devo dizer que não sou nada aquele tipo de pessoa que acha que tudo deve estar calmo. Não sou nada esse género de pessoa. Acho que às vezes é importante que haja choques para que depois as coisas encontrem uma nova organização, encontrem um novo olhar. 【...】 É porque tinha de ser, é porque as coisas precisavam de se mexer e porque as coisas precisavam de dar aquela volta.
Portanto, isso não me preocupa nada. Não tinha nenhuma preparação prévia, como acho que ninguém tem, mas isso, eu falo por mim. E, naturalmente, foi a experiência que me foi dando essa capacidade, o conhecimento para lidar com uma realidade que é compósita. É uma realidade feita de muitas coisas. Os equilíbrios são constantes e é preciso sempre tentar encontrar isso. Sobre a cidade de Viana do Castelo e o facto de estar parada ou deixar de estar parada. Acho que Viana não está parada. Aliás, quase podíamos arranjar aqui uma metáfora. As metáforas são muito boas, são excelentes para dizer aquilo que não conseguimos dizer de outra maneira. O que é que eu quero dizer com isto? Há, naturalmente, uma aparência de que está tudo na mesma. Há uma aparência da mesmice, mas na realidade isto não é a mesmice. Agora, as coisas se calhar não vão a um ritmo como gostaríamos que fossem, eventualmente. Mas também, Viana do Castelo é uma cidade que, comparativamente com outras capitais, não tem tanta massa crítica. Também a cidade de Viana do Castelo ainda não teve oportunidade de ser capital da cultura e, portanto, ter tido esses inputs, esses incrementos, essas inspirações que uma capital da cultura muitas vezes tem, como Guimarães, que teve essa oportunidade.
Acho que estão sempre a surgir situações novas, coisas diferentes, iniciativas diferentes. O que eu acho é que muitas vezes - mas isso, lá está, se calhar nos outros sítios também é a mesma coisa, pelo menos por aquilo que eu ouço -, o que eu acho é que muitas vezes os públicos são muito... muitas vezes, como não temos massa crítica, temos pouco público para cada coisa. Ou seja, imaginemos que fazemos um espetáculo. Organiza-se um espetáculo de uma determinada área e vão os amantes dessa área. Porque também não há muita gente, também não enchem muito a sala. E depois quando se faz um outro espetáculo, de outra área diferente, aqueles já não vão, vão outros. Portanto, acaba por haver uma dispersão grande. Eu acho que temos em Viana do Castelo desde aquele público que não gosta de coisas muito arrojadas (não gosto da palavra conservador porque acho que às vezes não é a palavra
correta), que gosta daquilo que é expetável.Mas também temos muitas camadas, em várias áreas, de pessoas que estão a fazer coisas diferentes e coisas interessantes. E algumas dentro da linha que tinha falado há pouco, indo buscar à tradição, com tudo o que a palavra tradição implica.
E que é necessário preservar.
Que é necessário preservar e porque sem passado nós não somos presente. Também, como diz o outro, não podemos pensar no futuro. Mas há muitas pessoas a fazer coisas diferentes, a pensarem coisas diferentes, a pensarem coisas novas. Há jovens que estão a vir. Porque depois nós também temos este problema. Não sei se é problema, mas enfim… Temos esta situação de jovens que estão em Viana do Castelo, e normalmente aos 18, 19 anos vão para o Porto, para Coimbra, para Lisboa, para Braga, frequentar os seus cursos, as suas escolas. Alguns deles mantêm-se por lá. E, quando vêm cá, vêm de férias e pouco mais. E aqueles poucos que regressam estão a tentar fazer algumas coisas ou vão tentando fazer algumas coisas diferentes. Mas lá está, temos sempre este problema da massa crítica não ser suficientemente forte para aguentar. Porque é assim, o artista precisa viver também.
【AM】
Depois há a minha questão de há bocado, se há rede em Viana do Castelo. Mas eu gostava de explorar um bocado mais esta questão da massa crítica. Como é que se dá a volta a esta situação, na sua opinião? Como é que nós criamos massa crítica? Como é que nós confrontamos as pessoas com algo que sai do pé? 【MJG】
Eu acho que a programação cultural deve conter estes vários elementos que eu falei há pouco. Ou seja, deve apresentar espetáculos ditos mais tradicionais - e quando falamos de Viana do Castelo, estamos a falar também de folclore -, e deve apresentar espetáculos que possam ser 【para um público mais pequeno】. Mesmo que as pessoas digam “ah, é só para alguns!”, não interessa. É para alguns. E se hoje vão alguns, se calhar amanhã podem ir mais três ou quatro. Depois, noutro dia, mais cinco ou seis, e cria-se algum hábito dessa assistência a determinado tipo de espetáculos. Por outro lado, parece-me que agora estamos a assistir também a isto: tenho notado, por exemplo, na área da dança e do teatro, que começam a surgir vários grupos. Grupos de dança e de teatro que estão a fazer, que estão a tentar e que fazem falta. Fazem falta outras coisas, coisas diferentes, se calhar, coisas menos institucionais ou menos consensuais.
Já agora - e para terminar este tema da autarquia -, a autarquia tem aqui um papel fundamental na criação de uma massa crítica, na criação do trabalho individual, do trabalho em rede, ou apenas deixa que as coisas aconteçam e que as pessoas batam à porta e tentem existir?
A autarquia tem sempre um trabalho delicado a fazer, um trabalho de equilíbrio. A autarquia, acho que apoia. Apoia os trabalhos emergentes que possam surgir, trabalhos novos, artistas novos. Mas a autarquia também não pode fazer o trabalho. Ou seja, tem de haver por parte do artista ou dos artistas, algum trabalho para se mostrar aqui e ali. De fazer, de tentar, de se candidatar, de apresentar propostas… Eu acho que também deve haver esse equilíbrio de um lado e do outro. Claro que a autarquia pode, por exemplo, como penso que agora está a acontecer, promover alguns concursos que permitam mais 【apoio】 para novos talentos. Eu acho que os concursos para novos talentos são muito interessantes porque têm essa particularidade de ajudar à emergência, ajudar à aparição de pessoas que estão um pouco submersas, um pouco escondidas, que não se sabe muito bem que estão ali. Mas também a autarquia, penso eu, deve ter algum cuidado para não fazer com que os artistas sejam oficiais, que não sejam a voz da autarquia. Acho que isso é muito importante. Porque acho que, às vezes, os apoios também fazem com que as pessoas fiquem um bocado coartadas na sua liberdade. Também não sei se isso é muito interessante. Isto é a minha opinião.
[ALEXANDRE
MARTINS]
Em relação ao teu trajeto artístico, ainda não disse o que é que tu fazes. Se calhar era bom que tu te apresentasses.
[IVA VIANA]
Eu fiz Belas-Artes no Porto, e fiz escultura. Entrei com o estatuto de alta competição, que é uma coisa que até é interessante falar. No início eu tinha um pouco de vergonha disso, mas não tenho nada que ter vergonha, porque consegui sempre conciliar. E, lá está, esta minha paixão pelo remo esteve sempre muito presente. E isto é curioso porque nós, com o estatuto de alta competição, podíamos escolher o que quiséssemos. E na minha altura, quem estivesse em ciências ia para medicina ou quem estivesse em artes ia para arquitetura. E eu fui para escultura, que dentro das artes era a que tinha a média mais baixa. E foi a minha única opção, porque era realmente aquilo que eu queria. Não sei se fui um bocado influenciada também aqui pelo professor Manuel Rocha, que era o escultor que nos levava a ver as esculturas monstruosas que ele fazia. Ou até mesmo por uma professora que eu tive de trabalhos manuais, a professora Lucinda. Portanto, foram sempre pessoas que me foram tocando, até que cheguei aos meus pais - e a eles também lhes agradeço que nunca me tentaram dissuadir do assunto. Optei por ir para escultura. Depois, na faculdade, tive de provar que ter um estatuto de alta competição não quer dizer que não tenha valor. Provar, se calhar, para mim. Depois disso, de fazer escultura, tive de voltar a Viana um bocado contrariada. Surgiu uma proposta de entrar numa empresa de gessos decorativos, sediada em Barcelos. E foi onde eu tive o contacto com a técnica do estuque, com os estucadores portugueses, porque a mão de obra era toda portuguesa. Foi uma proposta em que eu tinha de ser técnica de escultura. Ou seja, eu recebia as propostas e tinha de executar à risca. Estive seis anos lá e costumo dizer que foi o meu doutoramento após a faculdade. Foi mesmo muito bom. Nos primeiros três anos, eu nem sequer percebia que estava numa empresa. Nem queria saber, só queria aprender. Nos últimos três anos já haviam coisas ali que me estavam a massacrar e a doer. E foi quando saí. Despedi-me e, seis anos depois, abri o meu atelier Iva Viana, especializado em escultura de gesso.
