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Emelda é professora e presidente da – Quando crescer, quero ser uma pessoa que ousa se expor ao perigo na luta em prol de crianças carentes. Assim como os nomeados ao Prêmio das Crianças do Mundo, diz a órfã Emelda Zamambo, 12 anos, de Maputo, Moçambique. Porém, Emelda não se contenta em esperar até tornar-se adulta para lutar pelos direitos da criança. Toda manhã, bem cedo, ela tem sua própria escola em casa, para crianças que, de outra forma, não teriam chance de estudar. Ela lhes ensina a ler, escrever e contar.

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, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10!!! As crianças contam juntas, em voz alta, enquanto Emelda aponta para os números no quadro negro. – Ótimo! Mais uma vez! – diz ela, e recomeça. São oito e meia da manhã e, como acontece todo dia de semana, doze crianças estão sentadas no chão em frente à casa de Emelda. Elas olham atentamente para sua jovem professora, enquanto ela escreve novos números sobre o simples pedaço de madeira compensada que serve como

Apagador

Comprei com meu dinheiro do almoço, em vez de comprar comida na escola.

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quadro-negro da escola. Emelda começou sua escola matutina há quase um ano, e a maioria das crianças a frequenta desde então. – Sempre ajudei meus irmãos mais jovens com o dever de casa. Costumávamos sentar na frente da casa para fazê-los. Aparentemente, houve um rumor de que sentávamos ali pela manhã, porque, de repente, começaram a aparecer outras crianças que queriam ajuda. No início eram apenas dois ou três, mas agora ensino para doze crianças todos os dias. Gratuitamente, é claro! – conta Emelda, com uma risada. Alguns alunos de Emelda


Giz

Minha avó os comprou de presente para mim, porque ela acha muito bom que eu ajude outras crianças.

Votação Mundial! são filhos de seus vizinhos, que precisam de ajuda extra para conseguir acompanhar a escola regular. Outros são tão pobres que não têm condições de ir à escola. O pai foi baleado

– Eu realmente detesto ver que crianças pobres não podem frequentar a escola e nunca têm nenhuma chance na vida. Muitas vezes, elas perderam os pais e acabaram na rua, porque não há ninguém para cuidar delas. Ali, as crianças são obrigadas a procurar comida no lixo e beber água suja para sobreviver. Muitas são forçadas a trabalhar. Isso é muito injusto e

Quadro negro

Uma velha placa de madeira compensada que encontrei no bairro.

Indicador

Ganhei de meu tio, que é carpinteiro.

O Globo na escola matutina – Ir à escola é uma das coisas mais importantes que existem. Assim, tem-se uma chance maior de conseguir um emprego mais tarde e, desta forma, poder cuidar de sua família. Quando alguém não recebe educação, há um grande risco de que essa pessoa permaneça sempre pobre e tenha uma vida muito difícil. E entre as coisas mais importantes que se pode aprender na escola estão os direitos da criança. Com eles, aprendemos a nos defender e não ser explorados com tanta facilidade. É exatamente por isso que uso O Globo em minha escola matutina, declara Emelda.

cruel! – afirma Emelda. Injustiças realmente a enfurecem, e ela sabe muito bem que poderia ter sido uma destas crianças vulneráveis. Quando Emelda tinha seis anos, seu pai morreu baleado por ladrões e, apenas alguns meses mais tarde, sua mãe morreu de malária.

– Tudo foi destruído. Eu não acreditava que algo pudesse voltar a ficar bem. Tive muito medo de ficar sozinha e acabar na rua. Todavia, apesar de todas as coisas horríveis que aconteceram, eu tive uma sorte incrível.

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Castigo físico é proibido em 30 países Nos termos do artigo 19 da Convenção dos Direitos da Criança da ONU, você tem direito à proteção contra todas as formas de violência, negligência, maus tratos e abuso. Portanto, pode-se afirmar que o castigo físico é uma violação aos direitos da criança. Não obstante, todo ano 40 milhões de crianças são vítimas de espancamentos tão graves que precisam de cuidados médicos. Somente 30 países proibiram todas as formas de castigo físico contra crianças; consequentemente, apenas 4 em cada 100 crianças do mundo estão protegidas por lei contra a violência. O último país a proibir o castigo físi-

Castigo físico é proibido na escola de Emelda! – Eu uso a régua indicadora apenas para apontar as coisas, nunca para bater! Em quase todas as outras escolas de Moçambique, é comum que os professores usem a régua indicadora para bater nas palmas das mãos ou nas nádegas dos alunos. Considero isso incrivelmente ruim! Os professores deveriam explicar e demonstrar, quando não entendemos algo, ou se não nos comportamos como deveríamos. Acredito que as crianças têm mais facilidade para aprender quando não são espancadas, quando não sentem medo. Ninguém aprende direito quando está com medo. Depois de ler o Globo, também aprendi que bater nas crianças é contra nossos direitos!