[AM]
Mas foi um processo que foi uma transição rápida, da empresa para o atelier, ou foi uma coisa que tu foste fazendo pela calada da noite, por assim dizer?
【IV】
Nunca foi pela calada, porque eles sabiam. Eu abri o atelier 【quando】 ainda estava com eles, porque pedi-lhes redução de horário. Mas depois, rapidamente percebi que tinha de me despedir e seguir o meu trajeto. O essencial foi encontrar um espaço meu de trabalho. E depois de perceber o quanto era fantástico ter o meu espaço de trabalho, foi seguir o que tinha de seguir. E foi quando me despedi.
Isso é interessante porque a comunidade de Carreço é conhecida também pelos estucadores, não é?
Afife e Areosa. E Carreço também, mas essencialmente é Afife e Areosa. Sim. Os Baganha e os Meira.
【AM】
E também tiveste esse conhecimento...
Vou ser muito sincera, nessa altura, quando entrei na empresa, ninguém falava dos estucadores aqui em Viana do Castelo. Está-se a falar 【desde】 há uns anos porque há aqui um potencial e um nicho que se pode explorar. Mas não se falava. E eu até acredito que o meu trabalho também veio mostrar esse potencial. E agora, tudo o que são casas estucadas são muito mais valorizadas. Mas há quinze anos atrás ninguém queria saber desse assunto para nada. Portanto, eu própria não conhecia. E durante esse período, comecei a visitar alguns estucadores. Lá em Carreço também. Lembro-me de ir visitar o senhor Guterres e explicar-lhe o que fazia. Ele riu-se, muito simpático. Depois, quando ele veio ver efetivamente o que eu estava a fazer, 【acabou por compreender】. Isto também foi ganhar o respeito dos meus pares, que são homens velhos, desculpem o termo. 【...】 Acho que agora ganhei o meu espaço.
【IV】
Que objetivos é que tu tiveste, além dos que já colocaste em cima da mesa, para essa abertura 【ao público】 do teu atelier?
Foi exatamente para dar oportunidade a essas pessoas. Estou a dar estas duas horas de cada sábado para as pessoas irem conhecer. Portanto, têm estas duas horas. Venham, a porta está aberta.
【AM】
Então, de certa maneira, podemos afirmar que o público vianense...
【IV】
Não é só o vianense. Isso para mim é um erro. Eu faço isto para Portugal inteiro e até para Espanha. Não estou a imaginar ninguém a apanhar um avião para vir ver o atelier, mas quem sabe, isso possa acontecer. Tenho gente de todo o país. Aconteceu virem uns senhores que entraram às dez horas e saíram ao meio dia. Eles estiveram a curtir o atelier duas horas. Vieram de autocaravana, eram de Viseu ou de Vila Real. Estavam ali tranquilos e depois ficaram a dormir na cidade. Portanto, acho que isto também ajuda a mexer no resto. Há sempre alguém que fica para comer, fica num hotel. Tenho pessoas de Lisboa, tenho pessoas do Porto - da zona do Porto são quase 90% 【das pessoas que visitam o atelier】. Claro que o pessoal de Viana é todo muito bem-vindo, mas eu não posso pensar única e exclusivamente fazer isto para as pessoas de Viana. Não, isso é, para mim, um erro. Não vale a pena. Eu penso para o mundo inteiro, que venham.
【AM】
Em relação à autarquia, tu referes que não estás à espera que esta faça qualquer coisa, preferes tu dar os primeiros passos. Se estivesses num lugar de poder, o que é que achas que funcionaria aqui neste meio 【Viana do Castelo】?
【IV】
Vendo estas camadas mais jovens, eu acho que tem de se apoiar mais, mas tem de se apoiar efetivamente com espaços. É claro que é um bocadinho tendencioso, estou sempre a pensar nas artes plásticas, mas se calhar isto aplica-se também à música e à expressão dramática. 【...】 E acho que era bom que houvesse espaços para estas camadas mais jovens. E haver alguém a acompanhar para percebermos se há alguém realmente a trabalhar bem, para depois dar continuidade. Dar continuidade sem nunca esperar nada em troca. Ajudar a alavancar, acho mesmo essencial. Acho que é fundamental a cultura. E acho que nós estamos a dar pouco valor. As escolas também não... Eu tenho uma bebé de um ano e preocupa-me. Preocupa-me que lhe deem um desenho com limites para ela começar a pintar dentro. Isto para mim é agoniante, porque acho que uma criança tem de se exprimir. Se já lhes estão a dar aqueles limites... Isto tem a ver também com a educação e com a formação que se dá. Acho que se está a perder muito, que devia ser obrigatório ir-se ao teatro e a concertos. Fazer mesmo parte do currículo escolar, para nós chegarmos 【depois】 a adultos e 【sentirmos necessidade】 de ir ao teatro, ou ir a um concerto, ou ir ao cineclube. Como quem precisa de comer. Porque é cultura e nós precisamos disso. E é o que nos identifica a nós também.
【AM】
【Sobre】 esta juventude, como é que tu vês a questão das redes sociais 【em relação】 à cultura. Ajuda ou não ajuda?
【IV】
Eu acho que é uma plataforma. Tens de a saber usar bem.
【AM】
O que é que isso quer dizer?
【IV】
Quer dizer que há muita gente que a usa mal. Eu acho mesmo que funciona se nós a usarmos bem. Eu não vou para as redes sociais falar da minha vida privada. É tão simples quanto isso. Eu uso a rede social para aquilo que me convém, dentro daquilo que é a esfera do meu trabalho.
Eu também tenho uma parte 【do meu trabalho】 muito comercial. Uso-a mesmo para isso. Tenho clientes da China através das redes sociais. Porque as usei bem. Dá trabalho? Sim. Porque isto é outra coisa que as pessoas não percebem, isto não me caiu do céu. Eu tenho o atelier há 11 anos, e só agora estou a parar um bocado, porque resolvi ter uma filha. Senão, eu trabalhava dias a fio para que as coisas acontecessem. Eu acho mesmo que as redes sociais são fundamentais. 【Mas também】 me preocupam, porque nós estamos muito dependentes delas,
e tenho-me questionado muito sobre isso. Vejo que estou muito dependente do Instagram. 【Tenho】 um pânico monstruoso porque, desde há uns anos, andam a roubar contas de Instagram. Tenho amigas que perdem contas com anos, e às vezes não são só os seguidores 【que importam】. Para mim, as contas nas redes sociais são uma espécie de diário de bordo.
E para este teu trabalho, que te divide entre o lado artístico e o lado mais comercial…
O lado comercial foi uma alavanca. Como eu costumo dizer: é aquela garrafinha com a mensagem dentro que vai para todo o lado. Uma peça mais acessível e pequena, que são as flores de Iva Viana.