Convenção dos Direitos da Criança em O Globo – A parte de O Globo que descreve todos os direitos de uma criança pode nos ensinar muito! Antes, eu não sabia, por exemplo, que as crianças que vivem na rua têm, de acordo com a Convenção dos Direitos da Criança da ONU, direito a ter um lar, frequentar a escola e viver uma vida digna, diz Emelda. 36

A avó materna de Emelda e a família de seu tio a receberam de braços abertos. Ela ganhou um lugar para morar, alimento, roupas e a oportunidade de frequentar a escola. – Acima de tudo, ganhei uma família que me ama. Eles me abraçaram e disseram que eu pertencia à sua família, que cuidariam de mim e que tudo daria certo. E realmente foi assim. Agora sou filha de meus tios maternos, e meus primos são meus irmãos e irmãs. Tive a chance de viver uma vida digna e, de alguma forma, quero compartilhar com outras pessoas que neces-

co foi o Sudão do Sul, o mais novo país do mundo. Muitos países permitem castigos corporais nas escolas. Em Moçambique, o castigo físico à criança é legal tanto em casa como na escola. Qual é a situação na sua escola e em seu país? Você ousa salientar para professores, pais, políticos e outros adultos que o castigo físico é uma violação aos direitos da criança? Conte-nos que tipo de coisa você e seus colegas precisam enfrentar. Compartilhe suas experiências e opiniões sobre o castigo físico pelo myrights @worldschildrensprize.org ou em www.worldschildrensprize.org.

sitam. É por isso que tenho a minha escola, diz Emelda. O Globo na escola

Às onze da manhã, Emelda agradece a presença dos alunos e se despede deles. Ela entra e veste o uniforme escolar. Após o almoço, Emelda não é mais professora, agora é aluna. Ela adora ir à escola e, ultimamente, as atividades têm sido mais divertidas que o habitual. Eles se prepararam para a Votação Mundial, lendo a revista O Globo. – Logo percebi que as histórias contadas na revista O Globo realmente falam sobre


Emelda Zamambo, 12

Presidente da Votação Mundial

Algumas noites antes da Votação Mundial, Emelda leu em O Globo sobre os direitos das crianças de rua. Ela sentia que a escola realmente deveria fazer algo pelas crianças que não têm chance de obter uma educação. Na manhã seguinte, ela foi mais cedo para a escola, a fim de conversar com a diretora sobre suas ideias. – Expliquei que havia lido em O Globo que todas as crianças, inclusive crianças de rua, têm direito de frequentar a escola. Sugeri que aqueles em situação um pouco melhor poderiam ajudar com algum dinheiro para que as crianças que vivem na rua

“Quando mamãe e papai morreram, minha avó e meu tio deram-me uma família que me ama”, diz Emelda.

pudessem comprar uniformes escolares e almoço aqui. Assim, elas estariam bem alimentadas para conseguir aprender em paz. A diretora levou Emelda a sério, e ouviu suas ideias atentamente. Ela não podia prometer nada de imediato quanto às crianças de rua, mas quis dar uma missão importante a Emelda. – A diretora disse ter percebido que eu estava inflamada pelos direitos da criança e que isso a deixara incrivelmente feliz. Portanto, ela perguntou se eu gostaria de ser Presidente da Votação Mundial e responsável por toda a votação em nossa escola. Inicialmente, fiquei muito nervosa, mas depois me senti

Emelda ajudando sua avó, que lava a louça.

feliz. Por acreditar que as histórias em O Globo são extremamente importantes, tive a coragem de fazer um pequeno discurso de abertura, embora houvesse mais de 300 alunos reunidos na escola neste dia solene! Nomeados inspiram

E quem inspira Emelda a ser corajosa em relação aos direitos da criança são os nomeados ao Prêmio das Crianças do Mundo. – Quero ser médica e, assim como os candidatos, desejo ser uma pessoa que ousa se expor ao perigo na luta em prol de crianças carentes. Todavia, ainda falta algum tempo até que Emelda possa começar a estudar medicina, e há pelo menos doze pessoas felizes com isso: seus alunos. Amanhã, às oito e meia da manhã, eles aguardarão o início da aula na escola de Emelda. Como sempre fazem. 