Tive há uns anos uma parceria que me surgiu e que eu recusei 【inicialmente】, mas depois disse que sim. Foi com os reclusos de Viana do Castelo, com a cadeia. Em 2020 eles fizeram-me uma proposta para fazerem a reprodução 【das flores】. No início recusei. Achei aquilo um bocado estranho. Porque o problema é que quando tu tiras os moldes de dentro do teu atelier, podem ir parar às mãos erradas. Resolvi tentar. No início, nem comecei com as flores, comecei com umas peças muito simples. Aquilo estava a funcionar muito bem. Estou desde 2020, a trabalhar com os reclusos e graças a eles é que ainda existem flores de Iva Viana, caso contrário, já tinham terminado por ser um trabalho muito repetitivo. É quase industrial. O processo é todo manual, mas a verdade é que aquilo é uma indústria, sai em série.
Eu já não aguentava mais ver flores. Estava a ficar mesmo agoniada, mas acho que é compreensível. As pessoas perguntam-me: "tens flores em casa?", e eu "não, nem pensar". É impossível. Para já, porque convivo com elas todos os dias. Todas as semanas, desde novembro 2020, nós vamos buscar os “jardins”¹. Aquilo funcionou muito bem. Agora está a funcionar mais ou menos, porque 【os reclusos】 saem. No início deram-me ali uma coqueluche fabulosa. Não imaginas a quantidade de mãos fabulosas que estão ali dentro e que podem fazer coisas incríveis.
【Com essa】 primeira equipa, num ano em que houve uma exposição dedicada aos estuques, mandei a proposta para visitarmos o museu, e eles aceitaram. Foi espetacular e fiquei mesmo feliz. O Ricardo, do Museu de Artes Decorativas, ficou tão empolgado que mostrou-lhes o museu todo. Percebi que era incrível isto acontecer com todos, levar a cultura às prisões e a importância que tem para estas pessoas. Eles ficaram tão apaixonados e eu fiquei a pensar que isto tinha de acontecer mais vezes. Nunca soube o que é que eles fizeram. Não sou ninguém para estar a julgar, eles já estão a cumprir a pena deles. Já fui atacada por causa disso, porque não devia estar a trabalhar com estas pessoas, que devia estar a trabalhar com as vítimas. Mas eu acho que se eles saírem de lá melhores, toda a sociedade ganha. É tão simples quanto isso. ¹ «jardins»: refere-se a um conjunto de flores de Iva Viana.
CALHIM CRISTÓVÃO - ASSOCIAÇÃO NUISIS ZOBOP
【ALEXANDRE
MARTINS】
Desta feita, temos connosco a dança, o corpo, a expressão e trouxemos para a nossa conversa, a Joana von Mayer Trindade e o Hugo Calhim Cristóvão, que fazem parte da estrutura Nuisis Zobop. Sejam muito bem-vindos Joana e Hugo. Muito obrigado por estarem presentes nesta conversa. Em termos de trajeto artístico, como é que vocês contariam a vossa narrativa?
【JOANA VON MAYER TRINDADE】
Há a minha narrativa, há a narrativa do Hugo e há uma narrativa que foi construída em conjunto. Para ser muito sintética, desde miúda que sempre dancei. Lá para os 19/20 【anos】, conheci o Hugo e começámos a fazer ensaios em estúdio. Bastantes ensaios, mas só de investigação. Ou seja, sem desejar fazer peças, sem desejar concorrer a concursos. Foi muito através da investigação. Na altura, eu estava a estudar psicologia e o Hugo estava a estudar filosofia. Mais tarde juntámo-nos em Lisboa e criámos a Nuisis Zobop. Faço esta breve introdução e depois vamos à Nuisis Zobop. Deixo o Hugo agora falar.
【HUGO CALHIM CRISTÓVÃO】
A primeira coisa que eu quis fazer foi escrever. Foi o meu primeiro interesse na parte artística, se me quisesse apresentar. Foi a escrita, desde muito cedo. Era aquilo que mais me fascinava. Textos e literatura. Tenho cadernos e cadernos cheios. Depois, comecei a interessar-me bastante por artes marciais. Pelo corpo. Isso trouxe filosofias orientais. Esses dois tipos de prática foram muito importantes. Foi muito importante a educação. Foi muito importante a minha mãe. Foram muito importantes os livros que eu li, alguns que me marcaram. Passou para essa parte, do corpo. Cheguei aos 14, 15 anos e desenvolvi um outro interesse, antropologia. Também por causa de um livro. Aquilo que eu estudei durante muito tempo e que me fascinava era a alquimia. Mas a alquimia, não com Jung, mas com os textos, de Basilius Valentinus, 【Nicolas】 Flamel, Fulcanelli, o Mistério das Catedrais¹. Esse processo de transmutação. Queria ser bruxo. Depois, quando quis ir para a faculdade, tinha um problema. Tudo me parecia demasiado concreto. Engenharia, sociologia, antropologia, tudo era muito concreto. Tudo era um só tema. Acabei por escolher filosofia e, entretanto, continuava a praticar artes marciais e escrevia. Porque a filosofia era abstrata, era uma coisa que me permitia vaguear por vários sítios. Com a filosofia senti que me faltava o corpo. Faltava-me o corpo. Faltava-me a experiência. Faltava-me a transgressão. Faltava-me o impacto. Faltavam-me essas coisas todas. E, então, acabei por, do nada, decidir fazer teatro. E deixei a filosofia. Fiz um curso, fiz outro, fiz outro. E depois sim, conheci a Joana - já quando deixei a Filosofia e fazia teatro. Fiz muitas experiências com colegas meus. Não estava propriamente interessado em ser ator, apesar de até o fazer razoavelmente bem. Mas fiz muitas experiências de direção. Depois, começámos a trabalhar juntos. Gravitei para trabalhar com pessoas que tinham um certo tipo de trabalho corporal.
¹ Cf. FULCANELLI. O mistério das catedrais: A arte de construir na Idade Média. Tradução de António Carvalho. Lisboa: Edições 70, Lda., 1998.
Enquanto ator, aquilo que me fascinava era o que não existia cá. Era Stanislavski, mas Stanislavski via Toporkov e Grotowski. Tive experiências de trabalho nisso. E Mikhail Chekhov. Paralelamente, a alquimia nunca desapareceu. Essa ideia de um processo alquímico de transformação, de uma transformação real. Aquela ideia de que, enquanto ator, não queres ver a chuva, queres realmente sentir a chuva - a ideia mítica da transformação. A Nuisis Zobop é outra história, já foi mais tarde.
Sim, a Nuisis Zobop. Podemos falar um bocado deste nome. Zobop tem a ver com metamorfose e com transformação - isto que o Hugo falava. E Nuisis são duas deusas egípcias. A junção de dois nomes, Nuit e Isis. Na altura nós estávamos, e ainda continuamos, muito interessados sobre a questão do feminino. Fiz dois solos, o Veleda2, que era uma homenagem a Maria Veleda - um pseudónimo - que foi a primeira mulher a discursar no meio de homens num comício. Passou por um processo em que se interessou e depois desinteressou-se pela política. Também passou por um processo de se interessar muito por esoterismo e acabou a promover educação a miúdos órfãos que não tinham possibilidade de estudar. Esse solo foi uma encomenda que me foi feita nos 100 anos da República. Estes solos foram feitos já com o Hugo, depois de muito tempo de investigação,de trabalho, de pesquisa. Trabalhámos no estúdio com colegas minhas e com colegas do Hugo.
Mais tarde, fiz bastantes formações. Trabalhei com coreógrafos cá em Portugal e lá fora. Depois de uma grande viagem à Índia, depois do meu pai ter um processo de cancro e falecer, decidimos-nos sediar no Porto. E é cá que estamos desde 2013/14 a desenvolver processos com apoios, aberto a outros bailarinos, a outras pessoas, a outros investigadores.