TE X T0: ANDRE AS LÖNN FOTO: JOHAN B JERKE

o que acontece aqui em Moçambique! As histórias de crianças pobres, que passam fome, são exploradas, perdem seus pais para a AIDS e, por isso, acabam nas ruas e são forçadas a trabalhar, poderiam muito bem ser daqui. Antes, eu sentia que tudo isso é injusto e errado. Agora que li O Globo, sei que esse tipo de coisa também viola nossos direitos. Emelda estava entre os estudantes que mais se envolveram com a revista O Globo e os preparativos para a Votação Mundial da escola. – Muita coisa aconteceu dentro de mim quando trabalhamos com isso. Eram tantos pensamentos e sentimentos que tive insônia.

e com suas roupas preferidas!

Emelda como… professora… aluna…

AMA: Estar com outras pessoas e ajudar os outros. DETESTA: Brigas, violência e ver crianças pobres que vivem na rua. O MELHOR QUE JÁ LHE ACONTECEU: Ter uma família que me ama. O PIOR QUE JÁ LHE ACONTECEU: Quando perdi minha mãe e meu pai. QUER SER: Médica e ajudar as pessoas. SONHO: Que todas as crianças sejam felizes.

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Compartilha – Tenho vários colegas de escola que são órfãos e têm dificuldade de sustentar-se. Que são pobres e passam fome. Isso é injusto e me deixa irritada e triste. Às vezes, pego o dinheiro do almoço e compro um refrigerante, suco, biscoitos ou pão para alguém que precisa mais que eu. Eu tive a chance de ter uma vida digna e desejo erguer minha voz em defesa de quem não teve essa oportunidade e não tem energia para exigir os próprios direitos. Se fosse o contrário, gostaria que alguém lutasse por mim! – afirma Emelda.

A cabine de votação

Os meninos dão o toque final na cadeira que foi transformada em cabine de votação.

Votação Mundial corre bem

– É aqui que todos formarão fila para depositar seus votos na urna eleitoral, ali na frente. E é nossa tarefa explicar e ajudar a todos, para que tudo corra bem, diz Emelda, apontando para os demais alunos que trabalham na Votação Mundial da Escola Primária Unidade 19, Maputo.

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Quer ser como os nomeados!

Cálice de coco com tinta antifraude eleitoral

“Acho fundamental participarmos do trabalho com o Prêmio das Crianças do Mundo em Moçambique. Desta forma, temos a chance de aprender sobre nossos direitos e como, de fato, deveríamos ser tratados. Quando sabemos essas coisas, fica mais fácil protegermo-nos das injustiças, algo que realmente precisamos ser capazes de fazer. Aqui, muitas crianças são tão pobres que precisam trabalhar em vez de frequentar a escola. Muitas crianças são sozinhas, pois seus pais morreram de AIDS ou devido à miséria. Eu mesma perdi meus pais para a AIDS quando tinha cinco anos de idade. Porém, tive sorte mesmo assim. Vivo com pais adotivos que me amam e me tratam exatamente como seus outros filhos. Eu posso frequentar a escola, tenho

o que comer e sou amada. Muitas crianças não têm a mesma sorte que eu. Acabam na rua, onde ninguém se importa com elas. Dói-me quando vejo isso acontecer. Acho que o governo e todos os adultos têm a responsabilidade de cuidar dessas crianças. De garantir que elas recebam educação, roupas, um lar, cuidado e amor. Esse é o direito de todas as crianças! Quando eu leio, na revista O Globo, sobre como os nomeados lutam para que todas as crianças vivam em boas condições, fico imensamente feliz. Sinto que também quero ser assim. Quando eu crescer, lutarei pelas crianças que passam dificuldades”. Crescência Eulalia Macave, 15 anos, Escola Primária Unidade 19, Maputo

– Hoje, minha tarefa foi garantir que ninguém votasse mais de uma vez. Após votar, todos vieram até mim e mergulharam o dedo na tinta. Ninguém com tinta no dedo pode votar novamente. É importante que não haja fraude, quando se trata de algo tão importante como os direitos das crianças! – diz Crescência.

Verificação final

É uma escolha difícil, mas chegou a hora de decidir em qual candidato votar.

A urna eleitoral

Emelda verifica se a urna está em ordem, antes de colocá-la no lugar.

Votação Mundial em Maputo

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Yúmina

decorou a Votação Mundial “Antes da Votação Mundial, eu e meus amigos fizemos um tapete representando a bandeira de Moçambique. Fizemos a bandeira anexando tiras de tecido de uma maneira especial. Aprendemos como fazê-lo na aula de artesanato. Usamos roupas e tecidos velhos e gastos para fazer coisas novas e bonitas. Fizemos a bandeira para enfeitar a Votação Mundial e torná-la solene. Eu amo Moçambique e Todos esperam em fila pela sua vez de votar. acho nossa bandeira linda, com cores bonitas e desenho agradável. Nosso país também é lindo, mas, infelizmente, muitas crianças têm problemas aqui. Há muitas crianças abandonadas, que são forçadas a viver na rua, por exemplo. Elas não têm pais e não têm casa. “ ma vez por semana, todas as crianCrianças de rua são carentes de tudo. ças plantam uma muda de árvore Ao ler O Globo e participar da Votação aqui na escola. Nestas ocasiões, geralMundial, aprendemos que as crianças mente trago de casa diferentes tipos de de rua também têm direito a uma vida sementes para plantar. Durante todos digna. Além disso, aprendemos a ajuos intervalos, eu rego as plantas aqui no dar uns aos outros, cuidar uns dos jardim da escola. Ou seja, uma vez pela outros. Acho que todos que podem, manhã, uma na hora do almoço e novadevem ajudar a quem precisa. mente à tarde, antes de ir para casa. Eu Tecer é divertido, quero ser artista adoro trabalhar com plantas e provavelquando crescer. Embora eu também mente sou quem mais fica no jardim da adore jogar basquete. Posso perfeitaescola. Vejo as árvores e plantas como mente me imaginar como jogadora nossas amigas, porque elas realmente profissional de basquete, e sonho nos dão oxigênio. Para mim, é quase tão jogar pelo menos tão bem quanto divertido estar com minhas amigas Michael Jordan!” árvores quanto estar com meus outros Yúmina Rui Balate, 12 anos, Escola amigos, jogando futebol e coisas assim! Primária Unidade 19, Maputo Hoje, para a Votação Mundial, decoramos o caminho até as urnas eleitorais com pequenos limoeiros do jardim da escola. Como é uma celebração dos direitos das crianças, tudo precisa estar lindo! Além disso, é bom que haja muitas árvores ao nosso redor quando votamos, para que tenhamos bastante oxigênio e possamos tomar a decisão certa nas urnas! Quando crescer, eu quero ser diplomata e morar na capital da França, Paris. Diplomata é uma profissão importante, pois eles trabalham pela paz”. Náid Fi-Yen Bangal Nequice, 11 anos, Escola Primária Unidade 19, Maputo

Árvores amigas de Náid na

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Melhores amigas órfãs votam – Celina é minha melhor amiga e eu a amo. Ela também perdeu seus pais, portanto nos entendemos completamente, conta Alice Zacarias, 13 anos. Hoje, Alice e Celina votaram pelos Direitos da Criança na Votação Mundial da Escola Primária Unidade 19, Maputo. – Emelda (à esquerda) e seus amigos cuidam das urnas.

Votação Mundial

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otei para que todas as crianças vivam bem. Aqueles em quem votamos lutam pelas crianças de diferentes maneiras, e senti-me ótima por poder ajudar. Aqui em Moçambique há um grande número de crianças que passam por dificuldades e precisam de ajuda. Muitas são órfãs, como eu. Minha mãe morreu quando eu tinha dois anos e meu pai morreu no ano passado. Agora moro com minha avó materna. Eu a amo, mas temos dificuldade para nos manter. Muitas vezes, falta dinheiro para o uniforme escolar e não temos alimento suficiente. Sinto falta de minha mãe e de meu pai o tempo todo. É muito difícil, diz Alice. Muitas vezes, ela se sente triste e diferente, mas, felizmente, ela tem Celina. – Quando estamos tristes, nos confortamos mutuamente. E depois também rimos juntas! – conta Alice.