A História das artes ocidentais e a história das artes dramáticas ocidentais, da maneira como a estudamos, está muito ligada com a Grécia. Começas na Grécia e depois tens uns pequenos textos do Bharatanatyam, algumas coisas indianas, japonesas. Achámos que essa filiação estava errada. Em termos de dança tens a Ruth St. Denis, ou seja, muitas pessoas que vão buscar essa filiação não na Grécia - Pólis, cidade, uma arte catártica, uma arte que está muito facilmente dividida entre tragédia e comédia -, mas ao Egipto. E o grupo dela chamava-se Isis. Interessava-me parti- cularmente essa ligação com África, com o Egito. Com qualquer coisa de inicialmente não ocidental. E com Nuit, a divindade principal antes do mito de Osíris e da filosofia (proto) crística que começa a surgir aí. Zobop tem a ver com África. Tem a ver com ter nascido em África, ter muitas memórias africanas. Com durante muito tempo ter estado interessado em rituais tradicionais de vodu. Zobop é uma seita vodu. Significa aranha. Significa tecer. Essa filiação pareceu-me interessante em termos de nome. E na arte como veículo - não sei se sabes, mas é baseada em canções Vodu, uma espécie de um transe criado - a transformação é imediata.
2 NUISIS ZOBOP. Veleda. Criação e direção de Hugo Calhim Cristóvão e Joana von Mayer Trindade. [peça de dança]. 2010. Disponível em: https://nuisiszobop.com/
Existe um processo de transformação imediata em que a noção de personagem não está propriamente envolvida, que acontece por vibrações. Isto foi o início, da minha parte, desse nome Nuisis. Depois, sempre me interessou tudo o que eram as práticas rituais ocidentais, não cristãs. Sempre achei o cristianismo um verdadeiro desastre, mesmo em termos performativos. Os atores não têm alma. As atrizes não existem. Há uma assimilação. Em 1945/50, começa a surgir uma espécie de corrente, que agora se chama New Age. Dentro dessa corrente, havia um senhor chamado Kenneth Grant, que criou uma coisa chamada New Isis Lodge3 , em que substituiu a Virgem Maria por uma besta. Por uma espécie de mulher besta. E isso também me parecia interessante em termos de filiação.
【JVMT】
E, curiosamente, 【o nome】 Veleda quer dizer Völvur, e tem a ver com toda a mitologia viking. Nesse trabalho dos solos também trabalhámos muito sobre runas, sobre os vikings, sobre essa mitologia da mulher nórdica, uma mulher guerreira, uma mulher muito emancipada, que a nível de sexualidade não tem nada a ver com a mulher católica.
【HCC】
E o próprio termo Völvur4, já que estamos nisto, vem de vulva. É a velha discussão feminista, se falas de vagina ou falas de vulva - a coisa não é inocente. Esse papel sacerdotal feminino era ocupado por uma Völvur.
【AM】
Eu achei muito interessante esta ideia do alquimista que quer agarrar um pouco de tudo e que quer crescer por dentro e por fora. Que quer criar mundos. Parece que - e queria ouvir a vossa opinião -, choca com o que nós estamos a atravessar em termos de sociedade, em que a cultura não é assim tão falada. Neste momento está a haver uma discussão sobre o orçamento deste país e pouco ou nada se fala de cultura. Como é que vocês estão a ver todas estas questões culturais e como é que acham que a sociedade as encara? Quando vocês falam de alquimia, e têm todo esse trajeto de conhecimento do corpo e da alma, (se é que posso chamar alma), como é que vocês olham para esta nossa sociedade que pelos vistos só se lembrou da cultura na altura da pandemia?
【HCC】
Temos que evitar a tendência de achar que as coisas estão pior ou que as coisas estão mal agora. Isso é qualquer coisa que nos impede de compreender a dimensão da situação em que estamos atualmente. As coisas não estão pior. Se nós nos lembrarmos de 1974/78, se nos lembrarmos das condições em que existia a dança, (do teatro nem se fala).Acho que isso é uma coisa muito importante. Compreender que as coisas estão bastante melhor e não nos colocarmos numa posição de
3The New Isis Lodge foi um grupo ocultista criado em 1955 por Kenneth Grant.
4A figura da völva (plural: völvur) remonta à antiga cultura nórdica pré-cristã, especialmente na Era Viking. As völvur eram mulheres xamânicas ou profetisas, dotadas de habilidades mágicas ligadas à adivinhação, à comunicação com o mundo espiritual.
“Isto está mal agora”. Não. Há perigos agora, mas esses perigos são de quem já tem uma certa dose de apoio, ou seja, existem concursos estatais, não estás dependente de um mecenas. As coisas estão melhor. Mesmo a situação de bailarinos, agora com 27, 28 anos, não tem nada a ver com a situação que era em Portugal há 15 anos. Acho que isso é importante.
O que existem são os perigos resultantes de uma normalização, de uma padronização que vem sempre associada a uma melhoria de condições de vida. Essa normalização corre o risco de tornar as pessoas extremamente confortáveis. Mesmo enquanto estão a tentar ser originais, acabam por ser extremamente conformistas. Há um conformismo de base. Por outro lado, é uma normalização muito forte. Uma normalização que quase impede que haja vozes discordantes. É um bocado como Chomsky dizia em termos de anarquia: dão-te toda a liberdade num espaço de liberdade muito pequeno. E nesse espaço de liberdade muito pequeno estás muito ocupado e acreditas que estás a fazer alguma coisa muito importante. Em termos de condições é o que eu tenho para dizer. Depois podíamos falar sobre cultura, sobre antropologia, sobre uma data de coisas. Mas basicamente é isso. Acho, sinceramente, que as coisas estão bastante melhor. Se eu tenho algumas saudades de quando elas estavam pior? Tenho. Às vezes, é-me difícil encaixar uma linguagem tão padronizada e tão confortável como a que existe agora. Mas isso é um problema meu. É isso que eu sinto.
Ele fez-me pensar na tua pergunta. Também há uma distinção entre cultura e arte. Mas tu perguntaste sobre a cultura e eu pensei na primeira pergunta5: no pão. Vai sempre haver pão e água. Mas também vai sempre haver arte. E da arte vai nascer cultura. Vai nascer identidade. Vão nascer raízes. Mas a questão é o que tu fazes com esse pão e com essa água. Não é só o ter. O que é que se faz com isso? Como? Para quem? Contra quem? De que modo? O que é que queremos colocar em cima da mesa? O que é que queremos? Pelo que queremos lutar? Se for só fazer por fazer...
Às vezes, neste modo de produção rápido, é só dar resposta imediata. E, aí acabamos, nesse perigo. De resto, acho que estamos mesmo muito melhor. Mas claro que tem de haver um investimento muito maior na cultura a nível de orçamento. Mas isso tem de ser acompanhado com essa bagagem de conhecimento. Com essa bagagem também de desviância, de fugir à norma. De procurar espaços que não sejam tão confortáveis.
E de desformatação de públicos.
Sim, de desformatação de públicos. E depois, claro que faltam aulas de artes nas escolas. Mas eu acredito que se isso existir, se for acompanhado de uma forma estrutural, talvez haja a possibilidade de fazer arte excepcional e fora da regra.
5 «primeira pergunta»: refere-se a uma pergunta do moderador que não foi incluída na edição final do episódio 3 do podcast Em Pressão.
Ou, pelo menos, a estatística será maior. Porque mais pessoas vão ter acesso a essas ferramentas e a esse conhecimento.
【HCC】
Acho que é necessário separar. Cultura eu consigo explicar muito bem o que é. Em termos de antropologia cultural, em termos de homo sapiens… Arte não te consigo muito bem explicar o que é. E acho que as coisas devem ser distinguidas nesse sentido. Na cultura as coisas estão infinitamente melhores. Estão infinitamente melhores ao nível de pessoas que estão na universidade, 【por exemplo】. A arte é uma questão diferente. Se quiseres, é como pensares em desporto nas escolas e atletismo de alta competição - não te faz bem, não é suposto fazer bem. O objetivo não é fazer bem. Quer dizer, a lógica é diferente.