Celina Langa, 11 anos, sentada ao seu lado, concorda. – Confio plenamente em Alice e posso contar-lhe tudo. Perdi minha mãe e meu pai quando tinha um ano de idade. Agora moro com minha avó passamos dificuldades, pois ela é idosa e pobre. Frequentemente sinto-me triste e preocupada aqui na escola, mas ontem foi um pouco diferente. Eu ajudei a decorar nossas urnas eleitorais para a Votação Mundial. Senti-me igual a todo mundo, como se minha vida fosse normal e boa. Espero que, no futuro, a vida realmente seja assim. Neste caso, gostaria de ser professora! – afirma Celina. – Meu sonho é trabalhar no aeroporto de Maputo. Também sonho em visitar outros países e conhecer outras pessoas. Imagine poder ir ao Brasil! Acredito que deva ser lindo lá, afirma Alice, abraçando Celina.

As mudas de limoeiros foram colocadas junto aos marcos da fila para votação

Uma criança – Uma árvore! Desde 2006, todas as escolas públicas de Moçambique participam do projeto “Uma criança – Uma árvore”, para impedir o desmatamento, a erosão e a desertificação no país. O projeto também permite que a população tenha alimentos saudáveis e ajuda a embelezar Moçambique. No jardim da escola de Náid, são cultivadas laranjeiras, limoeiros, mamoeiros, abacateiros e mangueiras, além de cana-de-açúcar. As plantas geralmente são vendidas e o dinheiro vai para atividades escolares.

Alice Zacarias e Celina Langa fizeram as urnas eleitorais para a Votação Mundial.

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A caminho da Votação Mundial.

A fila é longa até as urnas de votação, que foram feitas de cadeiras.

Direitos da criança são violados – Antes de ler O Globo, eu não sabia que é uma violação dos direitos de uma criança a mesma não ser registrada ao nascer. Isso acontece o tempo todo aqui. E é grave, pois, se alguém não está registrado e não tem nome, fica difícil conseguir frequentar a escola e obter cuidados médicos. Eu sei que Moçambique ratificou a Convenção dos Direitos da Criança, então agora temos que resolver essa questão, pois é uma violação dos direitos da criança! – diz Cecilia. 42

Defendemos os direitos Todas as crianças deveriam participar! O sol brilha e o mar reflete seu brilho quando as crianças da Escola Primária da Catembe, em Moçambique, realizam sua Votação Mundial na praia. Aquelas que já votaram brincam de pique, chutam uma bola ou nadam no Oceano Índico. Hoje o dia pertence às crianças, e Cecilia Carlos Magaia, 13 anos, está feliz:


Votação Mundial na praia de Ladislau Ladislau, 15 anos, está na praia da Catembe olhando para o mar. Ontem, ele votou na Votação Mundial e celebrou os direitos da criança com seus amigos aqui na praia. Porém, hoje é um dia comum, então a praia e o mar são seu local de trabalho. Ladislau Militon Nhca é pescador. –

da criança “Que dia fantástico! Em Moçambique, não é sempre que os adultos escutam as crianças. Mas hoje é diferente. Ao votar, nós participamos e influenciamos coisas realmente importantes. E, através do voto, eu também defendo os direitos da criança! Portanto, todas as crianças, não só em Moçambique, mas em todo o mundo, deveriam votar! Antes de votar, lemos com muita atenção todas as histó-

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reciso pescar para poder frequentar a escola. Eu não tenho pais e moro com meu avô. Nunca poderíamos pagar a escola, de outra forma, conta Ladislau. Os pais de Laidslau moravam na África do Sul enquanto esperavam por ele, pois sua mãe era de lá. Quando Ladislau nasceu, eles ficaram

rias da revista O Globo, na escola e em casa. O Globo trata de nossos direitos e dos problemas que as crianças do mundo enfrentam. Antes de ler a revista, eu pensava que erámos apenas nós, crianças da África, que passávamos por dificuldades. Agora sei que é assim em todos os lugares, e isso me deixa muito triste. Sinto vontade de fazer algo em relação a isso. Meu sonho é construir uma grande casa onde eu possa proporcionar a crianças que perderam os pais um novo lar, cheio de amor, alimentação, roupas e uma

radiantes, mas não tiveram tempo de viver juntos como uma família, pois o pai de Ladislau morreu em um acidente de carro a caminho da maternidade. – Minha mãe era muito pobre e sabia que não conseguiria me sustentar e cuidar de mim sozinha, por isso ela queria entregar-me a um