【AM】
Essa desformatação que vocês falaram, não poderá entrar em choque com esta ideia do público resultar em números que [acabam por] chegar ao Ministério da Cultura? Às vezes, parece que há aqui uma pescadinha de rabo na boca que, se tu não tiveres público, não tens acesso a apoios estatais. E se o público não entende o que tu estás a produzir, pode fechar-te num ciclo, em que às vezes só trabalhas para um nicho. Não sei se me faço entender.
【HCC】
Acho que é um ponto de vista errado. O problema não é o público. O problema nunca é o público. Não é o público que te fecha. Não é o público que te quebra. Não é o público que te impede. São instituições que o podem fazer, trabalhando bem ou trabalhando mal. São pessoas à frente dessas instituições. Nunca o público. O público nunca é uma questão. Nós tentamos que haja público. E há um ponto em que há serviço público e em que isso é importante. Mas também é o papel de outras instituições e outras organizações trazerem público. Mas a questão nunca é o público. E, por outro lado, são necessárias métricas de avaliação.
【JVMT】
Aliás, o Hugo fez uma peça com a Paula Cepeda - eu só dei assistência - o Abaddon⁶, que era numa casa abandonada. Era 【um espetáculo para】 12 pessoas. Mas chegámos a fazer para uma pessoa várias noites. Porque não havia público, porque foi uma longa temporada. Chegou a ser feito em Viana, numa casa também. A Maria José Guerreiro saberá falar dessa experiência. Isto para dizer que, às vezes, ter uma pessoa que marcamos muito é muito mais impactante para uma sociedade do que ter uma massa de público. E o público, lá está, não é uma massa. O público é feito de individualidades, de pessoas muito subjetivas. Estou a falar de um ponto de vista de artista. Depois há este ponto de vista da instituição, da mediação que a mim me escapa. Quando eu e o Hugo fazemos trabalho e fazemos arte, não estamos a pensar diretamente no público. Ou seja, estamos a pensar muito e nada ao mesmo tempo. Mas não fazemos peças para agradar ao público. Isso não nos passa pela cabeça. Se em 100 pessoas nós conseguirmos tocar duas, para nós já é importante.
⁶ Abbadon. Criação, Encenação, Direção e Texto Original de Hugo Calhim Cristóvão [peça de teatro]. 2006. Disponível em: https://nuisiszobop.com/
Se essas pessoas, a partir dali, forem pesquisar o que é dança ou, até mais tarde, vierem a fazer dança como eu… Quando era mais nova e ia ver espetáculos de dança, o pouco que havia no Porto, isso foi muito importante para mim. Se calhar eu era uma daquelas pessoas entre 100 ou 200 que se tornou público de qualidade.
Não sei. Existe um ponto de vista 【em Abbadon】. Ou seja, não são encenações circulares. Eu explico: não é como o Príncipe Constante⁷, não é como o Fausto⁸, não é como Ariane Mnouchkine. Portanto, não é uma encenação circular. O Abbadon era um espetáculo imersivo, em que efetivamente estavas dentro do mesmo espaço e o espaço era assim construído. O Veleda também. O Veleda também era um espetáculo que implicava uma noção de espaço similar. Mas estes últimos são espetáculos em que há um ponto de vista. A partir daí, dizer que não se faz, tecnicamente falando, para o público, estaria a mentir. Ou seja, se há coisa em que eu passo imenso tempo a pensar é exatamente a montagem. O que é que acontece? Como é que o ritmo passa? Há esse olhar sempre. Nisso sou extrema- mente cuidadoso. É qualquer coisa que me obceca. Há também uma dimensão sempre de chão. E há também uma dimensão sempre de cima. Há qualquer coisa que circula independentemente desse olhar. E isso já é a parte da arte como veículo. Portanto, o facto que alguém vai ver 【o espetáculo】 está 【presente】. Depois, a questão não é propriamente se o público gosta ou não gosta. A questão é como é que tu controlas a atenção. A questão é se prende ou não prende. O gostar ou não gostar é qualquer coisa de muito pequeno para explicar o que é que se passa com aquele embate. A questão é se aquilo incomoda. A questão é se tu não queres olhar mas continuas. A questão é se aquilo começa a bater-te no estômago. A questão são muitas outras coisas. E isso só é permitido na situação performativa 【...】, mesmo que não exista público, só se houver essa ideia de que existe uma outra presença incógnita, uma outra presença anónima que vai ver ou que vai estar lá. E depois, a partir daí, muitas coisas mais se podem jogar. Portanto, o público é extremamente importante. Sem o público, o que tu estás a fazer é outra coisa.
Podes estar a contactar com muitas coisas. Mas não estás a contactar com os teus semelhantes. Deixa de ser uma atividade humana. É uma atividade que também é muito importante. Mas esta dimensão humana é importante. Se não houvesse público, não seria possível. Ou se não estivesse lá essa presença de uma ideia de público.
Quando o Hugo fala que as entidades é que abrem ou fecham a porta a determinadas situações - e não o público -, leva-nos a questionar exatamente o que este evento do Em Pressão tem em cima da mesa, que é a questão do trabalho em rede. Como é que vocês vêem isso dentro da vossa prática? Esta rede, sendo ela outros agentes culturais ou outros artistas, que promovem ou que abrem a porta para vocês poderem fazer um espetáculo numa casa abandonada, por exemplo.
⁷ O Príncipe Constante. Encenação de Jerzy Grotowski [peça de teatro]. 1967.
⁸ Fausto. Encenação de Jerzy Grotowsky [peça de teatro]. 1960.
Ninguém nos abriu essa porta. Mas foi, literalmente, em rede. Uma rede sem apoios, outro tipo de rede. Foram as mesmas pessoas que ocuparam a Escola da Fontinha. Em Viana foi diferente. A Maria José Guerreiro conseguiu arranjar público completamente inesperado.
【JVMT】
Não sei. Eu, quando ouvi essa pergunta, pensei muito num artista de que gosto muito e que admiro muito, Joseph Beuys. Um artista com uma linguagem autoral extremamente marcada, carismática, inclusive muito disruptiva. Mas depois também tinha ações em rede com a comunidade, muito importantes. Uma ação foi pedir que a comunidade, a população, plantasse uma árvore⁹ num determinado sítio. E hoje aquele sítio está cheio de árvores. Eu estou a falar nisto num aspeto simbólico. É um artista extremamente solitário. Afirmava que qualquer pessoa podia ser artista. Vinha de um processo de arte em que só os artistas com técnica é que podiam fazer arte. Uma arte representativa, de desenhar de uma forma representativa nas artes plásticas. Desmistificou isso. Disse que qualquer pessoa pode ser artista. Desde isso, até fazer estas ações muito simbólicas, mas muito impactantes. Gosto muito dessa tensão que ele cria no trabalho dele, que é o de um artista extremamente solitário. Fechou-se com um coiote numa galeria¹⁰. Depois, essa performance foi reencarnada, reinterpretada, pela Marina Abramović e por outros artistas até hoje. É uma performance icónica. Eu gosto dessa tensão. Não gosto do trabalho comunitário de abrir a porta porque se abre a porta, e vamos ser todos amigos, e vamos fazer todas as coisas em conjunto e depois acaba tudo a chatear-se no fim. Mas quando há uma profundidade, quase um submarino, aquilo depois emerge com uma força. Até hoje, é muito impactante o trabalho dele. Quando se faz um trabalho em rede que vem com essa raiz, com esse poder de reflexão, aí há frutos. Quando a coisa é pensada e há um porquê de se fazer. Eu sinto um pouco isso. Nós agora estamos a fazer algumas conversas, mas levamos muito tempo a abrir-nos para o exterior. Porque é difícil, não é? E raramente fazemos ensaios abertos. Não sei. São questões.
【HCC】
Eu dou muita importância àquilo que acontece em palco. Não consigo dizer isto de outra maneira. Dou muita importância, porque é um dos poucos espaços de liberdade e de transformação que ainda temos. Um dos poucos espaços de liberdade. Um dos poucos espaços em que a persona pode desaparecer. Em que qualquer outra coisa pode aparecer. Esse espaço é muito precioso. E não importa muito como é que se começa. E a questão do que acontece em palco... eu, aí, entro num esquema de alta competição. Aí, não brinco. Está tudo bem com as pessoas relacionarem-se e serem amigas e quererem fazer coisas. Mas depois, quando aparece a coisa em palco, outra coisa desaparece de mim. Literalmente desaparece, e o meu nível de análise é outro. Sinto necessidade de, para mim e para a minha vida e para muitas coisas, de proteger esse espaço que eu sei que é
⁹ 7000 Eichen (em português: 7000 Carvalhos). Joseph Beuys. 1982.
¹⁰I Like America and America Likes Me. Joseph Beuys. 1974.
extremamente precioso e extremamente raro. Quero mantê-lo. Isso determina a maneira como eu analiso as coisas, determina a maneira como eu vejo. O que não quer dizer que não se possa falhar. Eu acho que o que não se pode fazer no palco é mentir.
O Grotowski dizia que era o sítio onde se podia ter a verdade. É um espaço muito precioso e o trabalho de dança também é um trabalho muito precioso. É um trabalho onde podem acontecer coisas muito íntimas que não acontecem em outros sítios. É um espaço de liberdade muito acarinhado por mim que, se remeter para uma quotidianidade… a partir daí há qualquer coisa em mim que pára e não gosta. E, depois, o termo rede. Nós falamos muito sobre o termo rede. O termo rede é muito importante. O termo rede tem, primeiramente, características matemáticas. Tem uma definição que é desaparecer a tridimensionalidade. Ou seja, tu numa folha de papel consegues fazer uma rede, com isso consegues representar coisas tridimensionais. Isto começa a aparecer no século XVI, no século XVII. A partir daí, quando consegues desenhar e tens uma tridimensionalidade, começas a ter desenhos técnicos, consegues fazer a mesma catedral que está aqui, consegues fazer noutro sítio: consegues transportar. Isso permite que tu transportes de um local para outro local. Portanto, a questão da rede começa com uma nova forma de ver. Uma nova forma de ver o mundo e de o registar em folhas de papel, em bidimensionalidade. Depois, em termos matemáticos e em termos de análise da sociedade propriamente dita, a rede permite substituir algumas noções que estão muito antiquadas quando queres compreender a sociedade. Coisas como perto e distante. Uma rede é forte se, e somente se, tiver nódulos e tiver conexões. Se eu tentar compreender a sociedade ou a realidade por uma questão de proximidade geográfica, um pensamento em rede diz-me que posso estar muito mais próximo ou ser muito mais fácil de contactar - a partir da altura que transporto coisas -, uma pessoa que está no Japão, do que o meu vizinho geográfico. Isso acontece nos nossos prédios. Teoricamente falando, a forma de pensar em rede é perigosa para uma certa comunitariedade, para uma certa ligação que as pessoas têm umas com as outras. Porque a rede ignora longe/distante, macro e micro escala. Não há macro escala nem a micro escala. Há só a quantidade de conexões que tu tens. O termo rede é um termo que eu acho que, antes de se pensar, devia ser trabalhado de uma maneira mais profunda. E é um termo que me toca porque fiz um doutoramento¹¹ sobre isso.
Isto é um bocado filosófico, mas as redes que tu tens são redes que nasceram contigo. A maior parte delas são redes que vêm do passado. São redes com que tu cresceste. São redes com que tu te identificas porque há um nódulo que te colocou lá. E se o pensamento em rede for fortalecer isso, esse nódulo pré existente, esse familiar, esse “a nossa terra”, se for isso, é bom. Mas, ao mesmo tempo, o que a rede deve permitir é a capacidade de conexão com coisas distantes, alheias, afastadas, diversas. Com outro tipo de lógicas, com outro tipo de coisas. Eu sei que isto é complexo. Aliás, é ator-rede. Uma rede trabalha-te.
¹¹https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/144264
Tu és as pessoas com quem tu estás. Tu és as ações que tu fazes todos os dias. Uma rede trabalha-te independentemente de ti. Porque condiciona-te as reações. Há outra coisa: uma rede cresce ou diminui. Portanto, o pensamento em rede é muito bom se permitir que a rede cresça para integrar nódulos e conexões que não fazem originalmente parte dela. E, para dançar, isso também é muito importante.
【ALEXANDRE
MARTINS】
Estamos na presença de Ilídio Marques que nos chega de Braga. Ilídio, como é que tu te dás a conhecer às pessoas que não te conhecem de lado nenhum? Como é que te apresentas?
[ILÍDIO
MARQUES】
Eu sou atualmente programador de música do Gnration, faço parte desta equipa há dez anos. Não comecei no Gnration como elemento da equipa de direção ou de programação, mas sim como coordenador de comunicação. E no último ano, face a uma reestruturação que existiu na empresa municipal que detém o Gnration, a Faz Cultura, houve uma reformulação e foi construída uma equipa de programação, na qual eu assumi as funções de programador de música do Gnration. Eu sou natural de Barcelos, resido em Braga. Digamos que sou metade de Barcelos e metade de Braga. 【...】 Desde muito cedo fui uma pessoa muito ativa no mundo da música. Desde a área da programação, até à do agenciamento e muitas outras coisas. Nunca deixei a comunicação. Fui sempre empurrado para a comunicação, apesar de fazer todas as outras coisas, desde programação de festivais, ciclos, etc. Mas a comunicação nunca me deixou, embora eu a quisesse deixar. Tenho formação em jornalismo, por isso é que digo que a comunicação nunca me deixou. Atualmente, assumo as funções de programador de música do Gnration.
[AM】
Antes de passarmos ao Gnration e de nos explicares o que é, gostaríamos de saber, a nível pessoal, o que te fez ficar durante dez anos nesta organização.
[IM】
É uma pergunta fácil e complicada ao mesmo tempo porque quando fui convidado para integrar a equipa do Gnration, eu tinha outros sonhos e outras ambições. Apesar de gostar muito de música contemporânea, queria fazer outras coisas. O que me levou a ficar tanto tempo foi, de facto, esse gosto pela música contemporânea, pelo trabalho e pela missão que o Gnration tinha destinado. O Gnration é um espaço muito singular à escala nacional e até mesmo à escala internacional, dado a estética da arte com que trabalha. E é aliciante existir um espaço como o Gnration num país como o nosso, que sabemos que tem as suas fragilidades e que tem uma dimensão menor à escala europeia. Trabalha algo que é tão único e tão singular como é a música contemporânea e trabalha também a relação da arte com a tecnologia. Esse é também um dos pilares essenciais do Gnration. Mas, de facto, os anos foram passando e este amor foi cada vez mais difícil de deixar para trás. E dez anos depois ainda aqui estou.
E, honestamente, este exercício é muitas vezes custoso no lado pessoal, porque sabemos que o período de usufruto do público é o período de descanso - são os fins de semana em que nós também trabalhamos. Trabalhamos também à semana porque precisamos de preparar os fins de semana e tudo o resto que acontece à volta disto. Portanto, acabamos por dar um bocadinho do nosso lado pessoal e às vezes é cansativo, mas fazemos
isto com muito gosto. Fazemos isto com uma missão pública acima de tudo o resto e com o passar dos anos já estranhamos quando isto não faz parte da nossa rotina.
【...】
Para concluir, e respondendo porque é que nunca fui 【embora】, acho que o trabalho que o Gnration faz é exemplar e nos dias de hoje acho que não me vejo a fazer outra coisa a não ser manter-me. Continuar a dar, eu e a equipa toda do Gnration, e tentar levar isto ao melhor porto possível. A “sustentar”, digamos assim, este meio artístico que sabemos que não são artistas de massas. Não são artistas que têm espaço em teatros municipais. Alguns deles têm, outros não. Mas são linguagens mais difíceis, por exemplo, na música. São estéticas mais difíceis, mas que são muito importantes para que estes géneros e subgéneros se desenvolvam e daqui surjam outras coisas. Há muitos artistas que já passaram pelo Gnration e hoje em dia fazem “primeiras partes” de Nick Cave, como foi o caso da Weyes Blood. E fazem salas muito maiores que a sala do Gnration. O Gnration também serve um bocadinho para isto, para aquilo que nós vamos ouvir, se calhar, num futuro breve. Isto é, de facto, um desafio aliciante e é muito difícil de virar as costas.