Hora de votar na Votação Mundial da Escola Primária da Catembe, realizada na praia.

chance de ir à escola. Foi ao ler sobre os nomeados na revista O Globo que senti que também desejo fazer algo de bom pelos outros. Os nomeados lutam pelo direito que toda criança tem de ser amada e cuidada, e este é o traba-

orfanato. Porém, meu avô paterno não concordou e trouxe-me para sua casa, em Moçambique. Isso aconteceu há muito tempo, mas Ladislau ainda fica deprimido ao pensar no assunto. – Sinto falta de meus pais, ao mesmo tempo em que sou imensamente grato ao meu avô. Agora quero ajudá-lo, pois ele me ajudou na época e continua cuidando de mim. É por isso que eu pesco. Primeiro, a escola

Ladislau acorda todos os dias às cinco da manhã para ir à escola. Ele lava o rosto e escova os dentes, mas geralmente não faz o desjejum, pois não há o que comer. Depois, ele

lho mais importante do mundo! Porque, se não cuidarmos das crianças, quem é que vai cuidar do mundo no futuro? Antes de eu ler a revista O Globo, meu ídolo era a estrela de R&B Nicki Minaj, dos EUA. Sua música é incrível e continuo adorando ouvi-la, mas, agora, os nomeados ao Prêmio das Crianças do Mundo definitivamente são meus maiores ídolos. Eles são meus heróis!” Cecilia Carlos Magaia, 13 anos, Escola Primária da Catembe

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caminha para a escola, onde fica até o meio-dia. – Ao chegar à casa, bebo uma xícara de chá e como um pedaço de pão antes de ir para a praia. Lá, costumo jogar futebol com meus amigos até que os pescadores voltem com a pesca do dia. Meu pai era um ótimo jogador de futebol e eu também adoro jogar futebol. Quando jogo, sinto-me completamente livre. Na verdade, eu jogo por três equipes diferentes e já ganhei prêmios e troféus com todas elas. Da última vez, marquei quatro dos gols que nos deram a vitória. Entretanto, quando os barcos de pesca chegam à praia, não há mais tempo para futebol e brincadeiras. A partir daí, é preciso trabalhar duro. Trabalho pesado

– Ajudo os pescadores a limpar as redes e carregar o pescado até a praia. Nos fins de semana e férias escolares, eu pesco o dia todo no barco de meu avô. Nós vamos para o mar às quatro da manhã e voltamos à praia ao meio-dia, mas eu nunca recebo salário. É meu avô quem recebe. O dinheiro vai para minhas taxas escolares; porém, mesmo com isso, não temos condições de pagar os livros ou uma calculadora. Tenho que pedir emprestado aos amigos da escola, e detesto isso. É

Paga as taxas escolares

Presa valiosa

A pesca tem grande importância para Moçambique e o camarão se tornou um dos principais produtos de exportação do país.

– Eu não poderia ir à escola, caso não trabalhasse na pesca. Nunca teríamos condições, conta Ladislau.

Trabalho infantil é comum Pelo menos duas de cada 10 crianças em Moçambique precisa trabalhar, assim como Ladislau.

embaraçoso. Ninguém caçoa de mim diretamente, mas ainda assim é difícil não ter condições de ter meu próprio material. No futuro, Ladislau deseja tornar-se jogador de futebol profissional e ter uma vida digna e simples. Por isso, entre a escola e o trabalho, ele continuará a jogar futebol na praia com os amigos a fim de alcançar seu objetivo. E Ladislau adora estar em sua praia, apesar de este ser o

Ama o futebol

lugar onde ele também precisa trabalhar tão duro. E ontem a praia foi algo mais que o habitual. – Ontem nós votamos na Votação Mundial, aqui na praia. Eu queria muito votar. Senti-me importante por participar e votar em pessoas que ajudam as crianças, pois foi como se eu também estivesse ajudando um pouco. Como se eu apoiasse outras crianças no mundo que passam por dificuldades. 

Ladislau ama o futebol, e o nome de seu ídolo é Elias “Dominguez” Pelembe. “Dominguez” é um dos maiores astros do futebol moçam­ bicano. Ele joga na equipe nacional de Moçambique, os “Mambas”, e no grande clube sul-africano Mamelodi Sundowns.

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Po, Global Vote in Moçambique