【AM】
É muito interessante, e quase ouso dizer, que a tua fidelidade a esse amor à Gnration é de tal maneira, que misturaste a explicação do Gnration com a tua jornada pessoal. Acho que isso diz muito de ti. E também do que é o Gnration. Acho que percebemos mais ou menos o que é que será. E sobretudo esta questão de misturar as artes com a tecnologia. Pegando nessa ideia e, saindo de 2012 até agora, como é que tu olhas para o Gnration, sobretudo num concelho ou num distrito que tem tido transformações sociais brutais? Como é trabalhar esta questão da arte e da tecnologia com um concelho que, não tenho dados agora em mão para dizer, teve uma transformação brutal.
Se calhar importa voltar um bocadinho atrás aquando o início do Gnration em 2012/2013. Eu lembro-me que assistimos a uma migração de muito talento jovem para a metrópole, para o Porto e para Lisboa. Hoje em dia acontece o inverso. A metrópole, as grandes cidades, os grandes centros urbanos, organicamente, por todas as questões que nós conhecemos nos dias de hoje, estão a expulsar esse talento. Há questões com a habitação. Há questões que obrigam a que os artistas se voltem a mover. O facto de existir um Gnration em Braga também é apelativo para estas novas comunidades que surgem. E aqui posso falar no âmbito de empresa municipal: da Faz Cultura que gere o Theatro Circo, o Gnration, o título de capital portuguesa da Cultura, a Braga Media Artes. Todos estes projetos têm hoje em dia uma costela forte de mediação e participação, em que englobam todo este novo mundo que surgiu nos últimos anos, com uma nova migração e um novo conjunto de comunidades. E, portanto, é uma preocupação e é um trabalho que é desenvolvido. Não é que não acontecesse anteriormente, sempre existiram outras comunidades na cidade, mas de facto, hoje em dia, em Braga,nós assistimos
a um boom e a um crescimento exponencial na cidade, em todos os seus patamares de sociedade, não só a nível de outras comunidades, mas também em termos do setor empresarial e também no sentido académico.
O Gnration, claro, como estrutura pública que é, tem a necessidade e a obrigação de acompanhar esta evolução. No programa de Mediação e Participação temos olhado cada vez mais para este fator e trabalhado com ele. Não há outra forma de olharmos para isto. O Gnration tem uma política de bilheteira acessível. Achamos que é importante porque também há muitas coisas que não são conhecidas do grande público e o bilhete acessível permite descobrir o desafio, ir à descoberta das propostas do nosso programa. Para além de um conjunto de outras políticas que procuram uma maior inclusão e uma maior acessibilidade destas estruturas. Mas vemos, claro, com muitos bons olhos, porque conseguimos fazer este paralelismo entre uma cidade em 2012, 2013 e uma cidade em 2024 que é bastante diferente. Principalmente no talento nacional, na criação artística nacional, que nesse período assistimos a uma certa - não quero chamar de debandada -, mas um certo movimento de algum talento. Porque há dez anos ou mais, Lisboa e Porto eram cidades que estavam num crescimento exponencial, que eram apelativas para toda a gente. E o chamamento era demasiado forte para não dizer que não. Felizmente, hoje em dia, acho que estamos a tentar voltar a equilibrar esta balança e as coisas estão a mudar.
【AM】
E em relação à emigração, como é que foi esse ajuste ao longo destes tempos? Braga tem sido um dos locais preferidos para determinadas comunidades emigrarem.
【IM】
Eu acho que a cidade de há uns anos tinha alguma população. Apesar de ser uma das cidades mais jovens da Europa, tinha também uma grande franja de população envelhecida. Havia aqui este extremo, que é muito curioso, de uma população idosa e de uma população muito jovem. Mas eu considero que a cidade tem uma capacidade de acolhimento que é muito interessante. É uma cidade muito confortável para viver. É uma cidade de pequena dimensão apesar de ser a terceira maior cidade do país. E é uma cidade que, tanto para famílias como para jovens em início da vida ativa, reúne um conjunto de condições que são favoráveis: a Universidade e um conjunto de estruturas culturais. A habitação também era um ponto muito aliciante na cidade, porque a habitação era muito barata. Hoje em dia, em Portugal, a habitação não é barata em lado nenhum, como nós sabemos. Mas isso foi uma das características que a cidade proporcionou para que acolhesse e tivesse este boom migratório. Sinto que, não falando aqui pelo Gnration, outras estruturas da cidade, sociais, culturais e o próprio município, fazem um trabalho para que a cidade viva em harmonia com todas as pessoas que nos chegam, diria quase diariamente. E sentimos também que há uma participação em crescendo, por exemplo, da comunidade brasileira nas atividades destas estruturas. E isso é notório porque, principalmente em trabalhos de comunidade, sentimos que há pessoas que participam em projetos comunitários que estas estruturas desenvolvem mais do que uma vez. E há uma continuidade, e
propõem coisas e contactam-nos regularmente. E isto é um sinal vital desta boa relação que a população, que já estava cá, tem com esta população que chegou. E espero que assim continue durante muitos anos.
【AM】
Isso leva-nos, obviamente, ao trabalho em rede. A Gnration é parte integrante da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses, também faz parte da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea e, inclusivamente, faz parte da EMAP - European Media Art Platform. Tudo isto conjugado, que tipo de oferta e de trabalho se faz depois com a comunidade? Como é que isto resulta?
【IM】
No caso do Gnration e das estruturas da empresa municipal, a única que faz parte da European Media Art e do RPAC - da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea - é o Gnration. O Theatro Circo e o Gnration fazem ambos parte da RTCP.
No caso da RTCP, há um apoio à programação. Tanto o Gnration como o Theatro, são estruturas integrantes da rede e há um apoio orçamental à programação. Isto, obviamente, permite que possamos fazer muito mais coisas e suprimir algumas fragilidades que eventualmente tenhamos. Isto permite, por exemplo, não só, mas também, este programa que estava a falar do Theatro Circo referente à mediação e à participação.
No caso do European Media Art Platform, é uma rede europeia, cofinanciada pela Europa Criativa da União Europeia, onde estão as 15 melhores instituições europeias no campo da media art. O Gnration é, talvez, ou com quase toda a certeza, a estrutura mais pequena, o que nos deixa muito orgulhosos. Estamos ao lado de estruturas como Onassis em Atenas, LABoral em Gijón, o Ars Electronica em Linz, que são estruturas com orçamentos muito grandes, quando comparado com um orçamento de um Gnration. E no caso do EMAP, isto permite a circulação de artistas por uma open call, em rede, nestas estruturas. Ainda este fim de semana que passou, inauguramos o novo trabalho de um artista brasileiro que reside na Europa, Luiz Zanotello, que inaugurou uma exposição no Gnration, construída a partir de uma residência artística ao longo de vários meses. Curiosamente - acho que isto também é o lado solar, o bom tempo, o bom clima, a boa gastronomia portuguesa -, o Gnration tem sido uma das estruturas a que os artistas mais querem ir. Curiosamente, e apesar de ser uma estrutura mais pequena, há este lado engraçado, com o qual até nós ficamos muito estupefactos. A rede EMAP também permite que artistas da cidade, residentes, se possam candidatar e ser propostos para desenvolver residências noutros países e elaborar novos trabalhos artísticos no campo da relação da arte com a tecnologia. Isto também é uma das coisas que dispomos neste chapéu, que pode ser da participação comunitária.
O Gnration, para além da RTCP, da RPAC e do EMAP, tem também alguns programas de criação artística destinados à comunidade da cidade. E isto permite também uma ampla participação. Eu posso dizer que, por exemplo, o Trabalho da Casa, que é um programa que no próximo ano fará dez anos, é um programa de
apoio à criação artística destinado a grupos ou artistas na área da música de Braga. Apoiou ao longo destes anos cerca de 30 novos trabalhos. E quando falo em novos trabalhos, podem ser novos espetáculos, novos concertos ou discos.
Dado que temos um estúdio dentro do Gnration - um serviço prestado pelo músico Budda Guedes -, temos a possibilidade de apoiar artistas locais, artistas nacionais e internacionais. Mas no âmbito deste programa chamado Trabalho da Casa, permite-nos apoiar artistas locais com a gravação do disco a custo zero. E daí tem resultado ao longo destes dez anos, quase 30 novos trabalhos, novos discos e espetáculos que surgiram. Isto também é um dos pontos singulares que o Gnration tem à escala nacional com outras estruturas, podermos aqui apoiar os artistas locais.
Também no âmbito da participação local, temos um outro programa chamado Radiografia, dedicado aos novos compositores da cidade, compositores clássico-contemporâneos que surgem muitas vezes do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, e não só, e que nos permite encomendar novos trabalhos a estes compositores e eles apresentarem no Gnration. Só aqui temos dois pontos fortíssimos na relação com a participação da comunidade.
Paralelamente a isto, uma das missões do Gnration é o apoio à criação. E temos um programa de residências artísticas em que disponibilizamos espaços para artistas da cidade poderem desenvolver os seus trabalhos com condições que muitas vezes não têm nas salas de ensaio. E muitas vezes, fazemos esse apoio com horas de estúdio, também contribuindo com o conhecimento no campo da produção e afins. E esse é um dos pilares fundamentais, apoio à criação local.
Paralelamente a isto, também há um conjunto de outros programas que acontecem no Gnration, nomeadamente o Circuito - Serviço Educativo da Braga Media Arts. Grande parte do seu programa tem ação no Gnration, e desenvolve também um conjunto de ações com a comunidade. Há um que é muito interessante - que eles desenvolvem há uns bons anos-, chamado Orquestra de Dispositivos Electrónicos, em que há uma chamada à participação da comunidade: músicos, não músicos. Quem quiser participar, tendo ou não experiência a tocar um instrumento, através de um dispositivo eletrónico, pode fazer parte de uma orquestra. E este trabalho tem sido desenvolvido pelo Circuito ao longo dos últimos anos. Tem uma participação massiva por cada apresentação. Estamos a falar de cerca de 15 a 20 participantes que ao longo de meses, semanalmente, têm ensaios coordenados por uma pessoa convidada. Este ano temos, por exemplo, o Rui Souza, conhecido por trabalhos como Dada Garbeck. Para contextualizar, este programa Circuito, que é o Serviço Educativo da Braga Media Arts, surge no contexto da Braga Media Arts. E o que é a Braga Media Arts? Por fruto do trabalho do Gnration no campo da relação da arte com a tecnologia, Braga conseguiu conquistar um título de Cidade Criativa da UNESCO para a media art. A cidade conseguiu este título em 2017. Em resposta a este plano de ação que o município se comprometeu a estabelecer no âmbito da candidatura, surgiu este projeto chamado Braga Media Arts.
【 Este projeto 】 presta apoio a artistas locais a partir de um contexto internacional também baseado em redes e open calls, que permite que artistas do concelho possam participar em projetos europeus.
É também responsável pela criação de uma Bienal chamada Index - Bienal de Arte e Tecnologia, e estabelece um outro conjunto de ações a nível europeu, fazendo parte de redes e sustentando aqui o meio da media art, no que toca, não só ao nível europeu, mas também ao nível internacional. Estamos a falar de uma rede de - atualmente não sei em que número está, estão sempre a crescer mais que uma vez ao ano - mas tenho ideia que no início do ano estavam em 354 cidades à escala mundial, que compõem esta rede de cidades criativas no campo da media art. Portanto, também é um trabalho complementar ao que o Gnration faz.
No caso do Circuito, por exemplo, eles também contemplam e complementam o nosso programa expositivo, realizando visitas orientadas às exposições que temos nas duas galerias presentes no Gnration. Portanto, há aqui todo um trabalho complementar entre diferentes estruturas da cidade.
Ainda sobre o programa de residências artísticas do Gnration, para além destes ciclos, temos também um programa que desenvolvemos com o CIAJG 【Centro Internacional das Artes José de Guimarães】, e este ano com mais parceiros, nomeada- mente com a Solar. É um programa para a criação artística no campo da música, da performance e da arte visual. Chama-se Laboratórios de Verão. Durante o mês de julho, estes projetos que são selecionados por open call, alargados ao distrito de Braga -, ou seja, contemplam também os outros concelhos -, podem desenvolver residências artísticas financiadas e expor esses trabalhos em Setembro, no Gnration. E este é também um dos programas que nós desenvolvemos no apoio à comunidade e à criação artística da região.
Portanto, há aqui um conjunto, um leque muito grande de coisas que vamos fazendo ao longo do ano, abertas à participação. Todo o nosso programa expositivo é gratuito, o que é extremamente importante. Para além desta política acessível que nós temos para os espetáculos, uma grande parte do nosso programa é gratuito, a qualquer hora do dia, no sentido do período de abertura do edifício do Gnration. Podem visitar as instalações gratuitamente. Podem, no caso de grupos, requisitar uma visita orientada que é prestada pelo Circuito. E tentamos assim também estar abertos à cidade e ter o máximo de participação da cidade nesta estrutura.
direção artística ›
Catarina Ribeiro / Manuel Almeida
Ricardo Figueiredo / Sara Miguelote
coordenação administrativa ›
Manuel Almeida / Sara Miguelote
comunicação ›
Ricardo Figueiredo / Manuel Almeida
produção ›
Catarina Ribeiro / Sara Miguelote
design ›
Catarina Ferreira / Ricardo Figueiredo
video ›
Jordão Araújo
fotografia ›
Catarina Ribeiro
residência artística ‹ artistas ›
Bárbara Paixão
Sofia Sá
Victor Gomes
podcast ‹ moderador ›
Alexandre Martins
podcast ‹ participantes ›
Ilídio Marques - GNRation / Theatro Circo
Iva Viana
Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão - Associação Nuisis Zobop
Maria José Guerreiro
financiado por ›
República Portuguesa - Cultura
DGARTES - Direção-Geral das Artes
apoios ›
Câmara Municipal de Viana do Castelo
parcerias ›
Teatro Municipal Sá de Miranda
Teatro do Noroeste - Centro Dramático de Viana
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Conservatório Regional do Alto Minho
Amadeus Music Center
Interferência - Associação de Intervenção na Prática Artística
AO NORTE - Associação de Produção e Animação Audiovisual
AISCA - Associação de Intervenção Social Cultural e Artística
O Em Pressão é um projeto apoiado por República
contributos ‹ textos ›
Alexandre Martins
Bárbara Paixão
Catarina Ribeiro
Manuel Almeida
Ricardo Figueiredo
Sara Miguelote
Sofia Sá
Victor Gomes
podcast ‹ transcrição ›
Manuel Almeida
Sara Miguelote
podcast ‹ participantes ›
Ilídio Marques - GNRation / Theatro Circo
Iva Viana
Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão - Associação Nuisis Zobop
Maria José Guerreiro
revisão ›
António Miguelote
Manuel Almeida
Sara Miguelote
fotografia ›
Catarina Ribeiro
design gráfico ›
Catarina Ferreira
Ricardo Figueiredo
impressão ›
Impresso por Personalizart dimensões › 215x125mm 120 páginas
tipografia › Whyte
papel miolo e capa › Munken Pure 90g Munken Pure 240g
contactos › www.empressao.com em.pressao.evento@gmail.com
Este caderno é financiado por República Portuguesa - Cultura